quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

DVD: "SOLARIS"

ENIGMA SEDUTOR

Quem procura algo mais no cinema do que simples diversão e entretenimento descerebrado pode e deve assistir "Solaris".

- por André Lux,crítico-spam

Há pelo menos uma cena antológica em "Solaris" de Steven Soderbergh: ao falar sobre a descoberta do estranho planeta que dá nome ao filme com seu amigo psiquiatra Chris Kelvin (George Clooney), o cientista Gibarian descreve: "Ao observarmos Solaris, ele reagia como se soubesse que estava sendo observado". Ao mesmo tempo em que essa fala é proferida, observamos a bela Rheya (Natascha McElhone) desfilando sedutoramente na tela, reagindo ao olhar penetrante de Kelvin. Essa cena primorosamente dirigida e editada é a chave para a compreensão do filme como um todo, especialmente a sua conclusão.

Baseado no livro do escritor polonês Stanislaw Lem, "Solaris" narra a história de um grupo de cientistas a bordo de uma estação espacial em órbita de um planeta que parece ter vida própria e estranhos poderes, capaz de materializar sonhos e desejos dos tripulantes levando todos à beira da loucura. Para tentar solucionar o enigma, é enviado ao local o psiquiatra Kelvin, que passa também a sofrer com as aparições de sua falecida esposa cuja morte o deixou traumatizado.

Essa trama já havia sido adaptada para os cinemas em 1972 pelo pretensioso cineasta russo Andrei Tarkovsky. Embora a nova versão também tenha um ritmo lento e bastante cerebral, as semelhanças entre as duas versões acabam aí. No primeiro filme predominava um clima árido e desprovido de emoção e sobravam discussões filosóficas enigmáticas e enfadonhas, bem como intermináveis seqüências que nada acrescentavam à trama (como um passeio de carro pelas ruas de Moscou que dura longos minutos!). Tudo isso prejudica a narrativa e aliena o espectador, de tal forma que transforma a conclusão do filme do Tarkovsky em algo praticamente indecifrável (exceto para quem leu o livro).

Já Soderbergh, também autor do roteiro e montador da nova versão, preferiu investir em um clima mais humano dando maior ênfase ao relacionamento do casal central, cujos encontros e desencontros são apresentados por meio de uma narrativa brilhante e convincente, na qual presente, passado e futuro se misturam e se fundem sem nunca perder o fio da meada. É louvável o grau de maturidade que o diretor tem ao analisar a relação do casal, fato que parece incomodar algumas pessoas (prova disso é a ridícula polêmica levantada em relação à nudez de Clooney em uma cena totalmente casual).

Ao contrário da verborrágica e indecifrável fita de Tarkovsky, as questões levantadas pelo autor do livro - muitas delas relativas à própria natureza do ser humano - ficam perfeitamente claras na nova versão e, portanto, tornam-se relevantes tanto para a trama do filme quanto para o espectador mais atento. É nesses momentos que "Solaris" chega perto de tornar-se uma obra-prima da ficção científica.

Pena que o filme caia um pouco quando surgem em cena os atores coadjuvantes Jeremy Davies (como Snow) e Viola Davis (na pele da comandante Gordon), pois ambos são muito fracos e destoam completamente do restante. O visual do planeta também deixa a desejar (ficou parecendo uma bexiga cor-de-rosa que brilha no escuro) e perde feio se comparado ao do filme de Tarkovsky, que era muito mais enigmático e perturbador. Muitos reclamam também da conclusão do novo filme, que realmente difere da do livro e da primeira versão, mas a verdade é que ela em nada afeta o resultado final. Apenas demonstra que Soderbergh não teve medo de apresentar sua própria versão do que o planeta buscava - fato deixado em aberto na obra original.

Mas, gostem ou não do resultado final, "Solaris" é mais uma prova da versatilidade e da coragem desse jovem cineasta que não se cansa de surpreender ao buscar novas e diferentes fontes de inspiração para suas obras, ao invés de render-se a fórmulas de sucesso fácil. Basta lembrar que logo depois de realizar "Erin Brockovich", um filme comercial feito para promover a celebridade Julia Roberts (em papel que lhe rendeu até um Oscar de melhor atriz!), Soderbergh dirigiu "Traffic", um pertinente e inquietante drama sobre o tráfico de drogas - assunto que muitos considerariam como anti-comercial.

Quem procura algo mais no cinema do que simples diversão e entretenimento descerebrado pode e deve assistir "Solaris". O restante certamente deve passar longe, já que não se trata de uma ficção científica que procura dar respostas ou mesmo soluções fáceis e certamente vai exigir um maior grau de maturidade e atenção da platéia. Assim como acrescenta um dos personagens acerca do natureza do enigmático planeta, o filme apresenta apenas escolhas, cabendo ao espectador fazer a sua.

Cotação: * * * *

7 comentários:

Joel Bueno disse...

Fala sério, André! O filme é MUITO ruim. Perto do original de Tarkovsky, não passa de mais uma bobageira de Hollywood.

O filme russo é verborrágico? Indecifrável? Só para o espectador já devidamente infantilizado pela produção média da indústria cinematográfica.

Menos Homem Aranha, André, menos Batman... doses diárias de Bergman, Eisenstein, Godard, Losey, Fellini, etc. Vamos lá! Você consegue!

André Lux disse...

Opinião é igual bunda, meu caro Joel: cada um tem a sua. Pra mim, o "Solaris" do Sorderberg é mil vezes melhor que o outro. E o Tarkovsky pra mim é um tremendo de um mala sem alça. E para o Bergman também, que o chamou de "pseudo-profundo". Bergman, por sinal, já fez merda também. Não estou entre aqueles que veneram esse ou aquele cineasta como se tudo que fizesse fosse uma obra-prima. Prefiro analisar o resultado de cada obra.

Joel Bueno disse...

Opinião é o quê, mesmo? Depois de comparação tão sublime, fico sem palavras. Minha opinião é muito pequena, perto da opinião do blogueiro.

Araquem disse...

Soderbergh dirigiu também "Che", produzido por Benito del Toro.

André Lux disse...

Opinião é igual bunda. Mas se você se ofendeu, podemos dizer que opinião é igual joelho então. Todo mundo tem o seu e cada um acha o seu mais bonito que o dos outros...

Abraços!

Haroldo Cunha/São Gonçalo/RJ disse...

André, é muito difícil essa tarefa de comentar sobre uma arte, eu estou escrevendo e escutando "Summer of 42" de Milchel Legrand, quem já assistiu esse filme e não ficou fascinado, eu respeito, mas lamento, essa película foi uma das coisas mais sansacionais que assisti na telona, mas sei que muitos irão dizer que esse filme foi de uma pieguice sem tamanho. Só sei que eu adorei, de resto, as opiniões em contrário não irá mudar minha opinião, nem minha saudade!!!

Ulisses disse...

É interessante como determinada cultura ou país consegue atingir a excelencia em determinada arte. Para mim, o rock Inglês é indiscutivelmente o melhor e no cinema os americanos são realmente o máximo. Como entretenimento ou sério e polêmicos, a qualidade dos filmes produzidos nos EUA são melhores que Europeus, Asiáticos ou Sul americanos. Filmes como "Apocalipse Now", "Blade Runner", "2001" ou "Laranja Mecânica", estes dois ultimos produzidos na Inglaterra, mas pelo mestre novaiorquino Stanley Kubrick. Não que não haja europeus espetaculares como provam Win Wenders "O amigo americano" ou Herzog "Aguirre" ou a nova safra de excelentes diretores ingleses malucos. Agora assistir Tarkovsky, ainda não consegui assistir sem não dormir em um filme seu. Já o "Solaris" do Sorderberg consegui ver até o final, mas mais pelo clima criado, pela produção e excelente trilha sonora, mas fica como uma obra de entretenimento, descartável, já que o próprio mistério do planeta ele deixou em 2º plano, mais preocupado com a questão emocional do psiquiatra interpretado pelo sabonetão George Cloney. Apesar que Cloney foi anistiado depois de vê-lo em "Siriana", este sim, um outro espetacular filme "americano"

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