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quarta-feira, 24 de março de 2010

Akira Kurosawa: O gênio que levou o cinema japonês ao Ocidente

- Por André Cintra*

Há uma cena, logo no começo do filme Ran (1985), de Akira Kurosawa, em que um grupo de descendentes e súditos se encontra ao redor do poderoso daimiô Hidetora, chefe do clã dos Ichimonji, durante o período feudal no Japão. Não é uma reunião convencional. Aos 70 anos — sendo 50 deles dedicados à conquista de um vasto império de castelos e terras —, Hidetora resolve “sair de cena e dar as rédeas para mãos mais jovens”.

Mas, antes que o senhor feudal anunciasse sua decisão, alguém lhe pergunta se convém assar um javali recém-caçado. A resposta: “Ele era velho. Sua pele é dura, fedida, indigerível. Como eu, o velho Hidetora. Vocês me comeriam?".

Nascido há exatamente cem anos, Kurosawa, maior representante do chamado jidai-geki (filme histórico de samurai), "saiu de cena" em 1998, aos 88 anos. Vítima de um derrame cerebral, morreu sem saber se boa parte de seus compatriotas o engoliam. A muitos orientais, pouco importavam os 55 anos de carreira do diretor, os 32 filmes, inúmeros prêmios, a projeção que deu ao cinema japonês no exterior. Na visão de seus detratores, o diretor de Os Sete Samurais e Kagemusha era definido como um "cineasta de exportação" demasiadamente "ocidentalizado", que teria cometido o crime de renegar as tradições e os costumes japoneses.

A realidade é bem diferente. Nem na sua vida, tampouco na sua vasta obra, Kurosawa deu as costas para a cultura do seu país. Descendente de um clã de samurais, filho de um férreo administrador militar, ele nasceu em Tóquio no dia 23 de março de 1910. Recebeu forte influência do irmão Heigo — um benshi (narrador de filmes japoneses na época do cinema mudo) —, que o iniciou no cinema.

Em 1936, Kurosawa conseguiu emprego como terceiro assistente de direção na Photo Chemical Laboratories. Foi lá que começou a escrever roteiros para outros cineastas. Demonstrava aberta admiração pelo trabalho do americano John Ford em filmes como No Tempo das Diligências (1939) e As Vinhas da Ira (1940). As principais referências, literárias e cinematográficas, podiam até ser ocidentais. Mas Kurosawa, ao estrear na direção com o drama A Lenda do Grande Judô (1943), tratou de temas mais próximos a suas raízes — as artes marciais, a devoção à natureza, a descoberta paciente do amor.

Os militares, às voltas com a Segunda Guerra Mundial, abominaram o lirismo do longa-metragem e acusaram o diretor de renegar os sentimentos nacionais. As autoridades o obrigaram a aplicar uma espécie de autocensura. A derrota na guerra se avizinhava quando foi lançado o filme Os Homens que Pisaram na Cauda do Tigre (1945). É o primeiro jidai- geki de Kurosawa — que, se não foi o precursor, certamente o tornou o cineasta-chave para entender o gênero samurai.

O estigma de "o mais ocidental dos cineastas japoneses", atribuído pejorativamente a Kurosawa, tem início com esse ousado longa-metragem. Embora continuasse a tratar de temas contemporâneos, o diretor passou a ambientar suas histórias no Japão feudal. Os dilemas foram então avaliados através de valores tradicionais, especialmente a honra, a lealdade e o sacrifício, tão caros no universo samurai.

No ambiente do pós- guerra seus filmes ganharam acesso a festivais internacionais. Em 1950, o diretor surpreendeu ao sair do Festival de Veneza com o prêmio máximo — o Leão de Ouro — por Rashomon. O mundo do cinema passou a dar destaque para o cinema japonês, e Kurosawa foi convertido em celebridade.

"Foi ele [Kurosawa] quem melhor representou a aproximação entre seu país, o Japão, e o Ocidente, após a Segunda Guerra Mundial", escreveu o crítico Inácio Araújo, da Folha de S.Paulo. Nos anos 50, o Japão era conhecido apenas como uma nação exótica, que os filmes de guerra americanos representavam como pouco mais que um grupo de bárbaros fanáticos. Essa imagem preconceituosa do Japão foi completamente subvertida por Kurosawa a partir de Rashomon.

Remontando ao século 11, o longa conta a história de um controvertido julgamento. Numa floresta, a noiva de um samurai tem relações sexuais com o bandido Tajomaru. O samurai, logo em seguida, é encontrado morto, ali perto. O que ocorreu de fato? O bandido estuprou a mulher e depois assassinou o noivo dela? Ou o samurai se matou em nome da honra ao ver sua amada traí-lo? Na investigação, quatro pessoas são ouvidas — a noiva, o samurai (por mediunidade), o bandido e um lenhador. Os relatos se chocam. Em breves flashbacks, o filme mostra cada um dos pontos de vista e seus elementos contraditórios.

Rashomon foi o primeiro grande filme de Kurosawa — uma obra em que ele mostra que o limite das certezas é também o limite da justiça. Sua premissa narrativa e moral — uma história com múltiplas versões — irradia-se até os dias de hoje.

Em 1954, Kurosawa realizou sua obra-prima, Os Sete Samurais. O filme se baseia numa história verídica para contrapor honra e destino. Aldeões do século 16 estão ameaçados por bandidos que, sem piedade, ocupam o povoado e saqueiam as colheitas de arroz. O mestre Kambei é encarregado de contratar mais seis samurais para proteger o local.

O professor acadêmico e crítico americano Roger Ebert especula que em nenhum filme, antes de Os Sete Samurais, um grupo de personagens havia se reunido para executar certa missão. Não bastasse a originalidade, Kurosawa compôs um grupo heterogêneo, cujos membros têm personalidade e motivações diferentes — o samurai interpretado por Toshiro Mifune fez história.

O filme é um elogio a valores coletivos (solidariedade, disciplina), mas exalta a humanidade que cerca sentimentos pessoais como o medo e a covardia. Os Sete Samurais levou o Leão de Prata no Festival de Veneza e consagrou de vez Kurosawa — Hollywood fez uma versão em faroeste do filme, com o título Sete Homens e um Destino.

Se o faroeste era o gênero americano por excelência, Kurosawa transformou o jidai-geki no grande gênero japonês. Nada de caubóis, pradarias e longos duelos do Velho Oeste — elementos típicos do western. O diretor japonês iluminou o cinema de seu país com guerreiros samurais, aldeias medievais, xogunatos, lutas breves de lanças — a essência da arte do espadachim.

Está aí a principal razão para o reconhecimento e a fama de Kurosawa fora do Japão, acima de diretores como os também mestres Kenji Mizoguchi (1898-1956) e Yasujiro Ozu (1903-1963). De um lado, seus filmes apresentaram pontos de sintonia com a tradicional narrativa ocidental; de outro, o cineasta interpretou à sua maneira princípios universais — na arte e na sociedade —, atribuindo-lhes a riqueza dos valores tipicamente orientais.

Tais características estão claras em outros filmes de samurai de Kurosawa, como A Fortaleza Escondida (1958), Yojimbo, O Guarda-Costas (1961), e sua continuação, Sanjuro (1962). Desses três, Yojimbo é o mais bem-sucedido em termos de crítica e público. Seu enredo gira em torno de um samurai solitário e desempregado, que resolve lutar para dois grupos inimigos. No filme seguinte, Sanjuro é o nome do samurai que cede à corrupção. Dois personagens, dois estudos morais.

Para incômodo dos japoneses mais ortodoxos, a carreira de Kurosawa sempre dialogou com o Ocidente. Na década de 50, o diretor adaptou para a tela grande O Idiota, de Dostoievski, e Ralé, de Gorki. Em Trono Manchado de Sangue (1957), ambientou Macbeth, de Shakespeare, no Japão feudal, e tratou do samurai Taketori Washizu. Destinado a ser xogum e instigado pela ganância da esposa Asaji, esse anti- herói envereda por uma luta que leva à memorável cena final: Washizu, imperecível, não sucumbe nem quando seus antigos comandados o atingem com dezenas de flechas.

O universo shakespeariano e o desenlace trágico são retomados em Ran, uma adaptação livre de Rei Lear e da lenda japonesa de Móri. O filme mostra uma disputa de poder marcada por traições no seio de um clã. Kagemusha é outro ensaio de Kurosawa sobre o poder, ambientado nos tempos dos samurais. Próximo da morte, o xogum Shingen vê que seu clã está em processo de ruína e arma uma manobra: arranja um sósia para sucedê-lo em sigilo.

Com a morte do chefe militar, o sósia a subir ao trono é um ladrão que aceita o disfarce e depara com uma série de crises. O larápio, no entanto, aprende as artimanhas do clã e vira uma personificação fiel do líder morto. Por esse épico espetacular — estudo de como a manutenção do poder pode custar caro numa sociedade de hipocrisias e aparências —, o cineasta japonês amealhou vários prêmios internacionais, com destaque para a Palma de Ouro no Festival de Cannes.

Lembrar Kurosawa cem anos após seu nascimento — como faz a Cinemateca Brasileira, ao programar um ciclo gratuito de filmes do diretor — é prestar tributo a uma cinematografia única. Uma vez mais, espectadores poderão entender por que esse gigante das artes japonesas foi definido até pelo diretor americano Steven Spielberg como “o Shakespeare visual do nosso tempo”.

* Texto adaptado de um artigo do autor para a revista Japão, 500 Anos de História, 100 Anos de Imigração

2 comentários:

Cybershark disse...

Kurosawa foi genial. Uma pena que poucos cinéfilos lembrem de Viver (Ikiru, 1952) como deveriam. É meu preferido dele, estudo denso sobre o significado da morte e, sobretudo, do trabalho. Também destaco Rashomon e Os Sete Samurais. Quais são seus preferidos da filmografia dele, Lux?

André Lux disse...

Meus favoritos são Dersu Uzala, Ran e Kagemusha.

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