segunda-feira, 9 de abril de 2007

Filme: "300"

.
ESQUERDA OU DIREITA

Filme provoca polêmica e mostra a confusão ideológica em que se encontra o mundo atual

- por André Lux, crítico-spam

Nesses tempos de ditadura do pensamento único neoliberal na mídia, só pode ser bem vinda qualquer obra de arte que provoque algum tipo de polêmica e discussão política. 

Mesmo que seja pelos motivos errados, como é o caso de “300”, filme baseado na graphic novel “Os 300 de Esparta”, do consagrado Frank Miller autor de obras-primas dos quadrinhos como “Ronin”, “Batman: O Cavaleiro das Trevas” e “Elektra Assassina”. 

A polêmica começou quando o governo do Irã acusou o filme de ser favorável ao imperialismo estadunidense e ao presidente Bush por mostrar a luta dos espartanos contra a invasão dos persas. 

Embora o protesto dos iranianos, descendentes dos persas, seja justo – afinal são mostrados no filme de forma extremamente caricatural quase como monstros (puro maniqueísmo de Hollywood) – “300” não é nem um pouco favorável à Bush. Muito pelo contrário. Só mesmo o atual estado de confusão ideológica em que se encontram as pessoas pode justificar esse engano.

Em primeiro lugar, quem afirma isso demonstra não conhecer a obra de Frank Miller, sempre recheada de ataques ácidos às políticas reacionárias da extrema-direita estadunidense. Em “O Cavaleiro das Trevas”, por exemplo, testemunhamos um Batman velho e anarquista dando uma surra no babaca do Superman que atuava como um mero fantoche do governo fascista dos EUA.

Já em “Ronin” era um ex-samurai que reencarnava num paranormal aleijado a fim de derrotar uma futurista megacorporação dominada por uma aliança entre neoliberais e um antigo demônio do Japão feudal. 

Isso não quer dizer que Miller seja um comunista ou mesmo esquerdista - até porque nos EUA essa confusão ideológica é ainda mais acentuada -, mas com certeza não pode ser chamado de alinhado ao pensamento expansionista e fundamentalista que domina seu país nas últimas décadas.

Em segundo lugar, porque na História retratada pelo filme, os 300 espartanos estão lutando exatamente contra um invasor imperialista que comanda com mão de ferro um gigantesco exército. 

Assim, Bush está muito mais para o imperador-deus Xérxes do que para o rei Leônidas e a resistência heróica dos espartanos está mais para a revolução cubana do que para a invasão do Iraque ou do Afeganistão pelos soldados do tio Sam (respeitadas, evidentemente, as realidades históricas nas quais esses eventos e personagens estavam inseridos). 

Ou alguém aí já viu Bush Júnior ou algum presidente dos EUA, a exemplo do que fez Fidel Castro em Cuba, de arma em punho liderando seus compatriotas no meio do campo de batalha? Enfim, julgar “300” como sendo de direita ou de esquerda, a favor ou contra o imperialismo, não passa de uma questão de ideologia e visão de mundo.

Deixando de lado a questão política, o filme em si deixa a desejar. Embora possua cenas muito bonitas e impactantes, erra ao tentar reproduzir de maneira literal as imagens desenhadas nos quadrinhos. 

São linguagens absolutamente diferentes e essa abordagem deixa “300” com jeitão de vídeo-clip: bonito, porém vazio e superficial. O fato de ter sido filmado inteiramente em estúdio contra o famigerado fundo azul, que depois é substituído por imagens geradas em computador, não ajuda.

Padece também de uma narração óbvia que, pecado de nove entre dez adaptações de quadrinhos para o cinema, insiste em descrever o que já vemos na tela e de uma trilha musical inadequada e intrusiva que tenta misturar sem sucesso orquestra e coral com “esguichos” de solos de guitarra, percussão tribal e ritmos techno. 

O elenco repleto de rostos sem carisma não merece destaques, exceto negativos – caso do protagonista Gerald Butler, muito jovem e neutro para dar o peso necessário ao lendário Leônidas, e do brasileiro Rodrigo Santoro, que faz o papel de Xérxes com uma maquiagem de drag queen e ainda por cima teve sua voz alterada digitalmente para soar como um clone do Darth Vader.

Como produto cinematográfico “300” comprova que a utilização de recursos tecnológicos de última geração somente como um fim e não como um meio acrescenta quase nada de novo à sétima arte. 

Já analisando-o pela abordagem política e ideológica tem lá seu mérito – nem que seja só o de provocar polêmica e obrigar as pessoas a pensarem um pouco sobre aquilo que assistem na tela.

Cotação: * * *
.

3 comentários:

Luiz Gustavo disse...

Falando em adaptação de quadrinhos eu gostei muito de Sin City...

Qual sua opinião a respeito do filme?

Abcs

André Lux disse...

Luiz, não gostei do Sim City, mais ou menos pelos mesmos motivos que critiquei o 300.

Ecristio disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...