quinta-feira, 5 de julho de 2007

Panfleto Ideológico: "Rambo III"

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DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS

É interessante analisar esse filme grotesco como produto de seu tempo e compará-lo com a realidade atual, ainda mais quando Osama Bin Laden poderia ser um daqueles afegãos que dão uma forcinha ao Rambo...

- por André Lux, crítico-spam

“Rambo III" é sem dúvida o ponto mais baixo da trilogia com o personagem que foi apresentado no primeiro filme (o interessante “First Blood”) como um veterano da guerra do Vietnam desajustado e marginalizado pela mesma sociedade que supostamente defendeu com seu sangue, só para ser transformado em super-herói invencível no segundo capítulo, no qual vence sozinho a guerra que os EUA perderam.

Animado com o sucesso mundial daquela bomba fascista e panfletária da era Reagan, que entre outras ofensas pregava abertamente em favor da interferência direta dos EUA no assunto de países soberanos, o brucutu Sylvester Stallone resolveu ir mais além entrando no conflito que estava ocorrendo no Afeganistão, que na época havia sido invadido pela extinta União Soviética.

O filme já começa de forma risível, com Rambo lutando quase até a morte para descolar uns trocados que dá gentilmente aos monges budistas que o acolheram em seu templo. Mas a "paz" do personagem dura pouco, pois logo descobrimos que seu mentor e camarada, Coronel Trautman (Richard Crenna), foi capturado pelos malvados comunistas quando estava em missão do Tio Sam tentando levar democracia e liberdade para o pobre povo afegão.

Rambo então deixa a batina e vai para aquele país quente e repleto de barbudos mal-encarados a fim de resgatar seu colega militar e, de quebra, destruir sozinho e com um estoque aparentemente infinito de flechas explosivas o abominável exército vermelho - o qual, depois de uma sessão de tortura contra inimigos, ataca aldeias miseráveis por esporte, matando cruelmente inclusive velhinhas e criancinhas indefesas (na certa para comê-las no jantar).

Ficar apontando aqui todas as cenas absurdas e ridículas do filme seria perda de tempo - o ponto alto da canastrice é ver o herói cauterizando com pólvora um ferimento que atravessou seu torso!

Também é inútil enumerar todos os clichês deploráveis e preconceitos que pipocam na tela a cada cinco segundos, particularmente aqueles que nos ensinam o quanto são malvados e pervertidos os comunistas e também como são ineptos e atrasados os afegãos (no caso representando qualquer povo que use turbante) frente à superioridade moral, tecnológica e estratégica dos ocidentais. Pior que tem gente que acredita nesse tipo de ladainha racista até hoje.

O interessante, entretanto, é analisar “Rambo III” como produto de seu tempo e compará-lo com a realidade atual, depois dos ataques terroristas em território estadunidense no 11 de setembro. Se em 1988 (ano de produção do filme) o indestrutível soldado do Tio Sam ia até o Afeganistão para salvar o sofrido povo daquele país da tirania dos sanguinários soviéticos, agora o mesmo "Rambo" está lá jogando bombas e mísseis sobre aquelas pessoas, exatamente como faziam os supostos vilões vermelhos.

Só que agora com a desculpa de ser uma "guerra contra o terror" para capturar o terrorista Osama Bin Laden – que, vejam só que ironia, em “Rambo III” podia ser muito bem um daqueles rebeldes Mujahadin do Talibã financiados e armados pelos EUA que ajudam o herói a derrotar os soviéticos!

O absurdo chega a níveis gritantes quando lembramos que o "engajado" Stallone ainda fez questão de incluir a seguinte frase na conclusão da sua obra: "Esse Filme é Dedicado ao Valente Povo do Afeganistão". Como se vê, até o incorruptível Rambo tem "dois pesos e duas medidas". Seria risível se não fosse tão trágico...

Nossa única vingança é saber que o exército soviético abandonou o Afeganistão alguns meses antes do filme estrear nos cinemas, o que deixou tudo ainda mais ridículo e sem sentido ao ponto de decretar seu fracasso nas bilheterias.

Mas, para espanto geral e graças a atual política bélica e reacionária de Bush Júnior, Rambo vai voltar às telas em breve, agora para lutar contra sequestradores e ladrões de suprimentos (clique aqui para ver uma foto do deformado Sylvester Stallone durante as filmagens de "Rambo IV" e corra para o abrigo mais próximo!). Sinceramente, ninguém merece!

Depois de tudo isso alguns incautos e outros nem tanto ainda vêm me falar que o cinema e outros produtos da indústria cultural não sao usados descaradamente como máquina de propaganda imperialista. Imaginem então se fosse...

Cotação: ZERO
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5 comentários:

Waldomiro Vitorino disse...

Cara, os filmes de ação da era Reagan eram os mais divertidos! As inverossimelhanças eram a cereja do bolo! Os filmes do Rambo eram diversão garantida, ainda que a parte III seja inferior aos outros no que diz respeito ao entretenimento, que no final das contas, é o motivo pelo qual muitas pessoas reveêm esses filmes. Filmes como esse não são para ser levados a sério, por mais que os próprios responsáveis o façam diversas vezes. Quer um conselho? Relaxe, e assista esse filme no domingão com a família reunida comendo macarronada! E seja feliz, meu filho!

E que venha o Rambo IV!

Fabrício SA disse...

Acho que a crítica foi boa porém um tanto exagerada e possívelmente radical. Do ponto de vista de cidadãos de um país "em desenvolvimento" ou de "terceiro mundo",é quase instintivo radicalizar contra a postura de países como os EUA, porém em nossas próprias vidas, na maioria das vezes, não somos nem um pouco generosos com os menos favorecidos e, não raramente, somos preconceituosos com pessoa pobres, ignorantes e por que não, mau encaradas. Muitos tratam favelados como se todos fossem bandidos e acham que a polícia deveria invadir as favelas e tomarem o poder de qualquer maneira, ainda que inocentes corram riscos em operações como esta, pois o que importa é eliminar a ameaça que vem de tais áreas. Se nos colocar-mos por um momento no lugar dos americanos veremos que seu ponto de vista dificilmente permitiria que encarassem de outra forma o resto do mundo, considerando o poder e a posição que ocupam e o quanto está em jogo.

Claiton disse...

Ninguém merece ler uma crítica a respeito de um filme, feita por alguém que não tem capacidade de compreender o contexto no qual foi feito o filme, nem tão pouco capacidade de entender a realidade daquela época é outra, e completamente diferente da realidade atual!

Thiago disse...

Respeito sua crítica, afinal cada um tem sua maneira de ver e interpretar as coisas.
Minha maneira de ver e interpretar os filmes do Ramboédiferente da sua.
Pra mim, no Rambo I mostra como os soldados americanos que lutaram na guerra do Vietná foram mal recebidos de volta para os EUA.
No Rambo II mostra que os EUA não só receberam mal os soldados que voltaram da guerra do Vietná, como não estavam se importando muito se ainda haviam soldados americanos presos lá.
No Rambo III mostra o quanto o povo afegão sofre com guerras e o quanto eles são fortes para estarem vivos até hoje.
Enfim, na minha opinião, os filmes do Rambo tem forma de protesto até contra o próprio EUA e embora o Rambo seja um soldado programado para matar, o filme mostra que até mesmo uma pessoa assim tem sentimentos.
Resumidamente é esse o meu modo de ver e interpretar os filmes do Rambo que por sinal eu adoro e não canso de assistí-los.
Abração e até mais!

rochamdf disse...

ia escrever alguma coisa mas o pessoal aí em cima disse tudo.

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