quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Filmes: "Tiros em Columbine"

E O MACACO ESTAVA CERTO...

Documentário explora massacre em escola para mostrar como o medo e a intolerância provocam a morte de mais de 11 mil pessoas por ano nos EUA.

- por André Lux, crítico-spam

Nos momentos finais do clássico anti-belicista “O Planeta dos Macacos”, dirigido por Franklin Schaffner em 1968, o astronauta Taylor (vivido por Charlton Heston) avisa aos seus algozes símios que não devem tentar segui-lo, pois ele sabe manejar seu rifle muito bem. “Tenho certeza disso...”, replica ironicamente o macaco cientista em alusão ao fato de os seres humanos terem praticamente causado sua própria extinção com suas armas de destruição, séculos atrás. Pois bem. O mesmo Heston, cujo currículo inclui outros filmes que também pregavam contra o racismo e a intolerância (como “Bem-Hur” e “OS Dez Mandamentos”), acaba sendo de certa forma o “astro” do documentário “Tiros em Columbine”, que enfoca a obsessão dos estadunidenses por armas e pela violência em geral, tendo como fio condutor o massacre de doze estudantes e um professor provocado por dois adolescentes desajustados em uma escola do Colorado.

Escrito, atuado e dirigido por Michael Moore, um gordo bonachão com cara de nerd que é hoje o crítico mais feroz da extrema direita estadunidense e autor do best-seller "Stupid White Men - Uma Nação de Idiotas", o documentário tenta descobrir de onde vem essa loucura toda que chega a produzir nos EUA mais de 11 mil vitimas fatais de armas de fogo por ano. Um dos alvos principais de Moore é a Associação Nacional de Portadores de Rifles (NRA), cujo presidente era até recentemente o mesmo Charlton Heston, que aparece na fita fazendo discursos que deixariam até Adolf Hitler envergonhado - e justamente nas cidades em que ocorreram as mortes provocadas por jovens armados. “Das minhas mãos frias e mortas” brada selvagemente o ator, em alusão à única condição na qual alguém vai poder retirar seus rifles dele. Um dos momentos mais poderosos do filme é justamente quando Moore consegue entrevistar Heston em sua casa, sequência na qual o “astro” é acuado pelas perguntas incisivas do documentarista a ponto de ser obrigado a fugir apressadamente depois de perceber que não teria como respondê-las sem expor seu ódio e preconceitos repulsivos.

Para tirar o rifle, só "das minhas frias mãos mortas", brada Charlton Heston

Mas Moore vai mais além. Em sua busca por explicações, entrevista pais das vitimas, políticos, estudiosos do assunto, membros de milícias armadas e produtores de shows que exploram a violência urbana (em especial a série COPS). Ninguém é capaz de elucidar o mistério, mas uma pista vem à tona rapidamente: os EUA são uma sociedade controlada pelo medo. E é exatamente o medo (do outro, do desconhecido, de ameaças iminentes inflamadas pela mídia) que gera a paranóia e a busca pelas armas de fogo. A violência, portanto, é apenas conseqüência disso, assim como o lucro gigantesco da indústria bélica. Não é a toa, portanto, que o filme começa com Moore abrindo uma conta corrente num banco que dá como brinde aos novos correntistas, um rifle carregado! Em outro momento igualmente poderoso, ele leva dois garotos que sobreviveram ao massacre de Columbine (um ficou aleijado para o resto da vida enquanto o outro ainda carrega balas dentro do corpo) à central de vendas da rede Wal-Mart, que foi onde os atiradores carregaram suas armas. Esse ato acaba gerando uma pequena vitória: com medo da reação pública e de possíveis processos, a rede anuncia que vai deixar de vender munição em suas lojas.

O grande mérito do documentário reside no fato de que seu autor não tem medo de ir até as últimas conseqüências, mostrando inclusive a participação do governo estadunidense na propagação desse medo, evidenciada na participação direta em invasões e massacres políticos acontecidas em vários países do mundo. Na seqüência mais irônica e devastadora do filme assistimos, ao som de “What a Wonderful Word” de Louis Armstrong, os vários golpes e guerras patrocinados pelos EUA no mundo todo (inclusive na América do Sul), passando pelo apoio militar e financeiro dado a loucos como Sadam Hussein e Osama Bin Laden e culminando com a destruição das torres do World Trade Center. Na legenda, a revelação mais do que óbvia: “E em 11 de setembro de 2001, Bin Laden usou o treinamento que recebeu da CIA para atacar os próprios EUA”.

Nem é preciso dizer que Michael Moore (mesmo tendo ganhado o Oscar de Melhor Documentário em 2002) é figura odiada nos EUA hoje, ficando ao lado de outros poucos intelectuais de esquerda (como Noam Chomsky e Susan Sontag) que têm coragem de protestar contra o imperialismo sanguinário de seus governantes e contra a mídia corporativa que se presta cada vez mais a fazer o papel de disseminar o medo e a intolerância entre a população daquele país e do resto do mundo.

Alguns acusam Moore de ser somente um sensacionalista que busca o lucro explorando situações trágicas como a que deu título ao filme. Essas pessoas deviam rever filmes como “O Planeta dos Macacos”. Mas, pensando bem, se nem o astro principal foi capaz de entender a mensagem daquele filme, o que dizer então do resto? No final da exibição de “Tiros em Columbine”, sobra apenas a triste constatação de que o macaco estava mesmo certo. E como estava...

Cotação: * * * * *

3 comentários:

Geopolêmica disse...

Assassinos natos! Eis o que são os EUA....

Cybershark disse...

Esse doc é ótimo! Já viu o Sicko, Lux? Aquele trecho em Cuba não sai da mente...

Guilherme disse...

Pra mim esse é o melhor documentário do Moore. Vale cada centavo que você pagou.
Realmente um filme para se ver e pensar. Essa culto ao medo funciona muito bem no Brasil, só não temos a cultura de comprar armas no Supermercado.

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