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sábado, 26 de dezembro de 2009

Ainda sobre "Avatar"... Qual é a mensagem subliminar do filme?

- por André Lux, crítico-spam

Minha crítica ao filme “Avatar” gerou como eu esperava uma forte reação negativa de quem gostou do filme. O argumento deles é sempre o mesmo: filmes como esse devem ser unicamente avaliados como peças de entretenimento. Ponto final.

Eu não concordo. Ainda mais no caso desse filme, que traz em seu bojo uma pretensa mensagem política e ecológica. 

Para mim, quanto mais pretensioso é o filme em seus objetivos, maior deve ser a cobrança sobre ele. E quanto maior for sua pretensão, maior deve ser o cuidado do cineasta em embasar sua obra com conteúdo suficiente para que ela sobreviva a uma análise mais profunda e crítica.

Uma vez eu vi uma entrevista com o diretor John Carpenter onde ele era questionado sobre as possíveis conotações políticas do filme “Era Uma Vez Na América”, de Sergio Leone. Ao que o diretor de “Fuga de Nova York” responde: “Todo filme tem conotação política, até mesmo eu suponho ‘Plan 9 From Outer Space’”. Eu assino embaixo.

Muitas vezes um filme pode parecer que é apenas “entretenimento”, porém traz embutido nele centenas de mensagens, conceitos e valores sociais ou morais que vão manipular e moldar a mente do espectador. Algumas vezes, esses conceitos são explícitos, mas na maioria eles ficam implícitos. E em grande parte das vezes, os conceitos implícitos são diferentes dos explícitos embora, em última instância, sejam os últimos que vão formar a opinião de espectadores incautos.

“Avatar” é um desses casos. Apesar de possuir uma suposta mensagem altamente explícita contra o capitalismo e o exército e a favor da natureza e da ecologia, o que vale realmente é o que está por trás de tudo isso e que, na minha modesta opinião, vai contra ao que o autor da obra supostamente quer ensinar.

E como eu cheguei a essa "brilhante" conclusão? Bem, não é fácil explicar, mas vejamos se eu consigo.

Em primeiro lugar, filmes com mensagens pretensiosas que querem provocar a reflexão da platéia devem, como eu disse, embasar seus argumentos de maneira forte e coerente. “Avatar” para começo de conversa passa longe disso. Assim, ao invés de personagens complexos e humanos (leia-se, com problemas, dúvidas, fraquezas e conflitos), temos personagens unidimensionais (os bons, os maus, os ingênuos) e caricatos (maus são violentos ou gananciosos, bons são pacíficos, ingênuos querem o bem, mas fazem o mau por tabela, e assim por diante). 

Isso, já de cara, dilui completamente qualquer mensagem que o filme quer passar porque reduz tudo a um festival de clichês que não exige reflexão por parte da platéia e impede que nos identifiquemos com os personagens. Além disso, qualquer um é capaz de adivinhar o que vai acontecer até o final depois de 20 minutos de projeção.


Alguns podem argumentar que o protagonista, Jake Sully, seja matizado, afinal começa “vilão” (servindo aos interesses dos militares) e depois se torna “herói”, uma espécie de Che Guevara do futuro. 

Poderia até ser, porém o arco que o personagem passa é por demais primário e suas motivações nunca são expostas claramente para tornar sua “jornada” da direita para a esquerda sequer perto de algo interessante.

Compare, por exemplo, com o arco sofrido pelo personagem de Val Kilmer no filme “Coração de Trovão”. Naquele filme, Kilmer também começa à direita, fazendo o serviço sujo do governo dos EUA numa reserva indígena, para depois voltar-se para a esquerda, ajudando os nativos revolucionários que lutavam contra latifundiários que queriam explorar suas terras. 

A “jornada” do “Coração de Trovão” é extremamente complexa, pesarosa e cheia de conflitos – ele é filho de um nativo alcoólatra, rejeita sua herança e sempre se portou como um mauricinho de Washington até mergulhar de cabeça no mundo dos nativos e sujar suas mãos com o sangue de seus antepassados. 

Embora consiga desmascarar os envolvidos no esquema de morte e repressão dos nativos (inclusive dentro do próprio FBI) ele obtém uma mera vitória de Pirro e o filme termina de forma melancólica, deixando claro que as injustiças e as perseguições políticas denunciadas pelo filme continuariam ocorrendo.

Já em “Avatar”, o que ocorre é justamente o contrário. O protagonista sai da direita (representada por um comportamento desumano, frio, insensível, preconceituoso, egoísta, violento) e vai para a esquerda (o contrário de tudo aquilo) num piscar de olhos, sem passar por qualquer conflito ou drama interior. Ele começa caricato e termina caricato. 

Nem em “Star Wars” a jornada do herói é tão vazia e raza assim, pois lembremos que Luke Skywalker, além de sofrer o diabo nos três filmes da série, ainda descobre que o malvadão máximo da trilogia é ninguém menos do que seu pai! Eu vi “O Império Contra-Ataca” nos cinemas quando tinha uns 10 anos e lembro bem até hoje do impacto que essa revelação teve na gente.

Não importa se sejam comédia, drama, épico ou terror: filmes bons, que são lembrados com o tempo, são aqueles que conseguem deixar uma marca, uma idéia, uma reflexão, ou seja, algo mais do que simples imagens bonitas e maravilhosos efeitos especiais. Principalmente aqueles que tem a pretensão de nos fazerem pensar. E aí vamos chegando à conclusão do filme, que é onde tudo desanda de vez.

“Avatar”, assim como muitos outros filmes com mensagens fracassadas, erra feio justamente em sua conclusão ao apelar para o bendito final feliz e redentor. Se até então o que vimos na tela estava há mil anos luz de ser uma obra prima da dramaturgia, tudo fica ainda mais abominável quando o encerramento apela para o que há de mais pobre e batido. 

No caso, a vitória altamente improvável e esmagadora dos “heróis” contra os “vilões” e a transformação final do protagonista, que literalmente vira um dos alienígenas, jogando fora e rejeitando tudo que ela havia sido até então (aqui ainda temos uma mensagem implícita extremamente fascista para as pessoas portadoras de deficiências!).

Que tipo de reflexão isso gera nas pessoas? Será mesmo que alguém saiu do cinema pensando em se engajar politicamente para “salvar o planeta”, repensando seus conceitos em relação ao capitalismo e ao militarismo ou sobre o massacre de indígenas que ocorreu na conquista das Américas, que pareciam ser os objetivos do diretor James Cameron? 

É claro que não! O máximo de comentários que um filme desses gera é sobre seus efeitos especiais “revolucionários” e uma sensação do tipo “alguém precisa salvar a natureza” que se esvai assim que o sujeito chega ao balcão do próximo McDonald’s.

Cito aqui, a título de comparação, outro filme de fantasia e ficção que é o contrário de “Avatar” em tudo, menos na pretensão de nos fazer refletir sobre as injustiças e os absurdos de nossa sociedade capitalista opressiva. É “Brazil”, de Terry Gilliam. Repare que a jornada do protagonista é bem similar à de Jake Sully – sai da direita e vai para esquerda -, porém na obra de Gilliam não há lugar para finais felizes nem redentores. 

E é justamente quando confrontados com a duríssima realidade político-social do filme que percebemos que aquele absurdo todo visto na tela nada mais é do que um reflexo distorcido da nossa própria realidade.

E, por favor, não venham me falar que “Brazil” é filme cabeça, que só iniciados podem entender, porque eu o assisti quando tinha uns 16 anos e estava no auge da minha modalidade “papagaio da direita”, porém lembro até hoje do impacto que aquela obra – principalmente seu final terrível – teve no início da formação do meu caráter à esquerda.


Os filmes da trilogia "Matrix" também são exemplos de clichês sendo virados de ponta cabeça com o objetivo de gerar reflexão política naqueles que se incomodam de colocar seus neurônios para funcionar.

Mas, tenho certeza, algum leitor mais esperto vai me dizer: “Ora, mas o filme de James Cameron custou US$ 300 milhões! Você acha que o cara ia colocar um final triste desses aí que você gosta só pra fazer meia dúzia de chatos pensarem?”. Pois é. A pergunta que essa pessoa ia formular é justamente o que eu precisava para fechar meu texto. 

“Avatar” é um produto cultural feito para, única e exclusivamente, trazer lucros para as empresas e pessoas que nele investiram seu capital – inclusive seu super bem intencionado diretor. Não é, portanto, o mesmo objetivo da companhia “vilã” que estava explorando Pandora? Quais são então os valores que o filme realmente defende e passa em última instância e de maneira subliminar?

A resposta é simples, não? Simples até demais pro meu gosto...

Mas verdade seja dita: os executivos e acionistas do cinemão comercial estadunidense adoram ver revolucionários felizes e armados até os dentes derrotando opressores capitalistas na tela dos cinemas. Porque isso gera catarse e sensação de redenção (que são garantias de alienação e acomodação) e, acima de tudo, lucro. Já na na vida real os Jake Sullys não podem ganhar de jeito nenhum e são chamados de “terroristas” e outras aberrações do tipo. É ou não é?

E se você acha que tudo isso acontece por coincidência ou acidente, pense de novo. "Avatar" demorou 10 anos para ficar pronto e custou trocentos milhões de dólares. Não há um fotograma no filme que não tenha sido meticulosamente escrutinado e programado para passar o máximo de impacto possível. Na indústria cultural de propaganda do capitalismo não há nada que aconteça por coincidência ou acidente. 

Em tempo: há uma frase no filme que entrega totalmente o verdadeiro viés ideológico do seu realizador. É quando um dos milicos diz que lutava pela liberdade e pela democracia na Terra e completa: "Na Venezuela foi o inferno". Sim, referência explícita contra os governos bolivarianos de Hugo Chávez e seus aliados. Precisa mesmo dizer mais?

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Filmes: "Avatar"

CRIMINOSO

Filme reforça o que existe de mais desprezível na sociedade e funciona como uma máquina de entorpecer mentes a fim de deixá-las conformadas frente à dura realidade.

- por André Lux, crítico-spam

Existem duas maneiras de se ver um filme como “Avatar”. A primeira é como pura peça de entretenimento da indústria cultural estadunidense e aí encher o texto com termos como “revolução digital” e outras tecno-baboseiras que vem junto com as suas campanhas publicitárias milionárias e são repetidas mundo afora pelos patéticos profissionais da opinião doutrinados pelo sistema. Outra é analisá-lo como o produto cultural de uma sociedade de consumo decadente e doente. 

Eu prefiro a segunda. Assim, a partir dessa visão, “Avatar” expõe e reforça tudo que existe de mais desprezível e grotesco nessa sociedade e funciona como uma verdadeira máquina de ludibriar e entorpecer mentes a fim de deixá-las conformadas e amorfas frente à dura realidade que as cerca.

O filme poderia ser resumido como “Pocahontas encontra Dança Com Lobos na Matrix” e tem uma história que não apenas é a mais batida de todos os tempos, como ainda por cima é altamente ridícula e absurda. Homem branco vai viver no meio dos “bons selvagens” e, depois de muita dificuldade e desconfiança, torna-se um deles, apaixona-se pela mocinha e luta com seus novos amigos contra seus próprios “irmãos” de raça, que querem destruir tudo em nome do lucro. 

Assim, os vilões do filme são os malvados executivos de uma corporação capitalista e, claro, os militares (que, ensina o filme, lutavam pela liberdade na Terra mas em Pandora não passam de mercenários sujos). Os primeiros querem devastar o planetinha dos bondosos aliens azuis para minerar suas terras e os segundos, bem, querem jogar prazerosamente o maior número de bombas em tudo e em todos. Clichês dos clichês!

Mas não seria essa uma mensagem ótima, especialmente para quem se diz de esquerda, ainda mais quando enfia no meio um monte de jargões ambientalistas e ecologicamente corretos que estão na moda atualmente? Poderia até ser, se os personagens não fossem incrivelmente rasos e caricatos e se tudo não fosse embalado por uma resolução catártica e redentora das mais podres que eu já vi na vida. É como se o diretor James Cameron tivesse investido 15 anos de sua vida na parafernália eletrônica que dá vida ao filme e cinco minutos na criação do roteiro. Mas, como eu disse antes, não é nem isso o que mais incomoda. 

O que é realmente repugnante é a maneira como todos esses clichês são elencados na tela até o final feliz abismal, que nos ensina que os bonzinhos sempre vencem e conseguem, inclusive, botar o terrível exército dos EUA para correr (como se eles não fossem voltar o mais rápido possível ao planeta e explodir tudo com bombas atômicas!).

E qual o sentido disso, o que está por trás desse tipo de mensagem aparentemente edificante em nível subliminar? Algo que ninguém parece perceber (ou prefere fingir não perceber): a necessidade de nublar a mente das pessoas e deixá-las acomodadas aos valores morais mais torpes e hipócritas que existem, já que podem ver realizados na tela do cinema todos os sonhos e desejos de redenção e vitória que nunca se realizariam no mundo real, deixando-as assim alienadas e entorpecidas. Ainda mais quando tudo vem reforçado com louvor a crendices sobrenaturais (que alguns chamam de “religião”), do tipo "reze bastante que um dia você será atendido"!


A serviço dessa mensagem obscena temos o que há de mais avançado em tecnologia digital disponível. E daí? Como bem disse uma amiga arquiteta, um projeto de arquitetura ruim não vai melhorar só porque foi apresentado no programa de maquetes eletrônicas mais poderoso que existe, certo? “Avatar” não passa então de um desenho animado feito em computador que vai ficar obsoleto daqui a alguns meses quando inventarem algo mais “revolucionário”.

Enquanto isso, somos ensinados por James Cameron e outros mal intencionados ou simplesmente ingênuos (de boas intenções o inferno está cheio, vide os igualmente catastróficos "Diamantes de Sangue" e "Wall-E") que não é preciso lutar contra o conformismo e as injustiças na vida real como fizeram Che Guevara, Ghandi ou Evo Morales, pois no mundo dominado pelo “american way of life” todos os seus problemas e erros serão resolvidos no cinema – de preferência embalados por uma trilha musical grotesca de James Horner (que após esse mico deveria se aposentar), centenas de efeitos visuais digitais e um óculos 3D na cara. 

Aí você pode sair do cinema de alma lavada, esquecer tudo o que viu e, de quebra, ganhar um bonequinho do filme ao comer um lanche venenoso do McDonald’s...

Criminoso.

Cotação: *

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Música de cinema: Saiba como são compostas as trilhas dos filmes

Trabalho complexo do compositor de cinema é muitas vezes subestimado pela maioria dos espectadores e críticos profissionais, infelizmente.

- por André Lux, crítico-spam

John Williams é o autor de algumas das partituras mais famosas do cinema

O cinema é a forma de arte que abre uma janela para um mundo mágico: o mundo da imagem, do som e da música. De todos os ingredientes na fórmula para o sucesso de um filme, a música é sem dúvida o mais sutil e eficaz, afinal é ela que sugere e pontua as ações vistas na tela.

Todavia, nem sempre você pode estar ciente disso, pois qualquer coisa desde uma trombada de carros a uma batalha feroz pode estar competindo pela sua atenção. Mas é fato que sem o toque musical de um compositor hábil até mesmo o ataque furioso de um tubarão de duas toneladas pode tornar-se monótono.

Jerry Goldsmith conduz a orquestra
São nomes como de John Williams, Jerry Goldsmith, Ennio Morricone, Bernard Herrmann, John Barry, Patrick Doyle, Basil Poledouris, Nino Rota, Alfred Newman e Howard Shore, entre tantos outros, que garantem a nossa emoção no escurinho do cinema.

Apesar disso, o compositor de música para o cinema possui um trabalho quase sempre subestimado. 

Ele pode ser ouvido diariamente nos cinemas ou em vídeo por milhões de pessoas, mas continua anônimo para a grande maioria. Mesmo entre os críticos profissionais as partituras musicais raramente merecem destaque nas análises ou então são tratadas com lamentável desdém.

Veja o caso da trilogia de ''O Senhor dos Anéis'', cuja trilha sonora de Howard Shore é de longe uma das melhores já compostas nos últimos 20 anos e foi fator imprescindível para o sucesso das produções. Agora tente lembrar quantas críticas destacavam esse impressionante trabalho...

A verdade é que muitos esquecem (ou não percebem) que é graças ao trabalho desses profissionais que somos induzidos a chorar quanto ''E.T. - O Extraterrestre'' deixa nosso planeta, a morrer de rir quando um ''Gremlin'' é cozido num micro-ondas, a ter nosso sangue gelado quando ''Drácula'' ataca o pescoço de sua vítima ou a ficar sem fôlego enquanto ''Indiana Jones'' luta à beira de um abismo.

Mas a música também tem um papel importante em filmes mais complexos e profundos, que são considerados por muitos como ''cinema de arte''. 

Se não concorda com essa afirmação então é bom você rever filmes como ''Psicose'' (de Alfred Hitchcock), ''Cinema Paradiso'', ''Ed Wood'', ''Cidadão Kane'', ''Freud'', ''Henrique V'' (de Kenneth Branagh), ''Ran'' ou ''Era uma Vez na América'' e começar a prestar atenção às suas trilhas sonoras...

Ennio Morricone perdeu a conta 
de quantas trilhas já compôs
Sociedade dos Poetas... Desconhecidos

Infelizmente isso acontece porque a maioria das pessoas não tem ideia do complexo processo que é a criação de uma trilha musical de qualidade. 

Tudo começa com a discussão entre o compositor e o diretor, na qual eles vão decidir como será a composição dos temas e passagens que, via de regra, devem estar de acordo com a cena para a qual destinam-se. 

Às vezes, essa sincronia é tão perfeita que chega a acompanhar os movimentos de algo na tela. Essa técnica pode ser vista em ''Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban'', de John Williams, nas cenas em que o protagonista examina o seu mapa - repare que a música segue as pegadas que aparecem nele!

O segundo e mais complexo passo é justamente o da composição e orquestração, que consiste no arranjo da partitura para as diferentes partes da orquestra, coral e solistas. Geralmente a orquestração é feita por outro músico, colaborador de confiança do compositor, que tem a função de ajudar no processo já que o tempo para completar todo o trabalho é sempre curto.

O último passo é a gravação da trilha musical. Nessa etapa a batuta do maestro deve conduzir os músicos a uma perfeita sincronia com a imagem. Compositores experimentados como Williams, Goldsmith e Morricone habitualmente regem suas próprias composições.

Esse processo é basicamente o mesmo, até quando as trilhas serão executadas em sintetizadores ou por um pequeno grupo de músicos. Mas a ordem dele não sempre é respeitada. 

Diretores como Spielberg, Tornatore, Felini e Leone muitas vezes pediam para seus compositores gravarem alguns temas ou mesmo passagens musicais antes mesmo da produção começar, usando-as depois durante as filmagens não apenas para pontuar a ação, mas também para servir de inspiração ao elenco e à equipe técnica.

Praticamente todos os filmes de Spielberg tem música de John Williams
Alguns exemplos dessa aproximação pouco ortodoxa aconteceram em filmes como ''Era uma Vez no Oeste'', de Sergio Leone com música de Ennio Morricone, e em ''Contatos Imediatos do Terceiro Grau'', onde Spielberg deixou Williams compor a música para a seqüência final da descida da nave mãe antes de terminar o processo de edição e finalização dos efeitos visuais.

Um outro passo que pode ou não se tornar uma realidade é o lançamento da trilha sonora em CD no mercado de discos. Isso acontece quando existe interesse por parte de alguma gravadora em investir na sua comercialização.


Trilha de "Alien" demorou décadas
para ser lançada completa
Alguns selos nos EUA e na Europa são especializados em músicas de filmes, como Varese Sarabande, Intrada ou Prometheus, e procuram lançar trilhas que normalmente não encontram espaço dentro de grandes gravadoras ou disponibilizam trilhas antigas em suas formas completas.

Eternamente Jovem

A verdadeira música de cinema nunca vai deixar de ser apreciada, mesmo com o passar do tempo. A trilha composta pelo grande Miklos Rosza para ''Ben-Hur'' vai continuar emocionando os ouvintes da mesma forma que fez na época em que o filme foi lançado nos cinemas em 1959. 

A complexidade das orquestrações e a mistura de estilos com que Jerry Goldsmith executou a música para o clássico ''Planeta dos Macacos'', de 1968, nos permite uma nova interpretação e descoberta a cada nova audição. 

A magnífica partitura que Howard Shore compôs para a trilogia de ''O Senhor dos Anéis'' certamente continuará impressionando qualquer um que tenha ouvidos sensíveis, mesmo quando os efeitos visuais do filme tiverem ficado obsoletos...

Obviamente nem todas as trilhas originais mereçam o mesmo respeito de algumas das citadas acima. O mesmo valendo para certos compositores, que não possuem o talento ou conhecimento técnico necessários para a empreitada e acabam prejudicando os filmes para os quais são contratados. 

Isso sem dizer que existem muitos cineastas que, a exemplo de alguns críticos, tratam as trilhas musicais de seus filmes com incrível menosprezo.

Mesmo assim, é impossível negar o forte apelo e a influência que a música de cinema exerce mesmo fora das telas. 

Saber apreciar as obras desses verdadeiros mestres da música erudita contemporânea, além de ser um privilégio, é uma forma prazerosa, sadia e instigante de cultivar o hábito necessário para a melhor compreensão do universo artístico como um todo.

Howard Shore na gravação da música para "O Senhor dos Anéis"

Trilha Sonora: "Tróia", de James Horner

Compositor criou uma boa partitura mesmo não tendo o nível de complexidade e originalidade da composta por Gabriel Yared que foi rejeitada

- por André Lux, crítico-spam

Imagino que qualquer pessoa que acompanhe a carreira do compositor James Horner desde o seu início se pergunte de tempos em tempos por que ele parece ser incapaz de escrever uma trilha sonora totalmente original, mesmo tendo demonstrado mais de uma vez ter o talento e a habilidade necessários para isso. Desde que iniciou seu trabalho no cinema, Horner já foi capaz de criar partituras que alternam com precisão momentos vibrantes e fortes com outros mais delicados e intimistas. Que ninguém aqui negue a capacidade que ele tem para manipular as emoções da platéia e de tirar performances grandiosas de uma orquestra! Agora, quando o quesito é originalidade...

O que nos traz à sua última partitura, ''Tróia'', que para início de conversa já chega cercada de controvérsia. Horner foi chamado às pressas para substituir Gabriel Yared, cuja trilha original foi rejeitada depois de algumas reações negativas em uma exibição teste. É possível comparar as duas agora que Yared disponibilizou várias faixas do seu trabalho na internet. De cara podemos perceber que a música composta pelo autor da belíssima trilha de ''O Paciente Inglês'' é muito mais rica e complexa do que a criada por Horner.

E talvez seja exatamente isso que tenha feito os produtores de ''Tróia'' entrarem em paranóia. Como é que as platéias de hoje em dia, acostumadas a ouvir músicas de baixíssima qualidade geradas por ''compositores'' canhestros como Hans Zimmer e seus clones, serão capazes de assimilar uma partitura cheia de nuances, riquezas e orquestrações complexas como a escrita por Yared? Perguntas como essa acendem imediatamente o sinal vermelho de alerta em se tratando de uma superprodução como ''Tróia''.

Assim, ao invés de apostar na inteligência do espectador e apoiar a riquíssima trilha original, o diretor Petersen deixou-se convencer que seu filme corria risco de fracassar por causa da música (!) e resolveu despedir Yared sem nem ao menos lhe dar uma chance de ''melhorar'' seu trabalho, o qual ele vinha desenvolvendo há quase um ano. Em pânico recorreram a James Horner, que já havia trabalhado com Petersen em ''Mar em Fúria''.

Sai Yared, entra Horner. Com menos de um mês para escrever, orquestrar e gravar a nova trilha, o compositor de ''Titanic'' não teve escolha senão correr contra o tempo, escrevendo a nova partitura a toque de caixa. Com todos esses fatores contrários, o desastre era quase certo. Afinal, se Horner não foi capaz de criar trilhas originais para bons filmes como ''O Homem Bicentenário'' mesmo trabalhando com vários meses de antecedência, imagine neste caso.

Mas, quem diria, sua trilha para ''Tróia'' traz alguns temas e passagens que soam tão originais quanto seus magníficos scores para ''Krull'' ou ''Cocoon''. Confesso que até a cena do desembarque das tropas gregas nas praias de Tróia, não tinha sido capaz de identificar nenhum trabalho de ''copiar e colar'' que virou a especialidade de Horner nos últimos anos. De fato, o tema que criou para o guerreiro Aquiles é sensacional e, até que me digam o contrário, soa bastante original (mas vale lembrar que todos pensavam o mesmo sobre o tema de ''Willow'', até que se descobriu ser um plágio descarado do primeiro movimento da ''Symphony No. 3 in E flat op. 97 - Rhenish", de Robert Schumann).

É na faixa ''Achilles Leads the Myrmidons'', sem dúvida o ponto alto da trilha, que temos a rendição triunfal do ''Tema de Aquiles'', tocado com vigor pelos metais. Mas é partir daí também que a partitura começa a descambar para os mais irritantes ''horneirismos'' (os chamados autoplágios usados pelo desavergonhado compositor), a começar pelo mais óbvio: aquele bendito tema de quatro notas que ele usa desde ''Jornada nas Estrelas 2 - A Ira de Khan'' e faz questão de incluir em quase todas as suas trilhas quando há uma situação de perigo na tela. Quem duvida, é só assistir ''Willow'' (é o tema do vilão general Kael), ''Círculo de Fogo'' (atenção para as aparições do vilão nazista interpretado por Ed Harris), ''A Máscara do Zorro'' e mesmo ''Mar em Fúria''. O pior é que esse tema nem mesmo é original, já que é uma mínima variação do motif dos invasores teutônicos escrito por Sergei Prokofiev para o filme russo de Eisenstein, ''Alexander Nevsky'' (1939), e que Horner já havia usado na íntegra em ''Mercenários das Galáxias'' em 1980!

E por falar em Prokofiev, Horner volta a recorrer à trilha de ''Alexander Nevsky'' para musicar a seqüência do primeiro ataque do exército grego às muralhas de Tróia. O início da faixa ''The Greek Army And Its Defeat'' é uma cópia em carbono de ''The Battle in the Ice'' do filme de Eisenstein. O mesmo tipo de problema ocorre com o tema de amor para ''Briseis and Achilles'', que é nada mais do que uma variação do usado pelo compositor em ''Coração Valente''.

É claro que poderíamos dar um desconto ao compositor por causa do pouco tempo que teve à disposição, mas como ele lança mão desses recursos discutíveis sempre acaba ficando sem sentido desculpa-lo. Ainda mais porque ele foi capaz de, mesmo com toda a pressão, criar alguns temas muito bons e mais originais do que faz quando tem tempo de sobra nas mãos. Outro exemplo de uma boa idéia é o motif para a cidade de Tróia, que é grandioso e funciona bem junto com as imagens.

Dito isso fica impossível não perceber o quanto a trilha de Horner é inferior à de Yared, particularmente nos quesitos originalidade e complexidade (compare, por exemplo, as faixas que ambos escreveram para o duelo entre Heitor e Aquiles). Mas é preciso ressaltar que, no filme, a música de Horner funciona bem e, sem dúvida, deixa ''Tróia'' com um apelo mais popular, já que foi escrita num idioma mais próximo do que estamos acostumados a ouvir em nossa cultura ocidental, enquanto Yared compôs sua partitura baseada muito mais no idioma oriental-europeu.

A verdade é que só será justo comparar as duas trilhas quando for possível ver o filme com a trilha de Gabriel Yared. Afinal, sua música foi composta para fazer parte de ''Tróia'' e, mesmo demonstrando qualidades de sobra ao ser apreciada em separado, só poderá ser analisada quanto à sua efetividade junto com as imagens. Existem muitas trilhas por aí que são ótimas em CD, mas não funcionam nem um pouco no filme (como ''As Horas'', de Phillip Glass, por exemplo).

Levando tudo isso em conta, sou obrigado a afirmar para minha própria surpresa que James Horner foi capaz de criar para ''Tróia'' uma trilha que se mantém no mesmo nível de seus melhores trabalhos, exceto é claro pela repetição insistente e vexatória do seu infame ''Tema de Perigo'' e pela lamentável e descabida canção pop que encerra o filme, cantada por Josh Groban.

Talvez o que Horner esteja precisando para mudar os rumos de sua carreira é justamente de mais trabalhos para fazer em cima da hora...

Cotação: * * *

DVD: "Freud - Além da Alma"

O PAI DA PSICANÁLISE

Filme foi concebido quase como um conto de suspense e mistério, no qual a música de Jerry Goldsmith tem papel fundamental.

- por André Lux, crítico-spam

Finalmente é lançado em DVD “Freud – Além da Alma”, a biografia do pai da psicanálise, Sigmund Freud, transposta para o cinema pelo legendário John Huston em 1962.

Houston interessou-se em filmar a vida de Freud depois que conheceu sua obra por volta de 1948. Encomendou então um roteiro ao famoso Jean Paul Sartre que entregou ao diretor um calhamaço que daria um filme de mais de 6 horas de duração. Houston pediu que ele reduzisse o tratamento, mas a segunda versão de Sartre ainda foi considerada infilmável e o escritor recusou-se a fazer mais concessões, sobrando para o diretor, Charles Kaufman e Wolfgang Reinhardt a tarefa de reduzir o material (Sartre pediu para ter seu nome retirado dos créditos).

Dado grau de complexidade e polêmica das descobertas feitas pelo protagonista, “Freud – Além da Alma” foi filmando quase como um conto de suspense e mistério (às vezes parece mesmo filme de terror!), no qual a fotografia em preto e branco de Douglas Slocombe e a excelente música do mestre Jerry Goldsmith (em sua primeira indicação ao Oscar) tem papel fundamental (a partitura é tão sinistra e atonal que teve trechos usados em algumas cenas de “Alien – O Oitavo Passageiro”).

Montgmory Clift interpreta o papel título com grande propriedade enquanto sobra para uma muito jovem Susannah York a personagem feminina que serve como um compêndio de várias pacientes histéricas de Freud que o levaram a formular suas teorias sobre o complexo de Édipo e a sexualidade infantil.

O filme comprime bastante o que foi a longa jornada de Freud em busca de suas descobertas, resume vários eventos e deixa de fora outros importantes na vida do protagonista, mas ainda assim vale a pena ser visto por quem se interessa pelo tema e continua sendo uma boa introdução às idéias desse verdadeiro gênio, cujas idéias ainda impressionam e repercutem até hoje.

Coincidentemente, a trilha musical de Jerry Goldsmith para "Freud - Além da Alma" acaba de ser lançada em CD pela primeira vez e em sua versão completa pelo selo Varése Sarabande, especializado em música de cinema, numa edição limitada a 3 mil cópias!

Cotação: * * * *

sábado, 12 de dezembro de 2009

Trilha sonora: "Avatar", de James Horner

MAIS DO MESMO

Trilha é grandiosa e bem produzida, porém pedestre, medíocre, sem inspiração e uma colcha de retalhos dos trabalhos anteriores do compositor James Horner

- por André Lux, crítico-spam

É sempre difícil escrever sobre uma trilha sonora sem antes ter visto o filme, afinal a música foi composta para acompanhar as imagens. Todavia, as trilhas realmente boas são aquelas que mantém o interesse mesmo desconectadas das imagens. Infelizmente, esse não é o caso de “Avatar”, de James Horner, autor de centenas de trilhas, entre elas “Titanic” (pela qual ganhou o Oscar), “Aliens”, “Krull” e “Willow”. A decepção é ainda maior depois que descobrimos que ele teve quase um ano para compor a música do novo filme de James Cameron, algo que é um verdadeiro luxo na frenética realidade da indústria cultural estadunidense, onde a maioria dos compositores tem no máximo algumas semanas para finalizar o trabalho.

Também é impossível falar de James Horner sem esbarrar naquilo que é o seu defeito mais insuportável: o auto plagiarismo. Via de regra, o sujeito simplesmente coloca para tocar uma faixa ou um tema que compôs para outra trilha em sua nova obra, na maior cara de pau! Se você não acha isso estranho, então imagine se em toda trilha nova do John Williams aparecesse o tema do Darth Vader de repente, sem mais nem menos... Pois é, não estou falando aqui de estilo ou referências, mas de cópia pura e simples!

“Avatar”, assim como outras trilhas de Horner (principalmente as mais recentes), é uma verdadeira colcha de retalhos de seus trabalhos anteriores, mais especificamente “Titanic” (a melodia central é a mesma usada para acompanhar a letra “Near, far, wherever you are” da canção que compôs para Celine Dion!), o coral de “Tempo de Glória” (nas faixas “Climbing Up Iknimaya” e “Jake’s First Flight”), a flauta Sakauhachi japonesa de "Willow", as vocalizações eletrônicas de “Tróia” e as orquestrações tribais que usou em “Apocalypto”. Isso, claro, sem falar do infame “tema de quatro notas para perigo”, no qual a orquestra canta “Ta-na-na-naaaaam”, que o cidadão usa em quase todas as suas trilhas desde 1980 - era o tema do Khan em “Star Trek II”, do General Kael em “Willow” e do nazista vilão em “Círculo de Fogo”, só para citar os usos mais óbvios!

Não há um momento de brilho em “Avatar” que lembre as melhores trilhas para filmes de ficção ou fantasia de Horner (como “Krull”, "Cocoon" ou “Brainstorm”). Tudo é grandioso e bem produzido, porém pedestre, medíocre, sem inspiração. Nem mesmo as músicas de ação, como a faixa “War”, chegam a empolgar e Horner ainda piora tudo usando umas baterias eletrônicas e orquestrações pesadas que deixam tudo com jeito de cópia do abominável Hans Zimmer. Para piorar, ainda temos uma canção mela-cueca atroz, que bebe direto de “Titanic”, encerrando a trilha

Eu que acompanho a carreira de James Horner desde o começo e tenho mais de 80 trilhas dele em CD posso dizer com tranqüilidade que o compositor parece não ter mais nada a dizer. Ou perdeu a inspiração ou simplesmente cansou e agora limita-se a encher lingüiça para pegar seu cheque no final do trabalho. Só não consigo entender como um diretor como James Cameron permite que o compositor que contratou para musicar seu filme preencha as suas preciosas imagens com partituras já usadas em outros filmes.

Musicar um filme caríssimo e cheio de fantasia como “Avatar” deve ser o sonho de todo compositor de trilhas de cinema e, tenho certeza, qualquer um se esforçaria ao máximo para atingir um nível excelente de complexidade e originalidade – ouçam, por exemplo, a maravilha que Howard Shore compôs para a trilogia “O Senhor dos Anéis” ou a ótima partitura que Michael Giacchino criou para o novo "Star Trek". Já Horner foi na contramão e produziu mais do mesmo de sempre. Como eu disse antes, pode ser que a trilha de “Avatar” seja funcional junto com o filme (e duvido que vá além disso), porém como peça de música independente é uma grande e barulhenta decepção.

Cotação: * *

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Filmes:"Pandorum"

OUTRO FILHO DO “ALIEN”

É mais um exemplar de terror no espaço, que se não tem muita originalidade pelo menos é bem feito e prende a atenção.

- por André Lux, crítico-spam

“Pandorum” foi massacrado pela crítica estadunidense, mas eu não achei assim tão ruim. É apenas mais um exemplar de terror no espaço, que se não tem muita originalidade pelo menos é bem feito e prende a atenção.

A história é muito interessante. Uma nave gigantesca é enviada para tentar colonizar um planeta distante depois que a Terra foi destruída pelos abusos do homem. 

Corta para o despertar de um dos oficiais (Ben Foster, bem convincente) que estava dormindo em uma câmara criogênica, só para descobrir que a nave está sem energia e, pior, cheia de monstros esquisitos que se alimentam de carne humana.

Sobra para o coitado tentar achar o caminho até o reator principal, enquanto é ajudado por outro oficial (Dennis Quaid, sinistro) via rádio. Nem preciso dizer que, no percurso, ele vai encontrar outros sobreviventes e ser perseguido inúmeras vezes pelas criaturas que parecem uma mistura do Alien do H.R. Giger com os orcs do “Senhor dos Anéis”.



Se não prima pela originalidade, “Pandorum” tem sequências claustrofóbicas muito bem realizadas (principalmente quando o protagonista tem que se arrastar por tubos apertados cheios de cabos), alguns sustos dignos, várias cenas de ação e luta, e um desenho de produção excelente, do tipo que sabe deixar o filme com cara de produção classe A.

Além disso, reserva algumas surpresas bem boladas, um final impactante e tem uma trilha sonora atonal inventiva e enervante (no bom sentido). Outro ponto positivo: evita as explicações didáticas para os mistérios da trama, o que é sempre um sinal de respeito à inteligência do espectador.

Em suma, é mais um filme de monstros no espaço que não perde muito feio para outros filhos do primeiro “Alien”. Para quem gosta do gênero, uma boa pedida.

Cotação: * * *

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

DVD: "Ed Wood"

O REI DO TRASH

Pior diretor de todos os tempos ganha um filme excelente, feito com evidente carinho por Tim Burton (que obviamente identifica-se com o protagonista).

- por André Lux, crítico-spam

Com "Ed Wood" o diretor Tim Burton finalmente fez juz ao seu duvidoso prestígio, alcançado muito mais pelo sucesso estrondoso do marketing investido em seus "Batman" e nos delirantes desenhos de produção de seus filmes do que por méritos dramáticos próprios.

Infelizmente, Burton tem a irritante mania de arruinar seus interessantes projetos injetando altas doses de bizarrice e histeria fora de hora, ao invés de simplesmente concentrar-se em contar uma boa história.

E é exatamente esse o mérito de "Ed Wood", biografia do que é considerado o pior diretor de cinema de todos os tempos. Sua vida por sí só já é tão bizarra e seus filmes tão histéricamente ridículos, que obrigaram Burton a voltar seus neurônios à construção de um bom roteiro e a uma direção de atores precisa - caso contrário acabaria com um filme tão ruim como os de Wood.

Ajuda também o fato de Burton ter contratado Howard Shore para escrever a trilha musical, ao invés do seu colaborador usual, o medíocre Danny Elfman (ex-Oingo Boingo). Shore compôs para "Ed Wood" uma trilha sonora discreta e sensível, mas sem esquecer de adicionar um tom cômico "fantástico", alusivo aos filmes de ficção de Wood, e outro melancólico e um pouco patético, associado à decadência de Bela Lugosi.

A recriação das cenas originais dos filmes de Wood são perfeitas e hilariantes, assim como a caracterização dos atores. Johnny Depp nunca esteve tão bem, mas quem rouba efetivamente a cena é Martin Landau (Oscar de Ator Coadjuvante), que literalmente "encarna" Lugosi.

Assim, "Ed Wood" é um filme excelente, feito com evidente carinho por Burton (que obviamente identifica-se com o protagonista), mas que vai agradar mais àqueles que conhecem os filmes hilariantes de Edward D. Wood Jr., como "Plan 9 From Outer Space" ou "Glen ou Glenda".

Sem dúvida o melhor filme de Tim Burton até hoje.

Cotação: * * * *

domingo, 22 de novembro de 2009

Filme: "Os Fantasmas de Scrooge"

BOBAGEM DIGITAL

Em termos de tecnologia o filme é nota 10. Já em termos de cinema mesmo, dramaticamente falando, é uma porcaria.

- por André Lux, crítico-spam

Eu gostaria de entender o que aconteceu com o diretor Robert Zemeckis. Depois de começar a carreira com filmes de aventura despretensiosos, como “Tudo por Uma Esmeralda” e a trilogia “De Volta para o Futuro”, demonstrou talento genuíno em “Contato”. Mas, de repente, parou de fazer filmes com pessoas de carne e osso e passou a produzir bobagens animadas em computador como “O Expresso Polar” e “A Lenda de Beowulf”. Parece que alguém falou pro sujeito que o cinema tradicional estava com os dias contados e o futuro pertenceria a quem fizesse tudo em digital. E ele acreditou!

Assim, apresenta agora a enésima adaptação da história clássica de Charles Dickens, só que feita toda no computador, sobre o velho ranzinza e mesquinho Scrooge, que recebe na véspera do natal a visita de três fantasmas que tem a missão de transformar o protagonista de um típico eleitor do PSDB, daqueles que acreditam que todo pobre é vagabundo e, portanto, deve ser tratado como lixo, num “cidadão de bem”. Não vou entrar no mérito dessa historinha batida e moralista que parece ter sido escrita por um burguês com consciência pesada, do tipo que acredita mesmo que a solução para todos os problemas do mundo é dar esmolas mais gordas e participar de campanhas do agasalho, pois é chover no molhado.

Mas o que espanta é a falta de capacidade do diretor em passar qualquer emoção durante a projeção (mal explica os motivos das mudanças de personalidade de Scrooge), perdendo um tempo incrível com sequências enjoativas que mostram o protagonista caindo sem parar, sendo puxado ou perseguido pelos fantasmas por entre os cenários virtuais. Não ajuda em nada o filme ter sido “estrelado” pelo insuportável Jim Carrey, que além do Scrooge faz também vários outros papéis – sendo o mais intragável o do fantasma do presente.

Agora vocês devem estar se perguntando por que diabos eu fui ver esse filme, não? Bem, a verdade é que eu e minha esposa queríamos experimentar uma sessão no Imax em 3D e, infelizmente, “Os Fantasmas de Scrooge” era a única opção. Assim, em termos de tecnologia o filme é nota 10. Já em termos de cinema mesmo, dramaticamente falando, é uma porcaria. E pior: é sombrio e até assustador demais para as crianças, com pouquíssimos momentos de humor e diversão! Mais uma bola fora do senhor Zemeckis...

Cotação: * *

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Filmes: 2012

É O FIM DO MUNDO!

Filme é uma sucessão de corridas frenéticas e repetitivas que de vez em quando dá um breque para que os protagonistas troquem diálogos que parecem ter sido escritos pelo Ed Wood

- por André Lux, crítico-spam

Tenha certeza de colocar esse “2012” entre os filmes mais idiotas já feitos por Roliúdi. Daqueles bem trash, que tem um roteiro ridículo e um monte de discursos inflamados que nos fazem morrer de rir quando deveríamos levar tudo aquilo a sério.

Parece que o diretor Roland Emmerich quer se tornar mesmo o novo rei dos filmes-catástrofes, gênero que andou na moda nos anos 70, e que ressuscitou com “Independence Day”. Mas depois daquele divertido filme sobre uma invasão alienígena, Emmerich perdeu a mão e tem produzido verdadeiras bombas, uma atrás da outra. “2012” só não é pior que o grotesco “O Patriota”, que trazia um Mel Gibson ensandecido cortando cabeças de ingleses vilões, mas chega perto.

Esse é o tipo de filme que poderia até ser divertido, caso o roteiro não fosse uma colagem de todos os clichês mais irritantes do cinema, tipo “escritor separado tenta conquistar a amizade dos filhos e o amor da ex-mulher enquanto foge dos prédios que caem e das explosões que pipocam na tela a cada quinze minutos”. E “2012” é apenas isso: uma sucessão de corridas frenéticas e repetitivas por meio de cenários digitais catastróficos que de vez em quando dá um breque para que os protagonistas troquem diálogos que parecem ter sido escritos pelo Ed Wood, o pior diretor de todos os tempos.

O mais incrível é que o filme tem quase três horas de duração sem que houvesse a menor necessidade para isso. Vários personagens e tramas secundárias poderiam ter sido cortadas sem o menor problema e seríamos poupados de tanta chatice junta. Algumas cenas de ação são até legais e provocam alguma tensão, pena que tudo seja sempre estragado pela mensagem xarope de boa vontade entre os homens e pelos risíveis surtos de “bom mocismo” do cientista principal, que passa o filme todo indignado e fazendo discursos piegas. Também não entendi porque o presidente dos EUA (um desanimado Dany Glover), escolheu ficar para trás só para morrer quando tinha lugar de sobra nas Arcas da salvação.

Depois de ver tanta besteira junta, inclusive uma cena "super dramática" que mostra uma dondoca tentando salvar seu pet, só resta mesmo fazer um trocadilho infame: esse filme é mesmo o fim do mundo!

Cotação: * 1/2

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Listinha básica:As minhas trilhas sonoras preferidas

Acho que seria pretensão da minha parte fazer uma lista as melhores trilhas de todos os tempos, portanto a lista abaixo é das minhas trilhas preferidas. Com certeza deixei muita coisa boa de fora, mas fazer listas é assim mesmo... E as de vocês, quais são?

1) O IMPÉRIO CONTRA-ATACA (John Williams) – O segundo capítulo da saga original de "Guerra nas Estrelas" tem uma trilha simplesmente primorosa.

Além de possuir dezenas de temas e pequenos “motifs” para cada personagem (até para os robôs R2-D2 e C3PO!), que são as marcas registradas de Williams, conta com uma complexidade orquestral incrível, principalmente nas músicas para as cenas de ação. 

Destaque para toda a música que acompanha a sequência da batalha na neve no planeta Hoth, de altíssima complexidade, e para a perseguição nos asteróides acompanhada por um scherzo de tirar o fôlego. 

Foi nesta partitura que John Williams criou o insuperável tema do Darth Vader (que não existia no primeiro capítulo da série original). E também o inspiradíssimo tema de Yoda, um dos mais graciosos do cinema.

2) JORNADA NAS ESTRELAS – O FILME (Jerry Goldsmith) – Continua imbatível a trilha para o primeiro filme de Kirk e Spock para os cinemas. O tema principal é sensacional e a faixa “The Enterprise”, um balé maravilhoso que dura mais de cinco minutos e termina de forma arrepiante. 

Destaque para o uso do blaster beam, um recurso sonoro impressionante que serve de assinatura para o invasor alienígena V'Ger (Goldsmith era famoso pelos instrumentos inusitados e invetivos que usava em suas partituras). 

Recentemente consegui a trilha completa, em 3 CDs, que contém inclusive as faixas originais que o mestre Goldsmith compôs antes de criar o tema principal e foram rejeitas. Simplesmente supimpa! 

E pensar que passei anos da minha vida tendo que me contentar em ouvir essa magnífica trilha numa fita K-7 que depois de uns 10 anos simplesmente se desintegrou de tanto ser tocada...

3) ALIEN, O OITAVO PASSAGEIRO (Jerry Goldsmith) – Sem dúvida, em se tratando de música de medo, “Alien” é o que há de melhor. A partitura é basicamente atonal, embora Goldsmith tenha composto um tema romântico para os astronautas que foi pouco usado na montagem final. 

O compositor tira sons de arrepiar da orquestra e usa instrumentos inusitados para marcar as aparições do monstro que são de gelar o sangue. 

O mais incrível é que quase todas as faixas compostas por Goldsmith para o filme acabaram sendo usadas em cenas diferentes das quais foram criadas e mesmo assim a trilha continua funcionando perfeitamente. 

Nem mesmo a inclusão de duas faixas da trilha que Goldsmith escreveu para “Freud” e uma composição de Howard Hanson para o final atrapalham. 

Há pouco tempo o selo Intrada lançou um álbum duplo como a trilha completa de “Alien”, com todos os temas originais e as novas composições criadas por Goldsmith para o filme. Imperdível.

4) KRULL (James Horner) – Em minha modesta opinião, essa é a melhor trilha sonora composta por Horner. 

Usando um tema vibrante e muito bonito que permeia toda a trilha, o compositor dá vida a um filme que sem a sua música viraria piada. 

Mas Horner rege a Orquestra Sinfônica de Londres e segura as pontas, sem ter vergonha de ser grandiloquente ou romântico, no melhor estilo "capa e espada". 

Destaque para o Main Title e para a corrida com as éguas de fogo que saem voando pelos céus de Krull (sim, é isso mesmo, você leu direito!). 

O bacana dessa trilha é que ela não tem quase nada de material reciclado do próprio Horner, uma de suas características mais irritantes. Também é a mais original do compositor, uma verdadeira obra prima! 

E o mais legal é que um selo de colecionadores lançou a trilha completa num CD duplo excelente com 21 faixas, pois a versão oficial original tinha só meia dúzia delas.

5) Trilogia O SENHOR DOS ANÉIS (Howard Shore) – Eu fui um dos poucos que ficaram felizes com a escolha de Howard Shore para compor a música da trilogia de "O Senhor dos Anéis". 

É que eu já era fã dele há mais tempo e conhecia seu trabalho mais a fundo. 

E ele não decepcionou, pelo contrário. Compôs uma das partituras mais incríveis da história do cinema numa empreitada heróica – os três filmes usam música em quase todas as cenas e esse tipo de opção quase nunca dá certo. 

Dos três filmes, minha preferida é a do primeiro, principalmente toda a sequência dentro das minas dos anões, mas as outras duas também são excelentes. Impressiona a riqueza dos temas e da textura sonora que Shore criou para as cenas de batalha. 

Para se ter ideia da riqueza e complexidade do seu trabalho, ele teve que compor o tema de Gondor já para o primeiro filme, sendo que ele só iria ser usado em toda sua grandeza no último filme, "O Retorno do Rei", quase quatro anos depois! 

Procure as edições completas das trilhas, cujas edições são simplesmente primorosas.

6) CINEMA PARADISO (Ennio Morricone) – Lembro até hoje quando comprei o CD com a trilha desse filme numa lojinha no centro de São Paulo. Foi a primeira vez na minha vida que chorei ouvindo música! 

Morricone é um mestre e compôs mais de 400 trilhas, por isso é muito difícil escolher uma trilha preferida dele, mas a tendência é preferir aquelas que mais me emocionam quando lembro do filme. 

E "Cinema Paradiso" é a principal delas. A trilha tem um tema central simples, porém muito sensível que passa com perfeição a sensação de nostalgia e amargura que pontua o filme todo. Outro destaque é o pequeno tema cômico que acompanha as aventuras de Totó e Alfredo.

O tema de amor foi composto pelo filho do Compositor, Andrea Morricone, e é belíssimo. 

Vale a pena procurar a versão completa da trilha, lançada na europa.

7) EM ALGUM LUGAR DO PASSADO (John Barry) – Essa deve ser a trilha sonora mais romântica do cinema. 

E nisso John Barry é mestre, embora no começo de sua carreira fosse mais lembrado como compositor das músicas de ação para os filmes do James Bond. 

A trilha de "Em Algum Lugar no Passado" carrega o filme nas costas e é outra que tem lugar garantido entre as preferidas pelos apreciadores do gênero. 

Basicamente a partitura gira em torno do tema principal, que é apresentado em diversas versões e leituras através do filme, mas mesmo assim nunca cansa e continua emocionando até hoje. 

Existe uma regravação, conduzida por John Debney, que traz a partitura completa do filme e não fica nada a dever da original.

8) BLADE RUNNER (Vangelis) – Ridely Scott só chamou o compositor grego no final do segundo tempo para compor a trilha dessa clássico da ficção científica. 

E Vangelis humilhou, criando uma trilha atemporal que vai contra toda a tradição do gênero. 

Existencialista, suave e angustiante, a música de “Blade Runner” continua impressionando pela sua inventividade e beleza até hoje. 

Infelizmente, devido a problemas contratuais, a trilha nunca foi lançada oficialmente na versão completa e demorou anos para sair numa versão oficial (a primeira era apenas uma releitura feita pela The New American Orchestra!). 

Recentemente, saiu um CD triplo supostamente com a partitura completa, porém muitas músicas continuaram de fora e o terceiro CD é só com músicas novas do Vangelis inspiradas no filme, o que irritou muito os apreciadores. Existem várias versões piratas que tentam preencher esse lamentável vácuo.

9) UM CORPO QUE CAI (Bernard Herrmann) – A parceria entre o genial Bernard Herrmann e o diretor Alfred Hitchcock produziu trilhas magníficas e inesquecíveis para o cinema, sendo "Psicose" talvez a mais lembrada e admirada. 

Mas para mim a que mais marcou foi a de “Um Corpo Que Cai”. 

A partitura de Herrmann é um caleidoscópio de temas e sonoridades complexas que vai se desenvolvendo gradualmente, ajudando o desenrolar do suspense da trama do filme até o final surpreendente. 

Um verdadeiro clássico do gênero! 

Existem várias versões da trilha, inclusive uma regravação da partitura completa conduzida por Joel McNeely que é muito boa e não fica nada a dever para o original.

10) A MISSÃO (Ennio Morricone) – Essa é a trilha que me fez virar fã de carteirinha do mestre Ennio Morricone quando eu era apenas adolescente e ainda causa impacto até hoje, mesmo tendo gerado um sem número de imitações. 

"A Missão" também foi o primeiro filme sério que eu assisti nos cinemas e gostei de verdade, abrindo meus olhos para outros tipo de gênero além de terror, aventura e ficção científica. 

O uso de coral na trilha é maravilhoso e emociona até quem não é chegado em religião ou mesmo ateu como eu (o filme é sobre padres jesuítas que lutam para salvar os índios na América do Sul da época da invasão européia, com resultados trágicos). 

Não ter ganho o Oscar de melhor trilha sonora em 1987 foi uma vergonha, mas abriu as portas para o compositor italiano que depois escreveu a partitura para dezenas de filmes em Hollywood.

11) CONAN, O BÁRBARO (Basil Poledouris) – Outra trilha que faz extensivo uso de corais em diversas faixas. 

É uma verdadeira sinfonia, já que o filme tem pouquíssimos diálogos e é conduzido pela música magistral de Basil Poledouris em quase todas as cenas. 

O filme tem seus detratores, por causa da violência excessiva, mas a trilha é sempre lembrada com carinho pelos colecionadores. 

Destaque para o tema principal (“Anvil of Crom”) e para a música da batalha final, entre as mais poderosas do cinema, ideal para ouvir quando se está malhando na academia de ginástica! 

O selo Varese Sarabande, especializado em música de cinema, lançou a trilha numa versão quase completa e existem versões piratas por aí que clamam trazer a versão completa da obra. 

Mas só recentemente o selo Intrada lançou um CD triplo com a trilha completa do filme, mais versões alternativas e a edição do album original com os destaques e diferenças na mixagem.

12) OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA (John Williams) – Depois de “Guerra nas Estrelas” e "Superman", Williams comprova novamente sua maestria em criar temas nesse primeiro filme da série do Indiana Jones, também a trilha mais complexa e memorável dos quatro. 

Quem não conhece o tema do protagonista, um dos mais "assobiáveis" do cinema? 

O grande destaque da trilha fica sem dúvida com “The Desert Chase”, música para a perseguição do caminhão no deserto que tem quase oito minutos de poder puro, daqueles de deixar a gente sem fôlego! 

A trilha do segundo filme é quase tão boa quanto a do primeiro, inclusive usando muito coral de vozes e percussão pesada nas cenas mais arrepiantes.

Foi lançado há alguns tempo um box com a trilha dos quatro filmes da série que traz a partitura (quase) completa dos três primeiros.

13) A LENDA (Jerry Goldsmith) – Essa é considerada uma das mais belas e complexas trilhas do mestre Goldsmith.

Mas, por incrível que pareça, foi rejeitada pelo presidente do estúdio (o mesmo idiota que tentou fazer Terry Gilliam deixar "Brazil" com final feliz!) que exigiu do diretor Ridley Scott uma música mais “pop” para seu conta de fadas! 

E o mais triste é que ele aceitou, usando música nova (e fraquinha) do grupo de rock progressivo Tangerine Dream, para irritação máxima de Goldsmith, que nunca mais quis nem saber do diretor Scott. 

Felizmente, nas cópias européias do filme (que chegaram a ser exibidas no Brasil na época) a trilha de Goldsmith permaneceu intacta e é o principal motivo do filme continuar a ser lembrado até hoje. 

Repleta de temas primorosos, a partitura faz uso extensivo de corais e de orquestrações complexas, além de sons eletrônicos criativos, típicos do mestre. 

Para alegria dos apreciadores, a trilha quase completa, conforme havia sido gravada para o filme, foi lançada em CD. 

Anos depois o próprio Ridley Scott reconheceu seu erro e relançou o filme em DVD na versão completa, com a música maravilhosa e emocionante de Goldsmith intocada.

14) YOUNG SHERLOCK HOLMES (Bruce Broughton) – Chamado no Brasil de “O Enigma da Pirâmide”, esse filme sobre uma suposta juventude do detetive Sherlock Holmes contou com uma trilha sonora primorosa composta por Bruce Broughton, um dos compositores mais prolíficos dos anos 80. 

Perfeitamente adequada para o clima leve do filme, impressiona também quando precisa ser mais dramática ou pesada. 

A faixa com coral (“Waxing Elizabeth”) é lembrada com carinho pelos fãs e o tema principal é uma delícia! 

Lamentavelmente, a versão completa da trilha foi lançada pela Intrada em versão promocional às custas do próprio compositor e hoje é quase impossível de ser achada, embora existam outras versões piratas, inclusive com as sessões de gravação completas da trilha!

Somente em 2014, a trilha completa foi lançada oficialmente em um album duplo, novamente pela Intrada. Sensacional!

15) FORÇA SINISTRA (Henry Mancini) – O famoso compositor dos filmes da "Pantera Cor de Rosa" e mais lembrado por suas músicas para comédias e romances, compôs uma trilha espetacular para esse filme de terror quase trash sobre vampiros espaciais que são trazidos para a Terra do cometa Halley. 

A trilha já começa em alta, com um vigoroso tema principal e não para nunca, principalmente no final apocalíptico do filme, onde Mancini pega você pela garganta e faz maravilhas mesmo tendo como inspiração algumas cenas bem ridículas (mas cheias de efeitos especiais espetaculares). 

A música dele é tão boa que, no final das contas, os realizadores imbecis acharam melhor chamar outro músico, no caso Michael Kamen, para compor umas faixas eletrônicas horríveis para usar no lugar da poderosa música orquestral de Mancini! 

Ainda bem que na versão lançada em DVD a trilha original está restaurada. O duro é ver o filme sem rir. 

Melhor mesmo é comprar o CD duplo lançado há pouco tempo, que inclusive traz a horrível música composta por Kamen.

16) A GUERRA DO FOGO (Philippe Sarde) - Essa é uma trilha sonora realmente "cavernosa"! 

Composta por Philippe Sarde para o filme sem diálogos (ao menos inteligíveis) de Jean Jacques Annaud (de "O Nome da Rosa") sobre a luta de um grupo de homens das cavernas para descobrir os mistérios do fogo.

A partitura estritamente orquestral alterna momentos atonais de pancadaria e poder puros, com direito a muitos solos de percussão, com outros mais intimistas relacionados à descoberta do amor pelos protagonistas. 

A melhor faixa é justamente o "Love Theme", uma belíssima suíte de cinco minutos que foi usada para encerrar o filme. 

Existe uma versão em CD com 14 faixas e outra editada na Europa mais nova com 17.

17) ERA UMA VEZ NA AMÉRICA (Ennio Morricone) - Para a obra prima do diretor Sergio Leone, Ennio Morricone compôs uma de suas trilhas mais inspiradas, com momentos que fazem arrepiar até o último fio de cabelo, principalmente quando entram os solos vocais de Edda Dell'Orso. 

O tema de Deborah é simplesmente sublime, assim como o "Cockey's Song", que conta com solos da flauta Pan de Gheorge Zamfir (que no CD estão com mixagem e performance diferentes do que foi usado no filme). 

Morricone também incorpora trechos da canção Amapola em vários momentos da partitura de maneira tocante. 

É triste saber que a trilha de "Era Uma Vez Na América" não foi indicada ao Oscar simplesmente porque o estúdio responsável esqueceu de inclui-la na lista de inscrições! 

Existem duas versões em CD, uma com 15 e outra com 19 faixas.

18) ADEUS AO REI (Basil Poledouris) - É incrível a capacidade que alguns compositores tem de compor trilhas sensacionais para filmes ruins. 

É o caso de "Adeus ao Rei" que Poledouris compôs para esse filme do mesmo diretor de "Conan, o Bárbaro", John Millius, e estrelado pelo Nick Nolte (que passa o filme todo com um penteado lamentável, no estilo "juba de leão"). 

A partitura alterna momentos de rara beleza e sensibilidade musical com outros mais vigorosos e tem um tema principal majestoso. 

A impressão que dá é que o compositor conseguiu entender o espírito do filme melhor do que o diretor, pois muitas vezes a música acaba passando bem mais emoção do que a cena para a qual foi escrita. 

Os destaques ficam por conta do "Main Title" e das faixas "Battle Montage", "Nigel's Trip" e "This Day Forth". O selo Prometheus lançou o score completo, com 31 faixas, inclusive algumas alternativas e com mixagem diferente.

19) SUPERMAN - O FILME (John Williams) - O tema criado por Williams para o personagem é tão perfeito que parece que já existia mesmo antes de ser composto. 

A música chega literalmente a "cantar" SU-PER-MAN nos créditos iniciais, que estão entre os mais bacanas da história do cinema! 

Mas a trilha de "Superman" não é só o tema principal, pois Williams criou toda uma gama de outros temas memoráveis que estão no mesmo nível do que fez de melhor em sua carreira: o tema do planeta Kripton, com seus corais de vozes fantasmagóricas, o tema de amor para Superman e a Lois Lane, que atinge seu auge na faixa "Can You Read My Mind?", e o tema dos vilões, que consegue ser cômico e passar uma sensação de perigo ao mesmo tempo. 

Existem duas versões em CD que valem a pena ser adquiridas: um album duplo que traz 35 faixas e outra saiu num box com 8 CDS que trazem todas as trilhas para os quatro filmes do homen de aço, com um total de 37 faixas para o primeiro filme.

20) GREYSTOKE - A LENDA DE TARZAN (John Scott) - John Scott é um dos melhores compositores de música para o cinema. Infelizmente é um dos mais subestimados também. 

A maioria das trilhas que escreveu foi para filmes B ou mesmo irremediáveis trashs, como "Yor, o Caçador do Futuro" ou "King Kong 2". 

Mas, independente da qualidade do filme, sua música sempre manteve a qualidade. E quando foi chamado para musicar obras classe A, não decepcionou. 

É o caso de "Greystoke - A Lenda de Tarzan", do diretor Hugh Hudson, uma releitura hiper realista da famosa história do homem macaco. O tema principal composto por Scott é simplesmente um dos mais sublimes que já escutei em minha vida. 

A partitura também é recheada de passagens pesadas e atonais para ilustrar a vida selvagem na selva. 

Inacreditavelmente, essa trilha demorou décadas para ser lançada oficialmente em CD e existia apenas em versões piratas!

21) FUGA DE NOVA YORK (John Carpenter & Alan Howarth) - John Carpenter é um dos meus diretores preferidos e seu "Fuga de Nova York" está entre os filmes que mais me marcaram na juventude. 

Além de dirigir e escrever roteiros, Carpenter também compôs a trilha musical de quase todos os seus filmes, mesmo não sendo músico! E por incrível que pareça, muitas de suas partituras são realmente boas, perfeitamente adequadas aos filmes. 

Embora não tenha o mesmo nível de complexidade das trilhas citadas anteriormente, "Fuga de Nova York" figura entre as minhas favoritas porque traz o filme à cabeça instantaneamente e tem um tema principal super cool

Composta em parceria com o compositor Alan Howarth, é uma trilha inteiramente eletrônica e minimalista, que lembra algumas composições de Ennio Morricone (Carpenter é fã confesso do compositor, tanto é que trabalhou junto com ele em "O Enigma do Outro Mundo"), porém bastante criativa e interessante mesmo longe do filme. 

O CD original da Varese Sarabande tinha apenas 13 faixas, mas foi depois lançada na versão completa com 28 faixas pela Silva Screen.

22) BEN HUR (Miklós Rózsa) - Para muitos, Miklós Rózsa é o maior compositor de trilhas da história do cinema. Jerry Goldsmith resolveu que seria compositor de músicas para filmes depois de assistir "Spellbound" de tão impressionado que ficou com a música composta por Rózsa. 

Entre suas obras mais famosas estão "Quo Vadis", "El Cid" e "Rei dos Reis". E, claro, "Ben Hur". 

Chamar essa trilha de épica é brincadeira. Trata-se de uma obra simplesmente colossal que pontua o filme com Charleton Heston de maneira primorosa, do começo ao fim. Lembro até hoje da primeira vez que vi o filme. 

Foi, obviamente, numa reprise em um cinema de Campinas (que nem existe mais). Eu devia ter uns 12 anos, mas lembro perfeitamente do impacto que "Ben Hur" me causou. Simplesmente não desgrudei os olhos da tela - e olha que estamos falando de um filme com quase quatro horas de duração! 

Anos depois consegui comprar a trilha, lançada pela Rhino Discs numa edição super especial com nada menos do que, pasmem, 88 faixas! No quesito épico, essa é mesmo insuperável...

23) FÚRIA DE TITÃS (Laurence Rosenthal) - Laurence Rosenthal é outro excelente compositor que, a exemplo de John Scott, foi criminosamente subaproveitado pelo cinema. 

Entre seus melhores trabalhos está, sem dúvida, a trilha que compôs para o último filme do lendário Ray Harryhausen, famoso inventor do sistema stop-motion que utilizava para dar vida a monstros e criaturas delirantes. 

Eu assisti a "Fúria de Titãs" no cinema e fiquei noites sem dormir por causa da Medusa! A música de Rosenthal também me marcou muito, principalmente o majestoso tema principal, utilizado em poderoso arranjo, de excelente orquestração, para a cena que Perseus doma o cavalo alado Pegasus. 

O filme é uma verdadeira salada de mitos gregos e traz o consagrado Laurence Olivier brincando de Zeus, mas o compositor não dá bola e trata tudo com a maior seriedade. Felizmente, a trilha existe em CD e foi lançanda ainda numa edição espandida, com três faixas a mais do que as 14 originais.

O selo Intrada lançou há alguns ano a versão completa da trilha, em um álbum duplo maravilho.

24) CAÇADOR DO ESPAÇO - AVENTURAS NA ZONA PROIBIDA (Elmer Bernstein) - Elmer Bernstein é um monstro sagrado na arte de compor trilhas para o cinema. 

São deles obras inesquecíveis como "Os 10 Mandamentos" e "Sete Homens e Um Destino". Mas minha trilha favorita composta por ele, acredite se quiser, é para um filme quase trash, chamado "Caçador do Espaço - Aventuras na Zona Proibida" que só eu devo lembrar que existe... Coisas de nerd!

Pior é que fiquei anos procurando pela trilha sonora, que só foi lançada recentemente pela Varese Sarabande. Antes ela só podia ser curtida junto com o filme ou num CD pirata de péssima qualidade. 

Gosto muito do tema principal, que é uma marcha bem aventuresca, e do tema associado à personagem Niki, que conta com solos de Ondes Martenot, instrumento favorito do compositor, que é uma variante do bizarro Teremin, e que está presente em muitas de suas trilhas.

25) POLTERGEIST (Jerry Goldsmith) - Entre minhas trilhas sonoras favoritas não poderia deixar de citar "Poltergeist". Embora seja música composta para um filme de terror, aqui o mestre Goldsmith vai numa direção contrária à da trilha de "Alien".

Enquanto a segunda era basicamente atonal e repleta de sons sinistros e alienígenas, em "Poltergeist" a partitura baseia-se em primeiro lugar no tema da menina Carol Anne, que pode ser ouvido nos créditos finais com um coral infantil, e que representa a inocência em face do medo. 

Goldsmith explora o terror que vem dos espíritos malignos que infestam a casa da família Freeling contrastando suas aparições com o tema da criança. Existem algumas faixas que são de gelar o sangue, como "Twisted Abduction", que pontua a sequência em que Carol Anne é sugada pela porta do armário de seu quarto, ou "Night of the Beast", que é música de terror em estado bruto. 

Já outras são mais etéreas e remetem ao sentimento de estupefação e maravilhamento que acontece no primeiro momento do contato com os fantasmas ("The Light"). 

Mas o melhor da trilha acontece quando Goldsmith une essas duas aproximações com efeitos arrepiantes em "Rebirth", música que pontua a cena do resgate de Carol Anne, repleta de coral de vozes e efeitos orquestrais de grande complexidade. 

Nem preciso dizer que quando vi esse filme fiquei também várias noites sem dormir, em grande parte por causa da música espetacular do grande Jerry Goldsmith!

26) CAMPO DOS SONHOS (James Horner) - Gosto de várias trilhas do James Horner, mesmo aquelas que ele plageia algum outro compositor ou a ele mesmo, porém entre as melhores coloque a que criou para o filme "Campo dos Sonhos". 

Li em entrevistas com Horner que essa trilha foi sendo composta meio no improviso, junto com as imagens do filme e com os solistas que dela participam - tanto é que na hora de prepará-la para o lançamento em disco, gerou problema o fato de não existir uma partitura escrita para ela! 

Essa é uma das trilhas mais inspiradas do compositor, repleta de momentos delicados e reflexivos e temas bonitos que acompanham o filme surpreendente estrelado por Kevin Costner. 

Os destaques ficam para a faixa "The Cornfield", que pontua a primeira vez que o protagonista escuta a voz do além afirmando que "se você construir, ele virá", e "The Place Where Dream Come True", que marca o tocante encontro final entre o personagem e o convidado misterioso que aparece em seu campo dos sonhos. 

De fazer chorar mesmo o mais barbudo dos marmanjos...

27) QUANDO EXPLODE A VINGANÇA (Ennio Morricone) - Só recentemente eu descobri o genial diretor Sergio Leone em toda sua plenitude. Até então, havia assistido apenas a "Era Uma Vez na América" e alguns pedaços de "Três Homens em Conflito" na TV. 

Depois de ver (quase) todos os seus filmes em DVD, cheguei à conclusão que se tratava de um cineasta completo, capaz de extrair o máximo de impacto de cada sequência que filmava, tanto em termos de técnica, quando de atuação. E a música do mestre Ennio Morricone tem papel importantíssimo em seus filmes. 

De seus faroestes, a que mais me tocou foi a trilha de "Quando Explode a Vingança", que´é o filme mais político de Leone, mostrando a revolução popular mexicana pelo ponto de vista de um andarilho safado que se une a um membro do IRA, especialista em explodir coisas. 

Morricone compôs um tema principal parecido com o de "Era Uma Vez no Oeste", também de Leone, e incorporou nele um solo vocal que canta literalmente "Sean-Sean", que é o nome do personagem irlandês de James Coburn! 

Em outra faixa, "A Marcha dos Mendigos", o compositor chega a incorporar um vocal que imita o coachar de um sapo, unido por um solo de bandolim que toca pequeno trecho de Mozart, com resultado altamente cômico! 

Para minha sorte, um selo europeu havia acabado de lançar um album duplo com a trilha completa, logo depois de eu ter visto o filme pela primeira vez. Nem preciso dizer que tenho, preciso?

28) IMENSIDÃO AZUL (Eric Serra) - Adoro o mar e, obviamente, filmes sobre ele. Por isso, "Imensidão Azul" está entre meus filmes favoritos. 

Claro que a versão do diretor e não a picotada e reduzida que foi exibida na época. E como não poderia deixar de ser, adoro a musica composta por Eric Serra. 

Diferente do que estou acostumado a gostar, que é música orquestral, a trilha desse filme é toda tocada em instrumentos pop e sintetizadores, mas nem por isso deixa de ser tocante. 

É o tipo de música que agrada a todos - especialmente as mulheres - e que dá uma sensação de alegria imediata. Serra inclui sons que imitam o canto dos golfinhos e solos de saxofone lindíssimos em algumas faixas e encerra a trilha cantando em "My Lady Blue". 

Existem dois lançamentos diferentes da trilha de "The Big Blue": uma é um CD simples com 19 faixas e a outra é um CD duplo, com 33. 

Absurdamente, nos Estados Unidos a trilha de Eric Serra foi substituída por outra composta por Bill Conti, que nada mais era do que uma cópia mal feita da trilha original! Eta maniazinha ridícula que esses caras tem de mexer naquilo que já estava bom. Depois não entendem porque os filmes fracassam...

29) O SEGREDO DO ABISMO (Alan Silvestri) - Alan Silvestri é um compositor muito irregular. Do tipo que alterna trilhas interessantes como "Predador" e "Contato" com outras abaixo do medíocre. 

Estranhamente, é o compositor favorito do diretor Robert Zemeckis, desde que trabalharam juntos em "Tudo Por Uma Esmeralda" e "De Volta Para o Futuro". 

Uma de suas trilhas mais eficazes é justamente a que compôs para o ótimo "The Abyss", filme aquático dirigido por James Cameron antes de "Titanic", que me marcou muito na época, principalmente por causa da cena em que o protagonista chega à cidade dos aliens submarinos, a qual me deixou arrepiado da cabeça aos pés. 

E grande parte do sucesso dessa obra se deve à trilha de Alan Silvestri, que intercala música orquestral pesada com solos de sintetizador, amarrando tudo no final apoteótico com a presença de coral de vozes. Nem preciso dizer que minha faixa preferida do CD é "Bud on the Ledge", justamente a música que acompanha a chegada do personagem de Ed Harris à majestosa cidade submersa. 

O filme foi lançado anos depois numa versão do diretor, que incluia um final bem diferente do original, que contava inclusive com a famosa cena da "onda gigante" criada pelos ETs para obrigar os humanos a acabarem com as hostilidades que estavam para culminar em guerra.

Em 2014 a Varese Sarabande lançou a trilha completa do filme. Imperdível.