VOLTA POR CIMA
Longa de suspense e terror conta com atuação impressionante de James McAvoy e marca o retorno do diretor de “O Sexto Sentido” à boa forma
- por André Lux, crítico-spam
Fazia muito tempo que o diretor M. Nigh Shyamalan não acertava uma. Depois de uma estreia retumbante com o ótimo “O Sexto Sentido”, seguida pelo interessante “Corpo Fechado”, sua carreira desceu ladeira abaixo alternando filmes apenas ruins (“A Vila”, “Sinais”) com outros francamente ridículos (“Fim dos Tempos”, “A Dama na Água”), ao ponto de começar a ficar escondido nas peças publicitárias de filmes como “Depois da Terra”.
A verdade é que o sucesso lhe subiu à cabeça e começou a acreditar que qualquer roteiro criado por ele merecia virar longa metragem. Enquanto o público embarcou os estúdios continuaram a lhe dar carta branca, mas logo a farsa veio à tona e as torneiras de Hollywood começaram a ser fechadas para ele.
Mas isso foi bom, pois o obrigou a repensar a carreira e passar a produzir filmes mais baratos e melhor resolvidos, sem tanta besteira e pretensão. É o caso deste “Fragmentado”, um longa de suspense psicológico com pitadas de terror que deve muito do seu sucesso à atuação espetacular do jovem James McAvoy, sem dúvida um dos melhores atores de sua geração, que foi descoberto na minissérie “Os Filhos de Duna”, onde já demonstrava imenso carisma e domínio de cena, e que depois fez carreira meteórica vivendo inclusive o Professor X nos novos “X-Men”, mas também estrelando filmes de arte como “Desejo e Reparação”.
Ele faz o papel de um sujeito que sofre de um distúrbio psiquiátrico causado por abusos paternos que o deixa com 23 personalidades diferentes. As mudanças entre uma personalidade e outra são feitas de maneira exemplar por McAvoy sem nunca cair para a caricatura ou exagero, exceto quando o roteiro pede por isso.
Shyamalan, autor da história, acerta também na caracterização de uma das vítimas do protagonista, pintada como uma jovem que vamos descobrindo ao longo da trama também ser vítima de abusos. A personagem é feita por Anya Taylor-Joy em excelente caracterização, alternando momentos de fragilidade e força de forma convincente.
Felizmente, o cineasta não apela para sustos fáceis ou truques batidos do gênero, preferindo investir na relação entre os protagonistas, num clima de tensão e na sutiliza, o que fica muito evidente durante as sessões de psicoterapia que se tornam um verdadeiro duelo de atuações entre McAvoy e sua psiquiatra, feita por Betty Buckley.
Como nem tudo é perfeito, o personagem da médica acaba sendo o único ponto mais fraco da trama, pois suas ações perto do final são completamente ilógicas e servem apenas para impulsionar a trama. Outro problema é que uma pessoa com uma patologia mental tão grave e já diagnosticada jamais seria aceita num emprego normal e é mais provável que estaria internado em uma instituição psiquiátrica. Mas não chega a atrapalhar muito o resultado final.
Shyamalan ainda se dá ao luxo de amarrar “Fragmentado” ao universo apresentado em “Corpo Fechado”, com direito até a uma ponta de Bruce Willis, sem que isso soe intrusivo ou fora de contexto. Vale a pena assistir, nem que seja só para conferir a atuação impressionante de McAvoy.
Cotação: * * * *
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quinta-feira, 30 de março de 2017
Filmes: "A Bela e a Fera" (2017)
ANIMAÇÃO, O FILME?
Não vejo muita lógica em adaptar um desenho animado com atores que contracenam com... desenhos animados!
- por André Lux, crítico-spam
A Disney continua com sua nova política de adaptar com atores reais suas animações. Depois de “Malévola” e “Cinderela”, chega agora “A Bela e a Fera”, que é uma adaptação quase literal do desenho lançado nos cinemas em 1991, grande sucesso de público na época.
Implico de cara com o fato de quase todo o filme ser feito em computação gráfica, principalmente o personagem da Fera, todos os coadjuvantes do castelo que viraram utensílios domésticos e grande parte dos cenários. Ou seja, temos aqui alguns atores de carne e osso contracenando com o que são basicamente... desenhos animados! Sinceramente, não vejo muita lógica nisso, já que a proposta era o contrário.
Enfim, se você conseguir esquecer isso e o fato de que temos aquela péssima história da vítima que se apaixona pelo seu captor (conhecida como "Síndrome de Estocolmo"), o filme tem seus encantos e conta com uma boa trilha sonora de canções já clássicas e algumas novas compostas especialmente para ele.
Não vejo muita lógica em adaptar um desenho animado com atores que contracenam com... desenhos animados!
- por André Lux, crítico-spam
A Disney continua com sua nova política de adaptar com atores reais suas animações. Depois de “Malévola” e “Cinderela”, chega agora “A Bela e a Fera”, que é uma adaptação quase literal do desenho lançado nos cinemas em 1991, grande sucesso de público na época.
Implico de cara com o fato de quase todo o filme ser feito em computação gráfica, principalmente o personagem da Fera, todos os coadjuvantes do castelo que viraram utensílios domésticos e grande parte dos cenários. Ou seja, temos aqui alguns atores de carne e osso contracenando com o que são basicamente... desenhos animados! Sinceramente, não vejo muita lógica nisso, já que a proposta era o contrário.
Enfim, se você conseguir esquecer isso e o fato de que temos aquela péssima história da vítima que se apaixona pelo seu captor (conhecida como "Síndrome de Estocolmo"), o filme tem seus encantos e conta com uma boa trilha sonora de canções já clássicas e algumas novas compostas especialmente para ele.
Todavia, não foi boa ideia escalarem Emma Watson (de “Harry Potter”) para viver Bela, pois ela é uma moça apática e sem grande carisma, o que destoa da caracterização forte e aguerrida da personagem. O ator que arrumaram para ser a Fera, Dan Stevens (da série “Downtown Abbey”), também é muito fraco, embora não atrapalhe enquanto apenas faz a voz e os trejeitos do boneco digital.
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| Computação gráfica não deixa de ser apenas um desenho animado |
O restante do elenco de “humanos” é muito ruim, especialmente o sujeito que faz Gaston (Luke Evans, de “O Hobbit”) e seu ajudante, que é feito por um rapaz gordo com trejeitos de gay, ambos canastrões e caricatos. Kevin Kline, como o pai de Bela, é desperdiçado e não tem nada a fazer exceto parecer desanimado e os atores que dublam o restante dos personagens criados em computação gráfica só aparece em pontas no começo e no final.
Não gostei também do desenho de produção, da maquiagem e dos figurinos exagerados, feitos em estilo barroco, o que deixa tudo pesado e poluído, bem diferente do estilo leve da animação. A vila em que vive Bela também é muito mal caracterizada, toda espremida no topo de uma montanha.
Claro que a maioria das pessoas não dá a menor bola para todas essas restrições e está adorando o filme que já se tornou um grande sucesso de bilheteria. Mas é inegável que a animação original e até mesmo a versão francesa feita por Christophe Gans em 2014 eram melhores.
Cotação: * * *
Não gostei também do desenho de produção, da maquiagem e dos figurinos exagerados, feitos em estilo barroco, o que deixa tudo pesado e poluído, bem diferente do estilo leve da animação. A vila em que vive Bela também é muito mal caracterizada, toda espremida no topo de uma montanha.
Claro que a maioria das pessoas não dá a menor bola para todas essas restrições e está adorando o filme que já se tornou um grande sucesso de bilheteria. Mas é inegável que a animação original e até mesmo a versão francesa feita por Christophe Gans em 2014 eram melhores.
Cotação: * * *
domingo, 12 de março de 2017
Filmes: "Kong: A Ilha da Caveira"
MACACO BATIDO
Não chega a ser tão ruim quanto o “King Kong” do Peter Jackson, mas não é nem de perto a aventura palpitante e original que o trailer fazia prever.
- por André Lux, crítico-spam
É difícil entender essa obsessão que o cinema comercial estadunidense tem com macacos. Vira e mexe aparece um filme com eles como protagonistas nas telas. A mais vista é a história do King Kong, que já teve trocentas versões e agora ressurge nesse “Kong: A Ilha da Caveira”. Não chega a ser tão ruim quanto o “King Kong” do Peter Jackson, mas não é nem de perto a aventura palpitante e original que o trailer fazia prever.
Apesar de realmente ter algumas sequências muito interessantes e bem fotografadas, “Kong” erra ao não investir num enredo minimamente original, limitando-se à batida fórmula de colocar um grupo de pessoas perdidos na floresta tentando ir do ponto A ao ponto B dentro de uma janela de tempo específica, enquanto são atacados por todos os tipos de criaturas.
Embora tente construir um clima de suspense em relação ao que os cientistas poderão encontrar na Ilha da Caveira, o roteiro faz com que todos sejam derrubados por um ataque do gorila gigante logo de cara em uma sequência que, embora muito bem feita, acaba sendo por demais inverossímil e irritante até. Afinal, não seria possível que todos aqueles helicópteros ficassem praticamente parados à frente do King Kong ou rodando em volta dele ao alcance do seu braço! É uma situação por demais forçada só para fazer com que todos se esborrachem na ilha e sejam obrigados a improvisar com o que restou dos equipamentos para tentar escapar.
Não há qualquer tentativa de aprofundar os personagens ou mesmo construir relações plausíveis entre eles, sobrando para o pobre Tom Hiddleston (o Loki, de “Thor”) a ingrata tarefa de soltar frases de efeito e bancar o herói. Samuel L. Jackson se perde num personagem tosco e apela para caretas indignas de seu talento, enquanto coadjuvantes do peso de um John Goodman são completamente desperdiçados. O único que livra a cara é John C. Riley que faz um soldado que caiu na ilha durante a segunda guerra mundial e aparece com uma barba hilária e solta as melhores tiradas do filme.
Apesar de ter sido produzido pelo mesmo pessoal que fez o novo “Godzilla”, esse filme não tem nada do charme e originalidade dele, que ao menos tinha um roteiro o qual tentava contar uma história minimamente diferente do habitual “monstro invade cidades e destrói tudo enquanto o exército o ataca” e fazia de tudo para esconder a criatura até a apoteose final. Aqui vão direto na jugular do espectador, mostrando Kong e os outros monstros de cara e de forma excessiva, o que apenas ajuda a diluir qualquer tentativa de suspense, fator que é exacerbado pelo falta de carisma dos personagens humanos e a insistência deles em agirem como perfeitos imbecis o tempo todo.
Os efeitos especiais são bons, porém repetitivos e as supostas homenagens a outros filmes, como “Apocalipse Now” e “Platoon” parecem mais paródias. A trilha musical composta por um dos clones do abominável Hans Zimmer também não deixa qualquer marca, o que é lamentável para esse tipo de obra.
Pode ser que eu tenha entrado com a expectativa alta demais, mas a culpa é dos trailers que venderam o filme com algo que ele não é. Dá pra assistir, porém conseguiram, assim como Peter Jackson, fazer algo pior do que a versão de 1976 que mostrava um homem fantasiado de King Kong pisando em miniaturas...
Cotação: * * 1/2
Não chega a ser tão ruim quanto o “King Kong” do Peter Jackson, mas não é nem de perto a aventura palpitante e original que o trailer fazia prever.
- por André Lux, crítico-spam
É difícil entender essa obsessão que o cinema comercial estadunidense tem com macacos. Vira e mexe aparece um filme com eles como protagonistas nas telas. A mais vista é a história do King Kong, que já teve trocentas versões e agora ressurge nesse “Kong: A Ilha da Caveira”. Não chega a ser tão ruim quanto o “King Kong” do Peter Jackson, mas não é nem de perto a aventura palpitante e original que o trailer fazia prever.
Apesar de realmente ter algumas sequências muito interessantes e bem fotografadas, “Kong” erra ao não investir num enredo minimamente original, limitando-se à batida fórmula de colocar um grupo de pessoas perdidos na floresta tentando ir do ponto A ao ponto B dentro de uma janela de tempo específica, enquanto são atacados por todos os tipos de criaturas.
Embora tente construir um clima de suspense em relação ao que os cientistas poderão encontrar na Ilha da Caveira, o roteiro faz com que todos sejam derrubados por um ataque do gorila gigante logo de cara em uma sequência que, embora muito bem feita, acaba sendo por demais inverossímil e irritante até. Afinal, não seria possível que todos aqueles helicópteros ficassem praticamente parados à frente do King Kong ou rodando em volta dele ao alcance do seu braço! É uma situação por demais forçada só para fazer com que todos se esborrachem na ilha e sejam obrigados a improvisar com o que restou dos equipamentos para tentar escapar.
Não há qualquer tentativa de aprofundar os personagens ou mesmo construir relações plausíveis entre eles, sobrando para o pobre Tom Hiddleston (o Loki, de “Thor”) a ingrata tarefa de soltar frases de efeito e bancar o herói. Samuel L. Jackson se perde num personagem tosco e apela para caretas indignas de seu talento, enquanto coadjuvantes do peso de um John Goodman são completamente desperdiçados. O único que livra a cara é John C. Riley que faz um soldado que caiu na ilha durante a segunda guerra mundial e aparece com uma barba hilária e solta as melhores tiradas do filme.
Apesar de ter sido produzido pelo mesmo pessoal que fez o novo “Godzilla”, esse filme não tem nada do charme e originalidade dele, que ao menos tinha um roteiro o qual tentava contar uma história minimamente diferente do habitual “monstro invade cidades e destrói tudo enquanto o exército o ataca” e fazia de tudo para esconder a criatura até a apoteose final. Aqui vão direto na jugular do espectador, mostrando Kong e os outros monstros de cara e de forma excessiva, o que apenas ajuda a diluir qualquer tentativa de suspense, fator que é exacerbado pelo falta de carisma dos personagens humanos e a insistência deles em agirem como perfeitos imbecis o tempo todo.
Os efeitos especiais são bons, porém repetitivos e as supostas homenagens a outros filmes, como “Apocalipse Now” e “Platoon” parecem mais paródias. A trilha musical composta por um dos clones do abominável Hans Zimmer também não deixa qualquer marca, o que é lamentável para esse tipo de obra.
Pode ser que eu tenha entrado com a expectativa alta demais, mas a culpa é dos trailers que venderam o filme com algo que ele não é. Dá pra assistir, porém conseguiram, assim como Peter Jackson, fazer algo pior do que a versão de 1976 que mostrava um homem fantasiado de King Kong pisando em miniaturas...
Cotação: * * 1/2
quarta-feira, 8 de março de 2017
Filmes: "Logan"
CANSOU
Filme não cumpre o que prometia e funciona mais como despedida de Hugh Jackman ao personagem
- por André Lux, crítico-spam
“Logan” é certamente o melhor filme solo do Wolverine, o mais idolatrado dos X-Men. Mas isso não quer dizer muito, afinal os dois primeiros foram bem ruinzinhos. Hugh Jackman faz sua nona aparição como o personagem nos cinemas e promete que é a última (mas nunca diga nunca em Roliudi!). Ele nem faz muita questão de esconder o cansaço que sente em atuar na pele do mutante nervosinho novamente.
A melhor coisa do filme é o primeiro ato, que mostra Logan no futuro, algo em torno de 2029, completamente exaurido e vendo seus poderes de regeneração cada vez mais fracos, ao que parece por causa de envenenamento pelo Adamantium (mas isso não é explorado satisfatoriamente). Ele ganha a vida dirigindo uma limusine enquanto vive escondido no meio do deserto, junto com dois outros mutantes, sendo um deles o professor X (o sempre confiável Patrick Stewart) que aqui vive sob o efeito de remédios que o impedem de ter convulsões poderosas que podem causar fatalidades (fala-se um pouco sobre um evento desses que teve trágicas repercussões, inclusive sobre os X-Men, porém é tudo bem vago e mal explorado).
Os produtores do novo filme parecem ter finalmente ouvido os fãs do personagem que sempre reclamaram da violência “censura livre” dos longas anteriores e aqui, pela primeira vez, vemos o Wolverine arrancando sangue de seus antagonistas, muitas vezes de forma gratuita e exagerada.
“Logan” esquenta quando entra em cena uma menina mutante que pode ou não ser filha dele e possui os mesmos poderes. Ela está sendo perseguida por algum tipo de agência não-governamental e a cena de luta e fuga do esconderijo no deserto é realmente muito boa e emocionante justamente por fugir dos clichês do gênero.
Pena que o filme tenha que continuar e, depois de outra boa cena dentro de um hotel, comece então a derrapar, tornando-se apenas mais um daqueles filmes de perseguição de gato e rato, com os protagonistas sempre um passo à frente dos perseguidores. A partir daí “Logan” repete velhos clichês e torna-se banal. Algumas coisas são irritantes, como eles aceitarem o convite de uma família para jantar, quando obviamente já deveriam estar carecas de saber (especialmente o professor X) o que esse tipo de envolvimento com civis inocentes vai acarretar.
Outra cena ridícula é quando assistem a um vídeo de celular onde uma pessoa explica didaticamente as ações dos vilões no laboratório, toda editada, com narração e cenas que a pessoa certamente não teria como filmar. Uma bobagem inacreditável e dispensável.
Não faz muito sentido a obsessão dos bandidos em perseguir os fugitivos, muito menos seus planos. Aparece até um clone do Wolverine, mais indestrutível ainda, mas que pouco acrescenta e só serve para deixar tudo mais confuso e repetitivo. No final vira uma besteira de perseguição no meio do mato, com o protagonista correndo e matando gente entre uma árvore e outra em uma sequência praticamente idêntica ao que já vimos no segundo “X-Men”. Sua opção por ajudar os fugitivos também soa forçada, afinal não conseguiram firmar um vínculo emocional entre eles. Nem mesmo a derradeira cena do personagem título tem muito impacto, parece telegrafada e só vai emocionar mesmo os fãs mais ardorosos.
O filme vem recebendo muitos elogios, mas não chega a cumprir o que prometia. É uma pena, pois Wolverine certamente merecia bem mais que isso...
Cotação: * * *
Filme não cumpre o que prometia e funciona mais como despedida de Hugh Jackman ao personagem
- por André Lux, crítico-spam
“Logan” é certamente o melhor filme solo do Wolverine, o mais idolatrado dos X-Men. Mas isso não quer dizer muito, afinal os dois primeiros foram bem ruinzinhos. Hugh Jackman faz sua nona aparição como o personagem nos cinemas e promete que é a última (mas nunca diga nunca em Roliudi!). Ele nem faz muita questão de esconder o cansaço que sente em atuar na pele do mutante nervosinho novamente.
A melhor coisa do filme é o primeiro ato, que mostra Logan no futuro, algo em torno de 2029, completamente exaurido e vendo seus poderes de regeneração cada vez mais fracos, ao que parece por causa de envenenamento pelo Adamantium (mas isso não é explorado satisfatoriamente). Ele ganha a vida dirigindo uma limusine enquanto vive escondido no meio do deserto, junto com dois outros mutantes, sendo um deles o professor X (o sempre confiável Patrick Stewart) que aqui vive sob o efeito de remédios que o impedem de ter convulsões poderosas que podem causar fatalidades (fala-se um pouco sobre um evento desses que teve trágicas repercussões, inclusive sobre os X-Men, porém é tudo bem vago e mal explorado).
Os produtores do novo filme parecem ter finalmente ouvido os fãs do personagem que sempre reclamaram da violência “censura livre” dos longas anteriores e aqui, pela primeira vez, vemos o Wolverine arrancando sangue de seus antagonistas, muitas vezes de forma gratuita e exagerada.
“Logan” esquenta quando entra em cena uma menina mutante que pode ou não ser filha dele e possui os mesmos poderes. Ela está sendo perseguida por algum tipo de agência não-governamental e a cena de luta e fuga do esconderijo no deserto é realmente muito boa e emocionante justamente por fugir dos clichês do gênero.
Pena que o filme tenha que continuar e, depois de outra boa cena dentro de um hotel, comece então a derrapar, tornando-se apenas mais um daqueles filmes de perseguição de gato e rato, com os protagonistas sempre um passo à frente dos perseguidores. A partir daí “Logan” repete velhos clichês e torna-se banal. Algumas coisas são irritantes, como eles aceitarem o convite de uma família para jantar, quando obviamente já deveriam estar carecas de saber (especialmente o professor X) o que esse tipo de envolvimento com civis inocentes vai acarretar.
Outra cena ridícula é quando assistem a um vídeo de celular onde uma pessoa explica didaticamente as ações dos vilões no laboratório, toda editada, com narração e cenas que a pessoa certamente não teria como filmar. Uma bobagem inacreditável e dispensável.
Não faz muito sentido a obsessão dos bandidos em perseguir os fugitivos, muito menos seus planos. Aparece até um clone do Wolverine, mais indestrutível ainda, mas que pouco acrescenta e só serve para deixar tudo mais confuso e repetitivo. No final vira uma besteira de perseguição no meio do mato, com o protagonista correndo e matando gente entre uma árvore e outra em uma sequência praticamente idêntica ao que já vimos no segundo “X-Men”. Sua opção por ajudar os fugitivos também soa forçada, afinal não conseguiram firmar um vínculo emocional entre eles. Nem mesmo a derradeira cena do personagem título tem muito impacto, parece telegrafada e só vai emocionar mesmo os fãs mais ardorosos.
O filme vem recebendo muitos elogios, mas não chega a cumprir o que prometia. É uma pena, pois Wolverine certamente merecia bem mais que isso...
Cotação: * * *
terça-feira, 10 de janeiro de 2017
Filmes: "Animais Noturnos" (*spoilers*)
MONSTROS HUMANOS
"Quem são esses animais noturnos que, travestidos de seres humanos, andam pelo mundo destruindo a vida de quem ousa amá-los, sem compaixão, empatia ou remorso?", questiona o diretor Tom Ford.
- por André Lux, crítico-spam
“Animais Noturnos” é um filme brutal, difícil de assistir, porém excepcional na forma como traduz em palavras e imagens a dor experimentada por alguém que teve sua vida destruída por uma pessoa na qual confiava cegamente e para a qual se entregou de corpo e alma.
"Quem são esses monstros que, travestidos de seres humanos, andam livremente pelo mundo destroçando a vida de quem ousa amá-los, sem qualquer traço de compaixão, empatia ou remorso?", questiona o diretor e roteirista Tom Ford.
Trata-se de um “filme dentro de um filme”, no qual a protagonista Susan (feita pela doce Amy Adams) recebe o manuscrito de um livro escrito pelo seu ex-marido Edward (Jake Gyllenhaal, perfeito com sua eterna cara de bom moço), que ela traiu e abandonou no momento em que ele estava mais fragilizado em troca de uma vida frívola ao lado de um homem arrogante e ambicioso, tudo que o outro não era.
Uma das cenas mais emblemáticas do filme se dá quando Susan vai jantar com sua mãe conservadora, racista, homofóbica e que é totalmente contra seu casamento com Edward, o qual ela julga “fraco e pobre”, fatores que, segundo ela, hoje encantam a filha, mas que com o tempo vão afastá-la dele. “Não sou como você, mãe”, responde a moça, recebendo como resposta a lapidar frase: “Não é agora, querida. Mas no final, todas nos tornamos iguais aos nossos pais”.
Embora rica e vivendo uma vida regada a festas e vernissages (ela e o marido são promotores de artes), Susan é infeliz, vazia e vê seu marido tornando-se cada vez mais frio e distante, ao ponto de nem tentar disfarçar mais que a trai regularmente com mulheres mais novas.
Ao mesmo tempo em que lê o livro angustiada, Susan vai relembrando de sua vida ao lado de Edward, da cumplicidade e do amor que sentiam um pelo outro e, principalmente, da maneira fria e calculista com que o abandonou, jogando nas costas dele todos os motivos pelo suposto fracasso da relação (ele é "fraco", humilha ela). Não bastasse isso, ela faz um aborto e mata o filho dos dois, já acompanhada e motivada pelo novo namorado.
Graças à leitura do livro e das memórias da vida anterior, Susan começa a se sentir humana novamente e marca um encontro com Edward em um restaurante chique, só para ficar horas esperando por ele, que não aparece. O filme termina com um close de sua face angustiada. Só ali, no final, é que ela se dá conta do que se tratava realmente a estória narrada no livro do ex-marido: ao abandoná-lo e tirar o filho dele, ela destruiu sua vida, o matou de certa forma, assim como fizeram os psicopatas no livro ao matarem a família do protagonista.
Assim, o livro de Edward era de certa forma uma catarse e também uma vingança, pois mostrava que no final das contas quem havia morrido era Susan, justamente por ter matado a única coisa realmente boa que teve na vida. E tudo isso em troca de frivolidades e da busca por prazeres mundanos totalmente desprovidos de humanidade e de sentido. O desespero demonstrado por Amy Adams na cena derradeira de “Animais Noturnos” é a constatação de que a protagonista havia, afinal, entendido que era ela quem estava morta em vida há muito tempo e não Edward, como ela e o atual marido costumavam debochar.
Infelizmente, esse tipo de “revelação” só acontece nos filmes, já que os “animais noturnos” como os descritos na obra são, com raríssimas exceções, incapazes de autocrítica e jamais entenderão ou mesmo se importarão com as vidas que destruíram em seu caminho rumo à conquista de suas ambições fugazes, sejam elas quais forem. Todavia, a arte permite às pessoas que passaram por esse tipo de experiência monstruosa que se expressem e se conectem com outros, promovendo ao menos algum tipo de reflexão e regozijo ao saber que não estão sozinhas. E ainda dá uma bofetada na cara dessa atual sociedade do consumo onde sensibilidade e fragilidade são cada vez mais rotuladas como fraqueza, principalmente nos homens.
“Animais Noturnos” é um daqueles filmes que vão passar em branco para a maioria das pessoas, até porque tem um final aberto e vai exigir um mínimo de inteligência do espectador para conectar os pontos e fechar o quadro maior, algo cada vez mais raro nos dias de hoje.
É um prato violento, angustiante e difícil de digerir, mas é uma experiência visceral que, de certa forma, ajuda a encarar monstros internos que só serão realmente derrotados quando forem entendidos e, acima de tudo, perdoados. Algo que eles jamais fariam a si mesmos caso tivessem algum tipo de consciência.
Cotação: * * * * *
"Quem são esses animais noturnos que, travestidos de seres humanos, andam pelo mundo destruindo a vida de quem ousa amá-los, sem compaixão, empatia ou remorso?", questiona o diretor Tom Ford.
- por André Lux, crítico-spam
“Animais Noturnos” é um filme brutal, difícil de assistir, porém excepcional na forma como traduz em palavras e imagens a dor experimentada por alguém que teve sua vida destruída por uma pessoa na qual confiava cegamente e para a qual se entregou de corpo e alma.
"Quem são esses monstros que, travestidos de seres humanos, andam livremente pelo mundo destroçando a vida de quem ousa amá-los, sem qualquer traço de compaixão, empatia ou remorso?", questiona o diretor e roteirista Tom Ford.
Trata-se de um “filme dentro de um filme”, no qual a protagonista Susan (feita pela doce Amy Adams) recebe o manuscrito de um livro escrito pelo seu ex-marido Edward (Jake Gyllenhaal, perfeito com sua eterna cara de bom moço), que ela traiu e abandonou no momento em que ele estava mais fragilizado em troca de uma vida frívola ao lado de um homem arrogante e ambicioso, tudo que o outro não era.
Uma das cenas mais emblemáticas do filme se dá quando Susan vai jantar com sua mãe conservadora, racista, homofóbica e que é totalmente contra seu casamento com Edward, o qual ela julga “fraco e pobre”, fatores que, segundo ela, hoje encantam a filha, mas que com o tempo vão afastá-la dele. “Não sou como você, mãe”, responde a moça, recebendo como resposta a lapidar frase: “Não é agora, querida. Mas no final, todas nos tornamos iguais aos nossos pais”.
Embora rica e vivendo uma vida regada a festas e vernissages (ela e o marido são promotores de artes), Susan é infeliz, vazia e vê seu marido tornando-se cada vez mais frio e distante, ao ponto de nem tentar disfarçar mais que a trai regularmente com mulheres mais novas.
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| A mãe à filha: "Eu sou você, amanhã" |
Já o livro do ex-marido mostra uma família composta por um casal e sua filha viajando pelas estradas do Texas de noite. A uma certa altura, são abordados por caipiras bêbados liderados por um psicopata que acabam estuprando e matando as duas mulheres, deixando Edward para viver com a culpa e a dor de não ter tido forças para reagir e salvar a sua família (ele foi “fraco”). A investigação é comandada por um policial feito pelo Michael Shannon, o Zod do horrível “Homem de Aço”, que vai encontrando os criminosos um a um, sempre com a presença de Edward. No final, o protagonista mata os assassinos de sua família, mas acaba também morrendo no processo.
Ao mesmo tempo em que lê o livro angustiada, Susan vai relembrando de sua vida ao lado de Edward, da cumplicidade e do amor que sentiam um pelo outro e, principalmente, da maneira fria e calculista com que o abandonou, jogando nas costas dele todos os motivos pelo suposto fracasso da relação (ele é "fraco", humilha ela). Não bastasse isso, ela faz um aborto e mata o filho dos dois, já acompanhada e motivada pelo novo namorado.
Graças à leitura do livro e das memórias da vida anterior, Susan começa a se sentir humana novamente e marca um encontro com Edward em um restaurante chique, só para ficar horas esperando por ele, que não aparece. O filme termina com um close de sua face angustiada. Só ali, no final, é que ela se dá conta do que se tratava realmente a estória narrada no livro do ex-marido: ao abandoná-lo e tirar o filho dele, ela destruiu sua vida, o matou de certa forma, assim como fizeram os psicopatas no livro ao matarem a família do protagonista.
Assim, o livro de Edward era de certa forma uma catarse e também uma vingança, pois mostrava que no final das contas quem havia morrido era Susan, justamente por ter matado a única coisa realmente boa que teve na vida. E tudo isso em troca de frivolidades e da busca por prazeres mundanos totalmente desprovidos de humanidade e de sentido. O desespero demonstrado por Amy Adams na cena derradeira de “Animais Noturnos” é a constatação de que a protagonista havia, afinal, entendido que era ela quem estava morta em vida há muito tempo e não Edward, como ela e o atual marido costumavam debochar.
Infelizmente, esse tipo de “revelação” só acontece nos filmes, já que os “animais noturnos” como os descritos na obra são, com raríssimas exceções, incapazes de autocrítica e jamais entenderão ou mesmo se importarão com as vidas que destruíram em seu caminho rumo à conquista de suas ambições fugazes, sejam elas quais forem. Todavia, a arte permite às pessoas que passaram por esse tipo de experiência monstruosa que se expressem e se conectem com outros, promovendo ao menos algum tipo de reflexão e regozijo ao saber que não estão sozinhas. E ainda dá uma bofetada na cara dessa atual sociedade do consumo onde sensibilidade e fragilidade são cada vez mais rotuladas como fraqueza, principalmente nos homens.
“Animais Noturnos” é um daqueles filmes que vão passar em branco para a maioria das pessoas, até porque tem um final aberto e vai exigir um mínimo de inteligência do espectador para conectar os pontos e fechar o quadro maior, algo cada vez mais raro nos dias de hoje.
É um prato violento, angustiante e difícil de digerir, mas é uma experiência visceral que, de certa forma, ajuda a encarar monstros internos que só serão realmente derrotados quando forem entendidos e, acima de tudo, perdoados. Algo que eles jamais fariam a si mesmos caso tivessem algum tipo de consciência.
Cotação: * * * * *
sexta-feira, 16 de dezembro de 2016
Filmes: "Rogue One - Uma História Star Wars"
FAN-SERVICE DE MENOS
Problemas na pós-produção e falta de desenvolvimento dos protagonistas impedem que filme se torne uma entrada realmente memorável no cânone de “Star Wars”
- por André Lux, crítico-spam
“Rogue One” é a primeira derivação (ou spin-off como chamam nos EUA) oficial de “Star Wars” lançada nos cinemas e faz parte da onda de produtos relacionados à saga criada por George Lucas em 1977 desde que ele vendeu tudo para a Disney.
Ou seja, é um filme que se passa no mesmo universo, porém sem se concentrar na linha de tempo da família Skywalker, que é a mola propulsora dos 7 episódios originais. Tanto é que “Rogue One” já começa direito na ação, sem os famosos letreiros e música tema de “Star Wars” e situa-se exatamente antes do episódio 4 “Uma Nova Esperança”, mostrando como é que os rebeldes conseguiram colocar as mãos nos planos da Estrela da Morte.
A direção é do mesmo sujeito que fez o novo e excelente “Godzilla”, Gareth Edwards, porém a pós-produção foi conturbada, ao ponto de demitirem o compositor Alexandre Desplat e refilmarem certas sequências, o que é sempre um mau sinal, pois indica geralmente que os executivos do estúdio acharam que o filme não tinha apelo comercial suficiente para as massas. Isso acarretou em uma nova montagem e muitas cenas importantes de desenvolvimento dos personagens certamente foram parar no lixo, já que tudo parece acelerado e raso, impedindo uma maior conexão e empatia com eles.
Os primeiros dois terços do filme são truncados, com os protagonistas viajando de um lugar para o outro enquanto encontram outros personagens que acabam se juntando a eles de maneira pouco convincente. O problema, como já disse acima, é que as cenas onde tais eventos seriam aprofundadas devem ter sido cortadas para deixar o filme mais curto e dinâmico, mas acaba acontecendo o contrário, pois o excesso de idas e vindas e a falta de cenas de interação entre os protagonistas deixa-o um pouco tedioso.
É só na terceira parte mesmo que a coisa esquenta e temos uma batalha suicida muito boa que acontece na superfície de uma base imperial e no espaço. Embora falte o apelo emocional que sobra nos três primeiros filmes da saga (IV, V e VI), é mil vezes melhor do que as batalhas tolas dos prelúdios (I, II e III) que mostravam bonecos digitais irritantes destruindo robôs sem graça. Ao menos conseguimos ver Darth Vader detonando na tela de uma maneira totalmente inédita e que muitas fãs sempre sentiram falta. Nesse sentido, “Rogue One” acaba pecando justamente por fazer pouco “fan service”, que é aquele recurso de enfiar no meio da narrativa situações ou personagens da série original. Sem dizer que falta humor, todo mundo é sério e carrancudo e o único alívio cômico é o robô imperial que foi reprogramado, mas mesmo suas tiradas soam forçadas e baratas.
Os atores principais também são fracos, principalmente o mexicano Diego Luna que é muito franzino e com cara de pernilongo para convencer como guerreiro rebelde e galã romântico, tanto é que ele e a mocinha (Felicity Jones, bem sem graça também) nem chegam a trocar um beijo. O vilão central, diretor Krennic, também é feito por um ator fraco e caricato, a mesma coisa acontecendo com o piloto imperial desertor. O personagem do cego com habilidades ninja não funciona, pois nunca ficam claras as extensões dos poderes dele (ele repete um mantra sobre a Força, mas não é Jedi, embora lute como um, mas sem sabre de luz).
O filme também se dá o luxo de desperdiçar o excelente Mads Mikkelsen em um papel que poderia ter sido bem melhor desenvolvido, igual fizeram com ele em “Doutor Estranho”. Todo mundo está reclamando de terem recriado digitalmente o personagem de Peter Cushing, como o governador Tarkin em “Uma Nova Esperança”, mas eu achei muito bem feito e sinceramente não me incomodou, além de ser uma bonita homenagem ao grande ator da Hammer. A princesa Leia nem tanto, mas confesso que chorei quando ela apareceu... Coisa de nerd, não tem jeito.
O compositor Michael Giacchino foi chamado às pressas para criar uma nova trilha musical após a partitura de Desplat ter sido rejeitada e fez um bom trabalho tendo apenas 4 semanas para finalizar, incorporando de maneira inteligente os temas clássicos de John Williams, embora algum material temático novo não funcione como deveria, principalmente o tema principal e o associado ao vilão imperial. Mas não é nada que atrapalhe.
Gostei também que o personagem feito por Forest Whitaker chama-se Saw Gerrera, uma óbvia referência ao guerrilheiro Che Guevara, que também lutava contra o fascismo e era considerado extremista até pelos seus companheiros, mas mesmo assim um herói. Pena que seja tão mal usado e suma de maneira muito besta. Tiveram o cuidado também de recriar com perfeição a armadura original de Darth Vader que era um pouco diferente do que vimos em “O Império Contra-Ataca” e “O Retorno de Jedi”, já que em “Uma Nova Esperança” ela era meio pobre e sem brilho, certamente devido às limitações financeiras na época.
Enfim, o filme é perfeitamente desfrutável e vai agradar aos fãs, porém os problemas na pós-produção certamente acabaram impedindo que “Rogue One” realmente se tornasse uma entrada memorável no cânone da saga “Star Wars”. O que é uma pena. Tomara que lancem uma versão estendida do filme.
Cotação: * * *
Problemas na pós-produção e falta de desenvolvimento dos protagonistas impedem que filme se torne uma entrada realmente memorável no cânone de “Star Wars”
- por André Lux, crítico-spam
“Rogue One” é a primeira derivação (ou spin-off como chamam nos EUA) oficial de “Star Wars” lançada nos cinemas e faz parte da onda de produtos relacionados à saga criada por George Lucas em 1977 desde que ele vendeu tudo para a Disney.
Ou seja, é um filme que se passa no mesmo universo, porém sem se concentrar na linha de tempo da família Skywalker, que é a mola propulsora dos 7 episódios originais. Tanto é que “Rogue One” já começa direito na ação, sem os famosos letreiros e música tema de “Star Wars” e situa-se exatamente antes do episódio 4 “Uma Nova Esperança”, mostrando como é que os rebeldes conseguiram colocar as mãos nos planos da Estrela da Morte.
A direção é do mesmo sujeito que fez o novo e excelente “Godzilla”, Gareth Edwards, porém a pós-produção foi conturbada, ao ponto de demitirem o compositor Alexandre Desplat e refilmarem certas sequências, o que é sempre um mau sinal, pois indica geralmente que os executivos do estúdio acharam que o filme não tinha apelo comercial suficiente para as massas. Isso acarretou em uma nova montagem e muitas cenas importantes de desenvolvimento dos personagens certamente foram parar no lixo, já que tudo parece acelerado e raso, impedindo uma maior conexão e empatia com eles.
Os primeiros dois terços do filme são truncados, com os protagonistas viajando de um lugar para o outro enquanto encontram outros personagens que acabam se juntando a eles de maneira pouco convincente. O problema, como já disse acima, é que as cenas onde tais eventos seriam aprofundadas devem ter sido cortadas para deixar o filme mais curto e dinâmico, mas acaba acontecendo o contrário, pois o excesso de idas e vindas e a falta de cenas de interação entre os protagonistas deixa-o um pouco tedioso.
É só na terceira parte mesmo que a coisa esquenta e temos uma batalha suicida muito boa que acontece na superfície de uma base imperial e no espaço. Embora falte o apelo emocional que sobra nos três primeiros filmes da saga (IV, V e VI), é mil vezes melhor do que as batalhas tolas dos prelúdios (I, II e III) que mostravam bonecos digitais irritantes destruindo robôs sem graça. Ao menos conseguimos ver Darth Vader detonando na tela de uma maneira totalmente inédita e que muitas fãs sempre sentiram falta. Nesse sentido, “Rogue One” acaba pecando justamente por fazer pouco “fan service”, que é aquele recurso de enfiar no meio da narrativa situações ou personagens da série original. Sem dizer que falta humor, todo mundo é sério e carrancudo e o único alívio cômico é o robô imperial que foi reprogramado, mas mesmo suas tiradas soam forçadas e baratas.
Os atores principais também são fracos, principalmente o mexicano Diego Luna que é muito franzino e com cara de pernilongo para convencer como guerreiro rebelde e galã romântico, tanto é que ele e a mocinha (Felicity Jones, bem sem graça também) nem chegam a trocar um beijo. O vilão central, diretor Krennic, também é feito por um ator fraco e caricato, a mesma coisa acontecendo com o piloto imperial desertor. O personagem do cego com habilidades ninja não funciona, pois nunca ficam claras as extensões dos poderes dele (ele repete um mantra sobre a Força, mas não é Jedi, embora lute como um, mas sem sabre de luz).
O filme também se dá o luxo de desperdiçar o excelente Mads Mikkelsen em um papel que poderia ter sido bem melhor desenvolvido, igual fizeram com ele em “Doutor Estranho”. Todo mundo está reclamando de terem recriado digitalmente o personagem de Peter Cushing, como o governador Tarkin em “Uma Nova Esperança”, mas eu achei muito bem feito e sinceramente não me incomodou, além de ser uma bonita homenagem ao grande ator da Hammer. A princesa Leia nem tanto, mas confesso que chorei quando ela apareceu... Coisa de nerd, não tem jeito.
O compositor Michael Giacchino foi chamado às pressas para criar uma nova trilha musical após a partitura de Desplat ter sido rejeitada e fez um bom trabalho tendo apenas 4 semanas para finalizar, incorporando de maneira inteligente os temas clássicos de John Williams, embora algum material temático novo não funcione como deveria, principalmente o tema principal e o associado ao vilão imperial. Mas não é nada que atrapalhe.
Gostei também que o personagem feito por Forest Whitaker chama-se Saw Gerrera, uma óbvia referência ao guerrilheiro Che Guevara, que também lutava contra o fascismo e era considerado extremista até pelos seus companheiros, mas mesmo assim um herói. Pena que seja tão mal usado e suma de maneira muito besta. Tiveram o cuidado também de recriar com perfeição a armadura original de Darth Vader que era um pouco diferente do que vimos em “O Império Contra-Ataca” e “O Retorno de Jedi”, já que em “Uma Nova Esperança” ela era meio pobre e sem brilho, certamente devido às limitações financeiras na época.
Enfim, o filme é perfeitamente desfrutável e vai agradar aos fãs, porém os problemas na pós-produção certamente acabaram impedindo que “Rogue One” realmente se tornasse uma entrada memorável no cânone da saga “Star Wars”. O que é uma pena. Tomara que lancem uma versão estendida do filme.
Cotação: * * *
segunda-feira, 28 de novembro de 2016
Filmes: "A Chegada"
DE ARREPIAR
É muito bom ver que o cinema comercial estadunidense ainda é capaz de lançar filmes com uma mensagem de tolerância, entendimento e paz tão arrebatadora
- por André Lux, crítico-spam
É sempre muito bom ver que o cinema comercial estadunidense ainda é capaz de lançar filmes como “A Chegada”, ricos em significados e com uma mensagem de tolerância, entendimento e paz tão arrebatadora. Certamente é a mais inteligente ficção científica séria desde “Contato”, com Jodie Foster.
O filme é dirigido por Dennis Villenueve, um franco-canadense que tem uma obra de respeito mundo afora, mas de quem que eu só vi “Incêndios”, certamente um dos filmes mais perturbadores dos últimos tempos, ao ponto de ter que parar de assistir no meio, tamanho o impacto. Ainda não tive coragem de continuar, mas agora serei obrigado. Fez também “Sicario”, mas esse realmente achei banal por causa da trama sobre o combate ao narcotráfico na fronteira entre EUA e México, um tema por demais batido e tolo. Está dirigindo também a nova versão (ou continuação) de “Blade Runner”e por isso esse projeto aparentemente suicida ganha minha simpatia por hora.
Mas seu estilo de direção preciso e sua segurança narrativa certamente chegaram ao ápice aqui, no que poderia ser descrito como um “Independence Day” levado a sério, afinal trata-se da “invasão” de várias naves desconhecidas que até se parecem com as do filme-pipoca de Roland Emmerich. Mas as semelhanças terminam por aí, pois o foco de “A Chegada” está nas tentativas dos humanos de se comunicarem com os alienígenas e na construção de um entendimento entre as duas linguagens.
Neste quesito o filme é primoroso ao mostrar como a boa comunicação é fundamental para gerar equilíbrio, harmonia e paz. Ou vice-versa, isto é, pânico, desentendimentos e conflitos em qualquer esfera de relacionamentos. Impossível desgrudar os olhos da tela quando os cientistas começam a tentar se comunicar com os aliens, em sequências de tirar o fôlego que se beneficiam em grande parte pela atuação natural e sincera de Amy Adams, que até agora só tinha aparecido em comédias românticas ou com a namorada do Superman nos horríveis filmes do “Homem de Aço”.
Não bastasse isso, “A Chegada” também brilha ao mostrar como os diferentes tipos de linguagem e comunicação podem mudar a percepção da realidade das pessoas e como o tempo é precioso e pode ter diferentes tipos de impacto em nossas vidas. Os diversos flashbacks que mostram o relacionamento da linguista com uma criança (e que depois descobrimos ser algo totalmente diferente) são a chave para a descoberta dos mistérios dos visitantes e servem para deixar a mensagem do filme ainda mais emocionante. Impossível conter as lágrimas durante a conclusão, certamente uma das mais estimulantes apresentadas pelo cinema recentemente, ao ponto de fazer você querer assistir ao filme novamente com urgência.
O início e a conclusão da obra são pontuados por uma bela música composta por Max Richter, chamada “On the Nature of Daylight”, enquanto o restante da trilha de autoria de um certo Jóhann Jóhannsso é formada por uma partitura praticamente atonal e calcada em sonoridades que buscam realçar o clima de suspense e estranheza dos contatos imediatos.
Não há muito mais o que dizer. Vá e veja. É de arrepiar.
Cotação: * * * * *
É muito bom ver que o cinema comercial estadunidense ainda é capaz de lançar filmes com uma mensagem de tolerância, entendimento e paz tão arrebatadora
- por André Lux, crítico-spam
É sempre muito bom ver que o cinema comercial estadunidense ainda é capaz de lançar filmes como “A Chegada”, ricos em significados e com uma mensagem de tolerância, entendimento e paz tão arrebatadora. Certamente é a mais inteligente ficção científica séria desde “Contato”, com Jodie Foster.
O filme é dirigido por Dennis Villenueve, um franco-canadense que tem uma obra de respeito mundo afora, mas de quem que eu só vi “Incêndios”, certamente um dos filmes mais perturbadores dos últimos tempos, ao ponto de ter que parar de assistir no meio, tamanho o impacto. Ainda não tive coragem de continuar, mas agora serei obrigado. Fez também “Sicario”, mas esse realmente achei banal por causa da trama sobre o combate ao narcotráfico na fronteira entre EUA e México, um tema por demais batido e tolo. Está dirigindo também a nova versão (ou continuação) de “Blade Runner”e por isso esse projeto aparentemente suicida ganha minha simpatia por hora.
Mas seu estilo de direção preciso e sua segurança narrativa certamente chegaram ao ápice aqui, no que poderia ser descrito como um “Independence Day” levado a sério, afinal trata-se da “invasão” de várias naves desconhecidas que até se parecem com as do filme-pipoca de Roland Emmerich. Mas as semelhanças terminam por aí, pois o foco de “A Chegada” está nas tentativas dos humanos de se comunicarem com os alienígenas e na construção de um entendimento entre as duas linguagens.
Neste quesito o filme é primoroso ao mostrar como a boa comunicação é fundamental para gerar equilíbrio, harmonia e paz. Ou vice-versa, isto é, pânico, desentendimentos e conflitos em qualquer esfera de relacionamentos. Impossível desgrudar os olhos da tela quando os cientistas começam a tentar se comunicar com os aliens, em sequências de tirar o fôlego que se beneficiam em grande parte pela atuação natural e sincera de Amy Adams, que até agora só tinha aparecido em comédias românticas ou com a namorada do Superman nos horríveis filmes do “Homem de Aço”.
Não bastasse isso, “A Chegada” também brilha ao mostrar como os diferentes tipos de linguagem e comunicação podem mudar a percepção da realidade das pessoas e como o tempo é precioso e pode ter diferentes tipos de impacto em nossas vidas. Os diversos flashbacks que mostram o relacionamento da linguista com uma criança (e que depois descobrimos ser algo totalmente diferente) são a chave para a descoberta dos mistérios dos visitantes e servem para deixar a mensagem do filme ainda mais emocionante. Impossível conter as lágrimas durante a conclusão, certamente uma das mais estimulantes apresentadas pelo cinema recentemente, ao ponto de fazer você querer assistir ao filme novamente com urgência.
O início e a conclusão da obra são pontuados por uma bela música composta por Max Richter, chamada “On the Nature of Daylight”, enquanto o restante da trilha de autoria de um certo Jóhann Jóhannsso é formada por uma partitura praticamente atonal e calcada em sonoridades que buscam realçar o clima de suspense e estranheza dos contatos imediatos.
Não há muito mais o que dizer. Vá e veja. É de arrepiar.
Cotação: * * * * *
sexta-feira, 11 de novembro de 2016
Filmes: "Doutor Estranho"
MAIS DO MESMO
Filme segue a fórmula já batida, porém segura, da maioria das adaptações que trazem a origem dos heróis
- por André Lux, crítico-spam
Está havendo uma saturação de filmes sobre super-heróis nos cinemas, com Marvel e DC competindo para ver quem lança mais filmes no ano. Até agora a Marvel tem levado a melhor, com filmes dinâmicos, curtos e divertidos, enquanto a DC se perde em produções pesadas, longas e irritantes.
Surge agora esse “Doutor Estranho”, criado por Stan Lee e Steve Ditko, um médico arrogante que sofre acidente (extremamente exagerado no filme), sai em busca de uma cura para sua condição e acaba virando um poderoso mago.
Uma premissa até interessante, mas que acaba sendo desperdiçada por um roteiro que copia fórmulas já utilizadas antes nos outros filmes baseados em quadrinhos, principalmente “Batman Begins” e “Homem de Ferro”, e em soluções visuais que lembram demais “A Origem” e até “Matrix”. Ou seja, é mais do mesmo.
Não gosto muito do ator Benedict Cumberbatch, que faz o protagonista, pois atua sempre de forma posada, fria e artificial, fatores que impedem qualquer empatia com os personagens que representa. O filme falha em explicar a mudança na personalidade do sujeito, que teria que se livrar do seu enorme ego para conseguir praticar as magias, algo que acontece de forma absolutamente superficial – aparentemente, basta ser abandonado no meio do Himalaia e, pronto, você vira uma pessoa super humilde e capaz de abrir portais dimensionais imediatamente.
Também não fica claro de onde vem os poderes mágicos do Doutor Estranho (ele retira sua força do universo ou isso é algo que vem de dentro dele?), muito menos quais são extensões e regras deles, um problema que atrapalha a maioria dos filmes de super-heróis atualmente (como o Thor, por exemplo, que em uma cena só consegue voar depois de girar seu martelo, mas em outra sai voando sozinho e pega o martelo no ar).
O filme segue a fórmula já batida, porém segura, da maioria das adaptações que trazem a origem dos heróis, culminando com uma batalha contra os vilões, cujo líder aqui é o ótimo ator dinamarquês Madds Mikelsen totalmente desperdiçado, exceto por uma única cena onde ao menos tem um longo monólogo durante o qual tenta dar alguma profundidade aos atos do seu personagem.
Claro que os fãs do personagem e de quadrinhos em geral vão dar uma banana pra tudo isso que escrevi e certamente adorarão o filme, que em última instância foi feito para eles mesmo. O resto dos mortais talvez não ache tanta graça assim, infelizmente.
Cotação: * *
Filme segue a fórmula já batida, porém segura, da maioria das adaptações que trazem a origem dos heróis
- por André Lux, crítico-spam
Está havendo uma saturação de filmes sobre super-heróis nos cinemas, com Marvel e DC competindo para ver quem lança mais filmes no ano. Até agora a Marvel tem levado a melhor, com filmes dinâmicos, curtos e divertidos, enquanto a DC se perde em produções pesadas, longas e irritantes.
Surge agora esse “Doutor Estranho”, criado por Stan Lee e Steve Ditko, um médico arrogante que sofre acidente (extremamente exagerado no filme), sai em busca de uma cura para sua condição e acaba virando um poderoso mago.
Uma premissa até interessante, mas que acaba sendo desperdiçada por um roteiro que copia fórmulas já utilizadas antes nos outros filmes baseados em quadrinhos, principalmente “Batman Begins” e “Homem de Ferro”, e em soluções visuais que lembram demais “A Origem” e até “Matrix”. Ou seja, é mais do mesmo.
Não gosto muito do ator Benedict Cumberbatch, que faz o protagonista, pois atua sempre de forma posada, fria e artificial, fatores que impedem qualquer empatia com os personagens que representa. O filme falha em explicar a mudança na personalidade do sujeito, que teria que se livrar do seu enorme ego para conseguir praticar as magias, algo que acontece de forma absolutamente superficial – aparentemente, basta ser abandonado no meio do Himalaia e, pronto, você vira uma pessoa super humilde e capaz de abrir portais dimensionais imediatamente.
Também não fica claro de onde vem os poderes mágicos do Doutor Estranho (ele retira sua força do universo ou isso é algo que vem de dentro dele?), muito menos quais são extensões e regras deles, um problema que atrapalha a maioria dos filmes de super-heróis atualmente (como o Thor, por exemplo, que em uma cena só consegue voar depois de girar seu martelo, mas em outra sai voando sozinho e pega o martelo no ar).
O filme segue a fórmula já batida, porém segura, da maioria das adaptações que trazem a origem dos heróis, culminando com uma batalha contra os vilões, cujo líder aqui é o ótimo ator dinamarquês Madds Mikelsen totalmente desperdiçado, exceto por uma única cena onde ao menos tem um longo monólogo durante o qual tenta dar alguma profundidade aos atos do seu personagem.
Claro que os fãs do personagem e de quadrinhos em geral vão dar uma banana pra tudo isso que escrevi e certamente adorarão o filme, que em última instância foi feito para eles mesmo. O resto dos mortais talvez não ache tanta graça assim, infelizmente.
Cotação: * *
Séries: "The Walking Dead"
JÁ DEU
Só a primeira temporada foi realmente interessante e capaz de gerar alguma emoção
- por André Lux, crítico-spam
Apesar de manter o bom nível técnico, só a primeira temporada de “The Walking Dead” foi realmente interessante e capaz de gerar alguma emoção, basicamente por apresentar algum propósito na busca dos sobreviventes por respostas e até mesmo uma cura para a praga que transformava todo mundo em zumbis.
Da segunda temporada em diante essa busca foi deixada de lado e sobrou acompanhar os protagonistas perambulando de um lado para o outro enquanto são perseguidos por zumbis ou encontram outros sobreviventes que ou são bonzinhos como ele ou são psicopatas malvados que desejam prendê-los ou até servi-los em banquetes canibais.
Outro problema é que como antagonistas, os mortos-vivos são muito fracos e sem graça, já que não passam de seres desmiolados e decrépitos cuja motivação única é agarrar e morder os humanos não-infectados. Por um tempo até dá para aturar isso, mas chega uma hora que perde a graça e aí os zumbis viram figurantes em sua própria série, obrigando os roteiristas a concentrarem o foco nos dramas pessoais dos protagonistas, que aqui, verdade seja dita, são muito rasos, para não dizer chatos.
Outra coisa que incomoda é que depois de sete temporadas da série, não tem qualquer lógica eles continuarem achando comida em supermercados ou bares, já que tudo que foi produzido antes do apocalipse zumbi já teria estragado. O que levanta outra questão: quanto tempo dura um morto-vivo sem ter seu corpo totalmente apodrecido e se desfazer?
Enfim, tudo isso seria perdoável se a série tivesse mantido algum senso de propósito, de busca ou redenção, personagens mais interessantes e dramas menos mundanos e banais, já que a série se passa num mundo destruído e infestado por monstros. Do que jeito que está, já deu. Faz tempo.
Cotação: * *
Só a primeira temporada foi realmente interessante e capaz de gerar alguma emoção
- por André Lux, crítico-spam
Apesar de manter o bom nível técnico, só a primeira temporada de “The Walking Dead” foi realmente interessante e capaz de gerar alguma emoção, basicamente por apresentar algum propósito na busca dos sobreviventes por respostas e até mesmo uma cura para a praga que transformava todo mundo em zumbis.
Da segunda temporada em diante essa busca foi deixada de lado e sobrou acompanhar os protagonistas perambulando de um lado para o outro enquanto são perseguidos por zumbis ou encontram outros sobreviventes que ou são bonzinhos como ele ou são psicopatas malvados que desejam prendê-los ou até servi-los em banquetes canibais.
Outro problema é que como antagonistas, os mortos-vivos são muito fracos e sem graça, já que não passam de seres desmiolados e decrépitos cuja motivação única é agarrar e morder os humanos não-infectados. Por um tempo até dá para aturar isso, mas chega uma hora que perde a graça e aí os zumbis viram figurantes em sua própria série, obrigando os roteiristas a concentrarem o foco nos dramas pessoais dos protagonistas, que aqui, verdade seja dita, são muito rasos, para não dizer chatos.
Outra coisa que incomoda é que depois de sete temporadas da série, não tem qualquer lógica eles continuarem achando comida em supermercados ou bares, já que tudo que foi produzido antes do apocalipse zumbi já teria estragado. O que levanta outra questão: quanto tempo dura um morto-vivo sem ter seu corpo totalmente apodrecido e se desfazer?
Enfim, tudo isso seria perdoável se a série tivesse mantido algum senso de propósito, de busca ou redenção, personagens mais interessantes e dramas menos mundanos e banais, já que a série se passa num mundo destruído e infestado por monstros. Do que jeito que está, já deu. Faz tempo.
Cotação: * *
terça-feira, 18 de outubro de 2016
Bem vindo ao fantástico clube dos intensos
- por Ester Chaves
Prazer, nasci com a alma transbordante.
Sinto tudo derramando, e não sei explicar porquê acontece e se há algum remédio para isso.
Se houver cura, dispenso. As coisas normais não me atiçam. Não me aceleram. Não me continuam.
Preciso da sofisticação do que é aparentemente simples. Do abraço da brisa nos poros. Dos respingos do sol adornando a tarde. Da carícia na ponta dos dedos, da massagem demorada nas costas. Preciso sentir que há um outro. Preciso senti-lo existindo, respirando perto, pulsando, trocando ideias e experiências. Preciso dessa vizinhança das almas que conversam até mesmo sem nada dizer.
O ritmo lento da normalidade não me empurra, não me anima. Não me agita. Não me faz querer voar para a voragem dos olhares que troco na rua, para os encontros que fazem com que as almas se encaminhem para dentro de si mesmas e se abracem por dentro.
Eu não nasci para o morno. Eu não nasci para a realidade pálida que não se oferece à ousadia. Eu não nasci para os dias parados e sem cores. Eu nasci para pintar. Eu nasci para amar intensamente, de dentro para fora! Por dentro e por fora, sem medo do não e do adeus repentino. O único medo é não avançar quando quero. Não amar quando posso. Quando o coração sinaliza que já não dá para desconversar e mudar a estrada.
Eu nasci para o fogo, para intimidade quente de um cobertor dividido. Para um sorriso que se abre sem procurar motivo. Para o café forte coado no coador de pano. Para o delírio de uma bela canção executada no violino.
Quem é intenso, é delicado, é esvoaçante. Tem renda no pensamento e mania de levitação.
Ser intenso é reconhecer-se em tudo, é colocar borda na alma dos outros. É retirar o tapume dos olhos quando a realidade ameaça a doçura.
Quem é intenso sabe o quanto pode ser considerado estranho por “sentir demais” num mundo de palavras e sentimentos tão mecânicos, onde qualquer demonstração de afeto é confundida com fraqueza.
Fraco é quem não sabe mais sentir. Quem não sabe abraçar com o olhar. Fraco é quem joga a toalha e vive no modo “automático”. Sentindo pouco, guardando emoções para usar depois, estocando sentimento para uma oportunidade especial.
Especial é ser intenso. E quem disse que não tem lágrimas?
O coração do intenso não é blindado. Vez ou outra, uma pancada forte o acerta em cheio, e ele, dolorido, reclama, arde, soluça no travesseiro e pede proteção. A tristeza às vezes bate à porta, maltrata, derruba algumas certezas, revira alguns sonhos, esculacha, mas não é capaz de matar a esperança.
A esperança nos intensos é como um membro primordial do corpo, não é possível arrancar. Não se desfaz à toa. A esperança nunca anda só. Quem tem esperança tem artimanha e carta na manga para reerguer o castelo depois da tragédia e ainda sobra disposição para fazer graça.
O grande trunfo do intenso é, sem dúvida, a sua capacidade de não saber disfarçar o que sente. Os sentimentos estão sempre falando alto, se espalhando pelos gestos, orquestrando as ações. O intenso nunca nega o que é. A alma não deixa…
Ester Chaves é escritora brasiliense. Graduada em Letras pela Universidade Católica de Brasília e Pós-Graduada em Literatura Brasileira pela mesma instituição. Atuante na vida cultural da cidade, participou de vários eventos poético-musicais. Já teve textos publicados em jornais e revistas. É colunista nos sites “CONTI outra, artes e afins”, “A Soma de Todos os Afetos”, “Escritos Meus” e “Fãs da Psicanálise”.
Sinto tudo derramando, e não sei explicar porquê acontece e se há algum remédio para isso.
Se houver cura, dispenso. As coisas normais não me atiçam. Não me aceleram. Não me continuam.
Preciso da sofisticação do que é aparentemente simples. Do abraço da brisa nos poros. Dos respingos do sol adornando a tarde. Da carícia na ponta dos dedos, da massagem demorada nas costas. Preciso sentir que há um outro. Preciso senti-lo existindo, respirando perto, pulsando, trocando ideias e experiências. Preciso dessa vizinhança das almas que conversam até mesmo sem nada dizer.
O ritmo lento da normalidade não me empurra, não me anima. Não me agita. Não me faz querer voar para a voragem dos olhares que troco na rua, para os encontros que fazem com que as almas se encaminhem para dentro de si mesmas e se abracem por dentro.
Eu não nasci para o morno. Eu não nasci para a realidade pálida que não se oferece à ousadia. Eu não nasci para os dias parados e sem cores. Eu nasci para pintar. Eu nasci para amar intensamente, de dentro para fora! Por dentro e por fora, sem medo do não e do adeus repentino. O único medo é não avançar quando quero. Não amar quando posso. Quando o coração sinaliza que já não dá para desconversar e mudar a estrada.
Eu nasci para o fogo, para intimidade quente de um cobertor dividido. Para um sorriso que se abre sem procurar motivo. Para o café forte coado no coador de pano. Para o delírio de uma bela canção executada no violino.
Quem é intenso, é delicado, é esvoaçante. Tem renda no pensamento e mania de levitação.
Ser intenso é reconhecer-se em tudo, é colocar borda na alma dos outros. É retirar o tapume dos olhos quando a realidade ameaça a doçura.
Quem é intenso sabe o quanto pode ser considerado estranho por “sentir demais” num mundo de palavras e sentimentos tão mecânicos, onde qualquer demonstração de afeto é confundida com fraqueza.
Fraco é quem não sabe mais sentir. Quem não sabe abraçar com o olhar. Fraco é quem joga a toalha e vive no modo “automático”. Sentindo pouco, guardando emoções para usar depois, estocando sentimento para uma oportunidade especial.
Especial é ser intenso. E quem disse que não tem lágrimas?
O coração do intenso não é blindado. Vez ou outra, uma pancada forte o acerta em cheio, e ele, dolorido, reclama, arde, soluça no travesseiro e pede proteção. A tristeza às vezes bate à porta, maltrata, derruba algumas certezas, revira alguns sonhos, esculacha, mas não é capaz de matar a esperança.
A esperança nos intensos é como um membro primordial do corpo, não é possível arrancar. Não se desfaz à toa. A esperança nunca anda só. Quem tem esperança tem artimanha e carta na manga para reerguer o castelo depois da tragédia e ainda sobra disposição para fazer graça.
O grande trunfo do intenso é, sem dúvida, a sua capacidade de não saber disfarçar o que sente. Os sentimentos estão sempre falando alto, se espalhando pelos gestos, orquestrando as ações. O intenso nunca nega o que é. A alma não deixa…
Ester Chaves é escritora brasiliense. Graduada em Letras pela Universidade Católica de Brasília e Pós-Graduada em Literatura Brasileira pela mesma instituição. Atuante na vida cultural da cidade, participou de vários eventos poético-musicais. Já teve textos publicados em jornais e revistas. É colunista nos sites “CONTI outra, artes e afins”, “A Soma de Todos os Afetos”, “Escritos Meus” e “Fãs da Psicanálise”.
sexta-feira, 14 de outubro de 2016
Filmes: "Syriana"

CORRUPÇÃO S/A
Quem acreditou na ladainha neoliberal sobre a honestidade das corporações privadas frente à corrupção do Estado vai ter que rever seus valores
- Por André Lux, crítico-spam
Fazia tempo que não era lançado um filme tão complexo e contundente como SYRIANA, que bem poderia se chamar “Corrupção S/A”. Dirigido por Stephen Gaghan, roteirista do excelente TRAFFIC, conta com um elenco de primeira linha liderado por George Clooney (também um dos produtores executivos) para mostrar, com tintas realistas e engajamento político, a podridão que envolve o mundo dos negócios, no caso o de exploração e venda de petróleo no Oriente Médio.
Qualquer um que algum dia acreditou na ladainha neoliberal sobre a suposta honestidade das corporações privadas frente à inerente corrupção do Estado, muito usada para difundir a tão propaga “necessidade” das privatizações nas últimas décadas, vai ter que rever seus valores no final da sessão. Embora SYRIANA tenha formato de thriller político e apresente várias tramas paralelas que só irão se unir no final, o que move o enredo é a disputa política entre dois irmãos num emirado árabe no Golfo Pérsico. Um deles é o típico playboy alienado e vendido ao sistema capitalista, que torra a fortuna da família com iates, drogas e mulheres, enquanto o outro, Príncipe Nasir (Alexander Siddig), tem intenções mais nobres.
Vem dele, por sinal, uma das falas mais reveladoras do filme. Quando interpelado pelo executivo feito por Matt Damon sobre o inevitável fim das reservas petrolíferas mundiais e as conseqüências disso para os povos do Oriente Médio, que fatalmente vão retornar ao barbarismo, dispara: “E você acha que eu não sei disso? Quando aceitei a melhor oferta da China para explorar meus poços, o fiz pensando em meu povo, em usar o dinheiro para melhorar a condição de vida de todos, investir em infra-estrutura e bem estar social. Por isso, agora sou chamado pela mídia e pelo seu governo de terrorista, comunista e ateu!”.
Mas o ponto que mais impressiona em SYRIANA, não só pela crueza, mas também pela alta dose de verossimilhança, são as interferências diretas promovidas pelo Governo dos Estados Unidos, via sua Central de Inteligência (CIA), nos negócios realizados na região. Seus agentes agem como verdadeiros “anjos da guarda” para garantir que somente as empresas estadunidenses fechem negócios no Golfo Pérsico, nem que para isso precisem torturar e matar qualquer um que se colocar no caminho.
Do outro lado, as grandes corporações fazem das tripas coração para abocanhar contratos milionários de exclusividade. Manipulação, distorção, mentiras e corrupção são palavras banais neste negócio. Numa seqüência exemplar, um político conservador (interpretado por Tim Blake Nelson), ao ser flagrado em ato de corrupção por advogado que representa os interesses de uma empresa, dispara uma frase que já se tornou antológica: “Corrupção? Corrupção é a intrusão do governo no mercado na forma de regulação. Temos leis contra ela justamente para que possamos sair impunes. Corrupção é a nossa proteção! Corrupção nos mantém salvos e aquecidos! É graças à corrupção que você e eu viajamos o mundo ao invés de brigar nas ruas por um pedaço de carne! Corrupção é o motivo da nossa vitória!”.
Qualquer semelhança com a realidade, não é mera coincidência.
Infelizmente, nem tudo são flores em SYRIANA (a começar pelo nome, que não é explicado, mas é usado tanto para se referir à Síria - como em Pax Syriana-, quanto como um rotulo hipotético para referir-se a países do Oriente Médio que têm semelhança com a Síria). Ou seja, quem não tiver um conhecimento razoável da situação atual da região, incluindo aí os conflitos entre seus inúmeros grupos político-religiosos, e de como funciona o mercado das fusões nos Estados Unidos vai ter grande dificuldade de seguir a trama. Há também um excesso de personagens que deixa a situação ainda mais complicada (o drama familiar do executivo feito por Damon, por exemplo, não acrescenta nada ao filme e pode confundir o espectador).
O agente da CIA, feito por Clooney, também sofre de certa letargia e ingenuidade incongruentes com o personagem. Jamais alguém com tamanha experiência e bagagem em fazer o jogo sujo para o Tio Sam seria manipulado e enganado de forma tão fácil, muito menos ficaria tão surpreso ao ser descartado num momento de crise.
Todavia, mesmo apresentando essas falhas e incoerências, é inegável que SYRIANA mereça respeito e crédito, não apenas por tocar numa ferida aberta que pouquíssimas pessoas teriam coragem de expor, mas, principalmente, por deixar claro que, do mundo dos negócios promovidos pelas grandes corporações transnacionais, ninguém sai limpo.
E as conseqüências de tudo isso serão, a médio e longo prazos, catastróficas para a humanidade, como bem mostra o filme ao acompanhar a trajetória de um emigrante paquistanês que, expulso do emprego, brutalizado pela polícia e sem qualquer esperança de um futuro melhor, abraça a causa do terrorismo contra o inimigo de seu povo.
Mais atual e pertinente do que SYRIANA, sinceramente, dificilmente um filme será.
Cotação: ****1/2
quinta-feira, 13 de outubro de 2016
Filmes: "Inferno"
ESQUEMÁTICO
Apesar dos defeitos, até que dá pra louvar algo que estimula as pessoas a conhecerem um pouco de ciência e arte
Apesar dos defeitos, até que dá pra louvar algo que estimula as pessoas a conhecerem um pouco de ciência e arte
- por André Lux, crítico-spam
Esse é o primeiro filme baseado na obra do Dan Brown que eu comento, mas o texto vale para os outros dois primeiros numa boa, afinal seguem o mesmo padrão esquemático que o autor aplica nos seus livros. Qual seja: uma trama extremamente rebuscada e rocambolesca que une conceitos pseudo-científicos, um conhecimento razoável de obras clássicas e perseguições em várias localidades turísticas europeias enquanto o herói tenta decifrar os quebra-cabeças deixados para trás, sempre acompanhado de uma bela mulher. Sem dúvida uma fórmula eficaz que atrai os mais variados tipos de leitores e espectadores.
O mais popular acabou sendo “O Código Da Vinci” que realmente era mais interessante, talvez por girar em cima da obra do genial artista e inventor Leonardo Da Vinci e também por trazer conjecturas bastante pertinentes sobre a vida de Jesus, principalmente no papel que Maria Madalena teria em sua vida. O segundo tratava de uma trama completamente absurda que visava em última instância levar um extremista ao posto de Papa da igreja Católica.
Esse “Inferno” segue a mesma toada. A maior diferença é que começa já em plena ação, com o professor Langdon (Tom Hanks, sempre carismático) acordando em um hospital com amnésia e sendo perseguido por várias organizações, enquanto tenta desvendar mais um mistério que agora usa a obra de Dante para montar as peças do quebra-cabeça que pode levar à liberação de uma doença que vai exterminar quase toda a humanidade.
Enfim, é mais do mesmo. Quem gosta, certamente vai tolerar os clichês (como os protagonistas sempre escapando dos perseguidores por um triz) e os absurdos da trama. O maior deles, claro, reside no fato de que o vilão não precisava ter montado todo aquele esquema para liberar sua arma química, muito menos esconder dos seus seguidores ou fugir de quem estava querendo pegá-la para vender a terroristas. O sujeito tinha total convicção que a solução para todos os problemas do mundo era acabar com a superpopulação atual, portanto faria qualquer coisa para que seu plano desse certo o mais rápido possível, não é mesmo?
Apesar da trilha sonora péssima do sempre abominável Hans Zimmer e dos defeitos apontados acima, é perfeitamente desfrutável, principalmente graças ao ótimo elenco e pelas locações exóticas e fotogênicas. Todavia, é mais indicado para quem gosta de ver citações superficiais a autores e obras famosas e de mistérios que, claro, são sempre explicados de forma didática no final para que ninguém fique se achando burro. Mas, em tempos de “Velozes e Furiosos” e outras imbecilidades terminais até que dá pra louvar algo que pelo menos estimula as pessoas a conhecerem um pouco de ciência e arte, convenhamos...
Cotação: * * 1/2
Esse é o primeiro filme baseado na obra do Dan Brown que eu comento, mas o texto vale para os outros dois primeiros numa boa, afinal seguem o mesmo padrão esquemático que o autor aplica nos seus livros. Qual seja: uma trama extremamente rebuscada e rocambolesca que une conceitos pseudo-científicos, um conhecimento razoável de obras clássicas e perseguições em várias localidades turísticas europeias enquanto o herói tenta decifrar os quebra-cabeças deixados para trás, sempre acompanhado de uma bela mulher. Sem dúvida uma fórmula eficaz que atrai os mais variados tipos de leitores e espectadores.
O mais popular acabou sendo “O Código Da Vinci” que realmente era mais interessante, talvez por girar em cima da obra do genial artista e inventor Leonardo Da Vinci e também por trazer conjecturas bastante pertinentes sobre a vida de Jesus, principalmente no papel que Maria Madalena teria em sua vida. O segundo tratava de uma trama completamente absurda que visava em última instância levar um extremista ao posto de Papa da igreja Católica.
Esse “Inferno” segue a mesma toada. A maior diferença é que começa já em plena ação, com o professor Langdon (Tom Hanks, sempre carismático) acordando em um hospital com amnésia e sendo perseguido por várias organizações, enquanto tenta desvendar mais um mistério que agora usa a obra de Dante para montar as peças do quebra-cabeça que pode levar à liberação de uma doença que vai exterminar quase toda a humanidade.
Enfim, é mais do mesmo. Quem gosta, certamente vai tolerar os clichês (como os protagonistas sempre escapando dos perseguidores por um triz) e os absurdos da trama. O maior deles, claro, reside no fato de que o vilão não precisava ter montado todo aquele esquema para liberar sua arma química, muito menos esconder dos seus seguidores ou fugir de quem estava querendo pegá-la para vender a terroristas. O sujeito tinha total convicção que a solução para todos os problemas do mundo era acabar com a superpopulação atual, portanto faria qualquer coisa para que seu plano desse certo o mais rápido possível, não é mesmo?
Apesar da trilha sonora péssima do sempre abominável Hans Zimmer e dos defeitos apontados acima, é perfeitamente desfrutável, principalmente graças ao ótimo elenco e pelas locações exóticas e fotogênicas. Todavia, é mais indicado para quem gosta de ver citações superficiais a autores e obras famosas e de mistérios que, claro, são sempre explicados de forma didática no final para que ninguém fique se achando burro. Mas, em tempos de “Velozes e Furiosos” e outras imbecilidades terminais até que dá pra louvar algo que pelo menos estimula as pessoas a conhecerem um pouco de ciência e arte, convenhamos...
Cotação: * * 1/2
quinta-feira, 29 de setembro de 2016
Filmes: "Eles Vivem"
SERÃO OS NEOLIBERAIS ALIENS?
Vai agradar quem gosta de ficção científica e de filmes engajados politicamente.
- por André Lux, crítico-spam
"Eles Vivem" é um dos melhores filmes que o diretor John Carpenter produziu até hoje. O roteiro, escrito pelo próprio Carpenter (sob pseudônimo) baseado num conto de Ray Nelson, é bastante engenhoso e tira máximo proveito de todas as situações inusitadas providas pela trama sempre interessante e pertinente.
Operário desempregado (o lutador Roddy Piper, canastrão perfeito para o papel) descobre uma conspiração alienígena para dominar a mente de todos os humanos por meio de mensagens subliminares escondidas em sinais de TV.
Tudo para transformar a Terra num planeta quente e poluído, habitat perfeito para eles. E ainda contam com a ajuda de vários humanos, que trocam a sobrevivência da espécie por dinheiro...
O que torna o filme ainda mais saboroso é a maneira pela qual ele toma conhecimento desse terrível fato: óculos escuros que, ao serem usados, deixam tudo preto-e-branco e o fazem "ver" o que realmente está acontecendo no mundo. Suas primeiras surpresas vêm quando olha para os outdoors só para ver, ao invés dos anúncios normais, palavras como "consuma", "assista TV" "não pense" ou "obedeça". Em seguida olha para uma nota de um dólar a qual, vista pelos óculos, diz "esse é o seu deus".
E não é só isso: ao olhar para algumas pessoas enquanto está sob efeito dos óculos, o protagonista vê a verdadeira natureza dos alienígenas que se escondem sob uma fachada humana também graças ao mesmo sinal subliminar. Garanto que depois de ver "Eles Vivem", você nunca mais vai se achar louco ao perguntar se tipos como Donald Trump, Daniel Dantas, a dona da Daslu ou outra figura bisonha da nossa dita "elite" não seriam de outro planeta, tamanho o grau de insensibilidade e desumanização que demonstram...
Carpenter imprime à sua obra um alto teor de ironia e também uma crítica escancarada ao modelo neoliberal e à mídia que o sustenta, algo ainda bastante atual e relevante, mesmo o filme sendo de 1988, época em que o "consenso de Washington" era enfiado goela abaixo dos governos do mundo inteiro e cujos resultados catastróficos já conhecemos bem.
Vai agradar quem gosta de ficção científica e de filmes engajados politicamente.
- por André Lux, crítico-spam
"Eles Vivem" é um dos melhores filmes que o diretor John Carpenter produziu até hoje. O roteiro, escrito pelo próprio Carpenter (sob pseudônimo) baseado num conto de Ray Nelson, é bastante engenhoso e tira máximo proveito de todas as situações inusitadas providas pela trama sempre interessante e pertinente.
Operário desempregado (o lutador Roddy Piper, canastrão perfeito para o papel) descobre uma conspiração alienígena para dominar a mente de todos os humanos por meio de mensagens subliminares escondidas em sinais de TV.
Tudo para transformar a Terra num planeta quente e poluído, habitat perfeito para eles. E ainda contam com a ajuda de vários humanos, que trocam a sobrevivência da espécie por dinheiro...
O que torna o filme ainda mais saboroso é a maneira pela qual ele toma conhecimento desse terrível fato: óculos escuros que, ao serem usados, deixam tudo preto-e-branco e o fazem "ver" o que realmente está acontecendo no mundo. Suas primeiras surpresas vêm quando olha para os outdoors só para ver, ao invés dos anúncios normais, palavras como "consuma", "assista TV" "não pense" ou "obedeça". Em seguida olha para uma nota de um dólar a qual, vista pelos óculos, diz "esse é o seu deus".
E não é só isso: ao olhar para algumas pessoas enquanto está sob efeito dos óculos, o protagonista vê a verdadeira natureza dos alienígenas que se escondem sob uma fachada humana também graças ao mesmo sinal subliminar. Garanto que depois de ver "Eles Vivem", você nunca mais vai se achar louco ao perguntar se tipos como Donald Trump, Daniel Dantas, a dona da Daslu ou outra figura bisonha da nossa dita "elite" não seriam de outro planeta, tamanho o grau de insensibilidade e desumanização que demonstram...
Será Roberto Justus um alien malvado também?
"Grana é seu deus". Parece título de editorial da Folha
Depois da Daslu, nada como comprar uns comes e bebes...
Carpenter imprime à sua obra um alto teor de ironia e também uma crítica escancarada ao modelo neoliberal e à mídia que o sustenta, algo ainda bastante atual e relevante, mesmo o filme sendo de 1988, época em que o "consenso de Washington" era enfiado goela abaixo dos governos do mundo inteiro e cujos resultados catastróficos já conhecemos bem.
Brincando com o famoso livro "Eram os Deuses Astronautas?", o filme poderia muito bem se chamar "Serão os Neoliberais Aliens?". Essa abordagem político-social aproxima "Eles Vivem" de outra interessante obra de ficção científica que também deveria provocar o mesmo tipo de reflexão nas pessoas: "Matrix", dos irmãos Wachowsky.
A famosa criatividade do diretor atinge neste filme seu ponto máximo. Suas idéias para cortar os custos da produção são brilhantes e só atuam em favor da trama, sem nunca deixar o filme muito falso ou mesmo excessivamente tosco. O fato de as cenas com efeitos especiais serem filmadas em preto e branco, um evidente recurso para gerar economia, apenas aumenta a sensação de estranheza, garante boas risadas e também algum suspense, principalmente no segundo ato durante o qual o protagonista vai ter que tentar convencer outras pessoas sobre a "verdade" que os cerca.
Temos aí uma das mais divertidas e inacreditáveis cenas do filme, exatamente quando ele tenta fazer outro operário (o ótimo Keith David, que já havia trabalhado com Carpenter em "O Enigma de Outro Mundo") a usar seus óculos. Como ele recusa, só resta aos dois saírem na porrada em uma seqüência de troca de "gentilezas" que dura vários minutos e termina de forma extremamente cômica!
Dentro de sua carreira repleta de altos e baixos, "Eles Vivem" certamente figura entre os trabalhos mais inspirados do diretor John Carpenter, que sabe como poucos tirar proveito máximo do formato widescreen, e vai agradar qualquer um que goste de ficção científica e de filmes engajados politicamente. Veja, reflita e divirta-se!
Cotação: * * * *
A famosa criatividade do diretor atinge neste filme seu ponto máximo. Suas idéias para cortar os custos da produção são brilhantes e só atuam em favor da trama, sem nunca deixar o filme muito falso ou mesmo excessivamente tosco. O fato de as cenas com efeitos especiais serem filmadas em preto e branco, um evidente recurso para gerar economia, apenas aumenta a sensação de estranheza, garante boas risadas e também algum suspense, principalmente no segundo ato durante o qual o protagonista vai ter que tentar convencer outras pessoas sobre a "verdade" que os cerca.
Temos aí uma das mais divertidas e inacreditáveis cenas do filme, exatamente quando ele tenta fazer outro operário (o ótimo Keith David, que já havia trabalhado com Carpenter em "O Enigma de Outro Mundo") a usar seus óculos. Como ele recusa, só resta aos dois saírem na porrada em uma seqüência de troca de "gentilezas" que dura vários minutos e termina de forma extremamente cômica!
Dentro de sua carreira repleta de altos e baixos, "Eles Vivem" certamente figura entre os trabalhos mais inspirados do diretor John Carpenter, que sabe como poucos tirar proveito máximo do formato widescreen, e vai agradar qualquer um que goste de ficção científica e de filmes engajados politicamente. Veja, reflita e divirta-se!
Cotação: * * * *
quarta-feira, 28 de setembro de 2016
Filmes: "Sete Homens e Um Destino" (2016)
MEDÍOCRE
Dá para assistir, mas não espere muito
- por André Lux, crítico-spam
O faroeste (ou “western” como é chamado lá nos EUA) é um gênero que vira e mexe volta às telas do cinema, mas sinceramente não há muito mais a explorar nele, principalmente depois que Clint Eastwood lançou “Os Imperdoáveis”, certamente o mais denso e realista deles.
Assim, seguindo a moda atual de “atualizar” (leia-se “refazer”) filmes do passado, surge essa nova versão de “Sete Homens e Um Destino”, clássico do gênero inspirado em “Os Sete Samurais”, do Akira Kurosawa, famoso pelo elenco excepcional e pela trilha musical do grande Elmer Bernstein (cujo tema principal virou jingle dos comerciais do cigarro Marlboro por décadas).
Não vou dizer que a nova versão é ruim, porque seria injustiça, porém não empolga e, claro, fica muito longe do original. O maior problema é a direção de Antoine Fuqua, que fez o ótimo “Dia de Treinamento”, mas parece não entender nada do gênero, insistindo numa aproximação hiper-realista em um tema que implora por algo leve e divertido (basta comparar com o bem mais sucedido “Silverado”, de 1985). A fotografia escura e destituída de cores vibrantes também atrapalha e deixa o filme ainda mais pesado.
Outro ponto baixo é a trilha musical assinada por James Horner que é contemporânea e minimalista ao extremo, além de ser novamente uma mera colcha de retalhos de seus trabalhos anteriores, principalmente “Lendas da Paixão” (não as partes bonitas), “Jogos Patrióticos”, “A Marca do Zorro”, “Coração de Trovão”, “Jumanji” e até “Mercenários das Galáxias”, seu primeiro trabalho e que era “Sete Homens e Um Destino” no espaço! O que é uma pena, já que esta foi sua derradeira trilha lançada nos cinemas, finalizada por Simon Franglen, um de seus colaboradores habituais e que assina como co-compositor, pouco depois de sua morte em um triste acidente aéreo. Nem mesmo o tema clássico composto por Elmer Bernstein é aproveitado (exceto por uma progressão rítmica), aparecendo apenas durante os créditos finais e soando completamente fora de contexto com o resto da trilha.
Choca também a fraqueza do roteiro, incapaz de criar diálogos memoráveis e de gerar empatia com os personagens, lançando mão de diversos clichês do gênero. Não ficam claras nem as motivações dos pistoleiros que vão se juntando ao grupo. O índio, por exemplo, troca umas palavras com o líder, dá um pedaço de carne crua pra ele morder e, pronto: vira um membro fiel. Hein? A grande batalha final não empolga muito e é por demais alongada. O elenco traz bons nomes, como Denzel Washington, Ethan Hawke, Chris Pratt e Vincent D’Onofrio, mas não chegam a brilhar devido à mediocridade do roteiro.
Medíocre é o melhor adjetivo para definir o filme. Dá para assistir, mas não espere muito.
Cotação: * * 1/2
O faroeste (ou “western” como é chamado lá nos EUA) é um gênero que vira e mexe volta às telas do cinema, mas sinceramente não há muito mais a explorar nele, principalmente depois que Clint Eastwood lançou “Os Imperdoáveis”, certamente o mais denso e realista deles.
Assim, seguindo a moda atual de “atualizar” (leia-se “refazer”) filmes do passado, surge essa nova versão de “Sete Homens e Um Destino”, clássico do gênero inspirado em “Os Sete Samurais”, do Akira Kurosawa, famoso pelo elenco excepcional e pela trilha musical do grande Elmer Bernstein (cujo tema principal virou jingle dos comerciais do cigarro Marlboro por décadas).
Não vou dizer que a nova versão é ruim, porque seria injustiça, porém não empolga e, claro, fica muito longe do original. O maior problema é a direção de Antoine Fuqua, que fez o ótimo “Dia de Treinamento”, mas parece não entender nada do gênero, insistindo numa aproximação hiper-realista em um tema que implora por algo leve e divertido (basta comparar com o bem mais sucedido “Silverado”, de 1985). A fotografia escura e destituída de cores vibrantes também atrapalha e deixa o filme ainda mais pesado.
Outro ponto baixo é a trilha musical assinada por James Horner que é contemporânea e minimalista ao extremo, além de ser novamente uma mera colcha de retalhos de seus trabalhos anteriores, principalmente “Lendas da Paixão” (não as partes bonitas), “Jogos Patrióticos”, “A Marca do Zorro”, “Coração de Trovão”, “Jumanji” e até “Mercenários das Galáxias”, seu primeiro trabalho e que era “Sete Homens e Um Destino” no espaço! O que é uma pena, já que esta foi sua derradeira trilha lançada nos cinemas, finalizada por Simon Franglen, um de seus colaboradores habituais e que assina como co-compositor, pouco depois de sua morte em um triste acidente aéreo. Nem mesmo o tema clássico composto por Elmer Bernstein é aproveitado (exceto por uma progressão rítmica), aparecendo apenas durante os créditos finais e soando completamente fora de contexto com o resto da trilha.
Choca também a fraqueza do roteiro, incapaz de criar diálogos memoráveis e de gerar empatia com os personagens, lançando mão de diversos clichês do gênero. Não ficam claras nem as motivações dos pistoleiros que vão se juntando ao grupo. O índio, por exemplo, troca umas palavras com o líder, dá um pedaço de carne crua pra ele morder e, pronto: vira um membro fiel. Hein? A grande batalha final não empolga muito e é por demais alongada. O elenco traz bons nomes, como Denzel Washington, Ethan Hawke, Chris Pratt e Vincent D’Onofrio, mas não chegam a brilhar devido à mediocridade do roteiro.
Medíocre é o melhor adjetivo para definir o filme. Dá para assistir, mas não espere muito.
Cotação: * * 1/2
terça-feira, 27 de setembro de 2016
Filmes: "Capitão América: Guerra Civil"
DÁ PRO GASTO
Filme é divertido, mas fórmula utilizada já começa a se esgotar
- por André Lux, crítico-spam
Os filmes solo do Capitão América continuam sendo a melhor coisa do universo Marvel adaptado para os cinemas, embora tudo fique cada vez mais confuso já que não dá pra entender porque não fazem simplesmente ser “Os Vingadores”, já que os personagens estão sempre interagindo e não faz muito sentido não estarem presentes quando ameaças terríveis se lançam contra a humanidade, como no segundo “Thor”, por exemplo.
Mesmo assim, os longas com os super-heróis da Marvel continuam mantendo uma boa qualidade, apesar de começarem a cansar, principalmente por causa dessa insistência de colocar os governos do mundo e a mídia questionando a ação deles, algo que apareceu primeiro em “Watchmen” e está também nos filmes da DC, que são bem piores.
Assim, “Capitão América: Guerra Civil” começa onde terminou “Os Vingadores: A Era de Ultron” e tem uma trama bastante rebuscada e altamente inverossímil que acaba sendo novamente apenas uma história de vingança e retaliação que visa fazer os heróis brigarem uns contra os outros - sim, exatamente igual ao abominável “Batman Versus Superman”.
Mas, aqui pelo menos é tudo mais leve e divertido, com muitas cenas de humor e lutas bem coreografadas e editadas, excelentes efeitos visuais e um ótimo elenco. O ponto alto é a briga no aeroporto que conta com as participações divertidíssimas de Homem-Formiga e do Homem-Aranha.
O final, com a briga entre o Capitão e o Homem de Ferro, é fraco e forçado, já que não tinha como o vilão prever e antecipar tudo que ia acontecer para que os dois estivessem no mesmo local e prontos para se odiarem. E novamente a insistência em tentar pintar os heróis como uma ameaça à sociedade, embora pertinente, acaba sendo tola, afinal eles salvaram o mundo de terríveis vilões e é normal que inocentes morram durante os ataques. O que mais poderia se esperar quando um exército de alienígenas ou robôs malvados invade a Terra querendo destruí-la completamente?
Enfim, dá pro gasto e diverte, porém essa fórmula utilizada começa a se esgotar e o excesso de personagens e filmes não ajuda em nada.
Cotação: * * *
Filme é divertido, mas fórmula utilizada já começa a se esgotar
- por André Lux, crítico-spam
Os filmes solo do Capitão América continuam sendo a melhor coisa do universo Marvel adaptado para os cinemas, embora tudo fique cada vez mais confuso já que não dá pra entender porque não fazem simplesmente ser “Os Vingadores”, já que os personagens estão sempre interagindo e não faz muito sentido não estarem presentes quando ameaças terríveis se lançam contra a humanidade, como no segundo “Thor”, por exemplo.
Mesmo assim, os longas com os super-heróis da Marvel continuam mantendo uma boa qualidade, apesar de começarem a cansar, principalmente por causa dessa insistência de colocar os governos do mundo e a mídia questionando a ação deles, algo que apareceu primeiro em “Watchmen” e está também nos filmes da DC, que são bem piores.
Assim, “Capitão América: Guerra Civil” começa onde terminou “Os Vingadores: A Era de Ultron” e tem uma trama bastante rebuscada e altamente inverossímil que acaba sendo novamente apenas uma história de vingança e retaliação que visa fazer os heróis brigarem uns contra os outros - sim, exatamente igual ao abominável “Batman Versus Superman”.
Mas, aqui pelo menos é tudo mais leve e divertido, com muitas cenas de humor e lutas bem coreografadas e editadas, excelentes efeitos visuais e um ótimo elenco. O ponto alto é a briga no aeroporto que conta com as participações divertidíssimas de Homem-Formiga e do Homem-Aranha.
O final, com a briga entre o Capitão e o Homem de Ferro, é fraco e forçado, já que não tinha como o vilão prever e antecipar tudo que ia acontecer para que os dois estivessem no mesmo local e prontos para se odiarem. E novamente a insistência em tentar pintar os heróis como uma ameaça à sociedade, embora pertinente, acaba sendo tola, afinal eles salvaram o mundo de terríveis vilões e é normal que inocentes morram durante os ataques. O que mais poderia se esperar quando um exército de alienígenas ou robôs malvados invade a Terra querendo destruí-la completamente?
Enfim, dá pro gasto e diverte, porém essa fórmula utilizada começa a se esgotar e o excesso de personagens e filmes não ajuda em nada.
Cotação: * * *
sexta-feira, 16 de setembro de 2016
Filmes: "Aquarius"
MUITO BARULHO POR (QUASE) NADA
Filme ganha uma estrelinha a mais por ter feito os cães de guarda da direita tupiniquim espumarem de ódio
- por André Lux, crítico-spam
Quem acompanha meu blog sabe que tive uma pendenga com o crítico e dublê de cineasta Kleber Mendonça Filho, a quem devo meu apelido de “crítico-spam” e cujo primeiro longa-metragem, “O Som ao Redor”, é uma das coisas mais bisonhas que vi na vida. Todavia, confesso que gostei muito de ver ele e a equipe de “Aquarius”, seu novo filme, denunciando o golpe de Estado ocorrido no Brasil, o que provocou muita polêmica e me levou a ficar bastante curioso para ver o resultado final nas telas.
Mas, infelizmente, Kleber mostrou novamente que como cineasta continua um ótimo crítico. “Aquarius” é apenas mais um filme mal feito, mal dirigido e encenado, repleto de situações vazias e que não chegam a lugar algum (como o flerte da protagonista com um viúvo), e com um roteiro frouxo e sem qualquer peso dramático. Fica óbvio que a intenção do Kleber é nobre, principalmente no que diz respeito a fazer uma denúncia social das divisões de classe brasileira, que são ainda mais acintosas na região Nordeste onde o filme se passa, e na luta de David contra Golias representada pela personagem Clara (Sonia Braga) que enfrenta uma grande construtora que quer demolir o prédio onde ela mora sozinha. Ou seja, se aparececem umas navezinhas alienígenas para ajudar ela, ficaria igualzinho ao simpático "O Milagre Veio do Espaço", produzido pelo Spielberg nos anos 80.
O problema é que o roteiro é pífio e todas as cenas que apontam para esses contrastes são gratuitas e forçadas, soando mais como discursinho de comunista de classe média proferidos em saraus de faculdade de Humanas. A luta da protagonista contra a construtora não tem peso dramático algum, afinal mal conhecemos Clara e suas motivações, exceto por meia dúzia de informações rasas que são jogadas de vez em quando. No final, ela parece muito mais apenas uma velha chata e teimosa do que alguém que está lutando por suas convicções.
Se não bastasse isso, o filme tem uma edição sofrível e é alongado além da conta, atingindo a absurda marca de 2h20 de projeção, algo que não faz o menor sentido. Assim como em “O Som ao Redor”, Kleber não demonstra qualquer afinidade em dirigir atores, deixando-os falar um em cima do outro, enquanto a maioria apenas murmura seus diálogos sem verdade alguma. Nem mesmo a experiente Sonia Braga escapa da ruindade, embora até se esforce para tentar dar alguma ressonância a um personagem sem qualquer profundidade. A melhor cena do filme acaba sendo quando ela fica excitada ao testemunhar uma orgia que acontece no apartamento acima do seu e chama um garoto de programa para satisfazê-la, sem dúvida uma sequência corajosa, porém sem relevância para o resto da trama, infelizmente.
O Kleber também parece ter uma fixação mal resolvida com sexo, tanto é que insere diversas cenas quase explícitas de maneira sempre forçada e novamente sem muita relação com o resto do filme. A pior é a que envolve a tia da protagonista que está fazendo aniversário de 70 anos na cena que abre o filme. No meio dos discursos elogiosos dos parentes, incluindo duas crianças, ela olha para uma cômoda e aí tem flashbacks de uma transa, assim do nada. De vez em quando o diretor fixa sua câmera nesse mesmo móvel durante a projeção, mas confesso que não entendi direito o que queria transmitir. Que muita gente trepou em cima dele? Que isso era alguma forma de afirmar que a família de Clara era liberal e progressista? Tudo isso ao mesmo tempo? Pode ser. Ou não. Quem liga?
A conclusão de “Aquarius”, então, é risível, com o cineasta tentando vender uma daquelas cenas que tem o objetivo de provocar catarse na plateia, típica dos enlatados estadunidenses que ele tanto malha em suas críticas, mas que na vida real certamente mandariam a protagonista para a prisão algemada merecidamente. Sem comentários.
É triste ler muitas críticas sobre o filme louvando a produção e supostas virtuoses da direção, em mais uma prova de que a maioria dos críticos atuais confunde amadorismo e falta de conhecimento sobre as técnicas cinematográficas com sinais de genialidade. Kleber é tão pretensioso que decora uma parede da sala da protagonista com um enorme pôster de “Barry Lyndon”, um dos filmes menos conhecidos do grande Stanley Kubrick, o que apenas nos faz lembrar de como a arte de se fazer cinema está cada vez mais diluída.
O mais divertido, todavia, é ver os cães de guarda da direita tupiniquim espumando de ódio contra esse canhestro filme só por causa do protesto em Cannes e de meia dúzia de frases de cunho humanista proferidas durante a projeção, ajudando assim a dar publicidade a ele e meio que obrigando qualquer pessoa que não vomite ódio irracional à esquerda a abraçar e proteger a obra. Só por isso ganha uma estrelinha a mais. Mas, pra variar um pouco, é muito barulho por nada...
Cotação: * *
Filme ganha uma estrelinha a mais por ter feito os cães de guarda da direita tupiniquim espumarem de ódio
- por André Lux, crítico-spam
Quem acompanha meu blog sabe que tive uma pendenga com o crítico e dublê de cineasta Kleber Mendonça Filho, a quem devo meu apelido de “crítico-spam” e cujo primeiro longa-metragem, “O Som ao Redor”, é uma das coisas mais bisonhas que vi na vida. Todavia, confesso que gostei muito de ver ele e a equipe de “Aquarius”, seu novo filme, denunciando o golpe de Estado ocorrido no Brasil, o que provocou muita polêmica e me levou a ficar bastante curioso para ver o resultado final nas telas.
Mas, infelizmente, Kleber mostrou novamente que como cineasta continua um ótimo crítico. “Aquarius” é apenas mais um filme mal feito, mal dirigido e encenado, repleto de situações vazias e que não chegam a lugar algum (como o flerte da protagonista com um viúvo), e com um roteiro frouxo e sem qualquer peso dramático. Fica óbvio que a intenção do Kleber é nobre, principalmente no que diz respeito a fazer uma denúncia social das divisões de classe brasileira, que são ainda mais acintosas na região Nordeste onde o filme se passa, e na luta de David contra Golias representada pela personagem Clara (Sonia Braga) que enfrenta uma grande construtora que quer demolir o prédio onde ela mora sozinha. Ou seja, se aparececem umas navezinhas alienígenas para ajudar ela, ficaria igualzinho ao simpático "O Milagre Veio do Espaço", produzido pelo Spielberg nos anos 80.
O problema é que o roteiro é pífio e todas as cenas que apontam para esses contrastes são gratuitas e forçadas, soando mais como discursinho de comunista de classe média proferidos em saraus de faculdade de Humanas. A luta da protagonista contra a construtora não tem peso dramático algum, afinal mal conhecemos Clara e suas motivações, exceto por meia dúzia de informações rasas que são jogadas de vez em quando. No final, ela parece muito mais apenas uma velha chata e teimosa do que alguém que está lutando por suas convicções.
Se não bastasse isso, o filme tem uma edição sofrível e é alongado além da conta, atingindo a absurda marca de 2h20 de projeção, algo que não faz o menor sentido. Assim como em “O Som ao Redor”, Kleber não demonstra qualquer afinidade em dirigir atores, deixando-os falar um em cima do outro, enquanto a maioria apenas murmura seus diálogos sem verdade alguma. Nem mesmo a experiente Sonia Braga escapa da ruindade, embora até se esforce para tentar dar alguma ressonância a um personagem sem qualquer profundidade. A melhor cena do filme acaba sendo quando ela fica excitada ao testemunhar uma orgia que acontece no apartamento acima do seu e chama um garoto de programa para satisfazê-la, sem dúvida uma sequência corajosa, porém sem relevância para o resto da trama, infelizmente.
O Kleber também parece ter uma fixação mal resolvida com sexo, tanto é que insere diversas cenas quase explícitas de maneira sempre forçada e novamente sem muita relação com o resto do filme. A pior é a que envolve a tia da protagonista que está fazendo aniversário de 70 anos na cena que abre o filme. No meio dos discursos elogiosos dos parentes, incluindo duas crianças, ela olha para uma cômoda e aí tem flashbacks de uma transa, assim do nada. De vez em quando o diretor fixa sua câmera nesse mesmo móvel durante a projeção, mas confesso que não entendi direito o que queria transmitir. Que muita gente trepou em cima dele? Que isso era alguma forma de afirmar que a família de Clara era liberal e progressista? Tudo isso ao mesmo tempo? Pode ser. Ou não. Quem liga?
A conclusão de “Aquarius”, então, é risível, com o cineasta tentando vender uma daquelas cenas que tem o objetivo de provocar catarse na plateia, típica dos enlatados estadunidenses que ele tanto malha em suas críticas, mas que na vida real certamente mandariam a protagonista para a prisão algemada merecidamente. Sem comentários.
É triste ler muitas críticas sobre o filme louvando a produção e supostas virtuoses da direção, em mais uma prova de que a maioria dos críticos atuais confunde amadorismo e falta de conhecimento sobre as técnicas cinematográficas com sinais de genialidade. Kleber é tão pretensioso que decora uma parede da sala da protagonista com um enorme pôster de “Barry Lyndon”, um dos filmes menos conhecidos do grande Stanley Kubrick, o que apenas nos faz lembrar de como a arte de se fazer cinema está cada vez mais diluída.
O mais divertido, todavia, é ver os cães de guarda da direita tupiniquim espumando de ódio contra esse canhestro filme só por causa do protesto em Cannes e de meia dúzia de frases de cunho humanista proferidas durante a projeção, ajudando assim a dar publicidade a ele e meio que obrigando qualquer pessoa que não vomite ódio irracional à esquerda a abraçar e proteger a obra. Só por isso ganha uma estrelinha a mais. Mas, pra variar um pouco, é muito barulho por nada...
Cotação: * *
terça-feira, 13 de setembro de 2016
Filmes: "Star Trek: Sem Fronteiras"
Não é fácil ficar velho, ver a vida passar acelerada, sentir a dor da traição de falsos amigos e amores, mas no escurinho do cinema ninguém tira o nosso direito de sentir emoções que poucos tem o privilégio de compartilhar
- por André Lux, crítico-spam
Chorei de soluçar vendo o novo “Star Trek: Sem Fronteiras” no cinema. Não tanto pelo filme em si, que é bacana sim, mas pela belíssima e emocionante homenagem que fizeram ao elenco original, especialmente Leonard Nimoy, nosso eterno Spock, que morreu ano passado.
Os fãs acabaram sendo um pouco duros demais com esse terceiro capítulo do recomeço da franquia, que teve um primeiro episódio muito bom e um segundo que pecou pelo exagero. A culpa foi dos trailers iniciais que além de terem sido pessimamente montados, davam a impressão de ser um mero filme de ação desmiolado, elevando a enésima potência tudo que deu errado no segundo. O fato de te sido dirigido por um sujeito que fez um dos “Velozes e Furiosos” também contribuiu para acirrar a, bem... fúria dos apreciadores.
Mas não é bem assim. Apesar de ter um ritmo muito acelerado e um excesso de cenas de ação e destruição (impressiona como é fácil arrebentar a Enterprise nessa nova franquia), o roteiro é bem amarrado e repleto de emoção. A boa surpresa é que foi co-escrito pelo ator que faz o Scotty, Simon Pegg, que todo mundo conhece das comédias inglesas e obviamente é fã confesso da série, inserindo na trama dezenas de citações à série antiga e também a fatos que envolvem os atores originais na vida real, como o atual Sulu ser casado com um homem, homenageando assim o ator George Takey da tripulação antiga, que é abertamente gay e defensor da causa GLTB. O filme também é dedicado ao ator Anton Yelchin, que faz o novo Chekov, momrto pouco tempo depois das filmagens, vítima de um triste acidente em sua casa.
Pena que não conseguiram achar uma solução melhor para impulsionar a trama do que o manjando clichê do vilão sedento por vingança contra a Federação que tem em mãos uma “máquina do juízo final”, até porque com aquele enxame infernal de pequenas naves ele nem precisaria de mais nada para causar destruição em massa, não é mesmo? Mas ao menos sua motivação faz certo sentido dentro da lógica exposta pelo roteiro e tentam humanizar o personagem o máximo possível.
A música do esforçado Michael Giacchino continua boa e, embora não chegue nem aos pés de um Jerry Goldsmith ou até de James Horner que compuseram as melhores trilhas dos filmes originais no cinema, consegue emocionar na medida certa quando a cena assim exige e não atrapalha nas sequências de ação. O que já é uma baita de um elogio hoje em dia...
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| O adeus final ao nosso querido Leonard Nimoy... |
Mas o importante é que Star Trek continua vivo e está sendo tratado com carinho pelos novos produtores, que sempre buscam incorporar a nova linguagem da sétima arte na série, mas sem nunca esquecer de onde tudo começou.
Nessas horas a gente percebe que não é fácil ficar velho, ver a vida passando acelerada, sentir a dor da traição de falsos amigos e amores, ficar longe de quem se ama, mas no escurinho do cinema ninguém tira o nosso direito de sentir emoções as quais poucas pessoas tem o privilégio de compartilhar e que acabam, de uma forma ou de outra, dando sentido a essa vida sem sentido que levamos...
Vida longa e próspera, meus caros nerds!
Cotação: * * * *
Vida longa e próspera, meus caros nerds!
Cotação: * * * *
segunda-feira, 5 de setembro de 2016
Cine Trash: "The Room"
CIDADÃO KANE DO LIXO
Filme é tão horrível que virou cult, sendo apresentado no mundo todo em sessões especiais onde o público participa de maneira selvagem das exibições
- por André Lux, crítico-spam
Graças à recomendação de um amigo incansável caçador de filmes horríveis, cheguei a esse "The Room", que é considerado hoje como talvez o pior filme de todos os tempos, o "Cidadão Kane" do cinema trash.
O filme é ruim do começo ao fim, com certeza, tem uma "história" completamente sem pé nem cabeça e diálogos que podem provocar um AVC nos desavisados, mas o que o eleva à categoria de atrocidade é sem dúvida a presença do "ator" Tommy Wiseau que, pasmem, é também o roteirista, produtor e diretor da obra!
O sujeito é uma aberração tão grande que passei o filme todo esperando a cabeça dele se partir ao meio e de dentro sair um alien cheio de tentáculos. Não bastasse ser feio como o diabo (parece o resultado de uma mistura do Sylvester Stallone com o Steven Seagal se tivessem sido jogados num moedor de carne juntos), o sujeito é polonês ou algo parecido (ninguém sabe direito de onde surgiu tal criatura), o que o faz declamar suas falas com um sotaque abismal e uma total incapacidade de sequer flexionar a língua inglesa de maneira correta.
O mais impressionante, todavia, é que o filme custou 6 MILHÕES DE DÓLARES! Entre os absurdos que rondam a lendária produção de "The Room" está o fato do "cineasta" ter COMPRADO duas câmeras, uma digital de alta resolução e outra de filme em película, algo que nem mesmo os maiores estúdios fazem, já que esses equipamentos são todos alugados! Detalhe: como não sabia qual era o melhor jeito de filmar, ele simplesmente amarrou as duas câmeras uma ao lado da outra e rodou o filme todo com elas filmando juntas!
Claro que o filme virou cult, sendo apresentado no mundo todo em sessões especiais onde o público participa de maneira selvagem das exibições, ao ponto do ator James Franco estar finalizando uma espécie de documentário/paródia dele, baseado no livro de memórias de um dos atores que participaram do filme.
Não deixem de ver. É realmente impressionante!
Cotação trash: * * * * *
sexta-feira, 26 de agosto de 2016
Filmes: "Café Society"
CURA INSÔNIA
Novo filme Woody Allen padece de um ritmo arrastado e ausência de conflitos ou momentos dramáticos
- por André Lux, crítico-spam
É impressionante como Woody Allen perdeu a mão e a inspiração. O fato de insistir em produzir um filme por ano não ajuda em nada e seus novos filmes estão cada vez mais chatos e sem graça.
Confesso que nem tenho mais acompanhando a carreira dele. O último que vi foi “Blue Jasmine”, um filme penoso. Acabei indo ao cinema para assistir esse “Café Society”, já que vem recebendo boas críticas, porém é mais um caso de delírio coletivo dos profissionais da opinião, pois é apenas mais uma obra fraca e sem qualquer traço de entusiasmo desse cineasta que nos brindou com joias como “Manhatan” e “Annie Hall” num passado que agora parece muito distante.
Apesar da fotografia do lendário Vittorio Storaro ser requintada e o filme ser recheado de boa música (jazz, em sua maioria), “Café Society” padece de um ritmo arrastado e total ausência de conflitos ou momentos dramáticos, o que é grave já que se trata de uma história sobre um triângulo amoroso que ao menos poderia render cenas fortes e dar alguma chance aos atores de brilhar.
Mas, que nada. Tudo é resolvido na maior boa vontade, os personagens são todos super tranquilos e não esquentam a cabeça com nada. Para piorar, Allen escalou a insonsa Kristen Stewart (ela mesmo, da infame saga “Crepúsculo”) que passa o filme todo com a mesma cara de esquilo entediado e não convence nem um minuto como uma mulher que poderia provocar tanto amor e devoção.
O roteiro, do próprio Allen, é pífio e se escora numa narração, na voz do próprio diretor, intrusiva e que conta momentos dramáticos de passagem, impedindo assim qualquer envolvimento do espectador com o que se vê na tela.
Imagino que o fato de passar boa parte da projeção em Los Angeles e fazer um monte de referências a estrelas e filmes do passado encha os críticos de emoção, já que adoram esse tipo de trívia, pois só isso mesmo para justificar tamanho apreço por uma obra tão fraca e insossa com essa que, para piorar tudo, não tem qualquer graça (a única piada boa acontece quando a mãe de um dos personagens reclama que o filho ter virado cristão é pior do que ter sido condenado à morte na cadeira elétrica).
Veja por sua conta e risco, mas recomendo para aquelas noites de insônia pesada. Vai te colocar pra dormir rapidinho...
Cotação: *
Novo filme Woody Allen padece de um ritmo arrastado e ausência de conflitos ou momentos dramáticos
- por André Lux, crítico-spam
É impressionante como Woody Allen perdeu a mão e a inspiração. O fato de insistir em produzir um filme por ano não ajuda em nada e seus novos filmes estão cada vez mais chatos e sem graça.
Confesso que nem tenho mais acompanhando a carreira dele. O último que vi foi “Blue Jasmine”, um filme penoso. Acabei indo ao cinema para assistir esse “Café Society”, já que vem recebendo boas críticas, porém é mais um caso de delírio coletivo dos profissionais da opinião, pois é apenas mais uma obra fraca e sem qualquer traço de entusiasmo desse cineasta que nos brindou com joias como “Manhatan” e “Annie Hall” num passado que agora parece muito distante.
Apesar da fotografia do lendário Vittorio Storaro ser requintada e o filme ser recheado de boa música (jazz, em sua maioria), “Café Society” padece de um ritmo arrastado e total ausência de conflitos ou momentos dramáticos, o que é grave já que se trata de uma história sobre um triângulo amoroso que ao menos poderia render cenas fortes e dar alguma chance aos atores de brilhar.
Mas, que nada. Tudo é resolvido na maior boa vontade, os personagens são todos super tranquilos e não esquentam a cabeça com nada. Para piorar, Allen escalou a insonsa Kristen Stewart (ela mesmo, da infame saga “Crepúsculo”) que passa o filme todo com a mesma cara de esquilo entediado e não convence nem um minuto como uma mulher que poderia provocar tanto amor e devoção.
O roteiro, do próprio Allen, é pífio e se escora numa narração, na voz do próprio diretor, intrusiva e que conta momentos dramáticos de passagem, impedindo assim qualquer envolvimento do espectador com o que se vê na tela.
Imagino que o fato de passar boa parte da projeção em Los Angeles e fazer um monte de referências a estrelas e filmes do passado encha os críticos de emoção, já que adoram esse tipo de trívia, pois só isso mesmo para justificar tamanho apreço por uma obra tão fraca e insossa com essa que, para piorar tudo, não tem qualquer graça (a única piada boa acontece quando a mãe de um dos personagens reclama que o filho ter virado cristão é pior do que ter sido condenado à morte na cadeira elétrica).
Veja por sua conta e risco, mas recomendo para aquelas noites de insônia pesada. Vai te colocar pra dormir rapidinho...
Cotação: *
sexta-feira, 29 de julho de 2016
Filmes: "O Bom Dinossauro"
TOCANTE
Momentos como o que vivi com minha filha durante esse filme são do tipo que fazem valer a pena a vida sem sentido que levamos
- por André Lux, crítico-spam
Interessante como a minha forma de analisar e sentir uma animação ou um filme feito para crianças mudou depois que minha filha nasceu. Se por um lado mantem-se o senso crítico relacionado aos aspectos estritamente técnicos e cinematográficos da obra, por outro abre-se um espectro totalmente novo, que é o de enxerga-la pelos olhos de uma criança, tornando-se sensível aos elementos que tocam os pequenos.
“O Bom Dinossauro” visto apenas pelo primeiro prisma é certamente uma obra menor, muito mais fraca do que “Divertida Mente”, por exemplo, só para citar um filme recente produzido pelo mesmo grupo de artistas. O fato de ter tido inúmeros problemas durante o processo de animação, ao ponto de praticamente terem começado do zero depois de meses de trabalho, certamente afetou o resultado final.
Mas para mim é uma animação que acabou deixando uma marca muito especial quando a assisti com minha filha, então com 5 anos, nos cinemas, poucos meses após uma situação de destruição brutal de um núcleo familiar que levou-se anos para construir.
Em “O Bom Dinossauro” esse núcleo também é destruído com a morte do pai durante uma tempestade, o que leva o pequeno Arlo a se desgarrar do resto dos parentes e viver uma grande aventura para tentar voltar para casa. Durante sua jornada, ele cria laços afetivos com um pequeno ser humano primitivo, que mais parece um cachorro do que outra coisa.
Nada de muito novo, enfim, apenas alguns clichês de “filme-família” que são reciclados pelo pessoal da Disney de tempos em tempos. Mas em uma cena tocante já no final, um dos personagens consegue reunir-se com seus entes querido, voltado ao “círculo da família” cuja importância o pequeno dinossauro esforça-se para explicar para a criança humana.
Nem preciso dizer que chorei junto com ela, que me abraçou forte, levada pela emoção nova e incontrolável que experimentava ao fazer a associação do que via nas telas com o que vivia em sua vida. Momentos como esse são do tipo que fazem valer a pena a vida sem sentido que levamos e, confesso, passam batidos para a maioria das pessoas que vivem preocupadas apenas com seus interesses mesquinhos e egoístas.
Momentos como o que vivi com minha filha durante esse filme são do tipo que fazem valer a pena a vida sem sentido que levamos
- por André Lux, crítico-spam
Interessante como a minha forma de analisar e sentir uma animação ou um filme feito para crianças mudou depois que minha filha nasceu. Se por um lado mantem-se o senso crítico relacionado aos aspectos estritamente técnicos e cinematográficos da obra, por outro abre-se um espectro totalmente novo, que é o de enxerga-la pelos olhos de uma criança, tornando-se sensível aos elementos que tocam os pequenos.
“O Bom Dinossauro” visto apenas pelo primeiro prisma é certamente uma obra menor, muito mais fraca do que “Divertida Mente”, por exemplo, só para citar um filme recente produzido pelo mesmo grupo de artistas. O fato de ter tido inúmeros problemas durante o processo de animação, ao ponto de praticamente terem começado do zero depois de meses de trabalho, certamente afetou o resultado final.
Mas para mim é uma animação que acabou deixando uma marca muito especial quando a assisti com minha filha, então com 5 anos, nos cinemas, poucos meses após uma situação de destruição brutal de um núcleo familiar que levou-se anos para construir.
Em “O Bom Dinossauro” esse núcleo também é destruído com a morte do pai durante uma tempestade, o que leva o pequeno Arlo a se desgarrar do resto dos parentes e viver uma grande aventura para tentar voltar para casa. Durante sua jornada, ele cria laços afetivos com um pequeno ser humano primitivo, que mais parece um cachorro do que outra coisa.
Nada de muito novo, enfim, apenas alguns clichês de “filme-família” que são reciclados pelo pessoal da Disney de tempos em tempos. Mas em uma cena tocante já no final, um dos personagens consegue reunir-se com seus entes querido, voltado ao “círculo da família” cuja importância o pequeno dinossauro esforça-se para explicar para a criança humana.
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| O círculo da família: amor e proteção |
Neste momento, testemunhei minha pequena filha vertendo lágrimas pelos olhos, emocionada e tocada com o que via na tela e fazendo pela primeira vez uma relação de causa-efeito dentro da apreciação de uma obra de arte.
Nem preciso dizer que chorei junto com ela, que me abraçou forte, levada pela emoção nova e incontrolável que experimentava ao fazer a associação do que via nas telas com o que vivia em sua vida. Momentos como esse são do tipo que fazem valer a pena a vida sem sentido que levamos e, confesso, passam batidos para a maioria das pessoas que vivem preocupadas apenas com seus interesses mesquinhos e egoístas.
Por esse fato tão marcante em minha vida serei eternamente agradecido a “O Bom Dinossauro”.
Cotação: * * *
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