sexta-feira, 28 de março de 2025
A série "Adolescência" é sobre Autismo e eu posso provar!
terça-feira, 25 de março de 2025
“Adolescência” mostra como a extrema-direita torna jovens desajustados em potenciais assassinos
Série é um soco no estômago que serve como alerta para sobre o tipo de pessoas que estão sendo criadas nos submundos da internet
- por André Lux, crítico-spam
A minissérie “Adolescência”, produzida pela Netflix, é um
soco no estômago que serve como um aterrador alerta para pais e educadores
sobre o tipo de jovens que estão criados nos submundos da internet, onde
predomina a ideologia machista, misógina e violenta da extrema-direita que
prega, entre outras barbaridades, que a culpa pela incapacidade de alguns
homens se relacionarem com mulheres é do feminismo.
Dividida em quatro capítulos, a série possui apenas quatro
longos planos-sequências filmados sem corte de maneira inacreditável, num
esforço hercúleo dos realizadores. Mas esta escolha vai muito além de uma mera
firula estética, pois a movimentação constante da câmera em torno dos atores e
suas interações gera um clima de suspense e ansiedade.
No primeiro episódio acompanhamos a prisão do adolescente
Jamie, de 13 anos, sua viagem até a delegacia e o interrogatório. No segundo,
seguimos a visita dos policiais até a escola na qual o jovem estudava, onde
tentam entender suas motivações. No terceiro, é a vez da visita de uma
psicóloga até a prisão e suas tentativas de entrar na psiquê do adolescente a
fim de traçar seu perfil psicológico. E no último, testemunhamos as
consequências das ações do rapaz na vida de sua família, principalmente o pai (Stephen
Graham, também um dos autores da série).
O grande mérito de “Adolescência” é não fazer julgamentos, nem
tentar justificar os atos do garoto, mas sim mostrar a realidade dos fatos para
que o espectador tire suas próprias conclusões. Embora não seja baseado em um fato
específico, o roteiro faz um apanhado de vários casos reais no Reino Unido
envolvendo adolescentes “INCELS” que cometeram atos violentos contra mulheres.
O termo “INCEL” significa “involuntary celibates” (celibatários
involuntários) ou seja, jovens membros de uma subcultura virtual que
se definem como incapazes de encontrar um parceiro romântico ou sexual, apesar
de desejarem ter. Quando eu tinha essa idade, éramos conhecidos como “virgens”
e sentíamos a mesma frustração ao não conseguir “pegar mulheres” como os outros
faziam. Mas as semelhanças param por aí.
Não sou reacionário que sonha com a volta “daquela época
onde as coisas eram melhores”, mas é inegável que os “virgens” de outrora, embora
frustrados e depressivos, não sentiam ódio pelas mulheres ou pela luta delas
por direitos iguais como os atuais Incels. A gente ficava chateado, achando que
a culpa era nossa mesmo por sermos feios ou desajeitados para os “jogos do amor”
e vida que segue.
O que mudou? A mudança veio com a invasão de gurus da extrema-direita
que, a fim de manipular os jovens em direção ao fascismo e à defesa de valores
machistas, saem por aí afirmando que eles não conseguem transar por causa do
feminismo e das mulheres mesmo, que são todas interesseiras e superficiais (um
deles é inclusive citado nominalmente). A série aborda isso de forma sutil ao
mostrar as publicações do protagonista em seu Instagram e o comentário de muitos
jovens, chamando-o de “Incel”, “Red Pill” e outros termos associados à
ideologia machista vomitada por extremistas de direita, fatores que passam
batidos para a maioria dos adultos, inclusive para os policiais.
E já existem estudos que demonstram isso de forma cabal, confira
neste link: They Walk Among Us: Misogyny, Right-Wing Authoritarianism and Social Dominance Orientation Predict the Endorsement of Incel Ideologies
(Misoginia, Autoritarismo de Direita e Orientação de Predominância Social
Predispõe a Aceitação da Ideologia Incel).
Os dois episódios mais impactantes são o terceiro, onde o
jovem assume seu machismo, misoginia e agressividade frente à psicóloga, e o
último, onde vemos a família dele sendo aos poucos destruída pela culpa e
pelos ataques que sofrem da comunidade. Neste segmento a série levanta o
questionamento a cerca do que pais e educadores devem fazer em relação aos limites da liberdade que os adolescentes devem ter ao acessar a internet. “Nós
demos um computador a ele e achamos que ele estava seguro aqui dentro de casa,
em seu quarto, mas a verdade é que ele não estava seguro. Será que nós deveríamos
ter feito mais?”, questiona a mãe do adolescente numa das cenas mais tocantes.
O desespero do pai cujo filho foi cooptado pelo extremismo de direita |
A realidade é que a enxurrada de gurus de extrema-direita na internet vem envenenando a mente da atual geração e isso passa desapercebido para a maioria dos pais e educadores. Muitos, inclusive, acham ótimo que seus filhos fiquem com a cara enfiada em celulares e computadores já que assim não os incomodam. Mas existem pais que querem ajudar seus filhos a não caírem nessa armadilha, porém simplesmente não sabem o que fazer já que, ao tentarem desviar a atenção dos jovens para atividades mais nobres como leitura, arte ou esportes, vão despertar a fúria deles tamanho o nível de viciamento que as redes proporcionam na mente.
Uma situação bastante complicada e que precisa ser encarada
com a importância que exige. Porque depois não vai adiantar chorar o leite
derramado...
Cotação: *****
quinta-feira, 20 de março de 2025
“Duna Parte 2” encerra a adaptação da obra de Frank Herbert de maneira formidável
Filme é excelente conclusão e os destaques vão novamente para o desenho de produção e os efeitos visuais, além da ênfase na mensagem contra os falsos messias
- por André Lux, crítico-spam
É impossível analisar “Duna – Parte 2” sem falar do primeiro,
já que é basicamente um único filme dividido em duas partes. Diferente de “O
Senhor dos Anéis”, de Peter Jackson, que dividiu o livro em três filmes rodados
simultaneamente, a segunda parte de Duna só começou a ser filmada depois do
lançamento do primeiro – e só foi confirmado depois que deu lucro ao estúdio!
Isso tem um lado bom e outro ruim. O bom é que permitiu ao
diretor Dennis Villeneuve fazer algumas mudanças em sua obra, como dar
mais leveza e humor à narrativa, algo que sempre agrada ao público dos cinemas
menos interessados em obras áridas e cerebrais.
O lado ruim é que algumas dessas mudanças de tom
influenciaram negativamente na caracterização de certos personagens, principalmente
o Stilgar, feito por Javier Barden, que no primeiro filme segue à risca a
persona arredia do livro, mas na sequência vira mais alívio cômico, quase um
bufão. Em uma das cenas mais engraçadas Villeneuve faz uma homenagem à “A
Vida de Brian”, do Monty Python que também tratava de falsos messias.
Outra alteração para pior foi a de reduzir os Harkonnens a meras bestas feras nazi-fasicistas, em especial o Raban, feito de forma descontrolada por Dave Bautista que grita o tempo todo e mata subalternos furiosamente em praticamente todas as cenas em que aparece. Infelizmente isso enfraquece os personagens, deixando o filme mais raso, como se fosse uma mera luta do bem (Atreides) contra o mal (Harkonnens).
A maior mudança, todavia, se deu em Chani (Zendaya) que toma
um rumo completamente oposto ao da obra original, mas isso é explicado pelo
diretor como necessário para dar mais ênfase à mensagem contra os perigos dos
falsos messias, que é um dos temas centrais dos livros de Frank Herbert. Só que
isso vai trazer uma série de problemas para as possíveis continuações da obra,
afinal Chani será a fiel concubina de Paul e mãe de seus futuros filhos.
“Duna – Parte 2” foca a maior atenção narrativa nas cenas de ação, no romance entre Paul e Chani e nas maquinações dos Atreides para manipular os Fremen por meio da falsa profecia do “salvador” que foi plantada lá pelas Bene Gesserits, fatores que deixam o filme bem mais palatável ao público em geral. Mas, para quem conhece a obra original, salta aos olhos uma omissão imperdoável: o roteiro deixa de lado a importância dos vermes da areia para Duna, já que são eles quem produzem a Especiaria, essencial para o funcionamento daquele universo. Basta dizer que sem ela não seriam mais possíveis as viagens espaciais! No filme parece que os vermes gigantes servem apenas como montarias - e, verdade seja dita, a sequência em que Paul tem que domar o verme pela primeira vez é de tirar o fôlego!
Apesar desses problemas, “Duna – Parte 2” é uma excelente
conclusão para a adaptação e os destaques vão novamente para o desenho de produção
e para os efeitos visuais primorosos. O elenco também é formidável, com
destaque para Timothée Chalamet que tem uma transformação notável de um jovem
inseguro e tímido para o guerreiro líder dos Fremens. Austin Butler também
impressiona como o sociopata Feyd-Rautha.
Até a trilha musical do abominável Hans Zimmer funciona já
que, felizmente, partiu para um experimentalismo quase tribal, deixando em
segundo plano temas bombásticos orquestrais que ele simplesmente é incapaz de
compor de forma minimamente competente.
Assim sendo, “Duna” é um prato requintado que vai agradar em
cheio quem procura ficção científica de qualidade e sabe apreciar um filme
extremamente bem realizado, repleto de nuances e inflexões narrativas que
captam a rica essência da obra original, principalmente as alegorias ao
petróleo, ao cristianismo e islamismo e à ecologia, porém com voz própria
dentro da linguagem cinematográfica.
Cotação: ****
segunda-feira, 17 de março de 2025
“Mickey 17” é uma grande porcaria!
Filme tolo e sem sentido tenta misturar ficção científica, crítica política e comédia sem sucesso
- por André Lux, crítico-spam
É uma grande porcaria este “Mickey 17”, o novo filme do
queridinho da crítica Bong Joon Ho que ganhou o Oscar de melhor diretor com “Parasita”,
uma obra supervalorizada na minha opinião. A Warner deu um cheque em branco
para o cineasta realizar seu próximo projeto e o resultado é desastroso em
todos os sentidos.
O filme custou 120 milhões de dólares e não vai render nem
metade, causando um gigantesco prejuízo para o estúdio. Mas não era para menos.
“Mickey 17” é um projeto tolo e sem sentido, que tenta misturar sem sucesso ficção
científica, crítica política e comédia, culpa de um roteiro caótico e da direção
frenética de Ho que se mostra incapaz de controlar seus atores, deixando todo
mundo histérico e apelando para um tipo de humor que faria vergonha para o extinto
Zorra Total da rede Globo.
Os piores são o sempre péssimo Mark Ruffalo, aqui fazendo
uma parodia grotesca de Trump, e Toni Collette como sua esposa, uma boa atriz
que às vezes descamba para o ridículo quando mal dirigida. O único que se salva
é o coitado do Robert Pattinson como Mickey, mas seu personagem é mal delineado
e tem mudanças de personalidade sem lógica, afinal são clones do original que
inclusive tem implante das memórias dele.
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Os insuportáveis |
O terceiro ato é incrivelmente arrastado, principalmente quando aparecem uns aliens nativos do planeta que pretendem colonizar e ameaçam uma guerra, mas é tudo muito chato e a solução para o conflito é simplesmente patética. O filme poderia ter meia hora a menos e a culpa disso é do próprio Bong Joon Ho já que é dele o corte final.
Feio (o desenho de produção é péssimo), mal dirigido,
arrastado e apelando para um tipo de humor rasteiro e histérico, “Mickey 17” é
um filme a ser evitado.
Cotação: *
terça-feira, 4 de março de 2025
Exagero e pretensão transformam “Nosferatu” em versão live action de “Hotel Transylvania”
Outros filmes do diretor Eggers sofrem do mesmo defeito: são desnecessariamente obscuros, modorrentos e pretensiosos
- por André Lux, crítico-spam
Fazia tempo que não via um filme tão chato e equivocado como
esta releitura de “Nosferatu” dirigida pelo cineasta Robert Eggers, que vem se
especializando no gênero terror e virou queridinho da crítica. Porém, o único
filme dele que me agradou foi “O Farol”. Os outros sofrem do mesmo defeito
deste: são desnecessariamente obscuros, modorrentos e pretensiosos.
Como todo mundo já sabe, o “Nosferatu” original é um filme
mudo dirigido por Murnau em 1922. Na verdade, era para ser uma adaptação de “Dracula”,
de Bram Stoker, mas quando os realizadores não conseguiram os direitos da obra,
simplesmente mudaram o nome dos personagens e algumas situações, o que gerou um
processo movido pela viúva do escritor e na quase destruição total da película
(felizmente algumas cópias sobreviveram). A mesma história foi novamente
adaptada por Werner Herzog em 1979, com Klaus Kinski no papel título.
Agora é a vez de Eggers fazer a releitura do original e, rapaz,
ele falhou feio desta vez. Ele erra em alguns elementos que deveriam ser primordiais
para o sucesso da empreitada. A começar pela fotografia que, embora tenha
vários planos bonitos, é escura ao ponto de simplesmente ser impossível ver o
que se passa na tela grande parte do tempo. Uma coisa é ser sombrio e
contrastado, outra é ser um completo breu. O cineasta também abusa de
movimentos de câmera repetitivos que saem do nada e chegam a lugar nenhum, em uma
tentativa “artística” de gerar medo.
O roteiro também não traz nada de novo ao gênero, ou seja,
quem já leu o livro ou viu as inúmeras adaptações cinematográficas de “Drácula”
vai ficar entediado e até irritado por causa da edição modorrenta do filme. O
personagem feminino principal não tem qualquer nuance ou arco. Ela já começa o
filme totalmente histérica e não tem para onde ir, o que obriga a atriz
Lily-Rose Depp a gritar, espumar e rolar pelo chão de forma cada vez mais
ridícula e descontrolada, ao ponto de gerar risos na plateia. Perto dela, a
menina de “O Exorcista” parece calma.
Nem mesmo o coitado do Willem Dafoe escapa da canastrice geral, fazendo o caçador de vampiros que deveria ser o Van Helsing do original, e também se perde numa atuação caricata na qual ainda tem que proferir ataques contra a ciência em favor de um misticismo tosco, algo muito inadequado para os dias de terraplanismo em que vivemos.
Mas a âncora que afunda de vez o filme é personagem título, em uma caracterização ridícula feita por Bill Skarsgard, com direito a bigodão estilo Leôncio do Pica-Pau, cujo sotaque extremamente carregado me fez lembrar do Drácula da animação “Hotel Transylvania”, do Adam Sandler.
Para piorar, o diretor
parece que ficou com vergonha do seu Nosferatu e o deixa escondido a maior
parte do filme, chegando a desfocá-lo em primeiro plano, algo que consegue
apenas gerar irritação pois dá a impressão que a projeção está fora de foco!
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Nosferatu e Drácula do Adam Sandler: separrrrrrradossssss no nasssssscimentooooooo |
A trilha musical de um tal de Robin Carolan é fraca e repleta de clichês do gênero terror. Basta comparar com a música sensacional composta por Wojciech Kilar para o “Drácula” de Francis Ford Coppola. Por sinal, é impossível não comparar “Nosferatu” com a exuberante obra de Coppola e o novo perde feio, mas muito feio, em todos os quesitos.
Enfim, uma grande perda de tempo que não merece os elogios
que vem recebendo por aí. Novamente estão julgando um filme pelo que ele
deveria ser e também pela pretensão de quem o dirigiu e não pela obra em si
que, diga-se de passagem, é uma bela porcaria.
Cotação: *
“Solaris” é uma ficção científica que reflete sobre a natureza humana
Assim como reflete um dos personagens sobre o enigmático planeta, o filme apresenta apenas escolhas, cabendo ao espectador fazer a sua
- por André Lux, crítico-spam
Há pelo menos uma
cena antológica em "Solaris" de Steven Soderbergh: ao falar sobre a
descoberta do estranho planeta que dá nome ao filme com seu amigo psiquiatra
Chris Kelvin (George
Clooney), o cientista Gibarian descreve: "Ao observarmos Solaris,
ele reagia como se soubesse que estava sendo observado". Ao mesmo tempo em
que essa fala é proferida, observamos a bela Rheya (Natascha McElhone)
desfilando sedutoramente na tela, reagindo ao olhar penetrante de Kelvin. Essa
cena primorosamente dirigida e editada é a chave para a compreensão do filme
como um todo, especialmente a sua conclusão.
Baseado no livro do escritor polonês Stanislaw Lem, "Solaris" narra a
história de um grupo de cientistas a bordo de uma estação espacial em órbita de
um planeta que parece ter vida própria e estranhos poderes, capaz de
materializar sonhos e desejos dos tripulantes levando todos à beira da loucura.
Para tentar solucionar o enigma, é enviado ao local o psiquiatra Kelvin, que
passa também a sofrer com as aparições de sua falecida esposa cuja morte o
deixou traumatizado.
Essa trama já havia sido adaptada para os cinemas em 1972 pelo pretensioso
cineasta russo Andrei Tarkovsky. Embora a nova versão também tenha um ritmo
lento e bastante cerebral, as semelhanças entre as duas versões acabam aí. No
primeiro filme predominava um clima árido desprovido de emoção e sobravam
discussões filosóficas enigmáticas e enfadonhas, bem como intermináveis sequências
que nada acrescentavam à trama (como um passeio de carro pelas ruas de Moscou
que durava longos minutos!). Tudo isso prejudicava a narrativa e alienava o
espectador, de tal forma que transforma a conclusão do filme em algo
praticamente indecifrável.
Já Soderbergh, também autor do roteiro da nova versão, preferiu investir em um
clima mais humano dando ênfase ao relacionamento do casal central, cujos
encontros e desencontros são apresentados por meio de uma narrativa brilhante e
convincente, na qual presente, passado e futuro se misturam e se fundem sem
nunca perder o fio da meada. É louvável o grau de maturidade que o diretor tem
ao analisar a relação do casal, fato que parece incomodar algumas pessoas
(prova disso é a ridícula polêmica levantada em relação à nudez de Clooney em
uma cena casual).
Ao contrário da verborrágica e indecifrável fita de Tarkovsky, as questões
levantadas pelo autor do livro - muitas delas relativas à própria natureza do
ser humano - ficam perfeitamente claras na nova versão e, portanto, relevantes
tanto para a trama do filme quanto para o espectador mais atento. É nesses
momentos que "Solaris" chega perto de tornar-se uma obra-prima da
ficção científica.
Pena que o filme caia um pouco quando surgem em cena os atores coadjuvantes
Jeremy Davies (como Snow) e Viola Davis (comandante Gordon), pois ambos são
muito fracos e destoam do restante. O visual do planeta também deixa a desejar
(ficou parecendo uma bexiga cor-de-rosa que brilha no escuro) e perde feio se
comparado ao do filme de Tarkovsky, que era muito mais enigmático e
perturbador.
Muitos reclamam também da conclusão do novo filme, que
realmente difere da do livro e da primeira versão, mas a verdade é que ela em
nada afeta o resultado final. Apenas demonstra que Soderbergh não teve medo de
apresentar sua própria versão do que o planeta buscava - fato deixado em aberto
na obra original.
Quem procura algo mais no cinema do que simples diversão e entretenimento
descerebrado deve assistir ''Solaris'',
uma ficção científica que não procura dar respostas ou soluções fáceis e
certamente vai exigir um maior grau de maturidade e atenção da plateia. Assim
como reflete um dos personagens sobre a natureza do enigmático planeta, o filme
apresenta apenas escolhas, cabendo ao espectador fazer a sua.
Cotação: ****
“A Substância” falha ao não criticar o capitalismo
Nada faz sentido neste filme grotesco que acaba sendo um desserviço à causa feminista que pretende defender
- por André Lux, crítico-spam
“A Substância” é mais um daqueles filmes ruins que por
motivos misteriosos vira queridinho da crítica e ganha prêmios nos festivais da
indústria cultural.
Sim, eu entendi a MENSAGEM do filme de criticar a ganância
dos executivos dessa mesma indústria cultural, que desprezam as mulheres depois
que chegam à maturidade em sua ânsia por lucrar em cima dos corpos perfeitos
das jovenzinhas. Essa lógica é concentrada num personagem extremamente caricato
vivido por Dennis Quaid.
Mas mensagens não garantem a qualidade de uma obra de arte,
por mais bem intencionada que seja. E aqui essa pretensão de criticar a
ditadura da beleza é rasa como uma poça de água já que, em momento algum, toca
na real causa dela: o capitalismo.
Criticar essa realidade sem enfiar o dedo na ferida do modo
de produção capitalista, que busca o lucro acima de tudo e de todos, não faz
sentido. Por isso “A Substância” vira apenas uma colcha de retalhos de clichês
de filmes de terror “gore”, apelando a todo momento para lente grande angular, efeitos
especiais nojentos, sangue e vísceras, virando uma espécie de “A Mosca” encontra
“O Enigma de Outro Mundo” – dois excelentes filmes do gênero.
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Demi Moore virando A Coisa |
Sobra para a coitada da Demi Moore ficar o tempo todo fazendo caras e bocas, enquanto tem seu corpo cada vez mais coberto com maquiagem grotesca ao ponto de virar um monstro no fim do filme. Por sinal, a conclusão é simplesmente ridícula, digna de risos, ainda mais porque é levada a sério. Faria sentido se, no fim, descobríssemos que tudo não passou de um pesadelo ou delírio da protagonista, mas como isso não acontece não dá pra acreditar que aquela figura monstruosa não provoque reações de nojo nas pessoas, que inclusive a aplaudem.
O roteiro é cheio de furos e não explica nem mesmo como
funciona a tal substância, quem está por trás dela e sequer como é comprada. A
atriz que faz a jovem Demi Moore é sofrível e aparece o tempo todo
hiper-sexualizada para atrair atenção, fazendo justamente aquilo que o filme
dizia criticar. E se ela era uma versão jovem da protagonista, como é que
ninguém a reconhecia?
Enfim, nada faz sentido neste filme grotesco que no fim das
contas acaba sendo um desserviço à causa feminista que pretende defender. O
mais triste foi ver Demi Moore perdendo o Oscar justamente para
uma atriz jovenzinha, confirmando aquilo que o filme critica, mas reforçando
que essa lógica nunca vai mudar enquanto o capitalismo existir.
Cotação: *
segunda-feira, 3 de março de 2025
“Alien Romulus” é um Alien para a geração tik-tok
A pílula mais amarga do filme é a insistência do Ridley Scott em inserir na trama as besteiras que inventou para os ridículos “Prometheus” e “Alien Covenant”
- por André Lux,
crítico-spam temente ao Alien
Quem segue meu canal sabe que sou grande apreciador da
franquia Alien, especialmente do primeiro que considero um dos mais
aterrorizantes filmes de terror já feitos. Gosto até do polêmico “Alien 3” e
dos crossovers entre Alien e Predador. Mas parei por aí.
A partir de “Alien: A Ressureição” a franquia oficial
desandou e piorou muito quando o próprio Ridley Scott, cineasta que dirigiu o
primeiro Alien, voltou a explorar este universo e nos brindou com “Prometheus”
e “Alien Covenant”, de longe dois dos filmes mais ridículos já produzidos por
um grande estúdio.
Surge então “Alien Romulus” que prometeu trazer a franquia
de volta aos trilhos. Ledo engano. Embora tenha sido dirigido por um cineasta
competente, Fed Alvarez, o roteiro é um verdadeiro queijo suíço, repleto de furos
e besteiras que acabam comprometendo o esforço técnico investido no filme.
Já começa a história com a bendita companhia achando o Alien
do primeiro filme encapsulado num casulo em meio aos destroços da Nostromo. Mas
como isso é possível se a nave foi destruída por nada menos do que três
explosões nucleares e o próprio monstro foi ejetado pela Ripley a milhares de quilômetros
do local da explosão? E por que diabos iriam vasculhar o espaço atrás do Alien
se já sabiam da transmissão que vinha do planeta onde existem centenas de ovos?
O mais triste é que, já que resolveram trazer a criatura
original, podiam ter feito algo bem melhor e coerente mostrando o caos e a
destruição causada por ela na estação espacial. Mas, não, ao invés disso
inventam uma trama sem pé nem cabeça onde um bando de adolescentes idiotas
resolve sair do planeta onde são obrigados a trabalhar praticamente como
escravos e ir buscar suprimentos na tal estação espacial que tem o nome de
Romulus/Remus.
A partir daí as perguntas começam a pipocar no cérebro de
qualquer um que tenha mais do que dois neurônios funcionais: por que a
companhia abandonaria a estação, na qual investiram milhões em busca de domar o
“organismo perfeito”, na órbita do planeta onde ela operava? Por que jogaram no
lixo um androide em perfeito estado que tem acesso às dependências da empresa?
Como os jovens poderiam sair do planeta usando uma nave da própria companhia
sem qualquer tipo de represália? E por aí vai...
Tudo isso seria desculpável se o filme ao menos seguisse a
lógica criada pela própria franquia, todavia, como foi feito para tentar
prender a atenção dos jovens espectadores acostumados a ver vídeos de 2 minutos
no Tik Tok, apelam para uma edição frenética e desmiolada na qual o tempo de
duração da impregnação de um personagem pelo facehugger até o surgimento do monstro
em sua forma final é de 5 minutos.
Se não bastasse tudo isso, ainda trazem de volta um “irmão
gêmeo” do androide Ash do primeiro filme num efeito de computação gráfica
sofrível que desrespeita a memória do ator Ian Holm e ainda acaba com a lógica
do original. Ora, naquele filme o sintético foi colocado em segredo na nave justamente
para ajudar a trazer o Alien de volta à terra. Se existissem outras cópias
daquele mesmo androide andando por aí nas naves da companhia, todo mundo
saberia de cara que ele era um deles, não é mesmo?
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O gêmeo do Ash: destruindo a lógica do primeiro filme |
Mas a pílula mais amarga que existe em “Alien Romulus” é a insistência do Ridley Scott, que é um dos produtores do filme, em inserir na trama as besteiras que inventou para os ridículos “Prometheus” e “Alien Covenant”, ou seja, aquela maldita gosma preta que cria Aliens do nada e os patéticos Engenheiros, que pareciam uns bebês mutantes bombados. Isso faz o filme desembocar em mais uma conclusão tosca, na qual a protagonista tem que lutar contra um híbrido entre Aliens, humanos e Engenheiros que consegue ser ainda pior que o Newborn de “Alien Ressureição”.
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Besta quadrada: é um alien? É um humano? É um engenheiro? |
Ao que parece, Ridley Scott parece determinado a destruir o legado de todos os filmes bacanas que fez no passado, haja visto que também é responsável pelas bombas “Blade Runner 2049” e “Gladiador 2”. Alguém precisa parar esse homem!
Apesar de todos esses pontos negativos, “Alien Romulus” é perfeitamente
passável, tem algumas sequências tensas e a parte técnica é primorosa, usando
muitos efeitos práticos nas criaturas. Mas é pouco frente ao que poderia ter sido
feito com o material.
Cotação: **