quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Filmes: "007 Contra Spectre"

AOS TRANCOS E BARRANCOS

Daniel Craig nem disfarça o tédio com o novo filme e desfila com a mesma cara aborrecida até o final, que chega a ser patético

- por André Lux, crítico-spam

Eu não achei nada inteligente terem colocado o feioso Daniel Craig no papel do agente secreto James Bond, mas até que gostei do primeiro filme com ele, “Cassino Royale”, e o sujeito é bom ator e consegue convencer, mesmo não tendo pinta de galã (chega a lembrar o Didi Mocó, dos “Trapalhões”).

Mas a fórmula que usaram para impulsionar os novos filmes do 007, tentando humanizar o personagem e deixá-lo mais realista e emotivo, já começou a dar água no segundo capítulo, “Quantum of Solace”, e chegou ao fim com o superestimado “Skyfall”. Até porque não tinha nada de novo nessa aproximação, já que apenas imitaram o que foi usado com sucesso na saga “Jason Bourne”, com Matt Damon.

Nesse quarto filme, “Spectre”, tentam amarrar as pontas soltas deixadas pelos três filmes anteriores inventando que todos os vilões previamente derrotados por Bond faziam parte de uma única organização, cujo chefão tem algum laço afetivo como o agente britânico – invenções do roteiro que, sinceramente, não fazem o menor sentido e beiram o ridículo.

Assim, o novo filme funciona aos trancos e barrancos enquanto Bond procura pistas vagas e sem muito nexo para descobrir quem está por trás da tal organização, novamente suspenso do serviço por um Ralph Fiennes, como M, que passa o filme todo com cara de quem sofre de prisão de ventre. Todavia, as conexões com os filmes anteriores soam forçadas e qualquer um já percebe de cara que o novo chefe do serviço secreto da Inglaterra está mal intencionado, até porque o ator que escalaram, um tal de Andrew Scott (que também ajudou a estragar “Victor Frankenstein”) é péssimo e só sabe fazer caras e bocas.

No final, o vilão máximo não passa de um total idiota, que perde seu tempo enfiando umas agulhas na cabeça de Bond ao invés de simplesmente matá-lo. Claro que ele foge e o vilão ainda tem mais uma chance de acabar com a vida dele, mas prefere brincar de esconde-esconde enquanto uma bomba está para explodir. Nos filmes antigos do 007 esse tipo de besteira era plenamente justificável, pois o tom era de deboche e fantasia, oposto do que se tenta aqui. O filme se dá ao luxo de desperdiçar Christoph Waltz num papel tolo e sem qualquer expressão.

Assim como em “Skyfall”, Bond demonstra ser um total incompetente já na primeira cena, quando deixa os vilões vê-lo pela janela, provoca um desmoronamento e quase mata o povo que estava celebrando o Dia dos Mortos no México enquanto luta dentro de um helicóptero. Depois faz outras bobagens imperdoáveis, como deixar o capanga do vilão vivo depois de um acidente, e no final, a mocinha sair andando sozinha pela rua.

Daniel Craig nem disfarça o tédio com o novo filme e desfila com a mesma cara aborrecida até o final, que chega a ser patético. Vai me dizer que James Bond iria abandonar tudo por uma mulher sem graça e chata como aquela que ele acabou de conhecer, feita pela sempre inexpressiva Léa Seydoux? Se ainda fosse pela bela Monica Bellucci, que ele transa no meio do filme com direito a cinta-liga e tudo, até daria para engolir!


Ciò è un bel pezzo di donna, mio caro James Bond!
Pra mim o maior erro foi terem chamado para dirigir os dois últimos filmes o pretensioso Sam Mendes (de “Beleza Americana”), um cineasta sempre encantado com o próprio umbigo que valoriza forma sobre substância e não sabe filmar cenas de ação, deixando tudo bonito e luxuoso, mas sem qualquer emoção. Se não bastasse isso, fotografaram tudo num tom amarelo-pastel horrível, deixando “Spectre” com jeito daqueles pseudo-filmes de arte bem modorrentos.

Se não bastasse tudo isso, o filme não tem qualquer humor, o que é fatal para um filme de James Bond, e os personagens secundários, como Q e Moneypenny, não tem o que fazer a não ser ficar andando de um lado para o outro com cara de assustados. A única coisa boa, além da produção requintada e das locações bonitas, é a defesa que fazem da democracia e a condenação do uso indiscriminado de vigilância que acaba com a privacidade das pessoas e só serve para deixar o mundo ainda mais refém do medo e do terrorismo. Isso deixa o filme com ar "de esquerda", assim como também aconteceu com "Quantum of Solace" e por causa disso ganha uma estrelinha a mais na minha cotação!

Tomara mesmo que esse seja o último dessa saga com Daniel Craig. Já estão dizendo que o próximo James Bond pode ser interpretado por um negro. Sinceramente, qualquer coisa é melhor do que essas besteiras que obrigaram o personagem a viver.

Cotação: **

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Filmes: "Creed"

CONTINUAÇÃ-DERIVAÇÃO

Não tem a mesma emoção catártica dos primeiros “Rocky”, mas mostra o boxe com tintas mais realistas e é muito bem dirigido, roteirizado e fotografado

- por André Lux, crítico-spam

"Creed" é uma espécie de continuação-derivação da franquia "Rocky", que começou em 1976 e levou ao estrelato o simpático canastrão Sylvester Stallone, que aqui retorna como coadjuvante, já que o protagonista é o rapaz que dá título ao filme, Adonis, filho bastardo do ex-campeão Apollo Creed, o adversário de Rocky nos dois primeiros filmes que vira seu treinador no terceiro e morre no quarto.

O grande mérito do primeiro "Rocky" foi ressuscitar o velho "sonho americano", que estava em franca decadência naquela época e prega que qualquer um pode chegar lá no topo, bastando se esforçar muito para isso. Hoje em dia chamam a essa ladainha de "meritocracia" e coisas do gênero, mas o princípio é sempre o mesmo. Assim, o "Garanhão Italiano" realizava o sonho da maioria dos espectadores ao vencer na vida e ser reconhecido, algo que acontece apenas esporadicamente no mundo real e serve só para confirmar o quanto essa filosofia de vida é puro papo-furado.

Depois de seis continuações progressivamente piores (no quarto episódio Rocky transforma-se no Rambo dos ringues e derrota os malvados comunistas na base do soco), Stallone resolveu dar adeus ao personagem em "Rocky Balboa", que deveria ser um retorno às origens, mas acabou sendo um espetáculo um pouco deprimente (leia aqui minha crítica).

Surge então esse "Creed", que para surpresa geral acaba sendo um bom filme, principalmente devido aos aspectos técnicos da produção, que se esmera em filmar as lutas com um grau de realismo bem diferente do que os outros filmes da saga mostravam. A primeira luta mais importante, por exemplo, é filmada toda em um único plano-sequência sem cortes com excelente resultado, certamente algo muito difícil de ser feito.

O roteiro busca distanciar o protagonista, feito pelo competente Michael B. Jordan, do clichê do "pobre menino que quer vencer na vida", já que ele foi resgatado do reformatório bem jovem pela ex-mulher de Apollo e teve uma vida cheia de conforto, ao ponto de se dar ao luxo de largar um emprego bem remunerado em um grande escritório para correr atrás do seu sonho de virar lutador, como o pai.

Essa aproximação acaba funcionando com uma faca de dois gumes, pois deixa o filme mais realista e bem menos açucarado, mas acaba impedindo momentos de maior catarse quando chega ao clímax, que é justamente o que busca quem curte esse tipo de filme. Fica tudo num meio termo que se não chega a ofender a inteligência, também não empolga como os outros capítulos, afinal o protagonista se comporta muito mais como um menino mimado enfezado do que alguém que tem o “olho do tigre”, como o Rocky original.

Claro que a luta final entre o rapaz e o campeão mundial é totalmente fantasiosa, já que um estreante como ele não aguentaria mais do que dois rounds contra um oponente experiente como aquele e seria derrotado psicologicamente de cara pelo próprio peso do evento. Poderiam ter tentando ao menos deixar tudo mais verossímil, mostrando Adonis disputando mais lutas até chegar ao confronto com o campeão, como fizeram corretamente no primeiro “Rocky”.

A melhor coisa do filme acaba sendo a presença de Stallone, que atua como treinador do rapaz e tem as melhores falas do filme, misturando aquelas velhas frases de superação do gênero com tiradas de auto-gozação impagáveis contra a personalidade de bobo-bonzinho de Rocky. O roteiro investe um bom tempo no desenvolvimento do relacionamento entre os dois e é bem eficaz em traçar um paralelo entre a luta do filho de Apollo para ser reconhecido e de Rocky contra uma doença que pode ser fatal.

Outro ponto positivo é a trilha musical composta pelo jovem sueco Ludwig Goransson que sabe ser intimista e grandiloquente na medida certa, incorporando os temas originais compostos por Bill Conti aos temas novos que criou para o novo filme.

Enfim, para quem gosta do gênero “Creed” é uma boa pedida. Não tem o mesmo nível de emoção catártica dos primeiros “Rocky”, mas mostra o boxe com tintas mais realistas e é muito bem dirigido, roteirizado e fotografado, coisa cada vez mais rara no cinema comercial estadunidense. E, curiosamente, esse é o primeiro filme da franquia que não tem qualquer participação de Stallone por trás das câmeras.

Cotação: * * * 1/2

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Entrevista com Márcia Tiburi sobre “Como Conversar com um Fascista”



- por Nathali Macedo

Márcia Tiburi é a representação da mulher da Nova Era. Filósofa, artista plástica e escritora brasileira, é autora do livro Como conversar com um fascista, na lista dos mais vendidos de 2015.

Nenhum jargão pomposo, nenhum academicismo inútil, nenhum resquício da ideia de que a filosofia não pode empoderar aos leigos; Márcia confere à sua filosofia uma simplicidade que a torna genial.

Simpática e direta, ela me respondeu algumas perguntas sobre política, mídia e, é claro, a sua última publicação literária.

1. Como surgiu a inspiração para “Como conversar com um fascista?

A mentalidade autoritária que está na origem dos fascismos históricos sempre fez parte dos meus estudos, das aulas de filosofia, dos trabalhos acadêmicos em geral. Há bastante tempo que venho observando o afeto básico do autoritarismo, a saber, o ódio, como fenômeno social em nível cotidiano. Aquilo que os pensadores frankfurtianos, tais como Theodor Adorno, chamavam de “personalidade autoritária”, o “fascista em potencial”, erguia-se sobre o ódio.

A questão do autoritarismo perturba a todos aqueles que tem um senso de respeito ao outro e de responsabilidade com a sociedade democrática e os direitos fundamentais. O fascismo é o ódio ao outro – nas variadas formas de negação, repressão, recalque, esquecimento, preconceito, agressão, violência simbólica e física – transformado em norma política.

Na verdade, essa norma deforma a política e gera uma espécie de fenômeno paradoxal, a antipolítica. As pessoas vivem a política hoje em dia num clima antipolítico que é justamente gerado pelo ódio. Mas o ódio não é um afeto natural. Ele é produzido e fomentado. Ele é incentivado sobretudo pelos meios de comunicação que poderiam incentivar outros afetos, como, por exemplo, o amor. Não o fazem por que o “amor”, como afeto produtor de relações positivas e criativas, neste momento, não seria tão útil para os fins do jogo de interesses econômicos e políticos em vigência, ao qual damos o nome de capitalismo.

Escrevi esse livro a partir dessa percepção do avanço tanto dos gestos e atitudes de negação do outro quanto do medo à liberdade nos últimos tempos, justamente quando a crença geral era de que o Brasil estava para vivenciar uma espécie de renovação na sua cultura política.

2. “Como conversar com um fascista” foi aclamado pela crítica, mas houve também algumas análises negativas – talvez por parte dos próprios fascistas. Como você lida com isso? Costuma ler os comentários dos internautas?

Alguns gostam do livro, outros, como é natural, nem tanto. Fico feliz em saber que as pessoas estão lendo o livro, preocupadas ou, ao menos, interessadas com os temas desenvolvidos. Mas, o que chama atenção é o ódio que o livro desperta.

Algumas pessoas dirigem esse ódio contra mim, outros ao meu livro. Mas essas expressões de ódio não se constituem em análises do livro, trata-se apenas de xingamentos. Como qualquer xingamento, são coisas muito toscas e seu objetivo deve ser apenas a manutenção do ódio pela gritaria.

Mas quem lê um desses comentários lê todos, até porque reproduzem nessas “análises” os mesmos chavões vazios de significado que direcionam a tudo o que percebem como “progressista”, então, não se pode levar a sério. Nada mais do que a “gritaria” que o livro critica. Infelizmente, a grande maioria que age assim, não leu o livro. Essas pessoas se identificam com o “fascista” do título e simplesmente passam a odiar o livro. É terrível ver que pessoas que não leram o meu livro, o odeiam de antemão, não pelo livro, pois esse é o seu assunto e o seu sentido também está em denunciar esses afetos, mas porque odiar, para essas pessoas, é uma condição existencial, seu jeito de estar no mundo.

3. Não raro, o discurso de ódio – especialmente o discuso fascista – tem tomado o espaço das discussões políticas sadias no Brasil. A que você atribui isto? Há uma solução para a desconstrução desse hábito moderno?

Mais que um hábito, é um procedimento bem antigo. O poder nas suas diversas formas sempre se valeu do ódio, assim como se vale de diversos afetos. Lembremos de Maquiavel falando do amor e do medo ao príncipe. No entanto, não podemos colocar a culpa do que estamos experimentando politicamente no Brasil atual no ódio que é um afeto muito mais complexo e merece ser mais estudado.

O que precisamos analisar hoje é o uso do ódio para os fins do poder econômico. Como produzimos ódio? Como os detentores do poder econômico e do poder político manipulam o ódio? Como manipulam outros afetos? O ódio atual é o ódio útil. Ele serve para estimular o povo e assim usá-lo. Pense-se, por exemplo, no ódio estimulado pela “Bancada da bala” no Congresso Nacional, que faz com que direitos fundamentais sejam afastados em nome de promessas descumpridas de segurança.

Pense-se, também, no ódio promovido por extremistas religiosos a impedir que questões como o aborto sejam tratadas racionalmente. E usam esse ódio para quê? Como elemento estratégico a contribuir na realizaçao de projetos políticos. Sem o ódio não se poderia investir na orquestração de golpes contra a democracia. Isso ocorreu no Brasil em 1964, isso ocorre atualmente.

4. Há quem diga que a grande mídia – especialmente as grandes emissoras de TV – estão em franco declínio no Brasil, em decorrência da ascensão das WebTV’s e, principalmente, do levante popular contra a alienação midiática. Você concorda com isso? Como enxerga o futuro da televisão brasileira?

Quando a televisão surgiu levantou-se a ideia de que o cinema pudesse ser superado. Isso não aconteceu. Do mesmo modo que o livro digital não eliminou o livro de papel. Verdade que o códice eliminou o livro na forma de rolo. E o papel superou o pergaminho. Mas isso quer dizer apenas que, a prazos diversos, todas as tecnologias tendem a ser superadas. Quem ainda usa telefone com fio? Quem usa televisão sem controle remoto?

Com isso quero dizer que algo que é próprio da televisão será em grande medida superada. Não apenas tecnologicamente falando, mas também essa televisão aberta e hegemônica que é um órgão, um braço do poder.

Quando escrevi Olho de Vidro – A televisão e o estado de exceção da imagem (Record, 2011) eu sugeri que a televisão não é apenas um sistema empresarial-midiático, mas também um “campo”. A televisão é um registro estético e de conhecimento, mesmo que seja usada para promover a ignorância, o que ela não faz sem intenções políticas específicas. Assim podemos falar que as telas controlam e definem nossa relação com o conhecimento. E que o campo do “televisivo” ocupa nossas vidas de um modo absoluto.

O televisivo é um regime no qual estamos inseridos como seres controlados por mensagens e imagens na forma de mercadorias que estamos condenados a ver e que, por isso, orientam nossas vidas.

Tendo isso em vista, há muitas questões em jogo, éticas e estéticas, epistemológicas, sociais e políticas a serem pensadas.

Contudo, é certo que a historia da televisão está intimamente conectada à história da democracia atual e, neste sentido, é válido entender o que fizemos em termos de televisão e em termos de democracia até aqui para traçar uma perspectiva para o futuro.

Creio que a televisão hegemônica tende a perder seu espaço cada vez mais, do mesmo modo que o grande poder vem perdendo espaço para o poder exercido pelas minorias que é, na verdade, uma desconstrução do poder.

Verdade que, nessas horas em que se incrementam as práticas democráticas, o poder autoritário fica ainda mais autoritário por medo de perder seu espaço. Num futuro melhor, as pessoas criariam o seu próprio poder e a sua própria televisão. Tomar a televisão, ocupar seus espaços como fazemos hoje com a internet e o YouTube, Vimeo, etc. é o caminho da democracia.



Ennio Morricone ganha o Globo de Ouro por "Os Oito Odiados"


Sensacional o discurso do Tarantino pelo prêmio ao mestre Ennio Morricone por sua partitura para "Os Oito Odiados"! Falou tudo que precisava ser falado!

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Minha participação no Acesso Geral falando sobre Star Wars

Filmes: "Os Oito Odiosos"

TARANTINO DOS BONS

Estranhamente, não vem agradando da mesma forma que os filmes anteriores do diretor, algo que demonstra a dificuldade que muitos tem de reconhecer uma obra de arte de qualidade

- por André Lux, crítico-spam


Seis filmes depois do revolucionário “Pulp Fiction”, o diretor e roteirista Quentin Tarantino finalmente volta a acertar o alvo com “Os Oito Odiados” (a tradução correta deveria ser “Os Oito Odiosos”), uma homenagem-paródia aos lendários spaguethi-westerns italianos, cujo maior autor foi o grande Sergio Leone.

Quem acompanha minhas críticas sabe bem que não entro nessa onda de ficar babando o ovo de qualquer cineasta só porque ele fez um grande filme e aí todo mundo, especialmente muitos críticos, sentem-se obrigados a rasgar elogios para qualquer coisa que lançam depois, correndo o risco, caso não emitam uma opinião positiva, de serem chamados de burros ou outros adjetivos ainda menos cordiais.

Assim, apesar de considerar “Pulp Fiction” um dos meus 20 filmes favoritos, não entrei no vagão que louvou todos os outros filmes que Tarantino produziu depois. Por isso sinto-me bem à vontade para dizer que “Os Oito Odiados” é seu melhor filme desde “Pulp Fiction” e tão bom quanto. Tudo que o cineasta tentou imprimir em seus outros filme está presente aqui, só que de forma primorosa. Os diálogos afiados, o humor (muito) negro, a porrada no racismo e, claro, a violência exagerada que são suas marcas registradas, porém poucas vezes atingidas com o sucesso aqui alcançado.

O filme tem mais de três horas de duração, mas parece que não dura nem uma hora (e olha que já vi duas vezes e a sensação é a mesma), o que é sempre um grande elogio. Tarantino é um dos últimos diretores de cinema no sentido literal do termo, do tipo que sabe construir clima, usar pausas e lapidar os enquadramentos de forma artística. Mas com a exceção de “Pulp Ficton”, “Cães de Aluguel” e agora em “Os Oito Odiados”, desperdiçou tudo isso nos seus filmes subsequentes em favor de um egocentrismo e uma pretensão desmedida que acabaram deixando de lado a estória em favor dos maneirismos do cineasta, fatores que só servem para diluir o impacto das cenas e alongar a projeção desnecessariamente, como aconteceu em “Bastardos Inglórios” e “Django Livre”, principalmente.

Esse oitavo longa de Tarantino traz pela primeira vez uma trilha musical original composta por ninguém menos do que o grande Ennio Morricone, um dos maiores gênios da música para o cinema de todos os tempos, de quem o cineasta é admirador confesso e sempre usou faixas de suas trilhas antigas em seus filmes, algo que nem sempre funciona e muitas vezes tem efeito contrário ao desejado. Morricone escreveu sua nova partitura diretamente para o roteiro, muito tempo antes do filme ficar pronto (como era comum nas obras de Leone) e Tarantino editou o filme sobre a música (normalmente o processo é o oposto desse). Isso dá a “Os Oito Odiados” uma outra dimensão, pois a música tem papel fundamental no desenrolar da trama e o filme respira em cima dos tempos compostos por Morricone. 



Uma curiosidade sobre a música é que, além de algumas canções anacrônicas usadas no filme como é comum na obra de Tarantino, algumas faixas rejeitadas da trilha sonora de “O Enigma de Outro Mundo”, do próprio Morricone, foram usadas em “Os Oito Odiados” de forma extremamente marcante. O que não deixa de ser muito interessante, pois o longa de John Carpenter tem muita relação com o novo filme do Tarantino, já que ambos se passam dentro de um local isolado no meio da neve onde o clima de paranoia e falsas identidades é a mola que impulsiona as tramas. Além, é claro, de serem ambos estrelados por Kurt Russel, sempre carismático.

Falar do elenco de “Os Oitos Odiados” é chover no molhado. Tarantino é sem dúvida um excelente diretor de atores e aqui isso fica mais do que evidente, onde todos estão ótimos em seus papeis, especialmente Samuel L. Jackson, que rouba o filme como sempre, sem nunca se repetir. Até o pouco conhecido Walton Goggins, como o suposto xerife de Red Rock, convence plenamente e a sempre excêntrica Jennifer Jason Leigh vira o diabo em pessoa quando o roteiro assim pede.



É impressionante também como Tarantino muda o tom do filme de uma sequência para outra sem perder o fio da meada. Durante todas as cenas entre os odiosos do título, o clima é de humor negro, com a violência explodindo de tempos em tempos e o sangue jorrando em profusão como efeitos sempre cômicos (a cena em que vomitam sangue me fez rir muito, parecia coisa do Monty Phyton!). Mas, quando os atos de violência atingem pessoas “inocentes”, o clima é de puro horror e cada bala que fura o corpo de um dos personagens parece atingir a plateia de forma brutal.

O tema “ódio racial” é muito bem usado no filme, bem diferente do que aconteceu em “Django Livre”, onde o excesso de verborragia e auto-indulgência acabavam provocando o efeito contrário. A cena em que o caçador de recompensas vivido por Jackson conta como matou um de seus perseguidores e sua conclusão é antológica.

Algo que me chamou a atenção no roteiro foi a forma como Tarantino usou para pedir desculpas pelo excesso de seus filmes anteriores, onde defendeu a tese de que qualquer pessoa que apoiou ou usufruiu da escravidão ou de outro regime deplorável desse tipo pode e deve ser sumariamente executada por um "anjo vingador", algo moralmente intolerável, pois é fácil hoje condenar quem se apropriou do trabalho escravo, porém é preciso lembrar que naquela época a escravidão era algo permitido por Lei.

Assim, Tarantino coloca na boca do personagem de Tim Roth uma belíssima defesa do Estado Democrático de Direito que vai na contramão do que ele endossou em “Bastardos Inglórios” e “Django Livre”. Será que ele leu minha crítica? Óbvio que não, mas certamente muita gente reclamou disso mundo afora e ele provavelmente tomou ciência.

Se não bastasse tudo isso, o filme ainda tem uma fotografia espetacular e foi todo rodado em Panavision 70mm. Estranhamente, “Os Oito Odiados” não vem agradando da mesma forma que os filmes anteriores do diretor, algo sempre estranho de se ver e que apenas demonstra a dificuldade imensa que algumas pessoas tem de reconhecer uma obra de arte de qualidade atualmente. Uma pena.

Cotação: * * * * *

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Filmes: "O Despertar da Força" (sem spoilers)

A FORÇA VOLTOU, COM DENTES!

Apesar dos defeitos, novo “Star Wars” é sim um ótimo filme, digno dos melhores da franquia e fica anos luz à frente dos desastrosos episódios 1, 2 e 3

- por André Lux, crítico-spam

Chegou a hora que a maioria das pessoas ligadas em cinema estava esperando já há alguns anos: a estreia do sétimo capítulo da saga “Star Wars”! Antes de qualquer coisa preciso confessar que é praticamente impossível pra mim ser objetivo em relação a essa franquia, afinal eu estava lá, em 1977, sentado no cinema e assistindo ao primeiro filme quando tinha apenas 8 anos e fiz parte dessa história que abalou as estruturas da cultura popular da sociedade ocidental para sempre.

Dito isso, vamos às boas notícias: o “Despertar da Força” é sim um ótimo filme, digno dos melhores da franquia e fica anos luz à frente dos desastrosos episódios 1, 2 e 3 que George Lucas produziu para contar a queda de Anakin Skywalker e sua ascensão como Darth Vader. Mas isso não chega a ser um mérito muito expressivo, já que os três filmes das chamadas “prequels” são ruins em praticamente todos os aspectos, exceto na música de John Williams e, claro, nos efeitos especiais (que embora sejam bons, mais poluem os filmes do que qualquer outra coisa).

Apesar de estar longe de ser perfeito (falarei disso depois), o novo filme é uma aventura de space-opera palpitante, cheia de ação e emoção, algo que simplesmente não existiu nas “prequels”, por exemplo. O responsável por isso é sem dúvida o diretor J. J. Abrams, que sabe como dar ritmo a um roteiro e consegue extrair o melhor dos atores – que aqui são bons e cheios de carisma. O humor também está de volta em plena forma, o que deixa o filme leve e dinâmico, sem se levar a sério exceto nos momentos em que isso se faz necessário.

Gostei muito do novo vilão, Kylo Ren, que sinceramente parecia bem tolo nos trailers, ainda mais quando aparecia sem máscara, até porque o ator é um magrelo narigudo com cara de pernilongo. Mas, surpresa, é um excelente ator e realmente rouba as cenas em que aparece. O personagem é muito bem delineado e cheio de angústia e conflitos que realmente transbordam da tela para fora e dão outra dimensão a ele, mesmo nos momentos mais fracos, como quando fala com seu mestre, que é um boneco digital tosco e inconvincente (feito pelo mesmo Andy Serkis, que foi o Gollum e agora está em tudo quanto é filme), no que é certamente o ponto mais baixo do filme.

Já o ponto alto é sem dúvida a jovem Daisy Ridley, que faz a Rey, uma catadora de sucata que se vê no meio da confusão toda e tem momentos muitos fortes. A moça é boa atriz e também esbanja carisma. Sem dizer que é muito bom ver uma mulher ter um papel tão forte e vital nesse tipo de filme.

"Chewie, nós voltamos para casa!"
Sobre os pontos fracos de “O Despertar da Força”, falar deles é meio que chover no molhado, pois a saga Star Wars nunca primou por roteiros profundos e muito inventivos. E todo mundo sabe que George Lucas (que aqui não fez nada, pois vendeu a franquia para a Disney) pegou elementos de tudo quanto é mitologia e sagas do passado para criar o seu universo.

Embora o roteiro tenha sido escrito pelo próprio Abrams com a ajuda do consagrado Lawrence Kasdan, é um pouco episódico e confuso, deixando muito coisa no ar no que acaba sendo quase uma refilmagem de “Uma Nova Esperança”. Também não faz muito sentido ver gente que nunca lutou na vida virar mestre no uso do sabre de luz de uma hora pra outra! A única coisa que incomoda mesmo e impede o filme de atingir cinco estrelas na cotação é a parte final, onde repetem o que já vimos em “Uma Nova Esperança” e “O Retorno de Jedi” – outra Estrela da Morte, sério? Não tinham nada melhor para inventar?

Mas, tirando isso, o resto do filme é uma delícia, trazendo algumas cenas realmente fortes e até chocantes para os fãs, embaladas pela sempre excelente trilha musical de John Williams, que continua em plena forma aos 83 anos e mescla de forma magistral os temas antigos da saga com os novos, compostos para os personagens criados para “O Despertar da Força”. A partitura abunda de vigorosos scherzos, que são a marca registrada de Williams.

Não dá pra falar mais do que isso sem apelar para os famigerados spoilers, então vou parando por aqui. Mas uma coisa é certa: a Força está de volta! E com dentes!

Cotação: * * * *

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Filmes: "No Coração do Mar"

MOBY DICK DOS POBRES

Versão do que seria o encontro real com a baleia branca gigante é sem graça e, claro, perde de mil a zero para o romance


- por André Lux, crítico-spam

Esse 
“No Coração do Mar” é um daqueles filmes que estão na moda atualmente que pretendem contar a “história por trás da estória” ou coisa do tipo. Aqui tentam mostrar os acontecimentos supostamente reais que levaram o escritor Herman Melville a criar “Moby Dick”, considerada a obra-prima da literatura estadunidense e que já deu origem a várias adaptações para o cinema e televisão.

Mas, sinceramente, a tal versão do que seria o encontro real com a baleia branca gigante é bem sem graça e, claro, perde de mil a zero para o romance. E ainda tem muita coisa que foi obviamente inventada para tentar deixar o filme mais “dramático”, muitas delas sem sentido ou simplesmente irrelevantes.

Como por exemplo, o conflito entre o primeiro imediato e o capitão do navio, que foi claramente inspirado no também caso real do motim no Bounty, que também já foi adaptado para o cinema várias vezes (a melhor é a versão com Marlon Brando). O problema é que esse conflito é forçado e não leva a lugar nenhum. A cena em que o capitão do navio os obriga a entrarem de peito aberto numa tempestade em alto mar é tola, pois nem mesmo um idiota completo faria tal coisa, independente de ser novato na função.

O ator que faz o comandante, Benjamin Walker (que foi o protagonista no esquisito “Abraham Lincoln, Caçador de Vampiros”) também é fraco e não tem peso para o papel. Chris Hemsworth, o atual “Thor”, é bonitão, mas não tem carisma e acaba sendo neutro como o imediato.

O filme também sofre com falta de foco narrativo. O roteiro não sabe se está contando a história dentro da história (o narrador fala de coisas que não tinha como saber, por sinal), as desventuras do imediato ou os perigos do mar. Assim, quando a grande baleia branca chega, tudo acontece muito rápido e de forma abrupta, num anticlímax que chega a assustar de tão mal conduzido.

Depois do ataque e destruição do navio, o filme vira quase terror, com os náufragos tendo que praticar atos horrendos para garantir a sobrevivência (vira quase um “Sobreviventes dos Andes”, só que no mar). Também é ridículo insistirem na baleia perseguindo os pobres coitados, algo que certamente não aconteceu na realidade. E ainda tentam enfiar uma mensagem sobre como é feio matar os animais a fórceps, que deixa tudo ainda mais sem sentido.

Outro ponto baixo de “No Coração do Mar” é a trilha musical composta pelo espanhol Roque Baños, que apesar de ter mostrado talento em outros filmes, foi obviamente obrigado a compor no modo “Hans Zimmer” de fazer trilhas, que dá o tom atualmente com raras exceções. Apesar de ter algumas faixas interessantes, as músicas que acompanham as cenas mais tensas e de ação são totalmente genéricas, repletas dos irritantes ostinatos simplórios e até das insuportáveis “cornetas da perdição” que Zimmer inventou para “A Origem”.

Eu ia dizer que é triste ver um cineasta como Ron Howard, que trabalhou com gente como John Williams (em “Um Sonho Distante”) e James Horner (em “Coccon”, “Willow” e “Apollo 13”), pedindo música desse tipo, mas aí lembrei que ele é um dos culpados pela ascensão de Zimmer desde “Backdraft”, passando por “O Código Da Vinci” e “Rush”. Basta ouvir a trilha de “Tubarão” para perceber como uma música do mesmo nível da gloriosa composição de John Williams para o filme de Spielberg elevaria o filme a outros patamares.

Por sinal, quando a gente lembra-se de “Tubarão” é que percebe o quanto esse filme e quase todos os outros feitos atualmente pela indústria de cinema estadunidense são fracos e sem graça. Enfim, dá pra assistir, mas não chega aos pés de “Moby Dick”, seja o livro ou mesmo as suas adaptações para as telas...

Cotação: * *
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