domingo, 23 de novembro de 2014

Revista Veja: Laboratório de invenções da elite

“Veja faz um jornalismo de trás para a frente”, explica Cláudio Julio Tognolli. “Assim, Veja ensina à classe média bebedora de uísque o que pensar”, alfineta.

Por Anselmo Massad, da revista Fórum

Um movimento popular ganhava atenção e simpatia da opinião pública fazia dois anos. Era preciso desmoralizá-los. 

Em junho de 1998, a capa da revista semanal com maior tiragem do país enquadrava uma das lideranças do movimento com uma iluminação avermelhada produzida nas telas de um computador sobre o rosto com uma expressão tensa. 

A chamada não deixava dúvidas: “A esquerda com raiva”. O rosto demonizado era de João Pedro Stédile, líder do movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), e a publicação, Veja.

Na matéria, além de explicitar sua posição, descredenciando o movimento por defender idéias contrárias às defendidas pela revista, os sem-terra eram apresentados como grupo subversivo-revolucionário, quase terrorista. 

Apesar das quase duas horas de entrevista, só foram aproveitadas declarações do líder de debates sobre socialismo em congressos devidamente descontextualizados. 

Stédile conta que, após a publicação daquela reportagem, ele e as lideranças do movimento tomaram a decisão de não atender mais à revista. Na época, uma carta anônima circulou por correio eletrônico revelando supostos detalhes de como a matéria teria sido produzida. 

A carta não comprova nada, e atribui ao secretário geral de Comunicações de Governo de Fernando Henrique Cardoso, Angelo Matarazzo, a “encomenda” para desmoralizar os sem-terra.

A iniciativa de não dar entrevistas à Veja também foi adotada por Dom Paulo Evaristo Arns, ex-arcebispo da Arquidioscese de São Paulo, quando presidia a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). O motivo era a distorção da cobertura. Procurado, não quis discutir o tema, apesar de manter a determinação de não conversar com jornalistas do veículo.

O presidente venezuelano Hugo Chávez é o mais recente alvo no plano internacional. Em 2002, Veja chegou às bancas no domingo com a chamada "A queda do presidente fanfarrão", quando a reviravolta já havia ocorrido e a manobra golpista denunciada. 

A "barriga", jargão jornalístico empregado a erros da imprensa, não foi sequer corrigida ou remediada. Em 4 de maio desse ano, Hugo Chávez voltou a ser alvo da revista, com a pergunta na capa "Quem precisa de um novo Fidel?", ditador cubado a quem a revista sempre se esperneou.

A lista é extensa, mas as razões derivam de uma fórmula simples. “Veja faz um jornalismo de trás para a frente”, explica Cláudio Julio Tognolli, repórter do semanário na década de 1980 e hoje professor da USP. Segundo ele, se estabelece uma tese e a partir dela se parte para a rua, para a apuração. 

Ouvir lados diferentes da história e pesquisar sobre o tema são práticas que não alteram a “pensata”, jargão para definir a tese que a matéria deve comprovar. Dentro da redação, o melhor repórter é o que traz personagens e fontes para comprovar a tese. “Assim, Veja ensina à classe média bebedora de uísque o que pensar”, alfineta.

Júlio César Barros, secretário de redação da revista, negou esse tipo de procedimento, em entrevista realizada em meados de 2003. Ele admitiu, porém, que a posição da revista é muito clara e conhecida por todos, do estagiário ao diretor. 

“Medidas irresponsáveis, que atentem contra as leis de mercado ou tragam prejuízos para a economia não terão apoio da revista, que prefere políticas austeras e espaço para o empresariado”, resumiu. 

A versão oficial do jornalismo praticado pela revista é de que, depois de ouvir especialistas e as pessoas envolvidas, o repórter normalmente já tem uma opinião formada sobre o assunto e a reproduz na matéria. Quem já trabalhou na revista nega.

“As assinaturas das matérias são uma ficção”, sintetiza um ex-colaborador da revista que não quis se identificar. As matérias são reescritas diversas vezes. 

O repórter entrega o texto que é modificado pelos editores, depois refeito pelos editores executivos e, por fim, pelos diretores de redação. 

No final da “linha de montagem”, o repórter, que pacientemente aguardou a edição para uma eventual necessidade de verificação de dados, não tem acesso ao texto até ver um exemplar impresso. 

O processo é narrado no livro do ex-diretor de redação da revista Mário Sérgio Conti, que fez parte da cúpula da publicação até 1997, como chefe de redação e diretor. A opinião que prevalece é a da revista, ainda que todos os entrevistados tenham dito o oposto, mesmo que para isso seja preciso omiti-las do leitor.

A criação de frases de efeito para os entrevistados foi, durante a década de 1980, prática comum, conforme narram diversos jornalistas ex-Veja. 

É do inventivo do ex-diretor Elio Gaspari a frase assumida por Joãozinho Trinta: “Quem gosta de pobreza é intelectual”. Outras foram criadas, algumas sem consulta, no caso de fontes mais próximas aos repórteres e diretores, que ganhavam carta-branca como porta-vozes de certas personalidades.

No quesito busca de frases, Tognolli conta que elaborou com colegas um dicionário de fontes que incluía verbetes como “Sindicalista que fala bem da direita” ou “Militar que fala bem da esquerda”. O material informal de consulta chegou a 70 verbetes e inúmeros nomes. Algo essencial para os dias de fechamento e encomendas de declarações sob medida.

Veja por dentro

Assim como outras revistas semanais, a estrutura é extremamente centralizada. Até o cargo de editor, o jornalista ainda é considerado de “baixa patente”, ou seja, não decide grandes coisas sobre o que será publicado. 

Dos editores executivos para cima já se possui poder sobre a definição do conteúdo, mas os profissionais são escolhidos a dedo. Além de competência profissional — qualidade de texto, capacidade intelectual e ampla bagagem cultural — é preciso estar muito alinhado com a editora.

Afinados, os diretores têm grande liberdade para controlar a equipe. 

Quanto ao conteúdo, o espaço é considerável, ainda que o presidente do conselho do grupo, Roberto Civita, o herdeiro do império da Editora Abril, participe das reuniões que definem a capa de Veja, junto do diretor de redação, do diretor-adjunto (cargo hoje vago), do redator-chefe e, eventualmente, do editor-executivo da área.

O ex-redator-chefe, atualmente diretor do jornal Diário de São Paulo relata que Civita sempre foi muito presente na redação, ainda que sem vetos ou imposições do patrão. Leite sustenta que as matérias e capas sempre foram feitas ou derrubadas a partir de critérios jornalísticos. 

“Roberto Civita acompanhava a confecção da revista, sabia de seu conteúdo e dava sua opinião em reuniões regulares com os diretores da revista. Mas, de vez em quando, até saíam matérias com as quais ele não estava de acordo”, garante. 

Leite afirma que, nesses casos, cobrado por políticos e empresários, Civita respondia que “não controlava aquele pessoal”. “Claro que controlava, mas sabia que fazer revista não é igual a fabricar sabonete”, compara.

A revista busca agradar a quem a compra: a classe média conservadora. A tiragem semanal da revista é de 1,1 milhão de exemplares, sendo 800 mil assinantes e o restante vendido em banca. 

“A maioria dos que compram, gostam das opiniões, gostam do Diogo Mainardi”, lamenta Raimundo Pereira, um dos primeiros editores da revista na época em que lá ainda trabalhava o seu criador, Mino Carta.

A cúpula da publicação reflete esse perfil. O diretor de redação Eurípedes Alcântara e o ex-diretor da revista Exame Eduardo Oinegue, autor da matéria de 1998 sobre os sem-terra, são membros do São Paulo Athletic Club, o Clube Inglês, freqüentado pela elite paulistana. 

Oinegue costumava defender que os jornalistas devem circular e manter amizades no meio em que cobrem. Entre empresários, se a editoria é Economia, políticos, se é Brasil etc.

Os preconceitos da elite são refletidos pela revista. Além dos movimentos sociais, há quem relate que um dos bordões de Tales Alvarenga, atual diretor de publicações, em sua fase à frente da revista era: “Não quero gente feia”. 

Por gente bonita, referia-se não apenas a padrões estéticos de magreza, mas também aqueles ligados à cor da pele. Segundo colaboradores próximos, fotografar negros seria quase certeza de material desperdiçado.

A despeito de comentar o livro de Mário Sérgio Conti, o ex-editor-executivo de Veja, hoje diretor do Diário de São Paulo, Paulo Moreira Leite, criticava a obra por ser parcial demais e não ser fiel aos fatos, especialmente os que envolviam os amigos do diretor. 

“A amizade e a proximidade excessiva com os poderosos são o caminho mais comum e mais eficaz para a impostura e a falsidade, o erro e a arrogância”, afirmava na época. Procurado novamente para falar a respeito, recusou-se a falar mais sobre Conti.

Falando em amizades, um caso em que essas relações foram reveladas, mas nem por isso foram explicadas ocorreu em novembro de 2001. O nome da editora de economia de Veja, Eliana Simonetti, aparecia na agenda do lobista Alexandre Paes dos Santos. 

Ela recebeu a quantia de 40 mil reais em empréstimos, segundo sua própria estimativa. A revista, de acordo com a jornalista, sabia do relacionamento. Quando os repasses vieram a público, ela foi demitida, sob a alegação de "relacionamento impróprio" com uma fonte.

O maior problema é que a informação surgiu a partir de uma agenda do lobista, envolvido com empresas transnacionais e influência direta sobre funcionários do Palácio do Planalto. 

Quem revelou a existência do documento foi Veja, cuja reportagem fez vista grossa ao nome da colega. Para dar satisfação à opinião pública, a revista publicou somente uma nota a respeito. Nenhuma investigação foi promovida sobre eventuais matérias compradas, hipótese negada pela ex-editora e pela revista. 

Simonetti não respondeu aos contatos, mas afirmou, à época, que "todo jornalista tem seu lobista", colocando toda a classe sob suspeita. Ela processou a Abril, e ganhou em primeira instância no ano seguinte o direito à indenização de 20 vezes o valor do último salário.

Império

Publicações tradicionais do mundo todo têm sua posição claramente conhecida pelo público, sem roupagem de imparcialidade. Os questionamentos éticos aparecem quando as relações por trás desses interesses não são transparentes ao público leitor. 

Um dos motivos dessa falta de transparência é o surgimento dos grandes conglomerados de comunicação. Esse fenômeno adquire contornos mais dramáticos no Brasil, que permite a propriedade cruzada dos meios de comunicação (uma mesma empresa detém meios impressos e televisivos, por exemplo).

O presidente da Radiobrás e ex-diretor de publicações da Abril, Eugênio Bucci, alerta que os grupos transnacionais de entretenimento compram TVs e jornais e os restringem a um mero departamento. “A pergunta que se colocava antes era se o jornalismo é capaz de ser independente do anunciante. Hoje se questiona se ele é capaz de ser independente do grupo que o incorporou”, avalia.

A concentração dos veículos de comunicação nas mãos de poucos grupos, ainda que nacionais, é a marca da história da mídia no Brasil. 

O grupo Abril não foge à regra. Ele abarca um complexo que envolve 90 revistas, duas editoras de livros (Ática e Scipione), uma rede de TV (MTV), uma de TV a cabo (TVA) e uma rede de distribuição de revistas em banca de jornal (Dinap), além de inúmeras páginas na internet.

Tem sete das dez revistas com maior tiragem no país e, nesse quesito, Veja é a quarta maior do mundo. “A Abril faz o que for preciso para expandir seu império, se for preciso derrubar um artigo da Constituição, alterar leis ou políticas, ela usa suas publicações para gerar pressão”, sustenta Giberto Maringoni, jornalista, chargista e doutorando em história da imprensa.

A evolução do império Abril dá uma mostra de como ela soube usar bem sua, digamos, habilidade. O início das atividades se deu em 1950, com a publicação das revistas em quadrinhos do Pato Donald, personagem de Walt Disney. 

O milanês Victor Civita aproveitava a licença para a América Latina e a amizade do irmão Cesar com o desenhista norte-americano para lançar os produtos. Apesar de simbólico, não se pode dizer que o grupo tenha sido um propalador de enlatados norte-americanos ou produzido materiais de má qualidade em sua história.

O surgimento de diversas revistas, incluindo Veja, um semanário informativo — e não uma revista ilustrada, como o nome e as concorrentes sugeriam —, o lançamento de coleções na década de 1960, como A conquista do espaço, a revista infantil Recreio, sob o comando da escritora Ruth Rocha, e a revista Realidade, uma das melhores feitas no país até hoje, são exemplos de publicações de qualidade da editora. 

Qualidade que não se manteve, segundo o diretor responsável pela criação de Veja em 1968, Mino Carta. Ele considera a publicação da Abril muito ruim, assim como todas da grande imprensa brasileira, à qual lê muito pouco, para “não sofrer demais”. 

Na época em lançou o livro Castelo de Âmbar (Editora Record, 2000), afirmou aos quatro ventos a incompetência e até a “imbecilidade”, em suas palavras, dos donos da Abril, que “não entendiam nada de Brasil, assim como não entendem ainda hoje.”

O episódio da demissão de Carta do seu posto na revista Veja é um exemplo do tipo de interesses que pautam os donos da Abril e o jornalismo de suas publicações. A censura prévia havia sido suspensa em março de 1974, com a posse do general Ernesto Geisel. 

Combativa, a redação publicou três capas seguidas com duras críticas ao governo. A gota d'água para o regime foi uma charge de Millôr Fernandes, que apresentava um preso acorrentado e um balão com a fala de um carcereiro oculto, do lado de fora da cela: “Nada consta”.

Na negociação operacional da censura, Carta conta que Roberto Civita, filho de Victor, ofereceu a cabeça de Millôr a Golbery do Couto e Silva, chefe da Casa Civil, para tentar evitar a censura. 

O então ministro da Justiça, Armando Falcão, queria a cabeça de Carta. No livro, ele menciona uma carta escrita por Sérgio Pompeu de Souza, o preferido de Falcão e diretor da sucursal de Brasília, sugerindo ao conselho a demissão do diretor para facilitar as coisas para a revista. 

Carta afirma que, entre as facilidades, estava incluso a liberação de um financiamento da Caixa Econômica Federal para saldar uma dívida de 50 milhões de dólares no exterior.

Na versão oficial, reproduzida no livro de Conti, os Civita queriam noticiar os progressos do país e Carta, só os aspectos negativos do regime. Queriam ainda expandir o grupo, com a construção de hotéis. Foi preciso ceder ao governo. 

O episódio decisivo foi a exigência da demissão do dramaturgo Plínio Marcos, colunista da revista. A negativa de Carta em fazê-lo foi o motivo alegado para o seu desligamento, em abril de 1976. Dois meses depois, a censura na revista acabou.

Desde então, Veja tem servido a interesses políticos e econômicos para preservar os seus, ainda que isso implique mudança de posição. Um exemplo foi o comportamento na ascensão e queda do ex-presidente Fernando Collor de Melo. 

O livro Notícias do Planalto, de Mário Sérgio Conti, conta em detalhes o período, ainda que inclua a maioria da grande imprensa. Da capa sobre "O caçador de marajás", em 1988, até a “Caso encerrado”, sobre a morte de Paulo César Farias, a despeito do laudo do médico-legista Fortunato Badan Palhares, em 1993. 

A adesão automática à candidatura alternativa aos perigosos Leonel Brizola e depois Luiz Inácio Lula da Silva, favoritos naquele pleito, foi dando lugar aos escândalos de corrupção no decorrer do governo.

Os que têm seus interesses atendidos pela revista também mudam. Para Tognolli, durante a década de 1980, a revista vivia sob a tutela de Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA), quando Elio Gaspari era o diretor da revista. 

Nos anos de Mário Sérgio Conti, houve uma pequena melhora, até a transição ocorrida nos anos de Fernando Henrique em Brasília. “O que antes era ninho dos baianos, hoje é ninho dos tucanos. Quem começou a campanha da mídia contra o atual governo foi Veja”, sustenta.

Um levantamento das capas entre os anos de 2000 e 2005 mostram claramente o seu jornalismo tendencioso. Política interna e economia são os temas de capa mais freqüentes em 2000, 2002 e 2005. 

Curiosamente, em 1998, ano de eleições federal e estadual, esses temas estiveram bem ausentes: só foram destacados em 11 das 52 edições. 

Nada se compara a 2005, em que quase metade das 28 capas produzidas até o fechamento desta reportagem destaca temas políticos. Desnecessário dizer que o prato principal era a corrupção.

Um exemplo foi o uso de uma pesquisa do Instituto Ipsos Opinion, divulgado pela revista na edição de 13 de julho. No levantamento, constatou-se que 55% dos entrevistados acreditavam que Lula conhecia o esquema de corrupção, ao mesmo tempo em que a popularidade pessoal e do governo permaneciam estáveis em relação ao estudo anterior.

A avaliação dos analistas do grupo, de que a imagem do presidente permanecia intacta, foi omitida, o inverso do apregoado pela reportagem de capa. A visão dos autores só foi publicada depois de duas edições na seção de cartas, sem o menor destaque.

Raimundo Pereira acredita que, se não fosse o caso do financiamento de campanha, é bem possível que se achasse outro assunto para desmoralizar o atual governo. 

“Veja não está isolada em sua ação, mas é a ponta de lança, a que tem mais prestígio e circulação”, avalia.

Tratamento bem diferente daquele dado ao caso da compra de votos para a aprovação da emenda da reeleição, em 1997. 

Naquele ano, apenas uma capa foi feita sobre o assunto, com o rosto de Sérgio Motta, então ministro-chefe da Casa Civil, e a chamada “Reeleição” e “A compra de votos no Congresso”, em letras menores. Como se não fosse corrupção. 

Assepsia total para o Planalto. Um servilismo ao governo que, com os petistas no poder, se transformou em ódio.

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segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Projeto vai transformar a Ponte Torta em atração turística de Jundiaí

Os arquitetos Michael Gorski e Daniela da Câmara onde será o mirante da Ponte Torta
“Este projeto é uma das prioridades do prefeito Pedro Bigardi, porque tão importante quanto a intervenção física na Ponte Torta é esse trabalho com a comunidade que busca resgatar a história da cidade e a relação afetiva das pessoas com esse monumento. Afinal, um povo que não conhece e valoriza a sua própria história corre o risco de perder sua identidade”. 

Com essa afirmação, a secretária de Planejamento e Meio Ambiente Daniela da Camara Sutti explicou o que está sendo feito no projeto que visa transformar a Ponte Torta em um ponto turístico da cidade de Jundiaí.

O projeto vai contar inclusive com a construção de um mirante de onde as pessoas poderão ver a ponte à distância, mas também como era no passado distante a paisagem do local em volta da ponte por meio de painéis transparentes com ilustrações e fotos antigas.

Mirante contará com painéis para mostrar como era no passado
O projeto foi apresentado para a população na sexta-feira (14), no Solar do Barão, pelo arquiteto Michel Gorski, que possui um escritório especializado em restaurações de prédios e edificações históricas.

“A Ponte Torta não pode ser entendida sem o rio Guapeva e a cidade, por isso queremos buscar esses novos olhares sobre a obra. Em várias cidades do mundo as pontes históricas são valorizadas e até mesmo usadas criativamente para chamar a atenção dos cidadãos e dos turistas para aqueles locais", afirma Gorski.

Palestra do arquiteto Michel Gorski sobre a restauração da Ponte Torta
A artesã Odila Grella de Oliveira, que faz parte do programa "Jundiaí Feito à Mão", está produzindo réplicas da Ponte Torta, as quais já estão sendo vendidas à população. 

"Tenho muito orgulho de fazer parte desse projeto e a procura está sendo alta, pois as pessoas gostam muito da ponte e querem ver a história dela preservada", emociona-se Odila.
A artesã Odila de Oliveira com sua réplica da Ponte Torta

A esquerda tem Chico Buarque. A direita tem... Lobão!

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Filmes: "Azul é a Cor mais Quente"

CHATO PRA CACETE

O que poderia ser um interessante estudo sobre a sexualidade humana se transforma num penoso esforço para evitar o sono

- por André Lux, crítico-spam

Eu nada tenho contra os chamados "filmes de arte", pelo contrário, muitas vezes os acho sensacionais e essenciais. Porém, de vez em quando, a gente se depara com um deles que, mesmo tendo conteúdo bastante pertinente, derrapa em sua realização ao ponto de tornar-se intragável.

É o caso desse "Azul é a Cor Mais Quente", dirigido por um certo Abdellatif Kechiche, tunisiano radicado na França, que poderia ser um interessante estudo sobre a sexualidade humana e também sobre as confusões que as pessoas fazem entre atração sexual e amor, mas que acaba se tornando num filme penoso de se ver até o fim.

O roteiro, que é baseado numa história em quadrinhos francesa, conta a história de Adèle, uma adolescente de 15 anos, que descobre sentir atração por pessoas do mesmo sexo depois de esbarrar, na rua, numa mulher de cabelos azuis e ter um flerte com uma colega na escola.

Aos poucos ela vai explorando suas novas descobertas e acaba conhecendo a tal moça de cabelos azuis, com quem vive uma tórrida história de amor, com direito a longas cenas de sexo lésbico que certamente vão ser aprovadas pelas mulheres gays ou bissexuais, já que a maior reclamação delas sobre os filmes pornográficos é justamente a artificialidade das transas entre mulheres.

Confesso que estava gostando bastante do filme mais ou menos até sua metade, principalmente pela atuação de Adèle Exarchopoulos, que além de muito bonita e fofa, conseguia transmitir com muita intensidade os dramas e conflitos da adolescente, compensando a falta de graça da sua "cara-metade" Emma, feita por uma apagada Léa Seydoux.

Os problemas começaram quando o filme ultrapassou a marca das duas horas de projeção e aí começou a se arrastar em cenas desnecessárias e esticadas, quando já havia muito pouco a se mostrar, exceto o crescente distanciamento entre as duas depois que vão morar juntas, agravado pelo fato delas terem muito pouco em comum além da forte atração sexual inicial. 

Há uma cena, por exemplo, em que ambas oferecem um jantar aos amigos artistas e intelectuais de Emma que, sem brincadeira, deve durar uns 10 minutos ou mais (mas parece uma eternidade), e que só serve para mostrar o constrangimento de Adèle perante os assuntos debatidos. Essa sequência poderia ter 2 minutos e já daria para entender tranquilamente o que estava acontecendo, mas é esticada ao extremo, ao ponto de irritar. Confesso que foi tanta gente comendo e "chupando" macarrão que até me deu enjoo!

Ao final, foi difícil resistir ao sono, pois foram três horas de filme, algo que, convenhamos, só dá para suportar em épicos com "Ben Hur", "Lawrence da Arábia" ou "O Senhor dos Anéis"...

Para piorar, o diretor insiste em filmar quase tudo em planos fechados, com a câmera quase enfiada na cara das atrizes, deixando tudo claustrofóbico sem qualquer necessidade, quando queria apenas demonstrar intimidade. 

O que mais impressiona é que o filme ganhou a Palma de Ouro em Cannes esse ano. Mais uma prova que alguns "entendidos" gostam mesmo é de filmes chatos pra cacete!

Cotação: * *

CineArte do Sindicato dos Metalúrgicos de Jundiaí oferece curso gratuito sobre Chaplin a partir de quinta



O cineasta, ator, músico e humorista Charles Chaplin será tema de um curso no CineArte do Sindicato dos Metalúrgicos de Jundiaí e região, começando a partir da próxima quinta-feira, 13 de novembro, às 19 horas.

Realizado em parceria com a secretaria de Cultura de Jundiaí, o evento vai acontecer todas as quintas-ferias, no formato de dois encontros interativos de 2 horas cada, a partir da exibição de filmes clássicos de Chaplin, com encerramento no dia 27 de novembro.

"Esse curso é mais uma iniciativa que faz parte do projeto Sindicato Cidadão, cujo objetivo é levar mais cultura e lazer para os nossos associados e também para a comunidade na qual estamos inserindo, sempre oferecendo obras que feitas a partir do ponto de vista dos trabalhadores", explica Rose Prado, diretora do Sindicato e coordenadora do CineArte.

“Chaplin é uma referência em arte crítica, pois ele produz através do humor uma reflexão sobre nossa sociedade e as condições da luta de classes no mundo”, relata Jean Camoleze, diretor do Museu Histórico e Cultural de Jundiaí, que irá ministrar as aulas.

No final do curso, os participantes vão receber um certificado de participação expedido pelo Sindicato dos Metalúrgicos.

Quem quiser participar do curso sobre a obra de Chaplin no CineArte precisa apenas retirar seu ingressos gratuito na sede do sindicato, que fica na rua Quinze de Novembro, 240.

Mais informações pelo telefone (11) 4527-3100.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Filmes: "Malévola"

MULHERES NO PODER

Apesar da motivação ser sempre o lucro, quem entende a luta das feministas não tem do que reclamar

- por André Lux, crítico-spam

A Disney está investindo agora em filmes que trazem mulheres em posição de destaque, mostrando força e independência, bem diferente dos contos de fadas do passado, onde ficavam sempre esperando passivamente o príncipe encantado para serem salvas.

Claro que isso só acontece porque fizeram intensas pesquisas de mercado e descobriram que as mulheres são as espectadoras mais fiéis desse gênero e, por isso, estão tentando lucrar nesse nicho.

Mas quem entende a luta das feministas não tem do que reclamar. Filmes como "Malévola", "Frozen" e "Valente" não deixam de ser bem vindos nessa sociedade basicamente machista e patriarcal em que vivemos, onde as mulheres tem sempre lugar secundário e é tratada por muitos como seres inferiores. Não por acaso, esses filmes foram acusados pelos fundamentalistas de plantão de serem "obras demoníacas a serviço da conspiração comunista-gayzista-feminazi" ou coisa parecida. Só rindo mesmo.

Pena que essa releitura feminista do clássico "A Bela Adormecida" se perca num roteiro mal escrito e na necessidade de tentar enfiar monstros e lutas no estilo de "O Senhor dos Anéis" no meio do filme, fatores que apenas servem para deixá-lo confuso e sem foco.

Angelina Jolie se esforça em dar algum sentido à protagonista, vista aqui como uma fada que é traída pelo seu amor de infância, tem suas asas cortadas e então se deixa consumir pela sede de vingança. Jolie consegue convencer, mas faltam-lhe cenas que deixem seus conflitos internos mais evidentes. 

Também nunca fica claro quais são as extensões de seus poderes. No final, ela consegue até conjurar um dragão, o que nos faz pensar: por que simplesmente não fez crescer novas asas em suas costas? E por que os humanos tinham tanto ódio das criaturas mágicas de Moors, sendo que, com exceção da Malévola e algumas árvores-soldados, tudo que víamos por lá eram uns bichinhos totalmente inofensivos e até bobos? Quanto mais fantasioso um filme é, mais preocupado em criar certas regras para "prender" seus personagens tem que ser, senão fica tudo sem lógica.

O ator que faz o rei, Sharlto Copler (de "Elysium"), e as três fadinhas que cuidam da jovem Aurora também são péssimos e ajudam a estragar o resultado final. O rapaz que pegaram para ser o príncipe Felipe é ridículo, mas aí parece que foi proposital, já que ele não tem qualquer importância na trama, pelo contrário, é até usado de forma irônica.

E a produção foi bastante complicada, a ponto dos executivos da Disney dispensarem o diretor no final e obrigarem a refilmagem de todo o prólogo, com outro cineasta e uma nova atriz como a Malévola jovem. Isso é sinal de que não estavam certos sobre os rumos que o filme deveria tomar e, como sempre, quanto mais mexem, pior fica o resultado final.

Ao seu favor, "Malévola" é lindamente filmado, graças ao diretor Robert Stromberg, que é também artista de efeitos visuais, e ao consagrado fotógrafo Dean Semler. A música de James Newton Howard é muito boa também, cheia de poder sinfônico, o que demonstra sensibilidade do cineasta por trás das câmeras, que é irmão do compositor de trilhas William Stromberg.

Dá para assistir e certamente vai agradar as mulheres, mas poderia ser bem melhor.

Cotação: * * 1/2

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Os imensos buracos negros no roteiro de "Interestelar"

Olha, não costumo ser chato assim, mas tem certas coisas que merecem ser ridicularizadas. 

O filme "Interestelar" vem recebendo bastante atenção e isso é até louvável, afinal trata-se realmente de uma obra feita com coração, um verdadeiro "filme de autor". Pena que neste caso o autor seja um sujeito pretensioso e sem qualquer profundidade.

Mas aí é opinião minha, tudo bem, ninguém é obrigado a concordar. 

Agora, o que mais incomoda é ver gente defendendo o filme porque ele supostamente leva a sério a ciência envolvida nas viagens espaciais e as várias teorias que a Física desenvolveu sobre o assunto. O diretor até se gaba de ter como consultor para assuntos científicos o renomado professor Kip Thorne.

Mas, a verdade é que o filme tem sérios buracos no roteiro e também besteiras que nada tem a ver com ciência e caem para a pura ficção ou fantasia, no mesmo nível de um Star Trek ou Star Wars, só que levado a sério.

Atenção: daqui pra frente o texto estará cheio de "spoilers", ou seja, vai revelar vários segredos do filme. Se não o viu, desista aqui de ler!

Faço aqui minha lista dos principais furos que levantei até agora:

1) No começo do filme, descobrimos que uma "praga" está acabando com as lavouras de alimento da Terra. Mas que "praga" é essa que ataca grupos específicos de plantações? E que depois, sem mais nem menos, começa a destruir outros tipos? E por que o mundo ia acabar por causa disso? Não temos animais para comer? Pode-se dizer que com o fim das lavouras, os animais também morreriam. Mas e os animais que comem, sei lá, grama? Ela também estava sendo dizimada pela tal "praga"? E aquela poeira toda, o que tem a ver com isso? Ninguém explica.

2) Bom, se o mundo estava acabando e as pessoas morrendo de fome, por que é que não vemos hordas de humanos famintos atacando a plantação de milho do herói do filme? Sim, porque se a raça humana estava para ser extinta por causa da falta de alimentos, não dá pra acreditar que uma fazendo cheia de milho ia ficar lá, toda tranquila, sem qualquer tipo de proteção contra os famintos. Quando você cria um "mundo" no cinema, ele precisa respeitar certas regras óbvias. Esse não respeita, nem de longe.

3) Logo cedo na trama, aprendemos que existe um "fantasma" no quarto da filha do protagonista, que fica derrubando livros e outros objetos. Depois, descobrimos que ele está na verdade se comunicando com ela, passando coordenadas e outros segredos do universo em forma de código morse ou linguagem binária. 

No final, ficamos sabendo que é o próprio protagonista que está fazendo isso, no futuro, de uma outra dimensão, dentro do buraco negro que entrou. E quem o está guiando é, segundo ele informa, a própria raça humana do futuro que se desenvolveu ao ponto de viajar entre as cinco dimensões livremente. Só que ela só chegou àquele ponto porque conseguiu sobreviver ao cataclismo na Terra porque o astronauta vivido por Matthew McConaughey foi instruído por ele mesmo para poder não só chegar àquele ponto no espaço-tempo, como também para passar os segredos do universo para a filha. 

Não faz qualquer sentido, mesmo quando a gente tenta suspender a credibilidade e passar apenas para o reino da fantasia. Por uma razão simples: os seres do futuro teriam mil maneiras mais fáceis de se comunicar com seus irmãos do passado e conseguir que eles sobrevivessem, sem precisar de uma trama completamente sem nexo como essa e passível de dar mil problemas e falhas.

4) O herói passa TODOS os segredos que descobriu dentro do buraco negro manipulando a gravidade por meio de código morse nos ponteiros de um relógio de pulso analógico. Não estou brincando. É assim mesmo no filme.

5) Os três planetas que supostamente poderiam servir de morada aos seres humanos ficam pertinho de um gigantesco buraco negro, chamado Gargantua. De onde vem a luz que ilumina esses planetas? Não se vê nenhum sol perto deles e não precisa ser expert em Física para saber que toda a luz é sugada para dentro de um buraco negro, ainda mais um tão próximo daqueles planetas.

6) Alguém pode explicar como é que os astronautas pousam num planeta que é totalmente coberto de água e varrido por ondas gigantescas sem saber disso? A nave deles não possui qualquer tipo de sensor para analisar a superfície do planeta? Nem mesmo olharam para a janela da nave e pensaram: "Hummm, parece que nesse planeta só tem água. Melhor cancelar a visita". O que traz outra pergunta: como é que o piloto sabia então que a água era rasa o bastante para a nave poder pousar? 

7) Quer dizer que, enquanto eles estavam no planeta aquático e o tempo era atrasado por causa do efeito do buraco negro, o coitado do astronauta negro ficou 23 ANOS esperando eles voltarem? Assim, na boa, sem ficar completamente louco ou tentar se matar? Ficou ali, sentadão, jogando paciência ou Candy Crush e aparando a barba enquanto duas décadas passavam? 

8) O plano B do cientista feito pelo Michael Caine consistia em levar um monte de embriões para o planeta escolhido para recomeçar a raça humana. Ok, tudo bem. Mas, quem é que seria a mãe desses embriões? A pobre da Anne Hathaway é que seria usada como "barriga de aluguel" para dar vida a toda aquela gente? Será que perguntaram se ela queria? Ou será que tinham outra tecnologia para fazer brotar seres humanos do chão? Cartas para o sr. Christopher Nolan.

9) O cientista traidor feito por Matt Damon sabia que o plano A era uma farsa. Por que então ele e os outros cientistas já não levaram com eles os embriões e também umas barrigas de aluguel para dar a luz a eles (a menos que fariam brotar bebês do chão)? 

10) Qual era, afinal, o plano do Matt Damon? Ele ficou solitário, fingiu que o planeta que estava era habitável, entrou no hipersono na esperança de ser resgatado e aí atacou o protagonista para fugir na nave dele e ir... para onde? Para o terceiro planeta? Fazer o que? Morrer sozinho? Ou ele ia voltar pelo buraco de minhoca em direção à Terra para... morrer de fome ou cheio de pó na boca? Não entendi ainda.

11) Aí o Damon levou o McConaughey para ver de perto o local onde ele dizia que seria possível ter vida. Andaram um tempão no meio do gelo e então Damon rachou o capacete do McConaughey e fugiu, enquanto o outro gritava por socorro e sufocava. Pergunta: como é que Damon conseguiu chegar à nave tão rápido, sendo que andaram um bocado e o protagonista foi salvo rapidamente pela Anne Hathaway que estava em outra nave?

12) Novamente, a nave dos heróis não tinha qualquer tipo de sensor que pudesse detectar que o planeta de gelo só tinha gelo e não mantinha condições de sustentar vida? Eles tinham mesmo que descer no planeta para ver o que o cientista havia descoberto por meio dos... sensores da nave dele? Se não tinham como detectar coisas fora da nave, como é então que obtinham todas aquelas informações sobre o buraco negro? Ahá, te peguei!

13) O poder gravitacional de um buraco negro é tão forte que atrai até a luz! Mas o nosso herói não só entra no buraco negro, como ainda apronta um monte de peças lá dentro, só para depois sair dele e ser enviado através do buraco de minhoca para perto de Saturno! Pelo jeito, os humanos do futuro conseguem tudo, até mesmo manipular o que acontece dentro de um buraco negro. Tudo certo, professor Kip Thorne?

14) O que era exatamente aquela estação espacial que resgata o herói? Era a que foi construída lá na NASA? Ou era outra? Pelo que falam no filme, parece que existiam outras. Como é que conseguiram construir algo tão idílico e perfeito em um mundo moribundo, que já não tinha mais comida nem ar respirável? E por que ainda estavam dentro delas e não já no planeta, além do buraco de minhoca?

15) Como é que a filha do protagonista, já bem velha e prestes a morrer depois de ficar dois anos hibernando, sabia que a astronauta feita pela Anne Hathaway estava esperando por ele no terceiro planeta? A menos que seu pai tenha passado todas as outras informações, além dos segredos do universo, pelo relógio, não tinha como ela saber nada disso, certo?

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Filmes: "Interestelar"

PASTEL DE VENTO

"2001" encontra "Contato" no "Campo dos Sonhos" é apenas uma viagem de ego de um cineasta pretensioso

- por André Lux, crítico-spam

Confesso que nunca fui grande admirador do diretor Christopher Nolan, nem mesmo de seus três "Batman", que foram ficando piores, principalmente o terceiro que é lamentável. Sempre o achei pretensioso demais e dono de uma mão pesada que deixa qualquer filme sombrio e arrastado sem necessidade.

Mas, como os filmes do "Cavaleiro das Trevas" fizeram enorme sucesso de bilheteria, Roliúdi assinou um cheque em branco para que fizesse esse "Interestelar", uma espécie de "2001" encontra "Contato" no "Campo dos Sonhos" que, no final das contas, não passa de uma pedante viagem de ego do cineasta em questão.

Tudo começa em um futuro próximo, quando a Terra está para ser destruída por uma "praga" que acaba com as plantações e uma nuvem de poeira perene. O que uma coisa tem a ver com a outra ou o que as causou, nunca ficamos sabendo direito. Há apenas referências vagas e banais ao abuso feito pelo homem contra o planeta.

Numa das plantações de milho que ainda existem, encontramos um ex-piloto da NASA e engenheiro, chamado apenas de Cooper e feito pelo sempre confiável Matthew McConaughey, o qual vai acabar pilotando uma nave que deve procurar um novo planeta para a humanidade habitar, passando através de um "Buraco de Minhoca" que apareceu misteriosamente no meio do espaço.

Resumida assim, a trama do filme parece ter tudo para agradar qualquer fã de ficção científica. Mas é só aparência, porque o filme é incrivelmente arrastado e repleto de papo furado pseudo-filosófico, como "Costumávamos olhar para o céu e imaginar nosso lugar nas estrelas. Agora apenas olhamos para baixo e nos preocupamos com nosso lugar na sujeira"recheado por citações que só a turma do "The Big Bang Theory" vai entender realmente, tipo "Será que poderemos conciliar a teoria da relatividade de Einstein com a mecânica quântica?"


Ela: "Poderemos conciliar Einstein com a mecânica quântica?"
Ele: "Sei lá, você perguntou para o Cooper errado!"
Se não bastasse tudo isso, ainda existe um componente "sobrenatural" no filme, na forma do que eles chamam de "fantasma", que tenta se comunicar com a filha do protagonista por meio da sua estante de livros e que é absolutamente crucial não apenas para colocar a trama em movimento, como para explicar no final tudo que vimos até então. 

Só que a revelação sobre o que é o tal "fantasma" fica bastante óbvia já na metade do filme e quando tudo é finalmente explicado (didaticamente, por sinal, já que o diretor acredita que somos burros para entender por contra própria), fica a certeza de que Stanley Kubrick era realmente um gênio, enquanto Nolan é apenas um pau-pra-toda-obra, do tipo que adora fazer pastéis de vento, bonitos por fora, mas vazios por dentro.

Há ainda uma mensagem que aparece no ato final, algo como "o amor é a solução para tudo", que não apenas é ridícula, como parece filosofadas de livro de auto-ajuda, daqueles mais bisonhos. E quanto mais a gente pensa na conclusão, mais sem nexo e lógica ela fica.

O que dizer então sobre a "música" do abominável Hans Zimmer, colaborador habitual de Nolan? Nas partes de suspense ele tenta emular descaradamente a trilha de Ennio Morricone para "Missão Marte" (inclusive usando um órgão!), mas sem qualquer traço da sensibilidade do mestre e com uma sutileza digna de um rinoceronte com dor de dente. 

Quando as cenas pedem por algo mais emotivo, Zimmer inventa um minimalismo tosco e redundante, digno de pena, do tipo que Phillip Glass comporia se estivesse em coma. Enfim, o que se pode esperar de um diretor que chama esse picareta para musicar seus filmes e ainda quer ser levado a sério?


Nolan e Zimmer: uma parceria realmente infernal!
Se "Interestelar" ainda ao menos fosse curto, tudo seria perdoável. Mas, não, o negócio tem mais de 3 horas de duração! Isso mesmo, são 169 intermináveis minutos que, de acordo com a teoria da relatividade mostrada pelo próprio filme, parecem durar 21 anos! 

Não havia a menor necessidade de se ter uma duração tão longa. Sequências inteiras poderiam ter sido eliminadas sem qualquer prejuízo à trama. Como no começo quando saem perseguindo um drone no meio do milharal (algo que não tem qualquer relevância para o resto do roteiro). 

Ou mesmo quando aparece um cientista feito por Matt Damon que não agrega absolutamente nada, tem um plano que não faz qualquer sentido e só serve para deixar o filme ainda mais arrastado (sem falar que dá origem a uma cena digna de filmes trash, onde dois astronautas completamente vestidos com seus trajes trocam sopapos e "capacetadas" no meio do nada).

Impressiona que gastaram mais de US$ 160 milhões para fazer um filme que não brilha nem mesmo na parte técnica, com fotografia feia e escura, desenho de produção canhestro (quem teve a brilhante ideia de fazer aqueles robôs idiotas parecerem com o monolito preto de "2001" certamente merece o troféu abacaxi!) e efeitos especiais sem graça. 

E alguém me explica o que Nolan queria atingir filmando os vôos no espaço com a câmara grudada nas naves? Usar esse truque uma ou duas vezes, vá lá, é até interessante, mas o tempo todo? Mal dá para entender o que está acontecendo na tela, de tão estúpida que foi essa decisão! A única cena que me passou algum tipo de emoção aconteceu só no finalzinho, dentro de um leito de hospital. Fora isso, a sensação predominante foi tédio mesmo.

Duvido que esse filme vá fazer muito sucesso de público, embora isso não queira dizer nada sobre a qualidade de um filme, mas a verdade é que Nolan ficou nu e não acredito que vá conseguir enganar mais tanta gente como vinha fazendo até então. Deu um grande tiro no pé e só tem a si mesmo para culpar.

Cotação: * *

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

"Papai, o que é deus"? A arte de responder a essa pergunta sendo ateu

Como explicar um conceito abstrato como "deus" a uma criança?
Há um tempinho minha filha de 4 anos fez aquela pergunta que cedo ou tarde eu esperava que faria: "Papai, o que é deus?".

Quando comecei a pensar como responder, percebi como é difícil para um ateu explicar esse conceito tão abstrato para uma criança.

Lembrei que uns meses antes eu havia tentado mostrar pra ela como todos evoluímos do macaco, exibindo o começo do filme "2001: Uma Odisseia no Espaço". 


O homem-macaco de "2001" dando o salto evolutivo
Comecei dali, explicando que o ser humano, ao tomar consciência do mundo à sua volta, passou a questionar sua existência, sua origem e o funcionamento da natureza. 

E, como não tinha respostas para essas perguntas, inventou uma força sobrenatural que, basicamente, trazia respostas fáceis para perguntas difíceis. 

E que foi assim por muito tempo, até hoje, inclusive. 

Falei sobre como os antigos egípcios achavam que o sol era um deus, a morte era um deus, etc.

Ajudou ela ter visto o desenho "As Aventuras de Peeabody e Sherman", que mostra os personagens viajando no tempo até aquela época e fingindo que eram o deus Anúbis para manipular o rei Tutankamon e seus seguidores.


"As Aventuras de Peabody e Sherman" mostra como a
religião pode ser usada para manipular as pessoas
Explique também que as civilizações nórdicas acreditavam que era um deus, Thor, que fazia os raios e trovões, mas que hoje ninguém mais acredita nisso, porque já sabemos como realmente se formam esses fenômenos da natureza e que Thor agora é um personagem de filmes e histórias em quadrinhos, igual ao Superman.


Thor: de "deus do trovão" a super-herói dos quadrinhos
Ela ouvia tudo com atenção total, muito interessada. Mas no final, percebi, claro, que ela ainda não tinha entendido direito.

Então me lembrei da cena de "O Retorno de Jedi", capítulo final da trilogia original de "Star Wars" (que ela adora), em que os primitivos ursinhos Ewoks acreditam que o robô dourado C3PO é um deus e começam a adorá-lo! 

Coloquei a cena em questão na TV e ela entendeu na hora o que estava acontecendo!


Os primitivos Ewoks acreditam que o robô C3PO é um deus
Claro que, no final, expliquei para ela que existem muitas pessoas que ainda acreditam em deuses e que nós temos que respeitar elas. 

E também falei que papai e mamãe não são donos da verdade e que ela deve sempre questionar tudo para descobrir as coisas por ela mesmo.

Impressionante como as crianças são inteligentes e perfeitamente capazes de absorver conceitos complicados que, mesmo não entendendo completamente, ficam na cabeça delas e já vão desde cedo aprendendo a questionar e buscar a raiz das coisas.
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