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terça-feira, 14 de março de 2006

Desabafo: Caetano Veloso

DE CONTESTADOR ORIGINAL A BOBO DA CORTE NEOLIBERAL

O artista tem total direito de expressar opiniões sobre qualquer assunto. O que causa repulsa e estranheza é vê-lo arreganhando os dentes toda vez que alguém refuta suas afirmações. Será que se julga o dono da verdade e acima de qualquer contestação? Tudo indica que sim...

- Por André Lux, jornalista

Foi com uma mistura de tristeza e asco que finalizei a leitura da carta do cantor e compositor Caetano Veloso, publicada na revista Caros Amigos de março, em resposta a um artigo do jornalista Guilherme Scalzilli.

Tristeza por comprovar a total decadência artística e filosófica daquele que já foi um dos mais brilhantes e provocadores artistas do nosso país. Alguém que se encontra atualmente incapaz de criar algo de impactante ou inovador e que trai suas próprias convicções e posturas do passado envolvendo-se em polêmicas inócuas, patéticas – tais como defender a “qualidade” musical da dupla Sandy e Júnior ou comprar briga com um semanário para provar que não foi à praia de “cuecão”, mas sim com uma sunga de grife caríssima. Santa Vaca Profana, ninguém merece!

Já a sensação de nojo veio do fato do artista voltar a atacar a política cultural do Governo Federal, colocada em prática pela equipe do ministro Gilberto Gil, o qual Veloso garante em sua missiva ser “seu irmão e companheira tropicalista” (sic). Pobre Gil, com um amigo assim... O mais triste é que tais ataques vêm disfarçados de uma suposta defesa (bastante tardia, por sinal) do poeta Ferreira Gullar, que se expôs ao ridículo voluntariamente ao criticar na Folha de SP algo que, ele mesmo confessou, conhecia apenas de “ouvir dizer”. Existem sim várias frentes que merecem críticas e reparos no governo do PT, mas atacar justamente a política democrática, igualitária e transparente de distribuição de recursos implantada pelo Ministério da Cultura é ridículo e dá boas pistas da real agenda do decadente pop star da MPB.

Ora, ninguém aqui duvida que tanto Veloso quanto Gullar (ou quem quer que seja) têm total direito de expressar suas opiniões sobre qualquer assunto. Agora, o que causa repulsa e estranheza é ver esses pretensos “formadores de opinião” estrilando e arreganhando os dentes toda vez que alguém refuta suas afirmações. Será que se julgam os donos da verdade e acima de qualquer contestação? Tudo indica que sim...

Mas, voltando à carta em questão, parece mesmo que a intenção de Veloso foi pura e simplesmente se vingar das críticas que vêm recebendo (muito justas, por sinal) e provocar novas polêmicas para voltar a ganhar os holofotes. E nada melhor do que falar mal do PT e do governo Lula para receber atenção da mídia, não é mesmo? Só que o tiro saiu pela culatra e o artista conseguiu, no máximo, posar de bobo da corte neoliberal ao colocar-se do lado da mesma elite cultural que sempre “mamou nas tetas” do Governo. E ainda agride nosso bom senso ao usar como base para acusar Lula de “encobrir os graves crimes do PT” (sic), reportagens publicadas pela mesmíssima imprensa corporativa que o músico combatia quando ela dava apoio à ditadura militar (que o exilou) ou o rotulava e ridicularizava em suas páginas – naquele tempo ela era “golpista”, não é mesmo, Sr. Veloso?

Não satisfeito em se pautar por VEJA e similares para justificar seus ataques repletos de rancor ao PT e seus integrantes, Veloso ainda atira contra duas das únicas publicações sérias que existem no Brasil atualmente, Carta Capital e Caros Amigos, acusando-as de serem a “VEJA do Lula” e “veículo petista”. Ao tentar desqualificar tais publicações (só por terem ousado contestá-lo!), Veloso demonstra que é tão desonesto quanto ignorante, já que ambas se assumem corajosamente como “de esquerda” ao alinhar-se em favor das causas sociais e humanitárias, embora nunca se furtem de criticar duramente o governo Lula e o próprio PT.

E, se não bastasse ter se prestado a esse papel lamentável, o cantor ainda cospe no prato em que comeu, insultando raivosamente e de modo genérico simpatizantes, militantes e membros do Partido dos Trabalhadores (e, por tabela, esquerdistas em geral), tratando-os como se fossem criminosos ou equivalentes a “torcedores fanáticos do Flamengo” só porque têm a audácia de defender o governo atual! Assim, ataca justamente aqueles que, em sua grande maioria (eu, inclusive), sempre admiraram as suas músicas contestatórias, mas que agora fatalmente terão sérios problemas em “ouvir com os mesmo ouvidos” seu trabalho, já que fica difícil separar o artista de sua obra – ainda mais no caso de Veloso, cujas composições e atitudes sempre foram carregadas de um forte teor político de esquerda. A não ser, é claro, que o cantor sonhe mesmo que, ao virar “careta” e passar a defender os privilégios das elites, será aprovado pelos mesmos conservadores que antes combatia e o repudiavam... Será ele mais uma vítima da atual “Síndrome de Heloísa Helena”?

Analisando-se friamente o caso em questão chega-se, enfim, à conclusão óbvia que seria demais exigir coerência de alguém que quer nos convencer que Roberto Mangabeira (!?) é a solução para todos os problemas do Brasil e que figurinhas carimbadas da nossa elite cultural “global”, como Daniel Filho, Guel Arraes e Paula Lavigne, são pobres coitados, vitimas de um esquema de “stanilização” do MinC. Sinceramente, vai ser preciso mais do que mil anos de repetições para que essa sua estúpida retórica faça algum sentido, quanto mais convença alguém...

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Abaixo reproduzo a carta de Caetano Veloso e a resposta do jornalista Guilherme Scalzilli, publicadas na revista Caros Amigos de março:



Não gostou
Quem uniu o episódio Gullar aos cineastas não fui eu. Foi o Sá Leitão. E também veio dele o uso da expressão "stalinismo" para definir Gullar, e também a pergunta: "Por que a crítica de Gullar (ao MinC) é considerada um gesto democrático e a crítica a Gullar (por parte do MinC), um gesto autoritário?" No mesmo texto – que já era o segundo produzido por ele em resposta às modestas críticas feitas pelo poeta –, Leitão chamava os diretores e produtores de cinema de "ex-privilegiados", dizendo que por o serem é que esses cineastas apoiavam Gullar. Respondi estritamente ao texto de Leitão. Continuo seguro de que o fiz com muita propriedade. Meus argumentos eram que: 1. o MinC é poder público oficial (ministérios são braços do poder executivo), portanto agredir e desqualificar um cidadão que esboça críticas é pôr-se a um passo do autoritarismo; e 2. não é admissível que produtores e diretores que vêm trabalhando com cinema há décadas, ou novos produtores e diretores que alcançaram sucesso nos últimos anos, sejam chamados de "ex-privilegiados", pois isso faz pensar que o assessor do ministério ameaça desassistir propositadamente determinado grupo de pessoas em benefício de outras. Você pode discordar do meu ponto de vista, mas não há nada ali de ingenuidade ou má-fé. Talvez a razão mais forte para que eu respondesse tenha sido o apoio que Gilberto Gil pareceu dar às palavras de Leitão. Gilberto Gil é meu irmão e meu companheiro tropicalista. Se dependesse de mim, ele não estaria ocupando esse cargo público. Mas, uma vez que está, constato que sua presença ali tem sido boa para a visibilidade do MinC dentro do governo Lula, e do governo Lula no mundo. E também que ele procura atualizar as preocupações da política pública com o mundo da reprodutibilidade digital. Algumas decisões me parecem interessantes, como o tombamento de patrimônio imaterial (sendo o samba-de-roda o exemplo que mais me diz respeito, com o plano de reerguer o solar de Araújo Pinho em Santo Amaro para sediar o instituto que cuidaria dessa forma de expressão). Mas, quando o projeto da Ancinav apareceu, me senti instado a corroborar de público os protestos de grande número de produtores de cinema e televisão. Fiquei claramente do lado de Cacá Diegues e contra o projeto. Publiquei texto nesse sentido no jornal O Globo. No episódio Gullar, voltei a me sentir convidado a me manifestar. É simples: se Gil apóia uma atitude como a de Leitão e eu fico calado, um apoio automático meu a esse tipo de coisa se configura. Seu artigo foi a terceira reação negativa que meu texto suscitou. A primeira foi a matéria de capa de revista Carta Capital. Ali lia-se uma referência altamente desrespeitosa à minha pessoa. Mas não respondi porque li com atraso, a revista é semanal e julguei que não tinha opção a não ser deixar o assunto morrer. Depois li um artigo de Luiz Nassif na Folha de S. Paulo em que ele se diz surpreso por eu não perceber que o que há é uma troca de guarda no cinema. Também com atraso. E o jornal é diário. Bem, seu artigo me dá ensejo a voltar a tratar do assunto de forma clara. O senhor nos acusa, a mim e a Gullar, de estarmos agindo talvez como inocentes úteis na disputa eleitoral. Devo dizer que minha argumentação não se inspirou em – nem se presta a – propósitos eleitorais. Embora claramente não veja nada de antidemocrático em cidadãos quererem influenciar disputas eleitorais em curso. Ao contrário. Pretendo mesmo fazê-lo e tenho feito. Apareci duas vezes na televisão anunciando a fala de Roberto Mangabeira, que é meu candidato a candidato. E gostaria de perguntar por que a Caros Amigos não promove uma conversa longa e quente com ele. Percebi que tanto a Carta Capital quanto a Caros Amigos são simplesmente lulistas por uma atitude igual à das meninas bonitas que encontro no Rio e que, ao contrário do que disse Chico Buarque numa entrevista merecidamente famosa, são todas de esquerda: votam em Lula para a reeleição, apesar de criticarem a política econômica de Palocci, porque vêem a esquerda como um time de futebol pelo qual torcem. Não votei em Fernando Henrique para a reeleição e não votarei em Lula. Fui tão contra as manobras daquele para instituir a reeleição quanto sou às deste para encobrir a gravidade dos crimes cometidos pelo PT. Manobras que não encontram essa total resistência da mídia "golpista" que o senhor aponta. A mídia está e sempre esteve cheia de petistas. No mesmo número em que li seu artigo há uma bela entrevista de Paulinho da Viola em que ele desmente a afirmação de um entrevistador de que a mídia está toda contra Lula. A Carta Capital me parece ser a Veja do Lula. Nada, a não ser essa euforia desesperada nascida das novas pesquisas que vêem Lula capaz de reeleger-se, justifica uma matéria tão desonesta quanto aquela em que se escreveu que eu recebi procuração de Paula Lavigne para defender interesses econômicos dela como produtora. Não foi preciso. Acho os interesses de Paula Lavigne – assim como os de Mariza Leão, Guel Arraes ou Daniel Filho – legítimos. E se eles forem desrespeitados acintosamente – e esse desrespeito parecer ter a aprovação de Gil e, por procuração eterna, a minha – eu me manifesto. Quanto ao argumento de Nassif, surgem duas perguntas: por que Lavigne, Arraes ou Leão não são tidos como pertencentes à nova guarda? E por que o "choque de capitalismo" não se volta para os irmãos Mainardi, que, com publicidade ideológica, fizeram questão de produzir seus filmes com dinheiro de total risco, sem nem um centavo de patrocínio estatal ou subsídio? Essa atitude não é nem a da Conspiração, nem a de Fernando Meirelles, nem a de Walter Salles (este último bem que podia, até sozinho.), que são os exemplos dados por Nassif para opor aos velhos produtores habituados a receber benesses. Se Nassif fosse coerente e livre, era aos Mainardi que ele se referiria. Em suma, senhor Scalzilli, essa esquerda tipo torcida do Flamengo não dá. Meus problemas com ela não nasceram aqui. Eu os cultivo desde a Faculdade de Filosofia na Bahia. E foram escândalo durante o tropicalismo. Não me venha agora querer fingir que eu sou um desses "intelectuais de importância e lisura" (isto é, o que o senhor acha que seus leitores entenderão como "de esquerda”) que foram enrolados pelos "golpistas". O que é inconformista em mim, o que é rebelde e deseja transformar o mundo, enfim, o que em mim se pode chamar "de esquerda" está interessado nas teses de Roberto Mangabeira e gostaria de convidar pessoas que tenham sentimentos genuínos desse tipo para fazer uma tentativa não-conservadora com elas. Julgo-me, sim, independente, sobretudo se me comparo a gente como o senhor, sempre atrelada a um esquema de pensamento que, este sim, se recusa a enfrentar discussões verdadeiras.
Caetano Veloso, cantor e compositor, Rio de Janeiro

Resposta de Guilherme Scalzilli Réplica à carta do senhor Caetano Veloso:
Meu artigo não foi motivado pela disputa em torno do patrocínio. Redigi-o contra um raciocínio deturpado feito de duas simplificações complementares: a primeira institui que o governo Lula fracassou de tal forma que qualquer bravata infundada ganha status de veredicto; a outra baseia-se num sofismático antídoto contra a dissidência, criado para que as tentativas de defender a administração federal pareçam delírios de comunistas ignóbeis. A carta do senhor Caetano Veloso possui traços desta intolerância. Sua independência para apoiar o esquisitíssimo Roberto Mangabeira é equivalente à de quem prefere o idiossincrático Lula. Tanto a esquerda tipo torcida do Flamengo quanto a direita tipo torcida do Vasco são obsoletas e ridículas – essa terminologia, aliás, parece-me insuficiente para explicar a complexa e obscura disputa de poder que ora transcorre. Não me considero petista, embora tampouco veja problemas em sê-lo. Minha forma de inconformismo e rebeldia é reagir às tentativas de abortar o governo Lula e de desacreditar os muitos agentes idôneos que o apóiam. Lamento que a atitude seja estigmatizada, mas não me submeto a um consenso instituído pela desinformação e pelo preconceito.
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