sexta-feira, 28 de março de 2025
A série "Adolescência" é sobre Autismo e eu posso provar!
terça-feira, 25 de março de 2025
“Adolescência” mostra como a extrema-direita torna jovens desajustados em potenciais assassinos
Série é um soco no estômago que serve como alerta para sobre o tipo de pessoas que estão sendo criadas nos submundos da internet
- por André Lux, crítico-spam
A minissérie “Adolescência”, produzida pela Netflix, é um
soco no estômago que serve como um aterrador alerta para pais e educadores
sobre o tipo de jovens que estão criados nos submundos da internet, onde
predomina a ideologia machista, misógina e violenta da extrema-direita que
prega, entre outras barbaridades, que a culpa pela incapacidade de alguns
homens se relacionarem com mulheres é do feminismo.
Dividida em quatro capítulos, a série possui apenas quatro
longos planos-sequências filmados sem corte de maneira inacreditável, num
esforço hercúleo dos realizadores. Mas esta escolha vai muito além de uma mera
firula estética, pois a movimentação constante da câmera em torno dos atores e
suas interações gera um clima de suspense e ansiedade.
No primeiro episódio acompanhamos a prisão do adolescente
Jamie, de 13 anos, sua viagem até a delegacia e o interrogatório. No segundo,
seguimos a visita dos policiais até a escola na qual o jovem estudava, onde
tentam entender suas motivações. No terceiro, é a vez da visita de uma
psicóloga até a prisão e suas tentativas de entrar na psiquê do adolescente a
fim de traçar seu perfil psicológico. E no último, testemunhamos as
consequências das ações do rapaz na vida de sua família, principalmente o pai (Stephen
Graham, também um dos autores da série).
O grande mérito de “Adolescência” é não fazer julgamentos, nem
tentar justificar os atos do garoto, mas sim mostrar a realidade dos fatos para
que o espectador tire suas próprias conclusões. Embora não seja baseado em um fato
específico, o roteiro faz um apanhado de vários casos reais no Reino Unido
envolvendo adolescentes “INCELS” que cometeram atos violentos contra mulheres.
O termo “INCEL” significa “involuntary celibates” (celibatários
involuntários) ou seja, jovens membros de uma subcultura virtual que
se definem como incapazes de encontrar um parceiro romântico ou sexual, apesar
de desejarem ter. Quando eu tinha essa idade, éramos conhecidos como “virgens”
e sentíamos a mesma frustração ao não conseguir “pegar mulheres” como os outros
faziam. Mas as semelhanças param por aí.
Não sou reacionário que sonha com a volta “daquela época
onde as coisas eram melhores”, mas é inegável que os “virgens” de outrora, embora
frustrados e depressivos, não sentiam ódio pelas mulheres ou pela luta delas
por direitos iguais como os atuais Incels. A gente ficava chateado, achando que
a culpa era nossa mesmo por sermos feios ou desajeitados para os “jogos do amor”
e vida que segue.
O que mudou? A mudança veio com a invasão de gurus da extrema-direita
que, a fim de manipular os jovens em direção ao fascismo e à defesa de valores
machistas, saem por aí afirmando que eles não conseguem transar por causa do
feminismo e das mulheres mesmo, que são todas interesseiras e superficiais (um
deles é inclusive citado nominalmente). A série aborda isso de forma sutil ao
mostrar as publicações do protagonista em seu Instagram e o comentário de muitos
jovens, chamando-o de “Incel”, “Red Pill” e outros termos associados à
ideologia machista vomitada por extremistas de direita, fatores que passam
batidos para a maioria dos adultos, inclusive para os policiais.
E já existem estudos que demonstram isso de forma cabal, confira
neste link: They Walk Among Us: Misogyny, Right-Wing Authoritarianism and Social Dominance Orientation Predict the Endorsement of Incel Ideologies
(Misoginia, Autoritarismo de Direita e Orientação de Predominância Social
Predispõe a Aceitação da Ideologia Incel).
Os dois episódios mais impactantes são o terceiro, onde o
jovem assume seu machismo, misoginia e agressividade frente à psicóloga, e o
último, onde vemos a família dele sendo aos poucos destruída pela culpa e
pelos ataques que sofrem da comunidade. Neste segmento a série levanta o
questionamento a cerca do que pais e educadores devem fazer em relação aos limites da liberdade que os adolescentes devem ter ao acessar a internet. “Nós
demos um computador a ele e achamos que ele estava seguro aqui dentro de casa,
em seu quarto, mas a verdade é que ele não estava seguro. Será que nós deveríamos
ter feito mais?”, questiona a mãe do adolescente numa das cenas mais tocantes.
O desespero do pai cujo filho foi cooptado pelo extremismo de direita |
A realidade é que a enxurrada de gurus de extrema-direita na internet vem envenenando a mente da atual geração e isso passa desapercebido para a maioria dos pais e educadores. Muitos, inclusive, acham ótimo que seus filhos fiquem com a cara enfiada em celulares e computadores já que assim não os incomodam. Mas existem pais que querem ajudar seus filhos a não caírem nessa armadilha, porém simplesmente não sabem o que fazer já que, ao tentarem desviar a atenção dos jovens para atividades mais nobres como leitura, arte ou esportes, vão despertar a fúria deles tamanho o nível de viciamento que as redes proporcionam na mente.
Uma situação bastante complicada e que precisa ser encarada
com a importância que exige. Porque depois não vai adiantar chorar o leite
derramado...
Cotação: *****
quinta-feira, 20 de março de 2025
“Duna Parte 2” encerra a adaptação da obra de Frank Herbert de maneira formidável
Filme é excelente conclusão e os destaques vão novamente para o desenho de produção e os efeitos visuais, além da ênfase na mensagem contra os falsos messias
- por André Lux, crítico-spam
É impossível analisar “Duna – Parte 2” sem falar do primeiro,
já que é basicamente um único filme dividido em duas partes. Diferente de “O
Senhor dos Anéis”, de Peter Jackson, que dividiu o livro em três filmes rodados
simultaneamente, a segunda parte de Duna só começou a ser filmada depois do
lançamento do primeiro – e só foi confirmado depois que deu lucro ao estúdio!
Isso tem um lado bom e outro ruim. O bom é que permitiu ao
diretor Dennis Villeneuve fazer algumas mudanças em sua obra, como dar
mais leveza e humor à narrativa, algo que sempre agrada ao público dos cinemas
menos interessados em obras áridas e cerebrais.
O lado ruim é que algumas dessas mudanças de tom
influenciaram negativamente na caracterização de certos personagens, principalmente
o Stilgar, feito por Javier Barden, que no primeiro filme segue à risca a
persona arredia do livro, mas na sequência vira mais alívio cômico, quase um
bufão. Em uma das cenas mais engraçadas Villeneuve faz uma homenagem à “A
Vida de Brian”, do Monty Python que também tratava de falsos messias.
Outra alteração para pior foi a de reduzir os Harkonnens a meras bestas feras nazi-fasicistas, em especial o Raban, feito de forma descontrolada por Dave Bautista que grita o tempo todo e mata subalternos furiosamente em praticamente todas as cenas em que aparece. Infelizmente isso enfraquece os personagens, deixando o filme mais raso, como se fosse uma mera luta do bem (Atreides) contra o mal (Harkonnens).
A maior mudança, todavia, se deu em Chani (Zendaya) que toma
um rumo completamente oposto ao da obra original, mas isso é explicado pelo
diretor como necessário para dar mais ênfase à mensagem contra os perigos dos
falsos messias, que é um dos temas centrais dos livros de Frank Herbert. Só que
isso vai trazer uma série de problemas para as possíveis continuações da obra,
afinal Chani será a fiel concubina de Paul e mãe de seus futuros filhos.
“Duna – Parte 2” foca a maior atenção narrativa nas cenas de ação, no romance entre Paul e Chani e nas maquinações dos Atreides para manipular os Fremen por meio da falsa profecia do “salvador” que foi plantada lá pelas Bene Gesserits, fatores que deixam o filme bem mais palatável ao público em geral. Mas, para quem conhece a obra original, salta aos olhos uma omissão imperdoável: o roteiro deixa de lado a importância dos vermes da areia para Duna, já que são eles quem produzem a Especiaria, essencial para o funcionamento daquele universo. Basta dizer que sem ela não seriam mais possíveis as viagens espaciais! No filme parece que os vermes gigantes servem apenas como montarias - e, verdade seja dita, a sequência em que Paul tem que domar o verme pela primeira vez é de tirar o fôlego!
Apesar desses problemas, “Duna – Parte 2” é uma excelente
conclusão para a adaptação e os destaques vão novamente para o desenho de produção
e para os efeitos visuais primorosos. O elenco também é formidável, com
destaque para Timothée Chalamet que tem uma transformação notável de um jovem
inseguro e tímido para o guerreiro líder dos Fremens. Austin Butler também
impressiona como o sociopata Feyd-Rautha.
Até a trilha musical do abominável Hans Zimmer funciona já
que, felizmente, partiu para um experimentalismo quase tribal, deixando em
segundo plano temas bombásticos orquestrais que ele simplesmente é incapaz de
compor de forma minimamente competente.
Assim sendo, “Duna” é um prato requintado que vai agradar em
cheio quem procura ficção científica de qualidade e sabe apreciar um filme
extremamente bem realizado, repleto de nuances e inflexões narrativas que
captam a rica essência da obra original, principalmente as alegorias ao
petróleo, ao cristianismo e islamismo e à ecologia, porém com voz própria
dentro da linguagem cinematográfica.
Cotação: ****
segunda-feira, 17 de março de 2025
“Mickey 17” é uma grande porcaria!
Filme tolo e sem sentido tenta misturar ficção científica, crítica política e comédia sem sucesso
- por André Lux, crítico-spam
É uma grande porcaria este “Mickey 17”, o novo filme do
queridinho da crítica Bong Joon Ho que ganhou o Oscar de melhor diretor com “Parasita”,
uma obra supervalorizada na minha opinião. A Warner deu um cheque em branco
para o cineasta realizar seu próximo projeto e o resultado é desastroso em
todos os sentidos.
O filme custou 120 milhões de dólares e não vai render nem
metade, causando um gigantesco prejuízo para o estúdio. Mas não era para menos.
“Mickey 17” é um projeto tolo e sem sentido, que tenta misturar sem sucesso ficção
científica, crítica política e comédia, culpa de um roteiro caótico e da direção
frenética de Ho que se mostra incapaz de controlar seus atores, deixando todo
mundo histérico e apelando para um tipo de humor que faria vergonha para o extinto
Zorra Total da rede Globo.
Os piores são o sempre péssimo Mark Ruffalo, aqui fazendo
uma parodia grotesca de Trump, e Toni Collette como sua esposa, uma boa atriz
que às vezes descamba para o ridículo quando mal dirigida. O único que se salva
é o coitado do Robert Pattinson como Mickey, mas seu personagem é mal delineado
e tem mudanças de personalidade sem lógica, afinal são clones do original que
inclusive tem implante das memórias dele.
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Os insuportáveis |
O terceiro ato é incrivelmente arrastado, principalmente quando aparecem uns aliens nativos do planeta que pretendem colonizar e ameaçam uma guerra, mas é tudo muito chato e a solução para o conflito é simplesmente patética. O filme poderia ter meia hora a menos e a culpa disso é do próprio Bong Joon Ho já que é dele o corte final.
Feio (o desenho de produção é péssimo), mal dirigido,
arrastado e apelando para um tipo de humor rasteiro e histérico, “Mickey 17” é
um filme a ser evitado.
Cotação: *
terça-feira, 4 de março de 2025
Exagero e pretensão transformam “Nosferatu” em versão live action de “Hotel Transylvania”
Outros filmes do diretor Eggers sofrem do mesmo defeito: são desnecessariamente obscuros, modorrentos e pretensiosos
- por André Lux, crítico-spam
Fazia tempo que não via um filme tão chato e equivocado como
esta releitura de “Nosferatu” dirigida pelo cineasta Robert Eggers, que vem se
especializando no gênero terror e virou queridinho da crítica. Porém, o único
filme dele que me agradou foi “O Farol”. Os outros sofrem do mesmo defeito
deste: são desnecessariamente obscuros, modorrentos e pretensiosos.
Como todo mundo já sabe, o “Nosferatu” original é um filme
mudo dirigido por Murnau em 1922. Na verdade, era para ser uma adaptação de “Dracula”,
de Bram Stoker, mas quando os realizadores não conseguiram os direitos da obra,
simplesmente mudaram o nome dos personagens e algumas situações, o que gerou um
processo movido pela viúva do escritor e na quase destruição total da película
(felizmente algumas cópias sobreviveram). A mesma história foi novamente
adaptada por Werner Herzog em 1979, com Klaus Kinski no papel título.
Agora é a vez de Eggers fazer a releitura do original e, rapaz,
ele falhou feio desta vez. Ele erra em alguns elementos que deveriam ser primordiais
para o sucesso da empreitada. A começar pela fotografia que, embora tenha
vários planos bonitos, é escura ao ponto de simplesmente ser impossível ver o
que se passa na tela grande parte do tempo. Uma coisa é ser sombrio e
contrastado, outra é ser um completo breu. O cineasta também abusa de
movimentos de câmera repetitivos que saem do nada e chegam a lugar nenhum, em uma
tentativa “artística” de gerar medo.
O roteiro também não traz nada de novo ao gênero, ou seja,
quem já leu o livro ou viu as inúmeras adaptações cinematográficas de “Drácula”
vai ficar entediado e até irritado por causa da edição modorrenta do filme. O
personagem feminino principal não tem qualquer nuance ou arco. Ela já começa o
filme totalmente histérica e não tem para onde ir, o que obriga a atriz
Lily-Rose Depp a gritar, espumar e rolar pelo chão de forma cada vez mais
ridícula e descontrolada, ao ponto de gerar risos na plateia. Perto dela, a
menina de “O Exorcista” parece calma.
Nem mesmo o coitado do Willem Dafoe escapa da canastrice geral, fazendo o caçador de vampiros que deveria ser o Van Helsing do original, e também se perde numa atuação caricata na qual ainda tem que proferir ataques contra a ciência em favor de um misticismo tosco, algo muito inadequado para os dias de terraplanismo em que vivemos.
Mas a âncora que afunda de vez o filme é personagem título, em uma caracterização ridícula feita por Bill Skarsgard, com direito a bigodão estilo Leôncio do Pica-Pau, cujo sotaque extremamente carregado me fez lembrar do Drácula da animação “Hotel Transylvania”, do Adam Sandler.
Para piorar, o diretor
parece que ficou com vergonha do seu Nosferatu e o deixa escondido a maior
parte do filme, chegando a desfocá-lo em primeiro plano, algo que consegue
apenas gerar irritação pois dá a impressão que a projeção está fora de foco!
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Nosferatu e Drácula do Adam Sandler: separrrrrrradossssss no nasssssscimentooooooo |
A trilha musical de um tal de Robin Carolan é fraca e repleta de clichês do gênero terror. Basta comparar com a música sensacional composta por Wojciech Kilar para o “Drácula” de Francis Ford Coppola. Por sinal, é impossível não comparar “Nosferatu” com a exuberante obra de Coppola e o novo perde feio, mas muito feio, em todos os quesitos.
Enfim, uma grande perda de tempo que não merece os elogios
que vem recebendo por aí. Novamente estão julgando um filme pelo que ele
deveria ser e também pela pretensão de quem o dirigiu e não pela obra em si
que, diga-se de passagem, é uma bela porcaria.
Cotação: *
“Solaris” é uma ficção científica que reflete sobre a natureza humana
Assim como reflete um dos personagens sobre o enigmático planeta, o filme apresenta apenas escolhas, cabendo ao espectador fazer a sua
- por André Lux, crítico-spam
Há pelo menos uma
cena antológica em "Solaris" de Steven Soderbergh: ao falar sobre a
descoberta do estranho planeta que dá nome ao filme com seu amigo psiquiatra
Chris Kelvin (George
Clooney), o cientista Gibarian descreve: "Ao observarmos Solaris,
ele reagia como se soubesse que estava sendo observado". Ao mesmo tempo em
que essa fala é proferida, observamos a bela Rheya (Natascha McElhone)
desfilando sedutoramente na tela, reagindo ao olhar penetrante de Kelvin. Essa
cena primorosamente dirigida e editada é a chave para a compreensão do filme
como um todo, especialmente a sua conclusão.
Baseado no livro do escritor polonês Stanislaw Lem, "Solaris" narra a
história de um grupo de cientistas a bordo de uma estação espacial em órbita de
um planeta que parece ter vida própria e estranhos poderes, capaz de
materializar sonhos e desejos dos tripulantes levando todos à beira da loucura.
Para tentar solucionar o enigma, é enviado ao local o psiquiatra Kelvin, que
passa também a sofrer com as aparições de sua falecida esposa cuja morte o
deixou traumatizado.
Essa trama já havia sido adaptada para os cinemas em 1972 pelo pretensioso
cineasta russo Andrei Tarkovsky. Embora a nova versão também tenha um ritmo
lento e bastante cerebral, as semelhanças entre as duas versões acabam aí. No
primeiro filme predominava um clima árido desprovido de emoção e sobravam
discussões filosóficas enigmáticas e enfadonhas, bem como intermináveis sequências
que nada acrescentavam à trama (como um passeio de carro pelas ruas de Moscou
que durava longos minutos!). Tudo isso prejudicava a narrativa e alienava o
espectador, de tal forma que transforma a conclusão do filme em algo
praticamente indecifrável.
Já Soderbergh, também autor do roteiro da nova versão, preferiu investir em um
clima mais humano dando ênfase ao relacionamento do casal central, cujos
encontros e desencontros são apresentados por meio de uma narrativa brilhante e
convincente, na qual presente, passado e futuro se misturam e se fundem sem
nunca perder o fio da meada. É louvável o grau de maturidade que o diretor tem
ao analisar a relação do casal, fato que parece incomodar algumas pessoas
(prova disso é a ridícula polêmica levantada em relação à nudez de Clooney em
uma cena casual).
Ao contrário da verborrágica e indecifrável fita de Tarkovsky, as questões
levantadas pelo autor do livro - muitas delas relativas à própria natureza do
ser humano - ficam perfeitamente claras na nova versão e, portanto, relevantes
tanto para a trama do filme quanto para o espectador mais atento. É nesses
momentos que "Solaris" chega perto de tornar-se uma obra-prima da
ficção científica.
Pena que o filme caia um pouco quando surgem em cena os atores coadjuvantes
Jeremy Davies (como Snow) e Viola Davis (comandante Gordon), pois ambos são
muito fracos e destoam do restante. O visual do planeta também deixa a desejar
(ficou parecendo uma bexiga cor-de-rosa que brilha no escuro) e perde feio se
comparado ao do filme de Tarkovsky, que era muito mais enigmático e
perturbador.
Muitos reclamam também da conclusão do novo filme, que
realmente difere da do livro e da primeira versão, mas a verdade é que ela em
nada afeta o resultado final. Apenas demonstra que Soderbergh não teve medo de
apresentar sua própria versão do que o planeta buscava - fato deixado em aberto
na obra original.
Quem procura algo mais no cinema do que simples diversão e entretenimento
descerebrado deve assistir ''Solaris'',
uma ficção científica que não procura dar respostas ou soluções fáceis e
certamente vai exigir um maior grau de maturidade e atenção da plateia. Assim
como reflete um dos personagens sobre a natureza do enigmático planeta, o filme
apresenta apenas escolhas, cabendo ao espectador fazer a sua.
Cotação: ****
“A Substância” falha ao não criticar o capitalismo
Nada faz sentido neste filme grotesco que acaba sendo um desserviço à causa feminista que pretende defender
- por André Lux, crítico-spam
“A Substância” é mais um daqueles filmes ruins que por
motivos misteriosos vira queridinho da crítica e ganha prêmios nos festivais da
indústria cultural.
Sim, eu entendi a MENSAGEM do filme de criticar a ganância
dos executivos dessa mesma indústria cultural, que desprezam as mulheres depois
que chegam à maturidade em sua ânsia por lucrar em cima dos corpos perfeitos
das jovenzinhas. Essa lógica é concentrada num personagem extremamente caricato
vivido por Dennis Quaid.
Mas mensagens não garantem a qualidade de uma obra de arte,
por mais bem intencionada que seja. E aqui essa pretensão de criticar a
ditadura da beleza é rasa como uma poça de água já que, em momento algum, toca
na real causa dela: o capitalismo.
Criticar essa realidade sem enfiar o dedo na ferida do modo
de produção capitalista, que busca o lucro acima de tudo e de todos, não faz
sentido. Por isso “A Substância” vira apenas uma colcha de retalhos de clichês
de filmes de terror “gore”, apelando a todo momento para lente grande angular, efeitos
especiais nojentos, sangue e vísceras, virando uma espécie de “A Mosca” encontra
“O Enigma de Outro Mundo” – dois excelentes filmes do gênero.
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Demi Moore virando A Coisa |
Sobra para a coitada da Demi Moore ficar o tempo todo fazendo caras e bocas, enquanto tem seu corpo cada vez mais coberto com maquiagem grotesca ao ponto de virar um monstro no fim do filme. Por sinal, a conclusão é simplesmente ridícula, digna de risos, ainda mais porque é levada a sério. Faria sentido se, no fim, descobríssemos que tudo não passou de um pesadelo ou delírio da protagonista, mas como isso não acontece não dá pra acreditar que aquela figura monstruosa não provoque reações de nojo nas pessoas, que inclusive a aplaudem.
O roteiro é cheio de furos e não explica nem mesmo como
funciona a tal substância, quem está por trás dela e sequer como é comprada. A
atriz que faz a jovem Demi Moore é sofrível e aparece o tempo todo
hiper-sexualizada para atrair atenção, fazendo justamente aquilo que o filme
dizia criticar. E se ela era uma versão jovem da protagonista, como é que
ninguém a reconhecia?
Enfim, nada faz sentido neste filme grotesco que no fim das
contas acaba sendo um desserviço à causa feminista que pretende defender. O
mais triste foi ver Demi Moore perdendo o Oscar justamente para
uma atriz jovenzinha, confirmando aquilo que o filme critica, mas reforçando
que essa lógica nunca vai mudar enquanto o capitalismo existir.
Cotação: *
segunda-feira, 3 de março de 2025
“Alien Romulus” é um Alien para a geração tik-tok
A pílula mais amarga do filme é a insistência do Ridley Scott em inserir na trama as besteiras que inventou para os ridículos “Prometheus” e “Alien Covenant”
- por André Lux,
crítico-spam temente ao Alien
Quem segue meu canal sabe que sou grande apreciador da
franquia Alien, especialmente do primeiro que considero um dos mais
aterrorizantes filmes de terror já feitos. Gosto até do polêmico “Alien 3” e
dos crossovers entre Alien e Predador. Mas parei por aí.
A partir de “Alien: A Ressureição” a franquia oficial
desandou e piorou muito quando o próprio Ridley Scott, cineasta que dirigiu o
primeiro Alien, voltou a explorar este universo e nos brindou com “Prometheus”
e “Alien Covenant”, de longe dois dos filmes mais ridículos já produzidos por
um grande estúdio.
Surge então “Alien Romulus” que prometeu trazer a franquia
de volta aos trilhos. Ledo engano. Embora tenha sido dirigido por um cineasta
competente, Fed Alvarez, o roteiro é um verdadeiro queijo suíço, repleto de furos
e besteiras que acabam comprometendo o esforço técnico investido no filme.
Já começa a história com a bendita companhia achando o Alien
do primeiro filme encapsulado num casulo em meio aos destroços da Nostromo. Mas
como isso é possível se a nave foi destruída por nada menos do que três
explosões nucleares e o próprio monstro foi ejetado pela Ripley a milhares de quilômetros
do local da explosão? E por que diabos iriam vasculhar o espaço atrás do Alien
se já sabiam da transmissão que vinha do planeta onde existem centenas de ovos?
O mais triste é que, já que resolveram trazer a criatura
original, podiam ter feito algo bem melhor e coerente mostrando o caos e a
destruição causada por ela na estação espacial. Mas, não, ao invés disso
inventam uma trama sem pé nem cabeça onde um bando de adolescentes idiotas
resolve sair do planeta onde são obrigados a trabalhar praticamente como
escravos e ir buscar suprimentos na tal estação espacial que tem o nome de
Romulus/Remus.
A partir daí as perguntas começam a pipocar no cérebro de
qualquer um que tenha mais do que dois neurônios funcionais: por que a
companhia abandonaria a estação, na qual investiram milhões em busca de domar o
“organismo perfeito”, na órbita do planeta onde ela operava? Por que jogaram no
lixo um androide em perfeito estado que tem acesso às dependências da empresa?
Como os jovens poderiam sair do planeta usando uma nave da própria companhia
sem qualquer tipo de represália? E por aí vai...
Tudo isso seria desculpável se o filme ao menos seguisse a
lógica criada pela própria franquia, todavia, como foi feito para tentar
prender a atenção dos jovens espectadores acostumados a ver vídeos de 2 minutos
no Tik Tok, apelam para uma edição frenética e desmiolada na qual o tempo de
duração da impregnação de um personagem pelo facehugger até o surgimento do monstro
em sua forma final é de 5 minutos.
Se não bastasse tudo isso, ainda trazem de volta um “irmão
gêmeo” do androide Ash do primeiro filme num efeito de computação gráfica
sofrível que desrespeita a memória do ator Ian Holm e ainda acaba com a lógica
do original. Ora, naquele filme o sintético foi colocado em segredo na nave justamente
para ajudar a trazer o Alien de volta à terra. Se existissem outras cópias
daquele mesmo androide andando por aí nas naves da companhia, todo mundo
saberia de cara que ele era um deles, não é mesmo?
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O gêmeo do Ash: destruindo a lógica do primeiro filme |
Mas a pílula mais amarga que existe em “Alien Romulus” é a insistência do Ridley Scott, que é um dos produtores do filme, em inserir na trama as besteiras que inventou para os ridículos “Prometheus” e “Alien Covenant”, ou seja, aquela maldita gosma preta que cria Aliens do nada e os patéticos Engenheiros, que pareciam uns bebês mutantes bombados. Isso faz o filme desembocar em mais uma conclusão tosca, na qual a protagonista tem que lutar contra um híbrido entre Aliens, humanos e Engenheiros que consegue ser ainda pior que o Newborn de “Alien Ressureição”.
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Besta quadrada: é um alien? É um humano? É um engenheiro? |
Ao que parece, Ridley Scott parece determinado a destruir o legado de todos os filmes bacanas que fez no passado, haja visto que também é responsável pelas bombas “Blade Runner 2049” e “Gladiador 2”. Alguém precisa parar esse homem!
Apesar de todos esses pontos negativos, “Alien Romulus” é perfeitamente
passável, tem algumas sequências tensas e a parte técnica é primorosa, usando
muitos efeitos práticos nas criaturas. Mas é pouco frente ao que poderia ter sido
feito com o material.
Cotação: **
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025
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terça-feira, 28 de maio de 2024
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segunda-feira, 13 de maio de 2024
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quarta-feira, 15 de março de 2023
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quarta-feira, 22 de junho de 2022
“Obi-Wan Kenobi” termina de forma constrangedora
Série ridícula é mais um prego no caixão da franquia Star Wars que a Disney parece estar disposta a enterrar
- por André Lux
Termina de forma patética essa série que obviamente foi
produzida sem o menor cuidado por gente que não conhece Star Wars com uma única
intenção: espremer a franquia o máximo possível no menor tempo disponível.
Chega a ser constrangedor ver bons atores como Ewan McGregor,
Jimmy Smiths e Liam Neeson (numa rápida
e inútil aparição) em algo tão ruim e mal feito. Se fosse só isso nem teria
tanto problema, todavia essa série ainda arrebenta com a continuidade do que
foi visto antes na trilogia original e nem mesmo tenta arrumar desculpas para
isso. Quer dizer então que a princesa Leia teve essa emocionante aventura
com o mestre Jedi Obi-Wan Kenobi e dez anos depois manda uma mensagem impessoal
a alguém que “lutou ao lado de seu pai nas guerras clônicas”? Ninguém merece!
Novamente vemos um duelo entre Obi-Wan e Darth Vader que não
apenas é pessimamente dirigido e coreografado, mas não tem peso algum e
apresenta uma série de situações simplesmente ridículas, tais como o vilão virando
as costas e saindo depois de soterrar Kenobi com um monte de rochas e depois
Kenobi fazendo o mesmo quando Vader estava praticamente derrotado, inclusive
com a máscara destruída (o que foi copiado descaradamente da série “Rebels”). “Ah,
tudo bem, vou deixar ele aí para morrer, né?”, certamente pensou o Jedi. Claro
que vai dar certo, afinal deu certo da outra vez que deixou ele queimando na
lava, não é mesmo?
E que porcaria é essa tal de Reva? Não bastasse ser
interpretada por uma atriz péssima, é uma personagem ridícula que age de forma totalmente
incoerente e tem motivações que não fazem o menor sentido. Sem dizer que
certamente é imortal, afinal foi atravessada no peito pelo sabre de luz de Darth
Vader, mas continuou correndo por aí apenas com um leve desconforto. Lembrou-me
do Cavaleiro Negro do hilariante “Monty Python em Busca do Cálice Sagrado” o qual,
depois de ter seu braço decepado pelo Rei Arthur, brada: “Não foi nada, apenas
um ferimento leve!”. E como foi que ela conseguiu sair daquele planeta e viajar
até Tatooine se não havia nenhuma nave naquele lugar onde foi abandonada?
O mais ridículo é ver os produtores da série tentando criar
suspense e tensão com cenas de perseguição contra personagens que todo mundo
sabe que NÃO VÃO MORRER! Outra besteira insuportável: Kenobi é apresentado nos
primeiros episódios como alguém abatido por estresse pós-traumático e desconectado
da Força, incapaz até de mexer um pequeno objeto, porém do nada ele
simplesmente começa a lutar, segurar inundações e levantar pedras enormes numa
boa, como se nada tivesse acontecido. Como assim?
A reação dos fãs tem sido tão negativa que tentaram salvar
alguma coisa neste episódio final – chegaram até a finalmente usar os temas
clássicos compostos por John Williams! Porém, é muito tarde e não tinha mesmo
como arrumar o que já havia sido filmado e tudo termina de forma grotesca. “Obi-Wan
Kenobi” acabe sendo apenas mais um prego no caixão da franquia Star Wars que a
Disney parece estar realmente disposta a enterrar. Lamentável.
Cotação: *
quarta-feira, 15 de junho de 2022
Quinto episódio de “Obi-Wan Kenoby” é o melhor até agora
Mas a série continua ruim e não tem a menor razão de existir do ponto de vista dramático
- por André Lux
Depois de quatro episódio desastrosos (o quarto não vale a
pena nem comentar de tão ruim), a série “Obi-Wan Kenoby” apresenta seu melhor capítulo
até agora. Não que isso seja um grande elogio, mas perto dos outros até que deu
para gostar de alguns elementos.
As besteiras, situações ridículas, furos no roteiro e incongruências
com o que foi visto antes nos filmes continuam e são tantos que dá para escrever
um livro sobre eles, mas algumas pontas soltas foram ao menos parcialmente
explicadas (como o fato da Terceira Irmã saber que Anakin é Darth Vader e o
mesmo ter deixado ela viva no episódio anterior). Os diálogos são menos
constrangedores e algumas cenas de ação e luta parecem menos letárgicas.
Há um flashback de duelo entre Kenobi e Anakin rejuvenescidos
por CGI na época das prequels que gera uma certa nostalgia positiva, por mais
que estes filmes sejam sofríveis e seria melhor esquecer que existem.
Todavia, a direção de Deborah Chow continua péssima, algumas
tomadas aparentam ter sido feitas sem qualquer empenho e Obi-Wan insiste em
agir como um completo imbecil, muitas vezes atuando tal qual um covarde - chega
ao ponto de deixar uma mensagem comprometedora contra Luke e Leia nas mãos de
um notório vigarista!
Irrita também o fato de não usarem os temas clássicos de
John Williams nem mesmo quando a série clama por eles, principalmente com Vader
em cena! A série certamente seria bem menos sofrível se tivesse uma música
melhor e que fizesse uso dos temas canônicos interpolados ao material novo. Pelo
visto a Disney não quer pagar direitos autorais ao Williams, pois só isso
explica uma decisão estúpia como essa.
Enfim, a série continua muito ruim e não tem a menor
razão de existir do ponto de vista dramático simplesmente porque sabemos de
antemão que nenhum dos personagens principais vai morrer, já que estão todos vivos
e passando bem no episódio IV da trilogia original.
“Obi-Wan Kenobi” é só mais um tiro no pé que a Disney dá em
relação à franquia criada por George Lucas e vai continuar agradando apenas os
fãs menos exigentes, do tipo que tem orgasmo com qualquer porcaria desde que
traga o título Star Wars atrelado a ela.
Cotação: **
sexta-feira, 3 de junho de 2022
Episódio 3 de “Obi-Wan Kenobi” traz luta patética entre o protagonista e Darth Vader
Série péssima continua desrespeitando a mitologia da saga e
consegue transformar até o icônico vilão num idiota incompetente
- por André Lux
Terminei minha análise dos episódios 1 e 2 de “Obi-Wan
Kenobi” dizendo que a série poderia melhorar, mas infelizmente não vai. O terceiro
é igualmente ruim, desconjuntado, desrespeitoso com o que foi visto antes nos
filmes e consegue transformar até o icônico Darth Vader num idiota incompetente.
Isso mesmo!
O episódio começa com Kenobi e Leia chegando a um planeta
aleatório e, depois de uma série de incidentes tediosos onde o Jedi age
novamente como um completo imbecil, eles são salvos por uma mulher que vai
levar ambos para fora do planeta. Mas, os Inquisidores descobrem que eles estão
lá e enviam sondas e o próprio Darth Vader vai atrás de Kenobi.
Isso já levanta várias questões: por que demoraram tanto
para descobrir o paradeiro deles, afinal a nave onde estavam era um cargueiro e
certamente tinha um plano de voo bem fácil de alcançar, certo? E por que
simplesmente não pegaram a nave antes mesmo de deixar a atmosfera ou
imediatamente no momento que chegou ao destino? O Império ficou sem radares e
naves por acaso? Esses tipos de furos no roteiro só existem para tentar causar suspense,
porém falham miseravelmente e revelam apenas incompetência e preguiça dos
autores.
As cenas em que Vader aparece são as melhores, porém quando
começa o inevitável confronto entre ele e Kenobi tudo fica constrangedor. A
coreografia da luta é bisonha e a música é simplesmente patética, nem mesmo
utilizam o tema de Vader, da Força ou qualquer outro que lembre minimamente
Star Wars. Uma vergonha!
Vader domina Obi-Wan com uma facilidade que dá pena e ele só
não vira churrasco porque o vilão desiste no meio da tortura e o joga longe,
dando assim chance para que um personagem aleatório provoque um pequeno caos
que permite o resgate do Jedi. Mas, olha, essa cena é ridícula, pois o
todo-poderoso Darth Vader, que está a poucos metros do seu ex-mentor do qual
sente ódio monstruoso, simplesmente fica parado olhando ele ser levado por um
robô lento quando poderia facilmente atravessar o fogo, flutuar sobre, dar a
volta rapidamente, apenas pegar os dois com a Força e trazê-los até ele ou
simplesmente APAGAR O FOGO COM A FORÇA COMO ELE MESMO TINHA FEITO MOMENTOS
ANTES!
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Darth Vader: "Fale com a mão" |
Claro que não fez nada disso e ficou lá parado como um pateta porque a série precisa continuar e vão obviamente fazer os dois lutar novamente mais à frente. Então, dane-se qualquer lógica ou respeito à mitologia dos personagens canônicos. O mais importante é esticar ao máximo possível a metragem da produção para gerar lucro aos acionistas da Disney.
Cotação: *1/2
quarta-feira, 1 de junho de 2022
Episódios 1 e 2 de “Obi-Wan Kenobi” apontam para mais um desastre produzido pela Disney
É triste ver Star Wars sendo destruída por uma corporação que tem como único objetivo ganhar dinheiro sem qualquer preocupação com a qualidade
- por André Lux
A Disney parece mesmo determinada a destruir a franquia Star
Wars produzindo incontáveis séries, filmes e subprodutos sem qualquer
preocupação com a qualidade e até mesmo com a própria mitologia da saga.
Depois da problemática trilogia “sequel” (episódios 7, 8 e 9
da história principal), a Lucasfilm concentrou sua produção em séries para seu
canal de streaming que vem variando do medíocre (“O Mandaloriano”) ao
simplesmente ridículo (“O Livro de Boba Fett”).
Chega agora a mini-série “Obi-Wan Kenobi” que se passa dez
anos depois dos eventos narrados no grotesco “Episódio 3: A Vingança dos Sith”,
certamente o pior filme da saga. Acompanhamos agora Kenobi vivendo exilado no
planeta Tatooine (lá de novo!) enquanto observa o menino Luke Skywalker e é procurado
por Inquisidores do Império que caçam Jedis sobreviventes.
É uma premissa até interessante, mas os dois primeiros episódios
já deixam claro que tudo será arruinado por roteiros ridículos, direções pífias,
atores canhestros perdidos em personagens rasos e caricatos, efeitos especiais
fracos e trilha musical genérica (crime dos crimes em se tratando de Star
Wars), onde até mesmo o tema principal composto pelo mestre John Williams soa sem
inspiração.
Ewan McGregor retorna ao papel de Kenobi catatônico, abatido
e desprovido de motivações. Ora, uma coisa é ele estar traumatizado pelos fatos
trágicos que levaram à queda de seu pupilo Anakin e pela ascensão do Império,
outra é agir como alguém que parece estar morto por dentro, sem qualquer
sentido de vida. Mas não foi ele quem quis ir para o planeta deserto justamente
para proteger Luke a fim de um dia poder treiná-lo e restaurar a ordem Jedi? No
mínimo Kenobi estaria em constante movimento, aprimorando suas habilidades Jedi
para essa missão. Mas, não. O que vemos aqui é um chato de meia idade se
arrastando como um zumbi pelo deserto...
Se não bastasse isso, o personagem age de forma incoerente
com o que foi mostrado antes, tomando decisões burras, se expondo
desnecessariamente ou simplesmente apanhando de vilões que ele deveria derrotar
com um simples aceno de mão. Chega a irritar a estupidez dos roteiros que ainda
por cima são repletos de furos e batem de frente com o que foi apresentado nos
filmes. Enfiaram até a coitada da princesa Leia no enredo como uma criança de
10 anos irritante e mimada.
Pode ser que melhore? Pode, mas sinceramente eu duvido. É
realmente triste ver uma franquia tão bacana e amada como Star Wars sendo
literalmente destruída em pedaços por uma corporação que tem como único
objetivo ganhar dinheiro tirando leite de pedra sem qualquer preocupação real pela
qualidade dos produtos.
Cotação (Episódios 1 e 2): *1/2
domingo, 20 de fevereiro de 2022
Chato e desconjuntado, “Mães Paralelas” ao menos tem mensagem contra o fascismo
A única cena que passa alguma emoção é a derradeira, uma denúncia dos horrores da guerra civil espanhola contra o fascista general Franco
- por André Lux
“Mães Paralelas” é mais um filme chato, desconjuntado e
modorrento do cineasta Pedro Almodóvar, queridinho da crítica especializada e
de cinéfilos pomposos, que faz tempo não produz nada que realmente tenha a
qualidade de alguns de seus trabalhos antigos.
A única cena interessante e que passa alguma emoção é a
derradeira, uma denúncia dos horrores da guerra civil espanhola contra o
fascista general Franco, porém é tão desconectada do resto do filme que
praticamente passa em branco.
Sobra então assistir uma trama tola e arrastada sobre duas
mães que dão à luz no mesmo dia e se envolvem de forma nada convincente
enquanto um mistério acontece envolvendo os bebês delas. Mas o suspense é muito
mal construído e quando vem a revelação do que realmente aconteceu não tem
qualquer impacto. A trilha musical é exagerada e às vezes descamba para o
terror sem a menor lógica.
O elenco é fraco, com Penélope Cruz novamente tentando em
vão parecer uma mulher linda e exuberante, enquanto a atriz que faz a outra mãe
é simplesmente pavorosa. Ao menos nem todos os homens no filme são apresentados
como estupradores abusivos: Arturo é apenas um adúltero que tenta forçar a
protagonista a abortar, o que é um avanço no caso de Almodóvar, não é mesmo? As
mulheres, porém, são retratadas como descontroladas, possessivas e sofredoras como
sempre.
A mensagem contra o fascismo é sempre bem-vinda, mesmo sendo
tão frouxa e mal amarrada. Por causa disso “Mães Paralelas” ganha uma estrela a
mais. Claro que ninguém em sã consciência pode falar mal de Almodóvar caso
contrário será xingado e cancelado. Ainda bem que eu nunca tive essa tal de sã
consciência...
Cotação: * *
sexta-feira, 24 de dezembro de 2021
“Matrix Resurrections”: Wachowski trola os fãs e dá um tiro no pé da franquia
Boas ideias são desperdiçadas em roteiro fraco e
precariedade técnica, algo que entra em conflito gritante com a trilogia
original
- por André Lux
Expectativa é tudo quando se trata de apreciar um novo filme
que pretende dar continuidade a uma franquia bem sucedida. Foi assim com Star
Wars. É assim com Star Trek. E não poderia deixar de ser com Matrix. Ou seja, é
praticamente impossível para qualquer apreciador assistir ao novo produto sem
trazer consigo a bagagem de tudo que veio antes.
O primeiro filme data de um longínquo 1999 e revolucionou a
sétima arte em termos de novas tecnologias de filmagem, efeitos especiais e incorporação
de diversos aspectos da cultura pop e filosóficos em uma única obra. Visto
hoje, o “Matrix” original continua impressionante, porém seu impacto jamais
será o mesmo para quem o assiste pela primeira vez agora, haja visto as
centenas de imitações que vieram na sua esteira. Os efeitos e truques de
filmagens que na época eram inovadores, hoje parecem meros clichês.
Até mesmo as duas continuações, “Matrix Reloaded” e “Matrix Revolutions”,
falharam em impressionar e muita gente simplesmente não gostou porque os
realizadores, os irmãos Wachowski, subverteram as expectativas e fecharam a
trilogia de forma bem diferente do que se esperava do clichê da “jornada do
herói”. Eu fui um dos poucos que realmente sacaram as intenções dos dois filmes
e gosto deles até hoje, mesmo reconhecendo seus defeitos (leia aqui minha análise da trilogia).
Chega agora, 20 anos depois de “Revolutions”, a quarta parte
da franquia, intitulada “Matrix Resurrections”. A grande pergunta sobre o filme
é: por que foi feito? E a resposta está no próprio longa, em uma das várias tiradas
sarcásticas que os roteiristas inventaram para rir de si mesmos: porque a Warner
Brothers, detentora dos direitos, iria dar sequência à franquia com ou sem a
participação de seus criadores, que hoje são duas mulheres transexuais Lana e
Lily Wachowski (antes Larry e Andy), embora somente Lana aceitou participar da
produção de “Resurrections”.
Já que foi forçada a fazer a nova sequência contra sua
vontade, a cineasta optou por sabotar seu próprio filme. Embora “Revolutions”
tenha fechado a trilogia original sem deixar muitas pontas soltas para uma
continuação, obviamente o universo de Matrix poderia ser explorado de inúmeras
formas, mas Lana optou pelo caminho mais fácil: fazer uma espécie de reboot do
primeiro filme ao mesmo tempo que dá sequência aos eventos do último, algo que
está na moda hoje em Hollywood e quase sempre resulta em fracasso junto aos
fãs.
“Resurrections” é uma colcha de retalhos que mistura boas ideias,
nostalgia e soluções simplistas. Mas são as duas últimas que predominam e as
(poucas) premissas interessantes são desperdiçadas e não chegam a lugar algum.
A melhor coisa acaba sendo o primeiro ato, quando Neo, novamente preso à
Matrix, começa a perceber que algo está errado quando é obrigado a fazer uma
continuação da série de videogames de sucesso chamado, bem... Matrix. E aí Wachowski
aproveita para alfinetar a lógica corporativa que quer tirar leite de pedra
dessas franquias, ao mesmo tempo que ironiza a falta de entendimento do público
médio sobre os reais significados de Matrix.
É uma pena que tudo isso seja esquecido a partir do segundo
ato que vira uma mera releitura do que já foi visto (inclusive com várias
inserções de cenas dos filmes anteriores), com os personagens repetindo o que
já foi feito, só que sem a menor vibração, suspense ou emoção. Keanu Reeves
nunca foi um bom ator, mas aqui está catatônico, sussurrando seus diálogos como
se estivesse... prestes... a... ter... um... ataque... de... cólica... intestinal. O resto do elenco é fraco e parece saído de uma série para adolescentes
da Netflix. No terceiro ato alguns diálogos mais profundos melhoram a
experiência, mas ainda é muito pouco perto do que já foi mostrado antes.
O que mais chama a atenção, além do roteiro fraco e sem qualquer
inspiração, é a precariedade técnica do filme, algo que entra em conflito gritante
com a trilogia original: lutas coreografadas de modo apressado, perseguições simplórias
e efeitos visuais capengas. Fica evidente que faltou dinheiro e certamente a
pandemia da Covid-19 atrapalhou bastantes as filmagens. No final das contas,
parece um filme feito por algum fã de Matrix.
Já vi duas vezes “Matrix Resurrections”. Na primeira algumas
passagens chegaram a me deixar constrangido. Na segunda achei menos ofensivo,
certamente porque já estava sem qualquer expectativa. Infelizmente não é por
isso que o filme deixa de ser fraco, apenas fica mais tolerável. E novamente a
gente se pergunta: por que diabos fizeram esse filme? Embora a resposta seja
óbvia, fica difícil de entender porque deixaram ser realizado dessa forma, já
que é uma clara trolagem contra o estúdio e os fãs que já estão enfurecidos
xingando o filme nas redes sociais e nos canais de youtube. Ou seja, mais um
tiro no pé - só que em “bullet time”...
Cotação: **
domingo, 24 de outubro de 2021
Novo “Duna” é um prato requintado que vai agradar quem procura ficção científica de qualidade
Filme é extremamente bem realizado, repleto de nuances e inflexões narrativas que captam a rica essência da obra original, porém com voz própria na linguagem cinematográfica
- por André Lux
Sou grande admirador da saga “Duna”, criada pelo escritor Frank
Herbert a partir de 1965 e que influenciou diretamente um sem número de outros
produtos começando com “Star Wars”, passando por “Matrix” e até “Game of Thrones”,
a qual descobri a partir da adaptação feita por David Lynch para os cinemas em
1984. Versão essa que tinha inúmeros problemas e fracassou nas bilheterias,
porém possuía também qualidades, entre elas um elenco formidável, além de desenhos de produção, figurino e de criaturas sensacionais, sem falar da música
competente do grupo Toto (veja aqui minha análise das adaptações de "Duna" anteriores).
Confesso, portanto, que sempre tive grande dificuldade de
aceitar outra versão de “Duna” para as telas tão ligado que sempre fui ao filme
de 1984. Foi assim com a minissérie da Sci-Fi realizada no ano 2000 que embora
fosse muito mais fiel à obra original, foi feita com parcos recursos
financeiros e tinha um visual risível, parecendo muitas vezes desfile de escola
de samba.
Chega então a última adaptação do livro gigantesco de
Herbert, desta vez realizada por Dennis Villeneuve, cineasta brilhante que tem
feito ótimos filmes (meu favorito é de longe “A Chegada”), um verdadeiro artista
que, a exemplo do que foi Ridley Scott no passado, transforma cada fotograma em
verdadeiras obras de arte. E “Duna” não é diferente. O filme é um espetáculo deslumbrante
(e por isso exige ser visto ao menos uma vez nas telas dos cinemas), com
fotografia e efeitos visuais de tirar o fôlego sempre acompanhadas por um senso
de escala que impressiona. Os desenhos de produção e figurinos vão na direção
oposta do barroco colorido do longa de Lynch, apostando em linhas retas e
curvas sóbrias dignas da arquitetura contemporânea.
O mais interessante no meu caso é que não gostei muito do
filme na primeira vez que assisti (no Imax). Embora tenha achado o visual sensacional,
tive dificuldades em entrar na proposta da nova adaptação. Culpa disso
certamente foi o meu apego ao “Duna” de 1984 e também ao extenso conhecimento do
livro e suas tramas políticas complexas e intrincadas. Certamente se tivesse
escrito minha análise depois dessa primeira experiência ela seria
majoritariamente negativa. Mas senti que algo não estava correto e fui ver
novamente no cinema. E isso fez toda a diferença!
Já sabendo o que ia encontrar, fui capaz de me distanciar da
versão de Lynch e também do livro e finalmente consegui mergulhar de cabeça.
Nem mesmo a música do abominável Hans Zimmer me incomodou na segunda exibição.
Sim, a sua partitura para “Duna” sofre de quase todos os defeitos do resto do
seu trabalho: é intrusiva, simplória, pesada, opressiva e ensurdecedora! Porém,
me arrisco a dizer que mesmo assim essa provavelmente é sua melhor trilha pois,
a despeito dos problemas, possui alguns momentos inspirados e até impactantes (dentro
do baixo padrão Zimmer de qualidade, que fique claro).
O roteiro consegue sintetizar bem as grandes questões da
obra de Herbert sem entrar em muitos detalhes e excesso de informações, fatores
que deixaram o filme de 1984 incompreensível para quem não leu o livro. Apesar
de enfurecer os fãs mais puristas, foi uma decisão acertada que deu leveza e
permite um acompanhamento mais fácil por parte do espectador não familiarizado
com o material.
Gostei muito da maneira como Villeneuve se manteve fiel à lógica
do enredo original, no qual o conceito de “messias” e “escolhido” não passa de
maquinações engendradas pelas Bene Gesserit para facilitar a manipulação e
dominação dos povos dos mundos daquele universo, sempre ávidos por crenças religiosas
em seres sobrenaturais. Esse, por sinal, foi o erro mais grotesco da versão de 1984
já que transformou Paul em um messias real com poderes mágicos, algo que
arrebenta com toda a construção do livro.
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Filme tem visual impressionante |
Algumas escolhas prejudicam o ritmo da trama, especialmente o
arco que envolve o traidor dos Atreides apresentado aqui de forma muito
apressada, culminando com o ataque dos Harkonnens que parece acontecer apenas poucos
dias após a chegada dos Atreides em Arrakis. O elenco é muito bom, embora
alguns personagens importantes tenham pouco tempo de tela, o que afeta a
composição dos atores, porém não enfraquece a narrativa principal que fica
focada mais em Paul e sua mãe Jessica (aqui bem mais emotiva e insegura do que
no livro).
O filme tem 2 horas e 35 minutos, mas parece menos, o que é
sempre um dos melhores elogios, terminando de forma abrupta no que seria o
início da segunda metade do livro e deixando um gosto de quero mais. O fato da continuação
ainda não ter sido confirmada pelo estúdio aumenta ainda mais a ansiedade pois,
diferente de “O Senhor dos Anéis” cujos três filmes foram filmados
simultaneamente, Villeneuve rodou apenas a primeira parte.
“Duna” é um prato requintado que vai agradar em cheio quem
procura ficção científica de qualidade e sabe apreciar um filme extremamente
bem realizado, repleto de nuances e inflexões narrativas que captam a rica essência
da obra original, principalmente as alegorias ao petróleo, ao cristianismo e islamismo e à ecologia, porém com voz própria dentro da linguagem cinematográfica.
Cotação: ****1/2
domingo, 10 de outubro de 2021
“007 Sem Tempo Para Morrer” pode ser o fim da franquia do personagem
Talvez seja melhor mesmo deixar James Bond morto e enterrado, junto com os valores apodrecidos que ele tão bem representa
- por André Lux
É impossível falar sobre o novo filme do 007 sem fazer uma análise
histórica da franquia, portanto aqui vai (contém spoilers!).
O personagem do agente secreto britânico James Bond, codinome
007, foi criado pelo escritor Ian Fleming em 1953 e gerou a mais longa franquia
do cinema com 26 filmes cujas qualidades variam bastante, do ótimo ao
francamente bisonho.
O problema do 007 é que ele é extremamente datado, um
verdadeiro dinossauro que foi criado na época da guerra fria entre EUA e a
extinta União Soviética cujas características principais eram o machismo e,
claro, a defesa irrestrita do imperialismo ocidental (afinal, é um agente do
MI6 britânico). Ou seja, em linhas gerais era a encarnação perfeita do chamado “macho
alfa” que detona os inimigos do capitalismo enquanto usa e descarta as mulheres
a seu bel prazer.
Essa fórmula funcionou bem até mais ou menos 1985 com o
último filme de Roger Moore interpretando Bond, “007 Na Mira dos Assassinos” (“A
View To a Kill”), mas logo os produtores tentaram dar um upgrade no personagem
em 1987 com “007 Marcado Para a Morte” que eu considero talvez o melhor filme
da série, trazendo o personagem mais próximo da realidade, diminuindo sua
misoginia e deixando a trama menos caricata. O ator Timothy Dalton ficou
perfeito no papel, mas infelizmente fez apenas dois filmes e logo foi substituído
pelo insonso Pierce Brosnan, cujas encarnações de Bond estão entre as piores da
série.
Corta para 2006 e entre em cena então uma nova tentativa de revitalizar a franquia. Inspirados pelo sucesso dos filmes com Jason Bourne, personagem parecido com Bond, porém muito mais realista e mundano, os produtores contratam o feioso Daniel Craig (que lembra muito o nosso Didi Mocó de “Os Trapalhões”) para viver 007 em “Cassino Royale” e criam um ótimo filme, porém cada vez mais distante do personagem original.
O Bond de Craig é inseguro, nervoso e altamente incompetente (o que se justifica no primeiro filme por ele estar estreando no serviço), porém essas características são levadas para todos os outros filmes, fator que irrita os fãs da série.
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James Bond e Didi Mocó: trapalhões |
Além disso, a trama do primeiro filme é levada para a continuação “Quantum of Solace”, algo inédito na franquia. Até aí, nada de errado. O problema é que em “Skyfall” (leia aqui minha análise) resolvem abandonar a continuidade, só para a retomarem em “Spectre” (leia aqui minha análise) inventando de forma absurda uma organização do mal capitaneada pelo vilão Blofeld que estaria por trás de todos os eventos dos filmes anteriores.
Chega então “007 Sem Tempo Para Morrer” que já se anuncia
como o último filme da era Craig e o resultado não poderia ser mais decepcionante.
Confesso que não esperava grande coisa depois dos fiascos de “Skyfall” e “Spectre”,
porém é bem pior do poderia imaginar. O longa começa com Bond novamente aposentado
(ele foi substituído por uma mulher, porém isso não tem a menor relevância na trama)
vivendo um grande amor com a personagem feita pela Léa Seydoux (que ao menos
está menos inexpressiva). Mas logo sofrem um atentado e Bond a abandona achando
que ela a traiu.
Temos então a invasão de um laboratório secreto do qual é
roubado um tipo de vírus que pode matar pessoas específicas baseado no DNA
delas. Por trás do roubo está a Spectre que continua sendo comandada por
Blofeld mesmo ele estando preso em segurança máxima (e o filme nunca explica de
forma inteligível como faz isso). Todavia, existe um outro vilão (feito de forma
caricata por Rami Malek) que busca vingança contra a Spectre e quer usar o
vírus para matar Blofeld e, depois, eliminar grande parte da humanidade. Os
motivos dele nunca ficam claros, mas parece que quer dar uma de Thanos, da
série dos “Vingadores”.
Enfim, o roteiro é tolo, a trama não tem pé nem cabeça e é arrastada demais (o filme tem quase 3 horas de duração), a direção é burocrática, as cenas de ação, lutas e perseguições são muito fracas, as motivações dos vilões não fazem sentido e o Bond de Daniel Craig continua incompetente e burro, incapaz de se salvar sem ajuda de outros ou de perceber óbvios traidores.
E se não bastasse tudo isso, ainda inventam uma filha para o 007, recurso que terá efeito dramático praticamente nulo para a trama e só serve para tentar sem sucesso dar mais emoção a perseguições e confrontos. E o que foi aquilo dos membros da Spectre se reunirem todos numa festa em Cuba? Mais uma estupidez do roteiro inventada só para tentar manchar novamente a reputação da ilha, como se lá fosse terra de ninguém.
Não foi boa ideia chamarem o abominável Hans Zimmer para
compor a música de “Sem Tempo Para Morrer”, pois seu “estilo” é completamente errado
para os filmes da franquia que sempre contaram com partituras excelentes,
grande parte delas composta pelo mestre John Barry. Mas Zimmer não chega a
incomodar, criando uma trilha musical banal mas funcional na qual cópia sem
grande talento o que já foi estabelecido na série por Barry e David Arnold. As
melhores faixas acabam sendo as que Zimmer incorpora sem maiores explicações o
tema criado por Barry para “A Serviço Secreto de Sua Majestade” (de 1969), cuja
canção interpretada pelo grande Louis Armstrong encerra o novo filme.
E, para fechar o desastre com chave de outro, resolveram
simplesmente matar James Bond. Isso mesmo: está morto o personagem icônico do
cinema que basicamente era imortal (tanto é que está vivo desde 1953 e já foi
interpretado por seis atores). E nem mesmo uma morte gloriosa o coitado teve,
sendo eliminado de forma idiota por causa de erros que ele mesmo comete! Um verdadeiro
trapalhão esse James Bond.
Vai ser difícil para os produtores da franquia retomarem o
personagem daqui para frente. Primeiro porque o mataram e segundo
porque fica quase impossível manter a fleuma de James Bond viva sem ter que
descaracterizar ele completamente. O que no final das contas pode ser uma boa
notícia, já que realmente não existe mais lugar no mundo para esse tipo de “macho
alfa” sedutor, invencível, imperialista e misógino que encantava certas pessoas
no passado. Talvez seja melhor mesmo deixar James Bond morto e enterrado, junto
com os valores apodrecidos que ele tão bem representa.
Cotação: **