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sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

A polêmica continua... Por que eu considero "Tropa de Elite" um filme fascista?

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O meu amigo blogueiro Miguel do Rosário tem feito uma defesa ferrenha do filme “Tropa de Elite”, o qual ele não considera fascista, em seu blog Óleo do Diabo. Não quero aqui ficar pinçando trechos do texto dele e os contrapondo, pois acho isso enfadonho e meio injusto com o autor, pois tira suas idéias de contexto.

Vou, de maneira pontual e final, dizer porque eu acho o filme fascista. Até porque não quero mais falar desse filme canhestro que nem merece tantos holofotes assim.

1) A intenção do diretor era fazer um filme fascista? Pra mim ficou claro que não. O Padilha tentou sim fazer um filme que “mostra a realidade” da violência urbana no Brasil – especificamente nas favelas cariocas, e provocar polêmica no bom sentido.

2) Ele teve sucesso nisso? Em parte. Do ponto de vista de “mostrar a realidade”, ele consegue mostrar apenas uma parte dela. E é aí que os problemas começam.

3) Onde ele acertou? Primeiro, ao mostrar a corrupção e a desordem na polícia militar, bem como a parceria de seus membros com o tráfico e com esquemas ilícitos. Segundo, ao mostrar o envolvimento de políticos nos esquemas. Ponto para Padilha e sua equipe.

4) Os erros. Agora é que são elas. De boas intenções o inferno está cheio:

- “Tropa de Elite” escorrega feio em sua pretensão de “mostrar a realidade” ao pintar o BOPE como incorruptível e super-eficiente. Não é. Existem provas contundentes disso. Uma dessas provas está no próprio filme: os oficiais do BOPE são coniventes com a corrupção da PM, então no mínimo são omissos e corruptos por tabela. Mas o roteiro não chega nem perto de tocar nesse ponto e insiste em dar voz apenas aos discursos moralistas e incoerentes dos policiais, sem nunca questioná-los.

- O BOPE é mostrado torturando e executando pessoas de maneira criminosa. Igualzinho acontece na realidade. O problema é que todas as pessoas torturadas e mortas no filme são bandidos ou amigos e familiares dos bandidos. Só que na vida real, pessoas inocentes são mortas e torturadas pelo BOPE. Onde está isso no filme? Em lugar algum. Em “Tropa de Elite”, o BOPE é tão eficiente e “bonzinho” como o Rambo que, entre uma crise existencial e outra, também só mata bandidos e vilões, nunca inocentes. E quem optou por mostrar as coisas dessa forma distorcida e absolutamente parcial? Os críticos? A platéia? Não, os realizadores do filme. Portanto, não há desculpas.

- Estudantes de classe média usam drogas e acabam ajudando a sustentar o tráfico. Correto. Essa é uma questão importante no debate do combate à violência que ninguém tem coragem de tocar. “Tropa de Elite” ensaia colocar o dedo nessa ferida, mas logo depois mete os pés pelas mãos.

Primeiro, porque não são todos os estudantes que usam drogas. Muito menos todo estudante é esquerdista ou liberal. Em qualquer sala de aula também existem jovens que rezam pela cartilha da direita, que são fascistas, ou que ao menos são favoráveis ao “prendo e arrebento”. Onde estão eles no filme? Em lugar nenhum. Na classe do Matias (o policial negro), todos adotam uma postura “esquerdista” ou liberal na cena do debate, o que é absolutamente ridículo.

Ou seja, assim como o BOPE só mata e tortura bandidos no filme, os estudantes de classe média são todos retratados como liberais hipócritas que usam drogas ilícitas ao mesmo tempo que protestam contra a brutalidade da polícia em passeatas idiotas. Chamar isso de maniqueísmo é pouco... Ao optar por essa aproximação simplista, o cineasta inutiliza automaticamente sua proposta de “mostrar a realidade” do ponto de vista da classe média como parte do problema.

- Muitos dizem que o capitão Nascimento é “humanizado” no filme, pelo fato de narrar a trama e por sofrer de ataques de pânico, portanto não pode ser considerado fascista. Esse argumento é o mais fraco.

Primeiro, porque o Nascimento que narra é um e o que atua é outro. Enquanto ouvimos o personagem descrevendo as situações com ar de deboche, arrogância e onisciência (revelando inclusive fatos que não tinha como saber), o vemos agindo como um descontrolado inseguro, à beira de um ataque de nervos.

Ou seja, enquanto age como o protagonista de, na falta de um exemplo melhor, “Um Corpo Que Cai” (que tinha fobia de altura e cometia erros), ele narra o filme como se fosse o Rambo, fodão e infalível, porém injustiçado e incompreendido. No final das contas, o que prevalece é a narração, até porque é ela que se destaca mais no nível da consciência por ser dirigida diretamente ao espectador. Não há, portanto, humanização nenhuma do personagem. Pelo contrário. A narração tosca anula a suposta “humanidade” das ações e, mais grave, induz o espectador a "torcer" por ele.

- Matias, o policial que no final substitui Nascimento, é o verdadeiro protagonista do filme. É nele que está contido o arco moral do roteiro. É só perceber: Matias começa o filme de uma maneira e termina de outra, que é totalmente contrária à inicial. Seria dele também a narração do filme. É bem provável que assim ficaríamos sabendo mais sobre esse personagem e sobre a confusão mental que o levou a uma mudança tão radical de comportamento e filosofia de vida.

Mas, como o diretor resolveu mudar, na última hora, a narração para o Nascimento (certamente por questões mercadológicas), Matias virou um mero coadjuvante, sem qualquer profundidade ou nuance.

Sua transformação de idealista em torturador acontece de maneira brusca e forçada, apenas porque teve um amigo morto pelos bandidos. Explicação rasa e pobre, idêntica a de qualquer Rambo da vida: “Quero viver em paz, mas vou voltar para a guerra para vingar o meu amigo, que foi maltratado pelos vilões”.

Ao optar por todas essas simplificações extremas e por uma estética de filme de ação palpitante (especialmente na terceira parte), “Tropa de Elite” vai contra sua proposta inicial e, infelizmente, se iguala a qualquer filme do tipo “vingança e retaliação”, como “Gladiador” ou os já citados “Rambos”, onde os feitos questionáveis dos personagens acabam sendo justificados em nome de um “bem maior” – no caso, vingar a morte covarde do amigo policial.

E perceber isso não tem nada a ver com ser de esquerda ou de direita. Até porque não é todo direitista que é fascista ou violento, da mesma forma que nem todo esquerdista é comunista ou pacifista. Existem nuances nesse meio e é isso que torna o debate rico e profundo. E é justamente essa falta de nuances e de profundidade que transforma “Tropa de Elite” em produto fascista – no sentido de endossar, mesmo que sem querer, o uso da brutatlidade e do desrespeito às leis como única forma de combater o tráfico de drogas e suas conseqüências.

Enfim, um filme cheio de boas intenções que se perdem na falta de consciência, sensibilidade ou talento de seus realizadores.
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terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Filmes: "Baixio das Bestas"


DEIXA DE SER BESTA, HOMEM!

O diretor parece viver pela tese “o ser humano é podre e o mundo está perdido”. E, para prová-la, faz filmes com cenas chocantes, escatologia e personagens caricatos

- por André Lux, crítico-spam

O diretor Cláudio Assis é um homem que parece viver pela seguinte tese: “o ser humano é podre e o mundo está perdido”. E, para prová-la, ele faz filmes recheados de cenas chocantes, escatologia e personagens que agem como se fossem bestas no cio, sempre drogados ou bêbados, correndo atrás de putas ou de menores de idade.

Foi assim em “Amarelo Manga” e é a mesma coisa em “Baixio das Bestas”. Só que, no primeiro filme, ele ao menos tentava construir situações e personagens com um mínimo de aprofundamento. Já no segundo, parece que não estava muito preocupado com esses detalhes e partiu logo para a nojeira pura e simples.

Assim, somos apresentados a uma gama de personagens caricatos e rasos como uma poça de água que existem unicamente para comprovar a tese original do cineasta: o velho pedófilo, incestuoso e hipócrita que explora a neta sexualmente, o estudante de classe-média vagabundo e drogado que anda fazendo maldades com amigos igualmente vagabundos e drogados, as prostitutas que reclamam da vida mas, no fundo, gostam mesmo é de apanhar, os peões ignorantes que vivem sambando e bebendo pinga e assim por diante. Chega às raias do preconceito.

Segue-se então duas horas de cenas nas quais essas “bestas em forma de gente” praticam seus atos nojentos, sempre de forma chocante e repulsiva. Não tenho nada contra o cinema ser usado para chocar as pessoas, desde que isso traga algum tipo de reflexão e análise da realidade. Mas, em o “Baixio das Bestas” assistimos ao choque pelo choque, sem qualquer conexão com um contexto minimamente ligado à realidade do povo brasileiro. E não é enfiando meia-dúzia de cenas que mostram o trabalho terrível dos cortadores de cana que vai resolver esse buraco negro no meio da narrativa.

Pior é que o filme tem uma excelente fotografia do mestre Walter Carvalho, que mesmo assim, repete tiques estéticos já usados em “Amarelo Manga” (como os travelings de câmera sobre os cenários, a imagem supersaturada e os altos contrastes). Sem falar da coragem que alguns atores consagrados, como Caio Blat, Matheus Nachtergaele e Dira Paes, tiveram de aparecerem em nu frontal em cenas carregadas de escatologia. Dá até para dar algumas risadas em algumas cenas em que os protagonistas disparam palavrões francos. Mas é só.

Em um momento de total auto-indulgência e pretensão do cineasta, um dos personagens vira para a câmera e diz, sem mais nem menos: “O bom do cinema é que você pode fazer o que quiser”. É claro que pode. Pode até “homenagear” o “Laranja Mecânica”, do Kubrick, na cena do estupro no cinema ou mostrar trecho de sexo explícito de “Oh, Rebuceteio” e seus protagonistas se masturbando.

Difícil, entretanto, vai ser Cláudio Assis convencer os espectadores de que a tese dele tem algum valor ou que ao menos é uma grande novidade. No fundo, o sujeito é um grande moralista que quer usar o cinema para ensinar uma lição à humanidade, no pior estilo do sueco Lars Von Triers e seu ridículo “Dogville”. Ou seja, a tese dele, na verdade é: “o ser humano é podre - menos eu, que sou um gênio incompreendido por esse mundo perdido”. Ah, deixa de ser besta, homem! Vai procurar um bom psicólogo...

Cotação: * 1/2

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"Tropa de Elite": FASCISMO NO CINEMA

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Ninguém nega a realidade na qual “Tropa de Elite” é baseado. Favelas como Complexo do Alemão parecem realmente zonas de guerra, onde a polícia é considerada um exército de ocupação. Mas o Brasil é também o país mais desigual do mundo e, ao ignorar as razões sociais da violência, o filme enaltece uma estratégia que por si só demonstra seu fracasso.

- Por Conor Foley – The Guardian (*)

A notícia de que “Tropa de Elite” ganhou o prestigiado prêmio “Urso de Ouro” do Festival Internacional de Berlim foi recebida com deleite no Brasil. O país deveria se envergonhar.

“Tropa de Elite” tornou-se o filme brasileiro mais popular de todos os tempos quando foi liberado ano passado. Estima-se que 11 milhões de pessoas assistiram às cópias piratas do filme antes do seu lançamento oficial, tendo quebrado recorde de bilheteria quando chegou aos cinemas.

O filme segue o sucesso de “Cidade de Deus”, que conta a árida história de como as favelas em volta do Rio de Janeiro gradualmente caíram nas mãos dos traficantes de drogas. “Tropa de Elite” se baseia no mesmo tema, tendo início, cronologicamente, de onde “Cidade de Deus” terminou. A cena de abertura mostra um baile funk no qual adolescentes narcotraficantes dançam ao mesmo tempo em que abertamente sacodem suas armas automáticas. Dois policiais à paisana tentam armar uma cilada, que não sai como esperado. Eles acabam encurralados na favela, sendo resgatados com a chegada do Bope (Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro), comumente conhecido como “Tropa de Elite”.

O filme é visualmente impactante e a trilha sonora contribui para o drama, mas a trama é deplorável e os diálogos são fracos. O enredo se desenvolve em torno do destino de três homens: Capitão Nascimento, o chefe do Bope, e dois policiais que ele resgata, Neto e Matias.

Nascimento quer abandonar a polícia, pois sua esposa está grávida, mas primeiro ele deve encontrar alguém que o substitua, sendo este evidentemente o modo como o sistema de recrutamento da polícia brasileira opera. Neto e Matias decidem entrar para o Bope e se submetem ao processo de recrutamento, que envolve, principalmente, duro exercício físico, porque, como nos é dito, essa é uma boa maneira de arrancar-se a corrupção pela raiz. Matias, que é negro, freqüenta a faculdade onde seus colegas, universitários brancos, sentados em círculo, discutem Foucault e condenam a brutalidade da polícia. Poderiam os clichês serem mais banais?

Alguns dos estudantes, incluindo a namorada de Matias, estão envolvidos em um projeto social na favela, mas parece que não fazem muito além de fumarem maconha, fornecida por um traficante local. Eles são posteriormente assassinados pelos mesmos traficantes, que também mataram Neto e o desenlace sangrento do filme ocorre à medida que o Bope entra na favela atirando na busca dos assassinos.

O filme causou polêmica porque mostrou a polícia torturando mulheres e crianças para obter informações sobre o líder da quadrilha. Aparentemente, enquanto estava ocorrendo a filmagem no set, um oficial do Bope interrompeu os atores e lhes disse: “Olha, você está fazendo tudo errado. Você deve segurar o saco plástico assim, para que não fique nenhuma marca”. Nos cinemas Brasil afora, as pessoas gritaram e aplaudiram durante a cena e o capitão Nascimento fictício, que é baseado em personagem real, foi amplamente aclamado como um herói nacional”.

Ninguém nega a realidade na qual “Tropa de Elite” é baseado. Favelas como Complexo do Alemão parecem realmente zonas de guerra, onde a polícia é considerada um exército de ocupação. Mas o Brasil é também o país mais desigual do mundo e, ao ignorar as razões sociais da violência, o filme enaltece uma estratégia que por si só demonstra seu fracasso. Um governador populista do Rio uma vez ofereceu pagamento em espécie aos policiais que matassem criminosos, o famoso “bônus do oeste selvagem”, mas a taxa de crimes continuou a aumentar.

Aproximadamente meio milhão de brasileiros foram assassinados na última década, o que torna o país mais violento do que a maioria das zonas de guerra. Os brasileiros estão zangados e com medo do que está acontecendo em seu país, procurando desesperadamente por soluções.

Em um determinado ponto no filme, Matias confronta um grupo de pessoas em passeata protestando contra a morte de seus colegas universitários assassinados, acusando-os de só se importarem quando a violência atinge a classe média. Demonstrações como estas são comumente organizadas por ONGs como “Eu sou da Paz”, que também incrementa programas sociais em favelas. Uma série de estudos tem demonstrado que estes programas, que o filme extrapola ao difamá-los, têm obtido sucesso na redução dos crimes.

“Tropa de Elite” acusa a classe média brasileira de alimentar a onda de crimes através do consumo de drogas, o que é provavelmente verdade, mas sua mensagem excessivamente política é de cinismo e desespero. As cenas de tortura e violência não são apenas chocantes por causa do seu impacto, mas também porque desumanizam os moradores das favelas a quem são infligidas.

A violência no Brasil é um sintoma de um largo conjunto de problemas sociais, em relação aos quais os brasileiros devem assumir sua responsabilidade. A maioria da classe média brasileira nunca pôs o pé numa favela e fala sobre elas como se fossem outro país. Filmes como “Tropa de Elite” ajudam a mantê-la nessa alienação.

(*) Artigo publicado originalmente no jornal inglês ‘The Guardian’ em 18/02/2008, por ocasião da premiação do filme “Tropa de Elite” no Festival de Berlim. Tradução de João Paulo Gondim Cardoso, colaborador do Fazendo Media. Clique aqui para ler o original.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Filmes: "Conversas Com Meu Jardineiro"

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ENCONTRO DE MUNDOS

Filme francês aborda questões complexas e faz crítica social de modo simples e humano, sem radicalismo, conflitos ou panfletagem.

- por André Lux, crítico-spam

É incrível a capacidade que alguns filmes têm de tocar em temas complexos e profundos sem serem panfletários, melodramáticos ou didáticos. “Conversas Com Meu Jardineiro”, filme francês dirigido por Jean Becker, é um desses raros exemplares.

Construído a partir do relacionamento entre dois personagens oriundos de classes sociais bem distintas, o roteiro aborda de forma sensível e discreta o abismo social que existe entre a burguesia e os operários. O primeiro é representado pela figura de um artista em crise conjugal e criativa (o sempre ótimo Daniel Auteuil) e o segundo por um ex-ferroviário que, aposentado, atua como jardineiro (Jean-Pierre Darroussin, que lembra o ator estadunidense Billy Bob Thornton).

Como uma relação próxima entre pessoas de classes sociais tão distintas seria inverossímil, mesmo num país do dito primeiro mundo, cria-se entre eles um passado em comum. Assim, ambos estudaram juntos na mesma escola quando eram crianças e acabaram expulsos depois de aprontar com um de seus professores. O mais rico prosseguiu os estudos, enquanto o outro largou tudo para pegar no batente. “Escola é o que acontece com a gente enquanto não temos idade para trabalhar”, ironiza o jardineiro.

Para o espectador mais atento aos problemas sociais do mundo, fica evidente o teor crítico das observações feitas pelo jardineiro, especialmente ao modelo neoliberal que, a exemplo do que aconteceu na América Latina, também foi implantado na França com resultados catastróficos para os mais pobres. “Hoje em dia, não existem mais empregos para os jovens”, reclama. Situação que tende a piorar ainda mais depois da eleição do extremista de direita, Nicolay Sarkozy.

Estabelecido o vínculo que permite aos protagonistas interagirem de forma convincente, “Conversas Com Meu Jardineiro” faz jus ao título e mostra uma série de diálogos entre os dois que variam do divertido ao lacônico. Aos poucos, a realidade de cada um começa a interferir na vida do outro.

Como era de se esperar, o convívio com o jardineiro e ex-ferroviário vai causar mais impacto no artista burguês, que vem de uma classe social geralmente alienada e insensível às questões sociais, colocando-o frente a frente com os problemas e injustiças sofridos pelos mais pobres – tais como atendimento médico precário, falta de opção de lazer e limitado conhecimento cultural. Tudo isso vai torná-lo uma pessoa mais sensível, ajudando-o inclusive a recuperar laços familiares e a inspiração perdida.

E é justamente a maneira que esse encontro entre mundos tão distintos é abordada que torna o filme especial. Sem discursos, conflitos nem radicalismos. Tudo muito humano e, em última instância, tocante.

Apenas duas coisas me incomodaram um pouco durante a projeção: a ausência de trilha musical e de canções (exceto por duas peças eruditas, uma delas de Mozart que também encerra os créditos) e o excesso de bate papo entre os protagonistas em algumas cenas que acabam se tornando redundantes. Mas é só. Nada que conte muitos pontos para tornar a experiência menos agradável e rica.

Cotação: * * * *
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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Filmes: "Desejo e Reparação"

NEM MAIS, NEM MENOS

De vez em quando surgem filmes que fazem a gente voltar a ter esperança na sétima arte. 

- por André Lux, crítico-spam

De vez em quando surgem filmes que fazem a gente voltar a ter esperança na sétima arte. “Desejo e Reparação” é um deles, onde todos os elementos que dão vida ao produto cinematográfico são de qualidade excepcional e existem somente para o benefício da história a ser contada e das emoções transmitidas. Nem mais, nem menos.

Uma cena que mostra a chegada dos soldados à desolada praia de Dunkirk, na França, durante a segunda guerra mundial, ilustra bem essa perfeição: são mais de cinco minutos de um plano-seqüência sem cortes, onde uma multidão de pessoas é movimentada com precisão, trazendo resultados arrebatadores.

Baseado no romance de Ian McEwan, o filme tem como tema central um erro irreparável que destrói a vida de quase todos os personagens principais, cometido de maneira consciente, porém ingênua, por uma criança movida por paixões que ainda não tinha maturidade para compreender ou controlar.

Assim, num momento de ciúme vingativo, a menina Brioni, a filha de 13 anos de uma família aristocrata da Inglaterra dos anos 1930, acusa o filho da empregada (o intenso James MacAvoy, revelado na mini-série “Os Filhos de Duna”) de um crime que não cometeu. Justamente no momento em que o amor que ele sentia pela irmã mais velha dela (Keira Knightley) foi revelado – e aceito.

A denuncia contra o preconceito social e a hipocrisia das ditas “elites” também se faz presente, pois a prisão injusta do jovem oriundo das camadas mais baixas acaba sendo uma espécie de “vingança” silenciosa dos aristocratas contra aquele insolente que ousou tentar melhorar de vida, fazendo planos inclusive de estudar medicina, recusando-se a aceitar “seu lugar” e, pecado dos pecados, engraçando-se com uma de suas filhas.

Gostei muito da montagem inventiva (de Paul Tothill), que surpreende ao retornar a cenas já exibidas, mas monstrando-as sob um outro ponto de vista como que para lembrar o espectador que nem tudo é o que parece ser. A bela trilha musical de Dario Marianelli, cujo talento já havia sido comprovado em filmes como “V de Vingança” e “Os Irmãos Grimm”, também é muito eficiente e torna-se marcante ao incorporar musicalmente os sons de uma antiga máquina de datilografar ao tema de Brioni.

É por tudo isso que a tragédia descrita no filme ganha contornos ainda mais tocantes, especialmente durante a conclusão, quando a excepcional Vanessa Readgrave tem uma cena solo capaz de arrancar lágrimas do mais duro espectador. Afinal, quem é que nunca cometeu (ou foi vítima de) um erro irreparável, consciente ou não, que trouxe conseqüências desagradáveis, quando não trágicas, a si mesmo ou a outras pessoas durante a vida?

Não por acaso, durante a exibição veio à mente “O Paciente Inglês”, outro filme excelente que tem temática e clima parecidos – e parece que eu não estava errado, já que o próprio diretor daquele filme, Anthony Minghella, aparece em uma ponta como o entrevistador no final.

Para quem gosta de dramas históricos com uma pitada de comentário social ou simplesmente de cinema feito com amor e requinte, “Desejo e Reparação” é uma ótima opção. Simplesmente imperdível!

Cotação: * * * * *
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