sexta-feira, 21 de julho de 2006

DVD: "KING KONG"

MACACO HISTÉRICO

Novo “King Kong” é mais uma prova que dinheiro e recursos ilimitados acabam tolhendo a criatividade e o bom senso de qualquer realizador.

- por André Lux

O sucesso fez mal ao diretor Peter Jackson. Depois de conquistar a aclamação de público e crítica com a trilogia “O Senhor dos Anéis”, embarcou num projeto duvidoso de refilmar pela terceira vez a batida história de “King Kong”. E, para isso, recebeu um cheque em branco da Universal, liberdade total de criação e um arsenal ilimitado de efeitos visuais digitais. Maus sinais, pois bons filmes raramente resultam dessa combinação. E não deu outra. Seu “King Kong” é uma aberração total, interminável (tem quase três horas de duração, mas já está para ser lançada uma versão estendida com 40 minutos de cenas inéditas!), histérico e, em última instância, vazio de qualquer emoção.

Não consigo entender como um filme tão ruim, chato e por vezes repugnante pode ter recebido tantas críticas positivas. Será que é por causa do recurso usado por Jackson de fazer várias citações ao filme original e ficar prestando reverência à sétima arte por meio do personagem de Jack Black, um diretor de cinema canastrão com mania de grandeza? Pode ser, pois como sabemos os profissionais da opinião adoram esse tipo de coisa, já que se sentem inteligentes e cultos quando conseguem identificar “trivias” nos filmes.

O fato é que Jackson enrola demais no primeiro ato com uma história idiota sobre o cineasta que precisa fugir dos investidores para tentar ir até a Ilha da Caveira, gravar cenas para seu novo filme. E dá-lhe declarações de amor ao próprio umbigo e diálogos pseudo-espertos numa série de seqüências que poderiam ter ficado no chão da sala de montagem sem nenhum prejuízo à trama central – é só perceber que toda essa besteira das filmagens não chega a lugar nenhum e é descartada da metade para o fim.

Os atores escolhidos pelo diretor não convencem em momento algum, especialmente Adrien Brody, que tentam transformar num sub-Indiana Jones sem sucesso, pois o coitado parece o Gonzo dos "Muppets" e não tem nenhuma pinta de galã. Pior mesmo é Naomi Watts (do abismal “Cidade dos Sonhos”, de David Lynch), que passa o filme inteiro com a mesma expressão e não tem nem beleza, muito menos carisma para provocar tanto amor no macaco gigante, quanto mais empatia na platéia.

Mas tudo desanda de vez com a chegada da trupe à ilha e “King Kong” vira filme de terror quando são atacados por um bando de nativos malvados e repulsivos, com direito a violência explícita em câmera lenta e tremida. Daí para frente, somos forçados a assistir a uma corrida histérica e sem freios, com os heróis sendo perseguidos e mortos por centenas de dinossauros, insetos gosmentos (a seqüência mais grotesca do filme), morcegos gigantes e pelo próprio Kong em cenas alongadas que não passam qualquer tipo de emoção, de tão ridículas e exageradas. Por sinal, se a gente somar o número de mortos chegamos à conclusão que o navio que os levou até lá ficou sem qualquer tripulante!

O visual da ilha é totalmente falso, baseado única e exclusivamente em efeitos digitais, parecendo mais cenário de vídeo game. Muito longe da beleza realista das locações utilizadas em “O Senhor dos Anéis”. Pior mesmo para a coitada da protagonista que, não bastando ser uma atriz deficiente, ainda foi obrigada a contracenar com um gorila inexistente, fato que proporciona riso involuntário em várias cenas, especialmente quando ela tem que “seduzir” o monstro com uma dancinha lamentável para que ele não a devore viva.

O Kong, criado totalmente em computação gráfica em cima das reações do ator Andy Serkis (o Gollum, que tem um papel de destaque como o cozinheiro), também não convence, pois é exageradamente humano em suas expressões e nem chega a ser muito grande. Enfim, não impressiona, muito menos emociona. Por causa disso e da inexpressividade da protagonista o tema “A Bela que matou a Fera”, que deveria permear a história e dar contornos dramáticos à sua resolução, simplesmente não funciona.

Outro erro de Jackson foi insistir em usar música praticamente o filme todo, do início ao fim, o que deixa o espetáculo supersaturado e cansativo, ainda mais quando a trilha é do medíocre James Newton Howard (é particularmente canhestro e irritante o tema principal associado à ilha e depois ao gorila gigante). Pelo menos ele tem a desculpa de ter substituído na última hora o compositor original, Howard Shore (da trilogia “O Senhor dos Anéis”), que saiu da produção alegando diferenças de opinião com o diretor. Depois de ver o filme não fica difícil adivinhar quem estava com a razão...

Impressiona o fato de terem gasto tanto dinheiro e esforço para fazer um “King Kong” ainda pior do que a adaptação de 1976, que trazia Jeff Bridges e Jessica Lange às voltas com um homem vestido com roupa de macaco pisando em miniaturas ou, em algumas tomadas, com um boneco de 20 metros de altura que só mexia o braço. Sem dizer que não consegue nem de longe cumprir as pretensões de Peter Jackson de prestar homenagem ao original de 1933, que foi feito com bonecos fotografados quadro-a-quadro (recurso que pode até deixar o filme ingênuo nos dias de hoje), mas que ao menos era mais convincente e emocionante - tudo que a nova versão não consegue ser.

“King Kong” é mais uma prova que dinheiro e recursos ilimitados acabam tolhendo justamente a criatividade e o bom senso de qualquer realizador.

Cotação: *

4 comentários:

Marcus Valerio XR disse...

Meu amigo!!! Agora estou ficando mais preocupado ainda. Calma rapaz... Seja uma pouco mais tolerante. Se você coloca "MENSAGENS OFENSIVAS NÃO SERÃO PUBLICADAS" na página de post, deveria frear um pouco seu impulso de ofender sistematicamente as obras que você não gostou bem como seus realizadores, e por tabela, as pessoas que gostaram dela. (Sim, porque uma crítica ácida a algo de que gostamos, é idiretamente uma crítica a nós mesmos.)
Diferente dos casos anteriores, agora discordo total e completamente da sua análise. Acho que está havendo uma falha em sua abordagem cinematográfica. Primeiro, como você mesmo diz no comentário sobre Alexandre, deveria ver o filme sem preconceitos. E você já foi com o preconceito de que a estória era batida, o projeto duvidoso e que dificilmente bons resultados advém disso. Além do mais, a mim já está claro seu invariável saudosismo. Quantas refilmagens você acha que ficaram melhores que algum filme que você tenha gostado na adolescência? Tenho o palpite de que sejam poucas.
Outro, com o perdão da palavra, mau hábito que você apresenta, é o mesmo de qualquer crítico de cinema. Colocar opiniões pessoais e subjetivas como se fossem fatos objetivos e demostráveis. Passa o tempo todo dizendo que o filme "É", como se isso fosse uma qualidade intrínseca ao objeto e não à sua própria percepção.
Achei King King um excelente filme. Bem melhor que os anteriores. Na verdade, são 3 filmes em um, com espíritos totalmente diferentes, e todos eles auto-sustentáveis. O que lamentei foi a falta de uma verbalização maior do drama do cineasta, que claramente enfrentava um dilema de consciência, mas que não veio a lume. Mas eu não posso dizer que o filme 'é' como eu o experiencio, e muito menos como 'prova' de uma percepção meramente estética pessoal.
Recomendo resistir a tentação de criticar o filme enquanto o vê, e muito menos antes de fazê-lo. Primeira seja espectador, e depois, refletindo sobre a obra completa, seja crítico.
Essa cissão entre o ato de criticar e o mero ato de apreciar pode ser a responsável por tornar a atividade de crítico de arte algo tão inglório.

Marcus Valerio XR
http://www.xr.pro.br

André Lux disse...

Marcus, como sempre procurei deixar claro, toda crítica é uma opinião. As minhas não poderiam de ser diferente. Se eu escrevo que o filme "É" alguma coisa, subentende-se que ele é aquilo "NA MINHA OPINIÃO".

Abraços!

Marlena disse...

King Kong é um dos filmes mais esquizofrênicos a que já assisti. E eu costumo assistir de tudo.

Cybershark disse...

Sou fã de carteirinha deste aqui. Vi nada menos que quatro vezes no cinema! Sem dúvidas, de todas as resenhas aqui do blog, esta é a que mais discordo (até agora).

Mas nem por isso vou fazer como o colega aí em cima e crucificar o autor só pq ele tem uma opinião radicalmente diferente da minha. Viva a diferença.

Ah, ressalto sobretudo a trilha musical do James Newton Howard, que é lindíssima! Fica ainda mais saborosa pq ele assumiu nos 45 do segundo tempo, depois que o Howard Shore pipocou, mas mesmo assim fez um trabalho primoroso (caso semelhante aconteceu com James Horner no "Tróia").

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