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quinta-feira, 31 de agosto de 2006

Direito de Resposta: Wagner Tiso defende-se dos ataques da mídia marrom

Não deixem de ler o texto emocionado e emocionate do compositor Wagner Tiso, escrito em resposta à manipulação de uma frase sua que, retirada do contexto, foi usada pela mídia e pelos "vomitadores de opinião" para, como sempre, atacar o PT.


O Vilão sou Eu?

Eu repudiei, sim, a manipulação do discurso sobre a ética, proposta pela oposição. É uma preocupação farisaica. Uma cortina de fumaça que oculta uma disputa implacável pelo poder. Olhem só para a cara dos principais porta-bandeiras do movimento. São vigaristas políticos que enriqueceram na vida pública sem qualquer preocupação com o caos social que vem se formando no Brasil. Eles dão as costas para a população carente e vomitam um discurso hipócrita sobre ética. É isso que repudio.

- por Wagner Tiso

Acho que posso dizer, com orgulho, que sou um artista com vínculos pré-históricos com o Partido dos Trabalhadores. Mas nunca ofereci, em sacrifício, a minha independência pa­ra pensar. O fato é que na certidão de nascimento do PT consta o meu no­me, e nos alicerces de fundação há rastros do meu esforço pessoal para coletar assinaturas de adesão ao par­tido. Participei de todas as campanhas presidenciais. Muitas vezes, lá no início, carregava o teclado nas costas para animar os comícios petistas. Nada disso impediu minha convivência com intelectuais e gente do mundo artístico com posições políticas diferentes da minha. Na democracia pela qual me bato há espaço amplo para divergências políticas.

Meu velho coração de estudante palpitou quando Lula ganhou a eleição. Essa jornada para a ascensão do PT ao poder foi longa. Conhecendo os obstáculos históricos e os preconceitos encravados na sociedade brasileira, nem pensei que pudesse estar vivo quando a faixa presidencial fosse cruzada no peito de um operário metalúrgico. Aconteceu antes do que eu esperava. Vivi o bastante para ver.

Assim, era natural a minha presença na casa do ministro Gilberto Gil, no Rio, durante o encontro de intelectuais e artistas com o presidente Lula. Naquela noite recebi uma emocionante e inesperada homenagem do presidente. Havia o calor da amizade e mui­ta sinceridade nas palavras dele quando me agradeceu pela entrevista que dei ao GLOBO, em setembro de 2005. Naquela ocasião, defendi o que acre­dito e critiquei o que condeno, como foi o caso do uso de caixa dois nas campanhas políticas do partido. A oposição concentrava todas as forças para abalar o governo. Havia um cheiro de golpe branco no ar, denunciado com precisão e coragem pelo professor Wanderley Guilherme dos Santos.

Convidado para aquela entrevista (do ano passado), publicada pelo GLOBO, defendi um governo no qual acredito. Não vacilei em dizer como via as coisas. Disse o que disse – e repetiria, se preciso fosse - exatamente por acreditar que Lula não rasgou o compromisso com a ética, uma das principais razões pelas quais eu e tantos outros artistas aderimos à causa petista.

Cercado pelos repórteres ao sair do encontro com Lula, eu disse uma frase que, no tumulto, escapou do contexto. Um erro meu e não dos repórteres. Nela vi, posteriormente, que passei a impressão de repudiar a ética. Mas não é assim que penso e ajo, conforme disse em carta publicada pelo jornal O GLO­BO e desconsiderada na seqüência dos acontecimentos. Minha vida, com indissolúvel ligação entre as atitudes pessoais e as ações artísticas, é a ex­pressão do meu compromisso com a seriedade e a lisura. Nada me fará me esquecer de quem sou!

Eu repudiei, sim, a manipulação do discurso sobre a ética, proposta pela oposição. É uma preocupação farisaica. Uma cortina de fumaça que oculta uma disputa implacável pelo poder. Olhem só para a cara dos principais porta-bandeiras do movimento. São vigaristas políticos que enriqueceram na vida pública sem qualquer preocupação com o caos social que vem se formando no Brasil. Eles dão as costas para a população carente e vomitam um discurso hipócrita sobre ética. É isso que repudio. Nesse contexto é que peço que seja inserido meu sentimento real, traído por uma frase mal colocada. A falta de traquejo para enfrentar um batalhão de perguntas - algumas muito agressivas - me fez tropeçar no meu próprio discurso. Agora vejo a frase como alavanca de um debate no qual faço o papel de vilão. Vilão, eu? Eu que pautei toda a minha vida em atitudes éticas. O pano de fundo é atingir Lula e o PT. Um governo que tem, segundo o Datafolha, 52% de aprovação da sociedade no patamar do "ótimo e bom".

O Brasil precisa mesmo de um de­bate sobre ética. Sério e fecundo. Mas, por favor, não a partir da manipulação cruel de uma frase minha.

Quando a fumaça desse momento se esvair, será possível ver em cena os vilões de sempre. Eu me refiro àqueles que, historicamente, saquearam os cofres públicos e trouxeram o país a essa complicada situação de violência e insegurança. Um país, além do mais, marcado mundialmente. pela vergonhosa distribuição de renda que desenha o mapa de uma sociedade injusta. Uma injustiça que faz corar aqueles que, de fato, reverenciam a ética.

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WAGNER TISO é músico. Mineiro de Três Pontas, o maestro Wagner Tiso começou sua carreira muito jovem, integrando com Milton Nascimento o conjunto Luar de Prata. A parceria entre Wagner e Milton se tornaria constante em suas carreiras. Compositor, arranjador e instrumentista, Wagner já criou trilhas para cinema, teatro e televisão e gravou mais de 30 discos. Em 2002, lançou o CD Memorial, pela Biscoito Fino, ao lado do cantor Zé Renato. No ano seguinte, a BF lançou Cenas Brasileiras, de Wagner Tiso solo.

quarta-feira, 30 de agosto de 2006

Jornalismo Marrom: Nossa vingança será nas urnas

A melancolia do jornalismo que se julgava dono do povo

Ante as sucessivas pesquisas de intenção de voto que atestam a possibilidade de vitória de Lula já no primeiro turno, vê-se a arrogância dos colunistas dos jornalões ser substituída pela lamúria. Eles se julgavam donos da opinião pública, tutores da consciência do povo e, agora, ante o favoritismo da reeleição de Lula, derramam lágrimas pelas suas colunas. Lastimam a ineficiência da campanha sistemática que empreenderam contra o presidente da República.

- por Adalberto Monteiro*



O favoritismo do presidente Lula provocou uma onda de melancolia nos jornalistas que se julgavam tutores da consciência do povo. Pelas colunas dos duques e marquesas dos jornalões escorre um misto de ira, espanto e tristeza. Essa lamúria deste tipo de jornalismo é um sinal bom. "Os de baixo" se movimentam na direção oposta ao que lhes ordena a mídia "dos de cima".

Ante as sucessivas pesquisas de intenção de voto que atestam a possibilidade de vitória de Lula já no primeiro turno, vê-se a arrogância dos colunistas dos jornalões ser substituída pela lamúria. Eles se julgavam donos da opinião pública, tutores da consciência do povo e, agora, ante o favoritismo da reeleição de Lula, derramam lágrimas pelas suas colunas. Lastimam a ineficiência da campanha sistemática que empreenderam contra o presidente da República.

Uns, numa melancolia de dar pena constatam que a mídia não é mais o quarto poder. Com uma franqueza não costumeira dizem que se o povo levasse a sério o que dizem os meios de comunicação, "Lula estaria debatendo com os tribunais, não com os eleitores". Outros, falando como se os jornalistas fossem juízes do Supremo Tribunal da Razão proclamam sentenças contra o povo: "Mas se o veredicto for esse, dispensando o segundo turno, a afoiteza do eleitor terá prejudicado a qualidade democrática desta eleição". (Quando FHC foi eleito duas vezes, no primeiro turno, o senhor Otávio Frias Filho, não reclamou "da afoiteza do eleitor.")

A verdade é que a maioria dos jornalistas da grande mídia, sobretudo, os articulistas, no auge da campanha que visava linchar o presidente da República, não escrevia análises, proclamava sentenças. As redações se viram infestadas dessas estranhas criaturas: jornalistas "togados". Senhores e senhoras, proprietárias da verdade e da razão. Quase com poder de polícia.

Ocorre que os meses se passaram, estamos praticamente a 30 dias das eleições, e o povo vem rasgando cada uma dessas sentenças. E esses jornalistas "togados" se vêem despidos de sua autoridade. Atônitos dão explicações desencontradas para o estranho fenômeno. Indagam: "Como a maioria inclina-se para reeleger Lula, se nós os formadores de opinião durante mais de um ano temos afirmado e reafirmado, ou melhor, temos sentenciado, a cada minuto de todas as horas, a cada hora de todos os dias, em todos os dias da semana, de que Lula não passa de um chefe de uma quadrilha?".

Diz um: é porque os integrantes das classes "d" e "e" são analfabetos e não lêem jornais. Errado, retruca um outro: na mais miserável favela há antenas de tv. Um douto analista diz que, pragmático, o povo "não está nem aí" para a corrupção.

Em todas as explicações dadas por esses duques e duquesas do jornalismo é nítido o desprezo pelo povo brasileiro. São incapazes de admitir que o povo pela sua própria experiência, pela didática dura e eficiente da vida, elevou sua percepção crítica sobre quem é quem na política brasileira, e, está fazendo suas escolhas.

Essa melancolia do jornalismo togado que se julgava dono da consciência do povo é uma boa nova. "Os de baixo" se movimentam na direção oposta ao que lhes ordena a mídia "dos de cima".

*Adalberto Monteiro, Jornalista e poeta, é secretário nacional de Formação e Propaganda do PCdoB e presidente do Instituto Maurício Grabois.

quinta-feira, 24 de agosto de 2006

Apoio: Mensagem animadora

Compartilho com vocês uma mensagem de apoio que recebi por email. São manifestações espontâneas como essas que nos dão ânimo de continuar na luta, enfrentando de cabeça erguida as pessoas infelizes, rancorosas e mal intencionadas que existem aos montes por aí...

UMA FÃ

Vou logo me apresentando, pra você não achar que é trote ou um vírus. Meu nome é Luciana Covolan e sou leitora do Observatório, e foi através do Observatório que cheguei ao seu blog e ADOREI!!!! Sou eleitora do PT desde 1989, quando tirei meu título de eleitor, e meu primeiro voto foi pro nosso presidente Lula.

Infelizmente não tenho sua cultura ou seu conhecimento, só tenho um pífio diploma de Ensino Médio, o que na vida real equivale a nada. Ainda tenho alguns sonhos, mas poucos objetivos palpáveis por falta de perspectivas, mas não foi por isso que resolvi escrever, pra reclamar, foi pra te parabenizar. Queria realmete te cumprimentar pela lucidez, pela coragem e pela ousadia
de ainda acreditar num mundo melhor. Não te conheço, mas sei que acredita pela maneira que você escreve. Em cada palavra tem a esperança de que ela possa tocar ou despertar alguém.
Parabéns.

Luciana

sexta-feira, 18 de agosto de 2006

Justiça: Pseudo-jornalismo de "Veja" é penalizado

Justiça manda Veja publicar direito de resposta a Itaipu

A Justiça Federal reconheceu que Veja publicou conteúdo alterado de gravação de conversa telefônica, de forma a transformar uma mera especulação em verdade absoluta.

Por decisão do Juiz Hélio Egydio M. Nogueira, da 9ª Vara Criminal Federal de São Paulo, a revista Veja foi condenada, em sentença proferida no dia 9 de agosto, a publicar direito de resposta requerido pela Itaipu Binacional, pela matéria "inverídica e ofensiva" contra a imagem da empresa e seu diretor-geral brasileiro Jorge Samek.

Na edição nº 1946, de 8 de março de 2006, Veja publicou matéria de capa sob o título "Mensalão II", com dois subtítulos epigrafados de "Fitas Explosivas", na qual acusou Itaipu de ter perdoado uma multa milionária da empresa Voith Siemens, em troca de favores.

A Justiça Federal reconheceu que Veja publicou conteúdo alterado de gravação de conversa telefônica, de forma a transformar uma mera especulação em verdade absoluta.

Na sentença, o juiz reconheceu que Itaipu provou a regularidade da execução do contrato com o Consórcio Ceitaipu, que constrói suas duas últimas unidades geradoras.

Além do mais, o juiz observou que a acusação de Veja era totalmente improcedente, tendo em vista que a Itaipu sequer tem contrato direto com a empresa Voith Siemens e, portanto, não poderia perdoar dívida alguma.

Com informações do site InvestNews

segunda-feira, 7 de agosto de 2006

Filmes: "ZUZU ANGEL"

CINEMA ENGAJADO

Filme serve como alerta, pois muitos que apoiaram a ditadura militar estão na ativa e continuam agindo contra a democracia.

- Por André Lux, crítico-spam

Mesmo ficando longe de ser uma obra cinematográfica marcante em termos estéticos e técnicos, “Zuzu Angel”, do diretor Sérgio Rezende (de “Lamarca”), é uma oportuna e engajada reconstituição do período mais negro da história recente do Brasil: a ditadura militar, que durou 21 anos e praticamente destruiu a cultura, a liberdade e o sistema educacional do país. 

E tudo isso em favor de uma suposta “luta contra o comunismo”, que só serviu de fato para preparar terreno para a implantação dos dogmas neoliberais criados nos Estados Unidos, responsáveis pelo aumento exacerbado do abismo social, da insegurança e da dependência ao capital e às transnacionais estrangeiras em todos os países que os adotaram nas últimas décadas.

O filme narra a tragédia que destruiu a vida da estilista de moda Zuleika Angel Jones, cujo filho, ativista político pela volta da democracia, é preso, torturado e morto pelos militares e a luta dela por justiça. 

Embora a parte técnica deixe a desejar (predomina a estética pobre e achatada da televisão) e o diretor Rezende não consiga evitar o uso de cacoetes frouxos (como uma pesada narração em off, longos flashbacks e alguns diálogos pouco naturais), “Zuzu Angel” vale como denúncia e também como reconstituição de época.

Em vários momentos também consegue emocionar, especialmente quando explora mais a fundo a relação entre a estilista e seu filho. As cenas de tortura são, felizmente, discretas, porém nunca menos que chocantes e repulsivas. 

E pensar que existem muitas pessoas que não apenas endossam essas práticas, mas também as apóiam e festejam até hoje (vide o caso dos presos torturados no Iraque e no campo de concentração estadunidense em Guantanamo, só para citar dois exemplos mais recentes).

O elenco repleto de “globais” é homogêneo e ajuda a dar credibilidade à obra, embora o filme seja mesmo de Patrícia Pillar, no papel-título, que consegue mostrar em várias cenas que é uma boa e corajosa atriz. Infelizmente, por se tratar de uma adaptação cinematográfica de um caso real complexo, muita coisa tem que ser sintetizada e resumida. 

E isso acaba prejudicando alguns personagens, principalmente o filho de Zuzu (interpretado por Daniel de Oliveira, de “Cazuza”) cuja trajetória e ideais acabam sendo reduzidos a duas ou três cenas e frases de efeito que, tiradas do contexto, soam forçadas e batidas (o que serve de prato cheio para que os profissionais da opinião mais reacionários ou doutrinados pelo cinemão made in Hollywood malhem o filme, a exemplo do que fizeram com “Olga”).

Mas, para aqueles que se identificam com a luta da protagonista ou ao menos não são obtusos ao ponto de se deixar cegar pela manipulação da mídia que sempre apoiou os golpistas, “Zuzu Angel” certamente funciona muito bem e vai proporcionar fortes emoções. 

É emblemática, por exemplo, a cena em que um dos gorilas torturadores tenta furiosamente desligar o toca-fitas que reproduz a música “Apesar de Você”, de Chico Buarque (cuja canção “Angélica”, composta em homenagem a Zuzu, encerra o filme).

Além disso, esse filme serve também como um alerta para os que fatos narrados nunca mais voltem a acontecer. Um alerta que se torna ainda mais poderoso se levarmos em conta que muitos daqueles mesmos senhores que apoiaram e implantaram a ditadura militar no Brasil ainda estão na ativa tanto no cenário político quanto na mídia corporativa nacional e continuam agindo contra a democracia, sempre na vil esperança de retomar o poder para manter seus privilégios seculares.

Cotação: * * *

Outras Verdades: O futuro de Cuba cabe aos cubanos!

Abaixo um texto excelente sobre Cuba, bem diferente das asneiras inacreditáveis que a mídia conservadora publica como sendo "verdade absoluta".

Leiam e tirem suas próprias conclusões...



A minha visão sobre o futuro de Cuba

Por que se preocupar com Cuba, que todos sabem que viveu uma revolução popular, assim como viveu a França, na revolução francesa, e os EUA, na sua batalha de independência? Cuba não tem governantes democráticos? Tá bom, agora pergunte onde foram parar os governantes eleitos de Guatemala, El Salvador, Nicarágua, Chile, Brasil, que foram derrubados com auxílio dos EUA? Não percebem a armadilha?

- Escrito por Miguel do Rosário

O Eduardo Guimarães já falou sobre isso em seu blog, mas eu faço questão de completar. Na Folha de hoje, o Sergio Costa vem com uma nota absolutamente caricata, ridícula, clichê, mau intencionada e mau informada sobre Cuba, comparando-a à Disneylandia. Olha só como termina:

Sem Fidel, muitos empresários estrangeiros no país já previam, desde o início da década, que Cuba voltaria a ser uma ilha do Caribe como outra qualquer. Menos carismática, mais caricata no começo, até ser engolfada pelo capital global. A semente já estava plantada por grandes grupos hoteleiros europeus, sócios minoritários do Estado nos "resorts all inclusive" do balneário, onde impera a lei do rum. Para eles, a verdadeira vocação cubana seria a de um balneário para turistas de países ricos. Lá, já se vive assim no mercado paralelo. "É a magia!", diria o Mickey.

Tá bom. Esse cara aí, Sérgio Costa, é doente ou o quê? E os cursos universitários de Cuba? E a produção de medicamentos a baixo custo e altíssima eficiência, contra doenças tropicais, como a dengue? Os tratamentos revolucionários (e a custos acessíveis) a doenças horríveis, como vitiligo, catarata e tantas outras?

Ilha do Caribe como outra qualquer? Como o Haiti? O sujeito parou para pensar na miséria que assola os países caribenhos, tirando isolados e pequenos centros de turismo? Este panaca já refletiu sobre o fato dos EUA ter invadido, patrocinado e bombarbeado diversos países centro-americanos, inclusive democracias com governantes eleitos?

Infelizmente, esse tipo de mentalidade tacanha é tão comum no Brasil, e a mídia corporativa ajuda a promover e a proliferar. É um comportamento, além disso, alienado em seu mais alto grau, pois o indivíduo não percebe que o fato de escrever para um jornal de grande circulação no Brasil, país mais poderoso da América do Sul, o capacita para tentar influir positivamente nos destinos da Ilha.

É impressionante que, diante da tragédia humanitária que assistimos no Haiti, da atitude humilhada, servil, dos centro-americanos (após serem massacrados pelos EUA nas décadas passadas), colunistas como esse Sérgio Costa e Clóvis Rossi estejam realmente assim tão preocupados com Cuba.

Falta de democracia em Cuba? Ah, não me façam rir! Por que não se preocupam com a Arábia Saudita, então, seus filisteus? Que, além de não ter democracia, é dominada por uma aristocracia corrupta que deixa a população na miséria e não dá um pingo de ajuda aos irmãos pobres árabes e africanos, o que ajuda a fomentar o terrorismo? Não esqueçam: Bin Laden é saudita e a maioria dos que fizeram o 11 de setembro também.

Por que se preocupar com Cuba, que todos sabem que viveu uma revolução popular, assim como viveu a França, na revolução francesa, e os EUA, na sua batalha de independência? Cuba não tem governantes democráticos? Tá bom, agora pergunte onde foram parar os governantes eleitos de Guatemala, El Salvador, Nicarágua, Chile, Brasil, que foram derrubados com auxílio dos EUA? Héin? Não percebem a armadilha?

Penso que, morrendo Fidel, Cuba poderá sim iniciar uma abertura democrática. Será saudável, e perigoso também. Entretanto, a nova geopolítica do continente, com Brasil, Argentina, Chile e Venezuela mais fortes economica e politicamente; as novas comunicações, que dificultam golpes de bastidores e campanhas de desinformação; são alguns dos fatores que contribuirão para que Cuba viva uma transição para a democracia sem experiências golpistas. Uma democracia mais justa, que servirá de exemplo a todos os países latino-americanos, que vivem uma farsa grotesca de democracia.

Prefiro, portanto, enxergar as coisas desse modo. Assim como Cuba tem servido de exemplo para a esquerda latina há décadas, com suas crianças estudando, se medicando e se alimentando bem (enquanto as nossas eram chacinadas na Candelária ou se prostituíam no litoral de Fortaleza), uma nova Cuba democrática e socialista poderá ser o espelho de justiça social que miramos e pelo qual lutamos.

Seja como for, acho que o mais importante é respeitar a vontade do povo cubano e não se meter com eles. Se eles quiserem, por exemplo, criar uma monarquia, que nós temos a ver com isso? Não temos já problemas suficientes por aqui? A América Latina tem muitos problemas, e o pior deles é, seguramente, a humilhação que a miséria impõe a milhões de pessoas. A miséria sim é que é a pior arma de destruição em massa. Por que não mata somente o corpo, mas também a alma, degradando o ser humano, afastando crianças e jovens do estado de humanidade, que prevê conhecimentos básicos sobre o mundo e a história.

Cuba ousou enfrentar esses problemas, e nunca deixou de assumir as consequências de sua ousadia. Pagou um preço alto pela justiça social, mas foi um preço que os cubanos escolheram. Entre serem uma democracia miserável, humilhada, servil aos interesses imperialistas, com seu povo agonizando em hospitais decadentes e suas crianças e jovens se prostituindo, morrendo de fome, sem escola e sem apoio do Estado, optaram por ser uma ditadura socialista, orgulhosa, altiva e com todos seus jovens estudando em colégios de boa qualidade e sendo tratados em hospitais limpos e eficientes. O cubano de hoje e de amanhã nunca será o que teria sido se a ditadura de Fulgêncio Batista houvesse triunfado sobre a revolução.

Sergio Costa fala em "hotéis permissivos ao turismo sexual", das praias de Varadero. Peraí! Que espécie de ET é Costa? Até onde eu sei, turismo sexual (o normal, sem exploração infantil) existe na China, Japão, EUA, Suíça, Holanda, Brasil, em toda parte do mundo. São mulheres adultas que gostam de dinheiro mais do que de seus escrúpulos morais, sendo impossível evitar que elas se comportem desta maneira. Agora, é muito hipócrita falar assim. Além de socialista, queria o colunista da Folha que Cuba fosse "terra santa"?

Clóvis Rossi termina sua notinha dizendo: "No ocaso, Fidel e o castrismo não têm futuro. Só passado".

Pois eu digo o contrário: Em seu ocaso, Fidel já tem seu nome marcado na história como o mais importante revolucionário da América Latina. Daqui a cem anos, seu nome será lembrado e sua história continuará sendo estudada e analisada. Suas ações servirão de exemplo para alguns idealistas por muitos séculos, pelo menos enquanto houve miséria e opressão social no mundo. Enquanto isso pessoas como Clóvis Rossi serão esquecidas pela História, como servis e medíocres intelectuais de Terceiro Mundo, que venderam sua alma e o que restava de seus ideais em troca da "esmola" que os senhores dão a seus escravos.

Uso a palavra "esmola" deliberdamente, para ofender mesmo, como contra-ataque ao fato de Rossi se referir ao Bolsa Família como esmola, o que é um desrespeito, uma grosseria injustificada, que mereceria processo criminal, porque todos os países desenvolvidos têm programas de assistência social.

quinta-feira, 3 de agosto de 2006

"Democracia" Tucana: PSDB e PFL conseguem censurar "Revista do Brasil"



TSE censura Revista do Brasil a pedido da campanha Alckmin

Numa clara ofensa aos trabalhadores em particular e à liberdade de imprensa no geral, a coligação encabeçada pelo candidato da direita neoliberal, Geraldo Alckmin, sustentou que o primeiro número da revista fazia campanha pró-Lula e contra o tucano. A publicação, que é mensal e teve 360 mil exemplares, é produzida por 23 sindicatos e pela CUT. Cabe recurso.

Prossegue a ânsia neoliberal para calar entidades progressistas e a voz dos trabalhadores. A coligação Por um Brasil Decente (PSDB/PFL) entrou com representação junto ao Tribunal Superior Eleitoral contra a regional de São Paulo da Central Única dos Trabalhadores (CUT) por conta da veiculação da primeira edição da Revista do Brasil. Nesta quarta-feira (26/7), o ministro Carlos Alberto Menezes julgou procedente a representação, proibindo a distribuição da revista por qualquer meio, sob pena de multa.

Por conta da arbitrariedade, os sindicatos vão recorrer - e o TSE terá a oportunidade de reparar o erro. Na opinião do diretor de imprensa da CUT/SP, Daniel Reis, a decisão da Justiça é uma ofensa aos trabalhadores. "Acredito que o TSE vá rever sua decisão. Não é possível que os trabalhadores sejam proibidos de manter uma publicação própria, que não tenham direito a contar o seu lado da história, como fazem os mais poderosos por meio da grande mídia."

A Agência Carta Maior - que forneceu conteúdo para as duas primeiras edições da publicação - também deixa de disponibilizar na íntegra esses conteúdos. A publicação é produzida por 23 dos maiores sindicatos do país e pela CUT. Foi lançada em maio com o intuito de fazer chegar aos cerca de 360 mil associados desses sindicatos "informação apresentada sob a ótica dos trabalhadores". O primeiro número trazia na capa o presidente Lula e uma matéria analisando os motivos que o levam a permanecer com a popularidade em alta, apesar da crise política do ano passado. O segundo número, que traz na capa uma matéria sobre a Volkswagen, já estava sendo distribuído.

Os dois temas mostram a pertinência da publicação. Trata-se de mais um veículo para a classe trabalhadora expor idéias e se informar de modo crítico. Os textos da revista se aprofundam um a um, na tentativa de contextualizar os leitores. Mas o bloco conservador - capitaneado por PSDB e PFL, mais e interessado na alienação dos trabalhadores - alega que a divulgação da revista faz prática de conduta ilícita. Algumas das matérias acabavam por "ressaltar a suposta força eleitoral do atual presidente da República, ao informar que seu governo não desmantelou programas sociais e não privatizou direitos sociais e culturais", segundo texto divulgado no site do TSE.

Que crime, afinal?

Se o argumento for válido, é preciso fechar praticamente todos os veículos da grande imprensa. A cada rodada de pesquisa de intenção de votos para as eleições de outubro, é notória a força nas camadas mais pobres de Lula, candidato à reeleição. Esse potencial não é gratuito. Analistas políticos, donos dos institutos de pesquisas e até jornalistas do establishment reafirmam justamente o peso dos programas sociais na predisposição do eleitorado.

PSDB e PFL carregam nas tintas, erram a mão. Citam nominalmente as matérias de capa ("O segredo de Lula" - "Diga-me para quem governas") e "Pavor de investigação", sobre as dezenas de CPIs barradas na Assembléia Legislativa de São Paulo. Apontam uma suposta "panfletagem eleitoral" em favor de Lula e "propaganda negativa" em relação ao candidato Geraldo Alckmin. Se a base de sondagem são os trabalhadores, nada mais natural do que a preferência por um candidato egresso desse mesmo meio, cujo governo valorizou o salário mínimo, aumentou os índices de empregos formais e ainda legalizou as centrais sindicais. Interpretações e análises políticas não podem ser confundidas - como fez o TSE - com propaganda eleitoral.

"Criamos a revista com o objetivo de levar à população informações que outras revistas de grande circulação não trazem", conta Luiz Cláudio Marcolino, presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região. Como exemplo, ele expõe a a matéria de capa na edição 2, sobre as demissões na Volks. "Freqüentemente, o caso é apresentado do ponto de vista da empresa. E nós mostramos a forma como sofrem os trabalhadores e seus familiares." Propaganda política? Onde?

"A revista traz matérias sobre comportamento, saúde, futebol, dicas culturais. Não tem nada de eleitoreira e ofensiva", reforça o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, José Lopez Feijóo. "Revistas como Época, IstoÉ e principalmente a Veja fizeram capas extremamente ofensivas ao presidente da República, ao Partido dos Trabalhadores - e, muitas vezes, fazem isso em relação aos sindicatos e aos trabalhadores, e são tratadas dentro dos parâmetros da liberdade de imprensa". Feijóo e Luiz Cláudio Marcolino são os diretores responsáveis pela revista.

Da Redação, com Agência Carta Maior e CUT-SP

quarta-feira, 2 de agosto de 2006

Outras verdades: Relato de uma viagem a Cuba

Muito se fala sobre Cuba, sua revolução, seu principal herói, Che Guevara, seu governo e seu líder, Fidel Castro. Mas a maioria das notícias, análises e interpretação que lemos ou ouvimos na mídia (até no cinema) traz apenas uma versão dos fatos, sempre alinhada com aqueles que são contra tudo isso. É comum, portanto, ouvirmos Fidel sendo chamado de "ditador" que governa Cuba com mão de ferro ou Che Guevara rotulado de "baderneiro profissional".

Longe de mim querer convencer alguém que acredita em tudo que vê na tela da TV, do cinema ou nas folhas das revistas e jornais conservadores mundo afora que ele está sendo enganado e manipulado descaradamente. Cada um que tire suas próprias conclusões sobre o mundo. Todavia, tomo a liberdade de reproduzir abaixo uma mensagem escrita por um amigo que realmente esteve em Cuba e passou um bom tempo conhecendo de perto a realidade daquele país e de seu povo.

Leiam até o fim, pois vale a pena!



RELATO DE UMA VIAGEM A CUBA

- Por Antônio Gabriel Haddad

Passei 26 dias em Cuba, no ano passado. Fidel Castro e a Revolução são venerados pela esmagadora maioria da população. Che Guevara, Camilo Cienfuegos, Raul Castro e outros ícones da Revolução são espontaneamente cultuados nas casas. Com alguma frequência, há retratos de Che ao lado de imagens de Cristo sobre televisores. Todos lá são eleitos, Fidel Castro inclusive, em um avançado processo de participação popular, típico de uma democracia socialista.

Não tenha a ilusão de que minha visita à ilha se restringiu a resorts de Varadero e Havana. Não mesmo. Fui por conta própria, sem pacote de viagem, e fiz meu roteiro. Não fui abordado nas ruas uma única vez pelas "terríveis" e "repressoras" autoridades da ilha. Corringindo, fui abordado uma vez. Uma policial gentilmente solicitou que eu tirasse minha mala que ocupava um assento vazio no terminal rodoviário de Camagüey. Aqui, o primeiro exemplo da educação e da solidariedade cubanas.

Circulei em qualquer horário por qualquer lugar, em todas as oito cidades que visitei. Conversei com quem eu quis. Entrei em hospitais, em lojas, em lachonetes. Tentei conhecer o máximo possível de pontos não-turísticos. Em suma, tive contato com o que há de melhor em Cuba: o povo cubano. Hospedei-me em casas particulares.

Em Trinidad, a dona da casa que me abrigou falava com orgulho do filho médico, que estava servindo em missão internacional na Venezuela, sem ganhar um único centavo a mais. Expliquei-lhe o perfil dos médicos de ponta no Brasil. Filhos da elite branca, que estudam em universidades públicas e, depois de formados, montam seus consultórios nos Jardins para cobrar R$ 500 uma consultinha de merda. Tentei comentar também sobre juízes que vendem sentenças, policiais que se envolvem com quadrilhas, fiscais que negociam com sonegadores e reduzem tributos, prefeitos que desviam dinheiro da merenda escolar, todas essas deformações de nossa espetacular sociedade democrática. Tudo era incompreensível para ela, uma solidária mulher cubana, que sofre com a ausência do filho distante, mas diz que o apoiará sempre, enquanto os desamparados do mundo necessitarem de seu auxílio e de seus conhecimentos.

Sabe quem é o grande idealizador e condutor do programa cubano de solidariedade médica? O abominável, o ditador, o déspota, o tirano, o cruel, o totalitário Fidel Castro, a quem muitos desejam a morte breve para que se acelere o fim da tal dinastia, não é mesmo?

É evidente que Cuba não é o paraíso. Nem mesmo o governo cubano vende essa imagem do país. Cuba é um país pobre, com problemas econômicos seculares, agravados por um bloqueio econômico criminoso imposto pelos "democráticos" norte-americanos há quase cinco décadas. Pode lhes faltar bens de consumo, luxo doméstico, carros do ano, mas é gratificante andar por toda a ilha e não encontrar uma única criança abandonada, sem escola, descalça ou uma única pessoa revirando lixo para se alimentar.

Eu termino este nem tão breve desabafo com os dizeres de um outdoor na estrada que leva ao aeroporto José Marti: "Esta noche, doscientos millones de niños duermen en las calles. Ninguno de ellos es cubano" (essa noite, duzentos milhões de crianças dormirão nas ruas. Nenhuma delas é cubana). Troco a nossa democracia deformada, que dá direitos apenas às minorias que têm algo, pela "dinastia" cubana, que conferiu altivez e dignidade a todo um povo, sem distinção.

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Quem quiser saber mais sobre a história de Cuba, a revolução e a situação atual do pais, recomendo a leitura do livro "¿Y Ahora, Fidel?", de Arthur Amorim, que pode encomendar por meio deste link.

terça-feira, 1 de agosto de 2006

Guerra Suja: Terrorismo de Estado

TOLERAR O INTOLERÁVEL É TORNAR-SE CÚMPLICE

Porque, como ensina Comte-Sponville, “Tolerar o sofrimento dos outros, tolerar a injustiça de que não somos vítimas, tolerar o horror que nos poupa não é mais tolerância: é egoísmo, é indiferença, ou pior. Tolerar Hitler era ser seu cúmplice, pelo menos por omissão, por abandono, e essa tolerância era já colaboração.”

- por Marta Guerra, Jornalista – DRT 297-RN



É verdade que o mundo tornou-se insensível às tragédias humanas. A distância entre nosso Eu anestesiado pela avalanche de informações, pelo consumismo e pelo comodismo e aquele Outro que sofre exclusão, fome e miséria funciona como um escudo que protege nossa sensibilidade da dor por algo que julgamos fora do nosso alcance resolver. Até certo ponto, isto é um mecanismo de defesa da Vida, porque ela quer viver apesar de tudo o que conspira contra ela. Contudo, há coisas cuja magnitude provoca a penetração para além desse escudo e, se ainda nos resta alguma sensibilidade, exige uma tomada de posição. Porque se o nosso egoísmo nos impede desta tomada de posição, nos impede também de ter dignidade, considerada por Kant como o diferencial dos seres humanos face às outras espécies animais.

A presente situação do Líbano é paradigmática disto. A assimetria de forças e de tecnologia nesta guerra (não digo injusta, porque seria um pleonasmo. Não existem guerras justas) que sob o pretexto de deter o Hezbollah está destruindo toda a infra-estrutura de um pequeno país menor que o Estado de Sergipe e a indiferença do mundo aos efeitos colaterais representados pela morte e pelo êxodo de centenas de civis inocentes, como que legitima a barbárie e o retrocesso da nossa humanidade. O bombardeio do 30 de julho que destruiu um prédio de quatro andares em Canaã que abrigava refugiados na sua maioria mulheres e crianças deve ser este ponto de não retorno para que nos posicionemos ante a barbárie, quando mais não seja, porque se a legitimarmos amanhã poderemos ser suas vítimas.

É fora de dúvida que Israel tem o legítimo direito de defesa. Mas este direito só deve ser exercido dentro de certos limites e sobretudo guardar proporcionalidade com o ataque sofrido. Se o que aquele Estado deseja é a entrega dos dois soldados capturados numa operação militar pelo Hezbollah com o objetivo de troca de prisioneiros, é evidente a desproporcionalidade de destruir todo um país e matar (até agora) mais de 700 civis para conseguir de volta esses dois soldados. Esta desproporcionalidade é por si mesma reveladora de que este pretexto não é o móbile da guerra, mas de que ela está ligada a objetivos maiores, como diz Bush, conectados a outros interesses.

Continuo acreditando que a situação do Oriente Médio só se resolverá SE, e QUANDO, potências estrangeiras alheias ao conflito deixarem de tirar proveito da situação em benefício próprio e às custas de vidas que consideram insignificantes. Em segundo lugar, SE, e QUANDO, todas as partes envolvidas aceitarem um diálogo franco e sobretudo verdadeiro através do qual cada parte reconheça seus erros e aja concretamente de modo a redimi-los. A destruição do Líbano ocorre justamente quando o Hezbollah, o Hamas e o Fatah haviam se mostrado dispostos a reconhecer ao Estado de Israel o seu direito de existir legitimamente, em troca da paz e da demarcação do território palestino como previsto na resolução n° 181 da ONU que em 1948 criou o Estado de Israel, destinando-lhe 56% do território Palestino e reservando 44% desse mesmo território para a criação do Estado Palestino. Estamos em 2006, o Estado Palestino ainda não existe sequer informalmente e pior: a sua área foi reduzida a cerca de 20% da partilha original por força das anexações unilaterais praticadas por Israel. Evidentemente, os próprios palestinos já reconhecem que terão de fazer concessões sobre estes territórios ocupados, mas exigem que isto faça parte de negociações diplomáticas bilaterais e não que seja imposto pela força. É esta a reivindicação do Hamas e do Fatah, e ainda que enquanto pacifistas possamos discordar dos seus métodos não podemos deixar de reconhecer a justiça do seu pleito. Quanto ao Hezbollah, ele reivindica apenas a integridade do território libanês e a sua soberania. É por isso que não existem homens-bomba do Hezbollah nem ações dessa organização contra civis fora do território libanês. Fora do Líbano há apenas incursões militares que objetivam resgatar libaneses feitos prisioneiros ou liberar as fazendas de Chebaa, no sul do país, ainda na posse de Israel.

Vale lembrar que da Resolução 273/49 que acolheu Israel como membro da ONU faz parte o seguinte: “...decide que Israel é um Estado amante da paz, que aceita as obrigações contidas na Carta e está capaz e desejoso de cumprir essas obrigações.” Evidentemente, entre estas obrigações não se encontra a destruição de um país vizinho nem o massacre de seus habitantes. É interessante recordar também que Hitler chamava de terroristas os partisans que resistiam à ocupação nazista da Itália e da França. Embora pintados como terroristas, os combatentes do Hezbollah são na realidade patriotas que defendem seu já exíguo território, cuja culpa é somente a de ser uma das regiões mais férteis e mais bonitas do Oriente Médio. Além disso, o Hezbollah é também um partido político que integra legitimamente a coalizão que governa o Líbano, sendo responsável por ações sociais no sul daquele país como a criação e a manutenção de escolas e de hospitais. É por esta razão que conta com o apoio da população por eles beneficiada, sendo um grave erro de cálculo da inteligência militar supor que culpar o Hezbollah pelo flagelo do Líbano iria fazer a população libanesa voltar-se contra ele.

O filósofo francês Michel Foucault diz que as relações de poder não se estabelecem sem a produção, a acumulação, a circulação e o funcionamento de discursos apresentados como verdadeiros. Diz também que a suposta verdade desses discursos é orientada pela vontade de verdade que distorce a realidade para adequá-la ao fim pretendido. Nessa questão do Oriente Médio isto pode ser observado de modo cristalino, pois são os interesses que orientam a imposição de um novo Oriente Médio segundo um desenho e objetivos traçados em confortáveis gabinetes de empresas e governos estrangeiros que usam as populações e as forças armadas daquela região como peças de um sangrento jogo de xadrez, para ditarem as regras sujas de um jogo no qual sequer aparecem, muito menos se colocam na mira das armas químicas jogadas no Líbano ou dos katiushas atirados sobre Israel. É essa vontade de verdade que transforma patriotas em terroristas e vítimas em culpados, colocando a verdade ao lado da desrazão e da brutalidade e a razão ao lado da fantasia e da maldade.

Esta situação denuncia a patética impotência da ONU frente aos interesses da globalização e exige dos seres humanos que conservam um mínimo de dignidade que se posicionem e façam o que estiver ao seu alcance para denunciar a injustiça desse estado de coisas, exigindo um cessar-fogo imediato e incondicional como condição de possibilidade para qualquer negociação. Porque se não fizermos isto, além de ajudarmos a enfraquecer e deslegitimar a ONU estaremos também sendo cúmplices da barbárie. Porque, como ensina Comte-Sponville, “Tolerar o sofrimento dos outros, tolerar a injustiça de que não somos vítimas, tolerar o horror que nos poupa não é mais tolerância: é egoísmo, é indiferença, ou pior. Tolerar Hitler era ser seu cúmplice, pelo menos por omissão, por abandono, e essa tolerância era já colaboração.”

Domingo, 30 de julho de 2006, dia do massacre de Canaã.
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