sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Filmes: "O Som ao Redor"

BISONHO

Como cineasta, Kleber Mendonça Filho é um ótimo crítico de cinema 

- por André Lux, crítico-spam

"O Som ao Redor" é um filme dirigido por Kleber Mendonça Filho, um sujeito que atua também como crítico de cinema e cujos textos eu acompanhei durante um certo tempo. 

Mas, como quase todos os que vivem de tecer opiniões sobre o trabalho alheio, ele não era muito chegado a ser contestado ou mesmo ter seus erros apontados pelos leitores. Por ter ousado cometer tais heresias, acabei sendo esculachado publicamente por ele em seu site, onde entre outras coisas, me rotulou de "crítico-spam", apelido que adotei carinhosamente e uso até hoje (clique aqui para saber mais detalhes dessa divertida história).

Quando soube que ele tinha dirigido um longa metragem (até então só tinha feito alguns curtas), fiquei bastante curioso para ver o resultado final, até porque a obra recebeu elogios entusiasmados e até foi indicada para a lista dos brasileiros que poderiam concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Chegaram a dizer que era melhor até que "Cidade de Deus"! Certamente ajudou essa boa vontade toda o fato de ter sido produzido de forma independente e fora do domínio mercadológico da Globo filmes, fato que gerou até uma divertida pendenga entre Kleber Mendonça e um dos arrogantes diretores da Vênus Platinada.

Sinceramente, eu devo ter visto o filme errado. Pois o que assisti foi um desfile canhestro de atores amadores incrivelmente mal dirigidos, os quais nem conseguiam pronunciar suas linhas direito ou então começavam a falar em cima do outro, deixando mais do que evidente que nem mesmo ensaiaram o suficiente (as atuações das crianças, então, são catastróficas). Alguns pareciam até estarem dopados, de tão catatônicos, especialmente o rapaz que faz o corretor de imóveis e sua namoradinha. As cenas de amor entre eles tem a mesma intensidade de uma corrida de lesmas! 

O roteiro, do próprio Kleber, não conta uma história propriamente dita, mas apenas mostra várias situações corriqueiras que envolvem moradores de um bairro de classe média de Recife que, eventualmente, se cruzam. Até aí não há nada que desabone a obra, pois vários outros filmes já tiveram esse mesmo tipo de narrativa, como "Short Cuts", de Robert Altman, com resultados excelentes. 

O problema é que aqui nada de interessante ou pertinente acontece e as conversas entre os personagens não apenas são vazias, mas forçadas e inconvincentes. O ponto alto do filme, para se ter uma ideia, é a cena em que uma dona de casa entediada se masturba em cima da máquina de lavar roupas, que vibra vigorosamente. A não ser, é claro, que você ache uma reunião de condomínio tal qual a mostrada no filme seja algo extremamente excitante. 

Se bem que a única piada do filme aconteça justamente nessa sequência, quando uma dondoca reclama do porteiro que entrega sua revista Veja fora do plástico, onde já se viu! Pena que a cena é tão mal marcada e filmada que a gozação com os leitores do pasquim nazi-fascista praticamente passa em brancas nuvens.


A única piada do filme vai te fazer rir, se ficar acordado até ela chegar...
Muitos enxergaram na obra comentários sociológicos fortes, mas aposto que foi porque leram antes o material de marketing ou então entrevistas do diretor. Porque, sinceramente, nada disso está no filme, exceto uma outra cena que pode até remeter ao eterno conflito de classes na forma das relações entre patrões e seus empregados domésticos, realidade bem característica da sociedade brasileira. 

Mas nem isso fica registrado, já que não existe maior relevância nas interações entre eles. O conflito mais marcante do filme se dá entre uma dona de casa e a empregada que queima o aparelho que emite um zumbido para espantar o cão do vizinho, daqueles que não param de latir. 

Vai ver que enxergaram esses conteúdos todos naquela cena enigmática em que três personagens estão se banhando em uma cachoeira e, de repente, começa a cair uma tinta vermelha em cima de um deles. Minha primeira reação foi achar que o rio tinha ficado menstruado. Passado o choque com o nível de amadorismo com que tal cena foi realizada e editada, tentei identificar o sentido daquilo, mas não consegui. Foi um um delírio do personagem? Um insight, talvez? Quem sabe uma premonição do futuro? Ou não? Certamente a genialidade do autor me escapou, tão acostumado que estou com filmes estadunidenses que explicam tudo à plateia...

Nem vou falar da "grande surpresa" que acontece no final e envolve o antigo "coronel" local porque é simplesmente absurda e fica ainda mais ridícula com os atores proclamando suas falas com a expressividade de uma estátua de pedra.


"Socorro! O rio ficou menstruado!"
O filme poderia ter sido salvo caso tivesse uma edição minimamente profissional. Todavia o que vemos em "O Som ao Redor" são sequências emendadas umas às outras sem qualquer ritmo ou fluidez, com várias cenas se alongando muito além da conta. Não causa estranheza saber que a edição foi feita pelo próprio Kleber, o que comprova que nunca é uma boa ideia deixar o cineasta cortar seu filme.

Os realizadores tentam dar sentido ao nome do filme enfiando um monte de barulhos do cotidiano de uma cidade grande em quase todas as cenas, porém eles não acrescentam quase nada e acabam apenas ajudando a atrapalhar ainda mais a compreensão das falas empoladas dos atores. Quem quiser ver esse recurso sendo usado com maestria e significado, recomendo algum filme do grande Jacques Tati, principalmente "Meu Tio".

No final da exibição desse tedioso e bisonho filme, confesso que fiquei até triste. Estava torcendo para que fosse realmente a obra prima que muitos profissionais da opinião estavam dizendo, afinal seria uma glória para mim ter meu apelido de "crítico-spam" associado a um cineasta de alto calibre. Mas, que nada! Nem isso consegui. 

No final das contas, como cineasta Kleber Mendonça Filho é um ótimo crítico de cinema. Pena que ele não vai poder detonar seu próprio filme, como faz com tanta veemência quando se trata da obra de outros realizadores. 

Mas certamente eu vou ganhar mais um merecido esculacho do crítico e dublê de cineasta por ousar não confessar que sua obra é genial por puro rancor. Afinal, como diz aquele velho ditado Klingon: "a vingança é um prato que se come frio"...

Cotação: *

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Filmes: "Birdman"

CINEMA-MARRETA

Boa premissa é estragada pelo excesso de pretensão, autoindulgência e falta de sutiliza do cineasta mexicano

- por André Lux, crítico-spam

"Birdman" é mais um daqueles blefes que cai nas graças da maioria dos críticos e acaba sendo indicado para uma penca de prêmios da indústria do cinema estadunidense.

Mas aqui fica fácil identificar a origem dessa devoção toda, já que se trata de mais um "filme dentro do filme" (ou, no caso, dentro do teatro), que utiliza a metalinguagem e o auto-elogio como molas propulsoras. E todo mundo sabe que críticos e artistas em geral adoram esse tipo de obra, cheia de referências e citações que só eles vão entender e "rasgação" de seda para quem vive da arte e os parasitas que gravitam em torno deles.

Não bastasse isso, o filme praticamente coage os críticos a gostarem dele, já que em um cena o protagonista enfrenta a poderosa crítica do The New York Times e a humilha violentamente porque ela diz que vai malhar a obra dele, mesmo sem ter a assistido. Ou seja: "críticos, estejam avisados, se não gostarem do meu filme já sabem qual será minha resposta, certo?"

O filme é escrito e dirigido pela mexicano Alejandro Iñárritu (de "Amores Brutos" e "Babel"), um cineasta inegavelmente talentoso, porém que costuma estragar suas obras com altas doses de pretensão e uma mão pesadíssima que usa como uma marreta para enfiar na tela as mensagens que gostaria de ensinar. 

"Birdman" tem até uma premissa interessante. Mostra ator que ficou famoso interpretando o super-herói "Homem Pássaro" nos cinemas, mas que caiu no esquecimento depois de recusar participar da quarta continuação do sucesso de bilheteria. Ele então tenta desesperdamente provar que é um "artista de verdade" montando uma peça na Broadway. Esse personagem é feito pelo Michael Keaton que, como todo crítico ou cinéfilo que se preze sabe, esteve na pele dos dois primeiros "Batman" do Tim Burton e também desistiu de interpretá-lo nas outras continuações.

Entenderam a sacada? O personagem de "Birdman" e o ator que o interpreta passaram por situações quase idênticas! Genial, certo? Pra meia dúzias de pessoas pode até ser, mas para o resto dos mortais esse tipo de coisa não quer dizer absolutamente nada.

Eu sinceramente acho muito pedante um cineasta fazer um filme só para ficar marretando na cabeça do espectador com a sutileza de um terremoto o quanto o chamado "cinema comercial" estadunidense e sua obsessão por filmes de super-heróis e efeitos especiais estariam acabando com a arte e com a civilização ocidental. E sobra porrada também para as novas tecnologias e as redes sociais, como se a tecnologia em si fosse maléfica e não a maneira com muitas pessoas a usam. Reacionarismo pouco é bobagem!

Enfim, o resto do filme mostra os problemas enfrentados por Keaton durante a montagem da peça que escreveu, a partir de um conto de autor cultuado, dirige e atua. Não vou negar que a primeira parte é interessante e realmente prende a atenção, principalmente graças às atuações de Keaton e Edward Norton, que interpreta um ator metido a besta e difícil de lidar (igual dizem ser o próprio Norton na vida real, sacaram? Hein, hein?).

Keaton e seu alter-ego, o "Homem Pássaro"
A interação entre eles e o resto dos personagens traz momentos engraçados, embora o tom seja sempre de humor negro (mas as mulheres tem pouco a fazer). 

A melhor sequência do filme se dá quando Keaton fica preso pra fora do teatro e tem que entrar pela porta da frente vestindo apenas uma cueca! Pena que o diretor nem mesmo tire mais proveito das consequências disso.

O problema começa no segundo ato do filme, quando a narrativa esquece dos outros e foca-se exclusivamente no protagonista, que é dado a ter delírios de grandeza graças à voz do "Homem Pássaro" que fala diretamente à sua cabeça. Ele também exibe poderes sobrenaturais, como fazer mover objetos e até voar, porém nunca fica claro se isso é real ou mais um delírio dele. 

E é na conclusão que o filme derrapa feio, quando Iñárritu tinha toda a oportunidade de fechar tudo com um crítica mordaz à hipocrisia de muitos autores em provarem que são "artistas de verdade" até receberem uma proposta milionária para estrelar o próximo blockbuster roliudiano, mas opta por fazer o contrário, que é justamente louvar esse tipo de busca autoindulgente e pretensiosa, inclusive negando a dubiedade com que mostrava os "poderes" do protagonista.

O mais estranho é que o subtítulo do filme é "A Inesperada Virtude da Ignorância". Só que no caso do diretor Iñárritu não foi virtude. Pelo contrário...

Cotação: * * 1/2

sábado, 17 de janeiro de 2015

Filmes: "De Volta ao Jogo"

Bomba: cartaz auto-crítico
LIXO TÓXICO

Mais um filme feito para disseminar o fetiche dos estadunidenses pelas armas de fogo e pela violência

- por André Lux, crítico-spam

É impressionante como a indústria cultural estadunidense gasta rios de dinheiro produzindo filmes como esse “De Volta do Jogo”, que mostram a vida de assassinos profissionais a serviço de máfias criminosas os quais eventualmente se envolvem em missões de vingança e retaliação contra seus ex-chefes.

Alguns até acabam trazendo reviravoltas interessantes, que servem para acabar com o tédio das incontáveis cenas onde o “herói” destrói sozinho um exército de capangas. Mas não é o caso desse novo filme estrelado por Keanu Reeves, que sinceramente não precisava participar desse tipo de porcaria, ainda mais para dar um desempenho no seu “estilo zumbi” de sempre.

A trama é rasa como uma poça de água e feita a partir dos clichês mais óbvios do gênero. Matador profissional apaixona-se e larga o trabalho. Sua esposa adoece e morre, para seu desespero. Gangue liderada pelo filho do seu ex-chefe assalta sua casa, rouba seu carro e mata o cão. “Herói” parte para a vingança total contra todos. Fim.

Poderia até ser divertido para quem gosta desse tipo de obra, porém é previsível até o talo e cheio de furos ridículos. Tipo, como é que o filho do mafioso não iria conhecer o protagonista, apelidado de "Bicho-Papão" justamente pela sua eficiência e crueldade, sendo que ele havia abandonado a organização há poucos anos?

Enfim, nem vale a pena ficar enumerando as besteiras nesse tipo de filme, já que sua verdadeira função é disseminar pelo resto do mundo o fetiche dos estadunidenses pelas armas de fogo e pela violência, função que “De Volta ao Jogo” cumpre com a maestria de sempre. 

Para quem gosta de lixo tóxico, é uma ótima pedida... Sem dizer que o cartaz do filme já a melhor crítica dele: uma bomba!

Cotação: *

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Charlie Hebdo é uma merda. Não serve de escudo contra balas

Como estamos na Idade Mídia, os tempos são de trevas. O midiota, você sabe, é um mero boneco de ventríloquo. A publicação francesa, que já a algum tempo definhava, hoje bateu recorde de vendas. 

 - por Lelê Teles

Jesus Charlie?

Aguardei pacientemente. Três dias se passaram e os cabras não ressuscitaram. Seria perfeito. Pela primeira vez o ateísmo rumava para se converter em religião.

Após a chacina em Paris, fiéis brotaram aos montes a dizer: “aquele que morreu sou eu”, um troço metafísico pra cacete. O fervor e a paixão com que defenderam os cartunistas mortos - porque era só deles que se falava - era uma adoração cega, acrítica, como essas que se vê nas igrejas de esquina.

Nadei contra a corrente, contra o sentimento de manada, quando escrevi a crônica Je Ne Suis Pas Charlie.

Uns fanáticos logo surgiram para me atacar. Ora se diziam franceses, ora eram brasileiros que já tinham tirado foto com a Torre Eiffel ao fundo. Ambos pretendiam santificar os cartunistas.

Porque, você sabe, não morre um canalha. É só checar as lápides nos cemitérios e os necrológios (necro-elogios) nos jornais: bom filho, bom pai, grande amigo, esposo amantíssimo.

Fuleiragem.

Eu afirmei, corpos ainda insepultos, que esses caras haviam se convertido em abjetos islamofóbicos e cínicos provocadores que se prestavam a caricaturar – obsessivamente - os muçulmanos, ridicularizando sua fé e sua cultura.

Francófilos disseram que não, eles ridicularizavam todos. Conversa mole. Eles demitiram Sine por sacanear o filho de Sarkozy e os judeus em uma mesma piada.

Eu falei que Charb fez uma charge racista. Charbófilos disseram que eu não havia entendido a piada. Na verdade, diziam eles, Charb desenhou a ministra como uma macaca para criticar aqueles que a chamaram de macaca e dizer que era inaceitável que uma negra fosse representada como uma macaca. Por isso é que ele a macaqueou.

Entendeu? Nem eu.

Teve um site que detonou o Diddi Mocó. Porque o cearense havia dito à Playboy que na época dele fazia-se piada com preto, anão e viado; e ninguém achava ruim.

Pois não é que o mesmo site estava agora a defender a charge de Charb, aquela da macaca.

Os mesmos cabras que apontaram o dedo para o Renato Aragão, agora diziam que era normal que os muçulmanos da França - espremidos na periferia, cidadãos de segunda classe, comparados aos nossos pretos, anões e viados - fossem achincalhados. Menos pelo Didi.

Vai entender.

Como estamos na Idade Mídia, os tempos são de trevas. O midiota, você sabe, é um mero boneco de ventríloquo. A publicação francesa, que já a algum tempo definhava, hoje bateu recorde de vendas.

Mas não se engane, trata-se de um fenômeno midiático instantâneo e passageiro. Uma bíblia de fim de semana, esse entusiasmo acaba assim que a mídia encontrar outro assunto.

Por falar em mídia, e aquela comissão de frente hein, todo mundo de sobretudo, solene; uma fantasia. A carnavalização da morte, um mórbido espetáculo. Só faltaram os carros alegóricos, as mulatas brancas e o povo.

Porque os líderes mundiais, como sempre, nem ligaram para a multidão. Isolaram-se em uma rua e posaram para uma fotografia, braços dados, e deixaram que os jornalistas se encarregassem em interpretar o gesto.

Parece que era de paz, mas só parece. Porque na comissão de frente tinha até um cara que despejou bombas na cabeça de mulheres e crianças na Palestina.

E não é que foi só terminar a marcha que a polícia francesa meteu logo as garras no comediante Dieudonné M’bala M’bala. Embora negro, às vezes dizem que ele faz apologia ao nazismo. Outras vezes o acusam de antissemitismo.

Charlie Hebdo também não ia com a cara dele, já meteram-lhe uma quenelle no ânus e o pintaram simiescamente.

Qual é desse negão falando mal de judeus? É aquela coisa, o macho branco, e somente o macho branco, é que pode tudo!

Tô achando que a igrejinha de Charb está com os dias contados. Daqui a pouco começa o BBB, a Champions Ligue, o Tour de France e a moçada vai tomar cerveja de frente pra TV.

Enquanto isso, 5 milhões de muçulmanos estão proibidos de fazer orações em público na França. Afinal, o Charlie Hebdo dizia que eles eram idiotas perigosos e que podiam explodir a qualquer momento.

Pra mim, de longe, a charge mais desprezível do Hebdo é aquela alusiva ao massacre de muçulmanos no Egito. Acostumado a desumanizar os muçulmanos, os caras do Hebdo não tiveram compaixão, tascaram uma charge.

O Corão, crivado de balas, e a frase: O corão é uma merda. Não serve de escudo contra balas.

Seria justo e honesto com a linha de pensamento da moçada que defende as barbaridades do C.H. que a nova capa do semanário viesse com Charb segurando seu jornal, crivado de balas, e a frase:

O Charlie Hebdo é uma merda. Não serve de escudo contra balas.

Mas aí já é ofender a religião alheia.

Palavra da Salvação.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Cadê os defensores da "liberdade de expressão" agora?


França prende humorista que faz críticas a judeus

Após convocar uma marcha pela liberdade e contra o terror, com a presença de líderes mundiais como o israelense Benjamin Netanyahu, o governo francês expõe suas contradições ao mandar prender o comediante francês Dieudonné.

O humorista, conhecido por suas críticas ao judaísmo, foi interpelado em sua casa, em frente aos seus filhos, por ordem do primeiro-ministro Bernard Cazeneuve, sobre a acusação de incitar o terrorismo nas redes sociais.

Armas de destruição em massa
encontradas com o humorista
No Facebook, ele comentou que se sente como Charlie Coulibaly (sobrenome de um dos terroristas):

"Após essa marcha histórica, digo mais... lendária! Um momento mágico como o Big Bang que criou o universo! ...ou em um grau mais local, comparável à coroação de Vercingétorix [rei gaulês da antiguidade], eu enfim entro em casa. Sabe que essa noite, no que me diz respeito, eu me sinto como Charlie Coulibaly", escreveu.

Em sua defesa, Dieudonné disse que seu humor não difere do feito pelo Charlie, que estimulava preconceito contra muçulmanos

No ano passado, o comediante foi alvo de outra ação do governo de François Hollande, em ofício pedindo para que todas as prefeituras cancelassem seus shows de stand-up.


Quer entender o mundo atual? Então leia até o fim

- por Laerte Braga

A derrota militar e política dos EUA no Vietnã, a luta dos negros norte-americanos e a divisão daquele povo diante das políticas imperialistas, levou a eleição de Ronald Reagan, pois o projeto Nixon havia fracassado. 

Reagan, sem condições de ser síndico de prédio, ou ator principal de um filme, cumpriu o seu papel de canastrão dentro de uma retomada de um projeto político e militar de controle de todo o mundo, logo, das riquezas naturais indispensáveis, como o petróleo. 

Comprou o Vaticano através do cardeal Marcinkus, elegendo um papa disposto a cumprir os desígnios de Washington, acabar com a Teologia da Libertação e se voltar contra a União Soviética. 

Seus intentos foram alcançados, aquela mania de americano de fincar bandeira até na porta da garagem voltou e conseguiu eleger seu sucessor, George Bush, o pai, um idiota perfeito, como o filho George Walker Bush. 

No meio do caminho um Clinton para atrapalhar a insânia da ultra-direita dos EUA. George Bush, o filho, foi derrotado no voto popular e eleito numa fraude na Flórida, onde o governador era seu irmão Jeb. 

É sempre bom lembrar que cinco ministros da Suprema Corte consideraram necessária uma nova votação no distrito onde foi apontada a fraude. Bush filho quase quebrou as empresas da família, quebrou um clube de basebol, fugiu do serviço militar para não ter que ser mandado ao Vietnã e entregou o governo a Dick Chaney, seu vice e empresário de armas e petróleo. 

Com uma nova realidade mundial começa aí a barbárie via ATO PATRIÓTICO, a farsa do 11 de setembro, o pretexto, a invenção das armas químicas de biológicas no Iraque, toda a mentira dos EUA que segue nos dias atuais. Serviços de inteligência terceirizados, recrutamento e treinamento militar também, campos de concentração, prisões clandestinas, apoio total a Tel Aviv no genocídio contra palestinos, tudo isso dito aqui de forma reduzida, mas creio clara. 

Obama é só um pateta que entrou no governo e se viu obrigado a aceitar a realidade que fora construída e optou pelo "relaxar e gozar". Defendem os direitos humanos, mas não subscrevem o tratado que criou o Tribunal Penal Internacional, nem os EUA e nem Israel. 

Já começam a deitar ramas sobre a América Latina de forma mais intensa ao enrolar Dilma Roussef, temerosos do BRICS e de governos populares em vários países, enfim, dos assassinatos seletivos que assustaram até a chanceler alemã, Ângela Merkel, as prisões ilegais, a tortura autorizada, toda a estupidez de uma nação de uma boiada, com exceções evidente. 

O "atentado" ao jornal "satírico" francês cai como uma luva nos projetos terroristas da organização ISRAEL/EUA TERRORISMO S/A. E, neste domingo, na passeata em Paris, o assassino de crianças Benjamin Netanyahu. 

E a mídia sionista, à frente o israelense Ralph Murdoch, tecendo loas à liberdade de expressão e uma grande manada confundindo liberdade de expressão com desrespeito e provocação. 

E dois supostos "terroristas" eliminados, silenciados, para que não se tenha, a manada, a menor idéia do que de fato houve. 

JE NE SUIS PAS CHARLIE.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Mereciam ou não mereciam? Eis a questão

De assassino para assassino: "Merecer não tem nada a ver com isso"

Ainda estou impressionado com a incapacidade de alguns em entender que muitas das "charges" publicadas pelo Charlie Hebdo não podem nem mesmo ser chamadas de charges, mas sim de desenhos grotescos e ofensivos, feitos apenas para disseminar ódio e intolerância.

E ódio e intolerância geram apenas mais ódio e mais intolerância, que fatalmente acaba culminando em violência.

Eu, por exemplo, critico, ironizo e denuncio os políticos e governos da direita há anos, inclusive usando e criando charges e memes. Já fui até processado por isso - e ganhei.



Já pensou se fosse a sua
mãe ao invés do Maomé?
Agora, imaginem que eu crie uma charge ou um meme com a mãe de um dos políticos que quero criticar. Pode ser ela de quatro com algo enfiado na bunda ou então faço uma montagem com uma foto dela em cima de uma imagem pornográfica.

O que vocês acham que ia acontecer nesse caso? Poderia até ser morto. No mínimo os caras iam arrancar meu coro em dezenas de processos.

Aí eu vou dizer: "Puxa, mas eu sou um cara tão legal, de esquerda, bacana, humanista! Será que merecia mesmo ser morto só por causa de uma figura assim?".

Então eu repito: merecer ou não nada tem a ver com o caso. Nada.


Isso tudo me lembrou o final do filme "Os Imperdoáveis", do Clint Eastwood.

Depois de matar uns vaqueiros que tinham retalhado uma puta e pegar a recompensa, as coisas dão erradas e o personagem feito pelo Morgan Freeman é capturado e torturado até a morte.

Enfurecido, o matador interpretado pelo Clint, notório assassino inclusive de mulheres e crianças, vai até o saloon onde o cadáver do amigo estava exposto dentro de um caixão na porta de entrada, entra de espingarda em punho e pergunta: "Quem é o dono dessa espelunca?". 

Assim que o sujeito se identifica, ele dispara sua arma no peito dele. O xerife feito pelo Gene Hackman grita: "Seu filho da puta covarde, acabou de matar um homem desarmado!". Ao que Clint responde: "Ele deveria ter se armado quando decidiu decorar seu bar com o cadáver do meu amigo".



Rola então um grande tiroteio e o matador feito por Clint derruba quase todos e o resto foge de medo. O xerife, agonizando, dá seu último suspiro sob a mira da espingarda : "Eu não mereço isso. Morrer desse jeito. Eu estava construindo uma casa..." E recebe como resposta: "Merecer não tem nada a ver com isso". Em seguida o matador puxa o gatilho.




Será que caiu a ficha? Não consigo ser mais claro que isso.

Claro que vai ter gente dizendo que estou afirmando que eles mereceram ser mortos e mais um monte de outras besteiras que não vale a pena nem repetir.

Todavia, tenho certeza que quem tem o minimo de pensamento crítico vai entender o que estou querendo dizer... 

Teoria da conspiração ou constatação? Pistas ligam chacina de Paris ao Mossad

Os terroristas trapalhões estão de volta!
Terá sido a chacina de Paris um ataque 'false flag'? 

Para quem não conhece a expressão, ataques de falsa bandeira são ataques clandestinos onde um país comete ou apoia atos de terrorismo contra si próprio ou mesmo contra outra nação, e em seguida culpa outro país ou organização, de forma a justificar uma determinada agenda, como invasões de outros países ou a passagem de leis aumentando o poder do estado e diminuindo a liberdade e privacidade de sua população. 

O 11 de setembro de 2011 é um dos mais controversos episódios da história, pois, sem qualquer envolvimento do Iraque, serviu para justificar a invasão de 2003, que culminou com a queda de Saddam Hussein.

Agora, com a chacina de Paris, começam a circular teorias da conspiração, como se o atentado à redação do Charlie Hebdo também tivesse sido um episódio de 'false flag'. O primeiro a levantar a hipótese foi o blog LBI - Liga Bolchevique Internacionalista - que associou o ataque em Paris ao Mossad, o serviço secreto israelense. A página publicou um post sobre o assunto poucas horas depois do ocorrido, no dia 7 de janeiro, às 22h (leia aqui). 
Quem também alimentou a tese foi a ativista Mary Hughes-Thompson, líder do movimento "Free Gaza" (siga aqui seus posts no Twitter). O propósito seria conter o movimento pró-Palestina na Europa, onde diversos países começam a reconhecer o estado palestino, e também evitar boicotes a Israel.
Quem também organizou as teses que circulam sobre a hipótese de 'false flag' foi o internauta Marden Carvalho. Leia, abaixo, seu texto: 
Algumas observações que faço sobre o atentado em Paris.
Os atiradores eram bem preparados, bem treinados. E eles tinham a intenção de fugir e de manter o anonimato. Por isso eles usavam máscaras e roupas pretas iguais, difucultando até distinguir quem é quem entre eles. Inclusive eles usavam luvas, que dificultaria as buscas por impressões digitais nos veículos roubados, que foram usados para cometer o atentado e a fuga.
A polícia francesa afirma que foram três terroristas que executaram os ataques e que um deles havia deixado seus documentos dentro do carro roubado.
Aqui as coisas começam a não fazer sentido para mim.
De onde surgiu o terceiro suspeito? Em todas as imagens que analisei só apareciam dois suspeitos. Inclusive, um dos sobreviventes, Laurent Léger, que estava na sala onde os jornalistas e o editor da revista foram mortos, afirma que eram duas pessoas. 
Agora com toda a precisão e frieza do mundo que estes criminosos demonstraram ter, cobrindo seus rostos e ocultando suas impressões digitais, eles iriam deixar um passaporte no interior do veículo roubado? Ou seja, eles iriam deixar a prova para a polícia chegar até eles? E se deixaram, isso demonstra que são amadores, ainda que pareçam ser peritos em atirar. Algo não encaixa.
Sobre o terceiro suspeito, Hamyd Mourad, que se entregou à polícia depois de ver seu nome sendo noticiado nos meios de comunicação, seus colegas afirmaram que no momento dos ataque ele estava na sala de aula. Vários são os seus colegas que confirmaram isso pelo Twitter (#MouradHamydInnocent), afirmando que estiveram junto com o suspeito naquela mesma manhã dos ataques.
Trago aqui um vídeo da TV France 24h, mas antes confira algumas imagens que retirei do vídeo.
No momento dos ataques ao escritório da revista Charlie Hebdo, algumas pessoas subiram no teto do prédio e começaram a fazer as filmagens com seus celulares. Dentre essas pessoas parecia que havia um policial, ou ao menos havia uma pessoa com um colete à prova de balas. Conforme você poderá ver na imagem abaixo.
 Depois este mesmo policial ou civil com colete (porque alguém precisaria de um colete à prova de balas na calma e pacata Paris?) dá orientações para as três pessoas que parecem ser policiais vestidos com roupas pretas.
 Ele diz algo parecido com “à gauche” ou seja, para a esquerda, mas só que os policiais viram para a direita. A imagem depois parece que é cortada e já aparece no meio da rua os dois “terroristas” vestido de forma igual aos três policiais que viraram para a direita. E parece que estes “terroristas” atiram naqueles três policiais. Mas pelo visto não os mataram. Conforme vocês poderão conferir no vídeo abaixo.
http://youtu.be/MgqiFz3-v98
No final deste vídeo é possível ver que aparece outra pessoa com colete à prova de balas (ou um reprise, o que não ficou bem claro para mim).
Nas minhas pesquisas acabei descobrindo o blog Aangirfan onde o autor afirma que o atentado em Paris foi um trabalho interno, que a MOSSAD atacou Charlie Hebdo.
Para quem não sabe o que seja o Mossad e nem o Kidon:
“O Mossad (serviço de espionagem israelense) conta com um departamento, o Kidon, cujo objetivo é assassinar inimigos de Israel, em qualquer parte do mundo, que não possam ser julgados num tribunal normal.” (Kidon: assassinos acima da lei)
Curiosamente, o editor chefe da revista Charlie Hebdo (que tem descendência judaica) estava de viagem por Londres e por isso foi poupado. E o jornalista judeu Amchai Stein, editor geral do IBA Channel 1 de Israel, simplesmente apareceu no exato momento para (en)cobrir os “fatos”.
Agora vejam mais estas duas coincidências envolvendos o povo de Israel.
O primeiro carro abandonado pelos terroristas foi em frente de um restaurente (judaico) Kosher. 
O terceiro suspeito, Amedy Coulibaly, também invadiu um supermercado (judaico) Kosher, Hyper Cacher.
http://youtu.be/Y8MJzS5Sxqw
E por que os judeus fariam uma coisa destas?
A revista Charlie Hebdo já teria zombado do agente do Mossad Abu Bakr al-Baghdadi (Simon Elliot).
E também:
Atualizarei assim que tiver mais novidades ou suspeitas.
Bibliografia

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Joe Sacco publica análise em quadrinhos sobre ataque ao Charlie Hebdo


O cartunista Joe Sacco, famoso por seus desenhos sobre a Palestina, fez uma análise em quadrinhos sobre o ataque à sede do jornal Charlie Hebdo. Os quadrinhos foram publicados pelo jornal The Guardian, e o Jornalismo B traduziu para o português:

1º quadrinho: Sobre a sátira
Minha primeira reação aos assassinatos nos escritórios do Charlie Hebdo em Paris não foi de bravo desafio.

Não tive vontade de bater no meu peito e reafirmar os princípios do livre discurso.

2º: Minha primeira reação foi a tristeza. Pessoas foram mortas brutalmente, entre elas vários cartunistas - minha tribo.

3º: Mas junto com o pesar vieram pensamentos sobre a natureza de algumas das sátiras do Charlie Hebdo. Mesmo que beliscar os narizes de muçulmanos seja tão permissível quanto considerado agora perigoso, nunca me pareceu mais do que uma forma enfadonha de usar a caneta.

4º: Posso participar desse jogo também? Claro, eu poderia desenhar um homem negro caindo de uma árvore com uma banana em sua mão - na verdade, eu acabei de fazê-lo.

Me é permitido ofender, certo?

5º: Casualmente, você sabia que o Charlie Hebdo demitiu um cartunista - Maurice Sinet, pesquise sobre ele - por supostamente escrever uma coluna anti-semita?

6º: Então, com isso em mente, aqui está um judeu contando seu dinheiro sobre as entranhas da classe trabalhadora.

E se você não aguenta a "piada" agora, ela teria sido tão engraçada em 1933?

7º: Na verdade, quando estabelecemos uma linha, frequentemente estamos cruzando uma também. Porque linhas em um papel são uma arma e a sátira é feita para cortar até os ossos. Mas os ossos de quem? Qual exatamente é o alvo? E por quê?

8º: Sim, eu afirmo nosso direito de zombar - então aqui está um desenho gratuito de um devoto de verdade fazendo o trabalho de Deus no deserto.

Mas talvez quando cansarmos de deixar levantado nosso dedo médio possamos pensar sobre por que o mundo está como está...

9º: E o que faz com que muçulmanos neste tempo e lugar sejam incapazes de "levar na esportiva" uma mera imagem.

10º: E se respondermos "porque há algo profundamente errado com eles" - certamente havia algo profundamente errado com os assassinos - então deixem-nos tirá-los de suas casas e mandá-los em direção ao mar...

Porque isso vai ser bem mais fácil do que resolver como nos encaixamos nos mundos uns dos outros.

*Tradução: Kauê Menezes, para o Jornalismo B

Começou a "queima de arquivo" de sempre!


Os irmãos Cherif e Said Kouachi, autores do ataque a tiros à redação do jornal francês Charlie Hebdo, que deixou 12 mortos na quarta-feira 7, foram mortos pela polícia francesa nesta tarde, noticiou a agência France Presse. 

A informação foi confirmada pela prefeita de Paris, Anne Hidalgo.

A dupla estava cercada há horas pela polícia francesa na cidade de Dammartin, a noroeste de Paris, onde mantinha uma pessoa refém, que saiu ilesa da operação. 

A polícia invadiu o local, onde funcionava uma gráfica, de onde se ouviu tiros e explosões.

Ao mesmo tempo, outro atirador fez reféns no supermercado judaico Hyper Cacher, no leste da capital. Ele é o mesmo suspeito de ter matado um policial ontem durante um tiroteio em Paris e de ter ligação com o mesmo grupo militante islâmico dos dois irmãos.

A polícia invadiu o local e libertou os reféns. O terrorista também foi morto pela polícia. Cinco explosões foram ouvidas.

A velha hipocrisia de sempre

Excelente charge... mas, pensando bem, se o cara é branco, cristão e liberal-fascista só pode mesmo ter algum problema mental, né?


Liberdade de expressão no rabo dos outros é refresco!


Esse debate acirrado sobre as mortes dos cartunistas do Charlie Hebdo traz à tona um lado completamente irracional e incoerente das pessoas.

Querem ver? Estou tendo o seguinte diálogo com diversas pessoas no facebook nas últimas horas, inclusive com gente que se diz de esquerda:

Pessoa: É inaceitável que se mate só por que se sentiu ofendido por uma charge! A liberdade de expressão tem que ser geral e irrestrita!

Eu: Também acho. Mas, não acha que deveriam existir limites para a liberdade de expressão?

Pessoa: Claro que não! Liberdade de expressão tem que ser total!

Eu (provocativo): Tudo bem, mas como não gostei do que você escreveu acima, vou fazer uma charge da sua mãe pelada, de quatro, com um nabo enfiado na bunda. Tudo bem?

Pessoa: Pode fazer, mas aí eu vou te processar na Justiça.

Eu: Ok, mas digamos que você vença a causa e eu tenha que te pagar uma indenização milionária, que me obrigue a perder tudo que tenho na vida. Por causa disso, minha mulher me abandona e eu, totalmente pobre e abandonado, seja obrigado a morar na rua, onde acabo morrendo de fome...

Pessoa: Ué, bem feito! Quem mandou fazer uma charge da minha mãe pelada de quatro????

Pois é. Tipo assim, sabe?

Quem está por trás do atentado contra Charlie Hebdo?


- por Thierry Meyssan


Em 7 de janeiro de 2015, um comando irrompe na sede parisiense do Charlie Hebdo e mata 12 pessoas. Outras 4 vítimas foram reportadas como estando em estado grave.

Nos vídeos se ouve os atacantes gritando "Allah Akbar!" e afirmar depois que "vingaram Maomé". Uma testemunha, a cartunista Coco, afirmou que os indivíduos diziam ser da Al-Qaeda. Isso bastou para que inúmeros franceses denunciam ao fato como um atentado islamista.

Mas essa hipótese é ilógica.

A missão do comando não coincide com a ideologia jihadista

Em efeito, os membros ou simpatizantes de grupos como a Irmandade Muçulmana, Al-Qaeda ou Emirado Islâmico não teriam se limitado a matar cartunistas ateus. Teriam começado destruindo os arquivos da publicação na presença das vítimas, como fizeram na totalidade das ações que perpetram no Magreb e no Levante. Para os jihadistas, o primordial é destruir os objetos que - segundo eles - ofendem a Deus, antes de castigar os "inimigos de Deus".

E tampouco teriam se retirado de imediato, fugindo da polícia, sem completar sua missão. Pelo contrário, a teriam realizado até o fim ainda que isso custasse suas vidas.

Por outro lado, os vídeos e vários testemunhos mostram que os atacantes eram profissionais. Estão acostumados ao manejo de armas e só disparam quando é realmente necessário. Sua indumentária tampouco é a dos jihadistas senão mais exatamente a que caracteriza comandos militares.

Sua maneira de executar no chão um policial ferido, que não representava um perigo para eles, demonstra que sua missão não era "vingar Maomé" do humor não muito fino do Charlie Hebdo.

Objetivo da operação: favorecer o início de uma guerra civil

Os atacantes falam bem o idioma francês e é muito provável que sejam franceses, o que não justifica a conclusão de que seja tudo um incidente franco-francês. Pelo contrário, o fato de que se trata de profissionais nos obriga a separar estes executores dos que deram a ordem de realizar a operação. E nada demonstra que estes últimos sejam franceses.

É um reflexo normal, mas intelectualmente errôneo, acreditar que conhecemos nossos agressores no momento em que acabamos de sofrer a agressão. Isso é o mais lógico, tratando-se da criminalidade comum e corrente. Mas não é assim quando se trata de política internacional.

Quem deu as ordens que levaram à execução desse atentado sabia que estavam provocando uma ruptura entre franceses de religião muçulmana e os franceses não-muçulmanos. O semanário satírico francês Charlie Hebdo se havia especializado nas provocações anti-muçulmanas, das quais a maioria dos muçulmanos da França foram vítima direta ou indiretamente. Se bem os muçulmanos da França não deixaram certamente de condenar esse atentado, lhes será difícil sentir pelas vítimas tanta dor como os leitores da publicação. E não faltarão os que interpretem isso como uma forma de cumplicidade com os assassinos.

É por isso que, ao invés de considerar esse atentado extremamente sanguinário como uma vingança islamista contra o semanário que publicou na França as caricaturas sobre Maomé e dedicou reiteradamente seu primeiro plano a caricaturas anti-muçulmanas, seria mais lógico pensar que se trata do primeiro episódio de um processo tendente a criar uma situação de guerra civil.

A estratégia do "choque de civilizações" foi concebida em Tel-Aviv e Washington

A ideologia e estratégia da Irmandade Muçulmana, Al-Qaeda e Emirado Islâmico não prega provocar uma guerra civil no "Ocidente", senão pelo contrário, iniciar uma guerra civil no "Oriente" e separar a ambos mundos hermeticamente. Nem Sayyid Qutb, nem nenhum de seus sucessores convocaram a provocar enfrentamentos entre muçulmanos e não-muçulmanos no terreno destes.

Pelo contrário, quem formulou a estratégia do "choque de civilizações" foi Bernard Lewis e ele o fez a pedido do Conselho de Segurança Nacional dos EUA. Essa estratégia foi divulgada posteriormente por Samuel Huntington, apresentando-a não como uma estratégia de conquista senão como uma situação que podia chegar a se produzir. O objetivo era convencer aos povos dos países membros da OTAN de que era inevitável um enfrentamento, justificando assim o caráter preventivo do que seria a "guerra contra o terrorismo".

Não é em Cairo, em Riad nem em Cabul que se prega o "choque de civilizações", mas sim em Washington e em Tel-Aviv.

Os que deram a ordem que levou ao atentado contra o Charlie Hebdo não estavam interessados em agradar a jihadistas ou talibãs mas sim aos neoconservadores ou aos falcões liberais.

Não devemos esquecer os precedentes históricos

Temos que recordar que durante as últimas décadas temos visto os serviços especiais dos EUA e da OTAN:

-> Utilizar na França a população civil como "porquinhos da Índia" para experimentar os efeitos devastadores de certas drogas;

-> Respaldar às OAS para assassinar o presidente francês Charles De Gaulle;

-> Proceder à realização de atentados de "falsa bandeira" contra a população civil em vários países membro da OTAN.

Temos que recordar que, desde o desmembramento da Iugoslávia, o Estado-Maior americano experimentou e pôs em prática em vários países sua estratégia conhecida como "rinha de cães", que consiste em matar membros da comunidade majoritária e matar depois membros das minorias para conseguir que ambas as partes se acusem entre si e que cada uma delas creia que a outra está tentando exterminá-la. Foi assim que Washington provocou a guerra civil na Iugoslávia e, ultimamente, na Ucrânia.

Os franceses fariam bem em recordar igualmente que não foram eles que tomaram a iniciativa da luta contra os jihadistas que regressavam da Síria e do Iraque. De certo, nenhum desses indivíduos cometeu até agora nenhum atentado na França já que o caso de Mehdi Nemmouche não se pode catalogar como um fato perpetrado por um terrorista solitário senão por um agente encarregado de executar em Bruxelas 2 agentes do Mossad. Foi Washington que convocou, em 6 de fevereiro de 2014, os ministros do Interior da Alemanha, EUA, França (o senhor Valls enviou um representante), Itália, Polônia e Reino Unido para que inscrevessem o regresso dos jihadistas europeus como uma questão de segurança nacional. Foi apenas depois dessa reunião que a imprensa francesa abordou esse tema dado o fato de que as autoridades haviam começado a atuar.

Não sabemos quem ordenou esse ataque profissional contra o Charlie Hebdo mas sabemos sim que não devemos nos precipitar. Teríamos que ter em conta todas as hipóteses e admitir que, nesse momento, seu objetivo mais provável é nos dividir e que o mais provável é que quem deu as ordens esteja em Washington

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

"A bissexualidade e o amor livre serão as tendências no futuro", afirma psicóloga

A psicanalista Regina Navarro Lins bate na mesma tecla há mais de duas décadas: amor é uma coisa, sexo é outra. Em sua obra mais recente, O livro do amor, declara guerra ao idealismo: “As pessoas precisam parar de acreditar em fidelidade e amor romântico. Dentro de 30 anos, o sexo será mais livre. A bissexualidade é uma tendência”

Falar de sexo não é problema para Regina Navarro Lins. Carioca de Copacabana, mãe de dois filhos e avó de uma menina, a escritora e psicanalista de 63 anos ganha a vida falando “daquilo”. E fala sem travas, sem tabus, sem moralismo, de um jeito que incomoda muita gente e põe em xeque os sonhos de uma vida amorosa e sexual ideal. E irreal.
Regina se considera “uma libertária”. Palavras como masturbação, sexo grupal (“são uma tendência”), bissexualidade (“outra tendência”) e orgasmos fingidos (“um absurdo”) saem da sua boca com uma facilidade que justifica os 12 livros que ela publicou. Todos sobre sexo e relacionamentos. Por causa deles, participa de programas de rádio, escreve colunas em jornais, artigos em revistas, blogs, e, este mês, ganha um quadro na terceira temporada de Amor e sexo, apresentado por Fernanda Lima, na Globo. Tornou-se uma espécie de militante da liberdade sexual e amorosa.
Em sua mais recente obra, O livro do amor, volumes 1 e 2, ela conta como evolui o sentimento desde a Pré-História até os dias de hoje. “Passei cinco anos debruçada sobre esse assunto”, diz. “A gente tem que saber do passado para entender por que as coisas são como são no presente.” Seu objetivo: esclarecer o maior número de pessoas possível. “Elas não percebem que são infelizes porque seguem padrões que não levam a nada, como acreditar que em um casamento é possível a exclusividade.” Regina prefere este termo: “exclusividade”. “Traição não é uma pessoa sentir desejo por outra, isso é natural. Traição é enganar um amigo, um irmão.”
A psicanalista também ataca outras frentes carregadas de polêmica. Incentiva, por exemplo, o uso de vibradores (“para que mais mulheres gozem”) e é “absolutamente” contra o cavalheirismo. “Por que um homem tem que pagar a sua conta ou tirar uma cadeira para você sentar? É porque a mulher é um ser frágil e incapaz até de puxar uma cadeira?”
Essa filosofia de vida é um espelho da sua rotina. Há 11 anos está casada com o escritor Flávio Braga, seu terceiro marido. “Não temos um pacto de exclusividade. As pessoas estranham até coisas bobas na gente”, diz. Exemplo: ela não gosta de cozinhar, seu marido gosta. Ele vai além, cuidando da casa, lavando os pratos... “Tenho amigos intelectualizados que acham isso um absurdo”, conta Regina. “Fico chocada com essas reações.”
A cama na varanda
Falar e escrever sobre relacionamentos foi um caminho natural para Regina. “Sempre gostei do tema”, diz. Filha de uma família de classe média da zona sul carioca, casou aos 23 anos (“não virgem e não na igreja, claro”). Até então, seguia o destino de uma psicóloga comum. Abriu um consultório, fez formação psicanalítica. “Mas percebi que esse não era o meu caminho”, explica. “Precisava falar mais de amor e sexo. Eram assuntos que toda hora surgiam na minha clínica.”
Em 1992, ela compilou suas posições sobre o tema e lançou A cama na varanda. Um best-seller com mais de 50 mil cópias vendidas. Nele, fez uma previsão que balançou certezas e atiçou a atenção de quem desconfia de que esse negócio de viver a dois é uma luta arriscada e dolorosa por algo quase impossível. Para Regina, num futuro que deverá chegar dentro de 30 anos, viveremos a era do poliamor e de um sexo menos encanado.
Com essas teses todas no colo, a escritora passou a ser uma das pessoas mais ouvidas do Brasil sobre o tema. “Acho um absurdo que em um país como o nosso não existam mais especialistas que pensem sobre isso”, diz a psicanalista, que cutuca seus colegas de profissão. “Um psicanalista normal fica fechado lá com seus dez pacientes. Assim, fica difícil ter uma visão do mundo.”
Para ter essa visão, ela usa a internet e conversa regularmente com seus leitores por e-mail e Twitter. Ou em palestras. Ou mesmo na rua. “Ouço as pessoas. Vejo o que está acontecendo e, a partir daí, posso apontar tendências.” Entre elas: o fim do casamento tal qual o conhecemos. “Quem disse que não é possível amar mais de uma pessoa? É sim!”
Na entrevista, a psicanalista demoliu até mesmo os contos de fadas. “Uma mãe que lê um livro de uma Cinderela da vida está sendo irresponsável com a sua filha.” 
Tpm. Você se considera uma pessoa libertária. Como isso surgiu?
Regina. Acho que já nasci libertária. Sou filha de uma família de classe média. Minha mãe sempre foi muito careta. Ela só começou a trabalhar depois que meu pai morreu, em um desastre de avião, quando eu tinha 14 anos. Minha irmã, que é quatro anos mais velha, também é assim, supermoralista. Mas eu tive uma avó maravilhosa, que veio do Líbano com 14 anos e desquitou com quatro filhos pequenos. Isso na década de 30! Imagina o que era isso? Essa avó deve ter me influenciado de alguma maneira. Ela sustentou sozinha os quatro filhos e ainda ajudava o meu avô com dinheiro.
E quando ficou claro que você era como ela? 
Aos 8 anos, fui fazer primeira comunhão, porque todas as minhas amigas faziam. Minha mãe não me forçou. Isso é uma coisa que agradeço a ela – minha mãe não tinha essa religião. Agradeço mesmo por não terem me colocado a culpa católica [risos]. Na primeira aula de catecismo, lembro até hoje, vi um livrinho em que tinha uma menina entrando num pote de melado e estava escrito: “Deus tudo sabe e tudo vê”. Nunca mais voltei.
Você foi adolescente nos conservadores anos 50. Casou virgem? 
Não. Perdi a virgindade com meu primeiro marido, quando a gente namorava. Antes já tinha tido dois namorados. Não transei com eles porque eles não quiseram! Era uma época em que se gozava nas coxas [risos]. Lembro que para um deles eu falava: “Tira a minha virgindade!”. E ele respondia: “Não, porque se eu tirar a sua virgindade e depois a gente se separar você vai sofrer”. E eu falava: “Pode tirar, não vou sofrer” [risos].
A vontade de ser psicóloga e trabalhar na área da sexualidade e do amor surgiu de que jeito? 
Sempre quis fazer psicologia, desde os 15 anos. Por 18 anos, trabalhei como psicanalista comum, tinha consultório, dava aula em universidade e atuei até em uma penitenciária. Até que descobri que grande parte dos problemas das pessoas era ligada a amor e sexo. Daí me senti mal em ficar naquela coisa só de interpretação. Comecei a me especializar nesses dois temas, a dar palestras sobre isso. 

Sempre quis trabalhar com um grande público. Achava que com quanto mais gente eu falasse, melhor. Em 1992, assinei com a editora Rocco para lançar meu primeiro livro, A cama na varanda. Foi um grande sucesso. Tinha um programa diário de sexo no rádio. Fui indo. Hoje dou palestras pelo Brasil todo. Sinto que tenho muito material e que é absurdo guardar isso só para mim.
Você está no seu terceiro casamento e prega o amor livre. Como é isso dentro das suas uniões?
Primeiro casei com 23 anos e tive minha filha [a advogada Taísa, 37 anos]. Separei depois de cinco anos. Era um casamento normal. A gente não questionava isso. Mas também não tinha pacto de exclusividade. Já sabia que, se eu quisesse transar com alguém, isso seria um direito meu. Nunca pensei diferente. Depois casei outra vez, tive outro filho [o jornalista Deni, 27] e fiquei nove anos sozinha. E fiquei muito bem. Isso é bastante importante. É fundamental que as pessoas saibam que podem ficar bem sozinhas. Que se livrem dessa ideia do amor romântico, essa coisa que diz que você tem que ter um par. A pessoa tem que saber ficar sozinha até para escolher quando quiser se juntar com alguém, e não ficar com o primeiro que aparecer só por medo da solidão.
Como foi ficar nove anos sem alguém? 
Foi uma fase meio radical. Não queria casar nem namorar. Queria ficar sozinha. Eu já tinha publicado A cama na varanda e tinha lançado também uma coletânea de minhas colunas no Jornal do Brasil. Aí, escrevi um novo livro chamado Na cabeceira da cama, em que fui bem contundente. Nessa época, achava impossível o tesão continuar em um casamento. Completamente impossível! Hoje, estou mais amena. Acho viável desde que você não tenha um pacto de exclusividade.
Foi nessa fase radical que você conheceu seu atual marido? 
Foi. Conheci o Flávio em 1999, quando eu dava palestra, publicava livros e todo o resto. Ele já sabia quem eu era, o que eu pensava. Em 12 anos, não vi nenhum moralismo nele. Não temos pacto de exclusividade. Se ele transar com alguém, não tenho nada a ver com isso. E se eu transar com outra pessoa, ele também não tem nada a ver com isso. Mas estamos sempre juntos, somos superparceiros, trabalhamos juntos [o casal já escreveu livros em parceria, entre eles, Fidelidade obrigatória e outras deslealdades]. E ele é muito delicado, muito respeitador. Jamais me pergunta o que fiz, aonde fui. Nosso casamento é ótimo, inclusive sexualmente. 

Acho difícil o tesão se manter quando existe controle. A coisa mais comum de ver no casamento é dependência emocional de um e do outro. Quando você sabe que o outro tem pavor de te perder, que ele está ali no seu pé... o tesão fica inviável. Tem que existir um mínimo de insegurança para você ter tesão. 
“É fundamental que as pessoas saibam que podem ficar bem sozinhas. Que se livrem dessa ideia do amor romântico, essa coisa que diz que você tem que ter um par”
Como é a rotina de vocês? 
O Flávio gosta muito de cozinhar, eu detesto. Ele lava prato cantando, eu não suporto cuidar da casa. Eu cuido de ir ao banco, chamar o encanador, essas coisas. Mas as pessoas são muito caretas. Outro dia estava ao telefone com um amigo e o Flávio gritou: “O almoço está na mesa”. E meu amigo disse: “Então você é o homem da casa?”. Fiquei chocada! Como uma pessoa intelectualizada fala uma coisa dessas?
Você acha que existe diferença entre o masculino e o feminino?
Tenho horror daquela história de “meu lado masculino, meu lado feminino”. Minha irmã sempre me falava: “Você tem alma masculina”. Essa coisa de masculino e feminino são estereótipos para aprisionar as pessoas. As mulheres têm que ser sensíveis e frágeis. E os homens, corajosos e bravos. Imagina! Isso é tudo criação. Todos nós somos fortes e fracos, ativos e passivos, depende do momento.
Sexualmente, existe diferença? 
Claro que não! É tudo cultural. Existem pesquisas no exterior que dizem que as mulheres transam fora do casamento praticamente tanto quanto os homens e que não sentem mais tanta culpa. Eu recebo uma quantidade imensa de mensagens que provam isso. Vejo que as mulheres estão tendo mais relações extraconjugais. Tenho a impressão de que a sexualidade, com o tempo, vai ser mais livre. Você vê as casas de suingue, por exemplo. O número de casais que frequenta casas de suingue é enorme! E pessoas que você nem imagina. Com o meu trabalho, minhas pesquisas, posso apontar tendências.
E quais são as outras “tendências sexuais”? 
Sexo grupal, por exemplo. O sexo vai ser mais livre, a bissexualidade também é uma tendência. Acho que ela será predominante daqui a uns 30 ou 40 anos. Porque o patriarcado está se dissolvendo. A tendência é que as pessoas busquem mais objetos de amor entre seus interesses do que entre ser homem e mulher. Outra tendência é o fim do amor romântico.
Como assim? 
O amor romântico é aquele que está nas músicas, nos filmes, aquele que diz que você vai encontrar a pessoa certa. A busca por esse tipo de amor está em baixa. Ainda bem! Por quê? Porque esse amor prega a fusão completa, ao mesmo tempo que estamos vivendo um momento em que existe uma busca clara pela individualidade, que não tem nada a ver com o egoísmo, como muitos conservadores acham. 

A grande viagem do ser humano hoje é para dentro de si mesmo. O amor romântico propõe o oposto dos anseios atuais. Claro que você vai encontrar muitas mulheres que vão largar tudo, trabalho, mestrado, por causa do homem. Mas isso está começando a sair de cena. Vai surgir outro tipo de amor.
Que tipo? 
Um amor não calcado na idealização. Acho que você vai poder se relacionar com mais de uma pessoa. E, ao sair de cena, o amor romântico está levando com ele a sua principal característica: a exclusividade.
Traição ainda é um grande tabu? 
É. E fidelidade para mim não tem nada a ver com sexualidade. A palavra traição é muito inadequada para definir uma relação sexual com outra pessoa. Traição é uma coisa muito séria. É você trair um amigo, um irmão. As pessoas falam muito a palavra traição por hábito. Prefiro chamar de exclusividade. O que as pessoas precisam é parar de fazer um pacto que não vão cumprir. 
Com o amor romântico saindo de cena, ele leva junto a exclusividade. Acredito que cada vez mais as pessoas vão optar por não se fechar em uma relação e preferir relações múltiplas. Porque essa coisa de você amar duas pessoas, três, isso acontece o tempo todo. Eu atendo pessoas nessa situação e elas sofrem muito por isso. Acho que existem muitas chances de esse poliamor predominar. Porque amor é uma construção social. As pessoas pensam que o amor é só o amor romântico, mas não é nada disso. Quando eu critico o amor romântico, tem gente que acha que sou contra o amor.
Mesmo depois da contracultura e do feminismo ainda tememos coisas como a traição. Você acha que seguimos muito caretas? 
Não acho. No meu O livro do amor descobri que há 5 mil anos, quando o sistema patriarcal se instalou, a mulher foi aprisionada. Na Idade Média, houve concílio para decidir se mulher tinha alma ou não. Até o século 19, ainda se discutia o tamanho da vara com que os homens podiam espancar a mulher. Por isso que eu acho engraçado, sabe? Uma vez me ligaram de uma revista semanal dessas e me perguntaram: “Você é feminista?”. Respondi horrorizada: “Claro, por quê? Você não é?” [risos]. Acho que não ser feminista é concordar com todos esses 
absurdos. As pessoas não entendem isso porque são ignorantes. Mas com tanta opressão, olha, acho que estamos até bem.
A religião é um outro problema para a sexualidade? 
Nossa! E como! O que houve de culpabilização do desejo sexual na Igreja durante todo esse tempo! Tanto moralismo... A Igreja fez barbaridades, como por exemplo apoiar a caça às bruxas. Esse foi um período terrível de violência contra a mulher, em que aconteceram atrocidades das mais horríveis. É importante conhecer o passado para a gente entender o presente.

A Igreja usava uma coisa chamada danação eterna para assustar as pessoas. Imagina isso! A repressão era tanta que muita gente fugia para o deserto do Egito para se mortificar, para tirar os pensamentos da cabeça e fugir dessa “danação eterna”. Essa ideia foi de profissional, né? [Risos]Imagina, danação eterna! A nossa história é um hospício. É inacreditável! 
“Sexo grupal é uma tendência, a bissexualidade também. Acho que ela será predominante daqui a uns 30 ou 40 anos”
Em um dos seus livros, você diz que é contra o cavalheirismo. Por quê? 
O conceito de cavalheirismo não serve para nada, né? O que é cavalheirismo? Que vergonha! Gentileza, sim. O homem tem que ser gentil com a mulher, a mulher com o homem. Cavalheirismo implica que a mulher é incompetente para puxar uma cadeira? Ela malha, segura 10 quilos, mas não consegue puxar uma cadeira ou abrir uma porta? Cavalheirismo é um horror! Precisamos pensar sobre isso, gente! 

A mulher deve dividir a conta do motel com o homem? Outro dia joguei essa questão para uma amiga. E ela: “Ah, divido restaurante, cinema, mas motel não”. E eu pergunto: “Motel não por quê?”. É como se a mulher quisesse os benefícios da emancipação, mas não quisesse os ônus! Então, depois não reclama que ganha menos.
O que você acha desses guias de autoajuda com regras para “conquistar” um homem? 
Acho um absurdo! As mulheres foram condicionadas a acreditar que são frágeis, que precisam de um homem para cuidar delas. Quando você chega à idade adulta, foi tão condicionada que não sabe mais se faz as coisas porque deseja ou porque te educaram para isso. Por exemplo, uma mulher vai a uma festa, está aos amassos com um cara. Ele a chama para fazer sexo e ela diz: “Não tenho vontade, não faço sexo no primeiro encontro!”. Até parece! Isso é para agradar o homem, porque se criou essa ideia de que homem não gosta de mulher que é fácil! Então, ela tem medo de que os caras não liguem no dia seguinte. Muitas mulheres ainda acreditam em príncipe encantado.
E essa ideia de príncipe, dos contos de fadas? 
Essas histórias tipo Cinderela e Branca de Neve não deviam ser lidas para as crianças. Elas incentivam as mulheres a ser o quê? O que você quer para a sua filha? Passar uma imagem subliminar de que ela só vai ser salva se aparecer um homem? O que diz a história da Cinderela? Que o pé tem que caber naquele sapatinho! Ou seja, que a mulher tem que ajustar a sua imagem aos padrões masculinos. Os contos de fadas são muito nocivos. As mães não sabem. Não pararam para pensar. Espero que menos gente conte essas histórias para seus filhos.
Você já contou para seus filhos? 
Contei porque era ignorante. Mas para a minha neta, de jeito nenhum!
O casamento tende a acabar? 
Não consigo acreditar que quem está nascendo agora vai ter, daqui a 30 ou 40 anos, casamentos do jeito que eles são hoje. Li uma pesquisa que diz que 80% dos casamentos são infelizes. Bom, infelizes no sentido de uma convivência boa, de bom relacionamento sexual, de acrescentar coisas para a pessoa. Esse modelo de casamento que está aí é um horror. 
“Fidelidade não tem nada a ver com sexualidade. A palavra traição é muito inadequada para definir uma relação sexual com outra pessoa. Traição é você trair um amigo, um irmão. Prefiro chamar de exclusividade”
Por quê? 
As pessoas precisam reformular as expectativas a respeito da vida a dois. Como todo mundo casa regido pelo amor romântico, a pessoa acha que vai ser aquilo, que o outro vai cuidar de todas as suas necessidades, e por aí vai. Mas isso não é real! As pessoas têm que ter vida própria, têm que ter liberdade de ir e vir, amigos separados, não pode haver controle da vida do outro, controle da sexualidade do outro. A exigência de exclusividade é uma obsessão.
Uma insegurança. 
Sim. As pessoas são muito inseguras. Nós nascemos do útero. No útero temos todas as nossas necessidades garantidas, mas, quando saídos de lá, somos tomados por um sentimento de desamparo. A nossa cultura prega o tempo todo que você tem que encontrar alguém que te complete. 
As pessoas passam a vida inteira procurando alguém que vá dar aquela sensação que você tinha no útero. O amor romântico se presta a isso. A criança pequena também é assim: ela sem a mãe por perto morre. Por isso, as crianças são ciumentas, possessivas. 
Quando meus filhos eram pequenos percebia isso. Se você está muito tempo no telefone, a criança dá um jeito de machucar o pé, de cair, de fazer qualquer coisa para chamar sua atenção [risos]. O adulto é capaz de lidar com seus problemas cotidianos razoavelmente bem. Ele resolve tudo, uma briga com o síndico, uma briga no trabalho. Mas é entrar em um relacionamento e mudar. Ele se torna ciumento, possessivo, controlador. Ele reedita o que fazia quando era criança.
Que conselho você dá para as mulheres que vivem com medo de perder a “exclusividade”? 
Ninguém deveria se preocupar com quem o parceiro ou a parceira transou. Dentro de um relacionamento, você só tem que responder a duas perguntas: “Me sinto amada? Me sinto desejada?”. Se a resposta para essas duas perguntas for “sim”, tudo bem. Agora, ficar se perguntando o que o seu parceiro faz quando não está com você? Ora, isso não é da sua conta!
Mas muitos jovens ainda acreditam naquele modelo da “família margarina”, não é? 
Muitos acreditam mesmo. E isso vem dos anos 50. A década de 50 era uma década de modelos. Se você saísse deles, ficava marcado. Tenho uma amiga que, quando separou, nunca mais foi convidada para as festas do prédio. Isso nos anos 80. Porque são modelos: “Você tem que ser casado, ter dois filhos, uma geladeira, uma televisão de não sei quantas polegadas”. 
Acho anacrônico quem fala hoje: “Ah, porque a sociedade não aceita isso”. Gente, a sociedade somos nós! Mas o mais importante disso tudo é: não estou propondo outro modelo. Estou propondo que não haja modelo. Se alguém quiser ficar casado 30 anos com uma pessoa e só fazer sexo com essa pessoa, tudo bem. Se quiser ficar casado com quatro, tudo bem também. O importante é não ter modelos. Os modelos aniquilam as singularidades.
Você disse em uma entrevista que usava vibrador muitas vezes quando fazia sexo com seu marido. Isso ainda choca as pessoas? 
Essa questão de vibrador tem muito tabu também. O sexo ainda é visto como algo sujo. Mas há 2 mil anos era pior. Era visto como uma coisa tão terrível que acho até um milagre que as pessoas conseguissem ter orgasmo. 
Era tanta repressão acumulada que cada orgasmo é quase um milagre e um sucesso [risos]. Outro dia estava conversando com uma psicanalista e falei de vibrador. Sabe o que ela me disse: “Eu não, não preciso desses brinquedinhos”. Virei para ela e falei: “Escuta, não é precisar de brinquedinho, é uma coisa concreta. Se você estimula duas zonas erógenas ao mesmo tempo, isso tem um efeito. Se o cara está te penetrando e você usa um vibrador no clitóris, vai ter um orgasmo melhor!”. E não tem dedinho que substitua um vibrador. 

Agora, não só as mulheres, mas os homens também têm problema com isso. Eles competem com o vibrador. Acham que, se a mulher usa, é porque ele não está dando conta. As mulheres em geral usam sozinhas, para masturbação, mas não com o parceiro.
Por que os homens temem a concorrência do vibrador? 
Na verdade, os homens são muito inseguros. São dependentes das mulheres como crianças. E isso é culpa do sistema patriarcal. O menino aprendeu a se defender da mãe muito cedo. Imagine a seguinte cena: um menino e uma menina estão brincando no play. Se a menina cai e rala o joelho, começa a gritar, pede o colo da mãe, que faz chamego na filha, fala que ela é meiga. O menino tem que engolir o choro, coitado. 
O menino passa o tempo todo negando a necessidade da mãe, e por isso começa a desvalorizar a mulher. Mais tarde, quando entra em uma relação amorosa, fica frágil. E a mulher acaba cuidando dele. Tem casos de homens que têm empresas de 10 mil empregados e não conseguem decidir a roupa! É uma loucura! Muitos são extremamente dependentes! O sistema patriarcal foi o maior inimigo dos relacionamentos. Colocou a mulher e o homem, cada um de um lado, e criou uma guerra dos sexos.
Essa guerra dos sexos cria que tipo de desencontro na cama? 
O homem vai pro sexo, inconscientemente, para provar que é macho. Então, tem que ficar de pau duro e ejacular. As preliminares ficam pra lá. Para estar no ponto, a mulher precisa de cinco vezes mais sangue irrigando os órgãos sexuais do que o homem. E também de mais tempo para ter um orgasmo. 

Já o cara, ele quer gozar logo para não perder a ereção. E fica naquele movimento igual, de ir pra frente e pra trás, que faz com que a mulher tenha cistite, mas não tenha orgasmo [risos]. Agora, a mulher aprendeu que tem que corresponder à expectativa feminina. E aí, ela finge orgasmo.
Você já afirmou que a última vez que fingiu um orgasmo foi com 20 anos... 
Sim! Eu não faço isso e ninguém devia fazer. É um absurdo! Se uma mulher fingir um orgasmo, vai ser muito difícil ela ter um. E por que ela está fazendo isso? Só para agradar o homem! Para o cara não trocar ela por outra, para segurar o homem.
Como foi educar dois filhos, um menino e uma menina, tendo esse pensamento libertário? 
Sempre denunciei para os meus filhos o moralismo. Nessa área do amor e do sexo, busquei mostrar para eles o que havia de preconceito. Lembro que uma vez fui botar meu filho para dormir e ele estava vendo um seriado em que tinha um padre que se torturava, sofria por causa do seu desejo sexual. E falei para ele: “Meu filho, isso não pode ser assim, sexo não é algo ruim, é uma coisa boa”. Sempre expliquei tudo. E meus filhos sempre dormiram com namorado em casa. Às vezes chegam pais com essa questão pra mim e falam: “Ah, porque é muito complicado...”. E eu falo: “Não é, não”.
Você acha que as coisas estão melhorando? 
Sim! Muito! A minha filha, por exemplo, teve um filho de produção independente. Ela tinha 20 anos e um namoradinho de 17. E foi maravilhoso. Assisti ao parto da minha filha e, imagina, ela nunca foi discriminada por ninguém por causa disso. Na minha geração, as mulheres eram muito discriminadas nessa situação. Aconselho homens e mulheres a questionar tudo isso e jogar o moralismo no lixo. Isso se quiserem viver melhor. Mas para isso é preciso uma coisa muito difícil: ter coragem.
Entrevista publicada no site TPM.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...