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sexta-feira, 27 de março de 2020

“Star Trek: Picard” consegue ser ainda mais abominável que “Discovery”


Série é violenta, mal feita e tem um impressionante número de furos no roteiro, sem falar da traição ao espírito das séries criada por Gene Rodenberry

- por André Lux

É simplesmente lamentável o rumo que a franquia “Star Trek” (“Jornada nas Estrelas”) tomou depois do “reboot” iniciado por J.J. Abrams no cinema em 2009. Eu até gostei desse filme, porém começou a desandar no segundo “Star Trek: Além da Escuridão” (o terceiro foi inofensivo) e desembocou na grotesca série “Star Trek: Discovery”, certamente uma das coisas mais ridículas e ofensivas já produzida por Hollywood (clique aqui para ver minha análise das duas temporadas da série).

O grande culpado por isso certamente é um tal de Alex Kurtzman, roteirista e cineasta sofrível que simplesmente destrói tudo que põe a mão. Surge então “Star Trek: Picard”, nova tentativa do Kurtzman e do estúdio CBS em continuar lucrando em cima da franquia, dessa vez sobre o grande Jean-Luc Picard, capitão da Enterprise D em “Star Trek: A Nova Geração”. Mas sinceramente não tem absolutamente nada a ver com a série que teve sete temporadas e é muito amada pelos fãs da franquia.

Confesso que não estou entre eles. Gosto da série, porém sempre achei meio tediosa e nunca me conectei satisfatoriamente com os personagens. “Star Trek” para mim continua sendo a série original com Kirk, Spock e o doutor McCoy. Todavia, “A Nova Geração” tem muitas qualidades, sendo a principal delas justamente o capitão Picard (feito pelo grande Patrick Stewart, um inglês interpretando um francês!) que era um formidável diplomata, quase sempre conseguindo resolver os problemas com uma boa conversa racional.

Infelizmente, quando “A Nova Geração” foi para o cinema, mudaram bastante a caracterização de Picard tornando-o mais brigão e heroico, dizem que por exigência do próprio ator, algo que irritou os apreciadores da série. Porém, não chega nem perto dessa aberração chamada “Star Trek: Picard” que da franquia tem apenas os nomes. Consegue ser ainda pior e mais irritante que “Discovery”, algo que ninguém imaginava possível. É impressionante o número de furos e inconsistências no roteiro e a total falta de sentido na trama como um todo. Sério, daria para escrever um livro sobre isso se analisarmos a fundo cada episódio de tão grotescos que são.

Todavia, o que mais incomoda é como pintam a Federação dos Planetas nessa realidade, especialmente os seres humanos. Nas séries originais criadas pelo grande Gene Rodenberry, a humanidade do futuro havia resolvido suas mesquinharias e aprendeu a viver pacificamente, sendo a Federação uma irmandade de seres das mais variadas espécies, voltada para a ciência e para a exploração espacial. Claro, de vez em quando as coisas esquentavam e aconteciam lutas e guerras, porém quase sempre tudo era resolvido com diplomacia, até mesmo por Kirk que adorava ter sua camisa rasgada durante uma troca de socos.

Em “Star Trek: Picard” a Federação é a grande vilã, pintada como uma organização decadente e cheia de preconceitos! Como assim? Na verdade, essa ideia vem da cabeça dos criadores da série Michael Chabon e Kurtzman que queriam levar uma mensagem contra o presidente Donald Trump e a favor das minorias e dos perseguidos aos espectadores. Até aí, nada contra, porém tudo é feito com a sutileza de um elefante com dor de dentes e acaba sendo um grande tiro no pé. A situação ficou tão ruim que vários produtores e roteiristas foram demitidos no meio das filmagens, muita coisa teve que ser alterada e várias sequências foram refilmadas de forma completamente diferente, o que resultou numa série sem pé nem cabeça, onde nem mesmo a trama principal faz o menor sentido ou tem qualquer resolução.

Por exemplo, alguém consegue explicar como e por que as duas androides gêmeas foram parar uma na Terra e outra dentro de um cubo Borg? Ou como os romulanos sabiam disso? E o que elas tem realmente a ver com o comandante Data (Brent Spiner, que aparece em pontas)? E como explicar então que os romulanos, que tiveram seu império dizimado por uma supernova (eventos que acontecem no “Star Trek” de 2009) obrigando muitos de seus membros a viverem em um planeta em condições precárias, no final aparecem com uma frota de mais de 200 poderosas naves? É tanto furo e coisas sem sentido que, como falei, daria para ficar dias falando só sobre isso.

“Picard” consegue também ser pior que “Discovery” nos aspectos técnicos, pois parece pobre, mal feita, tem uma edição péssima (alguns cortes parecem ter sido feitos por amadores), efeitos especiais fracos e um elenco formado por canastrões risíveis (a direção e o roteiro dos episódios também não os ajuda em nada), onde até Patrick Stewart está fora de forma (aos 80 anos de idade ele parece cansado e praticamente sussurra seus diálogos sem vigor). Acho que o pior personagem é o romulano ninja que parece irmão gêmeo do Elrond, o elfo de "O Senhor dos Anéis"!

Separados no nascimento: o Elfo e o Romulano Ninja

Mas, acima de tudo, a série é chata, desinteressante, repleta de cenas de violência extrema (chegam a arrancar o olho de um personagem e várias cabeças são decepadas!), palavrões e gírias típicas da nossa época. Se fosse uma série de ficção científica qualquer resultaria abaixo do medíocre, porém ao usar o nome “Star Trek” fica simplesmente abominável, principalmente quando incorpora o magnífico tema musical criado pelo mestre Jerry Goldsmith para “Star Trek: O Filme” e que depois foi escolhido como o tema principal de “A Nova Geração”.

“Picard” está sendo massacrada pela maioria dos fãs, que dizem que a franquia agora está sendo feita "por gente que não conhece Star Trek, para gente que não gosta de Star Trek". Com razão. Seria bom que os executivos da CBS os ouvissem e repensassem como vão tratar a franquia daqui para frente, porque se continuarem assim, somente os fanáticos que louvam qualquer coisa que tenha o nome de sua adoração vão continuar assistindo. O que é uma pena. Gene Rodenberry não merece isso, sinceramente...

Cotação: *

terça-feira, 24 de março de 2020

HÁ MÉTODO NA LOUCURA DE BOLSONARO


Não vi o pronunciamento do abominável, porém estou lendo as repercussões.

Ninguém duvida que Bolsoasno tem transtorno mental grave, provavelmente psicopatia, porém ele não é burro. Ao menos no que diz respeito às politicagens que o mantém no poder há tanto tempo.

Esse pronunciamento dele, por mais bisonho que possa ser, pode indicar várias coisas. Entre elas, a preparação de um golpe com apoio de sabe-se lá quem. Quanto mais a sociedade, a mídia e os outros poderes se unirem para derrubá-lo, mais forte ele fica para dar um golpe junto a quem ainda o apoia e tem poder para tanto (militares, talvez?).

Ou então ele está no limite mesmo, não aguenta mais a pressão que o cargo exige dele e resolveu chutar o balde para ser apeado do poder enquanto posa de vítima para o gado que ainda o aprova.

Difícil prever. Mas não nos enganemos que a loucura dele vem acompanhada de burrice. Não vem.

"Freud" usa o nome do pai da Psicanálise em vão


ATO FALHO

Série é uma tremenda enganação, pois não tem nada a ver com o pai da Psicanálise e o coloca no meio de uma trama cheia de conteúdos sobrenaturais, algo que Freud abominava

- por André Lux


Essa série da Netflix chamada "Freud" é uma tremenda enganação. Primeiro porque é totalmente fictícia e quase nada tem a ver com o verdadeiro pai da Psicanálise.

Segundo porque Freud nem é o protagonista, mas sim uma moça com poderes mediúnicos e que vive atormentada por sua mãe adotiva que é uma espécie de bruxa húngara. Ou seja, ladainhas sobrenaturais que Freud repudiava, afinal era ateu e cético ao extremo.

As únicas relações da série com a realidade são o uso de nomenclaturas psicanalíticas nos nomes dos episódios e quando Freud hipnotiza as pessoas, algo que sabemos ele nem gostava e logo descartou. Mas na série ele usa e abusa da ferramenta, mais parecendo um Jedi de "Star Wars" (segundo os autores, basta encostar a mão numa pessoa e ela fica instantaneamente hipnotizada!).

Não que seja ruim, a trama tem seu interesse e há personagens ricos como o oficial da polícia traumatizado pela guerra. Porém, chamar a série de "Freud" parece mesmo um grande ato falho ou então má fé pura e simples...

Cotação: **

domingo, 22 de março de 2020

O recado do Coronavírus: acabamos com o Capitalismo ou ele acaba conosco

Pandemia do vírus letal escancara a falência do sistema neoliberal e exige soluções imediatas por parte dos governos, especialmente o Federal, o qual infelizmente está hoje sob o comando de um mentecapto degenerado que não tem condições nenhuma de gerenciar uma crise como essa.

Ajudem a divulgar este meu vídeo!

terça-feira, 3 de março de 2020

DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL...

Livro confirma que Palpatine morreu e voltou como clone em "A Ascensão Skywalker"


A adaptação para livro de "Star Wars: A Ascensão Skywalker", que contém algumas cenas inéditas, confirmou que o Imperador Palpatine que aparece no filme é um clone.

O romance que será lançado no dia 17 de março conta, em trechos liberados antecipadamente, o momento que Kylo Ren chega ao planeta Exegol para confrontar Palpatine, e explica que o corpo físico do vilão era um clone.

“Todos os frascos estavam sem líquido, exceto um, que estava quase no fim. Kylo examinou de perto. Ele havia visto este aparelho antes, quando estudou as Guerras Clônicas, quando era garoto. O líquido que fluía ao pesadelo vivo em sua frente lutava uma batalha fracassada para nutrir o corpo pútrido do Imperador.”

“E o que você poderia me dar?', perguntou Kylo. O Imperador Palpatine estava vivo, após um molde, e Kylo sentia em sua alma que o corpo clonado guardava o espírito real do Imperador. Era um recipiente imperfeito, no entanto, incapaz de sustentar seu imenso poder. Não poderia durar muito.”

Então o Imperador morreu em "O Retorno de Jedi" (1983), quando Darth Vader salva Luke, mas apenas em corpo. O espírito dele foi transferido para o clone que aparece em "A Ascensão Skywalker".

Essa possibilidade já foi citada em alguns livros de Star Wars como a Transferência de Essência, uma técnica Sith que permite o espírito do usuário possuir outro corpo.

- fonte: Rolling Stone

segunda-feira, 2 de março de 2020

"Ford vs Ferrari" vai agradar até quem não tem fetiche por carros



O filme vale principalmente pelas atuações carismáticas de Matt Damon e Christian Bale

- por André Lux

Como não ligo para carros, não dei muita bola para “Ford vs Ferrari” quando foi lançado nos cinemas. Mas, depois que ganhou o Oscar de melhor Montagem, resolvi dar uma espiada. E fui surpreendido positivamente. O filme é realmente muito bom e vai interessar mesmo quem, como eu, não tem fetiche por automóveis.

O foco central do excelente roteiro baseado em fatos reais fica sobre a relação entre os personagens feitos por Matt Damon e Christian Bale. O primeiro é um ex-piloto de corridas que teve que abandonar a profissão por causa de problemas no coração e tornou-se designer de automóveis, enquanto o segundo é o seu melhor piloto de teste e corredor. A atuação de ambos é o ponto alto do filme, ambos esbanjando carisma, especialmente Bale que fica muito melhor em papeis cômicos e soltos como esse, onde pode ter arroubos de sarcasmo e explosões de raiva livremente.

A direção de James Mangold (de “Copland” e “Logan”) é muito segura e consegue um perfeito equilíbrio entre os momentos introspectivos dos personagens e a emoção das corridas. “Ford vs Ferrari” tem também ótimas direção de fotografia e montagem que nunca deixam o filme confuso ou picotado, algo realmente raro no cinema comercial estadunidense hoje em dia. A trilha musical de Marco Beltrami e Buck Sanders pontua com perfeição a ação ao mesclar batidas de rock com jazz, entrecortados por languidos solos de guitarra.


O único ponto que não gostei foi a maneira que escolheram para mostrar o destino de um dos personagens, feita de maneira distanciada e não convincente. Deveriam ter ido mais a fundo e não ter medo de buscar uma aproximação mais melodramática, afinal o arco dos protagonistas permitia isso. Mas é apenas um pequeno deslize num filme bastante divertido e dinâmico que tem 2h30 de projeção, porém parece bem menos – o que é sempre o melhor elogio.

Cotação: * * * *

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

O MUNDO PRECISA DE MAIS EMPATIA



Hoje em dia expressar tristeza, angústia, ansiedade e outros sentimentos considerados negativos parece ter quase virado um crime. Quem ousa fazê-lo é tratado com desdém ou então tem que escutar frases de efeito vazias que causam mais mal estar ainda.

Neste vídeo falo um pouco dessa triste realidade e também sobre o como parentes e amigos podem proceder caso queiram realmente auxiliar essas pessoas.

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Filmes: "Batman Begins"


BOM, NAS NEM TANTO

Dizer que “Batman Begins” é melhor que os filmes de Tim Burton e Joel Schumacher é verdade. Mas, convenhamos, não chega a ser um elogio tão impressionante.

- Por André Lux

Ainda não foi desta vez que o homem-morcego encontrou sua versão definitiva nos cinemas. Depois dos excessos cometidos contra o personagem nos histéricos filmes de Tim Burton e Joel Schumacher, a Warner resolveu apostar numa leitura mais realista e contida da saga do justiceiro de Gotham City. Para isso, chamou o diretor Christopher Nolan (dos bons “Amnésia” e “Insônia”) e investiu num roteiro supostamente menos rocambolesco e mais concentrado em humanizar os personagens e situações.

Mas, se nos filmes anteriores sobravam situações bizarras e atuações histéricas (principalmente dos vilões), em “Batman Begins” tudo é levado a sério demais, a ponto de tornar o filme quase tedioso e arrastado, especialmente na primeira parte que aborda a busca de Bruce Wayne por um “sentido na vida” – o qual ele eventualmente encontra ao juntar-se à organização Liga das Sombras, que se propõe a acabar com o crime a qualquer preço. Durante o treinamento árduo, há um excesso de frases de efeito e psicologia de almanaque proferidas pelo seu mentor, Henri Ducard (Liam Neeson, repetindo seu papel de “mestre Jedi”), que acabam sendo redundantes e poderiam ter sido cortadas sem prejuízos. Incomoda também a insistência do roteiro em pintar os milionários pais do herói como se fossem espécies de “santos imaculados”, dispostos a tudo para ajudar os pobres (a cena da morte deles, por sinal, é muito mal dirigida e apressada, não passa qualquer emoção).

Depois de uma fuga exagerada e não muito convincente do quartel general da Liga (quando o exército imbatível de ninjas é derrotado com facilidade incompatível com o que havia sido mostrado até então), Wayne volta para sua cidade natal disposto a combater o crime. Esse segundo ato, o qual mostra o protagonista dando forma ao seu alter-ego mascarado, é o que o filme tem de melhor. Graças à participação de coadjuvantes de peso, como Michael Caine (como o mordomo Alfred), Morgan Freeman (o guru em armamentos), Gary Oldman (o sargento Gordon) e Rutger Hauer, o filme fica menos pretensioso e cresce, reservando ao menos algumas tiradas mais amenas e divertidas.

Infelizmente tudo desanda no terceiro ato quando os planos dos vilões são revelados e o roteiro vira um mero festival de lutas, perseguições e explosões exageradas. O pior é que novamente não conseguiram solucionar satisfatoriamente o fato de que o Batman (diferente do “Homem-Aranha” ou do “Superman”) é apenas uma pessoa normal, que veste armadura, capacete, capa e anda cheio de badulaques e bugigangas penduradas.

Ou seja, fazê-lo correr, saltar, voar, desaparecer e lutar com incrível rapidez e agilidade simplesmente não convence e priva o filme de qualquer verossimilhança. Nos quadrinhos tudo bem, afinal é uma outra linguagem. Já no cinema fica fantástico e absurdo demais. Tanto isso é verdade que nas cenas de luta mal conseguimos ver o que está acontecendo ou quem está acertando quem, tão rápidos são os cortes na edição. Não seria melhor assumir essas características que dão "peso" ao personagem e então explorá-las de maneira mais eficiente e realista, como fizeram por exemplo no primeiro "Robocop" (que, por sinal, tinha muito de "Batman)?

O maior defeito do filme, contudo, reside no fato de que não foram capazes de criar um mundo coerente com a proposta “realista” original. O design visual é claudicante e alterna tomadas de Gotham como se fosse uma cidade normal contemporânea com outras em que prédios com visual futurista são inseridos (especialmente a sede das empresas Wayne). Os filmes de Tim Burton tinham um desenho de produção radicalmente gótico e surrealista, o que ao menos os deixavam coerentes em sua totalidade. Já “Batman Begins” não assume de vez sua veia realista, nem deixa-se dominar por uma aproximação mais radical, tornando-se por conseqüência meramente medíocre e bem menos marcante do que se esperava.

O mesmo pode-se dizer da trilha musical que, embora seja assinada pelo sempre pavoroso Hans Zimmer (desta vez dividindo a autoria com o mais competente James Newton Howard, de "O Sexto Sentido"), nunca ultrapassa o nível de mediocridade e indiferença (ao ponto de me obrigar a reconhecer que mesmo as fracas partituras de Danny Elfman para os filmes de Tim Burton eram melhores!).

Não ajuda muito também a atuação neutra do Christian Bale (de “Psicota Americano”) como o protagonista. O rapaz é bom ator, mas não tem carisma para segurar o filme e apela para truques manjados de interpretação (como falar com voz grossa e sussurrante quando vestido de Batman, praticamente repetindo o que Michael Keaton tentou fazer nos dois primeiros filmes da franquia), o que contribui ainda mais para a sensação de decepção que permeia o filme todo.

Por essas e outras, dizer que “Batman Begins” é melhor que os filmes de Tim Burton e, especialmente, os de Joel Schumacher é verdade. Mas, convenhamos, não chega a ser um elogio tão impressionante...

Cotação: * * *

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

"Tropa de Elite" ajudou a chocar ovo da serpente fascista no Brasil


RAMBO DOS POBRES

Filme endossa, ao que parece involuntariamente, a solução final que muitos representantes da “elite” anseiam ver aplicada no Brasil: um saco na cabeça e um tiro na cara para cada Rolex roubado.

- por André Lux, jornalista e crítico-spam


Nunca tinha visto um filme brasileiro capaz de gerar tantas opiniões e análises divergentes, inclusive entre quem se define “de esquerda”. 

Alguns acusam o filme de ser fascista, enquanto outros aplaudem as soluções bárbaras para o tráfico de drogas mostradas na tela.

A verdade é que as reações exacerbadas que “Tropa de Elite” vem provocando comprovam o quanto o Estado e as instituições democráticas do Brasil são frágeis e débeis. Basta alguém apontar uma câmera para lugares que ninguém quer ver e pronto: voam penas para todos os lados!

Isso ao menos é um ponto positivo, pois qualquer polêmica e debate sobre as questões abordadas no filme são sempre bem vindos, ainda mais num país onde a maioria gosta de tapar o sol com peneira ou propor soluções simplistas e violentas para tudo.

Sobre o filme em si só posso dizer uma coisa: trata-se, sim, de uma obra fascista no sentido que justifica a violência, a tortura e o desrespeito às leis por parte dos policiais do BOPE (a tal Tropa de Elite). 

Não posso afirmar que essa tenha sido a intenção do diretor José Padilha (do excelente documentário “Ônibus 174”), mas o fato é que ele cometeu erros primários na condução da narrativa e acabou transformando o famigerado capitão Nascimento numa espécie de Rambo dos pobres.




E não adianta tentar justificar que o personagem do policial é “profundo” por ser problemático ou sofrer de síndrome do pânico, pois, vale lembrar, o Rambo do Stallone também era um desajustado que tinha traumas psicológicos provocados pela guerra do Vietnã e dizia com orgulho que confiava apenas no seu facão.

Mas isso não o impedia de metralhar heroicamente os vilões malvados com frieza e requintes de crueldade em nome do imperialismo estadunidense para deleite da platéia, da mesma forma que faz o capitão Nascimento (o esforçado Wagner Moura) em nome de algo que nem chega a ficar claro no filme.

O erro básico do cineasta foi inserir uma narração em off feita pelo protagonista, que além de não acrescentar nada à trama e tratar de fatos que ele não teria como saber, tem um tom debochado e cínico que destoa completamente do suposto estado mental psicótico que o filme tenta imprimir no personagem. Por causa desse recurso infeliz o capitão Nascimento acaba por virar o “herói” incompreendido de um filme que, supostamente, queria ser ultra-realista e atirar para todos os lados da mesma forma como fez Fernando Meireles no irretocável “Cidade de Deus”.

Esse erro fica ainda mais gritante na terceira parte do roteiro, que mostra os policiais do BOPE agindo acima de qualquer lei ou comando ao partir para a vingança pessoal contra os traficantes que mataram um dos seus, lançando mão de recursos inadmissíveis com a tortura e o fuzilamento sumário. Ninguém discorda que isso ocorra no mundo real, o problema é que ações de “vale tudo” como essa provocam, na maioria das vezes, o espancamento e a morte de muitos inocentes. Mas no filme todos os personagens torturados ou mortos são bandidos confessos. Urra! Nem o Jack Bauer, torturador oficial da série "24 Horas", faria melhor!

E, convenhamos, apresentar o vilão maior do filme, lamentavelmente batizado de Baiano, usando camisa com a estampa do Che Guevara não conta pontos a favor de Padilha. Pergunto: para que serve matizar o policial torturador se não fizerem o mesmo com os traficantes, pintados sempre como sádicos conscientes da própria maldade, um dos clichês mais torpes do cinema?



Comparem, por exemplo, a diferença brutal de caracterização do Zé Pequeno de “Cidade de Deus”, que mesmo sendo ainda mais sádico que Baiano nunca é menos que humano no filme de Meireles. E, por isso mesmo, realmente assustador como retrato perfeito da realidade onde foi criado.

E, por favor, que conversa mole é aquela de que os policiais do BOPE são todos varões da moral e incorruptíveis, se fica claro no filme que eles sabem muito bem quais são os PMs corruptos? Já que sabem - e seguindo a lógica do capitão Nascimento que afirma não ver diferença entre os traficantes e aqueles que os ajudam - por que então não os prendem ou fuzilam como fazem com os favelados? Medo, omissão, corporativismo, ordens superiores? Qualquer que seja a resposta, estão sendo no mínimo coniventes com a corrupção e bandidagem dos colegas! E o filme não chega nem perto de tocar nesse nervo que, ao meu ver, é um dos mais importantes e trágicos da atualidade.

Outro ponto negativo é a maneira como Matias (André Ramiro), o policial negro, é desenvolvido. Começa bem ao ser apresentado como um homem íntegro e com consciência social, que busca obter um diploma de Direito e seguir carreira na polícia fazendo a coisa certa. Saem da boca dele as melhores linhas do filme, principalmente quando ataca a hipocrisia do discursinho moralista que representantes da classe média alta proferem em relação às drogas e à polícia. “Vocês só sabem repetir as besteiras que aprendem lendo jornalzinho, revistinha e vendo televisão”, provoca.

Abro um parêntese aqui para dizer que, infelizmente, os estudantes de classe média que interagem com Matias são extremamente caricatos e ajudam ainda mais a enfraquecer as poucas boas teses que “Tropa de Elite” defende. E o que são aquelas mocinhas lindas, arrumadinhas e bem intencionadas andando de um lado para o outro da favela, cercada por pessoas que elas sabiam serem traficantes da pesada, em nome de uma ONG dirigida por um político visivelmente picareta? Pior que isso só mesmo aquela jornalista maravilhosa e imparcialíssima perambulando pela África de shortinho no ridículo “Diamante de Sangue”!



Voltando ao Matias. O problema é que, de repente, o personagem sai do rumo e passa a agir como um clone do Darth Vader, sem qualquer resquício de humanidade, depois que seu amigo é assassinado pelos traficantes.

É sabido que, originalmente, seria ele o narrador da história, decisão que erroneamente o diretor Padilha alterou já na fase final da montagem. Dá para imaginar que, mantida a voz interior de Matias, ao menos a transformação da personalidade dele teria mais nuances e serviria também como contraponto racional à selvageria chauvinista do capitão.

Com todos esses erros e omissões cometidos pelos idealizadores, não é à toa que “Tropa de Elite” recebe aplausos de publicações ultra-fascistas como a revista Veja e o sádico capitão Nascimento vem sendo ovacionado como herói nacional, chegando ao cúmulo de ser conclamado para salvar de assaltos celebridades que ficaram ricas explorando a estupidez e a miséria humana na mídia.

Afinal, a obra do diretor Padilha endossa, ao que parece involuntariamente, a solução final que muitos representantes da “elite” tanto anseiam ver aplicada no Brasil: um saco na cabeça e um tiro na cara para cada Rolex roubado... Lamentável.

Cotação: *
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domingo, 9 de fevereiro de 2020

SOBRE O "OSCAR" E "DEMOCRACIA EM VERTIGEM"


Os prêmios da Academia de Cinema Estadunidense tem tanto valor quanto o prêmio "Carro do Ano". São apenas uma forma de marketing para a indústria cultural daquele país. Comparar filmes tão distintos entre si e escolher o "melhor" deles simplesmente não faz sentido.

Claro que existe sempre algo positivo dentro dessas premiações, por mais absurdas e injustas que sejam. Como jogar luz sobre algum filme que, sem os holofotes do Oscar, passariam em branco para a maioria das pessoas.

E é exatamente isso que a indicação vai trazer ao documentário "Democracia em Vertigem". Assim, só por isso, já estou satisfeito com o Oscar 2020.

“The Boys” apresenta super-heróis canalhas em abordagem realista, violenta e repleta de humor ácido


Série é uma boa pedida para quem está já enjoado da forma tradicional que o mundo dos super-heróis é abordado pelos quadrinhos e cinema

- por André Lux

“The Boys” é uma série baseada em história em quadrinhos do cultuado Garth Ennis que é uma espécie de antítese do que você está acostumado a ver nesse tipo de gênero. Embora não seja necessariamente original, pois não deixa de ser parecida com “Watchmen”, a obra é muito interessante e atual ao mostrar os chamados super-heróis com uma aproximação bastante realista e com um humor extremamente ácido.

Assim, o grupo de super-heróis é formado por psicopatas, estupradores, canalhas, basicamente pessoas desprezíveis que ganham superpoderes de forma misteriosa (a explicação disso será um dos grandes “plot twists” desta primeira temporada). Eles são dominados por uma grande corporação que os explora economicamente, numa perfeita parábola do sistema capitalista, onde o lucro vale mais que a vida – algo que descobrimos de forma chocante durante a ação dos heróis durante os episódios, especialmente as protagonizadas pelo “Capitão Pátria” (um assustador Antony Starr) que seria o “Superman” deste universo.

Em contrapartida, temos um rapaz que teve a namorada morta acidentalmente pelo que seria o “The Flash” deste universo o qual se junta a um caçador de recompensas feito por Karl Urban (que foi o Eomer em “O Senhor dos Anéis” e Dr. McCoy nos novos “Star Trek”) numa missão de vingança contra os super-heróis. A partir daí a série avança investindo satisfatoriamente no desenvolvimento dos personagens principais ao mesmo tempo que traz sequências de ação muito bem feitas, sendo algumas extremamente violentas.

 “The Boys” foi criada pelo trio Eric Kripke, Evan Goldberg e Seth Rogen, produzida e exibida pela Amazon, e é uma boa pedida para quem está já enjoado da forma tradicional que o mundo dos super-heróis é abordado pelos quadrinhos e cinema.

Cotação: * * * *

"Ed Wood", cinebiografia do pior cineasta do mundo, é o melhor filme do diretor Tim Burton


O REI DO TRASH

Pior diretor de todos os tempos ganha um filme excelente, feito com evidente carinho por Tim Burton (que obviamente identifica-se com o protagonista).

- por André Lux, crítico-spam

Com "Ed Wood" o diretor Tim Burton finalmente fez justiça ao seu duvidoso prestígio, alcançado muito mais pelo sucesso estrondoso do marketing investido em seus "Batman" e nos delirantes desenhos de produção de seus filmes do que por méritos dramáticos próprios.

Infelizmente, Burton tem a irritante mania de arruinar seus interessantes projetos injetando altas doses de bizarrice e histeria fora de hora, ao invés de simplesmente concentrar-se em contar uma boa história.

E é exatamente esse o mérito de "Ed Wood", biografia do que é considerado o pior diretor de cinema de todos os tempos. Sua vida por sí só já é tão bizarra e seus filmes tão histéricamente ridículos, que obrigaram Burton a voltar seus neurônios à construção de um bom roteiro e a uma direção de atores precisa - caso contrário acabaria com um filme tão ruim como os de Wood.

Ajuda também o fato de Burton ter contratado Howard Shore para escrever a trilha musical, ao invés do seu colaborador usual, o medíocre Danny Elfman (ex-Oingo Boingo). Shore compôs para "Ed Wood" uma trilha sonora discreta e sensível, mas sem esquecer de adicionar um tom cômico "fantástico", alusivo aos filmes de ficção de Wood, e outro melancólico e um pouco patético, associado à decadência de Bela Lugosi.

A recriação das cenas originais dos filmes de Wood são perfeitas e hilariantes, assim como a caracterização dos atores. Johnny Depp nunca esteve tão bem, mas quem rouba efetivamente a cena é Martin Landau (Oscar de Ator Coadjuvante), que literalmente "encarna" Lugosi.

Assim, "Ed Wood" é um filme excelente, feito com evidente carinho por Burton (que obviamente identifica-se com o protagonista), mas que vai agradar mais àqueles que conhecem os filmes hilariantes de Edward D. Wood Jr., como "Plan 9 From Outer Space" ou "Glen ou Glenda".

Sem dúvida o melhor filme de Tim Burton até hoje.

Cotação: * * * *

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Mesmo medíocre, “The Mandalorian” conseguiu a proeza de agradar até o mais empedernido fã de Star Wars


Com tanta gente talentosa envolvida no projeto, a gente fica sempre esperando algo mais elaborado, diálogos mais afiados, tramas menos simplórias, mas isso nunca acontece

- por André Lux

A Disney vem enfrentando uma série de problemas com a franquia Star Wars desde que a comprou a peso de ouro do seu criador George Lucas. Os novos filmes acabaram sendo mal recebidos por uma grande parcela dos fãs (a maioria composta por machistas e misóginos obcecados que não aceitam o fato da protagonista ser uma mulher, verdade seja dita) que passaram a vociferar seu ódio contra a corporação nas redes sociais fanaticamente.

Depois da má recepção do filme “Han Solo”, que apesar de divertido é realmente fraco, a Disney entrou numa sinuca de bico e cancelou vários projetos ligados à saga que deveriam ser exibidos em seu canal de streaming. Um deles, porém, sobreviveu: a série “The Mandalorian” (O Mandaloriano, em tradução livre), que obviamente originou-se de algo que deveria girar em torno do personagem Boba Fett, mas que devido aos problemas acabou se transformando nas aventuras de um outro mandaloriano (cujo nome só é revelado no último episódio).

Ao que parece a Disney acertou desta vez, já que a maioria dos fãs vem louvando a série e dizendo coisas como “isso sim é Star Wars!”. Um exagero, na minha opinião, pois embora tenha realmente boas qualidades, a série tem muitos problemas e besteiras que poderiam ter sido facilmente evitados. No final das contas, não passa de uma animação feita com atores de carne e osso.

A maior qualidade de “The Mandalorian” é retornar a conceitos básicos de outros filmes e gêneros inseridos nos Star Wars originais por Lucas, tais como os encontrados em faroestes e filmes japoneses de samurais. Assim, o protagonista é um caçador de recompensas, como nos Westerns, que depois cai em desgraça como um Ronin. Isso permite à série usar uma aproximação minimalista aos personagens que, embora transitem nos mundos futuristas de Star Wars, poderiam muito bem estar num saloon do velho oeste ou numa aventura no Japão feudal.

Infelizmente a série tem alguns problemas que a impedem de se tornar algo além de medíocre. O principal dele é a insistência em fazer o protagonista agir como um perfeito idiota, algo que destoa completamente da caracterização que tentam imprimir nele. Uma sequência que ilustra bem isso é quando Jawas rapinam sua nave (ela não tem proteção, alarme, escudo?) e a subsequente perseguição que ele faz ao Sandcrawler, escalando-o sem nenhuma proteção só para ser abatido e jogado pra fora quando chega ao topo. Por sinal, só essa queda já seria fatal, numa das muitas ocasiões que o Mandaloriano exibe qualidades de Highlander.

A trama principal gira em torno do resgate de um item valioso para ex-oficiais do Império (a série se passa depois dos eventos vistos em “O Retorno de Jedi”) que todos já sabem ser um "bebê Yoda". Não se sabe ainda se é um clone dele ou somente outro ser da mesma raça do antigo Jedi. E nas ações desse personagem percebemos claramente o caráter misógino e machista dos ataques de muitos fãs à nova trilogia feita pela Disney.

Ao mesmo tempo que chamam Rey de “Mary Sue” (adjetivo pejorativo usado contra mulheres que exibem poderes, conhecimento e força supostamente incompatíveis com o personagem) quando ela usa a força mesmo sem treinamento, não vemos ninguém dizendo o mesmo quando o “bebê Yoda” faz igual! Lamentável.

Misoginia dos fãs: "bebe Yoda" está liberado para usar a força sem treinamento, mas a Rey não!

Outro ponto baixo da série é a péssima música composta por Ludwig Goransson, um compositor talentoso que escreveu boas partituras para filmes como “Pantera Negra” e “Creed”, mas que aqui certamente foi obrigado a tentar imitar a paleta musical criada por Ennio Morricone para os faroestes italianos, algo que simplesmente não funciona no contexto de “The Mandalorian”. O tema principal associado ao lado mais aventureiro do personagem também é muito ruim e por demais parecido com o que Goransson criou para “Creed”, que já era algo derivado do que Bill Conti compôs para os “Rocky” originais.

“The Mandalorian” foi criada pelo ator, roteirista e diretor Jon Favreu (de “Homem de Ferro”) e  dividida em oito episódios de pouco mais de 40 minutos. A série se perde muito quando se distancia da trama principal, tendo alguns episódios muito fracos (o pior é o que treinam fazendeiros para enfrentar mercenários que usam um antigo andador AT-ST imperial, um dos clichês mais batidos do gênero). Irrita também o fato de o protagonista deixar o “bebê Yoda” toda hora sozinho na nave ou em outro lugar sem qualquer proteção, só para gerar suspense.

Os melhores episódios acabam sendo os dois últimos, quando finalmente começa a ser resolvida a trama central. Mas mesmo assim, muitas besteiras acontecem, especialmente quando dois stormtroopers conseguem capturar a preciosa recompensa, mas simplesmente param na entrada da cidade de maneira absurda só para serem atacados, e na cena em que o temido ex-oficial imperial tem os protagonistas totalmente cercados, mas resolve dar a eles várias horas para resolverem se entregar.

O protagonista é feito pelo ator Pedro Pascal, de “Game of Thrones”, embora poderia ser qualquer um, pois ele passa a série toda usando o capacete mandaloriano e só é visto por alguns instantes no último episódio (e sua cara de gaiato não combina com o personagem). O resto do elenco é bastante irregular e nenhum dos outros coadjuvantes chega a marcar.

Com tanta gente talentosa envolvida no projeto e o valor gasto em cada episódio a gente fica sempre esperando algo mais elaborado, diálogos mais afiados, tramas menos simplórias, mas isso nunca acontece de forma satisfatória. Agora resta aguardar a próxima temporada e torcer para que o nível melhore, já que a série tem feito bastante sucesso entre os fãs de Star Wars – um verdadeiro milagre!

Cotação: * * *

"1917" derrapa no excesso de pretensão do diretor Sam Mendes



TECNICAMENTE BRILHANTE, DRAMATICAMENTE NULO

Filme é raso e pouco emocionalmente, uma vez que tudo é investido no embonecamento das tomadas e nada no desenvolvimento dos personagens

- por André Lux

Quem acompanha minhas críticas sabe que não sou apreciador do diretor Sam Mendes, o qual considero por demais pretensioso e chato. Entra este “1917”, passado na Primeira Guerra Mundial cujo roteiro foi escrito pelo próprio Mendes e um parceiro, supostamente baseado nas memórias do avô dele.

O filme, como sempre no caso do cineasta, está sendo louvado pela maioria dos críticos e recebeu uma penca de indicações ao Oscar – prêmio máximo da indústria cultural estadunidense. Muitos estão dizendo que deve ser o melhor filme sobre esta guerra já feito. Mas não é mesmo. Até mesmo o claudicante “O Resgate do Soldado Ryan”, que conta uma história similar na II Guerra, dá de dez a zero.

Fui assistir ao filme sem preconceitos, curioso para ver o resultado final, uma vez que o grande “truque” de “1917” é parecer ter sido filmado em uma única longa sequência, algo obviamente impossível de ser feito e que para convencer precisa de uma série de recursos visuais usados para esconder as emendas entre os cortes.

Mas nem isso é novidade, sendo que o primeiro a usar tal recurso foi Alfred Hitchcock, em 1948, em seu longa “Festim Diabólico”. Outros filmes recentes como “Birdman”, do igualmente pretensioso Alejandro Iñárritu, também apelaram para este recurso. O problema é que não há lógica alguma em se filmar dessa maneira, exceto talvez naqueles filmes de terror que usam a premissa da “filmagem encontrada”, e isso serve apenas como algo cosmético, feito para a plateia ficar se perguntando “nossa, como filmaram isso?”, algo que tira o foco da narrativa e a transfere para o diretor, obviamente alguém apaixonado pelo próprio umbigo.

Vários cineastas muito melhores que Mendes, como Brian de Palma, filmavam de maneira convencional, mas inseriam uma ou duas tomadas longas sem cortes em momentos vitais, o que servia para engrandecer a narrativa, sem nunca tirar o foco da história contada. Um excelente exemplo disso pode ser visto no maravilho “Desejo e Reparação”, na cena que mostra a chegada dos soldados à desolada praia de Dunkirk, na França, durante a segunda guerra mundial: são mais de cinco minutos de um plano-sequência sem cortes, onde uma multidão de pessoas é movimentada com precisão, trazendo resultados arrebatadores.

Em “1917” a tentativa de fazer tudo parecer um único plano sequência funciona bem em alguns momentos, como na cena em que um soldado morre depois de ser esfaqueado, mas na maior parte do tempo acaba se tornando uma experiência modorrenta, pois nunca vemos direito o que está acontecendo e o constante movimento da câmera seguindo os personagens ou girando em volta deles causa uma sensação de alienação e distanciamento, justamente o oposto do que os realizadores queriam transmitir.

Do ponto de vista puramente técnico, “1917” realmente impressiona, afinal sabemos como é difícil a logística de produção para filmar essas longas sequências-plano sem cortes, algo que certamente deu muita dor de cabeça para o premiado fotógrafo Roger Deakins e para todos os envolvidos na produção do longa.


Mas, tirando o aspecto técnico, o filme acaba sendo raso e pouco emocionalmente – nem mesmo as sequências que deveriam trazer suspense funcionam, uma vez que tudo é investido no embonecamento das tomadas e nada no desenvolvimento dos personagens, suas motivações e sentimentos. A trilha musical de Thomas Newman, colaborador habitual do cineasta, também é fraca – às vezes soa apenas como um zumbido, outras apela para clichés melodramáticos batidos.

Como um registro acurado do que foi a Primeira Guerra Mundial “1917” até funciona, porém como experiência cinematográfica é uma decepção. Nem mesmo como um filme anti-guerra chega a funcionar, pelo contrário, comete o pecado de muitos outros do gênero que se perdem enaltecendo bobagens como patriotismo e heroísmos dignos de filmes de super-heróis, enquanto pinta os soldados alemães como caricaturas sanguinárias. Novamente, é muito barulho por nada.

Cotação: * * 1/2

sábado, 25 de janeiro de 2020

“Parasita” tenta pregar contra o capitalismo, porém reforça preconceitos contra os pobres

O problema é que, enquanto pinta com tintas realistas os personagens menos abastados, esquece de fazer o mesmo com os ricos



- por André Lux

“Parasita”, o novo filme do diretor sul-coreano Bong Joon-ho (de "O Hospedeiro", “Okja” e “Expresso do Amanhã”), vem recebendo os mais altos louros da crítica, ao ponto de ter sido indicado a vários Oscars (inclusive Melhor Filme e Melhor Filme Estrangeiro!).

Confesso que não fiquei assim tão maravilhado. Obviamente acho louvável a tentativa do cineasta em, novamente, denunciar os males do sistema capitalista que separa os seres humanos em castas onde os mais pobres vivem amontoados em cubículos lutando para sobreviver, enquanto os ricos moram em mansões gigantescas em suas vidas fúteis e vazias. Essa, por sinal, é a mesma premissa da ficção científica “Expresso do Amanhã” que mostrava essa divisão de forma alegórica num futuro distópico situado dentro de um trem.

O problema básico de “Parasita” é que, enquanto pinta com tintas realistas a rotina e a psiquê dos personagens pobres, esquece de fazer o mesmo com os ricos. Assim, a família de Kim Ki-taek (o ótimo Song Kang Ho) faz de tudo para continuar sobrevivendo, incluindo aí roubar wi-fi dos vizinhos e aplicar golpes para conseguir trabalhos, construção que deixa os personagens bastante humanos e críveis. Todavia, o núcleo familiar dos ricos vai na contramão, mostrando pessoas que parecem apenas ingênuas, honestas e bem intencionadas, sendo as únicas características negativas deles um leve preconceito (expresso principalmente nas reclamações do patriarca sobre o cheiro ruim dos pobres) e a alienação.

Para que a crítica social almejada pelo diretor realmente funcionasse, ao ponto de atingir e conscientizar justamente aqueles a quem ela é dirigida (as classe mais ricas), a família abastada teria que ser apresentada com as mesmas tintas realistas que os mais pobres, ou seja, com nuances de caracterização que os fizessem menos caricatos. Poderia, por exemplo, apresentar o patriarca como uma pessoa corrupta, sem escrúpulos, e sua esposa como alguém racista.

Do jeito que ficou, o filme acaba manco e reforça os preconceitos contra as classes mais pobres que Bong Joon-ho tanto gostaria de combater, justamente de que são pessoas capazes de fazer qualquer coisa para melhorar de vida, inclusive mentir e até matar, enquanto os ricos são trabalhadores meritocráticos, ingênuos e bem intencionados.

“Parasita” tem cenas muito boas, um humor ácido afiado, movimentos de câmera primorosos e excelente atuações, porém o que pesa mais é a tentativa de “conscientizar” o espectador acerca da mensagem embutida no roteiro e, devido às falhas apontadas acima, acaba falhando justamente em sua maior pretensão. Uma pena.

Cotação: * * *


quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

"The Witcher" é uma série confusa, repleta de clichês e atuações constrangedoras


As peças de marketing criaram grandes expectativas em torno da série "The Witcher", da Netflix, que é baseada em livros e videogames. Alguns disseram que era até melhor que "Game of Thrones". Mas não é nada disso e não chega nem aos pés de GOT.

O maior problema é o roteiro confuso, cheio de idas e vindas (se passa em vários tempos diferentes, porém nada é muito marcante ao ponto da gente não perceber realmente onde a ação está) e francamente desinteressante.

O excesso de clichês do gênero também incomoda bastante. Quantas vezes o protagonista era chamado para uma missão, recusava, só para dai ser convencido após um discurso eloquente? Haja paciência!

Se não bastasse isso, conta com um elenco fraquíssimo, com destaque para o canastrão máximo Henry Cavill (que foi o Superman no grotesco "Homem de Aço) que é incapaz de demonstrar qualquer emoção.

No máximo franze a testa com cara de enfezado ou dá um sorrisinho amarelo quando tenta ser irônico. A voz dele então, que deveria ser pesada e gutural, soa como se estivesse com prisão de ventre. Uma atuação do nível de fãs fazendo cosplay, ainda mais com aquela peruca branca ridícula que o obrigaram a usar.

Talvez quem nunca tenha visto algo do gênero espada e bruxaria possa até se envolver e gostar. Para o resto será uma experiência tediosa.