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terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Filmes: "Animais Noturnos" (*spoilers*)

MONSTROS HUMANOS

"Quem são esses animais noturnos que, travestidos de seres humanos, andam pelo mundo destruindo a vida de quem ousa amá-los, sem compaixão, empatia ou remorso?", questiona o diretor Tom Ford.

- por André Lux, crítico-spam


“Animais Noturnos” é um filme brutal, difícil de assistir, porém excepcional na forma como traduz em palavras e imagens a dor experimentada por alguém que teve sua vida destruída por uma pessoa na qual confiava cegamente e para a qual se entregou de corpo e alma.

"Quem são esses monstros que, travestidos de seres humanos, andam livremente pelo mundo destroçando a vida de quem ousa amá-los, sem qualquer traço de compaixão, empatia ou remorso?", questiona o diretor e roteirista Tom Ford.

Trata-se de um “filme dentro de um filme”, no qual a protagonista Susan (feita pela doce Amy Adams) recebe o manuscrito de um livro escrito pelo seu ex-marido Edward (Jake Gyllenhaal, perfeito com sua eterna cara de bom moço), que ela traiu e abandonou no momento em que ele estava mais fragilizado em troca de uma vida frívola ao lado de um homem arrogante e ambicioso, tudo que o outro não era.


Uma das cenas mais emblemáticas do filme se dá quando Susan vai jantar com sua mãe conservadora, racista, homofóbica e que é totalmente contra seu casamento com Edward, o qual ela julga “fraco e pobre”, fatores que, segundo ela, hoje encantam a filha, mas que com o tempo vão afastá-la dele. “Não sou como você, mãe”, responde a moça, recebendo como resposta a lapidar frase: “Não é agora, querida. Mas no final, todas nos tornamos iguais aos nossos pais”.

Embora rica e vivendo uma vida regada a festas e vernissages (ela e o marido são promotores de artes), Susan é infeliz, vazia e vê seu marido tornando-se cada vez mais frio e distante, ao ponto de nem tentar disfarçar mais que a trai regularmente com mulheres mais novas.


A mãe à filha: "Eu sou você, amanhã"
Já o livro do ex-marido mostra uma família composta por um casal e sua filha viajando pelas estradas do Texas de noite. A uma certa altura, são abordados por caipiras bêbados liderados por um psicopata que acabam estuprando e matando as duas mulheres, deixando Edward para viver com a culpa e a dor de não ter tido forças para reagir e salvar a sua família (ele foi “fraco”). A investigação é comandada por um policial feito pelo Michael Shannon, o Zod do horrível “Homem de Aço”, que vai encontrando os criminosos um a um, sempre com a presença de Edward. No final, o protagonista mata os assassinos de sua família, mas acaba também morrendo no processo.

Ao mesmo tempo em que lê o livro angustiada, Susan vai relembrando de sua vida ao lado de Edward, da cumplicidade e do amor que sentiam um pelo outro e, principalmente, da maneira fria e calculista com que o abandonou, jogando nas costas dele todos os motivos pelo suposto fracasso da relação (ele é "fraco", humilha ela). Não bastasse isso, ela faz um aborto e mata o filho dos dois, já acompanhada e motivada pelo novo namorado.


Graças à leitura do livro e das memórias da vida anterior, Susan começa a se sentir humana novamente e marca um encontro com Edward em um restaurante chique, só para ficar horas esperando por ele, que não aparece. O filme termina com um close de sua face angustiada. Só ali, no final, é que ela se dá conta do que se tratava realmente a estória narrada no livro do ex-marido: ao abandoná-lo e tirar o filho dele, ela destruiu sua vida, o matou de certa forma, assim como fizeram os psicopatas no livro ao matarem a família do protagonista. 

Assim, o livro de Edward era de certa forma uma catarse e também uma vingança, pois mostrava que no final das contas quem havia morrido era Susan, justamente por ter matado a única coisa realmente boa que teve na vida. E tudo isso em troca de frivolidades e da busca por prazeres mundanos totalmente desprovidos de humanidade e de sentido. O desespero demonstrado por Amy Adams na cena derradeira de “Animais Noturnos” é a constatação de que a protagonista havia, afinal, entendido que era ela quem estava morta em vida há muito tempo e não Edward, como ela e o atual marido costumavam debochar.

Infelizmente, esse tipo de “revelação” só acontece nos filmes, já que os “animais noturnos” como os descritos na obra são, com raríssimas exceções, incapazes de autocrítica e jamais entenderão ou mesmo se importarão com as vidas que destruíram em seu caminho rumo à conquista de suas ambições fugazes, sejam elas quais forem. Todavia, a arte permite às pessoas que passaram por esse tipo de experiência monstruosa que se expressem e se conectem com outros, promovendo ao menos algum tipo de reflexão e regozijo ao saber que não estão sozinhas. E ainda dá uma bofetada na cara dessa atual sociedade do consumo onde sensibilidade e fragilidade são cada vez mais rotuladas como fraqueza, principalmente nos homens.

“Animais Noturnos” é um daqueles filmes que vão passar em branco para a maioria das pessoas, até porque tem um final aberto e vai exigir um mínimo de inteligência do espectador para conectar os pontos e fechar o quadro maior, algo cada vez mais raro nos dias de hoje.

É um prato violento, angustiante e difícil de digerir, mas é uma experiência visceral que, de certa forma, ajuda a encarar monstros internos que só serão realmente derrotados quando forem entendidos e, acima de tudo, perdoados. Algo que eles jamais fariam a si mesmos caso tivessem algum tipo de consciência.

Cotação: * * * * *

11 comentários:

claudia disse...

Nossa parece muito bom!

Unknown disse...

Vou ter que assistir...seria ela uma narcisista perversa?

Valmir disse...

fala pra gente; onde - qual site - podemos ver o filme online??

André Lux disse...

Vi no cinema, há pouco tempo. Ainda não tem pra baixar, eu acho.

Unknown disse...

Vi sem expectativa, e gostei muito, amo filmes que te fazem pensar, não eh tão simples fazer essa conexão do livro com a história deles, e a protagonista mesmo, demora a perceber onde ela se encaixa na história do livro. Não sei se o intuito dele era se vingar, ou só dizer mesmo como se sentiu.

Unknown disse...

Adorei Animais Noturnos :0 Eu amo Jake Gyllenhaal ❤️ É um ator lindo, carismático e talentoso. Vida Inteligente é um dos seus filmes mais recentes. Adoro esse tipo de histórias de ficção científica e horror. Realmente a recomendo! :D Além de ter uma produção excelente, a história é muito boa!

Unknown disse...

Confesso que fiquei extasiado com o filme, e nao conectei os pontos no final do fikme, por isso procurei spoilers. Ótima leitura do filme. Interessantíssimo.

Jaime Isabel Rocha disse...

Assisti ...e só depois dessa leitura acabei de entender....muito bom mesmo

Anônimo disse...

Filme fantástico... visceral e desesperador. Amei. E o final é sensacional.

Unknown disse...

Tem na Netflix

Unknown disse...

Acabei de assistir..e o final não havia entendido muito bem... Mais parabéns pelo spoilers , realmente se trata de como ele sentiu, e pode até ser dito como vingança. No fim das contas boa colocamos no lugar dele, no da Suzan... É pra quem realmente é inteligente esse filme.