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sexta-feira, 29 de julho de 2016

Vivendo "As Pontes de Madison"

Antigamente eu considerava a atitude da personagem da Meryl Streep absurda. A vida me ensinou da maneira mais cruel possível que pessoas como ela são as mais humanas e sensíveis que existem.


Vale a pena destruir famílias e vidas só para satisfazer uma paixão de adolescente?
- por Eloy Ferrari, psicólogo

Um dos filmes que mais me desconcertam e fazem chorar é AS PONTES DE MADISON, com Clint e Meryl.  Não apenas por ser belíssimo, mas principalmente porque eu vivi por duas vezes situação praticamente idêntica à retratada. E as duas foram com a mesma mulher.

A primeira vez, na época da faculdade, quando nos apaixonamos perdidamente e vivemos um forte caso de amor. Mas, ela namorava e, quando chegaram as férias de julho, perdemos contato (nada de internet e celular naquela época) e, pressionada pelo namorado e pela família, acabou noivando e, claro, me abandonou. Sofri muito. Nunca a esqueci.

Muitos anos depois, reencontrei essa mulher. Triste, rejeitada pelo marido e, assim como eu, sem saber há anos o que era se sentir desejada, amada e admirada. Tivemos um novo caso de amor, mas traição não combinava com o nosso caráter e, depois de uns poucos encontros recheados de muito carinho e ternura, resolvemos nos afastar porque não queríamos destruir nossas famílias e causar sofrimento insuportável em nossos parceiros que, para o bem ou para o mal, estavam ao nosso lado há tanto tempo.

A última vez que a vi foi no estacionamento de um shopping, eu parado próximo ao carro dela, no qual entrava com sua família. Ambos tomados pela tristeza e pelo desespero de saber que certamente seria nosso derradeiro vislumbre um do outro. Só não estava chovendo, para ser igual à cena final de AS PONTES DE MADISON...

Antigamente eu considerava a atitude da personagem da Meryl Streep errada, absurda. Como assim ela vai abrir mão daquela atração irresistível, verdadeira paixão de adolescentes, por causa do marido que não deseja há anos e pelos filhos? A vida me ensinou da maneira mais cruel possível que pessoas como ela são as mais humanas e sensíveis que existem.

E também as mais raras.



quinta-feira, 28 de julho de 2016

COMO AJUDAR PESSOAS QUE SÃO VÍTIMAS DE PSICOPATAS

Quanto mais tarde a vítima tentar sair da relação, mais prejuízos ela terá. Prejuízos de toda ordem, afetivo, financeiro, moral e social.



- por Dirce Hage, no blog da Alda

Embora já se tenha bastante informações sobre as características de um psicopata, os profissionais da área de saúde mental recebem cada vez mais vítimas desse algoz social que circulam livremente nas grandes empresas, nos condomínios, nas universidades, na política, na família, na polícia, enfim, ao seu lado.

Sua vítima geralmente é alguém que pode lhe proporcionar alguma vantagem como poder, status, dinheiro, sexo, todas juntas, ou uma ou outra, que responda sua necessidade momentânea. Como o psicopata é um parasita, ele precisa estar abastecendo suas necessidades imediatas, jamais pode ficar sem uma fonte de abastecimento. Engata uma vítima na outra.

A vítima não sente, mas vai se entregando pouco a pouco até se entregar por inteira na relação. Assina e faz procuração dando-lhe plenos poderes de documentos pessoais e comprometedores de móveis e imóveis, entrega a senha de banco, em relação a sua vida afetiva, faz intriga nos vínculos pessoais e familiares com a intenção de afastar todas as pessoas que lhe dão suporte afetivo.



Quando a presa é fisgada, o psicopata começa a atuar. Depois que consegue sugar tudo de sua presa, daí fica entediado, por já ter sugado tudo o que queria, precisando de novidades, se mostrando infeliz, consequentemente, deixando claro que a culpa é toda da vítima. E o pior, a vítima acaba acreditando que é mesmo culpada de tudo e passa por maus tratos e ainda entende que merece, se sentindo subjugada e isolada.

E o que fazer depois que a vítima sente um “estupro” na alma? O primeiro passo é a vítima sair em busca de informação e esclarecimento, independente do grau de envolvimento com o psicopata. O segundo passo é buscar ajuda com um profissional de saúde mental, psicólogo e/ou psiquiatra para que esses profissionais procurem validar todo esse sofrimento na tentativa de apoiar a vítima a sair da relação. Sair mesmo! Até porque a psicopatia não tem cura e nem tratamento.

Amigos e família, infelizmente nesse momento difícil não podem ajudar, por conta do vínculo afetivo já destruído das inúmeras situação negativas geradas no decorrer da relação da vítima envolvida. E assim, vale dizer que, quanto mais tarde a vítima tentar sair da relação, mais prejuízos ela terá. Prejuízos de toda ordem, afetivo, financeiro, moral e social.

- Dirce Hage é Psicóloga especialista em saúde mental e psicoterapeuta no atendimento clínico em consultório particular e no departamento médico e odontológico (DMO) do ministério público do estado.





sexta-feira, 22 de julho de 2016

Filmes: "Batman versus Superman - A Origem da Justiça"

ABOMINAÇÃO

Se quiser ter uma experiência semelhante a ver este filme, assista a um show de sertanejo universitário enquanto bate a cabeça numa parede

- por André Lux, crítico-spam

Quem acompanha minhas críticas sabe o que quanto eu desprezo o último filme baseado no Superman, chamado apenas de “Homem de Aço”, certamente uma das coisas mais grotescas que já assisti na vida. Assim, nem perdi meu tempo indo ao cinema para ver a continuação daquele lixo que, para tentar atrair mais fanáticos por quadrinhos, colocou o Batman no meio e botou os dois para brigarem entre si.

Na verdade, esse conceito surgiu com a espetacular graphic novel “The Dark Knight Returns” que Frank Miller criou em 1986, provocou um terremoto no mundo dos quadrinhos e meio que serviu de base para os filmes sobre o Batman desde então, principalmente os dirigidos pelo Christopher Nolan e estrelados por Christian Bale.

Nasceu então “Batman versus Superman – A Origem da Justiça” que, desculpem o termo chulo, é uma bosta inigualável cujo único “mérito” é conseguir ser ainda pior e mais nojento que o “Homem de Aço”. A gente tem que tirar o chapéu para o diretor Zack Snyder por ser capaz de criar e jogar no mundo tamanha porcaria sem ficar vermelho de vergonha, conseguindo irritar tanto os críticos quanto a maioria absoluta dos fãs dos personagens.

Fui ver logo a Versão Estendida do filme, que acreditem se quiser, tem 3 horas de duração e é praticamente impossível de seguir, tamanho o número de tramas e sub-tramas que os roteiristas enfiam ao longo da projeção para tentar justificar o conflito entre o Superman e o Batman. Tudo é tão forçado e, em última instância, sem sentido, que quando os dois saem na porrada a gente já está completamente exausto e sem o menor interesse para entender o que se passa na tela.

Ou seja, a pessoa precisa aturar quase 2 horas e meia de um filme pesado, escuro e arrastado quase todo focado em políticos e jornalistas questionando as ações do Superman (tudo que a gente sonha em ver num filme sobre um sujeito que usa uma capa e cueca vermelha enquanto voa pelo céu), planos mirabolantes completamente non-sense feitos pelo Lex Luthor para jogar os heróis um contra o outro, investigações que não levam a lugar algum, cenas de enterros intermináveis e aquela trilha sonora insuportável composta pelo abominável Hans Zimmer e seu atual "xapa" Junkie XL. O troféu abacaxi vai para a música que a dupla criou para as aparições da Mulher Maravilha, que parece saída de um episódio do Chapolin Colorado de tão bisonha e risível, mas que acaba sendo a única coisa que ao menos soa como música, já que o resto da trilha parece uma mixagem de sons de motor de dentista, peidos de rinoceronte e alguém socando um sintetizador com luva de boxe.

Praticamente não há qualquer cena de ação nos dois terços iniciais do filme, só papo furado e cenas do Superman com cara de quem está com aquela diarreia das bravas! Inacreditável. A cena de abertura é completamente estúpida, com o Bruce Wayne chegando a Metrópolis (que pelo jeito fica a poucos quilometros de Gothan City) de helicóptero e correndo alucinado pelas ruas da cidade enquanto Superman e Zod lutam e destroem a cidade toda. Por que ele iria fazer isso? E se precisava tanto fazer, por que não foi como Batman, em uma de suas aeronaves? E não para por aí. O filme todo é recheado de sequências como essa, que não fazem o menor sentido sob qualquer ângulo e servem apenas para gerar momentos dramáticos (que nada tem de dramáticos) ou para dar continuidade à trama sem pé nem cabeça.

O ponto mais baixo dessa abominação certamente é o que fizeram com o Batman, que aqui é transformado num psicopata descontrolado que simplesmente mata qualquer um usando inclusive metralhadoras, algo que viola todo o cânone do personagem. Ben Affleck causou a ira dos fãs quando foi anunciado no papel, mas sinceramente ele nem está tão ruim assim, embora não tenha nada a fazer a não ser parecer de saco cheio e dar uns sorrisinhos amarelos (o filme é completamente desprovido de humor!). E ele não funciona nem um pouco quando veste a armadura. Não sei se a culpa é do formato do corpo dele ou do desenho do figurino, mas o Batman ficou parecendo um sujeito obeso, lerdo e troncudo usando uma roupa de borracha tosca.

Jesse Eisenber com certeza vai ganhar o Framboesa de Ouro de pior ator pelo seu desempenho como Lex Luthor, de longe uma das coisas mais ridículas e erradas que já apareceram nas telas do cinema. E a tão esperada luta entre os dois heróis? Bom, ela acontece praticamente no final do filme, dura míseros 8 minutos e acaba porque o Super pede pro Batman salvar a... Martha! Sim, é isso mesmo. Martha é o nome da mãe dele que é o mesmo nome da mãe do Batman. Não estou brincando, é assim mesmo. Sério. Daí aparece do nada o Doomsday, que na outra encarnação foi um troll do Senhor dos Anéis, e todo mundo fica brigando com ele, enquanto o monstro solta raios cor de rosa que, juro, quase me causaram um ataque epiléptico enquanto eu lutava contra o sono!

Vou parar por aqui porque ficar lembrando dessas três horas da minha vida que eu perdi para sempre vendo essa abominação está me dando dor de cabeça. Se quiser ter uma experiência semelhante ao que é ver este filme, experimente assistir a um show de sertanejo universitário enquanto bate a cabeça numa parede de concreto. Minto. Acho que não será a mesma coisa, pois você pode se até que você se divirta no processo, o que certamente não vai acontecer enquanto vê “Batman versus Superman”...

Cotação: ZERO


segunda-feira, 4 de julho de 2016

Filmes: "Independence Day: O Ressurgimento"

MAIS DO MESMO

Se conseguir desligar o cérebro até vai curtir um pouco tudo isso, mas não dá nem para comparar com o original

- por André Lux, crítico-spam

Pode parecer absurdo, mas sou grande admirador do primeiro "Independence Day". Sim, o filme é estúpido, cheio de buracos no roteiro e de  momentos piegas e patrióticos constrangedores, porém dentro da sua proposta é dos melhores. E foi o primeiro (ou um dos primeiros) a mostrar os invasores do espaço realmente destruindo um monte de cidades e causando tragédias, quando antes ficavam só na ameaça. Além disso, os atores eram bastante carismáticos e o roteiro era bem amarrado a ponto de (quase) nos fazer esquecer de todas as baboseiras jogadas na tela.

Surge então, esse “Independence Day: O Ressurgimento” que parece ser uma continuação, mas é mais um recomeço (ou “reboot”) como está na moda agora com filmes que passaram do tempo de ter uma continuação na época do seu sucesso e inventam uma forma de começar tudo de novo a fim de atrair a nova geração aos cinemas.

Assim, 20 anos depois do filme original, surge isso que é praticamente uma refilmagem do primeiro só que com novo elenco, exceto pela participação de alguns dos personagens antigos que pouco tem a fazer além de recitar frases de efeito e soltar piadinhas sem graça quase todo o tempo.

Se a trama do primeiro filme não fazia muito sentido, agora faz menos ainda. Tudo é maior e mais barulhento, porém sem qualquer novidade ou diversão que existiam no original. A montagem é truncada e os eventos vão acontecendo sem qualquer lógica ou preparação do clima, bem diferente do primeiro. Os jovens atores são neutros e sem carisma, principalmente o que faz o filho do piloto interpretado no original por Will Smith (que pediu uma fortuna para participar da continuação e é visto apenas em uma foto no começo).

Para piorar tudo, a trilha musical é muito fraca e totalmente genérica, não chega nem aos pés da original composta por David Arnold, cujos temas aparecem de leve no meio do filme e só é ouvida novamente no início dos créditos finais. Apesar de ter algumas boas sequências e a presença sempre divertida de Jeff Goldblum, o resto do filme se arrasta até o final redundante e interminável.

Não dá nem pra elogiar os efeitos visuais, pois é quase tudo feito em computação gráfica, enquanto o original ainda é da época em que tinham que explodir maquetes sem dó, o que sempre dá muito mais peso e também obriga os realizadores a inventarem soluções criativas para a falta de recurso. Aqui, como podem fazer o que quiserem no computador, abusam da quantidade de naves, tiros e explosões deixando tudo confuso e inteligível.

Confesso que tenho um fraco por filmes de ficção-científica desse tipo, então até consegui desligar o cérebro e curtir um pouco tudo isso, mas não dá nem para comparar com o “Independence Day” original. É apenas mais do mesmo, só que tudo super-inflado e sem qualquer traço de vida inteligente ou emoção genuína.

Cotação: * *

sábado, 4 de junho de 2016

Filmes: "Zootopia"

O GOLPE, PARA CRIANÇAS

Animação da Disney mostra de forma didática como se constrói uma conspiração que pretende destruir a democracia

- por André Lux, crítico-spam

Impressionante a coincidência que foi o lançamento dessa nova animação da Disney com o momento político atual do Brasil. “Zootopia” mostra, afinal, uma conspiração para derrubar um governante a fim de levar outra pessoa ao poder de forma nada democrática. 

Ou seja, um golpe de estado que usa a velha tática nazista de criminalizar um grupo de indivíduos para unir o resto da sociedade contra o “inimigo comum”.

No caso, o grupo escolhido foi o dos animais predadores que, na utópica cidade de “Zootopia”, vivem em harmonia com as suas antigas presas. Mas por motivos que só serão revelados no final, os predadores começam a ficar selvagens e a atacar novamente os colegas indefesos, gerando pânico na cidade e motivando assim a queda do prefeito, que é um leão. Tudo isso explicado de forma absolutamente didática e bastante convincente.

Infelizmente, mesmo com tanto didatismo, a maioria das pessoas passa longe de fazer essa simples conexão com o que ocorre hoje no Brasil e não enxerga que os golpistas que, no momento que escrevo esse texto, completam quase duas semanas de governo ilegítimo depois de derrubarem a presidenta eleita Dilma Roussef após praticamente 13 anos de ataques diuturnos contra o governo e o Partido dos Trabalhadores (PT), vendendo a ideia de que a culpa por TODOS os males do país é dos políticos ligado a esse partido e ao seu governo.

Mais didático, impossível
Além disso, a animação é exemplar em mostrar como o racismo e o preconceito são danosos para a sociedade e podem atacar qualquer um, mesmo quem encontra-se no topo da pirâmide em algum momento. Essa é, no final, a pílula mais amarga que a policial Hopps tem que engolir ao perceber que foram esses valores podres que a levaram a ajudar involuntariamente na concretização do golpe de estado e, de quebra, ofender seu amigo.

Tirando esses fatores que realmente elevam “Zootopia” ao nível das melhores animações do cinema, o longa é também muito bem feito, repleto de humor e citações a outros filmes, como “O Poderoso Chefão”.

É uma pena que a verdadeira mensagem do filme passe em branco para grande parte das pessoas. Mas, quem sabe as crianças consigam enxergar além e entender junto com os personagens de “Zootopia” como se constrói uma conspiração que pretende alienar os cidadãos do processo político e, em última instância, destruir a democracia. A esperança é a última que morre...

Cotação: * * * *



terça-feira, 12 de abril de 2016

Filmes: "O Regresso"

“À PROVA DE TUDO” METIDO A BESTA

Filme é bonito e bem feito, porém não consegue disfarçar que é um super espetáculo inflado e vazio feito na medida para abocanhar prêmios da indústria cultural estadunidense

- por André Lux, crítico-spam

Não gosto do cineasta Alejandro Iñárrito, mas ele é queridinho dos críticos e da academia de cinema de Hollywood, tanto é que seus filmes sempre recebem elogios rasgados e o sujeito já ganhou dois prêmios Oscar de melhor diretor seguidos (o primeiro por "Birdman" e o segundo por esse "O Regresso")! 


Não que ele não seja talentoso, pelo contrário. O problema é sua pretensão imensa e a total falta de sutiliza com que tenta enfiar goela abaixo do espectador o quanto seus filmes são geniais e diferentes. Em “O Regresso”, Iñárrito chega a copiar planos sequências inteiros do filme “Zerkalo” de Andrei Tarkovsky sem a menor vergonha (não fui eu quem descobriu isso, achei neste link). “Ninguém deve lembrar mesmo ou então vão me achar genial ao perceber minha homenagem ao brilhante e obscuro cineasta russo de outrora”, certamente pensou o mexicano. Veja as evidências abaixo:



Sinceramente, para mim isso pouco importa. O que vale é o resultado final da obra e “O Regresso” não é lá grande coisa e parece mesmo mais um exercício de estilo do cineasta em questão, cheio de pompa, mas sem muita circunstância. Apesar de se vender como baseado em uma história real, o filme é quase todo pura ficção e poderia muito bem ser chamado de “Highlander – O Regresso”, já que o protagonista feito pelo finalmente oscarizado Leonardo DiCaprio certamente é um daqueles imortais que só morrem mesmo quando tem a cabeça cortada do resto do corpo.

O tão comentado ataque do urso é realmente impressionante de tão bem feito (a gente custa a acreditar que foi todo feito em computação gráfica), mas acaba sendo por demais exagerado e alongado. Não tem como alguém sobreviver àquilo. Mas bastou uns dias preso a uma maca, umas horas enterrado vivo e um tempo se arrastando pela neve, que o nobre Hugh Glass já sai andando praticamente numa boa, cavalga em disparada e até cai de um desfiladeiro sem sofrer mais nenhum arranhão!

Digo nobre porque o protagonista é um daqueles sujeitos que são bons em tudo: protetor dos nativos americanos (foi casado com uma e teve filho com ela, que protege do racismo onipresente), fala a língua deles, conhece todas as rotas, sabe sobreviver nas condições mais adversas - chega até a cauterizar uma ferida igual ao Rambo, come carne crua, abre um cavalo morto e dorme dentro dele para não congelar, etc. Ou seja, é a versão do século 19 do Bears Grylls, aquele sujeito que faz o programa “À Prova de Tudo”.

Eu gosto do Leonardo DiCaprio, sempre achei ele um bom ator (sua melhor atuação foi em “Os Infiltrados”), mas aqui se limita a grunhir e fazer cara de enfezado, enquanto passa pelas mais terríveis peripécias. O papel exige mais dele fisicamente do que outra coisa, portanto não impressiona no quesito interpretação, até porque ele REALMENTE sofreu tudo aquilo que vemos nas telas durante as filmagens realizadas em locações sob temperaturas congelantes! 

A incrível variedade de expressões de Leonardo durante o filme
Fosse apenas um filme realista sobre a luta de um montanhês para sobreviver, até seria uma boa aventura. Mas Iñárrito não se aguenta e enfia um monte de cenas de delírios do protagonista com sua esposa, morta pelo exército, e outras imagens oníricas que só servem para deixar o filme mais arrastado do que já é. Não bastasse isso, tentam transformar “O Regresso” em mais um filme de vingança e retaliação do herói contra o vilão óbvio que causou muitas das desgraças a ele – feito aqui por Tom Hardy, o “Mad Max” novo, que, como sempre, grunhe suas falas de maneira praticamente ininteligível. Mas nem isso chega a registrar, pois em momento algum fica claro que é isso que motiva o protagonista em sua luta para sobreviver.

Tecnicamente o filme é realmente impressionante, especialmente a sequência do ataque dos nativos ao grupo do protagonista, feita toda praticamente sem cortes e filmada com câmera na mão que se movimenta sem parar. Mas chega uma hora que esse recurso cansa, já que é usado excessivamente até mesmo em simples cenas de diálogos. É novamente aquela história do diretor querendo chamar a atenção para ele e não para a história que está tentando contar. A musica composta por 
 Ryuichi Sakamoto também não ajuda em nada a mudar essa impressão, de tão fria e distanciada (às vezes soa como alguém arranhando um quadro negro).

“O Regresso” é bonito, bem feito e contém algumas sequências realmente incríveis, porém não consegue disfarçar que é um super espetáculo inflado, arrastado e, em última instância, vazio - feito na medida certa para agradar profissionais da opinião e abocanhar prêmios da indústria cultural estadunidense.

Cotação: **1/2

terça-feira, 22 de março de 2016

Filmes: "Deadpool"

DESCARTÁVEL

O filme é divertido, cheio de piadinhas e referências ao mundo nerd, mas chega uma hora que tudo isso meio que cansa e perde a graça

- por André Lux, crítico-spam

Fãs de quadrinhos e críticos em geral gostaram muito dessa adaptação de um personagem pouco conhecido da Marvel, o “Deadpool” (que já havia aparecido no desastroso "X-Men Origens: Wolverine"), mas, sinceramente, não achei assim tão bom.

Ok, o filme é divertido, cheio de piadinhas e referências ao mundo mágico dos nerds, tem uma apresentação dos créditos bem sacada, mas chega uma hora que tudo isso meio que cansa e o excesso de brincadeiras e micagens do protagonista perdem a graça.

Nada tenho  contra o ator Ryan Reynolds, que é esforçado e simpático, mas aqui está excessivamente posado e confiante (chega a citar a si mesmo!) em um personagem que no final das contas não passa de uma mistura de Wolverine (tem fator de cura que o deixa praticamente imortal) com o Homem-Aranha (que também é o rei das piadinhas e da auto-gozação).

Não consegui me envolver na trama, pois é simplesmente a busca por vingança e retaliação do Deadpool contra o sujeito que o transformou depois de longas sessões de torturas. Não ficam muito claros quais são os poderes e as fraquezas do herói, além do fator de cura, que chega ao exagero quando continua tranquilo depois de levar uma facada na cabeça! Ele já lutava e se movia como um super-ninja antes ou isso foi efeito da mutação também? Ninguém explica. Isso derruba qualquer tentativa de criar suspense, como se importar com o destino de um super-herói que parece ser indestrutível e nunca perde o bom humor?

No final, “Deadpool” recorre aos mais batidos clichês dos filmes do gênero e vira uma overdose de lutas entre bonecos criados digitalmente e explosões exageradas, sem falar que o clímax é a briga entre um sujeito praticamente imortal contra outro que é incapaz de sentir qualquer dor... Mais emocionante que isso só mesmo uma corrida de tartarugas.

O filme também é excessivamente violento e assustou vários pais que levaram seus filhos pequenos aos cinemas, ao ponto de terem que colocar um aviso bem à vista de que não era recomendado para menores de 16 anos.

Repleto de músicas pop e recheado com uma trilha incidental horrenda composta pelo tal de Junkie LX, espécie de DJ “descoberto” pelo abominável Hans Zimmer, “Deadpool” acaba sendo mais um daqueles filmes que começam prometendo subverter a lógica desse tipo de produto, só para se render a ela e terminar tão descartável como qualquer outro. Uma pena.


Cotação: * * 1/3

terça-feira, 15 de março de 2016

Filmes: "A Lenda" (Versão do Diretor)

CONSERTANDO O ERRO

Nova versão de "A Lenda" traz cenas adicionais e restaura música espetacular de Jerry Goldsmith

- por André Lux, crítico-spam

Você consegue imaginar o que seria do filme "O Império Contra-Ataca'' se, justamente no momento em que o vilão Darth Vader entrasse em cena, a ''Marcha Imperial'' de John Williams fosse trocada por um pagode do grupo ''É o Tchan!''? 

Ou então, na cena do assassinato no chuveiro de ''Psicose'', ao invés da música magistral de Bernard Herrman, os produtores do filme resolvessem colocar um heavy-metal do Marilyn Manson? 

Loucura? Sem dúvida. Mas, infelizmente, absurdos como esses às vezes realmente acontecem no cinema.

Um caso clássico é o que ocorreu com o filme ''A Lenda'', produção de 1986 dirigida pelo prestigiado Ridley Scott (de ''Alien: O Oitavo Passageiro'' e ''Blade Runner - O Caçador de Andróides'') que foi concebida como uma fantasia fiel ao espírito dos contos de fadas clássicos, mas com voz própria e original.

Um dos fatores primordiais para a credibilidade do filme foi a escolha do consagrado compositor Jerry Goldsmith, que criou para ''A Lenda'' uma das mais belas e líricas trilhas sonoras musicais já escritas para o cinema. Para se ter uma idéia da importância da música nesse filme, canções foram compostas por Goldsmith (com letras de John Bettis) para serem cantadas pela personagem principal e passaram a fazer parte do roteiro! 

Entretanto, só públicos europeus (e alguns poucos, como o brasileiro) puderam ver o filme com a música do mestre, já que, ao chegar nos EUA, os produtores foram convencidos pelos executivos da Universal Studios a reduzirem a metragem e, crime dos crimes, trocar a música de Goldsmith por algo mais "popular".

Na mesma época, em um caso semelhante e no mesmo estúdio, o diretor Terry Gilliam ameaçou queimar os negativos de ''Brazil'' se sua visão não fosse respeitada. Já Ridley Scott, incerto das qualidades de sua obra e incapaz de apoiar seus colegas de trabalho, aceitou todas as ''dicas'', chegando ao cúmulo de contratar o inexpressivo grupo de rock progressivo Tangerine Dream para compor a trilha substituta. 

O filme, que dos originais 114 minutos foi reduzido para 90, foi lançado então nos cinemas dos EUA e fracassou gloriosamente, além de ser massacrado pela crítica - embora uma versão de 94 minutos e com a trilha de Goldsmith tenha sido comprada pela Fox e lançada na Europa e também no Brasil na época.

Mas essa injustiça foi finalmente arrumada. Foi lançado na região 1 o DVD especial duplo que contém a versão restaurada do filme, como havia sido idealizada por seus criadores, à qual foram reintegradas cenas que tinham sido deixadas de fora de ambas as versões e a música de Jerry Goldsmith.

Essa chamada ''Versão do Diretor'' (Director’s Cut) está contida no Disco 1, tem 1h54min de duração e é apresentada em formato widescreen anamórfico, com som DTS, 5.1 Dolby Surround e 2.0 Dolby Surround. Além disso, vem com um canal de áudio especial trazendo os comentários do diretor Scott. 

O Disco 2 apresenta vários extras, tais como um documentário recente no qual são discutidos todos os aspectos da produção, com várias entrevistas e depoimentos, duas cenas perdidas (a abertura original e a dança das fadas), storyboards, galeria de fotos, trailers de cinema e TV, além da versão dos EUA, que possui apenas 1h30min de duração e a trilha musical que foi aos cinemas. No Brasil, foi lançado o filme em blu ray trazendo tanto a versão do diretor, quanto a versão européia dos cinemas.

Mas uma pergunta paira no ar: a versão restaurada de ''A Lenda'' faz dele um grande filme? Infelizmente a resposta ainda é negativa. A produção é visualmente brilhante, o clima de magia e conto de fadas está presente (agora mais do que nunca, graças à música de Goldsmith), os efeitos de maquiagem de Rob Bottin são perfeitos e Tim Curry como o vilão Darkness continua impressionando, mesmo ao atuar sob quilos de maquiagem que o deixam irreconhecível. 

Todavia, ''Legend'' tem um defeito grave: por causa de diversos problemas na produção (inclusive um incêndio que destruiu grande parte do estúdio), o roteiro de William Hjortsberg, que era inicialmente grandioso e ousado, foi sendo drasticamente reduzido e reescrito, resultando em um sub-Senhor dos Anéis indigesto e praticamente incompreensível.

Essa falta de rumo do projeto obviamente afetou o par de atores centrais, composto por Tom Cruise (aqui em início de carreira) e por Mia Sara (que nem é muito bonita e depois só apareceu em ''Curtindo a Vida Adoidado''). Os dois estão visivelmente perdidos, em especial Cruise, cuja atuação chega a ser constrangedora (o astro hoje rejeita a fita). Pior, o filme não tem ação e as poucas cenas de luta são mal dirigidas por Scott, que as deixa confusas e truncadas.

Em contrapartida, a ''Versão do Diretor'' é mais longa do que a de 94 minutos exibida nos cinemas europeus e brasileiros, particularmente na seqüência do encontro com os unicórnios, quando Darkness tenta seduzir a princesa Lily (Sara) e no diálogo entre ela e Jack (Cruise) na conclusão do filme, deixando-o um pouco mais forte ao aprofundar o amor entre os personagens principais e também o dilema enfrentado pelo Senhor da Escuridão, que tenta corromper a luz, mas também acaba corrompido por ela.

Tim Curry, irreconhecível como Darkness
É incompreensível, todavia, a opção do diretor em deixar de fora algumas cenas que fazem parte da versão que foi lançada nos EUA, em especial a que mostra o duende Gump recolocando o chifre no Unicórnio e causando sua ressurreição.

As duas versões também começam e terminam de maneira totalmente diferente. Na dos EUA o vilão é mostrado logo de cara, quebrando todo o impacto da sua aparição ao sair do espelho na metade do filme. Já na Versão do Diretor, Lily vai embora sozinha, pois entende que seu campeão pertence à floresta, mas em seguida Jack resolve correr para ela. Na dos EUA e na Européia, ambos rumam ao pôr do sol juntos, de mãos dadas...

Com tantas versões diferentes e mudanças conceituais, fica claro que nem mesmo os realizadores sabiam muito bem o que fazer com o roteiro que tinham em mãos. E é justamente essa falta de rumo a causa do fracasso do projeto, pois deixou aberta a porta para a intervenção direta de executivos do estúdio que, entre outros absurdos, decidiram destruir a trilha magistral de Jerry Goldsmith em favor de uma música mais comercial.

Para quem duvida é só comparar a cena da dança do vestido nas duas versões. Goldsmith compôs uma valsa grandiosa e maravilhosa, porém perturbadora, na performance precisa da National Philarmonic Orchestra mais Coral. Já na versão do Tangerine Dream vemos os personagens dançando freneticamente, mas a música soa modesta, mal se ouve coisa alguma, como se alguém estivesse arranhando um sintetizador timidamente. 

Como bem disse Paul MacLean no livreto que acompanha o álbum da Silva Screen com a trilha musical de Jerry Goldsmith para o filme, ''Homens de negócio fariam melhor se permanecessem em suas cadeiras de couro e deixassem o trabalho criativo para as pessoas criativas''. Pura e irretocável verdade. Jerry Goldsmith que o diga...

A versão que foi para os cinemas de ''A Lenda'', de 94 minutos, foi lançado em DVD no Brasil pela Fox. Entretanto, nem a Fox, nem a Universal, que distribui o DVD com a versão do diretor nos EUA, tem planos para a versão especial para o Brasil.

Cotação: * * * 1/2

domingo, 6 de março de 2016

MENTES PERIGOSAS: O psicopata mora ao lado

Estou lendo um livro aterrador sobre como funciona a mente de um psicopata. 

Abaixo alguns trechos do livro que mais me chocaram, até agora.

"Psicopatas são pessoas frias, insensíveis, manipuladoras, perversas, transgressoras de regras sociais, impiedosas, imorais, sem consciência e desprovidas de sentimento de compaixão, culpa ou remorso. Esses 'predadores sociais' com aparência humana estão por aí, misturados conosco, incógnitos, infiltrados em todos os setores sociais. [...]

Em casos extremos, matam a sangue-frio, com requintes de crueldade, sem medo nem arrependimento. Porém, em sua grande maioria, não são assassinos e vivem como se fossem pessoas comuns. E exatamente por isso permanecem por muito tempo ou até uma vida inteira, sem serem descobertos ou diagnosticados".

"Estima-se que 4% da população mundial apresente um transtorno de personalidade que afeta indistintamente homens e mulheres, pobre e ricos, etnia ou crença: a psicopatia. A maioria dos psicopatas jamais chega à violência física ou ao ato extremo do homicídio, mas nem por isso é menos ameaçadora."

"Eles estão por toda parte, perfeitamente disfarçados de gente comum e, tão logo suas necessidades internas de prazer, luxúria, poder e controle se manifestam, se revelarão como realmente são: feras predadoras".

"Os psicopatas são os vampiros da vida real. Não é exatamente o nosso sangue o que eles sugam, mas sim nossa energia emocional".

"Sem dar conta, acabamos por convidá-los a entrar em nossa vida e, quase sempre, só percebemos o erro e o tamanho do engodo quando eles desaparecem inesperadamente, deixando-nos exaustos, adoecidos, com uma enorme dor de cabeça, a carteira vazia, o coração destroçado e, nos piores casos, com a vida perdida".

"A piedade e a generosidade das pessoas boas podem se transformar em uma folha de papel em branco nas mãos de um psicopata. Quando sentimos pena, estamos vulneráveis emocionalmente e é essa a maior arma que eles podem usar contra nós".

"[...] os psicopatas tem total ciência dos seus atos (a parte cognitiva ou racional é perfeita), ou seja, sabem perfeitamente que estão infringindo regras sociais e por que estão agindo dessa maneira. A deficiência deles (e é aí que mora o perigo) está no campo dos afetos e das emoções. Assim, para eles, tanto faz ferir, maltratar ou até matar alguém que atravesse o seu caminho ou os seus interesses, mesmo que esse alguém faça parte do seu convívio íntimo".

"Os psicopatas possuem uma visão narcisista e supervalorizada de seus valores e importância. Eles se veem como o centro do universo e tudo deve girar em torno deles. Pensam e se descrevem coo pessoas superiores aos outros. [...] Para eles matar, roubar, estuprar, fraudar etc. não é nada grave. Embora saibam que estão violando os direitos básicos dos outros, por escolha, reconhecem somente as suas próprias regras e leis.

Além disso, são extremamente hábeis em culpar as outras pessoas por seus atos, eximindo-se de qualquer responsabilidade. Para eles, a culpa sempre é dos outros".

Tenha medo, tenha muito medo.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Filmes: "A Garota Dinamarquesa"

LUZ NAS TREVAS

Qualquer filme que ajude a tirar as pessoas da zona de conforto e se confrontarem com temas que não gostariam de ver normalmente já tem seu mérito

- por André Lux, crítico-spam

O maior mérito de “A Garota Dinamarquesa” é tirar do gueto e jogar à luz o tema do transexualismo, que ainda é visto com preconceito extremo pela maioria das pessoas. Assim, qualquer filme que ajude a tirar as pessoas da sua zona de conforto e se confrontarem com temas que não gostariam de ver normalmente já tem seu mérito. Ainda mais quando se trata de uma produção requintada e com cara de “filme de Oscar”, o que obriga quase todo mundo a assistir e gostar do que viu, para não passar por ignorante.

Mas, fora isso, achei o filme bem fraco e banal. Sem dizer que, pelo que li, é muito diferente do que foi a história real de Einar Wegener, que em meados dos anos 1920 descobre ser uma mulher aprisionada no corpo de homem, que é como os transexuais geralmente se descrevem. Como o filme se vende como “baseado numa história real”, não tem como perdoar esse pecado.

A verdade é que o roteiro é sem graça e mostra muito pouco do que seriam os verdadeiros dilemas e tormentos sofridos por pessoas assim, que ainda são perseguidas e até mortas até hoje, pleno século 21.

O elenco é fraco, com o ruivo feioso Eddie Redmayne fazendo tudo da maneira mais óbvia e caricata possível. Por sinal, esse ator me chamou a atenção pela ruindade na minissérie “Os Pilares da Terra” e repetiu a canastrice em “O Destino de Júpiter”, onde sua atuação pavorosa como o vilão virou motivo de piada. Apesar disso, ganhou o Oscar por “A Teoria de Tudo”, onde interpretou o físico Stephen Hawking em outro desempenho todo baseado em truques físicos e muito pouca verdade.

A atriz que faz sua esposa, Alicia Vikander, é igualmente sonsa e passa o filme sempre com a mesma cara de embasbacada. Pouco se vê do que seria os dramas de gente que passa por esse tipo de situação e seu personagem vira apenas uma espécie de “Amélia”, que fica ao lado do marido para o que der e vier. Mas, pelo que diz a história real, a esposa dele era bissexual e o casamento era muito mais de fachada e amizade do que qualquer outra coisa.

Esteticamente o filme é bonito, bem fotografado, tem uma trilha musical delicada composta por Alexandre Desplat, mas é frio, distanciado, feito sem qualquer paixão ou entusiasmo pelo diretor Tom Hooper, do fraco “O Discurso do Rei” e do insuportável musical “Os Miseráveis”. O que é muito pouco para um tema tão pertinente e explosivo como esse.

Mas ao menos provoca alguma polêmica e obriga preconceituosos e homofóbicos em geral a encararem algo que sua ignorância não permitiria normalmente. Não é pouca coisa.

Cotação: * * 1/2

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Filmes: "007 Contra Spectre"

AOS TRANCOS E BARRANCOS

Daniel Craig nem disfarça o tédio com o novo filme e desfila com a mesma cara aborrecida até o final, que chega a ser patético

- por André Lux, crítico-spam

Eu não achei nada inteligente terem colocado o feioso Daniel Craig no papel do agente secreto James Bond, mas até que gostei do primeiro filme com ele, “Cassino Royale”, e o sujeito é bom ator e consegue convencer, mesmo não tendo pinta de galã (chega a lembrar o Didi Mocó, dos “Trapalhões”).

Mas a fórmula que usaram para impulsionar os novos filmes do 007, tentando humanizar o personagem e deixá-lo mais realista e emotivo, já começou a dar água no segundo capítulo, “Quantum of Solace”, e chegou ao fim com o superestimado “Skyfall”. Até porque não tinha nada de novo nessa aproximação, já que apenas imitaram o que foi usado com sucesso na saga “Jason Bourne”, com Matt Damon.

Nesse quarto filme, “Spectre”, tentam amarrar as pontas soltas deixadas pelos três filmes anteriores inventando que todos os vilões previamente derrotados por Bond faziam parte de uma única organização, cujo chefão tem algum laço afetivo como o agente britânico – invenções do roteiro que, sinceramente, não fazem o menor sentido e beiram o ridículo.

Assim, o novo filme funciona aos trancos e barrancos enquanto Bond procura pistas vagas e sem muito nexo para descobrir quem está por trás da tal organização, novamente suspenso do serviço por um Ralph Fiennes, como M, que passa o filme todo com cara de quem sofre de prisão de ventre. Todavia, as conexões com os filmes anteriores soam forçadas e qualquer um já percebe de cara que o novo chefe do serviço secreto da Inglaterra está mal intencionado, até porque o ator que escalaram, um tal de Andrew Scott (que também ajudou a estragar “Victor Frankenstein”) é péssimo e só sabe fazer caras e bocas.

No final, o vilão máximo não passa de um total idiota, que perde seu tempo enfiando umas agulhas na cabeça de Bond ao invés de simplesmente matá-lo. Claro que ele foge e o vilão ainda tem mais uma chance de acabar com a vida dele, mas prefere brincar de esconde-esconde enquanto uma bomba está para explodir. Nos filmes antigos do 007 esse tipo de besteira era plenamente justificável, pois o tom era de deboche e fantasia, oposto do que se tenta aqui. O filme se dá ao luxo de desperdiçar Christoph Waltz num papel tolo e sem qualquer expressão.

Assim como em “Skyfall”, Bond demonstra ser um total incompetente já na primeira cena, quando deixa os vilões vê-lo pela janela, provoca um desmoronamento e quase mata o povo que estava celebrando o Dia dos Mortos no México enquanto luta dentro de um helicóptero. Depois faz outras bobagens imperdoáveis, como deixar o capanga do vilão vivo depois de um acidente, e no final, a mocinha sair andando sozinha pela rua.

Daniel Craig nem disfarça o tédio com o novo filme e desfila com a mesma cara aborrecida até o final, que chega a ser patético. Vai me dizer que James Bond iria abandonar tudo por uma mulher sem graça e chata como aquela que ele acabou de conhecer, feita pela sempre inexpressiva Léa Seydoux? Se ainda fosse pela bela Monica Bellucci, que ele transa no meio do filme com direito a cinta-liga e tudo, até daria para engolir!


Ciò è un bel pezzo di donna, mio caro James Bond!
Pra mim o maior erro foi terem chamado para dirigir os dois últimos filmes o pretensioso Sam Mendes (de “Beleza Americana”), um cineasta sempre encantado com o próprio umbigo que valoriza forma sobre substância e não sabe filmar cenas de ação, deixando tudo bonito e luxuoso, mas sem qualquer emoção. Se não bastasse isso, fotografaram tudo num tom amarelo-pastel horrível, deixando “Spectre” com jeito daqueles pseudo-filmes de arte bem modorrentos.

Se não bastasse tudo isso, o filme não tem qualquer humor, o que é fatal para um filme de James Bond, e os personagens secundários, como Q e Moneypenny, não tem o que fazer a não ser ficar andando de um lado para o outro com cara de assustados. A única coisa boa, além da produção requintada e das locações bonitas, é a defesa que fazem da democracia e a condenação do uso indiscriminado de vigilância que acaba com a privacidade das pessoas e só serve para deixar o mundo ainda mais refém do medo e do terrorismo. Isso deixa o filme com ar "de esquerda", assim como também aconteceu com "Quantum of Solace" e por causa disso ganha uma estrelinha a mais na minha cotação!

Tomara mesmo que esse seja o último dessa saga com Daniel Craig. Já estão dizendo que o próximo James Bond pode ser interpretado por um negro. Sinceramente, qualquer coisa é melhor do que essas besteiras que obrigaram o personagem a viver.

Cotação: **

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Filmes: "Creed"

CONTINUAÇÃ-DERIVAÇÃO

Não tem a mesma emoção catártica dos primeiros “Rocky”, mas mostra o boxe com tintas mais realistas e é muito bem dirigido, roteirizado e fotografado

- por André Lux, crítico-spam

"Creed" é uma espécie de continuação-derivação da franquia "Rocky", que começou em 1976 e levou ao estrelato o simpático canastrão Sylvester Stallone, que aqui retorna como coadjuvante, já que o protagonista é o rapaz que dá título ao filme, Adonis, filho bastardo do ex-campeão Apollo Creed, o adversário de Rocky nos dois primeiros filmes que vira seu treinador no terceiro e morre no quarto.

O grande mérito do primeiro "Rocky" foi ressuscitar o velho "sonho americano", que estava em franca decadência naquela época e prega que qualquer um pode chegar lá no topo, bastando se esforçar muito para isso. Hoje em dia chamam a essa ladainha de "meritocracia" e coisas do gênero, mas o princípio é sempre o mesmo. Assim, o "Garanhão Italiano" realizava o sonho da maioria dos espectadores ao vencer na vida e ser reconhecido, algo que acontece apenas esporadicamente no mundo real e serve só para confirmar o quanto essa filosofia de vida é puro papo-furado.

Depois de seis continuações progressivamente piores (no quarto episódio Rocky transforma-se no Rambo dos ringues e derrota os malvados comunistas na base do soco), Stallone resolveu dar adeus ao personagem em "Rocky Balboa", que deveria ser um retorno às origens, mas acabou sendo um espetáculo um pouco deprimente (leia aqui minha crítica).

Surge então esse "Creed", que para surpresa geral acaba sendo um bom filme, principalmente devido aos aspectos técnicos da produção, que se esmera em filmar as lutas com um grau de realismo bem diferente do que os outros filmes da saga mostravam. A primeira luta mais importante, por exemplo, é filmada toda em um único plano-sequência sem cortes com excelente resultado, certamente algo muito difícil de ser feito.

O roteiro busca distanciar o protagonista, feito pelo competente Michael B. Jordan, do clichê do "pobre menino que quer vencer na vida", já que ele foi resgatado do reformatório bem jovem pela ex-mulher de Apollo e teve uma vida cheia de conforto, ao ponto de se dar ao luxo de largar um emprego bem remunerado em um grande escritório para correr atrás do seu sonho de virar lutador, como o pai.

Essa aproximação acaba funcionando com uma faca de dois gumes, pois deixa o filme mais realista e bem menos açucarado, mas acaba impedindo momentos de maior catarse quando chega ao clímax, que é justamente o que busca quem curte esse tipo de filme. Fica tudo num meio termo que se não chega a ofender a inteligência, também não empolga como os outros capítulos, afinal o protagonista se comporta muito mais como um menino mimado enfezado do que alguém que tem o “olho do tigre”, como o Rocky original.

Claro que a luta final entre o rapaz e o campeão mundial é totalmente fantasiosa, já que um estreante como ele não aguentaria mais do que dois rounds contra um oponente experiente como aquele e seria derrotado psicologicamente de cara pelo próprio peso do evento. Poderiam ter tentando ao menos deixar tudo mais verossímil, mostrando Adonis disputando mais lutas até chegar ao confronto com o campeão, como fizeram corretamente no primeiro “Rocky”.

A melhor coisa do filme acaba sendo a presença de Stallone, que atua como treinador do rapaz e tem as melhores falas do filme, misturando aquelas velhas frases de superação do gênero com tiradas de auto-gozação impagáveis contra a personalidade de bobo-bonzinho de Rocky. O roteiro investe um bom tempo no desenvolvimento do relacionamento entre os dois e é bem eficaz em traçar um paralelo entre a luta do filho de Apollo para ser reconhecido e de Rocky contra uma doença que pode ser fatal.

Outro ponto positivo é a trilha musical composta pelo jovem sueco Ludwig Goransson que sabe ser intimista e grandiloquente na medida certa, incorporando os temas originais compostos por Bill Conti aos temas novos que criou para o novo filme.

Enfim, para quem gosta do gênero “Creed” é uma boa pedida. Não tem o mesmo nível de emoção catártica dos primeiros “Rocky”, mas mostra o boxe com tintas mais realistas e é muito bem dirigido, roteirizado e fotografado, coisa cada vez mais rara no cinema comercial estadunidense. E, curiosamente, esse é o primeiro filme da franquia que não tem qualquer participação de Stallone por trás das câmeras.

Cotação: * * * 1/2

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Ennio Morricone ganha o Globo de Ouro por "Os Oito Odiados"


Sensacional o discurso do Tarantino pelo prêmio ao mestre Ennio Morricone por sua partitura para "Os Oito Odiados"! Falou tudo que precisava ser falado!

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Minha participação no Acesso Geral falando sobre Star Wars

Filmes: "Os Oito Odiados"

TARANTINO DOS BONS

Estranhamente, não vem agradando da mesma forma que os filmes anteriores do diretor, algo que demonstra a dificuldade que muitos tem de reconhecer uma obra de arte de qualidade

- por André Lux, crítico-spam


Seis filmes depois do revolucionário “Pulp Fiction”, o diretor e roteirista Quentin Tarantino finalmente volta a acertar o alvo com “Os Oito Odiados” (a tradução correta deveria ser “Os Oito Odiosos”), uma homenagem-paródia aos lendários spaguethi-westerns italianos, cujo maior autor foi o grande Sergio Leone.

Quem acompanha minhas críticas sabe bem que não entro nessa onda de ficar babando o ovo de qualquer cineasta só porque ele fez um grande filme e aí todo mundo, especialmente muitos críticos, sentem-se obrigados a rasgar elogios para qualquer coisa que lançam depois, correndo o risco, caso não emitam uma opinião positiva, de serem chamados de burros ou outros adjetivos ainda menos cordiais.

Assim, apesar de considerar “Pulp Fiction” um dos meus 20 filmes favoritos, não entrei no vagão que louvou todos os outros filmes que Tarantino produziu depois. Por isso sinto-me bem à vontade para dizer que “Os Oito Odiados” é seu melhor filme desde “Pulp Fiction” e tão bom quanto. Tudo que o cineasta tentou imprimir em seus outros filme está presente aqui, só que de forma primorosa. Os diálogos afiados, o humor (muito) negro, a porrada no racismo e, claro, a violência exagerada que são suas marcas registradas, porém poucas vezes atingidas com o sucesso aqui alcançado.

O filme tem mais de três horas de duração, mas parece que não dura nem uma hora (e olha que já vi duas vezes e a sensação é a mesma), o que é sempre um grande elogio. Tarantino é um dos últimos diretores de cinema no sentido literal do termo, do tipo que sabe construir clima, usar pausas e lapidar os enquadramentos de forma artística. Mas com a exceção de “Pulp Ficton”, “Cães de Aluguel” e agora em “Os Oito Odiados”, desperdiçou tudo isso nos seus filmes subsequentes em favor de um egocentrismo e uma pretensão desmedida que acabaram deixando de lado a estória em favor dos maneirismos do cineasta, fatores que só servem para diluir o impacto das cenas e alongar a projeção desnecessariamente, como aconteceu em “Bastardos Inglórios” e “Django Livre”, principalmente. 


Esse oitavo longa de Tarantino traz pela primeira vez uma trilha musical original composta por ninguém menos do que o grande Ennio Morricone, um dos maiores gênios da música para o cinema de todos os tempos, de quem o cineasta é admirador confesso e sempre usou faixas de suas trilhas antigas em seus filmes, algo que nem sempre funciona e muitas vezes tem efeito contrário ao desejado. Morricone escreveu sua nova partitura diretamente para o roteiro, muito tempo antes do filme ficar pronto (como era comum nas obras de Leone) e Tarantino editou o filme sobre a música (normalmente o processo é o oposto desse). Isso dá a “Os Oito Odiados” uma outra dimensão, pois a música tem papel fundamental no desenrolar da trama e o filme respira em cima dos tempos compostos por Morricone. 


Morricone e Tarantino, juntos afinal
Uma curiosidade sobre a música é que, além de algumas canções anacrônicas usadas no filme como é comum na obra de Tarantino, algumas faixas rejeitadas da trilha sonora de “O Enigma de Outro Mundo”, do próprio Morricone, foram usadas em “Os Oito Odiados” de forma extremamente marcante. O que não deixa de ser muito interessante, pois o longa de John Carpenter tem muita relação com o novo filme do Tarantino, já que ambos se passam dentro de um local isolado no meio da neve onde o clima de paranoia e falsas identidades é a mola que impulsiona as tramas. Além, é claro, de serem ambos estrelados por Kurt Russel, sempre carismático.

Falar do elenco de “Os Oitos Odiados” é chover no molhado. Tarantino é sem dúvida um excelente diretor de atores e aqui isso fica mais do que evidente, onde todos estão ótimos em seus papeis, especialmente Samuel L. Jackson, que rouba o filme como sempre, sem nunca se repetir. Até o pouco conhecido Walton Goggins, como o suposto xerife de Red Rock, convence plenamente e a sempre excêntrica Jennifer Jason Leigh vira o diabo em pessoa quando o roteiro assim pede.


É impressionante também como Tarantino muda o tom do filme de uma sequência para outra sem perder o fio da meada. Durante todas as cenas entre os odiosos do título, o clima é de humor negro, com a violência explodindo de tempos em tempos e o sangue jorrando em profusão como efeitos sempre cômicos (a cena em que vomitam sangue me fez rir muito, parecia coisa do Monty Phyton!). Mas, quando os atos de violência atingem pessoas “inocentes”, o clima é de puro horror e cada bala que fura o corpo de um dos personagens parece atingir a plateia de forma brutal.

O tema “ódio racial” é muito bem usado no filme, bem diferente do que aconteceu em “Django Livre”, onde o excesso de verborragia e auto-indulgência acabavam provocando o efeito contrário. A cena em que o caçador de recompensas vivido por Jackson conta como matou um de seus perseguidores e sua conclusão é antológica.

Algo que me chamou a atenção no roteiro foi a forma como Tarantino usou para pedir desculpas pelo excesso de seus filmes anteriores, onde defendeu a tese de que qualquer pessoa que apoiou ou usufruiu da escravidão ou de outro regime deplorável desse tipo pode e deve ser sumariamente executada por um "anjo vingador", algo moralmente intolerável, pois é fácil hoje condenar quem se apropriou do trabalho escravo, porém é preciso lembrar que naquela época a escravidão era algo permitido por Lei.

Assim, Tarantino coloca na boca do personagem de Tim Roth uma belíssima defesa do Estado Democrático de Direito que vai na contramão do que ele endossou em “Bastardos Inglórios” e “Django Livre”. Será que ele leu minha crítica? Óbvio que não, mas certamente muita gente reclamou disso mundo afora e ele provavelmente tomou ciência.

Se não bastasse tudo isso, o filme ainda tem uma fotografia espetacular e foi todo rodado em Panavision 70mm. Estranhamente, “Os Oito Odiados” não vem agradando da mesma forma que os filmes anteriores do diretor, algo sempre estranho de se ver e que apenas demonstra a dificuldade imensa que algumas pessoas tem de reconhecer uma obra de arte de qualidade atualmente. Uma pena.

Cotação: * * * * *

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Filmes: "O Despertar da Força" (sem spoilers)

A FORÇA VOLTOU, COM DENTES!

Apesar dos defeitos, novo “Star Wars” é sim um ótimo filme, digno dos melhores da franquia e fica anos luz à frente dos desastrosos episódios 1, 2 e 3

- por André Lux, crítico-spam

Chegou a hora que a maioria das pessoas ligadas em cinema estava esperando já há alguns anos: a estreia do sétimo capítulo da saga “Star Wars”! Antes de qualquer coisa preciso confessar que é praticamente impossível pra mim ser objetivo em relação a essa franquia, afinal eu estava lá, em 1977, sentado no cinema e assistindo ao primeiro filme quando tinha apenas 8 anos e fiz parte dessa história que abalou as estruturas da cultura popular da sociedade ocidental para sempre.

Dito isso, vamos às boas notícias: o “Despertar da Força” é sim um ótimo filme, digno dos melhores da franquia e fica anos luz à frente dos desastrosos episódios 1, 2 e 3 que George Lucas produziu para contar a queda de Anakin Skywalker e sua ascensão como Darth Vader. Mas isso não chega a ser um mérito muito expressivo, já que os três filmes das chamadas “prequels” são ruins em praticamente todos os aspectos, exceto na música de John Williams e, claro, nos efeitos especiais (que embora sejam bons, mais poluem os filmes do que qualquer outra coisa).

Apesar de estar longe de ser perfeito (falarei disso depois), o novo filme é uma aventura de space-opera palpitante, cheia de ação e emoção, algo que simplesmente não existiu nas “prequels”, por exemplo. O responsável por isso é sem dúvida o diretor J. J. Abrams, que sabe como dar ritmo a um roteiro e consegue extrair o melhor dos atores – que aqui são bons e cheios de carisma. O humor também está de volta em plena forma, o que deixa o filme leve e dinâmico, sem se levar a sério exceto nos momentos em que isso se faz necessário.

Gostei muito do novo vilão, Kylo Ren, que sinceramente parecia bem tolo nos trailers, ainda mais quando aparecia sem máscara, até porque o ator é um magrelo narigudo com cara de pernilongo. Mas, surpresa, é um excelente ator e realmente rouba as cenas em que aparece. O personagem é muito bem delineado e cheio de angústia e conflitos que realmente transbordam da tela para fora e dão outra dimensão a ele, mesmo nos momentos mais fracos, como quando fala com seu mestre, que é um boneco digital tosco e inconvincente (feito pelo mesmo Andy Serkis, que foi o Gollum e agora está em tudo quanto é filme), no que é certamente o ponto mais baixo do filme.

Já o ponto alto é sem dúvida a jovem Daisy Ridley, que faz a Rey, uma catadora de sucata que se vê no meio da confusão toda e tem momentos muitos fortes. A moça é boa atriz e também esbanja carisma. Sem dizer que é muito bom ver uma mulher ter um papel tão forte e vital nesse tipo de filme.

"Chewie, nós voltamos para casa!"
Sobre os pontos fracos de “O Despertar da Força”, falar deles é meio que chover no molhado, pois a saga Star Wars nunca primou por roteiros profundos e muito inventivos. E todo mundo sabe que George Lucas (que aqui não fez nada, pois vendeu a franquia para a Disney) pegou elementos de tudo quanto é mitologia e sagas do passado para criar o seu universo.

Embora o roteiro tenha sido escrito pelo próprio Abrams com a ajuda do consagrado Lawrence Kasdan, é um pouco episódico e confuso, deixando muito coisa no ar no que acaba sendo quase uma refilmagem de “Uma Nova Esperança”. Também não faz muito sentido ver gente que nunca lutou na vida virar mestre no uso do sabre de luz de uma hora pra outra! A única coisa que incomoda mesmo e impede o filme de atingir cinco estrelas na cotação é a parte final, onde repetem o que já vimos em “Uma Nova Esperança” e “O Retorno de Jedi” – outra Estrela da Morte, sério? Não tinham nada melhor para inventar?

Mas, tirando isso, o resto do filme é uma delícia, trazendo algumas cenas realmente fortes e até chocantes para os fãs, embaladas pela sempre excelente trilha musical de John Williams, que continua em plena forma aos 83 anos e mescla de forma magistral os temas antigos da saga com os novos, compostos para os personagens criados para “O Despertar da Força”. A partitura abunda de vigorosos scherzos, que são a marca registrada de Williams.

Não dá pra falar mais do que isso sem apelar para os famigerados spoilers, então vou parando por aqui. Mas uma coisa é certa: a Força está de volta! E com dentes!

Cotação: * * * *

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Filmes: "No Coração do Mar"

MOBY DICK DOS POBRES

Versão do que seria o encontro real com a baleia branca gigante é sem graça e, claro, perde de mil a zero para o romance


- por André Lux, crítico-spam

Esse 
“No Coração do Mar” é um daqueles filmes que estão na moda atualmente que pretendem contar a “história por trás da estória” ou coisa do tipo. Aqui tentam mostrar os acontecimentos supostamente reais que levaram o escritor Herman Melville a criar “Moby Dick”, considerada a obra-prima da literatura estadunidense e que já deu origem a várias adaptações para o cinema e televisão.

Mas, sinceramente, a tal versão do que seria o encontro real com a baleia branca gigante é bem sem graça e, claro, perde de mil a zero para o romance. E ainda tem muita coisa que foi obviamente inventada para tentar deixar o filme mais “dramático”, muitas delas sem sentido ou simplesmente irrelevantes.

Como por exemplo, o conflito entre o primeiro imediato e o capitão do navio, que foi claramente inspirado no também caso real do motim no Bounty, que também já foi adaptado para o cinema várias vezes (a melhor é a versão com Marlon Brando). O problema é que esse conflito é forçado e não leva a lugar nenhum. A cena em que o capitão do navio os obriga a entrarem de peito aberto numa tempestade em alto mar é tola, pois nem mesmo um idiota completo faria tal coisa, independente de ser novato na função.

O ator que faz o comandante, Benjamin Walker (que foi o protagonista no esquisito “Abraham Lincoln, Caçador de Vampiros”) também é fraco e não tem peso para o papel. Chris Hemsworth, o atual “Thor”, é bonitão, mas não tem carisma e acaba sendo neutro como o imediato.

O filme também sofre com falta de foco narrativo. O roteiro não sabe se está contando a história dentro da história (o narrador fala de coisas que não tinha como saber, por sinal), as desventuras do imediato ou os perigos do mar. Assim, quando a grande baleia branca chega, tudo acontece muito rápido e de forma abrupta, num anticlímax que chega a assustar de tão mal conduzido.

Depois do ataque e destruição do navio, o filme vira quase terror, com os náufragos tendo que praticar atos horrendos para garantir a sobrevivência (vira quase um “Sobreviventes dos Andes”, só que no mar). Também é ridículo insistirem na baleia perseguindo os pobres coitados, algo que certamente não aconteceu na realidade. E ainda tentam enfiar uma mensagem sobre como é feio matar os animais a fórceps, que deixa tudo ainda mais sem sentido.

Outro ponto baixo de “No Coração do Mar” é a trilha musical composta pelo espanhol Roque Baños, que apesar de ter mostrado talento em outros filmes, foi obviamente obrigado a compor no modo “Hans Zimmer” de fazer trilhas, que dá o tom atualmente com raras exceções. Apesar de ter algumas faixas interessantes, as músicas que acompanham as cenas mais tensas e de ação são totalmente genéricas, repletas dos irritantes ostinatos simplórios e até das insuportáveis “cornetas da perdição” que Zimmer inventou para “A Origem”.

Eu ia dizer que é triste ver um cineasta como Ron Howard, que trabalhou com gente como John Williams (em “Um Sonho Distante”) e James Horner (em “Coccon”, “Willow” e “Apollo 13”), pedindo música desse tipo, mas aí lembrei que ele é um dos culpados pela ascensão de Zimmer desde “Backdraft”, passando por “O Código Da Vinci” e “Rush”. Basta ouvir a trilha de “Tubarão” para perceber como uma música do mesmo nível da gloriosa composição de John Williams para o filme de Spielberg elevaria o filme a outros patamares.

Por sinal, quando a gente lembra-se de “Tubarão” é que percebe o quanto esse filme e quase todos os outros feitos atualmente pela indústria de cinema estadunidense são fracos e sem graça. Enfim, dá pra assistir, mas não chega aos pés de “Moby Dick”, seja o livro ou mesmo as suas adaptações para as telas...

Cotação: * *