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segunda-feira, 3 de setembro de 2007

DVD: "O QUE VOCÊ FARIA?"

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A CORPORATOCRACIA EM AÇÃO

Quem já possui uma visão crítica acerca da atuação das transnacionais e do auto-destrutivo modelo neoliberal certamente vai se deleitar com a abordagem ácida e demolidora dessa obra.

- por André Lux, jornalista e crítico-spam

CartaCapital, a única revista semanal imprensa que ainda pratica jornalismo sério no Brasil, publicou na edição 452 uma reportagem sobre os absurdos que as empresas cometem contra candidatos a uma nova vaga de trabalho, muitas vezes submetendo-os a situações, no mínimo, humilhantes.

Depois de ler essa reportagem e tomar consciência desse fato, o filme “O Que Você Faria?” não parece assim tão absurdo. Embora algumas situações retratadas na obra sejam realmente exageradas (como o sexo no banheiro e as agressões físicas) e os personagens beirem o estereótipo, não existe ali compromisso com a realidade, mas sim com a construção de uma metáfora à loucura que tomou conta hoje do meio empresarial, especialmente das grandes corporações, onde a busca pelo lucro a qualquer preço e a exploração da mão de obra virou obsessão, com raríssimas e nobres exceções.

A verdade é que vivemos hoje numa ditadura do mercado, que alguns chamam ironicamente de “corporatocracia”, na qual a ordem mundial é dominada por meia dúzia de mega-empresas transnacionais que pairam acima de governos e estados democráticos, restando à grande maioria dos cidadãos alugarem suas forças de trabalho a elas em troca da sobrevivência diária. Acima de tudo isso, grupos de acionistas sem rosto e dirigentes absolutamente subservientes a eles dominam com mão de ferro esse sistema que, nas palavras do lingüista e ativista político Noam Chomsky, é o mais totalitário que existe – já que as ordens vêm de cima sem qualquer discussão, sobrando aos que estão abaixo a única opção de segui-las à risca sem questionamento.

“O Que Você Faria?”, uma co-produção entre Espanha, Argentina e Itália, mostra exatamente o processo de seleção para um alto cargo de direção de uma dessas multinacionais. Sete candidatos à vaga são reunidos em uma mesma sala para participarem da última etapa do processo, do qual apenas um restará. Neste ambiente inóspito, serão submetidos a um certo “método Grönholm”, que basicamente incitará os piores instintos de cada candidato na tentativa de eliminar os concorrentes.

O clima de paranóia é dobrado com a possibilidade de um deles ser um impostor, ou seja, alguém da empresa infiltrado na sala para observar mais de perto e manipular a ação dos outros. E tudo ainda pode estar sendo gravado com câmeras e microfones ocultos, numa assertiva alusão à sociedade “Big Brother” para a qual caminhamos cada dia mais, onde tudo e todos são constantemente monitorados e vigiados.

A intenção do roteiro de Mateo Gil e Marcelo Piñeyro, que é baseado em peça teatral de Jordi Galcerán, vai se tornando óbvia a partir que a trama avança e as primeiras vítimas do processo absurdo e degradante vão sendo feitas. Não por acaso, o candidato mais qualificado para o cargo e, também, o mais ético é o primeiro a ser praticamente linchado pelos outros competidores, que agem sempre sob a manipulação da corporação na forma de tarefas transmitidas a eles de modo impessoal e frio por meio de telas de computador. E, claro, o vencedor é justamente aquele que menos tem escrúpulos em destruir os adversários para atingir suas ambições.

Quem já possui uma visão crítica acerca da atuação desumana das transnacionais e do auto-destrutivo modelo neoliberal certamente vai se deleitar com a abordagem extremamente ácida e demolidora da obra, que melhora ainda mais com uma segunda leitura, quando já conhecemos melhor os personagens e o que cada um deles representa dentro do contexto em que estão inseridos.

Ironicamente e em paralelo à ação principal do filme, acontece uma grande manifestação nas ruas de Barcelona contra a atuação nefasta do FMI e do Banco Mundial sobre a economia global, sob o jargão de que "um outro mundo é possível". Por enquanto ainda é. Não se sabe até quando...

Cotação: * * * *
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4 comentários:

Fernando Romano disse...

Muito boa a reportagem da CartaCapital. As dinâmicas de grupo lá expostas são ridículas e patéticas. Algumas totalmente inúteis. De acordo com a reportagem: "Em vez da empresa procurar alguém que se encaixe no perfil dela, busca quem se encaixa no perfil dos testes. Não entendo qual é a coerência". Muito bem dito! Além disso, não há nenhuma regulagem do setor de RH de empresa alguma. Teoricamente, um "psicólogo" pode submeter o candidato a qualquer coisa, desde uma entrevista, até coisas que simplesmente não se encaixam no próprio emprego, como acender um fósforo e falar da sua vida antes da chama apagar ou "vender" um objeto pessoal qualquer. Não dá pra se sujeitar a isto - mas é claro que tem uma explicação: as empresas estão se lixando para o desemprego. Põe o "teste" que quiserem pois a oferta é grande: "Se você não quiser, rua! Tem quem queira!" Lamentável! É uma inversão: ao invés de ampliarem o leque de empregados, AFUNILAM cada vez mais a busca, contribuindo assim para aumentar as taxas de desemprego - pois agora a procura por um serviço não depende mais da sua capacidade profissional; mas sim de PARECER mais apto, de passar no teste, na dinâmica, de produzir sem saber para quê ou para quem. Nada devendo à uma corrida de ratos. Grande mercado!...

o moço da bodega™ disse...

Vi o artigo la no novaE. Tá supimpa, amigo. Acima da cotação verificada.

Abraços.

Patrick disse...

Alguém sabe dizer onde tem para vender? Não encontrei no bondfaro nem na livraria cultura.

André Lux disse...

Patrick, o filme ainda não foi lançado para venda apenas para locação...

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