segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006

Filmes: "Cinema Paradiso"

MAIS, NEM SEMPRE É MELHOR

Versão estendida de ''Cinema Paradiso'' apresenta cenas inéditas que, ao mesmo tempo, contestam e reafirmam o valor deste clássico

- Por André Lux

Escrito e dirigido em 1989 por Giuseppe Tornatore, ''Cinema Paradiso'' é considerado hoje uma das mais belas e tocantes homenagens já feitas ao cinema. Foi agraciado com o Prêmio Especial do Júri em Cannes e com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, tornando-se um imenso sucesso de crítica e de público - inclusive por causa da trilha musical esplendorosa do mestre Ennio Morricone.

O filme conta a história de Salvatore Di Vitta (Totó), um famoso cineasta que, após receber uma triste notícia, relembra sua vida e, principalmente, como aprendeu a amar a sétima arte graças à sua amizade com Alfredo (Phillipe Noiret), o responsável pela projeção do pequeno cinema em sua cidade-natal.

Todavia, pouca gente sabe que o filme foi um tremendo fracasso de bilheterias quando lançado originalmente na Itália. Por isso, foi recolhido e remontado pelo diretor, que eliminou cerca de 50 minutos da versão original para depois lançá-lo novamente nos cinemas, sem sucesso de novo (o filme só emplacou mesmo depois de ser premiado em Cannes e no Oscar).

Agora, mais de 15 anos depois de seu lançamento mundial, finalmente temos acesso à versão original de ''Cinema Paradiso'', pois acaba de ser lançado no Brasil o DVD que contém a chamada ''Nova Versão'' do filme, que tem 2 horas e 54 minutos de duração e traz restauradas todas as cenas que haviam sido deixadas na sala de montagem por Tornatore.

Todas essas cenas novas são originais, filmadas na época, nada de refilmagens ou atualizações.

Essa versão restaurada traz várias adições à trama original (deixando bem mais claro o fato de Totó ter virado um famoso cineasta), estender a participação de alguns personagens (como a velha mãe) e incluir duas cenas de sexo gratuitas (uma delas com Toto perdendo a virgindade com uma prostituta no cinema).

Mas o grande destaque mesmo desta versão é mostrar o reencontro, muitos anos depois, de Totó (Jacques Perrin, de ''Z '') com sua primeira namorada, Elena. Para quem não se lembra, ambos acabaram sendo separados por uma série de desventuras e, na versão reduzida, nunca mais se viam, ficando a situação sem resolução.

É bom advertir que essa nova versão de ''Cinema Paradiso'' poderá ser um pouco chocante para aqueles que, como eu, aprenderam a amar o filme tal qual foi lançado nos cinemas. É particularmente angustiante testemunhar o reencontro dos antigos namorados quando ambos já estão na casa dos 50 anos e com a vida feita. Mais triste ainda é aprender que o culpado direto pela separação deles foi exatamente o Alfredo.

Isso mesmo: na versão restaurada, aprendemos que o velho projecionista influiu diretamente no desenlace trágico do romance entre o casal de jovens, de tal modo que passamos até a sentir uma certa raiva pelo simpático senhor!

Suas motivações eram perfeitamente louváveis e legítimas, mas é inegável que as conseqüências de seus atos foram desastrosas para a vida afetiva do jovem Totó (interpretado por Marco Lenardi na adolescência), a ponto de transformá-lo em um adulto melancólico e amargo, incapaz de esquecer seu romance adolescente e ser feliz com seu sucesso profissional.

Por causa disso, fica muito difícil tomar uma posição definitiva sobre a ''Nova Versão''. Ela realmente explora mais a fundo a relação entre os personagens, o que resulta num filme mais denso e adulto. Todavia, muito da mágica e do encantamento do original acabam perdendo-se ou diminuindo, principalmente na relação entre Totó e Alfredo.

Por causa disso, a conclusão do filme torna-se mais amarga e pouco redentora. Na verdade, devido ao aumento significativo de todo o terceiro ato, o foco narrativo de ''Cinema Paradiso'' acaba sendo bastante alterado, ficando mais centrado no romance entre Totó e Elena e menos no amor do menino (Salvatore Cascio, excepcional) e do projecionista pela magia do cinema.

Muito do que havia ficado nas entrelinhas na versão reduzida é agora explicado e esmiuçado, o que deixa o filme menos idílico e nostálgico. Será isso uma melhoria em relação ao original? Caberá a cada espectador julgar qual das duas visões do filme é a melhor.

Uns vão preferir a antiga, mais enxuta, poética e emocionante, enquanto outros vão satisfazer-se com a nova, mais madura e menos escapista em sua conclusão. Particularmente, prefiro a magia da versão antiga.

Confesso que a nova versão deixou um gosto muito amargo em minha boca, o qual nem mesmo a exibição final da montagem dos ''beijos do Alfredo'' foi capaz de tirar... Sem dizer que fica muito difícil de acreditar que alguém continuaria obcecado por um amor adolescente por mais de 30 anos, ao ponto de negar qualquer felicidade e possibilidade de um novo amor real.

Todavia, ao analisar as duas versões fica evidente o poder que a edição pode ter num filme, já que as cenas adicionadas, ao invés de simplesmente ''aumentarem'' a duração, acabam mudando totalmente seu foco conceitual. O que nos leva a uma conclusão inegável: ver um filme na forma o qual foi originalmente concebido é sempre uma experiência interessante e pertinente, ainda mais no caso de ''Cinema Paradiso'', onde ambas versões são tão contrastantes entre si.

Cotaçâo
Versão do Cinema: * * * * *
Versão Estendida: * * * 1/2

2 comentários:

Anônimo disse...

Acabei de adquirir um duplo DVD que inclui a nova versão de “Cinema Paraíso”. Depois de ler o texto só me ocorre dizer que subscrevo inteiramente a opinião do André. Eu, que considero “Cinema Paraíso” um dos filmes da minha vida, confesso que também fiquei um pouco com a sensação que a nova versão “mata” o encanto e a magia que nos oferece a primeira versão. Em relação ao seu texto só acrescentaria que a nova versão acaba de dar razão ao realizador, ao ter a mestria de lhe cortar as cenas que são acessórias e que (sabe-se agora) lhe roubariam, indubitavelmente, o destaque que a fita conquistou na cinematografia moderna e que continua a encantar públicos de várias sensibilidades e gerações.
Um abraço de Portugal.
Armando

Anônimo disse...

Desculpe, André, mas não concordo com você. Explico-me: O filme é um resgate do passado de Salvatore, e o amor dele e Elena, que teve parte muito importante na trama e terminou sem que houvesse uma explicação, merecia também um resgate.
Para mim, a nova versão não matou o encanto, Totó tinha de rever Elena, tinha de saber o que houvera, tinha de resolver aquela frustração.
Talvez Tornatore também precisasse desse resgate, mesmo que irreal. já que o filme tem muito de autobiográfico, a começar pelas analogias entre os nomes do autor e da personagem : Totó > TOrnaTOre >Salvatore.
Entregando a minha idade, aquele cinema representado pelo Paradiso fez parte da minha juventude, é uma nostalagia, a dor de um retorno (nostoi=retorno+ algia=dor). Assisti a alguns daqueles filmes na época do lançamento: Anna -do baião-, Ulisses, com Kirk Douglas.
Achei importante o diálogo de Totó com a mãe, em que confessa seus temores e sentimentos, e a lembrança de tudo o que lhe marcou a infância e a juventude.
Acho perfeitamente possível conservar viva uma paixão não resolvida, um amor de juventude não consumado. O ator que viveu o protagonista na juventude teve um desempenho excelente e convincente.
Perdão, mas achei um tanto preconceituoso de sua parte angustiar-se por ter visto duas pessoas maduras se reencontarem e tomarem conhecimento das causas da separação e reviverem a paixão.

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