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quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Filmes: "TROPA DE ELITE"

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RAMBO DOS POBRES

Filme endossa, ao que parece involuntariamente, a solução final que muitos representantes da “elite” anseiam ver aplicada no Brasil: um saco na cabeça e um tiro na cara para cada Rolex roubado.

- por André Lux, jornalista e crítico-spam


Nunca tinha visto um filme brasileiro capaz de gerar tantas opiniões e análises divergentes, inclusive entre quem se define “de esquerda”. 

Alguns acusam o filme de ser fascista, enquanto outros aplaudem as soluções bárbaras para o tráfico de drogas mostradas na tela.

A verdade é que as reações exacerbadas que “Tropa de Elite” vem provocando comprovam o quanto o Estado e as instituições democráticas do Brasil são frágeis e débeis. Basta alguém apontar uma câmera para lugares que ninguém quer ver e pronto: voam penas para todos os lados!

Isso ao menos é um ponto positivo, pois qualquer polêmica e debate sobre as questões abordadas no filme são sempre bem vindos, ainda mais num país onde a maioria gosta de tapar o sol com peneira ou propor soluções simplistas e violentas para tudo.

Sobre o filme em si só posso dizer uma coisa: trata-se, sim, de uma obra fascista no sentido que justifica a violência, a tortura e o desrespeito às leis por parte dos policiais do BOPE (a tal Tropa de Elite). 

Não posso afirmar que essa tenha sido a intenção do diretor José Padilha (do excelente documentário “Ônibus 174”), mas o fato é que ele cometeu erros primários na condução da narrativa e acabou transformando o famigerado capitão Nascimento numa espécie de Rambo dos pobres.

E não adianta tentar justificar que o personagem do policial é “profundo” por ser problemático ou sofrer de síndrome do pânico, pois, vale lembrar, o Rambo do Stallone também era um desajustado que tinha traumas psicológicos provocados pela guerra do Vietnã e dizia com orgulho que confiava apenas no seu facão.

Mas isso não o impedia de metralhar heroicamente os vilões malvados com frieza e requintes de crueldade em nome do imperialismo estadunidense para deleite da platéia, da mesma forma que faz o capitão Nascimento (o esforçado Wagner Moura) em nome de algo que nem chega a ficar claro no filme.

O erro básico do cineasta foi inserir uma narração em off feita pelo protagonista, que além de não acrescentar nada à trama e tratar de fatos que ele não teria como saber, tem um tom debochado e cínico que destoa completamente do suposto estado mental psicótico que o filme tenta imprimir no personagem. Por causa desse recurso infeliz o capitão Nascimento acaba por virar o “herói” incompreendido de um filme que, supostamente, queria ser ultra-realista e atirar para todos os lados da mesma forma como fez Fernando Meireles no irretocável “Cidade de Deus”.

Esse erro fica ainda mais gritante na terceira parte do roteiro, que mostra os policiais do BOPE agindo acima de qualquer lei ou comando ao partir para a vingança pessoal contra os traficantes que mataram um dos seus, lançando mão de recursos inadmissíveis com a tortura e o fuzilamento sumário. Ninguém discorda que isso ocorra no mundo real, o problema é que ações de “vale tudo” como essa provocam, na maioria das vezes, o espancamento e a morte de muitos inocentes. Mas no filme todos os personagens torturados ou mortos são bandidos confessos. Urra! Nem o Jack Bauer, torturador oficial da série "24 Horas", faria melhor!

E, convenhamos, apresentar o vilão maior do filme, lamentavelmente batizado de Baiano, usando camisa com a estampa do Che Guevara não conta pontos a favor de Padilha. Pergunto: para que serve matizar o policial torturador se não fizerem o mesmo com os traficantes, pintados sempre como sádicos conscientes da própria maldade, um dos clichês mais torpes do cinema?

Comparem, por exemplo, a diferença brutal de caracterização do Zé Pequeno de “Cidade de Deus”, que mesmo sendo ainda mais sádico que Baiano nunca é menos que humano no filme de Meireles. E, por isso mesmo, realmente assustador como retrato perfeito da realidade onde foi criado.

E, por favor, que conversa mole é aquela de que os policiais do BOPE são todos varões da moral e incorruptíveis, se fica claro no filme que eles sabem muito bem quais são os PMs corruptos? Já que sabem - e seguindo a lógica do capitão Nascimento que afirma não ver diferença entre os traficantes e aqueles que os ajudam - por que então não os prendem ou fuzilam como fazem com os favelados? Medo, omissão, corporativismo, ordens superiores? Qualquer que seja a resposta, estão sendo no mínimo coniventes com a corrupção e bandidagem dos colegas! E o filme não chega nem perto de tocar nesse nervo que, ao meu ver, é um dos mais importantes e trágicos da atualidade.

Outro ponto negativo é a maneira como Matias (André Ramiro), o policial negro, é desenvolvido. Começa bem ao ser apresentado como um homem íntegro e com consciência social, que busca obter um diploma de Direito e seguir carreira na polícia fazendo a coisa certa. Saem da boca dele as melhores linhas do filme, principalmente quando ataca a hipocrisia do discursinho moralista que representantes da classe média alta proferem em relação às drogas e à polícia. “Vocês só sabem repetir as besteiras que aprendem lendo jornalzinho, revistinha e vendo televisão”, provoca.

Abro um parêntese aqui para dizer que, infelizmente, os estudantes de classe média que interagem com Matias são extremamente caricatos e ajudam ainda mais a enfraquecer as poucas boas teses que “Tropa de Elite” defende. E o que são aquelas mocinhas lindas, arrumadinhas e bem intencionadas andando de um lado para o outro da favela, cercada por pessoas que elas sabiam serem traficantes da pesada, em nome de uma ONG dirigida por um político visivelmente picareta? Pior que isso só mesmo aquela jornalista maravilhosa e imparcialíssima perambulando pela África de shortinho no ridículo “Diamante de Sangue”!

Voltando ao Matias. O problema é que, de repente, o personagem sai do rumo e passa a agir como um clone do Darth Vader, sem qualquer resquício de humanidade, depois que seu amigo é assassinado pelos traficantes.

É sabido que, originalmente, seria ele o narrador da história, decisão que erroneamente o diretor Padilha alterou já na fase final da montagem. Dá para imaginar que, mantida a voz interior de Matias, ao menos a transformação da personalidade dele teria mais nuances e serviria também como contraponto racional à selvageria chauvinista do capitão.

Com todos esses erros e omissões cometidos pelos idealizadores, não é à toa que “Tropa de Elite” recebe aplausos de publicações ultra-fascistas como a revista Veja e o sádico capitão Nascimento vem sendo ovacionado como herói nacional, chegando ao cúmulo de ser conclamado para salvar de assaltos celebridades que ficaram ricas explorando a estupidez e a miséria humana na mídia.

Afinal, a obra do diretor Padilha endossa, ao que parece involuntariamente, a solução final que muitos representantes da “elite” tanto anseiam ver aplicada no Brasil: um saco na cabeça e um tiro na cara para cada Rolex roubado... Lamentável.

Cotação: **
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12 comentários:

dalva oliveira disse...

Caro André,
Estou impressionada com a coincidência entre a tua análise do "Tropa de Elite" e a minha própria opinião sobre o filme. Num país com déficit educacional gigante, onde 55% da população apóia a pena de morte e apoiou o massacre dos 111 presos do Carandirú,essa obra só poderia receber aplausos.
Assisti ao José Padilha no Roda Viva e custo a acreditar que ele tenha errado a mão involuntariamente como vc defende. Me pareceu um humanista engajado e muito inteligente. Fico sem saber o que pensar...Melhor que esse filme não tivesse sido feito.

Rodrigo Leme disse...

Lux, vc levantou alguns pontos interessantes sobre o filme. Alguns eu não concordo, mas existem outros pontos q achei q só eu tinha visto. Vou ler com mais calma o q vc escreveu e comentar aqui. Mas é cheia de boas sacadas essa resenha...

Vc escrevendo sobre cinema não tem como eu brigar com vc, pelo contrário. :P Aliás, q surpresa saber q vc cuidava do e-pipoca...eu o usei várias vezes, devo até ter usado opinião sua pra ver filme, hehehehe

George Pedrosa disse...

Uma coisa que me desagradou profundamente no filme foi a forma covarde e injusta com que ele retrata as ONGs que trabalham em favelas... pela própria natureza desse tipo de trabalho, os voluntários são praticamente obrigados a se socializar com os traficantes do morro, sob pena de serem expulsos ou mortos. No entanto, o filme os retrata como um bando de hipócritas covardes e promíscuos que só sabem fumar maconha e acham que os traficantes têm consciência social, o que é ridículo e lamentável... parece passar a mensagem que classe média boa é classe média caladinha, que deixa o BOPE "fazer o seu trabalho".

As pessoas torturadas não foram apenas bandidos: uma delas era a mulher do Bahiano (que eu saiba, casar com traficante não é crime) e outro foi um garoto que ganhou um tênis de presente do traficante (também não é crime). Agora, ver a audiência aplaudir essas torturas é de dar uma dor no coração... e eu também quero saber qual o significado daquela camisa de Che Guevara.

Crítico-Spam disse...

George, obviamente a mulher do traficante não é bandida só por ser casada com ele, mas segundo a lógica fascista do Nascimento, a qual o filme endossa e a VEJA aplaude, ela é e, portanto, "merece" ser torturada. O menino do tênis é quem, depois de ser torturado, conta onde estava o baiano (ou alguém que sabia dele). O discurso de que o filme não é fascista acabou pra mim nessas duas cenas repugnantes (não tanto pelo que mostram, mas pela posição ideológica de extrema-direita que endossam).

George Pedrosa disse...

Não achei que essas cenas endossaram a tortura. A garota chega para Matias e diz que conhece uma pessoa que pode ajudá-lo, mas que ele deve prometer que não fará mal a ela. Na cena seguinte, a pobre mulher já é vista sendo torturada, em uma cena incômoda e que mostra bem o lado negro do BOPE. Na cena em que eles torturam o rapaz, ele está aterrorizado e pede clemência aos oficiais, que mesmo assim continuam com o seu festival de sadismo. É nessa mesma cena que vemos um oficial se recusando a participar do ato. Sim, eu também gostaria de ver uma cena dos policiais torturando e matando uma pessoa inocente que também não soubesse de nada... no entanto, talvez a intenção fôsse justamente despertar a reação da audiência fascistóide. Tortura, mesmo que funcione na obtenção de informação, é errada do mesmo jeito.

Outra coisa: os membros do BOPE podem não ser corruptos (algo que duvido), mas são criminosos. Tortura é um crime previsto na legislação brasileira, assim como execução sumária.

carlos disse...

eu acho que vc está exagerando, tropa de elite é só uma obra de ficção feita para divertir e passar o tempo, vc está querendo criar uma tempestade em copo d'água, eu não sou de classe média, muito menos playboy, mas nem por isso gosto de bandido, pois as vezes é o que parece que algumas pessoas pessam, que pobre tem que está do lado do bandido só porque a maioria dos bandidos tem origem pobre, bandido é bandido, rico ou pobre, tem que exterminar mesmo, talvez por isso algumas pessoas estão vendo cap. nascimento como um herói, pois os bandidos também não respeitam nossos direitos, porque ser bonzinho com eles? tem que botar pra quebrar mesmo.

miguel disse...

as pessoas apenas estão se sentindo
'vingadas' por tudo que acontece de ruim neste pais, especialmente pela impunidade que os bandidos tem, o cap. nascimento é uma especie de rambo que usa de todas as armas para combater o crime, pode não ser a melhor, mas alguém poderia sugerir outra? essa história que os bandidos são vitimas da situação social é pura cascata, pois se fosse por isso, o brasil teria uma imensa maioria de bandidos pois a maioria do brasil é pobre, eu mesmo só da classe baixa da população, as poucas coisas que consegui são frutos do meu trabalho, bandido tem que ser tratado como bandido mesmo, direitos humanos para humanos direitos.

joao disse...

Se na obra de Padilha o Cap. Nascimento ao chegar em casa, em vez de tomar aquelas pílulas sinistras, fumasse maconha, o filme tomaria outro rumo, seria muito mais intrigante e paradoxal... Se isso acontecesse de fato, ele nunca iria agredir a própria mulher, a mulher dos outros ou um menor de idade. Na verdade se o filme fosse muito inovador e libertário ele não seria assistido por grande parcela da população, q não se interessaria por um filme tão cult - digamos assim. Por isso Padilha foi feliz por suscitar o diálogo sobre as práticas da polícia, legalização/descriminilização das drogas e pena de morte.

Marcus Valerio XR disse...

Das críticas desfavoráveis ao filme, essa é a melhor que já li. Também já publiquei a minha http://www.xr.pro.br/ENSAIOS/ELITE.HTML
mas o enfoque é sobre as delirantes propostas de legalização das drogas.

O que quero adicionar aqui é que o motivo do Capitão Nascimento ser tão contagiante para o público não é mérito do filme em si, mas sim da absoluta ausência de qualquer outra coisa na produção midiática brasileira que se aproxime remotamente de um herói de ação.

Nós NÃO TEMOS HERÓIS!!! As pessoas sentem falta disso, elas querem símbolos para se identificar, e qualquer que seja a qualidade do Capitão Nascimento, ele é simplesmente O ÚNICO candidato ao cargo.

André Lux, meus parabéns pelos seus textos. Acabei de conhecê-lo e estou encantado. Convido-o a visitar meu site. Temos muito em comum.

Marcus Valerio XR
http://www.xr.pro.br

Mauro Sérgio disse...

Saudações, André. Gosto muito do seu blog, apesar de termos algumas discordâncias de natureza ideológica, ainda que dentro dum espectro mais amplo do que poderia ser definido como "esquerda".

Mas não é sobre política que eu quero falar, e sim sobre suas análises cinematográficas. Sobre elas também temos discordâncias e eu tentarei, com o máximo de respeito à tua opinião, apresentá-las.

Pra começo de conversa, é inegável o seu conhecimento sobre alguns aspectos técnicos, como iluminação e trilha sonora. Miuto acima da média do cinéfilo leigo.

Contudo, suas análises têm alguns problemas, principalmente em relação a roteiro. Pra começar, eu me vejo na obrigação de dizer que você parece, em alguns momentos não ter prestado atenção a que assistiu. Em "Tropa de Elite", por exemplo, você aponta como falha no roteiro a narração do Capitão Nascimento sobre algumas situações das quais ele não poderia saber. Mas ao longo do próprio filme, ele diz ter ouvido tais fatos da boca do Matias.

Outro pequeno problema é não levar em conta a proposta de alguns filmes, analisando em pé de igualdade filmes absolutamente pipoca, entretenimento puro, com filmes independentes, com grandes pretensões estéticas.

E, por fim, não seria mal dar uma calibrada na avaliação ideológica. Tem que ser muuuito de esquerda pra ver méritos em Olga e Zuzu Angel. O posicionamento crítico pode vir acompanhado de cinema de qualidade, como em Diários de Motocicleta ou em V de Vingança.

No mais, seu saldo é positivo.

forte abraço

Anônimo disse...

Esse vitimismo nojento da esquerda já existia em 2007, puta merda...

André Lux disse...

Esse nazi-fascismo nojento da direita ainda existe em 2015, puta merda...

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