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segunda-feira, 24 de maio de 2010

DVD: "O Solista"

COLUNISTA TAMBÉM É GENTE 

Não era um mendigo negro qualquer, não senhor! Ele havia estudado na Unicamp e sabia tocar violoncelo!

- por André Lux, crítico-spam

Era um belo dia ensolarado em São Paulo. Colunista da Folha de São Paulo (Robert Downey Jr.) dirigia-se para a sede do jornal para começar mais um dia de trabalho quando foi surpreendido por uma cena no mínimo exótica: um mendigo negro (Jamie Foxx) tocando violoncelo no meio da praça da República.

Num ímpeto instintivo, o Colunista parou o carro e foi até o artista insólito. Tentou conversar com ele, saber mais sobre sua vida, mas ouviu apenas um monte de frases desconexas. No meio daquilo tudo conseguiu descobrir o nome do sujeito e que ele havia estudado música na Unicamp.

Perplexo, o Colunista da Folha voltou para seu carro e, chegando ao jornal que publica suas opiniões, tentou descobrir mais sobre o mendigo negro que tocava violoncelo. Soube que ele tem uma irmã e que realmente estudou na Unicamp, embora tenha sido apenas dois anos antes de abandonar o curso misteriosamente.

O faro do Colunista, especialista em nutrir seus leitores pseudo-intelectuais de classe média com artigos atrativos e de fácil consumo, sentiu que tinha uma ótima oportunidade em mãos. Assim, ao invés de escrever ataques contra Lula, Evo Morales, Hugo Chávez ou qualquer outra coisa que cheirasse a esquerda progressista, o Colunista da Folha reservou seu espaço para falar do bizarro mendigo negro. 

Mas não era um mendigo negro qualquer, não senhor! Ele havia estudado na Unicamp e sabia tocar violoncelo! O artigo, recheado de passagens edificantes e emocionantes, foi publicado em página nobre do jornal da “Ditabranda”.

No dia seguinte, o Colunista foi surpreendido com a reação que seu artigo provocou nos leitores. Uma enxurrada de mensagens elogiosas chegou à sua caixa de emails. O telefone não parava de tocar, todos querendo saber mais sobre o mendigo preto que tocava violoncelo. 

Emocionada, Dona Lu Alckmin organizou uma vaquinha entre suas amigas frequentadoras da Daslu e conseguiu comprar um violoncelo novo para o andarilho. José Serra, então prefeito da cidade, tocado pelo texto da colunista, anunciou que liberaria mais verbas para atender à população carente. 

Um outro membro do PSDB, que chorou ao ler o artigo da Folha, conseguiu um apartamento para alojar o mendigo negro que tocava violoncelo. Outro sugeriu que se agendasse um concerto dele em espaço nobre e que se convidassem várias personalidades importantes da alta roda da sociedade paulistana para o evento.

Todo feliz, o Colunista foi procurar o andarilho para contar-lhe as boas novas. Estranhamente, o mendigo não ficou nada animado com as novidades e começou a proferir frases sem sentido por vários minutos.

Novamente tocado pela loucura e pelo talento daquele mendigo negro que tocava violoncelo soberbamente, o Colunista escreveu mais uma coluna sobre o assunto, agora descrevendo sua experiência ao acompanhar o sujeito em suas andanças pelo centro da cidade, no meio daquela massa mal cheirosa que tanto apavorava os frequentadores do shopping Iguatemi. Mas valia o sacrifício para agradar seus leitores.

Os meses se passaram e o Colunista continuou acompanhando o mendigo e escrevendo sobre suas façanhas bizarras e exóticas no meio da gentalha. 

O sucesso de suas colunas foi tão grande que logo um editor famoso, conhecido pelo seu prodigioso talento para descobrir obras que calariam fundo na alma da classe média apavorada e cheia de culpas, fez uma oferta milionária para publicar os artigos da colunista em forma de livro.

Quando atingiu as livrarias, foi um sucesso estrondoso. A revista Veja dedicou capa ao assunto e o livro ficou vários meses na lista dos mais vendidos. Não demorou muito para que a obra fosse comprada por um grande estúdio de cinema e transformada em um bonito e edificante drama que apresentava ao mundo a exótica história do violoncelista preto e mendigo que, por causa de sua doença mental, abandonou os estudos na prestigiosa Unicamp e virou andarilho.

Voluntarioso, o Colunista prometeu doar 1% de todos os seus lucros a uma instituição de caridade mantida por Dona Lu Alckmin. Orgulhoso de sua jornada insólita entre os membros da massa mal cheirosa, o Colunista da Folha de São Paulo percebeu que a experiência o transformou numa pessoa melhor, mais sensível e carinhosa, fator que reascendeu inclusive a chama da paixão em seu casamento com uma publicitária do PSDB.

Assim, depois de mais uma noite de sono tranquila e livre de culpas, o Colunista acordou renovado e pronto para escrever novos ataques contra Lula, Hugo Chávez, Evo Morales e qualquer outra coisa que cheirasse a esquerda progressista.

Cotação: *

Observação: O texto acima é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais é uma mera coincidência.

5 comentários:

Ricardo Melo disse...

Que conto mais "sublime", André. Coisa linda mesmo. Depois de focar toda a sua doçura e generosidade com um caso particular, normalmente a nossa classe média faz isso mesmo: destina todo o seu ódio brutal contra o povo. E depois dorme o sonho dos justos, crente que está do lado do bem.

Roberto SP disse...

A transcrição da catarse americana para as ruas de São Paulo foi muito interessante.

É fácil perceber o quanto a própria sociedade americana procura esconder sua realidade com os clichês de Hollywood.

KALANGO DOIDO disse...

André de uma passadinha no meu blog e leia sobre seu mais novo desafeto, isso foi ele quem disse!!!

Érico Cordeiro disse...

Genial, André!
Mas ainda assim acho que vou assistir!!! Afinal, não é toda hora que um filme "made in Hollywood" manda rencas de Beethoven às massas (cheirosas ou não)!
Abração!!!

Marielle Sant'Ana disse...

Eu que pensei que só passaria no seu blog para "apropriar" a imagem de um mendigo e jornalista como ilustração do meu conto baseado em fatos reais...

Cara, amei o texto! Você nem imagina o quanto!

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