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terça-feira, 12 de abril de 2016

Filmes: "O Regresso"

“À PROVA DE TUDO” METIDO A BESTA

Filme é bonito e bem feito, porém não consegue disfarçar que é um super espetáculo inflado e vazio feito na medida para abocanhar prêmios da indústria cultural estadunidense

- por André Lux, crítico-spam

Não gosto do cineasta Alejandro Iñárrito, mas ele é queridinho dos críticos e da academia de cinema de Hollywood, tanto é que seus filmes sempre recebem elogios rasgados e o sujeito já ganhou dois prêmios Oscar de melhor diretor seguidos (o primeiro por "Birdman" e o segundo por esse "O Regresso")! 


Não que ele não seja talentoso, pelo contrário. O problema é sua pretensão imensa e a total falta de sutiliza com que tenta enfiar goela abaixo do espectador o quanto seus filmes são geniais e diferentes. Em “O Regresso”, Iñárrito chega a copiar planos sequências inteiros do filme “Zerkalo” de Andrei Tarkovsky sem a menor vergonha (não fui eu quem descobriu isso, achei neste link). “Ninguém deve lembrar mesmo ou então vão me achar genial ao perceber minha homenagem ao brilhante e obscuro cineasta russo de outrora”, certamente pensou o mexicano. Veja as evidências abaixo:



Sinceramente, para mim isso pouco importa. O que vale é o resultado final da obra e “O Regresso” não é lá grande coisa e parece mesmo mais um exercício de estilo do cineasta em questão, cheio de pompa, mas sem muita circunstância. Apesar de se vender como baseado em uma história real, o filme é quase todo pura ficção e poderia muito bem ser chamado de “Highlander – O Regresso”, já que o protagonista feito pelo finalmente oscarizado Leonardo DiCaprio certamente é um daqueles imortais que só morrem mesmo quando tem a cabeça cortada do resto do corpo.

O tão comentado ataque do urso é realmente impressionante de tão bem feito (a gente custa a acreditar que foi todo feito em computação gráfica), mas acaba sendo por demais exagerado e alongado. Não tem como alguém sobreviver àquilo. Mas bastou uns dias preso a uma maca, umas horas enterrado vivo e um tempo se arrastando pela neve, que o nobre Hugh Glass já sai andando praticamente numa boa, cavalga em disparada e até cai de um desfiladeiro sem sofrer mais nenhum arranhão!

Digo nobre porque o protagonista é um daqueles sujeitos que são bons em tudo: protetor dos nativos americanos (foi casado com uma e teve filho com ela, que protege do racismo onipresente), fala a língua deles, conhece todas as rotas, sabe sobreviver nas condições mais adversas - chega até a cauterizar uma ferida igual ao Rambo, come carne crua, abre um cavalo morto e dorme dentro dele para não congelar, etc. Ou seja, é a versão do século 19 do Bears Grylls, aquele sujeito que faz o programa “À Prova de Tudo”.

Eu gosto do Leonardo DiCaprio, sempre achei ele um bom ator (sua melhor atuação foi em “Os Infiltrados”), mas aqui se limita a grunhir e fazer cara de enfezado, enquanto passa pelas mais terríveis peripécias. O papel exige mais dele fisicamente do que outra coisa, portanto não impressiona no quesito interpretação, até porque ele REALMENTE sofreu tudo aquilo que vemos nas telas durante as filmagens realizadas em locações sob temperaturas congelantes! 

A incrível variedade de expressões de Leonardo durante o filme
Fosse apenas um filme realista sobre a luta de um montanhês para sobreviver, até seria uma boa aventura. Mas Iñárrito não se aguenta e enfia um monte de cenas de delírios do protagonista com sua esposa, morta pelo exército, e outras imagens oníricas que só servem para deixar o filme mais arrastado do que já é. Não bastasse isso, tentam transformar “O Regresso” em mais um filme de vingança e retaliação do herói contra o vilão óbvio que causou muitas das desgraças a ele – feito aqui por Tom Hardy, o “Mad Max” novo, que, como sempre, grunhe suas falas de maneira praticamente ininteligível. Mas nem isso chega a registrar, pois em momento algum fica claro que é isso que motiva o protagonista em sua luta para sobreviver.

Tecnicamente o filme é realmente impressionante, especialmente a sequência do ataque dos nativos ao grupo do protagonista, feita toda praticamente sem cortes e filmada com câmera na mão que se movimenta sem parar. Mas chega uma hora que esse recurso cansa, já que é usado excessivamente até mesmo em simples cenas de diálogos. É novamente aquela história do diretor querendo chamar a atenção para ele e não para a história que está tentando contar. A musica composta por 
 Ryuichi Sakamoto também não ajuda em nada a mudar essa impressão, de tão fria e distanciada (às vezes soa como alguém arranhando um quadro negro).

“O Regresso” é bonito, bem feito e contém algumas sequências realmente incríveis, porém não consegue disfarçar que é um super espetáculo inflado, arrastado e, em última instância, vazio - feito na medida certa para agradar profissionais da opinião e abocanhar prêmios da indústria cultural estadunidense.

Cotação: **1/2

terça-feira, 22 de março de 2016

Filmes: "Deadpool"

DESCARTÁVEL

O filme é divertido, cheio de piadinhas e referências ao mundo nerd, mas chega uma hora que tudo isso meio que cansa e perde a graça

- por André Lux, crítico-spam

Fãs de quadrinhos e críticos em geral gostaram muito dessa adaptação de um personagem pouco conhecido da Marvel, o “Deadpool” (que já havia aparecido no desastroso "X-Men Origens: Wolverine"), mas, sinceramente, não achei assim tão bom.

Ok, o filme é divertido, cheio de piadinhas e referências ao mundo mágico dos nerds, tem uma apresentação dos créditos bem sacada, mas chega uma hora que tudo isso meio que cansa e o excesso de brincadeiras e micagens do protagonista perdem a graça.

Nada tenho  contra o ator Ryan Reynolds, que é esforçado e simpático, mas aqui está excessivamente posado e confiante (chega a citar a si mesmo!) em um personagem que no final das contas não passa de uma mistura de Wolverine (tem fator de cura que o deixa praticamente imortal) com o Homem-Aranha (que também é o rei das piadinhas e da auto-gozação).

Não consegui me envolver na trama, pois é simplesmente a busca por vingança e retaliação do Deadpool contra o sujeito que o transformou depois de longas sessões de torturas. Não ficam muito claros quais são os poderes e as fraquezas do herói, além do fator de cura, que chega ao exagero quando continua tranquilo depois de levar uma facada na cabeça! Ele já lutava e se movia como um super-ninja antes ou isso foi efeito da mutação também? Ninguém explica. Isso derruba qualquer tentativa de criar suspense, como se importar com o destino de um super-herói que parece ser indestrutível e nunca perde o bom humor?

No final, “Deadpool” recorre aos mais batidos clichês dos filmes do gênero e vira uma overdose de lutas entre bonecos criados digitalmente e explosões exageradas, sem falar que o clímax é a briga entre um sujeito praticamente imortal contra outro que é incapaz de sentir qualquer dor... Mais emocionante que isso só mesmo uma corrida de tartarugas.

O filme também é excessivamente violento e assustou vários pais que levaram seus filhos pequenos aos cinemas, ao ponto de terem que colocar um aviso bem à vista de que não era recomendado para menores de 16 anos.

Repleto de músicas pop e recheado com uma trilha incidental horrenda composta pelo tal de Junkie LX, espécie de DJ “descoberto” pelo abominável Hans Zimmer, “Deadpool” acaba sendo mais um daqueles filmes que começam prometendo subverter a lógica desse tipo de produto, só para se render a ela e terminar tão descartável como qualquer outro. Uma pena.


Cotação: * * 1/3

terça-feira, 15 de março de 2016

Filmes: "A Lenda" (Versão do Diretor)

CONSERTANDO O ERRO

Nova versão de "A Lenda" traz cenas adicionais e restaura música espetacular de Jerry Goldsmith

- por André Lux, crítico-spam

Você consegue imaginar o que seria do filme "O Império Contra-Ataca'' se, justamente no momento em que o vilão Darth Vader entrasse em cena, a ''Marcha Imperial'' de John Williams fosse trocada por um pagode do grupo ''É o Tchan!''? 

Ou então, na cena do assassinato no chuveiro de ''Psicose'', ao invés da música magistral de Bernard Herrman, os produtores do filme resolvessem colocar um heavy-metal do Marilyn Manson? 

Loucura? Sem dúvida. Mas, infelizmente, absurdos como esses às vezes realmente acontecem no cinema.

Um caso clássico é o que ocorreu com o filme ''A Lenda'', produção de 1986 dirigida pelo prestigiado Ridley Scott (de ''Alien: O Oitavo Passageiro'' e ''Blade Runner - O Caçador de Andróides'') que foi concebida como uma fantasia fiel ao espírito dos contos de fadas clássicos, mas com voz própria e original.

Um dos fatores primordiais para a credibilidade do filme foi a escolha do consagrado compositor Jerry Goldsmith, que criou para ''A Lenda'' uma das mais belas e líricas trilhas sonoras musicais já escritas para o cinema. Para se ter uma idéia da importância da música nesse filme, canções foram compostas por Goldsmith (com letras de John Bettis) para serem cantadas pela personagem principal e passaram a fazer parte do roteiro! 

Entretanto, só públicos europeus (e alguns poucos, como o brasileiro) puderam ver o filme com a música do mestre, já que, ao chegar nos EUA, os produtores foram convencidos pelos executivos da Universal Studios a reduzirem a metragem e, crime dos crimes, trocar a música de Goldsmith por algo mais "popular".

Na mesma época, em um caso semelhante e no mesmo estúdio, o diretor Terry Gilliam ameaçou queimar os negativos de ''Brazil'' se sua visão não fosse respeitada. Já Ridley Scott, incerto das qualidades de sua obra e incapaz de apoiar seus colegas de trabalho, aceitou todas as ''dicas'', chegando ao cúmulo de contratar o inexpressivo grupo de rock progressivo Tangerine Dream para compor a trilha substituta. 

O filme, que dos originais 114 minutos foi reduzido para 90, foi lançado então nos cinemas dos EUA e fracassou gloriosamente, além de ser massacrado pela crítica - embora uma versão de 94 minutos e com a trilha de Goldsmith tenha sido comprada pela Fox e lançada na Europa e também no Brasil na época.

Mas essa injustiça foi finalmente arrumada. Foi lançado na região 1 o DVD especial duplo que contém a versão restaurada do filme, como havia sido idealizada por seus criadores, à qual foram reintegradas cenas que tinham sido deixadas de fora de ambas as versões e a música de Jerry Goldsmith.

Essa chamada ''Versão do Diretor'' (Director’s Cut) está contida no Disco 1, tem 1h54min de duração e é apresentada em formato widescreen anamórfico, com som DTS, 5.1 Dolby Surround e 2.0 Dolby Surround. Além disso, vem com um canal de áudio especial trazendo os comentários do diretor Scott. 

O Disco 2 apresenta vários extras, tais como um documentário recente no qual são discutidos todos os aspectos da produção, com várias entrevistas e depoimentos, duas cenas perdidas (a abertura original e a dança das fadas), storyboards, galeria de fotos, trailers de cinema e TV, além da versão dos EUA, que possui apenas 1h30min de duração e a trilha musical que foi aos cinemas. No Brasil, foi lançado o filme em blu ray trazendo tanto a versão do diretor, quanto a versão européia dos cinemas.

Mas uma pergunta paira no ar: a versão restaurada de ''A Lenda'' faz dele um grande filme? Infelizmente a resposta ainda é negativa. A produção é visualmente brilhante, o clima de magia e conto de fadas está presente (agora mais do que nunca, graças à música de Goldsmith), os efeitos de maquiagem de Rob Bottin são perfeitos e Tim Curry como o vilão Darkness continua impressionando, mesmo ao atuar sob quilos de maquiagem que o deixam irreconhecível. 

Todavia, ''Legend'' tem um defeito grave: por causa de diversos problemas na produção (inclusive um incêndio que destruiu grande parte do estúdio), o roteiro de William Hjortsberg, que era inicialmente grandioso e ousado, foi sendo drasticamente reduzido e reescrito, resultando em um sub-Senhor dos Anéis indigesto e praticamente incompreensível.

Essa falta de rumo do projeto obviamente afetou o par de atores centrais, composto por Tom Cruise (aqui em início de carreira) e por Mia Sara (que nem é muito bonita e depois só apareceu em ''Curtindo a Vida Adoidado''). Os dois estão visivelmente perdidos, em especial Cruise, cuja atuação chega a ser constrangedora (o astro hoje rejeita a fita). Pior, o filme não tem ação e as poucas cenas de luta são mal dirigidas por Scott, que as deixa confusas e truncadas.

Em contrapartida, a ''Versão do Diretor'' é mais longa do que a de 94 minutos exibida nos cinemas europeus e brasileiros, particularmente na seqüência do encontro com os unicórnios, quando Darkness tenta seduzir a princesa Lily (Sara) e no diálogo entre ela e Jack (Cruise) na conclusão do filme, deixando-o um pouco mais forte ao aprofundar o amor entre os personagens principais e também o dilema enfrentado pelo Senhor da Escuridão, que tenta corromper a luz, mas também acaba corrompido por ela.

Tim Curry, irreconhecível como Darkness
É incompreensível, todavia, a opção do diretor em deixar de fora algumas cenas que fazem parte da versão que foi lançada nos EUA, em especial a que mostra o duende Gump recolocando o chifre no Unicórnio e causando sua ressurreição.

As duas versões também começam e terminam de maneira totalmente diferente. Na dos EUA o vilão é mostrado logo de cara, quebrando todo o impacto da sua aparição ao sair do espelho na metade do filme. Já na Versão do Diretor, Lily vai embora sozinha, pois entende que seu campeão pertence à floresta, mas em seguida Jack resolve correr para ela. Na dos EUA e na Européia, ambos rumam ao pôr do sol juntos, de mãos dadas...

Com tantas versões diferentes e mudanças conceituais, fica claro que nem mesmo os realizadores sabiam muito bem o que fazer com o roteiro que tinham em mãos. E é justamente essa falta de rumo a causa do fracasso do projeto, pois deixou aberta a porta para a intervenção direta de executivos do estúdio que, entre outros absurdos, decidiram destruir a trilha magistral de Jerry Goldsmith em favor de uma música mais comercial.

Para quem duvida é só comparar a cena da dança do vestido nas duas versões. Goldsmith compôs uma valsa grandiosa e maravilhosa, porém perturbadora, na performance precisa da National Philarmonic Orchestra mais Coral. Já na versão do Tangerine Dream vemos os personagens dançando freneticamente, mas a música soa modesta, mal se ouve coisa alguma, como se alguém estivesse arranhando um sintetizador timidamente. 

Como bem disse Paul MacLean no livreto que acompanha o álbum da Silva Screen com a trilha musical de Jerry Goldsmith para o filme, ''Homens de negócio fariam melhor se permanecessem em suas cadeiras de couro e deixassem o trabalho criativo para as pessoas criativas''. Pura e irretocável verdade. Jerry Goldsmith que o diga...

A versão que foi para os cinemas de ''A Lenda'', de 94 minutos, foi lançado em DVD no Brasil pela Fox. Entretanto, nem a Fox, nem a Universal, que distribui o DVD com a versão do diretor nos EUA, tem planos para a versão especial para o Brasil.

Cotação: * * * 1/2

domingo, 6 de março de 2016

MENTES PERIGOSAS: O psicopata mora ao lado

Estou lendo um livro aterrador sobre como funciona a mente de um psicopata. 

Abaixo alguns trechos do livro que mais me chocaram, até agora.

"Psicopatas são pessoas frias, insensíveis, manipuladoras, perversas, transgressoras de regras sociais, impiedosas, imorais, sem consciência e desprovidas de sentimento de compaixão, culpa ou remorso. Esses 'predadores sociais' com aparência humana estão por aí, misturados conosco, incógnitos, infiltrados em todos os setores sociais. [...]

Em casos extremos, matam a sangue-frio, com requintes de crueldade, sem medo nem arrependimento. Porém, em sua grande maioria, não são assassinos e vivem como se fossem pessoas comuns. E exatamente por isso permanecem por muito tempo ou até uma vida inteira, sem serem descobertos ou diagnosticados".

"Estima-se que 4% da população mundial apresente um transtorno de personalidade que afeta indistintamente homens e mulheres, pobre e ricos, etnia ou crença: a psicopatia. A maioria dos psicopatas jamais chega à violência física ou ao ato extremo do homicídio, mas nem por isso é menos ameaçadora."

"Eles estão por toda parte, perfeitamente disfarçados de gente comum e, tão logo suas necessidades internas de prazer, luxúria, poder e controle se manifestam, se revelarão como realmente são: feras predadoras".

"Os psicopatas são os vampiros da vida real. Não é exatamente o nosso sangue o que eles sugam, mas sim nossa energia emocional".

"Sem dar conta, acabamos por convidá-los a entrar em nossa vida e, quase sempre, só percebemos o erro e o tamanho do engodo quando eles desaparecem inesperadamente, deixando-nos exaustos, adoecidos, com uma enorme dor de cabeça, a carteira vazia, o coração destroçado e, nos piores casos, com a vida perdida".

"A piedade e a generosidade das pessoas boas podem se transformar em uma folha de papel em branco nas mãos de um psicopata. Quando sentimos pena, estamos vulneráveis emocionalmente e é essa a maior arma que eles podem usar contra nós".

"[...] os psicopatas tem total ciência dos seus atos (a parte cognitiva ou racional é perfeita), ou seja, sabem perfeitamente que estão infringindo regras sociais e por que estão agindo dessa maneira. A deficiência deles (e é aí que mora o perigo) está no campo dos afetos e das emoções. Assim, para eles, tanto faz ferir, maltratar ou até matar alguém que atravesse o seu caminho ou os seus interesses, mesmo que esse alguém faça parte do seu convívio íntimo".

"Os psicopatas possuem uma visão narcisista e supervalorizada de seus valores e importância. Eles se veem como o centro do universo e tudo deve girar em torno deles. Pensam e se descrevem coo pessoas superiores aos outros. [...] Para eles matar, roubar, estuprar, fraudar etc. não é nada grave. Embora saibam que estão violando os direitos básicos dos outros, por escolha, reconhecem somente as suas próprias regras e leis.

Além disso, são extremamente hábeis em culpar as outras pessoas por seus atos, eximindo-se de qualquer responsabilidade. Para eles, a culpa sempre é dos outros".

Tenha medo, tenha muito medo.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Filmes: "A Garota Dinamarquesa"

LUZ NAS TREVAS

Qualquer filme que ajude a tirar as pessoas da zona de conforto e se confrontarem com temas que não gostariam de ver normalmente já tem seu mérito

- por André Lux, crítico-spam

O maior mérito de “A Garota Dinamarquesa” é tirar do gueto e jogar à luz o tema do transexualismo, que ainda é visto com preconceito extremo pela maioria das pessoas. Assim, qualquer filme que ajude a tirar as pessoas da sua zona de conforto e se confrontarem com temas que não gostariam de ver normalmente já tem seu mérito. Ainda mais quando se trata de uma produção requintada e com cara de “filme de Oscar”, o que obriga quase todo mundo a assistir e gostar do que viu, para não passar por ignorante.

Mas, fora isso, achei o filme bem fraco e banal. Sem dizer que, pelo que li, é muito diferente do que foi a história real de Einar Wegener, que em meados dos anos 1920 descobre ser uma mulher aprisionada no corpo de homem, que é como os transexuais geralmente se descrevem. Como o filme se vende como “baseado numa história real”, não tem como perdoar esse pecado.

A verdade é que o roteiro é sem graça e mostra muito pouco do que seriam os verdadeiros dilemas e tormentos sofridos por pessoas assim, que ainda são perseguidas e até mortas até hoje, pleno século 21.

O elenco é fraco, com o ruivo feioso Eddie Redmayne fazendo tudo da maneira mais óbvia e caricata possível. Por sinal, esse ator me chamou a atenção pela ruindade na minissérie “Os Pilares da Terra” e repetiu a canastrice em “O Destino de Júpiter”, onde sua atuação pavorosa como o vilão virou motivo de piada. Apesar disso, ganhou o Oscar por “A Teoria de Tudo”, onde interpretou o físico Stephen Hawking em outro desempenho todo baseado em truques físicos e muito pouca verdade.

A atriz que faz sua esposa, Alicia Vikander, é igualmente sonsa e passa o filme sempre com a mesma cara de embasbacada. Pouco se vê do que seria os dramas de gente que passa por esse tipo de situação e seu personagem vira apenas uma espécie de “Amélia”, que fica ao lado do marido para o que der e vier. Mas, pelo que diz a história real, a esposa dele era bissexual e o casamento era muito mais de fachada e amizade do que qualquer outra coisa.

Esteticamente o filme é bonito, bem fotografado, tem uma trilha musical delicada composta por Alexandre Desplat, mas é frio, distanciado, feito sem qualquer paixão ou entusiasmo pelo diretor Tom Hooper, do fraco “O Discurso do Rei” e do insuportável musical “Os Miseráveis”. O que é muito pouco para um tema tão pertinente e explosivo como esse.

Mas ao menos provoca alguma polêmica e obriga preconceituosos e homofóbicos em geral a encararem algo que sua ignorância não permitiria normalmente. Não é pouca coisa.

Cotação: * * 1/2

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Filmes: "007 Contra Spectre"

AOS TRANCOS E BARRANCOS

Daniel Craig nem disfarça o tédio com o novo filme e desfila com a mesma cara aborrecida até o final, que chega a ser patético

- por André Lux, crítico-spam

Eu não achei nada inteligente terem colocado o feioso Daniel Craig no papel do agente secreto James Bond, mas até que gostei do primeiro filme com ele, “Cassino Royale”, e o sujeito é bom ator e consegue convencer, mesmo não tendo pinta de galã (chega a lembrar o Didi Mocó, dos “Trapalhões”).

Mas a fórmula que usaram para impulsionar os novos filmes do 007, tentando humanizar o personagem e deixá-lo mais realista e emotivo, já começou a dar água no segundo capítulo, “Quantum of Solace”, e chegou ao fim com o superestimado “Skyfall”. Até porque não tinha nada de novo nessa aproximação, já que apenas imitaram o que foi usado com sucesso na saga “Jason Bourne”, com Matt Damon.

Nesse quarto filme, “Spectre”, tentam amarrar as pontas soltas deixadas pelos três filmes anteriores inventando que todos os vilões previamente derrotados por Bond faziam parte de uma única organização, cujo chefão tem algum laço afetivo como o agente britânico – invenções do roteiro que, sinceramente, não fazem o menor sentido e beiram o ridículo.

Assim, o novo filme funciona aos trancos e barrancos enquanto Bond procura pistas vagas e sem muito nexo para descobrir quem está por trás da tal organização, novamente suspenso do serviço por um Ralph Fiennes, como M, que passa o filme todo com cara de quem sofre de prisão de ventre. Todavia, as conexões com os filmes anteriores soam forçadas e qualquer um já percebe de cara que o novo chefe do serviço secreto da Inglaterra está mal intencionado, até porque o ator que escalaram, um tal de Andrew Scott (que também ajudou a estragar “Victor Frankenstein”) é péssimo e só sabe fazer caras e bocas.

No final, o vilão máximo não passa de um total idiota, que perde seu tempo enfiando umas agulhas na cabeça de Bond ao invés de simplesmente matá-lo. Claro que ele foge e o vilão ainda tem mais uma chance de acabar com a vida dele, mas prefere brincar de esconde-esconde enquanto uma bomba está para explodir. Nos filmes antigos do 007 esse tipo de besteira era plenamente justificável, pois o tom era de deboche e fantasia, oposto do que se tenta aqui. O filme se dá ao luxo de desperdiçar Christoph Waltz num papel tolo e sem qualquer expressão.

Assim como em “Skyfall”, Bond demonstra ser um total incompetente já na primeira cena, quando deixa os vilões vê-lo pela janela, provoca um desmoronamento e quase mata o povo que estava celebrando o Dia dos Mortos no México enquanto luta dentro de um helicóptero. Depois faz outras bobagens imperdoáveis, como deixar o capanga do vilão vivo depois de um acidente, e no final, a mocinha sair andando sozinha pela rua.

Daniel Craig nem disfarça o tédio com o novo filme e desfila com a mesma cara aborrecida até o final, que chega a ser patético. Vai me dizer que James Bond iria abandonar tudo por uma mulher sem graça e chata como aquela que ele acabou de conhecer, feita pela sempre inexpressiva Léa Seydoux? Se ainda fosse pela bela Monica Bellucci, que ele transa no meio do filme com direito a cinta-liga e tudo, até daria para engolir!


Ciò è un bel pezzo di donna, mio caro James Bond!
Pra mim o maior erro foi terem chamado para dirigir os dois últimos filmes o pretensioso Sam Mendes (de “Beleza Americana”), um cineasta sempre encantado com o próprio umbigo que valoriza forma sobre substância e não sabe filmar cenas de ação, deixando tudo bonito e luxuoso, mas sem qualquer emoção. Se não bastasse isso, fotografaram tudo num tom amarelo-pastel horrível, deixando “Spectre” com jeito daqueles pseudo-filmes de arte bem modorrentos.

Se não bastasse tudo isso, o filme não tem qualquer humor, o que é fatal para um filme de James Bond, e os personagens secundários, como Q e Moneypenny, não tem o que fazer a não ser ficar andando de um lado para o outro com cara de assustados. A única coisa boa, além da produção requintada e das locações bonitas, é a defesa que fazem da democracia e a condenação do uso indiscriminado de vigilância que acaba com a privacidade das pessoas e só serve para deixar o mundo ainda mais refém do medo e do terrorismo. Isso deixa o filme com ar "de esquerda", assim como também aconteceu com "Quantum of Solace" e por causa disso ganha uma estrelinha a mais na minha cotação!

Tomara mesmo que esse seja o último dessa saga com Daniel Craig. Já estão dizendo que o próximo James Bond pode ser interpretado por um negro. Sinceramente, qualquer coisa é melhor do que essas besteiras que obrigaram o personagem a viver.

Cotação: **

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Filmes: "Creed"

CONTINUAÇÃ-DERIVAÇÃO

Não tem a mesma emoção catártica dos primeiros “Rocky”, mas mostra o boxe com tintas mais realistas e é muito bem dirigido, roteirizado e fotografado

- por André Lux, crítico-spam

"Creed" é uma espécie de continuação-derivação da franquia "Rocky", que começou em 1976 e levou ao estrelato o simpático canastrão Sylvester Stallone, que aqui retorna como coadjuvante, já que o protagonista é o rapaz que dá título ao filme, Adonis, filho bastardo do ex-campeão Apollo Creed, o adversário de Rocky nos dois primeiros filmes que vira seu treinador no terceiro e morre no quarto.

O grande mérito do primeiro "Rocky" foi ressuscitar o velho "sonho americano", que estava em franca decadência naquela época e prega que qualquer um pode chegar lá no topo, bastando se esforçar muito para isso. Hoje em dia chamam a essa ladainha de "meritocracia" e coisas do gênero, mas o princípio é sempre o mesmo. Assim, o "Garanhão Italiano" realizava o sonho da maioria dos espectadores ao vencer na vida e ser reconhecido, algo que acontece apenas esporadicamente no mundo real e serve só para confirmar o quanto essa filosofia de vida é puro papo-furado.

Depois de seis continuações progressivamente piores (no quarto episódio Rocky transforma-se no Rambo dos ringues e derrota os malvados comunistas na base do soco), Stallone resolveu dar adeus ao personagem em "Rocky Balboa", que deveria ser um retorno às origens, mas acabou sendo um espetáculo um pouco deprimente (leia aqui minha crítica).

Surge então esse "Creed", que para surpresa geral acaba sendo um bom filme, principalmente devido aos aspectos técnicos da produção, que se esmera em filmar as lutas com um grau de realismo bem diferente do que os outros filmes da saga mostravam. A primeira luta mais importante, por exemplo, é filmada toda em um único plano-sequência sem cortes com excelente resultado, certamente algo muito difícil de ser feito.

O roteiro busca distanciar o protagonista, feito pelo competente Michael B. Jordan, do clichê do "pobre menino que quer vencer na vida", já que ele foi resgatado do reformatório bem jovem pela ex-mulher de Apollo e teve uma vida cheia de conforto, ao ponto de se dar ao luxo de largar um emprego bem remunerado em um grande escritório para correr atrás do seu sonho de virar lutador, como o pai.

Essa aproximação acaba funcionando com uma faca de dois gumes, pois deixa o filme mais realista e bem menos açucarado, mas acaba impedindo momentos de maior catarse quando chega ao clímax, que é justamente o que busca quem curte esse tipo de filme. Fica tudo num meio termo que se não chega a ofender a inteligência, também não empolga como os outros capítulos, afinal o protagonista se comporta muito mais como um menino mimado enfezado do que alguém que tem o “olho do tigre”, como o Rocky original.

Claro que a luta final entre o rapaz e o campeão mundial é totalmente fantasiosa, já que um estreante como ele não aguentaria mais do que dois rounds contra um oponente experiente como aquele e seria derrotado psicologicamente de cara pelo próprio peso do evento. Poderiam ter tentando ao menos deixar tudo mais verossímil, mostrando Adonis disputando mais lutas até chegar ao confronto com o campeão, como fizeram corretamente no primeiro “Rocky”.

A melhor coisa do filme acaba sendo a presença de Stallone, que atua como treinador do rapaz e tem as melhores falas do filme, misturando aquelas velhas frases de superação do gênero com tiradas de auto-gozação impagáveis contra a personalidade de bobo-bonzinho de Rocky. O roteiro investe um bom tempo no desenvolvimento do relacionamento entre os dois e é bem eficaz em traçar um paralelo entre a luta do filho de Apollo para ser reconhecido e de Rocky contra uma doença que pode ser fatal.

Outro ponto positivo é a trilha musical composta pelo jovem sueco Ludwig Goransson que sabe ser intimista e grandiloquente na medida certa, incorporando os temas originais compostos por Bill Conti aos temas novos que criou para o novo filme.

Enfim, para quem gosta do gênero “Creed” é uma boa pedida. Não tem o mesmo nível de emoção catártica dos primeiros “Rocky”, mas mostra o boxe com tintas mais realistas e é muito bem dirigido, roteirizado e fotografado, coisa cada vez mais rara no cinema comercial estadunidense. E, curiosamente, esse é o primeiro filme da franquia que não tem qualquer participação de Stallone por trás das câmeras.

Cotação: * * * 1/2

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Ennio Morricone ganha o Globo de Ouro por "Os Oito Odiados"


Sensacional o discurso do Tarantino pelo prêmio ao mestre Ennio Morricone por sua partitura para "Os Oito Odiados"! Falou tudo que precisava ser falado!

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Minha participação no Acesso Geral falando sobre Star Wars

Filmes: "Os Oito Odiados"

TARANTINO DOS BONS

Estranhamente, não vem agradando da mesma forma que os filmes anteriores do diretor, algo que demonstra a dificuldade que muitos tem de reconhecer uma obra de arte de qualidade

- por André Lux, crítico-spam


Seis filmes depois do revolucionário “Pulp Fiction”, o diretor e roteirista Quentin Tarantino finalmente volta a acertar o alvo com “Os Oito Odiados” (a tradução correta deveria ser “Os Oito Odiosos”), uma homenagem-paródia aos lendários spaguethi-westerns italianos, cujo maior autor foi o grande Sergio Leone.

Quem acompanha minhas críticas sabe bem que não entro nessa onda de ficar babando o ovo de qualquer cineasta só porque ele fez um grande filme e aí todo mundo, especialmente muitos críticos, sentem-se obrigados a rasgar elogios para qualquer coisa que lançam depois, correndo o risco, caso não emitam uma opinião positiva, de serem chamados de burros ou outros adjetivos ainda menos cordiais.

Assim, apesar de considerar “Pulp Fiction” um dos meus 20 filmes favoritos, não entrei no vagão que louvou todos os outros filmes que Tarantino produziu depois. Por isso sinto-me bem à vontade para dizer que “Os Oito Odiados” é seu melhor filme desde “Pulp Fiction” e tão bom quanto. Tudo que o cineasta tentou imprimir em seus outros filme está presente aqui, só que de forma primorosa. Os diálogos afiados, o humor (muito) negro, a porrada no racismo e, claro, a violência exagerada que são suas marcas registradas, porém poucas vezes atingidas com o sucesso aqui alcançado.

O filme tem mais de três horas de duração, mas parece que não dura nem uma hora (e olha que já vi duas vezes e a sensação é a mesma), o que é sempre um grande elogio. Tarantino é um dos últimos diretores de cinema no sentido literal do termo, do tipo que sabe construir clima, usar pausas e lapidar os enquadramentos de forma artística. Mas com a exceção de “Pulp Ficton”, “Cães de Aluguel” e agora em “Os Oito Odiados”, desperdiçou tudo isso nos seus filmes subsequentes em favor de um egocentrismo e uma pretensão desmedida que acabaram deixando de lado a estória em favor dos maneirismos do cineasta, fatores que só servem para diluir o impacto das cenas e alongar a projeção desnecessariamente, como aconteceu em “Bastardos Inglórios” e “Django Livre”, principalmente. 


Esse oitavo longa de Tarantino traz pela primeira vez uma trilha musical original composta por ninguém menos do que o grande Ennio Morricone, um dos maiores gênios da música para o cinema de todos os tempos, de quem o cineasta é admirador confesso e sempre usou faixas de suas trilhas antigas em seus filmes, algo que nem sempre funciona e muitas vezes tem efeito contrário ao desejado. Morricone escreveu sua nova partitura diretamente para o roteiro, muito tempo antes do filme ficar pronto (como era comum nas obras de Leone) e Tarantino editou o filme sobre a música (normalmente o processo é o oposto desse). Isso dá a “Os Oito Odiados” uma outra dimensão, pois a música tem papel fundamental no desenrolar da trama e o filme respira em cima dos tempos compostos por Morricone. 


Morricone e Tarantino, juntos afinal
Uma curiosidade sobre a música é que, além de algumas canções anacrônicas usadas no filme como é comum na obra de Tarantino, algumas faixas rejeitadas da trilha sonora de “O Enigma de Outro Mundo”, do próprio Morricone, foram usadas em “Os Oito Odiados” de forma extremamente marcante. O que não deixa de ser muito interessante, pois o longa de John Carpenter tem muita relação com o novo filme do Tarantino, já que ambos se passam dentro de um local isolado no meio da neve onde o clima de paranoia e falsas identidades é a mola que impulsiona as tramas. Além, é claro, de serem ambos estrelados por Kurt Russel, sempre carismático.

Falar do elenco de “Os Oitos Odiados” é chover no molhado. Tarantino é sem dúvida um excelente diretor de atores e aqui isso fica mais do que evidente, onde todos estão ótimos em seus papeis, especialmente Samuel L. Jackson, que rouba o filme como sempre, sem nunca se repetir. Até o pouco conhecido Walton Goggins, como o suposto xerife de Red Rock, convence plenamente e a sempre excêntrica Jennifer Jason Leigh vira o diabo em pessoa quando o roteiro assim pede.


É impressionante também como Tarantino muda o tom do filme de uma sequência para outra sem perder o fio da meada. Durante todas as cenas entre os odiosos do título, o clima é de humor negro, com a violência explodindo de tempos em tempos e o sangue jorrando em profusão como efeitos sempre cômicos (a cena em que vomitam sangue me fez rir muito, parecia coisa do Monty Phyton!). Mas, quando os atos de violência atingem pessoas “inocentes”, o clima é de puro horror e cada bala que fura o corpo de um dos personagens parece atingir a plateia de forma brutal.

O tema “ódio racial” é muito bem usado no filme, bem diferente do que aconteceu em “Django Livre”, onde o excesso de verborragia e auto-indulgência acabavam provocando o efeito contrário. A cena em que o caçador de recompensas vivido por Jackson conta como matou um de seus perseguidores e sua conclusão é antológica.

Algo que me chamou a atenção no roteiro foi a forma como Tarantino usou para pedir desculpas pelo excesso de seus filmes anteriores, onde defendeu a tese de que qualquer pessoa que apoiou ou usufruiu da escravidão ou de outro regime deplorável desse tipo pode e deve ser sumariamente executada por um "anjo vingador", algo moralmente intolerável, pois é fácil hoje condenar quem se apropriou do trabalho escravo, porém é preciso lembrar que naquela época a escravidão era algo permitido por Lei.

Assim, Tarantino coloca na boca do personagem de Tim Roth uma belíssima defesa do Estado Democrático de Direito que vai na contramão do que ele endossou em “Bastardos Inglórios” e “Django Livre”. Será que ele leu minha crítica? Óbvio que não, mas certamente muita gente reclamou disso mundo afora e ele provavelmente tomou ciência.

Se não bastasse tudo isso, o filme ainda tem uma fotografia espetacular e foi todo rodado em Panavision 70mm. Estranhamente, “Os Oito Odiados” não vem agradando da mesma forma que os filmes anteriores do diretor, algo sempre estranho de se ver e que apenas demonstra a dificuldade imensa que algumas pessoas tem de reconhecer uma obra de arte de qualidade atualmente. Uma pena.

Cotação: * * * * *

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Filmes: "O Despertar da Força" (sem spoilers)

A FORÇA VOLTOU, COM DENTES!

Apesar dos defeitos, novo “Star Wars” é sim um ótimo filme, digno dos melhores da franquia e fica anos luz à frente dos desastrosos episódios 1, 2 e 3

- por André Lux, crítico-spam

Chegou a hora que a maioria das pessoas ligadas em cinema estava esperando já há alguns anos: a estreia do sétimo capítulo da saga “Star Wars”! Antes de qualquer coisa preciso confessar que é praticamente impossível pra mim ser objetivo em relação a essa franquia, afinal eu estava lá, em 1977, sentado no cinema e assistindo ao primeiro filme quando tinha apenas 8 anos e fiz parte dessa história que abalou as estruturas da cultura popular da sociedade ocidental para sempre.

Dito isso, vamos às boas notícias: o “Despertar da Força” é sim um ótimo filme, digno dos melhores da franquia e fica anos luz à frente dos desastrosos episódios 1, 2 e 3 que George Lucas produziu para contar a queda de Anakin Skywalker e sua ascensão como Darth Vader. Mas isso não chega a ser um mérito muito expressivo, já que os três filmes das chamadas “prequels” são ruins em praticamente todos os aspectos, exceto na música de John Williams e, claro, nos efeitos especiais (que embora sejam bons, mais poluem os filmes do que qualquer outra coisa).

Apesar de estar longe de ser perfeito (falarei disso depois), o novo filme é uma aventura de space-opera palpitante, cheia de ação e emoção, algo que simplesmente não existiu nas “prequels”, por exemplo. O responsável por isso é sem dúvida o diretor J. J. Abrams, que sabe como dar ritmo a um roteiro e consegue extrair o melhor dos atores – que aqui são bons e cheios de carisma. O humor também está de volta em plena forma, o que deixa o filme leve e dinâmico, sem se levar a sério exceto nos momentos em que isso se faz necessário.

Gostei muito do novo vilão, Kylo Ren, que sinceramente parecia bem tolo nos trailers, ainda mais quando aparecia sem máscara, até porque o ator é um magrelo narigudo com cara de pernilongo. Mas, surpresa, é um excelente ator e realmente rouba as cenas em que aparece. O personagem é muito bem delineado e cheio de angústia e conflitos que realmente transbordam da tela para fora e dão outra dimensão a ele, mesmo nos momentos mais fracos, como quando fala com seu mestre, que é um boneco digital tosco e inconvincente (feito pelo mesmo Andy Serkis, que foi o Gollum e agora está em tudo quanto é filme), no que é certamente o ponto mais baixo do filme.

Já o ponto alto é sem dúvida a jovem Daisy Ridley, que faz a Rey, uma catadora de sucata que se vê no meio da confusão toda e tem momentos muitos fortes. A moça é boa atriz e também esbanja carisma. Sem dizer que é muito bom ver uma mulher ter um papel tão forte e vital nesse tipo de filme.

"Chewie, nós voltamos para casa!"
Sobre os pontos fracos de “O Despertar da Força”, falar deles é meio que chover no molhado, pois a saga Star Wars nunca primou por roteiros profundos e muito inventivos. E todo mundo sabe que George Lucas (que aqui não fez nada, pois vendeu a franquia para a Disney) pegou elementos de tudo quanto é mitologia e sagas do passado para criar o seu universo.

Embora o roteiro tenha sido escrito pelo próprio Abrams com a ajuda do consagrado Lawrence Kasdan, é um pouco episódico e confuso, deixando muito coisa no ar no que acaba sendo quase uma refilmagem de “Uma Nova Esperança”. Também não faz muito sentido ver gente que nunca lutou na vida virar mestre no uso do sabre de luz de uma hora pra outra! A única coisa que incomoda mesmo e impede o filme de atingir cinco estrelas na cotação é a parte final, onde repetem o que já vimos em “Uma Nova Esperança” e “O Retorno de Jedi” – outra Estrela da Morte, sério? Não tinham nada melhor para inventar?

Mas, tirando isso, o resto do filme é uma delícia, trazendo algumas cenas realmente fortes e até chocantes para os fãs, embaladas pela sempre excelente trilha musical de John Williams, que continua em plena forma aos 83 anos e mescla de forma magistral os temas antigos da saga com os novos, compostos para os personagens criados para “O Despertar da Força”. A partitura abunda de vigorosos scherzos, que são a marca registrada de Williams.

Não dá pra falar mais do que isso sem apelar para os famigerados spoilers, então vou parando por aqui. Mas uma coisa é certa: a Força está de volta! E com dentes!

Cotação: * * * *

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Filmes: "No Coração do Mar"

MOBY DICK DOS POBRES

Versão do que seria o encontro real com a baleia branca gigante é sem graça e, claro, perde de mil a zero para o romance


- por André Lux, crítico-spam

Esse 
“No Coração do Mar” é um daqueles filmes que estão na moda atualmente que pretendem contar a “história por trás da estória” ou coisa do tipo. Aqui tentam mostrar os acontecimentos supostamente reais que levaram o escritor Herman Melville a criar “Moby Dick”, considerada a obra-prima da literatura estadunidense e que já deu origem a várias adaptações para o cinema e televisão.

Mas, sinceramente, a tal versão do que seria o encontro real com a baleia branca gigante é bem sem graça e, claro, perde de mil a zero para o romance. E ainda tem muita coisa que foi obviamente inventada para tentar deixar o filme mais “dramático”, muitas delas sem sentido ou simplesmente irrelevantes.

Como por exemplo, o conflito entre o primeiro imediato e o capitão do navio, que foi claramente inspirado no também caso real do motim no Bounty, que também já foi adaptado para o cinema várias vezes (a melhor é a versão com Marlon Brando). O problema é que esse conflito é forçado e não leva a lugar nenhum. A cena em que o capitão do navio os obriga a entrarem de peito aberto numa tempestade em alto mar é tola, pois nem mesmo um idiota completo faria tal coisa, independente de ser novato na função.

O ator que faz o comandante, Benjamin Walker (que foi o protagonista no esquisito “Abraham Lincoln, Caçador de Vampiros”) também é fraco e não tem peso para o papel. Chris Hemsworth, o atual “Thor”, é bonitão, mas não tem carisma e acaba sendo neutro como o imediato.

O filme também sofre com falta de foco narrativo. O roteiro não sabe se está contando a história dentro da história (o narrador fala de coisas que não tinha como saber, por sinal), as desventuras do imediato ou os perigos do mar. Assim, quando a grande baleia branca chega, tudo acontece muito rápido e de forma abrupta, num anticlímax que chega a assustar de tão mal conduzido.

Depois do ataque e destruição do navio, o filme vira quase terror, com os náufragos tendo que praticar atos horrendos para garantir a sobrevivência (vira quase um “Sobreviventes dos Andes”, só que no mar). Também é ridículo insistirem na baleia perseguindo os pobres coitados, algo que certamente não aconteceu na realidade. E ainda tentam enfiar uma mensagem sobre como é feio matar os animais a fórceps, que deixa tudo ainda mais sem sentido.

Outro ponto baixo de “No Coração do Mar” é a trilha musical composta pelo espanhol Roque Baños, que apesar de ter mostrado talento em outros filmes, foi obviamente obrigado a compor no modo “Hans Zimmer” de fazer trilhas, que dá o tom atualmente com raras exceções. Apesar de ter algumas faixas interessantes, as músicas que acompanham as cenas mais tensas e de ação são totalmente genéricas, repletas dos irritantes ostinatos simplórios e até das insuportáveis “cornetas da perdição” que Zimmer inventou para “A Origem”.

Eu ia dizer que é triste ver um cineasta como Ron Howard, que trabalhou com gente como John Williams (em “Um Sonho Distante”) e James Horner (em “Coccon”, “Willow” e “Apollo 13”), pedindo música desse tipo, mas aí lembrei que ele é um dos culpados pela ascensão de Zimmer desde “Backdraft”, passando por “O Código Da Vinci” e “Rush”. Basta ouvir a trilha de “Tubarão” para perceber como uma música do mesmo nível da gloriosa composição de John Williams para o filme de Spielberg elevaria o filme a outros patamares.

Por sinal, quando a gente lembra-se de “Tubarão” é que percebe o quanto esse filme e quase todos os outros feitos atualmente pela indústria de cinema estadunidense são fracos e sem graça. Enfim, dá pra assistir, mas não chega aos pés de “Moby Dick”, seja o livro ou mesmo as suas adaptações para as telas...

Cotação: * *

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Filmes: "O Exterminador do Futuro: Gênesis"

RECOMEÇO DA CONTINUAÇÃO DA REFILMAGEM

Quinto filme da franquia do “Terminator” quer tirar leite de pedra e se perde em roteiro sem sentido

- por André Lux, crítico-spam

Os executivos de Róliudi estão sempre tentando desesperadamente tirar leite de pedra quando se trata de franquias de sucesso como “Jurassic Park” e tantas outras. E com “O Exterminador do Futuro” não poderia ser diferente.

O filme original de James Cameron, que de certa forma revolucionou o gênero ficção científica em 1984, ganha então mais uma continuação (a quinta!) que deveria funcionar também como um “recomeço” (ou reboot, como chamam os estadunidenses) para a série, como está na moda atualmente (vide “Jurassic World”  ou o novo "Robocop", por exemplo). Ou seja, esse “O Exterminador do Futuro: Gênesis” é um recomeço da continuação da refilmagem... ou coisa do tipo.

Inventam então uma nova história em que os protagonistas revisitam várias cenas do filme original de 1984, bem no estilo do que fizeram em “De Volta para o Futuro 2”. Mas o resultado é pífio, pois o roteiro não faz o menor sentido e tudo parece forçado, especialmente quando alguém tenta explicar o vai e vem de personagens e as diferentes linhas de tempo que o novo filme cria (“O Exterminador do Futuro: A Salvação” é solenemente ignorado).

A revelação do novo vilão do filme até poderia gerar alguma surpresa se já não tivessem mostrando isso no trailer do filme. Sem dizer que também não faz o menor sentido a existência dele e também não se explica porque simplesmente não mata Sarah Connor e Kyle Reese de cara.

Pra piorar tudo, temos uma trilha musical medonha composta por um tal de Lorne Balfe, que é mais um discípulo do abominável Hans Zimmer, que faz a trilha original eletrônica de Brad Fiedel parecer algo genial. Balfe usa até as insuportáveis “Cornetas da Perdição”, que Zimmer inventou para “A Origem” e agora todo mundo parece que é obrigado a usar em tudo quanto é filme!

O elenco é fraco, com a jovem Emilia Clarke de “Game of Thrones” tomando o papel que já foi de Linda Hamilton, mas sem deixar qualquer marca. O ator que colocaram para ser John Connor, o líder dos rebeldes no futuro (Jason Clarke, que esteve em "Planeta dos Macacos: O Confronto), também é muito sem graça e com aquela cara de bolacha que tem não convence nem um minuto como super-soldado.

O único que livra a cara é o Arnaldão que, embora esteja bem acabado, mantém seu carisma e ainda consegue dar alguma dignidade ao Exterminador, sem perder o bom humor com frases do tipo “Estou velho, mas não obsoleto” e as caretas de sempre. Se bem que ver a heroína do filme chamando o velho Terminator de "papi" não ajude muito...



Tecnicamente o filme não passa do medíocre e alterna efeitos especiais excelentes com outros que parecem de vídeo game. A direção de Alan Taylor, do fraco “Thor 2”, é impessoal e burocrática, o que fica evidente nas várias cenas de ação do filme, que até são bem feitas, mas nunca empolgam o suficiente para marcar. 


A melhor coisa acaba sendo ver o velho Arnold lutando com seu outro eu mais jovem e pelado - feito por um ator que se parece fisicamente com ele em 1984, mas com seu rosto colocado digitalmente em cima, o que não deixa de ser bizarro para dizer o mínimo!

Mas o pior mesmo é a conclusão, que obviamente não faz o menor sentido, recusa-se a responder várias questões nebulosas (como quem mandou o velho Terminator com sua nova missão) e ainda deixa a porta aberta para mais uma continuação, que certamente vão ser produzidas até quando o público simplesmente desistir de pagar para ver tanta besteira junta.

Cotação: **


segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Filmes: "Perdido em Marte"

CAFÉ REQUENTADO

O maior problema do filme é que acaba se parecendo muito com outros sobre missões a Marte

- por André Lux, crítico-spam

“Perdido em Marte” é o melhor filme do outrora grande cineasta Ridley Scott em anos, mas isso não quer dizer muito já que seus últimos filmes resultaram medíocres ou simplesmente ruins (“Prometheus” sendo o pior). O que não deixa de ser triste para alguém que já foi capaz de produzir maravilhas da sétima arte como “Os Duelistas”, “Alien” e “Blade Runner”.

O maior problema deste filme estrelado por Matt Damon é que acaba se parecendo muito com outros recentes sobre missões espaciais a Marte. Em “Missão Marte”, de Brian de Palma, um dos astronautas também é forçado a sobreviver por anos usando apenas suas habilidades e o material que tinha disponível depois que a missão fracassa e todos morrem (embora o foco do filme não seja nele, mas na missão de resgate). Enquanto em “Planeta Vermelho”, estrelado por Val Kilmer, a conclusão e várias outras passagens são praticamente idênticas ao que vemos em “Perdido em Marte”.

O filme é bem conduzido e Damon está em seus melhores dias, porém tudo fica com aquele gosto de café requentado e morno. Além disso, é visualmente medíocre e não tem grandes cenas, o que mostra o declínio de Scott como esteta. As piadas recorrentes do protagonista sobre a seleção musical de canções pop dos anos 80 deixada pela capitã da missão também não empolgam e “Perdido em Marte” tem uma trilha musical sem impacto algum, composta por um dos muitos discípulos do abominável Hans Zimmer.

Apesar do bom elenco, a maioria não tem muito o que fazer e apenas Damon tem chance de brilhar. A ajuda que os chineses dão à missão de resgate do astronauta tem impacto zero na trama e é apenas uma daquelas coisas que o cinema estadunidense tenta fazer atualmente para deixar seus novos filmes agradáveis ao mercado da China.

Enfim, é perfeitamente consumível, mas não chega a empolgar e está muito aquém do talento que Scott demonstrou no passado.

Cotação: * * 1/2

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Filmes: "O Pequeno Príncipe"

MENSAGEM BATIDA, MAS VÁLIDA

É sempre bem vinda uma obra que exalte a liberdade, a imaginação e a importância de se manter a criança interior sempre viva e alegre

- por André Lux, crítico-spam

Embora não seja nenhuma obra-prima, é uma delícia essa nova adaptação do clássico "O Pequeno Príncipe", do francês Antoine de Saint-Exupéry, que certamente é uma dos livros mais lidos e conhecidos da história. 


Se bem que esse novo filme não chega a ser uma adaptação, mas sim uma livre interpretação dele, na qual os personagens principais interagem entre si tendo como pano de fundo o livro que dá título ao longa.

O filme é dirigido pelo mesmo sujeito que fez "Kung Fu Panda", Mark Osborne, e gira em torno de uma menina que é criada pela mãe obcecada em fazer ela ser aceita por uma escola tradicional, obrigando-a a seguir um rígido programa de estudo, sem direito a qualquer diversão. É aí que entra um velho excêntrico que mora na casa ao lado, que é justamente o escritor das histórias do Pequeno Príncipe.

É claro que a menina vai cair de encantos pelo senhor e descobrir o valor da amizade, da imaginação e das brincadeiras. Ou seja, são mensagens bastante batidas, mas que nunca deixam de ser válidas, ainda mais quando embrulhadas em uma obra tão bem feita, que mistura animação digital com a de bonecos quadro-a-quadro, com um desenho de produção muito bonito onde até a música do abominável Hans Zimmer funciona.

No terceiro ato há uma tentativa de ir além do que é contado no livro e o filme patina um pouco, marretando de forma meio óbvia o que já havia ficado subentendido antes. Não chega a incomodar, mas sinceramente, não acrescenta muito e acaba deixando a conclusão arrastada e um pouco sem impacto.

Mesmo assim é sempre bem vinda uma obra que exalte a liberdade, a imaginação e a importância de se manter a criança interior sempre viva e alegre, independente da idade.

Cotação: * * * 1/2

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Filmes: "Maggie - A Transformação"

HORROR PSICOLÓGICO

Para quem procura algo fora do tradicional no gênero "apocalipse zumbi", esse filme é uma boa pedida

- por André Lux, crítico-spam

Esse "Maggie - A Transformação" está sendo analisado de forma errada pelos críticos, como se fosse um filme do Schwarzenegger que fracassou, apesar da presença do astro veterano. Na verdade, é o contrário: só está gerando algum tipo de interesses devido à presença dele. Merece ser louvada a tentativa do eterno "Exterminador do Futuro" de escolher projetos diferentes e mais pesados, ao invés de ficar batendo só na mesma tecla.

Afinal, trata-se de um terror sobre um apocalipse zumbi que foge do convencional do gênero. Ou seja, é terror psicológico, daqueles em que as situações que geram horror e suspense são muito mais sugeridas do que realmente mostradas e o foco fica em cima dos dramas pessoais dos personagens atingidos pelas tragédias. Lembra bastante o excelente "Deixe-me Entrar" (a refilmagem estadunidense, que é bem melhor que o original).

Arnold faz com seu carisma de sempre (embora o sotaque não tenha melhorado quase nada) o papel de um fazendeiro que vai atrás da filha que foi mordida por um zumbi. Ao levá-la de volta para casa, apenas uma certeza existe: ela está infectada e irremediavelmente se tornará um monstro comedor de carne humana. Uma situação terrível e sem saída que é conduzida com habilidade e sensibilidade pelo diretor Henry Hobson.

Há apenas uma cena de ataque de zumbis tradicional, mas mesmo assim é curta e não muito violenta. A violência fica muito mais implícita durante todo o filme, em cenas dramáticas que enfatizam a a inevitabilidade da transformação da menina, feita pela sempre excelente Abigail Breslin, de "A Pequena Miss Sunshine". 

Em uma das sequências mais tristes, ela reencontra seu namorado adolescente, que também está infectado e logo em seguida é entregue pelo próprio pai à polícia. Em outra cena marcante, a menina começa a sentir cheiro de "comida" ao se aproximar da madrasta (Joely Richardson), que descobre apavorada que a comida no caso era ela mesma.

Eu só não gostei muito do final, que é anti-climático e acaba evitando o que deveria ser o confronto mais forte do filme. Não que seja incoerente ou forçado, apenas dá uma solução muito fácil para o dilema terrível enfrentado pelo pai.

Enfim, para quem procura algo fora do tradicional no gênero horror, esse é uma boa pedida.

Cotação: * * *

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Filmes: "Divertida Mente"

ESTUDO SOBRE A DEPRESSÃO

Animação da Pixar comprova que pode existir vida inteligente mesmo dentro da indústria cultural estadunidense

- por André Lux, crítico-spam

“Divertida Mente” é provavelmente a obra-prima da Pixar. O mais interessante é que a nova animação do estúdio parecia, pelos trailers, um tremendo erro. Afinal, que história era aquela de representar as emoções humanas com personagens cômicos em uma sala de controle?

O filme, porém, é uma grata surpresa, muito criativo, bonito, bem dirigido (pelo mesmo sujeito que fez “Monstros S.A.” em parceria com o diretor de "UP: Altas Aventuras"), engraçado e ainda por cima educativo. 

Pais inteligentes e antenados em psicologia certamente vão encontrar nele mil maneiras de usar os personagens Alegria, Tristeza, Raiva, Nojo e Medo de maneira positiva na educação dos filhos (claro que sempre deixando claro pra eles que somos nós que estamos no controle das emoções e não contrário!).

O mais interessante é que “Divertida Mente” acaba sendo um estudo da Depressão, doença silenciosa que vitima milhares de pessoas e que é muito difícil de diagnosticar e tratar. Quando a menina Riley perde a Alegria e a Tristeza, que são sugadas para fora da sala de controle, passa a apresentar alguns dos clássicos sinais de Depressão: irritabilidade, desânimo, ansiedade, apatia, entre outros.

O filme retrata com perfeição também o perigo que é uma pessoa tomar decisões importantes com esse quadro e dominada pela Raiva ou pelo Medo, além das graves consequências que isso pode causar não só para ela, mas também para todos que estão em volta – especialmente os familiares.

 Claro que tudo isso não vai fazer muita diferença para quem não está minimamente ligado no assunto. Mas para o resto dos mortais o filme funciona mesmo assim graças a um roteiro muito bem escrito, repleto de tiradas cômicas na hora certa, comentários ácidos sobre a eterna “guerra dos sexos”, exploração das criaturas terríveis que habitam o subconsciente e dos sonhos e delírios que habitam a mente das crianças. É particularmente tocante o destino do Bing Bong, o amigo imaginário da pequena Riley, que é uma mistura de elefante, gato e algodão doce.

Embalado por uma trilha musical deliciosa composta pelo esforçado Michael Giacchino (o tema principal é simplesmente contagiante), “Divertida Mente” comprova que pode existir vida inteligente mesmo dentro da indústria cultural estadunidense. Imperdível!

Cotação: * * * * *