segunda-feira, 11 de junho de 2007

Filme: "NÃO POR ACASO"

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SEM EMOÇÃO

Apesar do esforço da produção e do talento
dos envolvidos, faltou cuidado com o desenvolvimento dos personagens e mais conflitos humanos no roteiro.

- por André Lux, crítico-spam

Assisti ao making of de “Não Por Acaso” antes de ver o filme e chamou minha atenção o fato de quase todo mundo destacar que se tratava de uma história sobre “dois sujeitos obcecados com controle, que, de repente, percebem que não têm controle sobre nada”. É sempre um mau sinal quando os realizadores e o elenco insistem em explicar o sentido ou o significado da trama. Afinal, isso deveria estar impresso na obra, cabendo sempre ao espectador captar as mensagens e tirar suas próprias conclusões. E é exatamente o que não acontece em “Não Por Acaso”, que é a estréia na direção de longas-metragens do diretor Phillipe Barcinski, famoso no circuito de curtas.

O roteiro de Philippe Barcinski, Fabiana Werneck Barcinski e Eugênio Puppo aborda dois personagens com realidades diferentes. Um deles é Ênio (Leonardo Medeiros, do excelente “Cabra Cega”), controlador de tráfego da CET de São Paulo e uma pessoa vazia e sem vida social, quase catatônica, que passa o dia assistindo às câmeras de vigilância do trânsito e solicitando alterações e desvios em caso de acidentes ou congestionamentos. Um dia recebe a visita do que parece ser uma ex-esposa para ser informado que a filha quer conhecê-lo. Corta, numa edição não-linear, para a vida de Pedro (Rodrigo Santoro), um marceneiro especializado em fabricar mesas de bilhar, cuja rotina muda com a chegada da namorada que vai morar com ele. Após uma breve exposição dos personagens, assistimos à garota sair de casa só para ser atropelada justamente pela ex-esposa de Ênio. Ambas morrem no acidente.

A partir daí, o filme se perde e a teoria dos “controladores que percebem não ter controle sobre nada” nunca se comprova. Primeiro porque não houve tempo de exposição suficiente para que ambos pudessem ser percebidos como pessoas obcecadas por controle. Tanto Ênio quanto Pedro parecem, respectivamente, querer controlar apenas o tráfego e os movimentos das suas tacadas de bilhar. Não há nada no comportamento social de ambos que demonstre obsessão por controle fora do ambiente de trabalho.

Para piorar, o personagem de Santoro nunca convence, pois ao mesmo tempo que é caracterizado corretamente como uma pessoa rude e de poucas palavras na marcenaria (que inclusive se veste e tem um bigodinho no pior estilo “Zé Bonitinho”), porta-se como um típico galã de filme estadunidense quando está com a namorada, todo sensível, carinhoso e compreensivo – com direito inclusive a uma cena de amor ultra-romântica, digna das novelas globais! Por causa dessa incoerência e da falta de profundidade psicológica do roteiro toda a trama que envolve Pedro e seu envolvimento com outra mulher não desperta o interesse e, no final, não chega a lugar algum.

Ao menos a história do controlador de tráfego, por envolver seu relacionamento com a filha que não conhecia, consegue ser mais verossímil e sofrer algum tipo de arco, embora o diretor fuja de qualquer emoção mais forte ou conflito deixando tudo num meio termo frio e distanciado. E, para quem queria comprovar a tese dos “controladores que perdem o controle”, fica esquisito Ênio lançar mão justamente da sua possibilidade de controlar o tráfego (até de uma forma irresponsável) para, em cena crucial, atingir um objetivo.

Tecnicamente “Não Por Acaso” é correto, com boa fotografia e uso inteligente de efeitos visuais nas tacadas de bilhar e na manipulação das cenas do trânsito paulista (chegaram a construir um congestionamento digitalmente, com resultados bem convincentes). O elenco é homogêneo e competente, porém, devido à opção dos realizadores pela frieza e pelo distanciamento, acaba ficando sem chances para vôos mais altos.

Apesar do esforço da produção e do talento dos envolvidos, faltou mesmo é um pouco de cuidado com o desenvolvimento dos personagens, conflitos humanos e, enfim, emoção.

Cotação: * * 1/2
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4 comentários:

Zé Renato disse...

Não... não... não vou ler. O unico filme que estou com vontade de ver, principalmente pelas imagens de São Paulo que vi nos traillers. Mas é claro... Sexta feira, Shrek na primeira sessão! hahahaha
Abraços amigo!

Ricardo Melo disse...

Pobreza emocional em um filme latino-americano é algo realmente lamentável. Acho que os cineastas do Brasil deveriam se espelhar no que se tem produzido na Argentina.
O cinema argentino tem recebido muita atenção por aqui justamente pelo modo como a emoção é trabalhada nas produções.
Os roteiristas argentinos têm se caracterizado pela formulação de personagens com grande apelo emocional e alguma profundidade psicológica. E aqui deixo um questionamento. Será que a melhor caracterização dos personagens no cinema argentino não decorre também de uma melhor “bagagem” literária? Será que o reconhecido apreço que os argentinos têm pelos livros não facilita a execução de roteiros e adaptações mais ricos e envolventes?
Será que a construção de melhores diálogos cinematográficos não depende também de um conhecimento mais elaborado da literatura? Se eu pudesse dar uma sugestão aos cineastas brasileiros, seria a de “investir” mais nesse tema.
Por outro lado, o cinema argentino pode ser criticado por ser comercial. Agrada muito à classe média por retratá-la em um grande número de produções. E, se o cinema nacional quiser copiar esse exemplo, vai ficar diante de um enorme desafio. Além da falta de roteiristas e criadores de diálogos mais elaborados, a classe-média brasileira não pode ser considerada como uma matéria-prima fácil de ser “trabalhada”. Já li por aí que a nossa classe média é extremamente caricatural: consumista, agressiva e desprovida de requintes culturais. Fazer cinema mostrando uma classe-média como a nossa só é fácil se alguém pretender realizar uma comédia “escrachada”. Apesar disso, se os produtores quiserem, acho que dá para mostrar os extratos médios com uma certa profundidade dos questionamentos morais. Penso que, com inteligência, pode-se encontrar muito material para ser trabalhado nessa área. Mas isso resultaria em um sucesso comercial, como os argentinos têm alcançado? Não sei, mas a realidade é que existe uma tendência do cinema nacional realizar filmes onde a violência, o vazio interior e até mesmo as micagens de nossa classe-média sejam a grande atração. Talvez dê para ir um pouco além disso, e até faturar mais bilheteria...

Anônimo disse...

Assisti no domingo a este filme, e preparo uma resenha a publicar no meu blog. Também não gostei, nem um pouco. Se não me engano, foi na CArta CApital que li um texto que dizia que apesar de global, o filme era bom. Não é.
Discordo de vc apenas quando diz que não há elementos que demonstrem o controle das personagens extra-trabalho. Ok, mas e daí? Vc ouviu os caras falando e ficou esperando exatamente o tal controle?
Nesta opinião, a vida extra-trabalho das personagens revela o gosto pela rotina irracional, pela apatia, que muda quando acontece o acidente.
TAmbém o filme do cláudio Assis. tem comparação?

um abraço . Maurício.

Alexandre Figueiredo disse...

O filme é frio e monótono. Desprovido de qualquer emoção. Não gostei.

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