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quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Filmes: "Dunkirk"

PASTEL DE VENTO COM BRITADEIRA

Christopher Nolan tenta dar uma de Terrence Malick e falha fragorosamente

- por André Lux, crítico-spam


Quem acompanha minhas críticas já sabe que não sou um dos admiradores incondicionais do diretor Christopher Nolan. Dele só gostei mesmo de “Amnésia” e dos dois primeiros “Batman”, mesmo assim com sérias restrições. Acho ele pretensioso demais e dono de uma mão pesada que deixam seus filmes sutis como um elefante correndo numa loja de cristais. E esse “Dunkirk” não foge à regra.

Aqui Nolan pretende dar uma de Terrence Malick, o recluso cineasta estadunidense que fez jóias como “Além da Linha Vermelha” e “Days of Heaven”, ao contar a trágica história do cerco da cidade francesa de Dunkirk durante a segunda guerra mundial, quando soldados franceses, belgas e ingleses ficaram presos à beira da praia, cercados pelos nazistas enquanto esperavam algum tipo de resgate. Ou seja, ao invés de optar por uma maneira mais trivial, Nolan tenta produzir uma experiência cinematográfica basicamente sensorial, com um mínimo de diálogos e contando quase sempre com imagens, atuações do elenco, som e música para captar os horrores da guerra. E, verdade seja dita, falha fragorosamente.

Primeiro porque Nolan não é Malick e, portanto, não chega nem perto do domínio técnico dele para captar imagens impressionantes do ponto de vista estético. Embora não seja ruim, a fotografia do filme é medíocre e não traz nada de novo ao gênero, cujo ápice certamente foi atingido por Spielberg no claudicante, porém tecnicamente brilhante, “O Resgate do Soldado Ryan”, cuja cena de batalha na abertura é inigualável até hoje. 

Segundo porque Nolan é um diretor de atores fraco. Basta ver como ficam todos parecendo zumbis, sempre com a mesma expressão catatônica, ao ponto da gente nem conseguir distinguir direito um personagem do outro. Sei que estavam todos esgotados física e mentalmente, porém não é por isso que deixariam de expressar emoções, que aqui ficam longe de serem registradas.

E terceiro e mais gritante, claro, é a trilha musical composta pelo abominável Hans Zimmer, que certamente é uma das coisas mais bisonhas que ele já pariu em sua já longa e pavorosa carreira. Basicamente, ele colocou para tocar o tema do Coringa do segundo “Batman” durante toda a projeção. Para quem não sabe, em “O Cavaleiro das Trevas” Zimmer criou um tema para o Coringa que é de um simplismo de dar dó: nada mais do que um zumbido de uma nota só tocada pelo cello, sampleado e acompanhado por guinchos de guitarra e sons que se assemelham a alguém jogando um gato em cima do sintetizador. Esse zumbido insuportável é, de vez em quando, entrecortado por um som semelhante ao tic-tac de um relógio, como se fosse para dar uma sensação de urgência que até poderia ser interessante ou mesmo original caso Ennio Morricone já não tivesse usado esse efeito com maestria em 1973 no filme “Meu Nome é Ninguém”. Quando precisa tentar dar alguma emoção ao filme, Zimmer entra com um tema sintético bombástico que soa como algo que Vangelis poderia ter produzido caso estivesse no meio de uma grave crise intestinal. Enfim, um desastre dantesco que literalmente implode o filme de quaisquer pretensões que tenta atingir (basta ver “Além da Linha Vermelha”, cuja temática é semelhante, para perceber que até um picareta como Zimmer consegue dar seu melhor sob o comando de um verdadeiro cineasta, no caso Terrence Malick).

Zimmer: imortalizando a máxima "nada se cria, tudo se copia"

Não bastasse tudo isso, a montagem também não convence, deixando o filme arrastado e difícil de seguir (as cenas de perseguições entre os aviões são inacreditavelmente desconjuntadas e tediosas). Em alguns momentos falhas gritantes de continuidade saltam aos olhos, como na cena em que o oficial feito por Kenneth Branagh olha para um avião com o sol brilhando forte atrás dele, mas no corte seguinte o mesmo avião passa sob um céu completamente nublado. Ou quando um navio tomba e bate no cais esmagando soldados, mas na sequência aparece há mais de 20 metros do mesmo local.

O roteiro, escrito apenas por Nolan (geralmente seu irmão participa), é pífio e divide a ação em três situações e tempos narrativos que servem apenas para deixar o filme confuso. E o diretor erra também ao pular de um ponto para outro nos momentos de maior tensão, acabando com qualquer tentativa de criar suspense. Os diálogos são muito ruins, empolados e artificiais e muitas vezes repletos de pseudo-profundidade que soam ainda mais ridículos vindos de garotos à beira da morte.

Assim como “Interestelar”, esse é mais um pastel de vento produzido por um cineasta apaixonado pelo próprio umbigo, mas que desta vez inovou nos forçando a ingerir tal iguaria sonsa ao som de algo que parece ser uma britadeira (é sério, em alguns momentos eu achei que estavam fazendo alguma obra fora do cinema, cortesia do sr. Zimmer). Os trágicos eventos de Dunkirk estão muito melhor registrados no maravilhoso “Desejo e Reparação” em uma cena breve, porém de impacto emocional arrebatador, algo que esse filme metido a besta passou longe de atingir. Mas muito longe.

Cotação: * 1/2

3 comentários:

Eliete disse...

���������� Suas colocações são perfeitas! Até quem não assistiu tem a perfeita compreensão. Parabéns!!!

Anônimo disse...

Concordo com você que Dunkirk é um saco. Realmente Nolan mandou muito mal nessa empreitada. Adorei Inception e Interstellar. A trilogia Batman é bem única e Memento é bem interessante.

Discordo da sua opinião sobre Hans Zimmer e sua crítica só mete o pau de maneira raivosa, tornando cega qualquer análise mais profunda e interessante sobre o filme. Você compara muito um filme com o outro, esse é um grande pecado da crítica. Pra você Nolan tinha que fazer um filme igual ao de Malick pra ser bom?

Dunkirk não é um filme bom, não assistiria de novo. Gostei que Nolan arriscou e fez algo diferente dos filmes convencionais de guerra. O clima sombrio e aterrorizante, em que os personagens estão do limite é bem bacana. Faltou um enredo melhor realmente.

Tente ser menos imparcial e raivoso na sua crítica. O sucesso do seu blog depende de uma crítica mais estruturada, imparcial e menos odiosa. Desse jeito você já pode escrever a próxima crítica de um filme no Nolan, pois já sabemos que você não curte nada que vem do cara.

PAZ

André Lux disse...

Não comparei filmes, apenas apontei a tentativa fracassada de Nolan em emular Malick. Sobre Zimmer, sinto muito, mas acho suas trilhas abomináveis e acabam com os filmes, com raras exceções. O "estilo" dele virou regra hoje e Hollywood e contaminou tudo, uma tragédia sem tamanho que está destruindo a arte de composição de trilhas de cinema.

E eu curti sim alguns filmes do Nolan, basta reler o meu texto.

Abraços!

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