sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Filmes: "O Pequeno Príncipe"

MENSAGEM BATIDA, MAS VÁLIDA

É sempre bem vinda uma obra que exalte a liberdade, a imaginação e a importância de se manter a criança interior sempre viva e alegre

- por André Lux, crítico-spam

Embora não seja nenhuma obra-prima, é uma delícia essa nova adaptação do clássico "O Pequeno Príncipe", do francês Antoine de Saint-Exupéry, que certamente é uma dos livros mais lidos e conhecidos da história. 


Se bem que esse novo filme não chega a ser uma adaptação, mas sim uma livre interpretação dele, na qual os personagens principais interagem entre si tendo como pano de fundo o livro que dá título ao longa.

O filme é dirigido pelo mesmo sujeito que fez "Kung Fu Panda", Mark Osborne, e gira em torno de uma menina que é criada pela mãe obcecada em fazer ela ser aceita por uma escola tradicional, obrigando-a a seguir um rígido programa de estudo, sem direito a qualquer diversão. É aí que entra um velho excêntrico que mora na casa ao lado, que é justamente o escritor das histórias do Pequeno Príncipe.

É claro que a menina vai cair de encantos pelo senhor e descobrir o valor da amizade, da imaginação e das brincadeiras. Ou seja, são mensagens bastante batidas, mas que nunca deixam de ser válidas, ainda mais quando embrulhadas em uma obra tão bem feita, que mistura animação digital com a de bonecos quadro-a-quadro, com um desenho de produção muito bonito onde até a música do abominável Hans Zimmer funciona.

No terceiro ato há uma tentativa de ir além do que é contado no livro e o filme patina um pouco, marretando de forma meio óbvia o que já havia ficado subentendido antes. Não chega a incomodar, mas sinceramente, não acrescenta muito e acaba deixando a conclusão arrastada e um pouco sem impacto.

Mesmo assim é sempre bem vinda uma obra que exalte a liberdade, a imaginação e a importância de se manter a criança interior sempre viva e alegre, independente da idade.

Cotação: * * * 1/2

Diferenças


segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Aécio, o deficiente


Fracassa a nova manifestação coxinha fashion-week de Jundiaí

Protesto apartidário pra burro
Mesmo contando com o apoio logístico assumido dos partidos de direita de Jundiaí (vide o meme à direita), a nova manifestação "apartidária" fashion-week-anti-PT dos coxinhas da cidade realizada no domingo (16) foi um tremendo fracasso.

Até mesmo o principal panfleto do PSDB, o "Jornal de Jundiaí", jogou a toalha ao dar a notícia, afirmando que apenas seis mil pessoas participaram do novo protesto, contra 15 mil do anterior.

Na verdade, o número real não chega nem à metade disso, como pode-se constatar facilmente observando as fotos abaixo, do próprio JJ. Inclusive, parece que existiam mais policiais do que participantes.

Mesmo assim, os donos do Jornal de Jundiaí tentam inflar a participação publicando fotos tiradas de longe, com zoom, que achatam a imagem e dão a impressão de retratar uma massa de gente muito maior do que realmente existiu no momento.

Todavia, as fotos tiradas de cima e sem zoom denunciam a baixa adesão ao que já ficou conhecido mundialmente como "carnacoxinha", uma alusão ao carnaval fora de época organizado pelos partidos de direita que não aceitam o resultados das urnas e, claro, contam com a adesão dos odiadores irracionais do PT de sempre, que saem às ruas para pagar mico e destilar ódio, preconceito, intolerância e hipocrisia.



Al Capone bobeou!


domingo, 16 de agosto de 2015

Amor cristão em estado bruto


Não, não é montagem


Se eu fosse rico, também riria muito


Fracassa mais um "carnacoxinha"

16 de agosto marca, simbolicamente, o fim das especulações em torno do impeachment de Dilma. No meio da semana a mídia recuou, sob o comando da Globo.

E no domingo os manifestantes, entregues a si próprios, lembraram mais um circo ou um manicômio do que qualquer outra coisa.

Abaixo, imagens do esperado fracasso.

1) AS VIÚVAS DOS MILITARES

2) MORO PRESENTE

3) A VELHINHA ASSASSINA

4) O COXINHA FELIZ

5) BUNDAS MOLES

6) FASCISTAS

7) SOMOS TODOS CUNHA

8) SARNEY É DEUS

9) LULA NOS SONHOS DOS MANIFESTANTES

10) TETAS EM EXPOSIÇÃO

11) MANDIOCA PARA OS COXINHAS

12) PALHAÇO (1)

13) PALHAÇO (2)

14) PALHAÇO (3)

15) AS OPÇÕES DE DILMA

Aécio estreia nos protestos fashion-week dos coxinhas!


Palavras de O Conde


terça-feira, 11 de agosto de 2015

Não é fácil ser coxinha no Tucanistão...


Filmes: "Maggie - A Transformação"

HORROR PSICOLÓGICO

Para quem procura algo fora do tradicional no gênero "apocalipse zumbi", esse filme é uma boa pedida

- por André Lux, crítico-spam

Esse "Maggie - A Transformação" está sendo analisado de forma errada pelos críticos, como se fosse um filme do Schwarzenegger que fracassou, apesar da presença do astro veterano. Na verdade, é o contrário: só está gerando algum tipo de interesses devido à presença dele. Merece ser louvada a tentativa do eterno "Exterminador do Futuro" de escolher projetos diferentes e mais pesados, ao invés de ficar batendo só na mesma tecla.

Afinal, trata-se de um terror sobre um apocalipse zumbi que foge do convencional do gênero. Ou seja, é terror psicológico, daqueles em que as situações que geram horror e suspense são muito mais sugeridas do que realmente mostradas e o foco fica em cima dos dramas pessoais dos personagens atingidos pelas tragédias. Lembra bastante o excelente "Deixe-me Entrar" (a refilmagem estadunidense, que é bem melhor que o original).

Arnold faz com seu carisma de sempre (embora o sotaque não tenha melhorado quase nada) o papel de um fazendeiro que vai atrás da filha que foi mordida por um zumbi. Ao levá-la de volta para casa, apenas uma certeza existe: ela está infectada e irremediavelmente se tornará um monstro comedor de carne humana. Uma situação terrível e sem saída que é conduzida com habilidade e sensibilidade pelo diretor Henry Hobson.

Há apenas uma cena de ataque de zumbis tradicional, mas mesmo assim é curta e não muito violenta. A violência fica muito mais implícita durante todo o filme, em cenas dramáticas que enfatizam a a inevitabilidade da transformação da menina, feita pela sempre excelente Abigail Breslin, de "A Pequena Miss Sunshine". 

Em uma das sequências mais tristes, ela reencontra seu namorado adolescente, que também está infectado e logo em seguida é entregue pelo próprio pai à polícia. Em outra cena marcante, a menina começa a sentir cheiro de "comida" ao se aproximar da madrasta (Joely Richardson), que descobre apavorada que a comida no caso era ela mesma.

Eu só não gostei muito do final, que é anti-climático e acaba evitando o que deveria ser o confronto mais forte do filme. Não que seja incoerente ou forçado, apenas dá uma solução muito fácil para o dilema terrível enfrentado pelo pai.

Enfim, para quem procura algo fora do tradicional no gênero horror, esse é uma boa pedida.

Cotação: * * *

sábado, 8 de agosto de 2015

MEMÓRIAS DE UM ALIENADO

Não fosse por alguns fatos que aconteceram em minha vida e serviram para abrir meus olhos, fatalmente eu seria hoje aquele mesmo adolescente alienado, ignorante e raivoso

- por André Lux, jornalista

Parte 1: Eu também fui papagaio da direita

Quem visita meu blog e lê meus textos com certeza deve pensar que sou socialista desde o meu nascimento e fui criado por pais radicais de esquerda, que fizeram treinamento de guerrilha em Cuba e lutaram contra a ditadura militar...

Nada mais longe da verdade. Muito pelo contrário.

Nasci em uma típica família de classe média baixa, mas que sonhava pertencer à elite mundial. Daí que, durante toda minha infância e juventude, morei em casas (alugadas) em bairros semi-nobres a preços absurdos, enquanto era transportado numa Brasília amarela e via meus pais desesperados tentando cobrir o rombo no cheque especial todo santo mês.

Mas, como que para provar nossa posição entre a elite, éramos sócios do segundo clube no nível hierárquico sócio-econômico da cidade, o Tênis Clube de Campinas. Sim, porque o número 1 na escala social era a Sociedade Hípica, cuja maioria dos sócios podres de ricos também frequentava o Tênis, embora o contrário não acontecesse (exceto quando éramos convidados para algum casamento realizado no gigantesco salão de festas daquele clube - não por acaso adaptado em uma Casa Grande de algum antigo barão do café).

Sempre fui cercado por parentes e amigos que, mesmo sendo honestos e trabalhadores, não tinham a visão crítica necessária para compreender como as coisas funcionavam. Meus familiares limitavam-se a repetir o que ouviam, liam e viam na mídia, especialmente na rede Globo, nas revistonas e nos jornalões (que apoiaram o golpe militar, embora hoje finjam que não). 

Assim, tinham medo de comunistas, pois diziam que comiam criancinhas e dividiam a casa das pessoas ao meio (o fato de não termos imóvel próprio não parecia contradizer esse receio), achavam que Che Guevara era um “baderneiro profissional” (ser pago para fazer baderna, isso é que é profissão!), acreditavam que o Brasil tinha tantos problemas “porque pobre não gosta de trabalhar” (usar o salário mensal só para pagar contas e cobrir o rombo no cheque especial, imaginavam, não era coisa de pobre) e por aí vai.

Nem preciso dizer que, obviamente, eu também repetia tudo isso e acreditava no que estava falando, mesmo sem ter o menor embasamento teórico ou prático para tanto. 

Minha vida escolar foi uma piada. Estudei em colégio particular (de freiras!) do maternal ao ensino médio. 

Para se ter uma ideia do desastre que isso significa (com raras e nobre exceções entre meus professores), nasci em 1971 e cheguei até o final da minha fase educacional básica sem nem saber que vivíamos sob um regime ditatorial ilegal e imoral.

Enquanto eu brincava no clube despreocupado, assistia à televisão ou passava a manhã inteira decorando datas e fórmulas matemáticas de maneira acrítica e alienante, centenas de brasileiros e vizinhos de continente eram torturados e mortos simplesmente por se opor àqueles regimes ditatoriais apoiados e financiados pelos EUA. No máximo, eu ouvia algo como “Bem feito pra esses baderneiros, quem mandou serem do contra?” quando alguém tocava no assunto.

Se vocês acham que estou mentindo, relaciono abaixo fatos que marcaram essa fase lamentável da minha existência:

1) Vi o filme “Comando para Matar”, aquele em que o Arnoldão detona sozinho um exército inteiro de cucarachas sul americanos, nada menos do que seis vezes nos cinemas (e contava para todo mundo orgulhoso!);

2) Iniciava comentários com as frases “Eu vi na Veja” ou “Assisti na Globo”;

3) Ridicularizava quem dizia que existia racismo no Brasil, mesmo não tendo nenhum amigo ou conhecido negro, exceto a empregada que a gente desprezava, e repetindo “piadas” do tipo “sabe qual a diferença entre um negro e uma latinha de (censurado)?”;

4) Sentia prazer em irritar petistas, repetindo jargões que são usados até hoje (“Lula é vagabundo, ex-presidiário, arrancou o dedo para não precisar mais trabalhar”, “Sindicalista só sabe fazer baderna”, “Petista é tudo igual", "Se gosta tanto de Cuba, por que não vai pra lá plantar cana??”). Isso mesmo sem conhecer absolutamente nada de política, sociologia ou história;

5) Acreditava que o Stallone, o Arnoldão e o Chuck Norris lutavam pela liberdade, pela democracia e pela justiça para nos salvar dos vilões comunistas (eu tinha até pôster deles no meu quarto) e que os Bandeirantes foram corajosos desbravadores dos sertões brasileiros;

6) Vivia falando mal do Brasil e do “povo” brasileiro (do qual eu não fazia parte, é claro, afinal meus bisavôs eram europeus) e começava a concluir esse tipo de argumentação com a frase “Ah, mas lá nos Estados Unidos...”;

7) Passava a tarde inteira e o domingo inteiro na frente da TV, assistindo qualquer porcaria, e só ia dormir depois de ver o Fantástico, sempre deprimido por lembrar que no outro dia voltavam as aulas e eu não havia feito a lição de casa nem decorado a matéria para as provas;

8) Cantava a música “Vamos Construir Juntos!” (que eu sei de cor até hoje!) e colecionava o álbum de figurinhas do “Paulistinha”, que faziam parte do marketing institucional do governo ditatorial para nos convencer que o Brasil era "o país do futuro";

9) Assistia às novelas da rede Globo, embora ficasse falando mal delas (porque naquela época, macho que era macho não via novela, a não ser para reclamar);

10) Ficava realmente preocupado com a situação da Ponte Preta no campeonato paulista;

11) Comemorava toda vez que um novo McDonald’s era inaugurado no Brasil, pois era sinal de que o país estava progredindo (sim, eu também acreditei na ladainha sobre as maravilhas da "globalização neoliberal");

12) Queria ser astronauta da NASA quando crescesse (mas, desisti depois que me falaram que eles têm que ser bons em matemática);

13) Proferia afirmações como "não voto em partidos, mas em pessoas" (isso porque eu nem podia votar!), pois tinha aprendido que partidos eram coisas ruins e inúteis (assim, quando algum político de direita caia em desgraça, era culpa só dele, não do partido), especialmente aqueles que defendiam ideologias de esquerda;

14) Ideologia também era outro palavrão, coisa de baderneiro profissional, por isso eu também dizia, todo faceiro: "Não existe esse negócio de esquerda e direita, isso é coisa de gente revoltada que não gosta de trabalhar e só sabe ser do contra!".

Isso só para ficar no básico. Tenho certeza que você já testemunhou alguém falando ou fazendo coisas parecidas, certo?

Sinceramente, eu era um caso quase sem salvação.

Mas a sorte sorriu para mim.

Não fosse por alguns fatos que aconteceram em minha vida e serviram para abrir meus olhos, fatalmente eu seria hoje aquele mesmo adolescente alienado, ignorante e raivoso. 

Só que pesando 50 quilos a mais, com barba na cara e com um daqueles adesivos nojentos quatro-dedos dizendo "Fora Lula!" colado no vidro do carro.

*As imagens dessa postagem são do filme "Pink Floyd - The Wall", do Alan Parker

Parte 2: Saindo da Matrix
.
Antes de prosseguir com o relato do meu processo de “abertura dos olhos”, gostaria de esclarecer um ponto. 

Pode ser que meu texto anterior tenha passado a impressão de que sou um sujeito rancoroso, recalcado, que culpa e recrimina os pais e os amigos pelo processo de alienação pelo qual fui submetido durante a infância e a juventude.

Embora seja verdade que esses sentimentos venham à tona quando você percebe que foi, para colocar de maneira bem simples, enganado e induzido por pessoas que gostava a pensar de uma certa forma que não condiz com a realidade, é verdade também que fica fácil entender suas ações e perdoá-los.

Afinal, eles também foram enganados e induzidos durante toda sua vida para pensar e agir daquela forma e, infelizmente, acreditavam estar fazendo o melhor, sem condições ou vontade de quebrar aquele ciclo de alienação e dominação ideológica que os massacrava e os manipulava como gado que vai cantando feliz rumo ao matadouro.

Quando lembro, com um frio na espinha, que eu mesmo poderia estar assim até hoje - cheio de medo, ódio, intolerância e preconceitos - e que, provavelmente, iria educar meus filhos da mesma maneira, fica mais fácil ainda ser condescendente...

Bom, dito isso, vamos prosseguir.

Afinal, como eu consegui “abrir meus olhos”, perceber a Matrix à minha volta e romper a prisão mental da alienação, do ódio e do medo? Vários fatores me ajudaram nessa jornada que, confesso, foi longa e nada fácil. Vou enumerá-los em ordem cronológica, para facilitar.

1) CINEMA: tudo começou quando me levaram para assistir “Guerra nas Estrelas”. Mas, o que esse filme-pipoca roliudiano tem a ver com isso? Antes de torcer o nariz, explico que assisti ao primeiro nos cinemas, quando tinha por volta dos 8 anos de idade. 

Não vou entrar em detalhes a cerca da minha adoração pela obra do George Lucas, que deve ter durado até pouco tempo (confesso), mas basta dizer que foi aquela obra que me abriu para o cinema e, por tabela, para o mundo das artes em geral.

E, mesmo que isso fosse imperceptível para meu limitado cérebro na época, tratava-se da história de um grupo de “rebeldes” idealistas que lutava para derrubar um império “fascista” (embora essa realidade tenha sido deturpada depois pelos extremistas de direita quando Reagan tomou o poder nos EUA, e foi usado como símbolo para a guerra fria, com o Império maligno representando a ex-União Soviética). 

Enfim, aquele filme mudou minha vida. Depois dele nunca mais fui o mesmo, para o bem e para o mal.

2) O MODO DE VIDA NERD: por causa do meu apego ao cinema e tudo que estava relacionada a ele, especialmente as trilhas sonoras dos filmes, nem preciso dizer que me transformei em um verdadeiro nerd. 

Assim, enquanto meus amigos começavam a gostar de tudo que era “normal” naquela sociedade (do rock n’ roll enquadrado aos parâmetros do consumismo, ao consumo de drogas e bebidas alcoólicas) lá estava eu tentando arrumar dinheiro para comprar o disco de “Jornada nas Estrelas” ou o álbum de figurinhas do “Flash Gordon”...

Embora nada disso tenha me ajudado a abrir os olhos naquele momento, certamente me transformou num sujeito meio estranho, marginalizado e com um forte sentimento de inquietação. 

Afinal, eu só tinha amigos nerds como eu e nunca conseguia me enturmar com os “descolados”, que adoram ridicularizar os “diferentes”. Eu comecei a sentir que alguma coisa estava errada, mas eu não sabia o que era e nem me preocupava muito em descobrir. Porém, já era um começo.

3) INFLUÊNCIAS DECISIVAS: fiquei mais ou menos na mesma até o meio da minha adolescência. Foi a partir dos 16 anos, quando um primo entrou na faculdade em Campinas e veio morar conosco, que as coisas começaram a mudar. Não sei dizer se ele era de esquerda ou de direita (talvez fosse ainda indiferente como eu), mas a verdade é que era um sujeito muito mais culto e antenado do que eu – até porque teve uma educação mais rica e politizada que a minha.

Foi graças a esse cara que eu comecei a gostar de qualquer tipo de filme (e não só de ficção científica, aventura e terror) e, mais importante, aprendi a decifrar mensagens e idéias que estavam contidas nas obras de arte. Até então, eu pensava, “um filme é só um filme, puro entretenimento, nada mais”. Ledo engano. Não fosse pelo meu primo, jamais teria assistido (e entendido) a filmes como “Brazil”, “A Missão”, “Coração Satânico”, “Amadeus”, conhecido o Monty Phyton ou lido quadrinhos como “Batman, O Cavaleiro das Trevas”, “Ronin”, “Watchmen” ou “V de Vingança”.

Foi nesse momento que eu comecei a perceber algumas coisas surpreendentes: não existem mocinhos e bandidos na vida real, o USA não era assim um país tão bacana e justo, a religião poderia causar (e causou) grandes males às pessoas e ao mundo, nem sempre quem era chamado de “terrorista” lutava por uma causa ruim, muita coisa que era vendida pela mídia como sendo uma verdade única ou normal tinha um outro lado que não era divulgado, etc. 

Mesmo assim, eu ainda não havia ligado os pontos para formar o grande quadro. Isso só aconteceu quando eu entrei para a universidade.

4) UNIVERSIDADE FEDERAL: ser um jovem alienado e perdido no mundo me trouxe uma grande vantagem naquele ponto. Eu não tinha a menor idéia do que fazer da minha vida. Assim, ao chegar à encruzilhada da adolescência e ter que escolher qual faculdade deveria fazer, mais perdido que cego em tiroteio, optei pelo curso de... Química! 

Prestei vários vestibulares e consegui entrar na Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR). E foi ali que tudo começou a mudar em minha vida. O ano era 1989 e estávamos prestes a ter a primeira eleição direita para Presidente da República em mais de 20 anos (embora eu não desse a mínima para esse fato, afinal “odiava política”, lembram?).

Meu primeiro choque, depois de ficar décadas praticamente falando besteiras sem sentido e me relacionando com gente vazia e alienada, foi perceber que existiam pessoas que conheciam, discutiam e debatiam diversos temas que eu não tinha a menor noção do que significavam. E eram jovens da minha idade! Como aquilo era possível? - eu me perguntava.

Obviamente, como eu não entendia quase nada do que discutiam, meus primeiros sentimentos em relação àquelas pessoas foram de raiva e inveja. E, como não poderia deixar de ser, comecei a entrar no meio das conversas transformando esses sentimentos negativos e mesquinhos em petulância, cinismo e provocações baratas. 

Foi naquele período que me tornei oficialmente um “papagaio da direita”, afinal de contas a maioria dos jovens que estudavam lá era de esquerda e defendia a candidatura de Lula contra o marajá das Alagoas, Fernando Collor. Nem preciso dizer que, para irritar “aqueles petistas” eu dizia que ia votar no Collor, que Lula era baderneiro profissional, etc, etc. Tudo aquilo que eu havia “aprendido” na escola da ditadura e que fora reforçado no ambiente em que fui criado.

Fiquei nessa um bom tempo, diria que uns seis meses mais ou menos. Então coisas estranhas começaram a acontecer.

Como é perfeitamente natural após um semestre inteiro de contato diário com um grupo, passei a gostar de várias pessoas e até admirá-las. Percebi que ali havia muita gente bacana, inteligente e companheira, que sabia ouvir meus problemas, me apoiava quando eu precisava de ajuda (principalmente nas matérias, pois eu “boiava” em quase tudo) e, acima de tudo, não me ridicularizava quando dizia que gostava de cinema, música erudita e quadrinhos – pelo contrário. 

Para aquelas pessoas, eu não era mais um “babaca” ou um nerd esquisitão, mas sim um sujeito sensível que gostava de arte! Descobri que muitos ali também gostavam das mesmas coisas, tinham inclusive os mesmos problemas familiares e carências afetivas.

Entretanto, quando eu entrava no modo “papagaio da direita”, aquelas pessoas que, no fundo eu invejava e queria impressionar, simplesmente me deixavam falar e, assim que eu terminava de vomitar minhas asneiras, continuavam o assunto de onde haviam parado. Ninguém me hostilizava, muito menos me ridicularizava. Simplesmente me ignoravam...

Depois de umas três ou quatro situações como essa comecei a me sentir constrangido e patético. Afinal, eu não gostava daquelas pessoas, não as admirava? Não gostava da maneira sensível e humana que me tratavam e ouviam? Então, por que diabos eu estava querendo provocá-las e irritá-las, repetindo coisas ditas pelos meus pais e por outras pessoas que nunca me respeitaram nem me ouviram antes? 

Para piorar tudo, comecei a perceber que os que repetiam aquelas mesmas asneiras provocativas e me davam força para que eu continuasse a proferi-las eram justamente aqueles tipos mais idiotas, os “mauricinhos” e os filhinhos de papai que me cercavam aos montes...

Lembro como se fosse hoje de uma festa realizada na casa da minha primeira namorada, onde toda a moçada estava reunida, tocando violão, comendo churrasco e bebendo cerveja. De repente, começou um papo sobre política e um rapaz, que era inclusive membro do DCE, colocou seu ponto de vista e defendeu Lula com muita propriedade e civilidade. 

Quando eu ia começar a falar asneiras contra o petista, outro sujeito passou na minha frente e verbalizou tudo aquilo que estava na ponta da minha língua. Olhei para ele e vi que era um tipinho que ninguém gostava, um playboy folgado e mesquinho, que chegava a exigir grana dos que moravam com ele para dar carona até a faculdade e vivia invadindo festas mesmo sem ter sido convidado.

Aquilo me transtornou. Quer dizer que eu era igual àquele imbecil? Não era possível! Logo eu, um cara que se julgava tão bacana, sensível, amante das artes, romântico e incompreendido, no fundo me portava igual aos tipos mais desprezíveis e irritantes? Não preciso dizer que foi ali que a ficha caiu e, finalmente, após longos anos de alienação e estupidez eu finalmente comecei a tomar consciência do mundo à minha volta e de todos os problemas reais que existiam nele.

Antes tarde do que nunca, não é mesmo? Ah, esqueci de um outro fator que também foi decisivo para o meu crescimento intelectual e espiritual:

5) AUSÊNCIA DE TELEVISÃO. Quando mudei para São Carlos, fui morar com amigos em uma república. 

Detalhe: ninguém conseguiu levar uma TV! Assim, passei praticamente um ano da minha vida impedido de alimentar meu vício de ficar horas sentado em frente àquela “máquina de fazer doido”. 

No começou quase tive um treco, mas depois de uns dois meses, me acostumei a viver sem aquele monte de lixo ideológico que era enfiado na minha mente e, assim, passei a investir meu tempo em coisas mais importantes, como debates, conversas e leituras.

Só quem passou por isso tem noção do quanto a vida melhora sem a influência nefasta da TV, principalmente a rede Globo que é um verdadeiro câncer que corrói corações e mentes todos os dias!

Tanto é que, depois disso, nunca mais consegui ficar mais de cinco minutos na frente de uma televisão que não apresentasse algo minimamente inteligente e instigante - que, convenhamos, se resume a 1% da programação das redes e olhe lá...

Mas, essa mudança toda em minha consciência trouxe várias conseqüências para a minha vida...

Parte 3: Fale-me sobre política e direi quem tu és...












Dando sequência às minhas "Memórias de Um Alienado", vou falar agora sobre o que aconteceu com minha vida depois que deixei de ser um papagaio da direita e fui conscientemente para a esquerda.

A primeira conseqüência é positiva. 

Trata-se, claro, de deixar de ser um boçal alienado convicto que fica dado palpite em tudo quanto é assunto sem entender nada do que está sendo dito – só para fazer de conta que entende ou então, pior, para irritar “esquerdistas”. 

Quando você passa a ter consciência das coisas e “sai da Matrix”, percebe que é muito melhor ficar quieto escutando o que os outros tem a dizer.

Isso me ensinou grandes lições que todo boçal alienado convicto não conhece, tais como: ser humilde, saber ouvir, entender que quanto mais você aprende mais percebe que nada sabe e que não conseguir admitir tudo isso é coisa de gente fraca e covarde.

Agora vem o lado ruim. O problema de você sair da direita e ir para a esquerda, especialmente quando ainda é adolescente, é o choque de perceber quanta gente que antes dizia te adorar vai começar a tratá-lo como o se fosse o belzebu em pessoa! Comigo não foi diferente.

Familiares, amigos e conhecidos, que antes apertavam minhas bochechas, davam tapinhas nas costas e me elogiavam quando eu concordava com o que diziam, de repente passaram a me xingar e agredir só porque ousei defender o Lula ou o Fidel Castro. 

Assim, de “menininho querido da titia” me transformei “naquele moleque perdido que sofreu lavagem cerebral dos comunistas”. E de nada adianta você tentar dizer que ninguém fez lavagem cerebral em você, muito pelo contrário: antes é que faziam...

Comigo foi assim. Lembro até hoje do dia que, depois de deixar de ser um papagaio da direita, cheguei em casa e resolvi falar sobre política com meu pai – coisa que nunca tinha feito antes. 

Imaginem a cena. Eu, com 18 anos, todo empolgado querendo falar com meu velho sobre aquelas coisas novas que tinha aprendido, de repente sendo tratado com um trapo sujo e repelente! Sim, foi isso que aconteceu. Foi só eu falar todo ingênuo que ia votar no Lula e pronto. Só faltou me dar um sopapo na orelha!

E com minha mãe não foi diferente. Nem com o vizinho, que de velinho simpático e bonachão, transformou-se num clone do Adolf Hitler assim que eu falei bem do “sapo barbudo”! Meus amigos de infância então, nem preciso dizer o que aconteceu, preciso? Óbvio: foi só eu falar da minha nova ideologia que começaram todos a me ridicularizar e repetir aquelas papagaiadas “para irritar esquerdista”...

Foi nessa época que aprendi uma coisa triste. As pessoas só revelam mesmo quem realmente são e o que pensam quando falam de política. 

O sujeito pode ser o mais bonzinho do mundo, fã de Beatles, Pinky Floyd e dos filmes de Walt Disney, amante da paz e da natureza...

Mas, na hora que começa a falar de política transforma-se, como aquele meu vizinho, numa cópia mal feita do Hitler e passa a vomitar preconceitos, elitismo, racismo, homofobia, ignorância e outras nojeiras que deveriam deixar qualquer pessoa com bom senso envergonhada. 

E olha que estou falando aqui de pessoas de classe média, que tiveram acesso a tudo do bom e do melhor em relação a estudo e cultura!

Nem preciso dizer que, daquela época em diante, perdi muitos “amigos” e deixei de ser o “queridinho” de muitos familiares, que passaram a me hostilizar ou me irritar constantemente com provocações baratas e ridículas. Por que eu não percebia o quanto aquelas pessoas eram rancorosas, odiosas e preconceituosas antes, perguntava-me. 

A resposta é simples: porque antes não falávamos de política, exceto talvez para repetir um ou outro jargão idiota da direita, do tipo “detesto política” ou “político é tudo igual”.

E tem gente, incluindo familiares e amigos, que ainda fazem isso comigo até hoje. Nem preciso dizer também que, depois das duas vitórias do Lula e da ascensão de políticos como Chávez, Evo Morales e afins, tudo ficou ainda pior e até aqueles que conseguiam disfarçar um pouco melhor seus ódios perderam completamente o controle!

Depois de todas essas experiências, criei uma máxima que, infelizmente, continua valendo até agora: “Fale-me sobre política que direi quem tu és”...
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