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quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

"Star Wars: Os Últimos Jedi" e a Ira dos Fanboys

Afinal, o episódio 8 de Star Wars merece esses ataques todos que vem recebendo de alguns fãs? Confira minha opinião.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Filmes: "Star Wars: Os Últimos Jedi"

NEGÓCIO ARRISCADO

Novo filme de “Star Wars” ousa seguir caminhos diferentes e provoca a fúria dos fãs mais conservadores

- por André Lux, crítico-spam


Não deve estar nada fácil a vida dos responsáveis pela continuidade da franquia Star Wars tanto na Lucasfilm, quanto na Disney, agora que a criação de George Lucas adquiriu ares míticos e gera um fanatismo inacreditável entre muitos apreciadores. O filme anterior “O Despertar da Força”, sétimo capítulo, foi bem recebido pela maioria e fez grande sucesso, porém recebeu muitas críticas por ter trilhado caminhos fáceis demais e foi acusado de basicamente refilmar o episódio IV, “Uma Nova Esperança”. O que não deixa de ser verdade.

Chega agora aos cinemas a esperada continuação “Star Wars: Os Últimos Jedi” e as reações tem sido basicamente de amor e ódio. Eu confesso que tive que ver o filme duas vezes (a primeira assisti em cópia dublada e com minha filha pequena junto, o que me impediu de prestar a atenção em muitas passagens) para finalmente formar minha opinião (vejam aqui o vídeo que gravei logo após a primeira exibição). E agora posso dizer em alto e bom som que o filme é muito bom! E totalmente fora do que todo mundo esperava!

E esse é o principal fato que muitos fãs não estão conseguindo entender e que vem gerando tanta fúria. O roteirista e diretor Rian Johnson, do qual vi apenas “Looper” um filme que considero fraco, recebeu carta branca para criar este novo episódio da forma que achasse melhor e ele ousou e fez um negócio extremamente arriscado. “O Despertar da Força”, que recebeu críticas por ser reciclagem dos anteriores, levantou um monte de bolas no ar que serviram para gerar centenas de conjecturas e teorias entre os fãs, a maioria relacionadas aos personagens Rey, Luke e Snoke. Mas o senhor Johnson meio que deu uma banana para tudo isso e criou algo completamente novo e inesperado, fugindo do óbvio e ignorando por completo as “fan theories”. Em alguns momentos ele parece estar literalmente "trollando" esse pessoal! Reparem por exemplo que em nenhuma parte do filme acontece um duelo de sabres de luz!

Por causa disso deixou todo mundo coçando a cabeça sem entender direito o que havia visto e provocou reações extremas de fúria entre muitos apreciadores, vários dos quais reclamaram das obviedades do filme anterior. Em termos de estrutura e temática, “Os Últimos Jedi” é bastante semelhante a “O Império Contra-Ataca”, o quinto episódio e considerado o melhor pela maioria absoluta. Assim como aquele, o novo filme é um tratado sobre o fracasso, algo que é inclusive destacado na fala de um dos personagens da série original que reaparece aqui em uma ponta.

Todavia, o que a maioria esquece é que “O Império Contra-Ataca” não fez tanto sucesso quanto os outros filmes na época. Eu, por exemplo, vi o primeiro, “Uma Nova Esperança”, quando tinha oito anos de idade três ou quatro vezes no cinema, algo praticamente épico num tempo em que não existiam shopping centers e você tinha que arrastar seus pais para as salas que ficavam no Centro da cidade. Já “O Império” eu vi apenas uma vez e meio que apaguei da memória devido ao trauma causado principalmente pela revelação sobre Darth Vader ser o pai do Luke e pela surra que os rebeldes tomam do Império. Algo completamente oposto do clima otimista e festivo do anterior. Não estou comparando os filmes, apenas dizendo que existem muitas semelhanças entre eles, inclusive a reação dos espectadores.

Por isso que consegui apreciar melhor “Os Último Jedi” apenas durante a segunda exibição, quando já tinha jogado minhas expectativas pela janela e o senti pelo que ele é. Só que mesmo durante a primeira sessão eu achei o filme muito bem feito e divertido, embora apresente muitas falhas e furos no roteiro. Mas em momento algum senti vergonha como aconteceu durante os infames episódios I, II e III, especialmente “A Vingança dos Sith” durante o qual me contorci em agonia durante quase toda a exibição.




Um dos pontos altos do novo filme, como é de costume em Star Wars, é a trilha musical do mestre John Williams que reusa vários temas dos filmes antigos de forma fabulosa (principalmente o da Princesa Leia), levantando o nível geral de qualidade e gerando emoção na medida certa até em momentos que seriam piegas sem sua música sensacional. Nada mal para um senhor de 85 anos que continua exibindo o mesmo vigor e criatividade de sua juventude! 


Interessante também que “Os Últimos Jedi” assume uma veia totalmente anti-capitalista durante a sequência do Cassino de Canto Bigth, onde magnatas torram rios de dinheiro ganho com a venda de armas para a Primeira Ordem e a Resistência, lembrando que guerras são o negócio mais lucrativo em qualquer sistema estelar. 

Star Wars sempre foi, obviamente, antissistema e pró-democracia, afinal Luke Skywalker nada mais era do que um Che Guevara espacial que pegava em armas para derrotar a ditadura do Império (que sempre foi inspirado em Hitler e no nazismo). Chega a ser cômico ver fãs de Star Wars que seguem ideologias de direita e fascistas até. Não cai a ficha de jeito nenhum para algumas pessoas, infelizmente...

Enfim, se você não gostou do filme da primeira vez, vá ver de novo com a mente aberta e sem expectativas. Garanto que terá uma experiência totalmente diferente. E se não viu ainda... o que está esperando?

Cotação: * * * * 1/2

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Filmes: "Thor Ragnarok"

DIVERTIDO

Mas é melhor deixar o cérebro na entrada


- por André Lux, crítico-spam

“Thor Ragnarok” é o terceiro da franquia do ex-deus nórdico e o melhor deles. Aqui resolveram transformar tudo em comédia mesmo, sem tentativas de levar a sério, que foi um dos principais erros dos dois primeiros que foram bem fraquinhos. 


Assim fica mais fácil perdoar a falta de coerência do personagem, cujos poderes e limitações nunca ficam claros - em algumas cenas é indestrutível (sobrevive inclusive a uma luta contra o Hulk só com alguns arranhões), enquanto em outras é facilmente dominado por meio de algemas e de um aparelhinho que enfiam em seu pescoço.

O visual do filme é bacana, colorido e vibrante, a trilha musical de Mark Mothersbaugh consegue ser original ao misturar orquestra com teclados típicos dos anos 80 (ele é um dos fundadores da banda Devo) e o elenco de apoio não deixa a peteca cair, principalmente nos momentos mais cômicos.

A trama que dá vida ao filme, sobre a irmã malvada do Thor (Cate Blanchete certamente divertiu-se no papel) que reaparece e quer destruir tudo, é a coisa menos interessante e atrapalha toda vez que volta ao foco, mas parece que isso é necessário para deixar “Thor Ragnarok” acessível ao espectador médio que provavelmente não entenderia a razão de ser do longa sem algum tipo de conflito bem definido entre o bem e o mal.

Não entendo também como é que Odin (Antony Hopkins com visual de Véio do Rio) pode morrer. Ele não é um deus imortal? Thor e Loky passam por todos os tipos de perigos e devastações e continuam firmes e fortes. Já a mãe deles foi morta com uma simples facada no segundo filme e agora o todo-poderoso Odin morre de velhice, ao que parece. Não faz sentido.

Mas, quem liga, não é? Você pagou para ver um filme sobre o Deus do Trovão dos Vikings que virou super-herói da Marvel, então não dá pra exigir muita lógica mesmo. Melhor deixar o cérebro na entrada e se divertir.

Cotação: * * *

sábado, 7 de outubro de 2017

"Blade Runner": diferenças entre as três principais versões

Filmes: "Blade Runner 2049"

PRETENSÃO DEMAIS, EMOÇÃO DE MENOS

O maior problema desse novo filme é que ele QUER ser uma obra-prima e, no final das contas, acaba sendo apenas pretensioso e incrivelmente arrastado

- por André Lux, crítico-spam


Blade Runner” fracassou na sua estreia em 1982, mas ao longo dos anos tornou-se cult e um dos mais influentes de todos os tempos, especialmente nos quesitos cinematografia e direção de arte. Dirigido por Ridley Scott na época em que ainda tinha algo a dizer, o filme é reconhecido hoje como uma obra-prima que mistura com perfeição ficção científica e policial “noir”, mas sua concepção passou longe de ter sido fácil. Pelo contrário, as brigas entre Scott e o elenco (especialmente Harrison Ford) e sua equipe técnica renderam inclusive livros e documentários excelentes.

A verdade é que ninguém sabia muito bem o que estava fazendo a partir de um roteiro vagamente inspirado em livro do excêntrico Phillip K. Dick. Nem mesmo Scott, haja vista o sem número de versões e novos cortes do filme (oficialmente são 6, culminando recentemente com o “Final Cut” supervisionado pelo próprio diretor!). Mas são assim que as obras geniais do cinema geralmente nascem: de produções conturbadas com poucos recursos e duelos homéricos entre artistas e executivos desesperados por espremer cada centavo atrás de lucro.

Surge então, 35 anos depois, a continuação do clássico, chamada de “Blade Runner 2049” e situada três décadas após os acontecimentos descritos no original. O maior problema desse novo filme é que ele QUER ser uma obra-prima e, no final das contas, acaba sendo apenas pretensioso e incrivelmente arrastado. É um filme de duas horas esticado em um de quase três. Embora o roteiro faça um esforço para ligá-lo ao original, não parece que a ação se passa no mesmo mundo. O estilo de fotografia escolhido pelo diretor Denis Villeneuve e o consagrado fotógrafo Roger Deakins é bem diferente do criado por Ridley Scott e pelo genial Jordan Cronenweth. Villeneuve, que acabara de fazer o brilhante “A Chegada”, aplica o mesmo estilo visual sonolento-esfumaçado aqui, mas isso acaba prejudicando seu “Blade Runner”, pois deixa a tela embaçada, opaca, fator que impede que as grandes tomadas com efeitos visuais brilhem. Muitas vezes mal dá pra ver o que está acontecendo ou para onde os personagens estão indo.

Infelizmente, o maior peso morto do filme novo é o próprio Blade Runner feito por Ryan Gosling, um ator limitado que passa o filme todo com a mesma cara de paspalho. Ficamos sabendo logo no início que ele é um “replicante”, ou seja, um clone designado para não ter emoções humanas e memórias implantadas. Não há, portanto, qualquer possibilidade de nos conectarmos com ele, especialmente quando interage com uma mulher que nada mais é do que um holograma tridimensional, no que é basicamente um robô namorando um programa de computador (subtrama que, por sinal, poderia ter sido descartada já que não chega a lugar algum e tem relevância nula para o filme). Como eles querem que a plateia se relacione com isso? Não dá. Logo, as aventuras de K (abreviatura do seu número de série) não passam qualquer emoção, até porque ele é virtualmente indestrutível. E sobra para o espectador acompanhar ele sendo jogado através de paredes, levando 38 socos na cara, 26 facadas e 14 tiros a queima roupa só para sair andando numa boa em seguida. Há uma luta à beira mar entre ele e outra "replicante" que é particularmente tediosa e alongada além da conta.


"Vamos fazer amor?", diz o holograma para o robô
O charme do filme original - e principal motivo do seu brilhantismo - vem do fato dos “replicantes” estarem em busca da sua humanidade e sobrevivência, demonstrando no processo muito mais emoções como empatia e compaixão do que os próprios seres humanos que vivem em estado praticamente catatônico naquele mundo devastado e poluído. Graças a essa construção narrativa bastante simples, porém eficaz, nos conectamos e nos emocionamos com os arcos sofridos pelos personagens, principalmente o “replicante” Roy Batty, magistralmente interpretado pelo holandês Rutger Hauer, e pelo próprio Blade Runner feito por Harrison Ford, o qual no final pode ser ele mesmo um “replicante”. No filme novo não há nada disso. Os personagens humanos praticamente não existem (e são fracos, com destaque negativo para a chefe de polícia, feita pelo Robin Wright, um personagem que só serve para explicar a trama e agir de maneira totalmente ilógica) e os “replicantes” não tem qualquer desenvolvimento, sendo o pior a malvada assistente do magnata Niander Wallace (um Jared Leto sem qualquer sutileza), uma replicante chamada Luv, que é totalmente caricata e feita por uma atriz péssima.

No terceiro ato, o Blade Runner original, Rick Deckard, reaparece, mas Harrison Ford nem mesmo se esforça para atuar da mesma forma abrasiva e sorumbática do primeiro filme, limitando-se a ser... bem, ele mesmo - com direito a todas as caretas e trejeitos de sempre. O filme aí quer apresentar algumas reviravoltas na trama, mas sinceramente já tinha adivinhado quase tudo faz tempo, sendo que algumas não fazem sentido ou são apenas desinteressantes (a revolta dos “replicantes”, certamente uma porta para possíveis continuações).

O ponto mais baixo do filme, como seria de esperar, é a trilha musical composta pelo abominável Hans Zimmer (em parceria com o sujeito que fez a música de “It – A Coisa”), que nada mais é do que um punhado de barulhos irritantes, ora semelhantes ao peido de um rinoceronte, ora imitando o som de uma serra elétrica - com os volumes aumentados à centésima potência! De vez em quando tenta emular a maravilhosa trilha original de Vangelis, mas nem isso sabe fazer direito, acrescentando sempre algum som bombástico irritante por cima sem qualquer requinte. E sou obrigado a dizer que nem fica entre as piores trilhas dele! Zimmer tem a desculpa de ter sido chamado na última hora, depois que a trilha composta por Johann Johannsson (parceiro habitual do diretor Villeneuve) foi rejeitada. Mas é difícil imaginar que ele tenha criado algo pior do que Zimmer e seu afastamento deve ter sido exigência dos executivos do estúdio, preocupados com um possível fracasso do filme (quando isso acontece, a trilha musical é o primeiro item a “dançar”).

Zimmer, o abominável: "vai uns peidos de rinoceronte aí?"
Não vou exagerar dizendo que “Blade Runner 2049” é ruim. Não é. Tem qualidades, porém os defeitos as superam e a metragem exagerada (2h41) atrapalha muito. Uma coisa é ter ritmo lento, outra é caminhar a passos de tartaruga só para alongar a metragem, como se isso fosse sinônimo de profundidade. Não é. Sem dizer que a aproximação hiper-realista e minimalista do novo filme vai contra a poética e existencialista do original. Mas pra mim nem foi isso que atrapalhou e sim a total ausência de emoção e empatia com os protagonistas (chegaram a recriar o personagem de Sean Young, a “replicante” Rachel, em computação gráfica, mas o resultado é simplesmente risível).

Verdade seja dita: esse era um projeto suicida desde o início, já que é impossível superar ou mesmo chegar aos pés de uma obra-prima como “Blade Runner” e, francamente, poderia ter resultado bem pior (mas quem não é no mínimo fã do original não vai entender absolutamente nada do que acontece neste filme). Mas deveriam ter evitado alguns erros e clichês primários e concentrado o foco em construir personagens mais humanos e ao menos ter tentado dar continuidade à paleta visual e estética do filme original. Esses tipos de falhas, na conjuntura atual, são imperdoáveis.

Cotação: * * 1/2

sábado, 30 de setembro de 2017

Série: "13 Reasons Why" (Os 13 Porquês)

GRITO DE ALERTA

Suicídio de adolescente expõe sociedade doente e desumana, em que as pessoas são apenas números e as relações se dão por interesses egoístas

- por André Lux, crítico-spam

A série “13 Reasons Why” (“Os 13 Porquês”) aborda de forma direta e realista um tema tabu em nossa sociedade: o suicídio. Trata-se de uma produção da cantora Selena Gomez inspirada no livro de Jay Asher e adaptado para as telas pelo dramaturgo Brian Yorkey. Narra as razões pelas quais Hanna Baker, uma adolescente de 17 anos, diz ter sido levada a tirar a própria vida. Gravadas em fitas cassetes antigas e enviadas postumamente, as mensagens responsabilizam os colegas de convívio pelo desfecho trágico.

A série provocou forte polêmica, com várias pessoas alegando que ela pode estimular ainda mais o suicídio, que segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) mata atualmente um milhão de pessoas por ano (uma a cada 40 segundos), o que equivale a 1,4% dos óbitos totais, sendo que cerca de 75% ocorrem em países de renda média e baixa (mais informações neste link). O principal motivo apontado pelos seus detratores é de que série teria “glamourizado” o suicídio, mostrando as fitas gravadas pela jovem como uma forma de se vingar daqueles que supostamente a teriam levado a tirar a própria vida, fator que pode provocar o chamado efeito Werther, termo científico pelo qual a publicidade de um caso notável serve de estímulo a novas ocorrências.

O psiquiatra Luís Fernando Tófoli, por exemplo, chegou a elaborar 13 parágrafos para alertar sobre os perigos da série. “O programa tem o potencial de causar danos a pessoas que estão emocionalmente fragilizadas e que poderão, sim, ser influenciadas negativamente. Não é absurdo inclusive considerar que, para algumas pessoas, a série possa induzir ao suicídio. Portanto, pessoas em situações de risco deveriam ser desencorajadas a assistir a série”, afirma o médico em seu artigo (leia a íntegra neste link).

Confesso que esse é um tema bastante delicado para qualquer pessoa que, como eu, sofre de Depressão e já teve pensamentos, tentativas de tirar a própria vida ou casos de suicídio entre familiares e amigos. Nesse sentido, “13 Reasons Why” não é um prato fácil de digerir, pois aborda a questão sem medo de colocar o dedo na ferida, elencando de forma bastante didática todos os acontecimentos trágicos que levaram a jovem Hanna a se matar.

Será que a série teria mesmo essa capacidade de estimular o suicídio? A resposta é complexa e, embora entenda perfeitamente os alertas feitos pelos especialistas, acho que ela pode também salvar vidas. O Centro de Valorização da Vida (CVV) relatou ter percebido um aumento de aproximadamente 100% no número de mensagens de texto e ligações de pessoas dispostas a conversar sobre o suicídio. De acordo com a instituição, muitos desses relatos mencionam a trama, que tem como fio condutor a morte de Hannah Baker (leia mais neste link).

Enfim, é uma faca de dois gumes. Se você aborda de forma direita um tema “proibido” desse tipo, corre o risco de estimular novos casos, mas se joga pra baixo do tapete, como faz a maioria das pessoas, certamente não vai ajudar em nada as pessoas que estão sofrendo e pensando em tirar a própria vida. Um dos principais motivos que leva alguém a cometer tal ato é certamente a sensação de isolamento e solidão, fatores que elevam à enésima potência os problemas que a levam tal estado e à Depressão. Ao assistir uma série como “13 Reasons Why”, essa pessoa pode entender que não está só, que não é a única a estar naquela situação sentindo o que sente, e isso pode amenizar sua dor e colocá-la em uma perspectiva menos desesperante.


Dificuldade de comunicação franca e aberta leva a tragédias
Sobre a série em si, que é uma obra de ficção, posso dizer que é muito bem feita e prende a atenção do começo ao fim, embora estique algumas situações além da conta para aumentar o tempo de duração. Não acho que glamourize o suicídio, pelo contrário, penso que mostra com riqueza de detalhes as angústias, pressões e abusos sofridos pelos adolescentes, principalmente dentro da cultura estadunidense, onde a maior ofensa é ser chamado de “perdedor” (looser), cultura essa que já foi exportada com sucesso para grande parte do mundo, especialmente o Brasil.

No final das contas, trata-se de um pertinente grito de alerta em uma sociedade cada dia mais doente e desumana, em que as pessoas são vistas apenas como números ou estatísticas e as relações se dão cada vez mais apenas por valores egoístas e de interesse. A imensa dificuldade de comunicação franca e aberta entre as pessoas, especialmente entre pais e filhos, também é um dos fatores apontados pela série como desencadeadores de mal entendidos que levam a tragédias.

As perguntas que mais se escutam ditas por familiares e amigos de pessoas que se mataram é: “Por que ela fez isso? Por que ninguém percebeu os sinais?”. “13 Reaons Why” dá uma pista das respostas e, acreditem, os sinais são muito fáceis de serem percebidos, porém poucos tem a empatia e o interesse necessários para enxergá-los, muito menos para dar a mão a quem precisa de ajuda. Depois não adianta chorar. Afinal, como diz a chamada da série, “se você está ouvindo isso, já é tarde demais”...

Cotação: * * * *

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Filmes: "IT - A Coisa"

NÃO É UMA OBRA-PRIMA DO MEDO

Apesar de bem feito, filme acaba sendo episódico e repetitivo

- por André Lux, crítico-spam

Essa é a segunda adaptação para as telas do livro gigantesco (mais de mil páginas!) “IT – A Coisa” que Stephen King escreveu em 1986, segundo dizem no auge do seu vício em cocaína. A primeira foi uma minissérie de 6 horas de duração, dividia em dois capítulos e cujo subtítulo era o ridículo "Uma Obra-Prima do Medo". Na época fez sucesso, mas analisada hoje percebe-se que era bem ruim, especialmente a segunda parte com os adultos.

Chega agora uma nova versão para os cinemas, mais bem produzida e que se fixa apenas nas crianças e suas desventuras. Todavia é bom alertar que o filme não tem uma conclusão e mostra só no início dos créditos finais ser o “Capítulo I”, algo que não me parece muito honesto de ser feito, já que omite do espectador que trata-se apenas da primeira parte de um filme duplo, cuja explicação e resolução só vão surgir no “Capítulo II”.

Enfim, enganações à parte, o novo “IT – A Coisa” é certamente muito melhor que a minissérie, mais bem produzido e atuado, porém ainda assim fica num meio termo e a melhor cena é a que já havia sido mostrada no trailer, a do menino e o palhaço no bueiro. As razões são várias, a começar pela dificuldade em se adaptar as obras de King para o cinema, já que seus livros são muito mais calcados nos medos interiores dos personagens do que em cenas de terror meramente visuais.

Segundo porque não é muito bem conduzido e acaba sendo episódico. às vezes parece que estamos vendo dois filmes diferentes. Um sobre o despertar dos jovens para a adolescência e outro de puro terror. Muitas vezes a narrativa pula de um tema para o outro sem muita lógica. Há também um excesso de piadinhas disparadas por um dos garotos (o ator é o protagonista de “Stranger Things”) que simplesmente não funcionam na maior parte das vezes, ainda mais naquele contexto de terror e violência.

Outro problema é justamente a semelhança da obra com tantas outras, desde “Conta Comigo” do próprio King, até as atuais “Super 8” e “Stranger Things”, que são obviamente inspiradas em “IT”. No final acaba sendo uma espécie de “Goonies” versus “Freddie Krugger” com pitadas de “Poltergeist”, mas com defeitos na estrutura que prejudicam o resultado final. 


O maior deles é que nunca ficam claros quais os limites e alcances dos poderes da entidade maligna que persegue os habitantes da pequena cidade, o qual se manifesta na maior parte das vezes como o palhaço Pennywise, feito por Bill Skarsgård destacando apenas a faceta assustadora dele, bem diferente da atuação de Tim Curry na minissérie para a TV. 


Tim Curry e Bill Skarsgård como Pennywise
Em algumas cenas, como a do bueiro, ele primeiro parece ter que seduzir a criança para ir até ele e então a ataca ferozmente, enquanto em outras ele parte direto pra cima, mas deixa as vítimas escaparem sem lógica. E em outra sequência ele atrai um dos meninos para a casa abandonada, o aterroriza na forma de um mendigo infestado por doenças para depois aparecer como o palhaço e ficar só olhando pra ele sinistramente enquanto segura balões. No fim, ele parece inclusive dominar a mente das pessoas, obrigando-as a fazer maldades, algo que parece ser recorrente no livro.

Enfim, não é essa obra-prima do medo que muitos críticos histéricos estão apontando, mas também não chega a ser ruim. Não consegue fugir de alguns clichês mofados do gênero (como a mocinha em perigo, algo que não existe no livro) e acaba apenas sendo um pouco longo, repetitivo e falha em não ser capaz de explicar de forma clara as regras daquele mundo, algo que é essencial para gerar suspense a partir da empatia com os protagonistas.

Cotação:
* * *

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Filmes: "Planeta dos Macacos: A Guerra"

MACACO REDUNDANTE

César, certamente um dos protagonistas mais interessantes dos tempos atuais, merecia mais em sua despedida.

- por André Lux, crítico-spam

Depois de um início titubeante com “A Origem” e de um segundo capitulo excelente, “O Confronto”, o “reboot” da franquia “Planeta dos Macacos” termina de forma decepcionante com “A Guerra”. É verdade que seria mesmo muito difícil superar o filme anterior, uma das melhores e mais surpreendentes super-produções do cinema comercial estadunidense, mas bem que poderiam ter tentado criar um roteiro melhor elaborado e impactante. 

Infelizmente apostaram em reciclar as idéias e situações de “O Confronto”, como se todo o arco vivido pelo macaco César não tivesse acontecido, pecado mortal de muitas continuações feita em Hollywood. Por causa disso, “Planeta dos Macacos: A Guerra” acaba se tornando redundante, já que o protagonista tem que reviver praticamente os mesmo confrontos e dilemas morais do filme anterior, o que deixa narrativa frouxa e arrastada, principalmente no segundo ato quando vira filme de prisão, com direito a várias cenas de tortura e sofrimento.

Há também um excesso de citações ao cristianismo e a outros filmes como o “Planeta dos Macacos” original de 1968, “Apocalipse Now” e “A Ponte do Rio Kway” que, embora sejam divertidas para os cinéfilos, pouco acrescentam ao resultado final, sendo que algumas até atrapalham. É o caso do Coronel obcecado em aniquilar os macacos, numa citação direita ao personagem vivido por Marlon Brando no filme de Coppola, mas que não funciona e por vezes beira o ridículo. Primeiro porque Woody Harrelson não tem o peso necessário para o papel, sendo mais adequado para comédias, e segundo porque o personagem é mal desenvolvido e suas motivações soam forçadas e inconvincentes, ainda mais da forma que são apresentadas em longos discursos expositivos proferidos por ele para César.

A falta de humanos interessantes no filme, defeito que já existia no segundo capítulo em menor escala, também prejudica a narrativa, pois impede que seja criado o conflito necessário para gerar suspense ou empatia. Aqui todos são soldados malvados, caricaturas unidimensionais do que existe de pior na raça humana. Teria sido bem melhor se os personagens do filme anterior tivessem sido reaproveitados, o que certamente aumentaria o interesse. A única pessoa que desperta certa compaixão é uma menina muda que os macacos encontram e adotam, mas o final é outro personagem que não acrescenta nada. A melhor coisa acaba sendo o “Macaco Mau”, feito pelo comediante Steve Zahn, que ao menos traz algum humor e leveza a um filme por demais pesado e sério. 

O impressionante Maurice e sua humana adotiva
O filme desanda de vez no ato final, quando uma série de “deus ex machina” são usados para movimentar a trama e salvar os macacos das ameaças, algo que demonstra o quanto os realizadores estavam perdidos na tentativa de encerrar a trilogia. A cena derradeira então não tem qualquer impacto e falha em passar emoções.

Meu texto pode dar a impressão que o filme é ruim, desagradável. Não é. Ainda tem muitas qualidades, a começar pelos efeitos visuais que deram vida aos símios que são simplesmente impressionantes, particularmente o orangotango Maurice. A música de Michael Giacchino continua muito boa, em especial quando usa percussão, e a fotografia do consagrado Michael Seresin mantém a mesma qualidade do filme anterior. É uma pena que não conseguiram bolar um roteiro mais inteligente e original que ao menos não virasse uma cópia do segundo filme. O macaco César, certamente um dos protagonistas mais interessantes dos tempos atuais, merecia mais em sua despedida.

Cotação: * * *

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Filmes: "Dunkirk"

PASTEL DE VENTO COM BRITADEIRA

Christopher Nolan tenta dar uma de Terrence Malick e falha fragorosamente

- por André Lux, crítico-spam


Quem acompanha minhas críticas já sabe que não sou um dos admiradores incondicionais do diretor Christopher Nolan. Dele só gostei mesmo de “Amnésia” e dos dois primeiros “Batman”, mesmo assim com sérias restrições. Acho ele pretensioso demais e dono de uma mão pesada que deixam seus filmes sutis como um elefante correndo numa loja de cristais. E esse “Dunkirk” não foge à regra.

Aqui Nolan pretende dar uma de Terrence Malick, o recluso cineasta estadunidense que fez jóias como “Além da Linha Vermelha” e “Days of Heaven”, ao contar a trágica história do cerco da cidade francesa de Dunkirk durante a segunda guerra mundial, quando soldados franceses, belgas e ingleses ficaram presos à beira da praia, cercados pelos nazistas enquanto esperavam algum tipo de resgate. Ou seja, ao invés de optar por uma maneira mais trivial, Nolan tenta produzir uma experiência cinematográfica basicamente sensorial, com um mínimo de diálogos e contando quase sempre com imagens, atuações do elenco, som e música para captar os horrores da guerra. E, verdade seja dita, falha fragorosamente.

Primeiro porque Nolan não é Malick e, portanto, não chega nem perto do domínio técnico dele para captar imagens impressionantes do ponto de vista estético. Embora não seja ruim, a fotografia do filme é medíocre e não traz nada de novo ao gênero, cujo ápice certamente foi atingido por Spielberg no claudicante, porém tecnicamente brilhante, “O Resgate do Soldado Ryan”, cuja cena de batalha na abertura é inigualável até hoje. 

Segundo porque Nolan é um diretor de atores fraco. Basta ver como ficam todos parecendo zumbis, sempre com a mesma expressão catatônica, ao ponto da gente nem conseguir distinguir direito um personagem do outro. Sei que estavam todos esgotados física e mentalmente, porém não é por isso que deixariam de expressar emoções, que aqui ficam longe de serem registradas.

E terceiro e mais gritante, claro, é a trilha musical composta pelo abominável Hans Zimmer, que certamente é uma das coisas mais bisonhas que ele já pariu em sua já longa e pavorosa carreira. Basicamente, ele colocou para tocar o tema do Coringa do segundo “Batman” durante toda a projeção. Para quem não sabe, em “O Cavaleiro das Trevas” Zimmer criou um tema para o Coringa que é de um simplismo de dar dó: nada mais do que um zumbido de uma nota só tocada pelo cello, sampleado e acompanhado por guinchos de guitarra e sons que se assemelham a alguém jogando um gato em cima do sintetizador. Esse zumbido insuportável é, de vez em quando, entrecortado por um som semelhante ao tic-tac de um relógio, como se fosse para dar uma sensação de urgência que até poderia ser interessante ou mesmo original caso Ennio Morricone já não tivesse usado esse efeito com maestria em 1973 no filme “Meu Nome é Ninguém”. Quando precisa tentar dar alguma emoção ao filme, Zimmer entra com um tema sintético bombástico que soa como algo que Vangelis poderia ter produzido caso estivesse no meio de uma grave crise intestinal. Enfim, um desastre dantesco que literalmente implode o filme de quaisquer pretensões que tenta atingir (basta ver “Além da Linha Vermelha”, cuja temática é semelhante, para perceber que até um picareta como Zimmer consegue dar seu melhor sob o comando de um verdadeiro cineasta, no caso Terrence Malick).

Zimmer: imortalizando a máxima "nada se cria, tudo se copia"

Não bastasse tudo isso, a montagem também não convence, deixando o filme arrastado e difícil de seguir (as cenas de perseguições entre os aviões são inacreditavelmente desconjuntadas e tediosas). Em alguns momentos falhas gritantes de continuidade saltam aos olhos, como na cena em que o oficial feito por Kenneth Branagh olha para um avião com o sol brilhando forte atrás dele, mas no corte seguinte o mesmo avião passa sob um céu completamente nublado. Ou quando um navio tomba e bate no cais esmagando soldados, mas na sequência aparece há mais de 20 metros do mesmo local.

O roteiro, escrito apenas por Nolan (geralmente seu irmão participa), é pífio e divide a ação em três situações e tempos narrativos que servem apenas para deixar o filme confuso. E o diretor erra também ao pular de um ponto para outro nos momentos de maior tensão, acabando com qualquer tentativa de criar suspense. Os diálogos são muito ruins, empolados e artificiais e muitas vezes repletos de pseudo-profundidade que soam ainda mais ridículos vindos de garotos à beira da morte.

Assim como “Interestelar”, esse é mais um pastel de vento produzido por um cineasta apaixonado pelo próprio umbigo, mas que desta vez inovou nos forçando a ingerir tal iguaria sonsa ao som de algo que parece ser uma britadeira (é sério, em alguns momentos eu achei que estavam fazendo alguma obra fora do cinema, cortesia do sr. Zimmer). Os trágicos eventos de Dunkirk estão muito melhor registrados no maravilhoso “Desejo e Reparação” em uma cena breve, porém de impacto emocional arrebatador, algo que esse filme metido a besta passou longe de atingir. Mas muito longe.

Cotação: * 1/2

segunda-feira, 19 de junho de 2017

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sexta-feira, 16 de junho de 2017

Filmes: "The Wizard of Lies"

RETRATO DE UM PSICOPATA

Filme mostra como o mundo dos negócios e o capitalismo neoliberal são perfeitos para que predadores deitem e rolem

- por André Lux, crítico-spam

“The Wizard of Lies” (O Mago das Mentiras, em português) é um filme produzido pelo canal HBO sobre a vida de Bernie Madoff, um dos papas da bolsa de valores estadunidenses que na verdade era um grande enganador o qual construiu um esquema fraudulento de investimentos que no final arruinou a vida de milhares de pessoas.

Dirigido pelo veterano Barry Levinson (de “Sleepers”) e com Robert De Niro no papel do protagonista, o filme é baseado no livro da jornalista Diana B. Henriques que entrevistou Madoff na prisão. Mais do que o retrato de um psicopata, “The Wizard of Lies” mostra como o mundo dos negócios e, em última instância, o sistema capitalista neoliberal são perfeitos para que esse tipo de predador humano deite e role sobre a vida de milhões de pessoas sem qualquer tipo de controle. Em uma das cenas mais marcantes da obra, um dos filhos de Madoff é questionado pela agente do FBI como não poderia saber das fraudes perpetradas pelo pai, ao que ele responde: “Se vocês que deveriam saber de tudo, vigiar tudo, não sabiam, como é que eu ia saber?”.

O filme nem tenta fazer entender os motivos que levaram Madoff a fazer o que fez, até porque fica claro que ele realmente não tinha motivo algum, exceto aquela máxima: “Fiz porque podia”. De Niro tem uma atuação contida e que muito revela sobre a verdadeira natureza do personagem, que praticamente nunca muda de expressão nem demonstra qualquer tipo de empatia, compaixão ou remorso por suas vitimas, nem mesmo pela família que é destruída por suas ações – um dos filhos acaba de suicidando, o outro morre de câncer alguns anos depois e a esposa (Michelle Pfeifer) vive de favor da casa da irmã, na Flórida. Chega a afirmar que é mais feliz vivendo na prisão.

O único momento em que ele tem algum tipo de reação é quando fica indignado ao ser comparado em um grande jornal com Ted Bundy, um serial killer que matava e colecionava a cabeça de suas vítimas. “Como podem me comparar a esse sujeito? Você acha que eu sou um sociopata?”, questiona na cena final à jornalista. Basta olhar as fotos do verdadeiro Madoff e reparar na expressão de tubarão em seus olhos para saber a resposta.


Madoff e o olhar do tubarão neoliberal
O que nos faz perguntar: quantos Bernie Madoff estão por aí, à solta, no mundo dos negócios, na política e nas grandes corporações, tomando decisões por todos nós e empurrando a raça humana cada vez mais rumo ao abismo? Melhor nem pensar nisso, é assustador demais...

Cotação: * * *

domingo, 4 de junho de 2017

Filmes: "Mulher-Maravilha"

MULHER-ASSASSINA

O melhor é não passar nem perto dessa besteira, principalmente as crianças que deveriam ser o público alvo do gênero


- por André Lux, crítico-spam

A DC bem que tentou, mas ainda não foi desta vez que conseguiu produzir um filme baseado nos seus super-heróis em quadrinhos que consiga limpar a imagem péssima que conquistou com os anteriores, principalmente “Homem de Aço” e “Batman versus Superman”, dois dos filmes mais grotescos já lançados até hoje no gênero.

Obviamente os executivos da Warner leram a enxurrada de críticas dos fãs que, em sua grande maioria, abominaram as adaptações mais recentes e tentaram a todo custo elevar o nível nesse “Mulher-Maravilha”. Para isso, contrataram uma mulher para dirigir o filme, Patty Jenkins (de “Monstro”), e criaram um roteiro que é quase uma cópia carbono do primeiro “Capitão América”, tanto em termos de estrutura, quanto de motivações e até vilões (os alemães). Copiaram também o esquema de "peixe fora da água" e as tentativas de humor do primeiro "Thor". Mas não deu muito certo, embora seja realmente um pouco melhor que os outros da DC, o que não chega a ser um grande elogio dada a ruindade daqueles filmes.

“Mulher-Maravilha” começa mostrando ela ainda criança na ilha das amazonas querendo de qualquer jeito aprender a lutar com a tia Antíope (Robin Wright, desperdiçada), enquanto sua mãe a rainha faz de tudo para impedir. Só que essa atitude da mãe não tem qualquer lógica, afinal ela é uma deusa e seria muito mais razoável treiná-la desde cedo para enfrentar seu destino, já que ela foi criada para ser a última defesa contra o deus-vilão Áres, cuja identidade secreta fica óbvia desde o primeiro momento para qualquer um que já tenha visto esse tipo de filme mais de uma vez na vida. Enfim, essa sub-trama é uma perda de tempo de projeção, já que ela é treinada de qualquer jeito até crescer. Aí começa o segundo grande problema do filme, já que a protagonista passa a ser interpretada por Gal Gadot, uma dessas mulheres-palito que fazem a cabeça dos estilistas de moda atualmente. A moça, que foi "revelada" num desses "Velozes e Furiosos", é uma atriz muito limitada, o que fica evidente quando tenta demonstrar alguma emoção.

A terceira e maior falha é algo que infesta muitos filmes de super-heróis atualmente: a gente nunca fica sabendo quais são os poderes da “Mulher-Maravilha” ou suas limitações. Assim, do nada ela se transforma de uma garota que é facilmente derrubada pela tia a uma guerreira praticamente invencível, capaz até de pular mais que uma pulga superdesenvolvida e resistir a impactos brutais contra rochas e estruturas de ferro - mas aparentemente não a balas, já que é quase morta em várias cenas em que atiram contra ela. Não adianta dizer que é assim porque ela não sabia que tinha poderes, pois nunca é sinalizado que ela precisa desenvolver tais poderes. Ela os tem e pronto, começa a usar do nada, como se já soubesse que os tinha quando assim exige o roteiro. Isso tira qualquer suspense, já que não existem regras definidas, ou seja, vale tudo. Basta assistir ao maravilhoso “Superman – O Filme”, de 1978, para entender como se deve apresentar de forma adequada e muito simples os poderes e limites de um super-herói.

O coitado do Chris Pine (o Kirk dos novos “Star Trek” e que está em tudo quanto é filme) fica com a ingrata tarefa de ser um mero “homem-exposição”, já que seu personagem serve apenas para ficar explicando forçadamente a trama para a protagonista e, claro, para a plateia. Tentam um romance entre os dois, porém eles não demonstram qualquer química e o personagem de Pine é vazio demais até para gerar empatia, o que seria imperioso para que a catarse final funcionasse. O resto do elenco é fraco, com destaque negativo para o péssimo Danny Huston, eterno canastrão especialista em vilões e que foi o Striker no fraco “X-Men Origens: Wolverine”. 


Mulher-Maravilha ou Mulher-Palito?
A fotografia é escura, esmaecida (embora um pouco mais colorida que os filmes do Superman) e o desenho de produção é carnavalesco, principalmente na ilha das amazonas. A trilha musical é composta por um dos incontáveis discípulos do abominável Hans Zimmer, no caso um tal de Rupert Gregson-Williams (mas podia ser qualquer outro), e é aquela coisa horrorosa de sempre: bombástica, ensurdecedora, opressiva e sem qualquer tipo de nuance ou desenvolvimento temático – e ainda somos obrigados a ouvir o tema que Zimmer inventou para a “Mulher Maravilha” no famigerado “Batman versus Superman” que, como afirmei na minha análise daquele filme, ficaria bem para acompanhar as aventuras do “Chapolin Colorado”, de tão ridículo.

No final chegam ao cúmulo de mostrar a protagonista assassinando a sangue-frio uma pessoa desarmada, igual ao que fez o Superman em “Homem de Aço”, o que é um exemplo tenebroso para qualquer criança em mais um tiro no pé que só pode ser atribuído ao lamentável Zack Snyder, que aqui assina apenas como criador da estória e produtor. E mais uma vez somos atormentados por uma daquelas lutas entre dois seres supostamente imortais que, entre tapas e socos, soltam raios e causam explosões capazes de provocar um ataque epiléptico nos mais sensíveis.

Incrivelmente o filme vem recebendo ótimas críticas mundo afora, o que apenas demonstra delírio coletivo dos profissionais da opinião ou então uma vontade muito grande de acreditar que a DC conseguiu finalmente fazer um filme divertido como os da Marvel, o que não é nem de longe uma verdade. Alguns estão enxergando no filme um tratado feminista, mas sinceramente isso não faz sentido porque o fato dela ser mulher pouca importância tem à trama (até porque não passa de um Capitão América de saias) e nem mesmo a sociedade das amazonas é explorada a contento (deviam ser todas lésbicas já que não existiam homens por lá, não?).

Resumindo, é mais do mesmo e o melhor é simplesmente não passar nem perto de mais essa besteira, principalmente as crianças que deveriam ser o público alvo do gênero.

Cotação: *1/2

sábado, 3 de junho de 2017

Filmes: "Machuca"

TRÁGICO E DOLOROSO

Assista este filme para entender porque, afinal, ninguém tem coragem de se assumir como sendo de “direita” na América Latina...

- por André Lux, crítico-spam

Você já se perguntou por que ninguém tem coragem de admitir que seja de “direita” na América do Sul? Assista “Machuca” e vai saber a resposta. Este filme chileno do diretor Andrés Wood se passa durante os últimos meses do governo socialista de Salvador Allende, quando o padre que dirige uma escola para crianças da classe média alta implanta uma política do governo que reserva vagas para alunos oriundos das classes pobres.

Um desses meninos é justamente o Machuca do título, que acaba ficando amigo de Gonzalo, um filho das “elites” e provável alter-ego do próprio cineasta (o filme termina com uma frase em homenagem a um padre real, que obviamente deve ter semelhanças com o personagem de "Machuca").

A amizade dos dois representa o abismo que existe entre as classes sociais, o qual fica escancarado quando um vai visitar a casa do outro. Gonzalo, que mora numa bela residência, tem um pai boa praça, porém ausente e alienado, enquanto sua mãe é a personificação da “dondoca” suburbana fútil e louca por dinheiro (ao ponto de ser amante de um político rico do qual recebe vários “presentes” chiques). A irmã do menino namora uma boçal violento e agressivo que faz parte do “Comando de Caça a Comunistas” chileno.

Já Machuca mora numa favela com a mãe, a irmã e um tio. Seu pai é um bêbado que aparece só para arrancar dinheiro da mãe e dar porrada nos filhos. Só por curiosidade, li um profissional da opinião dizendo que o filme “falha” ao mostrar a pobreza de forma idílica! Concordo com ele, afinal quem é que não sonha em morar num barraco feito de tábuas e lonas enquanto recebe uns sopapos do pai bêbado e cafetão dia sim, dia não?

Enfim, dessa improvável amizade acompanhamos os dois meninos passando por várias situações que servem para reforçar o caos político promovido pelos golpistas que se abatia sobre o país. O tio de Machuca ganha a vida vendendo bandeiras dos partidos de direita e de esquerda nas várias passeatas contra e a favor do governo. E leva os garotos juntos, que ignorantes do que se passava, saiam alegremente repetindo os jargões dos manifestantes, seja de qual tendência eram representantes.

Mas as coisas começam a mudar para Gonzalo quando encontra o namorado truculento da irmã e a própria mãe numa das passeatas, durante a qual a irmã de Machuca é humilhada e agredida por fazer parte da “ralé”. Em outra cena emblemática e muito triste, os pais da high society protestam numa reunião do colégio contra a presença das crianças pobres que, nas palavras deles, não devem se misturar com seus filhos. Uma das mães pobres faz então um tocante discurso sobre a trágica história de toda sua família, só para ser acusada por uma dondoca de “ressentida, rancorosa, volte para o lugar de onde veio!”.

Não quero revelar mais da trama, mas basta dizer que o filme segue o ritmo dos golpistas até a sangrenta derrubada do governo socialista pelos milicos do general Pinochet, que lançaram sobre o Chile a mais brutal e selvagem ditadura da América Latina. Ditadura que foi notável também por ter sido o primeiro regime a implantar - sobre o cadáver de milhares de cidadãos que ousaram lutar por um mundo mais justo e menos desigual - a nefasta ideologia neoliberal, que hoje colocou o mundo de joelhos.

Nem preciso dizer que o final de “Machuca” será terrivelmente trágico e doloroso. E basta assisti-lo para entender porque, afinal, ninguém tem coragem de se assumir como sendo de “direita” por essas bandas...

Cotação: * * * *

Filmes: "Brazil - O Filme"

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FUTURO DO PRETÉRITO

Alegoria ácida sobre a perda da humanidade numa sociedade totalitária e consumista, mistura "1984" e "O Processo" com toques do Monty Python. 

- Por André Lux, crítico-spam

Lá pelo final de 1985, os executivos da Universal Pictures, preocupados com o possível fracasso de um filme que produziram e estavam para distribuir nos EUA, marcaram uma reunião urgente com o seu realizador durante a qual pediram pouca coisa: que ele reduzisse a metragem, trocasse a trilha sonora orquestral por outra com canções pop e, especialmente, mudasse a conclusão amarga para um típico happy end hollywoodiano, do tipo "o amor vence tudo". 

Essas mudanças iriam, na opinião deles, tornar o filme muito mais comercial, garantindo seu sucesso. O cineasta explicou então, na sua característica maneira pouco ponderada, que o filme deveria ficar do jeito que havia sido idealizado, caso contrário ele iria botar fogo nos negativos!

A cena narrada acima pode parecer o delírio de algum comediante, mas ela aconteceu de verdade - infelizmente. O filme em questão chama-se "Brazil", e o diretor, Terry Gilliam. 

Insatisfeitos com o resultado final do terceiro longa-metragem do ex-integrante do grupo Monty Python, o qual consideraram pesado e amargo demais para os padrões aceitos pelo público dos EUA, os executivos da Universal decidiram que "Brazil" deveria ser reeditado e transformado em um filme mais "aventuresco" e "leve". 

Dos originais 142 minutos de projeção, que foram lançados pela Fox sem problemas na Europa e em outras partes do mundo (como o Brasil), Gilliam concordou em reduzir o filme em cerca de 20 minutos. Mas não foi o suficiente.

A Universal era liderada na época pelo infame Sid Sheinberg que, entre outros absurdos, foi o responsável direto pela destruição de "A Lenda", de Ridley Scott (que deixou o estúdio retalhar e mudar a trilha musical de seu filme) e pela aprovação do lamentável "Howard, O Pato", de George Lucas. Sheinberg, a exemplo do que acontece ao protagonista do próprio filme de Gilliam, tornou-se o "torturador particular" do cineasta, cercando-o de todas as formas possíveis (inclusive legais) para poder retirar o projeto das mãos dele a fim de torná-lo "mais comercial".

Versões e (in)Versões
Essa feroz batalha entre o artista e os engravatados da Universal (em mais uma reedição do clássico embate entre David e Golias) é uma das mais famosas e ilustrativas acerca de como funciona o sistema de produção em série da indústria cultural estadunidense. 

E ela está descrita, com riqueza de detalhes, ilustrações e depoimentos de todos os envolvidos, no excelente livro "The Battle of Brazil", de Jack Mathews, jornalista de Los Angeles que cobria a produção do filme na época. Mathews transformou seu livro em um documentário de uma hora de duração, que pode ser assistido no box de "Brazil", lançado pela The Criterion Collection na região 1, que traz nada menos do que três discos.

No primeiro disco, temos a versão de Terry Gilliam para o filme, com seus gloriosos 142 minutos de projeção, remasterizado digitalmente no formato widescreen 1.85:1, trazendo ainda uma faixa de áudio com comentários do diretor. No segundo, chamado de "The Production Notebook", encontramos vários making of, entrevistas com os roteiristas Tom Stoppard e Charles McKeown, com o compositor Michael Kamen (que utiliza na trilha de forma magistral trechos de "Aquarela do Brasil", de Ary Barroso), storyboards, cenas raras da produção dos efeitos especiais, além é claro do excepcional documentário "The Battle of Brazil".

O material mais curioso, todavia, está contido no terceiro disco: nada mais do que a infame versão "Love Conquers All" ('O Amor Vence Tudo) de "Brazil", montada à revelia do diretor, trazendo meros 94 minutos de projeção e um ridículo happy end, que simplesmente detonam a obra em questão deixando-a totalmente sem sentido. 

Pior que essa grotesca (in)versão foi exibida nas televisões dos EUA, por anos a fio. Existe ainda um canal de áudio onde David Morgan, expert em Terry Gilliam, faz uma análise extremamente crítica de todas as alterações feitas.

Orwell encontra Kafka no circo do Monty Python
Quanto ao filme, trata-se de uma alegoria extremamente ácida e anárquica sobre a perda da humanidade frente a uma sociedade totalitária e cada vez mais repleta de burocracia e obcecada pelo consumismo. Trata-se de uma mistura de "1984", de George Orwell, com ''O Processo'', de Kafka, com toques do humor bizarro e non-sense próprios do sexteto inglês do qual Gilliam fazia parte, o Monty Python.

Além disso, o filme é premonitório do futuro catastrófico imposto ao mundo caso a doutrina neoliberal, que na época ainda estava em processo de implantação, fosse levada às últimas conseqüências. 

Reparem como o Estado retratado no filme é o sonho de qualquer defensor do neoliberalismo: enxuto, isento de qualquer responsabilidade social e praticamente restrito ao aparato policial de vigilância e repressão constante às classes mais baixas, mantido graças a um clima de medo e paranóia constante propagado pela mídia e por supostos ataques de "terroristas".

O protagonista dessa epopéia, interpretado brilhantemente por Jonathan Price, é Sam Lowry, um funcionário público apático e conformista, que passa acidentalmente a lutar contra o sistema depois que descobre que a mulher de seus sonhos existe e está marcada para morrer. 

É a típica trama do anti-herói forçado a agir, mesmo contra sua vontade, para conquistar seus desejos. Na sua aventura, ele conta ainda com a ajuda do engenheiro-de-calefação-autônomo e dublê-de-terrorista, Harry Tuttle (na pele de um Robert De Niro praticamente irreconhecível).

Só que catarse e redenção são palavras que não fazem parte do dicionário de Terry Gilliam, como Lowry vai descobrir dolorosamente no final. E a melhor explicação para essa filosofia de vida vem do próprio diretor: "Nós não damos respostas, apenas apontamos para o óbvio que ninguém quer ver, de um modo engraçado. E quando as pessoas pegam-se rindo daquilo, esperamos que elas pensem: 'Ei, eu não deveria estar rindo, isso é horrível!'".

Sobre o motivo do filme se chamar "Brazil", Gilliam explica: "Port Talbot é uma cidade de ferro, onde tudo é coberto por um pó cinza de metal. Até a praia é completamente coberta de pó preto. O sol estava se pondo e era realmente bonito. O contraste era extraordinário. Eu tinha essa imagem de um cara sentado nessa praia moribunda com um rádio portátil, sintonizando estranhas canções escapistas latinas como [Aquarela do] Brasil. A música o transportou de alguma forma e fez o seu mundo menos cinza".

Quanto ao desfecho da "Batalha por Brazil", o vencedor foi, em última instância, o nosso "David" da sétima arte, que passou a usar táticas de guerrilha para promover o lançamento de seu filme intacto, tais como patrocinar exibições piratas para estudantes e críticos de cinema, bem como tornar público o martírio pelo qual estava sendo obrigado a passar pela Universal - Gilliam chegou a pagar um anúncio de página inteira no jornal Variety com a seguinte mensagem: "Querido Sid Sheinberg. Quando você vai lançar meu filme 'Brazil'?". Em um outro momento, Gilliam mostrou uma foto do executivo em um programa de entrevistas do qual participava, e soltou no ar, ao vivo: "Esse é o homem responsável pela minha dor".

Mas tamanha audácia provou-se válida, tanto que o filme ganhou os principais prêmios da Associação de Críticos de Cinema de Los Angeles (melhor Filme, Diretor e Roteiro) e acabou sendo lançado intacto (mas modestamente) nos cinemas dos EUA, dividindo público e crítica, fato que não incomodou em nada o cineasta. "Para algumas pessoas, meu filme foi o equivalente a um espancamento", diz Gilliam rindo. "Para outras, foi uma experiência maravilhosa. Perfeito. Eu não fiz o filme pensando em agradar alguém...". 

É certo que, depois desse evento notório e constrangedor, as políticas dos grandes estúdios, relativas a quem seria responsável pelo corte final dos filmes, nunca mais foram as mesmas.

Infelizmente, essa caixa com os três discos dificilmente será lançada no Brasil. Portanto, você precisará ter um bom dinheiro sobrando para colocar suas mãos nela. Mas, se tiver, certamente não vai se arrepender!

Por aqui, o filme foi lançada pela Fox (que detém os direitos de distribuição fora dos EUA) na versão normal sem cortes, mas desprovida de qualquer extra ou comentário (veja reprodução da capa à direita).

Cotaçâo: * * * * *
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domingo, 21 de maio de 2017

Filmes: "Rei Arthur - A Lenda da Espada"

INSUPORTÁVEL

Tudo é tão mal feito, escuro e histérico que fica impossível até entender o que se passa na tela

- por André Lux, crítico-spam

Fazia tempo que não via um filme tão insuportável quanto esse “Rei Arthur - A Lenda da Espada”. Não bastasse ser mais uma adaptação da batida lenda dos cavaleiros da Távola Redonda, é todo picotado e frenético na edição, ao ponto se tornar inteligível em várias sequências. Acaba parecendo mais uma mera colagem das cut scenes de videogames, aquelas cenas que interligam uma fase do jogo à outra onde você não pode interagir.

Claro que a culpa maior disso é do diretor Guy Ritchie que chamou a atenção em 1998 com o interessante “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes”, mas depois apenas se repetiu ou lançou porcarias indefensáveis como os dois “Sherlock Holmes”, com Robert Downey Jr. Se o estilo frenético do cineasta já não combinava com as aventuras do detetive da era vitoriana, fica ainda mais ridículo aqui, onde a ação se passa numa época medieval mítica.

“Rei Arthur - A Lenda da Espada” tenta ser uma mistura de “Senhor dos Anéis”, “Game of Thrones” (tem até dois atores da série, um deles o “Littlefinger”), “Vikings”, “Harry Potter”, “Star Wars” (Eu sou seu tio!) e um monte de outros filmes que estão na moda atualmente (tem até um mestre de Kung-Fu!), tudo embalado como se fosse uma aventura moderna e descolada iguais aos filmes iniciais do Guy Ritchie, inclusive com os personagens falando e vestindo-se como se tivessem acabado de sair de um pub na periferia de Londres.

Mas tudo é tão mal feito, escuro e histérico que fica impossível até entender o que se passa na tela, como na sequência onde Arthur tem que ir à ilha sombria passar por provações e testes, mas isso é visto numa mistura de flashbacks e fast-fowards sob uma narração que vai explicando mal e porcamente o que está acontecendo. Não bastasse isso, o roteiro é péssimo e muda vários pontos da lenda clássica, colocando Arthur como filho do rei Uther que é lançado no rio e vira um lutador de rua criado por prostitutas, o que nos obriga a ver várias cenas dele esmurrando pessoas, repetindo a mesma besteira que Ritchie fez com Sherlock Holmes.

O filme já começa de forma risível, com uma batalha onde elefantes gigantescos (10 vezes maiores que os do “Senhor dos Anéis”) atacam Camelot sob o comando do mago Mordred, que além disso ainda joga bolas de fogo que desintegram os soldados inimigos. Mas bastou Uther Pendragon dar uma de Legolas, subir no elefante do chefe e, pronto, usando a poderosa espada Excalibur corta a cabeça do mago do mal. Por sinal, a famosa espada aqui funciona quase como o martelo do Thor e a gente nunca fica sabendo a extensão de seus poderes.

Aí descobrimos que tudo isso não passou de um plano engendrado pelo irmão do rei (Jude Law, que tem cara de almofadinha e não convence como vilão, perdendo-se em uma atuação digna dos piores canastrões) que se uniu ao Mordred para tomar o poder. Mas, como não dá certo, ele vai ao porão do castelo (hein?) e chama a vilã Úrsula de “A Pequena Sereia” que, depois de um sacrifício, o transforma numa mistura de Balrog com Sauron e, pronto, ele derrota o irmão e toma o trono. O que nos faz perguntar: se tinha esse poder todo à disposição, por que não o usou logo de cara?

O protagonista é feito por um loiro aguado (Charlie Hunnam de “Círculo de Fogo”) que tem a expressão de uma escultura de pedra e o carisma de uma ostra em coma. Para atrapalhar mais ainda, seu personagem não tem qualquer desenvolvimento e age de forma estúpida e petulante o tempo todo. Nem mesmo a cena em que tira a espada da pedra tem qualquer impacto, de tão forçada e mal encenada. Também não faz o menor sentido ele ter problemas em aceitar a Excalibur, muito menos as ações da maga que o ajuda. No final ela conjura uma cobra gigante que simplesmente aparece do nada e mata quase todos os malvados, o que nos faz perguntar novamente: por que não usou tal poder antes?

A trilha musical de Daniel Pemberton é ensurdecedora e completamente incongruente com o que vemos na tela, parecendo mais rejeitos de alguma banda de trash metal. A fotografia é escura e esmaecida, os efeitos visuais parecem pior do que muitos videogames e a única coisa que se salva às vezes é o desenho de produção.

Se você quiser conhecer a lenda do Rei Arthur, melhor mesmo ver “Excalibur”, do John Boorman (1981), ou então a sátira demolidora “Em Busca do Cálice Sagrado”, do Monty Phyton. Fuja desse “Rei Arthur” metido a besta!

Cotação: *

sexta-feira, 12 de maio de 2017

"Alien", de Jerry Goldsmith: uma análise

Cine-Trash: "Alien: Covenant"

VAI ********!

Faltam-me adjetivos depreciativos para classificar esse novo candidato a obra-prima do cinema trash!

- por André Lux, crítico-spam

O diretor Ridley Scott conseguiu fazer algo impensável: uma continuação de “Prometheus” ainda pior que o anterior. Apesar de levar o título “Alien”, praticamente nada tem a ver com a série original e mesmo o monstro clássico aparece só no final e de maneira ridícula. Porra, tem uma cena que o alien sai de dentro do peito de um sujeito já parecido com  a sua forma final, fica em pé e abre os bracinhos, conseguindo ser mais ridículo que a paródia feita por Mel Brooks em "Spaceballs"! Vai ********
! 

Perto desse lixo, “Prometheus” nem parece tão ruim, ao menos tinha algum clima e pretensão de contar uma história minimamente interessante, mesmo que falhando fragorosamente. Bom, comparado a isso até os "Alien Vs. Predador" parecem filmes classe A!

O roteiro desse “Alien: Covenant” basicamente pega tudo de interessante em “Prometheus”, joga na privada e enfatiza o que havia de pior. Toda aquela história sobre os Engenheiros que teriam criado a vida na Terra é resolvida da maneira mais infame possível e abandonada sem a menor explicação. O que sobra então é um amontoado de cenas desconexas umas das outras, com os personagens agindo sempre da forma mais estúpida e inverossímil possível. 


Os astronautas, por exemplo, chegam no novo planeta para explorar e, claro, resolvem descer nele na mesma hora bem no meio de um gigantesco furacão! Obviamente, quase morrem na descida e ficam sem contato com a nave mãe, mas assim que pousam já saem andando numa boa, sem qualquer proteção (que tal um traje hermético?), metendo a mão e pisando em tudo que enxergam, inclusive uns casulos estranhos que, adivinha, soltam esporos que contaminam alguns e fazem brotar de dentro deles em questão de minutos uns aliens brancos risíveis! Por sinal, esses esporos e os monstros que saem deles acabam sendo muito mais terríveis que os próprios Aliens!

A única relação com “Prometheus” se dá com um subtexto religioso idiota que não leva a lugar algum e com a aparição do androide David (o coitado do Michael Fassbender, completamente perdido e que ainda tem que dobrar fazendo o outro androide Walter). Ele está há uns 10 anos lá e virou um psicopata completo com delírios de grandeza que cultiva e tenta aperfeiçoar os xenomorfos para acabar com a raça humana... Como é que é? Essa bobagem contamina os filmes originais, pois de um predador perfeito o Alien se transforma num experimento genético criado por um androide defeituoso? Tenha dó!


Enfim, é tanta estupidez junta que fica até difícil de resumir e, sinceramente, pode até dar a impressão que o filme é algo mais do que uma refilmagem de “Sexta-Feira 13” com uns aliens digitais toscos no lugar do Jason, matando adolescente no chuveiro (não estou brincando, tem uma cena assim mesmo!).

O elenco do filme é simplesmente pavoroso. Conseguiram até enfiar o insuportável James Franco no meio dessa josta, mas felizmente ele vira torrada antes mesmo de sair do casulo de hibernação e só aparece brevemente num vídeo pré-gravado! Ridley Scott, que já foi um dos maiores cineastas do mundo, deve ter dirigido “Alien: Covenant” sob o efeito de soníferos ou alcoolizado, pois nem mesmo esteticamente bonito o filme é. Na parte final, principalmente, impressiona a ruindade da cinematografia e da edição que chegam a níveis amadorísticos. A conclusão então não tem pé nem cabeça e é do tipo que vai fazer você se contorcer em agonia frente a tanta estupidez!

A trilha musical de um tal de Jed Kurzel é fraca e fica mais lamentável quando tenta incorporar os temas originais criados pelo mestre Jerry Goldsmith para o primeiro “Alien” - o que serve apenas para nos lembrar do quanto era genial aquele filme produzido lá atrás em 1979 e que parece mil vezes mais bem feito e moderno do que esse lixo feito em 2017, com o triplo de dinheiro e recursos.

Faltam-me adjetivos depreciativos e pontos de exclamação para classificar esse novo candidato a obra-prima do cinema trash – e olha que fui ao cinema com a expectativa bem baixa! É lamentável para qualquer fã da série original ver o sensacional Alien ser transformado em um mero caça-níqueis para que o decadente Ridley Scott possa pagar suas contas atrasadas. Tomara que seja um fracasso nas bilheterias para que ele volte sua atenção para outras bandas. Ninguém merece!

Cotação: *

quarta-feira, 10 de maio de 2017

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Filmes: "Guardiões da Galáxia - Vol. 2"

MELHOR QUE O PRIMEIRO

Tom de comédia assumido deixa o filme mais leve e esconde furos e besteiras

- por André Lux, crítico-spam


Esse novo “Guardiões da Galáxia – Vol. 2” é melhor que o primeiro, mas ainda tem alguns problemas básicos. Primeiro, batalhas espaciais exageradas demais, como a do começo onde os heróis são atacados por um enxame de milhares de naves, o que torno tudo confuso e difícil de seguir. 

A trama, igual a quase todos os filmes da Marvel, novamente gira em torno de um super-ser buscando algo poderoso para poder se tornar ainda mais poderoso, embora aqui só revelem quase no final e aí o filme desande um pouco para aquelas lutas exageradas.

Mas ao menos o humor é mais explícito, as piadas mais inteligentes (conseguiu me fazer rir muito na cena do salto entre os portais) e o filme é bem menos violento que o anterior. O elenco está mais à vontade e a química entre eles funciona. Kurt Russel surge como o pai do herói e é sempre um ator carismático. Até o Stallone dá as caras, mas não tem nada a fazer no que é basicamente uma ponta para introduzir um personagem que vai aparecer em outros filmes derivados desse.

Forçam a barra para transformar o personagem Yondu (feito pelo competente Michael Rooker) em algo muito maior do que um reles mercenário que usava e abusava do protagonista, mas sinceramente achei piegas e não convincente, especialmente quando tem a cena final apoteótica.

Gostei do desenho de produção e das lutas bem coreografadas. No começo o diretor tenta mudar o foco, prendendo a câmera no bebê Groot enquanto os heróis enfrentam um monstro enorme e a gente só consegue ver eles brigando no canto da tela enquanto o ser de madeira dança ao som de uma das músicas pop que recheiam a trilha. Nos créditos finais aparecem nada menos que cinco cenas (mas quase nada acrescentam), no que já virou marca registrada da Marvel.

Não é grande coisa, mas o tom de comédia assumido deixa o filme mais leve e esconde os furos e besteiras. Dá pra assistir sem se aborrecer.

Cotação: * * *