MACACO INTELIGENTE
De vez em quando o cinemão estadunidense lança, no meio da enxurrada de lixo, um filme decente
- por André Lux, crítico-spam
De vez em quando o cinemão comercial estadunidense dá sinais de vida inteligente e lança, no meio da enxurrada do lixo enlatado que despeja nos cinemas, um filme decente, bem dirigido, com roteiro coerente e humano e técnica exemplar usada a favor da história a ser contatada.
O mais irônico é que, na leva recente, os melhores exemplares acabaram sendo dois filmes que não tinham os humanos como protagonistas. O primeiro sendo o novo "Godzilla" e o outro é esse "Planeta dos Macacos: O Confronto".
É até difícil classificar o filme, já que ele é uma continuação de "Planeta dos Macacos: A Origem", que era um prólogo para o clássico de 1968, com Charleton Heston, mas ao mesmo tempo uma espécie de refilmagem de uma das continuações daquele filme, "A Conquista do Planeta dos Macacos". Enfim, é tanto prólogo, continuação e refilmagem atualmente em Róliúdi que é melhor nem tentar entender.
"Planeta dos Macacos: O Confronto" é muito superior ao outro filme de 2011, o qual nem precisa ser visto para que se possa seguir o novo. Basta saber que um vírus criado em laboratório, e que deu origem a macacos inteligentes, devasta a raça humana, acabando com a civilização e deixando poucos sobreviventes (isso é resumido logo no prólogo).
O filme é dirigido com muita segurança por Matt Reeves, que fez os ótimos "Cloverfield - Monstro" e "Deixe-me Entrar". Trata-se de um cineasta de verdade, que sabe enquadrar as cenas com carinho a fim de gerar um efeito dramático verdadeiro e evita com maestria aqueles exageros que emporcalham cada vez mais os filmes comerciais estadunidenses.
Nem mesmo as cenas de ação, tiros e lutas descambam para a histeria e são mantidas pelo diretor na medida certa, deixando tudo real e verossímil. Os efeitos visuais impressionam e os astros, lógico, acabam sendo os macacos feitos em computação gráfica, ricos em expressão e detalhes (o líder Cesar é feito pelo mesmo Andy Serkis que foi o Gollum em "O Senhor dos Anéis" e agora é chamado para tudo quanto é filme).
Vale destacar também a música composta por Michael Giacchino (dos novos "Star Trek"), que é hoje um dos poucos compositores atuando em Róliúdi que tem coragem de peitar o "estilo" simplório e bombástico inventado pelo abominável Hans Zimmer e que todo mundo é praticamente obrigado a copiar em todo e qualquer filme de ação ou ficção científica atual.
O maior ponto fraco do filme é justamente os personagens humanos, que acabam sendo pouco mais do que caricaturas, já que a maior parte do tempo de projeção é investido no aprofundamento dos sentimentos e relações entre os macacos. Não é algo que chegue a incomodar, mas também impede que a conclusão seja mais forte.
O mais importante, contudo, é a mensagem do novo "Planeta dos Macacos", que é muito bem conduzida até o desfecho e mostra que realmente nada de bom advém de sentimentos podres como o ódio, o racismo e a intolerância.
Chega a ser comovente a transformação que sofre o protagonista César, ao se deparar com traições dento de sua própria casa.
O fato de ainda serem necessários que filmes com mensagens desse tipo tenham que ser produzidos mostra bem o quanto a humanidade ainda está longe de chegar à um estado mais evoluído, tanto ético quanto moralmente.
Infelizmente, parece que vai ser mais fácil a gente se aniquilar em guerras e disputas mesquinhas do que atingir um patamar mais elevado. Quem viver, verá...
Cotação: * * * *
Postagem em destaque
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sexta-feira, 25 de julho de 2014
terça-feira, 17 de junho de 2014
quarta-feira, 4 de junho de 2014
Filmes: "No Limite do Amanhã"
MARMOTA VERSUS ALIENS
Filme se perde num roteiro tolo, direção burocrática e desenho de produção sem graça
- por André Lux, crítico-spam
Você se lembra daquela comédia "Feitiço do Tempo" (ou "Groundhog Day", o Dia da Marmota) em que o Bill Murray fica preso num redemoinho temporal, revivendo o mesmo dia sem parar? Agora, troque o Bill Murray pelo Tom Cruise e a marmota por um monte de aliens malvados e, pronto: nasce esse "No Limite do Amanhã".
Mas não se trata de uma comédia, embora ele tenha sim alguns momentos que tentam fazer rir (quase todos envolvendo o milico feito por Bill Paxton, de "Aliens"), mas de uma ficção científica que fala sobre mais uma invasão alienígena que quer acabar com a raça humana e conquistar a Terra.
Não é um filme ruim, mas confesso que, mesmo sendo razoavelmente bem dirigido pelo sujeito que fez os filmes do Jason Bourne, não conseguiu prender muito a atenção nem produzir suspense.
Apesar do roteiro se esforçar em gerar algum carga emocional, o filme falha em alguns pontos que seriam primordiais para isso. Começa com o ridículo da situação de desejarem mandar o personagem de Cruise para o meio do campo de batalha, sendo que ele é apenas um oficial burocrata que cuida do marketing do exército. Pra que isso? Se ainda houvesse uma justificativa que estivesse ligada à trama, tudo bem. Mas não, é pura barra forçada só para ter um soldado sem qualquer preparo e que depois vai se tornar um "super-ninja".
Depois, o desenho das criaturas é muito ruim e lembram demais as lulas de Matrix, mas sem qualquer personalidade ou voz. Além disso, as cenas de guerra são fracas, picotadas, corridas, mal dá pra gente ver direito o que está acontecendo. O pelotão do qual Cruise acaba fazendo parte tem participação importante no final, mas erraram feio na escolha dos atores e nenhum chega a marcar, impedindo que a gente se importe com o destino deles.
A história da volta no tempo poderia até ser interessante, mas tudo é estragado por explicações didáticas imbecis. Chegam ao cúmulo de ter uma cena ridícula onde um dos personagens explica tudo que está acontecendo inclusive com desenhos holográficos, alguns deles sem o menor sentido de existirem, já que ninguém viu as tais criaturas que ele descreve!
E como é que com um poder daqueles, herdado diretamente dos invasores, não vão direto para o comando? Ah, tá, a heroína avisa que se ele fizer isso vão mandá-lo para um hospício ou para dissecação!
Só que logo depois eles não vão até o general e conseguem convencê-lo a dar um item que precisavam? Obviamente, com Cruise podendo voltar no tempo o tanto quanto queira, seria fácil para eles convencerem as autoridades de que falavam sério.
Enfim, esse é aquele típico produto que até poderia render um bom filme de ação e ficção, mas que se perde num roteiro tolo, direção burocrática e desenho de produção sem graça. Sem falar da música que, claro, é mais uma que vem na esteira do lixo produzido pelo abominável Hans Zimmer e está presente agora em todos os filmes de aventura - tem até a bendita "Buzina do Inferno" que o picareta inventou para "A Origem" e mais parece aquele som irritante das vuvuzelas!
A melhor coisa do filme acaba sendo justamente a presença de Tom Cruise que, aos 52 anos, amadureceu bem e perdeu aquela cara de "mauricinho intragável" que usava em tudo quanto era filme. Ficou até carismático, acredite se quiser. A bela Emily Blunt (de "O Diabo Veste Prada") tenta mudar de perfil na pele de uma guerreira poderosa que detona os aliens usando uma clava, mas no final das contas fica parecida demais com a soldado Calhun da animação "Detona Ralph" para ser levada a sério.
Entre mortos e feridos até dá para assistir, mas acaba sendo uma decepção.
Cotação: * * 1/2
Filme se perde num roteiro tolo, direção burocrática e desenho de produção sem graça
- por André Lux, crítico-spam
Você se lembra daquela comédia "Feitiço do Tempo" (ou "Groundhog Day", o Dia da Marmota) em que o Bill Murray fica preso num redemoinho temporal, revivendo o mesmo dia sem parar? Agora, troque o Bill Murray pelo Tom Cruise e a marmota por um monte de aliens malvados e, pronto: nasce esse "No Limite do Amanhã".
Mas não se trata de uma comédia, embora ele tenha sim alguns momentos que tentam fazer rir (quase todos envolvendo o milico feito por Bill Paxton, de "Aliens"), mas de uma ficção científica que fala sobre mais uma invasão alienígena que quer acabar com a raça humana e conquistar a Terra.
Não é um filme ruim, mas confesso que, mesmo sendo razoavelmente bem dirigido pelo sujeito que fez os filmes do Jason Bourne, não conseguiu prender muito a atenção nem produzir suspense.
Apesar do roteiro se esforçar em gerar algum carga emocional, o filme falha em alguns pontos que seriam primordiais para isso. Começa com o ridículo da situação de desejarem mandar o personagem de Cruise para o meio do campo de batalha, sendo que ele é apenas um oficial burocrata que cuida do marketing do exército. Pra que isso? Se ainda houvesse uma justificativa que estivesse ligada à trama, tudo bem. Mas não, é pura barra forçada só para ter um soldado sem qualquer preparo e que depois vai se tornar um "super-ninja".
Depois, o desenho das criaturas é muito ruim e lembram demais as lulas de Matrix, mas sem qualquer personalidade ou voz. Além disso, as cenas de guerra são fracas, picotadas, corridas, mal dá pra gente ver direito o que está acontecendo. O pelotão do qual Cruise acaba fazendo parte tem participação importante no final, mas erraram feio na escolha dos atores e nenhum chega a marcar, impedindo que a gente se importe com o destino deles.
A história da volta no tempo poderia até ser interessante, mas tudo é estragado por explicações didáticas imbecis. Chegam ao cúmulo de ter uma cena ridícula onde um dos personagens explica tudo que está acontecendo inclusive com desenhos holográficos, alguns deles sem o menor sentido de existirem, já que ninguém viu as tais criaturas que ele descreve!
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| Aquela cena que explica tudo nos mínimos detalhes, no caso de você ser burro |
Só que logo depois eles não vão até o general e conseguem convencê-lo a dar um item que precisavam? Obviamente, com Cruise podendo voltar no tempo o tanto quanto queira, seria fácil para eles convencerem as autoridades de que falavam sério.
Enfim, esse é aquele típico produto que até poderia render um bom filme de ação e ficção, mas que se perde num roteiro tolo, direção burocrática e desenho de produção sem graça. Sem falar da música que, claro, é mais uma que vem na esteira do lixo produzido pelo abominável Hans Zimmer e está presente agora em todos os filmes de aventura - tem até a bendita "Buzina do Inferno" que o picareta inventou para "A Origem" e mais parece aquele som irritante das vuvuzelas!
A melhor coisa do filme acaba sendo justamente a presença de Tom Cruise que, aos 52 anos, amadureceu bem e perdeu aquela cara de "mauricinho intragável" que usava em tudo quanto era filme. Ficou até carismático, acredite se quiser. A bela Emily Blunt (de "O Diabo Veste Prada") tenta mudar de perfil na pele de uma guerreira poderosa que detona os aliens usando uma clava, mas no final das contas fica parecida demais com a soldado Calhun da animação "Detona Ralph" para ser levada a sério.
Entre mortos e feridos até dá para assistir, mas acaba sendo uma decepção.
Cotação: * * 1/2
terça-feira, 27 de maio de 2014
Filmes: "X-Men: Dias de um Futuro Esquecido"
QUEIJO SUÍÇO
Se você conseguir desligar o cérebro e esquecer que existiram outros filmes dos X-Men, pode até ser que goste desse novo filme
- por André Lux, crítico-spam
Gostei muito do primeiro “X-Men”, que foi feito meio às pressas e com um
orçamento pequeno para o gênero, fatores que obrigaram o diretor Brian Singer
(do ótimo “Os Suspeitos”) a buscar saídas inteligentes para esconder a falta de
dinheiro e a focar no desenvolvimento dos personagens, algo raro nesse tipo de
produto.
O filme explorou também com maestria a praga do racismo e do preconceito
que infesta a raça humana, colocando os mutantes como alvo desse tipo de
sentimento, algo que só enriqueceu a trama.
Como fez sucesso, duas continuações e dois filmes solo com o Wolverine vieram e foram progressivamente piores. Como não sabiam mais o que fazer com os personagens originais, decidiram então gerar um daqueles infames prólogos, que mexem com eventos anteriores aos mostrados nos filmes que deram origem à série.
Como fez sucesso, duas continuações e dois filmes solo com o Wolverine vieram e foram progressivamente piores. Como não sabiam mais o que fazer com os personagens originais, decidiram então gerar um daqueles infames prólogos, que mexem com eventos anteriores aos mostrados nos filmes que deram origem à série.
Nasceu então “X-Men: Primeira Classe”, que embora não seja desastroso, não
chega aos pés do primeiro filme e ainda por cima bagunçava a mitologia
apresentada no início (como sempre fazem esses benditos “prequels”).
Chega agora “X-Men: Dias de um Futuro Esquecido” que tenta ser uma
continuação de todos os filmes mostrados anteriormente, inclusive dos do
“Wolverine”, ao mesmo tempo que não deixa de ser também um prólogo de tudo que
já foi mostrado.
Entendeu? Nem eu.
Não preciso nem dizer que o filme faz pouco sentido e para tentar costurar
essa colcha de retalhos imensa apelam para o velho clichê de mandar um dos
personagens de volta no tempo, no caso o mesmo Wolverine de sempre que, apesar
de participar do filme todo, quase nada faz (e nem usar suas famosas garras
metálicas pode, pois volta para quando ainda não havia sido fundido com
adamantium).
O filme começa no futuro, quando os mutantes estão à beira da extinção
pelas mãos de indestrutíveis robôs criados por um cientista malvado (feito por
Peter Dinklage, o anão de “Games of Thrones”, que é desperdiçado num papel tolo)
a partir de DNA dos próprios X-Men. A solução inventada pelo Professor X
(Patrick Stewart) e Magneto (Ian McKellen) é então mandar alguém para uma época
que foi crucial para a produção desses “sentinelas”, no caso 1973.
E a pílula mais difícil de engolir é que a personagem mais importante acaba
sendo a Mística que virou meia-irmã do Professor X no “Primeira Classe” e é a
chave para os eventos catastróficos do futuro. Essa nova leitura da personagem é
bem ridícula, já que nos filmes originais ela não passava de uma capanga boazuda
do Magneto sem maior importância. Agora, do nada, vira a perseguida e amada por
todas.
O roteiro é também cheio de furos, o maior deles sendo que simplesmente não
existia tecnologia em 1973 para fazer aqueles robôs e, se levarmos em conta a
cronologia da saga X-Men, levou algo em torno de 50 anos para que as versões
finais dos “sentinelas” fossem finalmente colocadas em ação! E como é que o
Magneto fez para controlá-los no final? Tudo bem que ele enfiou metal dentro,
mas isso no máximo os tornaria marionetes dele, não?
E desde quando a Kitty Pryde consegue mandar “mentes de volta no tempo”? E
como é que a "ameaça" mutante só começa a se fazer presente no começo do
primeiro "X-Men" se lá em 1973 já estavam todos falando deles abertamente e até
foram capazes de prender o Magneto por suspeita de matar o JFK?
Assim como em “Primeira Classe”, a melhor coisa do filme acaba sendo a
dupla de atores que interpretam os jovens Professor X e Magneto, feitos por
James McAvoy e Michael Fassbender. Embora, verdade seja dita, a maneira como são
mostrados na época dos eventos é muito forçada, principalmente o Professor X,
que inclusive descobre a cura para a paralisia e depois a esquece.
Não dá pra deixar passar batido o fato de que ele havia sido literalmente
desintegrado no final do terceiro filme, mas volta milagrosamente à vida, com o
corpo original e tudo, sem que ninguém nem tente esclarecer como isso foi
possível (e, sim, eu vi a ceninha no final do “Confronto Final” que mostra ele
reencarnando na mente de uma mulher em coma. E daí?).
Tem muitos outros furos imensos na trama e contradições com tudo que foi
mostrado antes, então vou parar por aqui para não me estender.
Um ponto que sempre me incomodou na saga dos X-Men no cinema é que foram
incapazes de dar aos filmes uma identidade musical coerente através deles. Cada
um teve a música composta por diferentes compositores que ignoraram
completamente o trabalho de quem veio antes. As únicas exceções foram o 2 e esse
novo, ambos com música composta John Ottman (que também é o montador), o qual
reusa o tema principal do segundo filme, embora a trilha seja fraca, cheia de
cacoetes inventados pelo abominável Hans Zimmer, como a ridícula "Sirene do
Inferno" que inventou para "A Origem" e agora é usado em todo santo filme para
identificar perigo.
Certamente minha crítica da a impressão que o filme é intragável, mas até
que da pra assistir, não chega a ser um desastre também. Consegue até ser um
pouco melhor que o "Primeira Classe". Mas, confesso, não consegui deixar de lado
todas as incongruências e furos no roteiro e isso estragou completamente
qualquer possibilidade de maior engajamento.
A melhor cena acaba sendo quando assistimos a ação do jovem Quicksilver
pelo seu ponto de vista. O que levanta outra questão: por que diabos não o
levaram junto para o resto da missão? Certamente ele teria ajudado e
muito...
Ah, deixa prá lá! Quanto mais eu penso, pior fica. Se você conseguir desligar o cérebro e esquecer que
existiram outros filmes dos X-Men, pode até ser que goste desse verdadeiro
queijo suíço.
Cotação: * * 1/2
quinta-feira, 22 de maio de 2014
Filmes: "Godzilla" (2014)
MONSTROS & ARTE
Quem se livrar de preconceitos e abrir a mente para outro tipo de aproximação ao personagem clássico, certamente vai gostar e muito.
- por André Lux, crítico-spam
Confesso que não dei a menor bola quando fiquei sabendo que Róliudi ia produzir mais uma versão do monstro "Godzilla" para os cinemas. Até porque estou entre aqueles que não acharam tão ruim a divertida e estúpida versão de 1998, feita por Roland Emmerich na esteira do sucesso do seu "Independence Day".
Mas o novo filme entrou no meu radar quando descobri que foi dirigido por Gareth Edwards, cujo filme de estréia, "Monstros", me agradou bastante. Era um filme quase artesanal, feito com um micro orçamento, mas que surpreendia pela forma inusitada de contar uma história que em outras mãos transbordaria de clichês e cenas idiotas.
Indo na contramão, Edwards transformou um filme sobre uma infestação alienígena na fronteira entre os EUA e o México numa interessante reflexão sobre a pequenez e a impotência do ser humano frente a poderosas e indomáveis forças da natureza. E isso ainda misturado a um comentário político pertinente.
Entra então "Godzilla", que eu me atrevo a dizer que é o primeiro grande filme de arte sobre monstros. Os realizadores procuram fugir do "feijão com arroz" de sempre, tipo "monstro nervoso destruindo tudo enquanto é atacado pelo exército até ser morto no final", e o novo filme da cultuada criatura japonesa tem, pasmem, uma história habilmente desenvolvida nas mãos do diretor Edwards, que se esmera em apresentar os personagens e criar clima até a apoteose de destruição no final.
Mas, muito diferente do que vemos atualmente nos chamados "arrasa-quarteirões" produzidos em massa pelos EUA, o novo "Godzilla" não aposta em cenas de ação incessantes, nem em excesso de efeitos visuais, mas em sutilezas e cenas construídas com esmero e excelente noção cinematográfica.
Inteligente, o diretor mostra muito pouco das criaturas nos dois primeiros atos do filme e, quando o faz, é sempre por meio do ponto de vista de algum dos personagens humanos, novamente reforçando, como em "Monstros", a nossa miudeza frente às forças da natureza, aqui representadas por duas criaturas gigantes que se alimentam de radiação e, claro, pelo próprio Godzilla, que é o predador natural delas e as caça durante todo o filme.
A trama é rebuscada e custa um pouco a engrenar, mas isso não atrapalha, pois permite que o foco fique em cima dos personagens humanos que não tem função de causar impacto aos acontecimentos, mas sim de sofrerem os impactos dela, aumentando assim o suspense e até o terror. Embora o terror aqui não seja do tipo "monstros dando sustos", mas sim aquele terror primordial que sentimos frente à iminência da morte causada por forças muito superiores à nossa.
O filme é tão contra a corrente que se até ao luxo de eliminar logo no começo dois personagens feitos por atores de peso que tinham tudo para serem os protagonistas. O que aumenta ainda mais a sensação de insegurança e suspense.
Há uma cena antológica quando soldados se jogam sobre a cidade coberta por nuvens de fumaça, bem em cima dos monstros que se digladiam, sob o ponto de vista dos paraquedistas ao som de "Requiem", de Ligeti (que também foi usada por Kubrick em "2001").
A trilha musical, por sinal, é uma das melhores que ouvi em um bom tempo. Composta pelo francês Alexandre Desplat é quase que totalmente atonal e bastante complexa, tanto na orquestração, quanto na execução. O que é uma lufada de ar fresco num meio que hoje é quase completamente dominado pelo lixo que o abominável Hans Zimmer "inventou".
O maior problema do filme acaba sendo justamente o seu nome, pois todos os outros filmes do Godzilla eram, de uma forma ou de outra, um besteirol trash sobre um monstro (geralmente um homem vestindo fantasia de borracha) detonando uma maquete e sendo atacado incansavelmente até o final óbvio.
Isso vai frustrar as expectativas de quem esperar que o novo filme siga a mesma toada e certamente vai gerar reações de ódio nos mais fanáticos. Mas quem se livrar de preconceitos e abrir a mente para outro tipo de aproximação, certamente vai gostar e muito. Esse é um dos raros filmes de grande orçamento feitos pela indústria cultural estadunidense que aposta na inteligência do espectador.
Cotação: * * * *
Quem se livrar de preconceitos e abrir a mente para outro tipo de aproximação ao personagem clássico, certamente vai gostar e muito.
- por André Lux, crítico-spam
Confesso que não dei a menor bola quando fiquei sabendo que Róliudi ia produzir mais uma versão do monstro "Godzilla" para os cinemas. Até porque estou entre aqueles que não acharam tão ruim a divertida e estúpida versão de 1998, feita por Roland Emmerich na esteira do sucesso do seu "Independence Day".
Mas o novo filme entrou no meu radar quando descobri que foi dirigido por Gareth Edwards, cujo filme de estréia, "Monstros", me agradou bastante. Era um filme quase artesanal, feito com um micro orçamento, mas que surpreendia pela forma inusitada de contar uma história que em outras mãos transbordaria de clichês e cenas idiotas.
Indo na contramão, Edwards transformou um filme sobre uma infestação alienígena na fronteira entre os EUA e o México numa interessante reflexão sobre a pequenez e a impotência do ser humano frente a poderosas e indomáveis forças da natureza. E isso ainda misturado a um comentário político pertinente.
Entra então "Godzilla", que eu me atrevo a dizer que é o primeiro grande filme de arte sobre monstros. Os realizadores procuram fugir do "feijão com arroz" de sempre, tipo "monstro nervoso destruindo tudo enquanto é atacado pelo exército até ser morto no final", e o novo filme da cultuada criatura japonesa tem, pasmem, uma história habilmente desenvolvida nas mãos do diretor Edwards, que se esmera em apresentar os personagens e criar clima até a apoteose de destruição no final.
Mas, muito diferente do que vemos atualmente nos chamados "arrasa-quarteirões" produzidos em massa pelos EUA, o novo "Godzilla" não aposta em cenas de ação incessantes, nem em excesso de efeitos visuais, mas em sutilezas e cenas construídas com esmero e excelente noção cinematográfica.
Inteligente, o diretor mostra muito pouco das criaturas nos dois primeiros atos do filme e, quando o faz, é sempre por meio do ponto de vista de algum dos personagens humanos, novamente reforçando, como em "Monstros", a nossa miudeza frente às forças da natureza, aqui representadas por duas criaturas gigantes que se alimentam de radiação e, claro, pelo próprio Godzilla, que é o predador natural delas e as caça durante todo o filme.
A trama é rebuscada e custa um pouco a engrenar, mas isso não atrapalha, pois permite que o foco fique em cima dos personagens humanos que não tem função de causar impacto aos acontecimentos, mas sim de sofrerem os impactos dela, aumentando assim o suspense e até o terror. Embora o terror aqui não seja do tipo "monstros dando sustos", mas sim aquele terror primordial que sentimos frente à iminência da morte causada por forças muito superiores à nossa.
O filme é tão contra a corrente que se até ao luxo de eliminar logo no começo dois personagens feitos por atores de peso que tinham tudo para serem os protagonistas. O que aumenta ainda mais a sensação de insegurança e suspense.
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| Cena dos paraquedistas é antológica |
Há uma cena antológica quando soldados se jogam sobre a cidade coberta por nuvens de fumaça, bem em cima dos monstros que se digladiam, sob o ponto de vista dos paraquedistas ao som de "Requiem", de Ligeti (que também foi usada por Kubrick em "2001").
A trilha musical, por sinal, é uma das melhores que ouvi em um bom tempo. Composta pelo francês Alexandre Desplat é quase que totalmente atonal e bastante complexa, tanto na orquestração, quanto na execução. O que é uma lufada de ar fresco num meio que hoje é quase completamente dominado pelo lixo que o abominável Hans Zimmer "inventou".
O maior problema do filme acaba sendo justamente o seu nome, pois todos os outros filmes do Godzilla eram, de uma forma ou de outra, um besteirol trash sobre um monstro (geralmente um homem vestindo fantasia de borracha) detonando uma maquete e sendo atacado incansavelmente até o final óbvio.
Isso vai frustrar as expectativas de quem esperar que o novo filme siga a mesma toada e certamente vai gerar reações de ódio nos mais fanáticos. Mas quem se livrar de preconceitos e abrir a mente para outro tipo de aproximação, certamente vai gostar e muito. Esse é um dos raros filmes de grande orçamento feitos pela indústria cultural estadunidense que aposta na inteligência do espectador.
Cotação: * * * *
terça-feira, 13 de maio de 2014
Morre ao 74 anos H.R. Giger, o criador do "Alien"
Morreu nesta terça-feira (13), o artista plástico suíço H. R. Giger, que ficou famoso no mundo todo graças ao terrível monstro que criou para o filme "Alien, o Oitavo Passageiro", dirigido por Ridley Scott em 1979. Segundo a imprensa suíça, Giger caiu de uma escada e não resistiu aos ferimentos, falecendo aos 74 anos.
Nascido em 5 de Fevereiro de 1940, na pequena Chur (Suíça), Hans Rudi Giger começou a mostrar ainda na infância interesse pelo sexo e pelo lado mais escuro do ser humano, duas constantes em sua obra.
A partir de 1964, ano em que morava em Zurique e cursava a Escola de Artes e Ofícios, começam a ser publicados seus primeiros trabalhos, em revistas contestatórias, como "Clou" e "Agitation" e em jornais locais.
A partir de 1964, ano em que morava em Zurique e cursava a Escola de Artes e Ofícios, começam a ser publicados seus primeiros trabalhos, em revistas contestatórias, como "Clou" e "Agitation" e em jornais locais.
Entretanto, foi só a partir de 1979, depois de muitas exposições, publicações e de uma tentativa frustrada de Alejandro Jodorowsky em adaptar o livro "Duna" para o cinema, que seu trabalho passou a ser conhecido do grande público.
Tudo isso graças à criatura que criou para o filme ''Alien: O Oitavo Passageiro'', fotografada magistralmente por Ridley Scott, que assustou os freqüentadores do cinema de tal maneira que tornou o filme um dos maiores sucessos daquele ano.
Giger embarcou na produção de "Alien" depois que os realizadores tiveram contato com seu livro de ilustrações ''Necronomicon''.
"Alien" rendeu ao artista suíço um merecido prêmio Oscar de Efeitos Visuais da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas e o reconhecimento mundial do público à sua obra.
Giger encarava suas obras como uma espécie de terapia contra seus medos e pesadelos. "Eu venho tendo sempre os mesmo sonhos, e são pesadelos. Eles são terríveis", conta. "Mas eu descobri que quando faço desenhos sobre eles, os sonhos vão embora. Eu me sinto muito melhor. É uma espécie de auto-psicanálise", conclui.
Sua figura e seu jeito estranho de ser, todavia, continuaram a intrigar as pessoas. "Quando Giger começou a trabalhar em 'Alien', ele foi até a secretária de produção e disse: 'Eu quero ossos'", conta um dos membros da equipe. "Então, você entrava no seu estúdio e via aquele cara parecendo o conde Drácula, vestido todo em couro preto, com seu cabelo escuro, pele muito branca e olhos brilhantes, cercado por uma sala repleta de ossos e esqueletos. Era assustador!"
"Um dia, durante as filmagens de 'Alien', fizemos um picnic e todos tiraram as camisas. Exceto Giger. E todo mundo tentou fazê-lo tirar suas roupas, mas ele não o faria", conta o roteirista Dan O'Bannon. "Entenda, eu não acho que ele se atreveria a tirar aquelas roupas, porque se o fizesse todos veriam que ele não é humano. Ele é um personagem de uma estória de H.P. Lovecraft..."
Giger trabalhou também no design de produção de filmes como ''Poltergeist 2: O Outro Lado'', ''A Experiência'', ''The Killer Condom'' (literalmente ''A Camisinha Assassina'', filme trash inédito por aqui) e ''Alien 3'', embora nenhum tenha tido o mesmo impacto ou sucesso do primeiro ''Alien: O Oitavo Passageiro''.
Visite o site oficial do artista.
quarta-feira, 7 de maio de 2014
Filmes: "Capitão América 2: O Soldado Invernal"
POLITIZADO E SINCEROO grande vilão do filme é a medida que visa tirar a privacidade das pessoas em nome da ladainha da "defesa da liberdade"
- por André Lux, crítico-spam
Como eu havia dito em minha crítica ao primeiro filme, tinha tudo para dar errado mais esta adaptação de um super-herói da Marvel, a começar pelo nome "Capitão América", que evoca as piores bravatas patrióticas pelas quais os estadunidenses são famosos.
Mas, incrível: conseguiram não apenas fazer um bom filme com o personagem, mas dois! Seguindo a toada do primeiro filme, "Capitão América 2: O Soldado Invernal" também vai contra a corrente do que normalmente seria um filme desse tipo e aborda questões realmente relevantes e atuais em seu enredo, fugindo de maneira inteligente de patriotadas ridículas.
Assim, o grande vilão do filme é justamente a medida que visa tirar a privacidade das pessoas em nome da velha ladainha da "defesa da liberdade", algo que parece bonito no papel, mas que pode (e é) usado para simplesmente perseguir quem pensa diferente do que é aceito pelo sistema. Em tempos de espionagem irrestrita feita pelo governo dos EUA, principalmente no mundo virtual, e contínua restrição de liberdades esse é um debate dos mais pertinentes.
E o politizado e sincero Capitão América representa no filme a luta pela preservação dos direitos humanos contra a máquina de moer gente que deseja enfiar goela abaixo da população mundial o "american way of life". Os realizadores acertam também ao colocar um famoso libertário como Rorbert Redford justamente no papel do vilão - e o ator se deita e rola fazendo o personagem.
Claro que nem tudo são flores. O tal Soldado Invernal que dá subtítulo ao filme, acaba sendo muito fraco e não acrescenta nada, nem quando descobrimos sua verdadeira identidade. A cena em que tentam matar o Nick Fury (Samuel L. Jackson) é exagerada e sem lógica, afinal se queriam simplesmente eliminá-lo, bastaria lançar um míssil contra o carro dele e pronto!
Não faltam também ao filme as cenas de ação, tiros e pancadarias, típicas desse tipo de produto, que quase sempre são tão grandiosas, quanto inúteis. Sem dizer que de vez em quando o Capitão América fica mais para Superman, principalmente quado é atingido por uma bomba e sai voando de cima de um ponte até se esborrachar num ônibus.
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| O libertário Redford diverte-se como o vilão |
A trilha musical, que foi tão boa no primeiro filme graças ao talento do compositor Alan Silvestri, acabou nas mãos de um dos inúmeros clones do abominável Hans Zimmer e, embora não chegue a incomodar, também não ajuda em nada.
Entre mortos e feridos, ambos os filmes do Capitão América acabam tendo um saldo bastante positivo, principalmente por usar um viés tão, digamos, "esquerdista" em sua aproximação.
Sinceramente, não dá para esperar algo mais nobre de um filme de Roliúdi, ainda mais quando é baseado em um personagem de quadrinhos com nome tão duvidoso...
Cotação: * * * *
sábado, 8 de março de 2014
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
Filmes: "Robocop" (2014)
O CAPITÃO NASCIMENTO DO FUTURO
Até esse filme, não conseguia decidir se o cineasta José Padilha era apenas um inocente útil ou um canalha mesmo. Agora eu sei.
Até esse filme, não conseguia decidir se o cineasta José Padilha era apenas um inocente útil ou um canalha mesmo. Agora eu sei.
- por André Lux, crítico-spam
Esse novo “Robocop” não chega a ser um filme ruim, tecnicamente falando (exceto a trilha musical, que é lamentável - leia aqui minha análise dela). É
muito bem feito, tem excelentes atores e consegue manter o interesse nos dois
primeiros terços da projeção.
O problema mesmo é o terceiro ato, que joga tudo
que foi mostrado antes para o alto e descamba para os clichês mais imbecis do
cinema de ação made in USA. Mas o que implode mesmo o filme é a mensagem
fascista que a obra transmite.
Eu vou ser sincero: até ver esse filme, não conseguia decidir se o cineasta
José Padilha era apenas um inocente útil ou um canalha mesmo. Seu “Tropa de Elite”
é um dos filmes mais asquerosos já produzidos, do tipo que faria Adolf Hitler e
seus seguidores aplaudirem de pé (e como aplaudiram!).
Chamado de fascista por um grande número de
analistas, Padilha negou de pés juntos e aí fez o “Tropa de Elite 2”, que é uma
tentativa desesperada (e sem sucesso) de provar que não reza pela cartilha dos
nazi-fascistas. Mas, diabos, ele fez aquele excelente documentário “Ônibus 174”
que era uma defesa valorosa dos direitos humanos!
Todavia, um cidadão que faz parte do Instituto Millenium (clique aqui para saber o que é isso, mas prepare o saco de vômito) e ganhou nada
menos do que TRÊS capas da revista Veja, o maior panfleto da extrema-direita tupiniquim, não pode bancar o inocente.
Então...
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| Diga-me com quem tu andas: Padilha é membro orgulhoso do Instituto Millenium |
Agora vem esse “Robocop”, refilmagem do original feito em 1987 pelo
holandês Paul Verhoeven que é considerado hoje um mini-clássico do gênero e este
sim uma forte bofetada na cara dos extremistas de direita. Na época, buscando
projetos para filmar nos EUA pela segunda vez (seu primeiro filme é o poderoso
“Conquista Sangrenta”, que quase ninguém viu), Verhoeven leu o roteiro de
“Robocop” e jogou de lado, desinteressado.
Alguns dias depois, sua esposa
perguntou a ele: “Não vai filmar a história do Jesus Cristo fascista”? E aí ele
releu o roteiro e, claro, sua mente fervilhou com ideias subversivas para jogar
na história e o resultado já é bem conhecido.
O que era para ser apenas um filminho de ação feito com míseros US$ 17 milhões (uma ninharia para se fazer um filme de ficção científica) sobre um Frankstein
robótico dando tiros e sopapos, tornou-se uma das obras mais ácidas da história
do cinema, lembrada até hoje com carinho pelos fãs que, sim, percebem claramente
a crítica feroz a tudo que existe de errado na civilização ocidental liderada
pelos EUA (naquela Detroit futurista, até a polícia havia sido privatizada).
O que torna o filme de Verhoeven tão fora de série dentro do gênero é
exatamente a subversão que faz dos clichês. Assim, não existem mocinhos e
bandidos no filme. Todo mundo é meio podre, esquisito, problemático, neurótico,
aproveitador. Pegue o sujeito que criou o Robocop.
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| Se Veja elogia, boa coisa não pode ser |
Já no filme do Verhoeven, o cara é um tremendo almofadinha,
que só quer saber de subir na empresa às custas do seu projeto e é morto pelo
vilão no meio de uma orgia com prostitutas e cocaína (nada contra as
prostitutas, muito pelo contrário).
Eu lembro perfeitamente como esse tipo de subversão, pequena é verdade, é
eficiente em acionar partes dormentes do cérebro, justamente por ser algo tão
fora do padrão. Ou seja, é o tipo de artifício sutil que te faz pensar e
questionar coisas que normalmente você não questionaria.
Enfim, é impossível não comparar as duas obras e, claro, a nova versão
dirigida pelo Padilha perde feio. Primeiro, porque o brasileiro não é chegado em
sutilezas. Filma tudo com mão pesada e marreta suas supostas mensagens com a
delicadeza de um rinoceronte com dor de dente.
Assim, como todo bom fascista,
Padilha finge criticar e ironizar as manias de grandeza dos EUA e sua sociedade
do consumo colocando tudo isso nas costas dos dois vilões principais do filme: o
dono da corporação que produz o Robocop e manda na polícia (Michael Keaton, péssimo como sempre) e no apresentador de
TV ultra-reacionário interpretado por Samuel L. Jackson, que não deveria se prestar a esse tipo de besteira (as cenas com ele são as piores do filme).
São aqueles tipo de vilões extremamente caricatos que a gente vê todos os
dias nos filmes enlatados dos EUA, que fazem maldades simplesmente porque... são
maus e sabem que são maus. Isso é algo tão ridículo e longe da realidade, que
não causa o menor impacto ou reflexão. Simplesmente porque ninguém é mau, sabe
que é mau e gosta de fazer maldades, nem mesmo o Hitler.
O ser humano é por
demais complexo para esse tipo de reducionismo barato que é usado pelo cinema
estadunidense com maestria para entorpecer a mente dos espectadores enquanto as
VERDADEIRAS mensagens são passadas de maneira muito mais sutil e
subliminar.
No filme original, quando o Robocop vai prender o traficante psicopata
(notem, um doente mental, não uma caricatura), ele refreia no último instante
seu instinto de simplesmente esmagar o pescoço do seu executor lembrando que é
um POLICIAL, ou seja, alguém que tem como profissão o respeito às leis. Não
existe, na minha opinião, mensagem mais anti-fascista do que essa.
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| O Capitão Nascimento do Futuro, prendendo e arrebentando |
Já no novo filme, o herói invade a fábrica de drogas do vilão (que é mau,
sabe que é mau e gosta de fazer maldades) e simplesmente mata todo mundo, mesmo
quando obviamente não havia mais necessidade.
Ou seja, age como policial, juiz,
júri e executor. Faz justiça com as próprias mãos, dando uma banana para a lei e
a ordem, que ele teria como obrigação proteger, exatamente como o nefasto Capitão Nascimento dos "Tropa de Elite", naquela estilo "prendo e arrebento" tão comum durante a ditadura militar no Brasil. Coincidência. Só que não.
Falando agora apenas do filme em si, achei muito ruim a ideia de mostrar o
Robocop como uma pessoa normal já de cara, com todas suas memórias intactas. No
original, ele tem todas as memórias apagadas e é apenas uma máquina com algum
tecido humano, porém com o passar do tempo, suas emoções vão ressurgindo e com
elas as memórias, diminuindo a parte mecânica e aumentando a parte humana. Só na
cena final é que ele finalmente diz seu nome, reconhecendo que, afinal, é um
homem. Perfeito.
No novo filme, ele começa normal, depois tem as emoções retiradas, depois a
memória e, em menos de 10 minutos, volta ao normal de novo e pronto, parte
para a vingança. Assim, tirando esses poucos minutos em que realmente foi o
Robocop, no resto do filme ele não passa de uma versão em preto do “Homem de
Ferro”, só que com uma armadura colada eternamente ao corpo.
Esse vai e vem de memórias e sentimentos humanos até é bem utilizado nas primeiras duas partes, mas, como eu disse, é jogado para o alto no final e tudo vira mais uma daquelas intermináveis sequências de ação, tiro e luta que são obrigatórias em qualquer filme de Roliúdi nos últimos dez anos...
Esse vai e vem de memórias e sentimentos humanos até é bem utilizado nas primeiras duas partes, mas, como eu disse, é jogado para o alto no final e tudo vira mais uma daquelas intermináveis sequências de ação, tiro e luta que são obrigatórias em qualquer filme de Roliúdi nos últimos dez anos...
Já falei demais de um filme tão desprezível. Nem vale a pena. A não ser
para confirmar que José Padilha, definitivamente, de ingênuo não tem nada.
Cotação: *
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
Trilhas: "Robocop" (2014), por Pedro Bromfman
Brasileiro vai a Roliúdi imitar Hanzimmer
- por André Lux, crítico-spam
Não vi o novo "Robocop", dirigido pelo queridinho da revista Veja José Padilha, mas a trilha composta pelo seu parceiro de "Tropa de Elite", Pedro Bromfman, eu já ouvi e posso dizer: é um lixo.
É triste ver um brasileiro conseguindo a proeza de compor a partitura para um filme classe A de um grande estúdio estadunidense para simplesmente copiar o "estilo" do abominável Hanzimmer e seu exército de clones (alguns mais talentosos que o "mestre", diga-se de passagem!).
Mas, imagino que nem seja culpa do compositor, pois certamente foi obrigado a emular o "estilo" Zimmer de fazer trilhas para o cinema, que é a última moda hoje em Roliúdi. Afinal, deu certo nos filmes do "Batman", então é tudo que os adolescentes que lotam os cinemas hoje em dia querem ouvir, certamente imaginam os executivos dos estúdios.
Então, a trilha do novo "Robocop" é o resultado dos sons de uma grande orquestra, sintetizadores, percussão em loop e instrumentos de rock'n roll manipulados ao ponto de tudo parecer a mesma coisa, tocando aqueles manjados ostinatos que Zimmer utilizou em "Batman" e agora aparecem em todas as trilhas de filmes de ação estadunidense (a grande questão, todavia, é: será que Zimmer ao menos sabe o que ostinato significa?).
Solos pesados de violoncelos são usados em qualquer cena "dramática" e os metais explodem em grandes notas em uníssono nos momentos de perigo, no que os críticos passaram a chamar ironicamente de "As Buzinas da Perdição" (Horns of Doom) - ambos marcas registradas do abominável Zimmer.
O pior é quando Bromfman cita o tema clássico para o filme original, composto pelo grande Basil Poledouris, na faixa "Title Card", pois isso nos lembra o quanto aquela trilha era boa e perfeita para o filme e o quanto essa nova é ruim e absolutamente genérica.
O fato é que essa música poderia ser colocada para tocar em qualquer um desses filmes de ação produzidos nos EUA nos últimos 10 anos, tipo "Transformers" ou o novo "Fúria de Titãs", sem qualquer prejuízo, ninguém ia nem perceber a diferença.
É uma pena ver um brasileiro sendo obrigado a produzir uma música tão sem personalidade, ao ponto de soar burocrática e anônima. Enfim, mais um produto que mostra o quanto o cinemão comercial estadunidense decaiu e continua decaindo.
Cotação: *
- por André Lux, crítico-spam
Não vi o novo "Robocop", dirigido pelo queridinho da revista Veja José Padilha, mas a trilha composta pelo seu parceiro de "Tropa de Elite", Pedro Bromfman, eu já ouvi e posso dizer: é um lixo.
É triste ver um brasileiro conseguindo a proeza de compor a partitura para um filme classe A de um grande estúdio estadunidense para simplesmente copiar o "estilo" do abominável Hanzimmer e seu exército de clones (alguns mais talentosos que o "mestre", diga-se de passagem!).
Mas, imagino que nem seja culpa do compositor, pois certamente foi obrigado a emular o "estilo" Zimmer de fazer trilhas para o cinema, que é a última moda hoje em Roliúdi. Afinal, deu certo nos filmes do "Batman", então é tudo que os adolescentes que lotam os cinemas hoje em dia querem ouvir, certamente imaginam os executivos dos estúdios.
Então, a trilha do novo "Robocop" é o resultado dos sons de uma grande orquestra, sintetizadores, percussão em loop e instrumentos de rock'n roll manipulados ao ponto de tudo parecer a mesma coisa, tocando aqueles manjados ostinatos que Zimmer utilizou em "Batman" e agora aparecem em todas as trilhas de filmes de ação estadunidense (a grande questão, todavia, é: será que Zimmer ao menos sabe o que ostinato significa?).
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| Bromfman? Zimmer? Tanto faz |
O pior é quando Bromfman cita o tema clássico para o filme original, composto pelo grande Basil Poledouris, na faixa "Title Card", pois isso nos lembra o quanto aquela trilha era boa e perfeita para o filme e o quanto essa nova é ruim e absolutamente genérica.
O fato é que essa música poderia ser colocada para tocar em qualquer um desses filmes de ação produzidos nos EUA nos últimos 10 anos, tipo "Transformers" ou o novo "Fúria de Titãs", sem qualquer prejuízo, ninguém ia nem perceber a diferença.
É uma pena ver um brasileiro sendo obrigado a produzir uma música tão sem personalidade, ao ponto de soar burocrática e anônima. Enfim, mais um produto que mostra o quanto o cinemão comercial estadunidense decaiu e continua decaindo.
Cotação: *
A música de John Williams na Orquestra Sinfônica Brasileira
Homenagem ao compositor John Williams é uma das atrações da Temporada 2014 da Orquestra Sinfônica Brasileira.
Em agosto, no Rio e em São Paulo, sob regência deRoberto Minczuk, a OSB apresentará as trilhas sonoras de filmes como “Harry Poter e a Pedra Filosofal”, “Jurassic Park”, “E.T”, “Tubarão”, “Guerra nas Estrelas”, “Superman” e “A lista de Schindler”.
O lançamento oficial da Temporada 2014 acontecerá em 15 de março. E, no dia 18, iniciam-se as vendas de assinaturas para as séries no Rio (Theatro Municipal do Rio de Janeiro).
Acompanhe as notícias da Orquestra Sinfônica Brasileira pela página no facebook e também, em nosso site: http://osb.com.br/.
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
Homenagem ao mestre Jerry Goldsmith
Hoje, 10 de fevereiro, seria o 85º aniversário do grande mestre Jerry Goldsmith. Infelizmente, ele perdeu a batalha para o câncer em 2004. Abaixo, o texto que escrevi no momento que soube da sua morte.
O cinema nunca será o mesmo sem Jerry Goldsmith
A morte do genial compositor é como uma luz que se apaga para nunca mais ser acesa
- por André Lux
2004 foi um ano difícil para mim e, suponho, para qualquer pessoa que tenha crescido apreciando a boa música do cinema. Um dos maiores compositores de trilhas sonoras nos deixou: Jerry Goldsmith.
Confesso que nada me havia preparado para o choque de receber a notícia de que tão ilustre artista não estava mais entre nós.
No início a sensação era de incredulidade. Depois veio um sentimento amargo, deprimente, do tipo que se tem quando um bom e velho amigo deixa de viver. Mas como é possível sentir isso por uma pessoa que nunca havia sequer chegado perto? Como é possível ter sentimentos e laços tão profundos por alguém que jamais havia conhecido?
A resposta para essas perguntas só pode ser: a música que escrevia falava diretamente à minha alma. Era como se aquele senhor, ao escrever suas partituras, estivesse se comunicando diretamente comigo, num nível de intimidade que só pessoas realmente chegadas tem.
Afinal de contas eu cresci ouvindo a música dele e seria impossível não sofrer algum tipo de influência da sua imensa e grandiosa obra. No caso de Jerry Goldsmith, essa influência foi infinitamente maior, assim como a dor que senti ao saber que havia falecido.
Apesar de ter começado a tomar gosto pela música do cinema com John Williams e sua trilha para ''Star Wars'', foi Goldsmith quem realmente me fisgou para esse mundo com sua partitura majestosa para ''Jornada nas Estrelas - O Filme''.
Lembro até hoje do dia em que, com apenas 9 anos de idade, arrastei meu pai até uma loja de discos para comprar essa trilha, mas só conseguimos achá-la em fita Cassete, a qual ouvi durante a minha adolescência até o ponto em que ela simplesmente se desmanchou! Felizmente com o advento do CD, não corro o risco de ver isso acontecer novamente...
Daí por diante minha vida nunca mais foi a mesma. Enquanto meus amigos corriam para ouvir o novo álbum do Duran-Duran ou do U2, lá estava eu, como um verdadeiro (e orgulhoso!) nerd, ouvindo a nova trilha do maestro Jerry Goldsmith!
Nada mais engraçado do que chegar a uma rodinha de jovens que discutem música pop todos cheios de si e dizer que estava ouvindo em casa a trilha sonora de... ''Gremlins''! ''Como você é esquisito! De que planeta você é, cara??'', muitos me perguntavam.
Mas eu nunca liguei para esse rótulos e tampouco sentia necessidade de deixar de ouvir o que realmente gostava só para me enturmar ou ser aceito. A música daqueles sujeitos tocava tão a fundo que não havia a menor possibilidade de não ouvi-la mais.
É como dizem: uma vez fisgado, não tem mais volta. Mas é claro que esse gosto adquirido acaba se tornando algo solitário, afinal é muito difícil encontrar alguém que o compartilhe. Eu mesmo só fui encontrar outro colecionador de trilhas quando tinha 17 anos!
Penso que minha sorte foi ter conhecido a obra de Jerry Goldsmith bem cedo, pois sua música me abriu horizontes e me ajudou a passar pelos momentos mais difíceis, já que elas exprimiam com perfeição meus sentimentos e acabavam servindo como uma saudável catarse.
Ou seja: quando estava nervoso, era só colocar a trilha de ''O Vento e o Leão'' ou de ''O Vingador do Futuro'' e me imaginar regendo furiosamente aquela orquestra.
Quando sentia tristeza, bastava ouvir a ternura de ''A Ilha do Adeus'' para que meu coração voltasse a bater normalmente. Ao ter medo, nada melhor do que ouvir ''Alien: O Oitavo Passageiro'' ou ''Poltergeist'' para sentir na pele o que é o medo realmente. E assim por diante.
E Goldsmith, além de ser esse genial músico, era também uma pessoa maravilhosa. Tímido, arredio, humilde e sincero, era o tipo de profissional que levava seu trabalho muito a sério, mas que sensatamente jamais levou a si mesmo a sério a ponto de tornar-se arrogante, prepotente ou dono da verdade.
O que mais atraia os diretores em seu trabalho era sua capacidade de colocar-se à serviço do filme, sempre disposto a colaborar e melhorar seu trabalho caso não agradasse num primeiro momento - até mesmo de produções visivelmente trash, como "Leviathan" ou "O Enxame", só para citar dois exemplos.
Essas atitudes louváveis e tão raras podem ser percebidas claramente em todas as entrevistas que ele concedeu ou nos comentários que gravou para os DVDs cujos filmes musicou. E isso é confirmado também pelas pessoas que trabalharam com ele, por seus amigos e por seus familiares, como pudemos perceber nas homenagens que recebeu mundo afora pela ocasião de sua morte.
Na semana da morte do maestro, tive uma surpresa emocionante: recebi pelo correio uma cópia do documentário que Fred Karlin fez sobre Jerry Goldsmith, o qual eu já havia assistido mas não havia copiado. E que hoje tornou-se uma raridade. O presente me foi enviado por um amigo que conheci num desses fóruns de discussões da vida, que também estava sentindo a mesma dor que eu sentia.
Só mesmo um apreciador deste incrível compositor poderia fazer isso, assim de livre e espontânea vontade, sem pedir nada em troca. Ainda mais para alguém que nunca conheceu pessoalmente... Mais uma prova do poder de união e carinho que a música de Jerry pode ter sobre as pessoas!
A morte de Jerry Goldsmith é como uma luz que se apaga para nunca mais ser acesa. Uma perda insubstituível. Saber que nunca mais vou ao cinema só para curtir a nova trilha dele (e nunca vou perdoá-lo por ter me obrigado a ver bombas como ''A Múmia'', ''Rambo III'' ou ''A Soma de Todos os Medos''!) dá uma grande sensação de vazio.
A sétima arte perdeu um de seus mais talentosos e versáteis artistas. E o mundo perdeu uma das pessoas mais amáveis e honestas que por aqui já estiveram, que foi capaz de, com meras notas espalhadas por uma folha de papel, tocar o coração e a mente de tantas pessoas, no mundo inteiro.
Agora, se vocês me dão licença, vou voltar a ouvir o Tema de Amor de ''Chinatown'' e chorar um pouco...
O cinema nunca será o mesmo sem Jerry Goldsmith
A morte do genial compositor é como uma luz que se apaga para nunca mais ser acesa
- por André Lux
2004 foi um ano difícil para mim e, suponho, para qualquer pessoa que tenha crescido apreciando a boa música do cinema. Um dos maiores compositores de trilhas sonoras nos deixou: Jerry Goldsmith.
Confesso que nada me havia preparado para o choque de receber a notícia de que tão ilustre artista não estava mais entre nós.
No início a sensação era de incredulidade. Depois veio um sentimento amargo, deprimente, do tipo que se tem quando um bom e velho amigo deixa de viver. Mas como é possível sentir isso por uma pessoa que nunca havia sequer chegado perto? Como é possível ter sentimentos e laços tão profundos por alguém que jamais havia conhecido?
A resposta para essas perguntas só pode ser: a música que escrevia falava diretamente à minha alma. Era como se aquele senhor, ao escrever suas partituras, estivesse se comunicando diretamente comigo, num nível de intimidade que só pessoas realmente chegadas tem.
Afinal de contas eu cresci ouvindo a música dele e seria impossível não sofrer algum tipo de influência da sua imensa e grandiosa obra. No caso de Jerry Goldsmith, essa influência foi infinitamente maior, assim como a dor que senti ao saber que havia falecido.
Apesar de ter começado a tomar gosto pela música do cinema com John Williams e sua trilha para ''Star Wars'', foi Goldsmith quem realmente me fisgou para esse mundo com sua partitura majestosa para ''Jornada nas Estrelas - O Filme''.
Lembro até hoje do dia em que, com apenas 9 anos de idade, arrastei meu pai até uma loja de discos para comprar essa trilha, mas só conseguimos achá-la em fita Cassete, a qual ouvi durante a minha adolescência até o ponto em que ela simplesmente se desmanchou! Felizmente com o advento do CD, não corro o risco de ver isso acontecer novamente...
Daí por diante minha vida nunca mais foi a mesma. Enquanto meus amigos corriam para ouvir o novo álbum do Duran-Duran ou do U2, lá estava eu, como um verdadeiro (e orgulhoso!) nerd, ouvindo a nova trilha do maestro Jerry Goldsmith!
Nada mais engraçado do que chegar a uma rodinha de jovens que discutem música pop todos cheios de si e dizer que estava ouvindo em casa a trilha sonora de... ''Gremlins''! ''Como você é esquisito! De que planeta você é, cara??'', muitos me perguntavam.
Mas eu nunca liguei para esse rótulos e tampouco sentia necessidade de deixar de ouvir o que realmente gostava só para me enturmar ou ser aceito. A música daqueles sujeitos tocava tão a fundo que não havia a menor possibilidade de não ouvi-la mais.
É como dizem: uma vez fisgado, não tem mais volta. Mas é claro que esse gosto adquirido acaba se tornando algo solitário, afinal é muito difícil encontrar alguém que o compartilhe. Eu mesmo só fui encontrar outro colecionador de trilhas quando tinha 17 anos!
Penso que minha sorte foi ter conhecido a obra de Jerry Goldsmith bem cedo, pois sua música me abriu horizontes e me ajudou a passar pelos momentos mais difíceis, já que elas exprimiam com perfeição meus sentimentos e acabavam servindo como uma saudável catarse.
Ou seja: quando estava nervoso, era só colocar a trilha de ''O Vento e o Leão'' ou de ''O Vingador do Futuro'' e me imaginar regendo furiosamente aquela orquestra.
Quando sentia tristeza, bastava ouvir a ternura de ''A Ilha do Adeus'' para que meu coração voltasse a bater normalmente. Ao ter medo, nada melhor do que ouvir ''Alien: O Oitavo Passageiro'' ou ''Poltergeist'' para sentir na pele o que é o medo realmente. E assim por diante.
E Goldsmith, além de ser esse genial músico, era também uma pessoa maravilhosa. Tímido, arredio, humilde e sincero, era o tipo de profissional que levava seu trabalho muito a sério, mas que sensatamente jamais levou a si mesmo a sério a ponto de tornar-se arrogante, prepotente ou dono da verdade.
O que mais atraia os diretores em seu trabalho era sua capacidade de colocar-se à serviço do filme, sempre disposto a colaborar e melhorar seu trabalho caso não agradasse num primeiro momento - até mesmo de produções visivelmente trash, como "Leviathan" ou "O Enxame", só para citar dois exemplos.
Essas atitudes louváveis e tão raras podem ser percebidas claramente em todas as entrevistas que ele concedeu ou nos comentários que gravou para os DVDs cujos filmes musicou. E isso é confirmado também pelas pessoas que trabalharam com ele, por seus amigos e por seus familiares, como pudemos perceber nas homenagens que recebeu mundo afora pela ocasião de sua morte.
Na semana da morte do maestro, tive uma surpresa emocionante: recebi pelo correio uma cópia do documentário que Fred Karlin fez sobre Jerry Goldsmith, o qual eu já havia assistido mas não havia copiado. E que hoje tornou-se uma raridade. O presente me foi enviado por um amigo que conheci num desses fóruns de discussões da vida, que também estava sentindo a mesma dor que eu sentia.
Só mesmo um apreciador deste incrível compositor poderia fazer isso, assim de livre e espontânea vontade, sem pedir nada em troca. Ainda mais para alguém que nunca conheceu pessoalmente... Mais uma prova do poder de união e carinho que a música de Jerry pode ter sobre as pessoas!
A morte de Jerry Goldsmith é como uma luz que se apaga para nunca mais ser acesa. Uma perda insubstituível. Saber que nunca mais vou ao cinema só para curtir a nova trilha dele (e nunca vou perdoá-lo por ter me obrigado a ver bombas como ''A Múmia'', ''Rambo III'' ou ''A Soma de Todos os Medos''!) dá uma grande sensação de vazio.
A sétima arte perdeu um de seus mais talentosos e versáteis artistas. E o mundo perdeu uma das pessoas mais amáveis e honestas que por aqui já estiveram, que foi capaz de, com meras notas espalhadas por uma folha de papel, tocar o coração e a mente de tantas pessoas, no mundo inteiro.
Agora, se vocês me dão licença, vou voltar a ouvir o Tema de Amor de ''Chinatown'' e chorar um pouco...
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
Tristeza: Morre o ator e músico Nico Nicolaiewsky
O ator, músico, compositor e humorista Nico Nicolaiewsky morreu nesta
sexta-feira, aos 56 anos. Ele sofria de leucemia e estava internado no Hospital
Moinhos de Vento, em Porto Alegre.
Conhecido, entre outros trabalhos, pela interpretação do maestro Pletskaya
no espetáculo Tangos & Tragédias, no qual dividia o palco com Hique Gomez,
Nico estava internado para tratamento desde janeiro. A temporada de verão do
espetáculo no Theatro São Pedro, em Porto Alegre, havia sido cancelada em função
da doença do artista.
Além do Tangos..., que foi criado em 1984 e é exibido em temporadas de
verão no São Pedro ininterruptamente desde 1987, Nicolaiewsky mantinha uma
prolífica carreira musical, que incluía desde a participação no lendário Musical
Saracura, ainda na década de 1970, até uma ópera cômica, As Sete Caras da
Verdade, lançada em 2002.
O músico viveu 10 anos no Rio de Janeiro, onde estudou com o maestro
Hans-Joachim Köellreuter. Além de As Sete Caras..., gravou dois discos
solo, Nico Nicolaiewsky(1996), com valsas e canções líricas, algumas incluídas
na trilha do filme Amores (de Domingos Oliveira, 1997) e Onde Está o
Amor? (2007), produzido por John Ulhôa, guitarrista do Pato Fu.
Com o Musical Saracura, no qual era o responsável pelos teclados e pelo
vocal, lançou um LP homônimo, em 1982. A banda misturou influências da MPB
tropicalista, do rock e da música regional gaúcha – juntamente com o
compositor Mário Barbará, fizeram uma temporada de shows e chegaram a participar
de uma edição da Califórnia da Canção Nativa, em Uruguaiana.
O Saracura também foi formado por Sílvio Marques (violão), Chaminé (baixo e
voz) e Gatinha (que depois foi substituída na bateria por Fernando Pezão, além
de estabelecer parcerias com nomes como Zé Flávio e Léo Henkin.
Outro registro deixado por Nicolaiewsky, além dos álbuns solo e do disco
com o Saracura, é o DVD Tangos & Tragédias na Praça da Matriz, lançado em
2007. O espetáculo "sborniano" também originou um longa-metragem de animação,
dirigido por Otto Guerra e apresentado pela primeira vez no Festival de Gramado
de 2013. O filme, intitulado Até que a Sbórnia nos Separe, está sendo convertido
para 3D e deve ser lançado nos cinemas ainda em 2014. Será a primeira produção
em 3D do Rio Grande do Sul.
Nico era casado com a atriz Márcia do Canto e deixa uma filha, Nina
Nicolaiewsky, nascida em 1993.
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
Filmes: "O Jogo do Exterminador"
FRACASSO MERECIDO
Uma besteira monumental que se não bastasse ser incoerente é também tediosa e sem qualquer graça
- por André Lux, crítico-spam
*Atenção: essa crítica contem "spoilers"!
Orson Scott Card sempre foi um dos mais badalados autores de ficção
cientifica e seu livro “O Jogo do Exterminador” é considerado um clássico do
gênero por muita gente. Como não li a obra, estava bem entusiasmado para ver o
filme, que foi co-produzido pelo próprio autor, o que geralmente é garantia de
que foram fiéis à obra original.
Mas nada me preparou para tamanha decepção. O filme em si é bem feitinho e tem efeitos especiais de última geração. Mas o que choca é a pobreza da história,
repleta de clichês e com um final que beira o ridículo, de tão ilógico.
As duas primeiras metades do filme não passam daquela velha baboseira de “o
exército vai fazer de você um homem” que já era velha há 50 anos. A única
diferença é que os protagonistas agora são todos pré-adolescentes que são
recrutados pelo governo para lutar contra uma possível nova invasão de uma raça
alienígena que tentou invadir a Terra anos atrás e foi derrotada pela destreza
de um único piloto (outra coisa sem nexo).
Um desses meninos, chamado Ender, é mais um “escolhido”, daqueles que são
gênios e certamente tem tudo para vencer a guerra. Pelo menos é nisso que
acredita um milico feito por Harrison Ford, que passa o filme todo com a mesma
cara de quem comeu e não gostou, certamente contrariado ao perceber a fria em
que se meteu.
Então somos obrigados a aguentar mais de uma hora de milicos enfezados
gritando ordens na cara dos moleques, do protagonista sofrendo “bullying” dos
mais velhos e dos mais fortes e de cenas de treinamentos tediosos que ainda por
cima não fazem o menor sentido (pra que ficar brincando de “pegar a bandeira” e
de luta marcial se eles vão enfrentar os aliens em naves?).
Se não bastasse isso, ainda temos que aturar o Ender dando chiliques depois
que quase mata numa briga o seu oficial superior, feito por um garoto narigudo e
franzino cujo apelido é “Gonzo”, certamente em homenagem àquele boneco dos
Mupetts – por aí a gente já vê como ele é ameaçador e poderoso... Enfim, o
menino desiste de ser herói, volta pra Terra, mas, claro, é convencido a retomar
o treinamento depois que sua irmã fala meia dúzia de frases de efeito.
O filme conta ainda com a participação do grande ator Ben Kingsley, que
certamente estava precisando pagar alguma conta, tem o rosto coberto por
tatuagens e se perde num sotaque ridículo. Sem dizer que seu personagem, pela
logica interna da história, teria que ter no mínimo uns 80 anos, mas não tem
mais do que 60.
![]() |
| Cara de Ford é a melhor crítica ao filme |
Para piorar tudo, ainda chamaram um dos piores clones do abominável Hanz
Zimmer para fazer a trilha, um tal de Steve Jablonsky, que é uma calamidade,
genérica ao extremo e que em muitas cenas confunde-se com os efeitos sonoros.
Um músico de verdade ao menos criaria uma ótima trilha para um filme desse tipo. Mas, infelizmente, os executivos de Roliudi acreditam que o som amador, simplório e amorfo “inventado” por Zimmer é tudo que a garotada quer ouvir nos cinemas hoje, então...
Um músico de verdade ao menos criaria uma ótima trilha para um filme desse tipo. Mas, infelizmente, os executivos de Roliudi acreditam que o som amador, simplório e amorfo “inventado” por Zimmer é tudo que a garotada quer ouvir nos cinemas hoje, então...
“O Jogo do Exterminador” guarda uma surpresa em seu epílogo que é até
interessante, porém a reação moralista do protagonista ao descobrir a verdade é
tola e não faz muito sentido também. Afinal de contas, ele estava sendo treinado
para ser um exterminador de aliens, não é mesmo?
Mas o que mais incomoda é realmente o final, quando descobrimos que os
aliens estavam entrando em contato com Ender por meio de seu Ipad. Isso
certamente é muito ridículo, primeiro porque não tinha como eles saberem que o
garoto era “o escolhido” (a não ser que estivessem fazendo isso com todos os
garotos, mas o filme não mostra).
Segundo, porque se eles tinham tecnologia suficiente para entrar no
computador pessoal do Ender, que estava a trocentos anos luz de distância, então
obviamente poderiam ter tentado contatar as autoridades da Terra diretamente
para pedir uma trégua. Ou seja, é apenas uma daquelas reviravoltas tiradas do
chapéu que não sobrevivem a uma análise minimamente profunda.
Há outros furos imensos na história, como quando Ford recebe a informação
de que os aliens já estão a caminho da Terra, mas depois esquecem isso e no
final enfrentam eles perto de seu planeta natal.
Enfim, uma besteira monumental que se não bastasse ser incoerente é também
tediosa e sem qualquer graça (o filme se leva muito a sério). E para deixar um
gosto ainda mais amargo na boca, o autor Orson Scott Card revelou-se um fanático
religioso homofóbico da pior espécie, fator que levou os homossexuais a fazerem
campanha contra o filme nos EUA, o que ajudou em seu (merecido) fracasso.
Cotação: *
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
Filmes: "O Segredo do Abismo"
DE TIRAR O FÔLEGO
Edição Especial traz nova versão com as cenas que haviam sido deixadas de fora, inclusive o grande clímax apocalíptico.
- por André Lux, crítico-spam
Bem antes de "Titanic" e "Avatar", em 1989 o diretor James Cameron realizou um filme que dividiu a opinião de críticos e espectadores.
Enquanto alguns, como eu, adoraram o clima tenso constante e as cenas de ação palpitante, outros o desprezaram pelas idéias aproveitadas de outras produções e, principalmente, por causa da falta de uma conclusão mais impactante e melhor resolvida.
Apesar de ter naufragado nas bilheterias, O SEGREDO DO ABISMO serviu pelo menos como um "divisor de águas" para o cinema de ficção científica.
Primeiro por trazer efeitos especiais nunca vistos nas telas, que exigiram a criação do programa "Morph" capaz de gerar com resultados surpreendentes imagens que se alongam, se distorcem e se transformam (recurso que foi levado à perfeição pelo próprio Cameron em "O Exterminador do Futuro 2" e hoje em dia já virou obrigatório até nas fitas mais banais).
E segundo por ter levado para o fundo do mar situações que até então só haviam sido exploradas em filmes situados no espaço sideral, o que acabou dando à trama um toque bastante palpável. Além de que o tratamento carinhoso e humano dado por Cameron (também autor do roteiro) aos personagens e às situações está longe dos clichés dos filmes de aventura e ficção.
O elenco também é excelente, com destaque para as atuações despojadas e apaixonadas de Ed Harris e Mary Elizabeth Mastrantonio. Muito boa também é a trilha musical de Alan Silvestri ( de "Predador" e colaborador habitual de Robert Zemeckis), principalmente na parte final, fazendo bom uso de coral de vozes naqueles arranjos capazes de arrepiar até o último fio de cabelo.
Entretanto, o que muita gente não sabe é que a versão de O SEGREDO DO ABISMO lançada nos cinemas ficou muito longe da idealizada pelos seus realizadores.
O fato é que durante as filmagens, quase todas feitas dentro do reator de uma antiga usina abandonada que foi inundado, ocorreram todos os tipos de atrasos e acidentes (um deles quase provocou a morte do ator Ed Harris) levando atores e equipe técnica à beira de um ataque de nervos.
Para piorar tudo, simplesmente não havia tecnologia adequada na época para produzir os efeitos especiais exigidos na conclusão. Esgotado e vencido, James Cameron foi obrigado a tomar decisões drásticas: reduziu a metragem em cerca de 30 minutos, eliminando do filme justamente a sub-trama que daria gancho para o final apoteótico.
Ficaram na sala de montagem então todas as sequências que mostravam o início de um processo de conflito entre várias nações (uma delas a extinta União Soviética, que deixa o filme com aquele ar de "datado"), que fatalmente deflagaria a 3ª Guerra Mundial. Era aí que entraria a mensagem anti-belicista do filme, representada pela interferência de uma "força maior" nos destinos da primitiva e beligerante humanidade.
Esse era o verdadeiro SEGREDO DO ABISMO que ninguém ficou conhecendo e que acaba justificando o fracasso do filme nos cinemas e a reclamação por um final mais coerente e impactante.
Só que agora, graças à nova tecnologia digital disponível, finalmente podemos ter acesso à versão integral do filme de Cameron. Lançada em DVD, a Edição Especial de O SEGREDO DO ABISMO traz, além da versão normal dos cinemas, a nova cópia com todas as cenas que haviam sido deixadas de fora, inclusive o grande clímax apocalíptico.
Mas foi uma tarefa árdua, pois muitas das cenas inéditas não haviam sido masterizadas e já não possuíam trilha sonora com os diálogo ou efeitos sonoros, o que obrigou Cameron a reunir vários integrantes do elenco para regravar suas falas.
Além disso, as cenas finais da "grande onda" tiveram que ser completadas e finalizadas pela Industrial Light and Magic com tecnologia moderna não existente na época da produção. Todos esse detalhes poderão ser conferidos no excepcional documentário contido no DVD "Under Pressure: The Making Of THE ABYSS", com mais de uma hora de duração.
O resultado dessa verdadeiro trabalho de "arqueologia cinematográfica" é impressionante. O que você assite na tela é simplesmente outro filme. Não melhor ou pior que o original, mas totalmente diferente. Muito mais rico e profundo (e também pretensioso).
A verdade é que se tivesse sido exibido nos cinemas como havia sido originalmente concebido, dificilmente teria fracassado. Afinal, todos nós - tendo ou não gostado da versão original - sentimos uma ponta de decepção por não termos verdadeiramente desvendado O SEGREDO DO ABISMO.
E agora, será que você tem fôlego para mergulhar nessa aventura de novo?
Cotação: ****
Edição Especial traz nova versão com as cenas que haviam sido deixadas de fora, inclusive o grande clímax apocalíptico.
- por André Lux, crítico-spam
Bem antes de "Titanic" e "Avatar", em 1989 o diretor James Cameron realizou um filme que dividiu a opinião de críticos e espectadores.
Enquanto alguns, como eu, adoraram o clima tenso constante e as cenas de ação palpitante, outros o desprezaram pelas idéias aproveitadas de outras produções e, principalmente, por causa da falta de uma conclusão mais impactante e melhor resolvida.
Apesar de ter naufragado nas bilheterias, O SEGREDO DO ABISMO serviu pelo menos como um "divisor de águas" para o cinema de ficção científica.
Primeiro por trazer efeitos especiais nunca vistos nas telas, que exigiram a criação do programa "Morph" capaz de gerar com resultados surpreendentes imagens que se alongam, se distorcem e se transformam (recurso que foi levado à perfeição pelo próprio Cameron em "O Exterminador do Futuro 2" e hoje em dia já virou obrigatório até nas fitas mais banais).
E segundo por ter levado para o fundo do mar situações que até então só haviam sido exploradas em filmes situados no espaço sideral, o que acabou dando à trama um toque bastante palpável. Além de que o tratamento carinhoso e humano dado por Cameron (também autor do roteiro) aos personagens e às situações está longe dos clichés dos filmes de aventura e ficção.
O elenco também é excelente, com destaque para as atuações despojadas e apaixonadas de Ed Harris e Mary Elizabeth Mastrantonio. Muito boa também é a trilha musical de Alan Silvestri ( de "Predador" e colaborador habitual de Robert Zemeckis), principalmente na parte final, fazendo bom uso de coral de vozes naqueles arranjos capazes de arrepiar até o último fio de cabelo.
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| O compositor Alan Silvestri |
O fato é que durante as filmagens, quase todas feitas dentro do reator de uma antiga usina abandonada que foi inundado, ocorreram todos os tipos de atrasos e acidentes (um deles quase provocou a morte do ator Ed Harris) levando atores e equipe técnica à beira de um ataque de nervos.
Para piorar tudo, simplesmente não havia tecnologia adequada na época para produzir os efeitos especiais exigidos na conclusão. Esgotado e vencido, James Cameron foi obrigado a tomar decisões drásticas: reduziu a metragem em cerca de 30 minutos, eliminando do filme justamente a sub-trama que daria gancho para o final apoteótico.
Ficaram na sala de montagem então todas as sequências que mostravam o início de um processo de conflito entre várias nações (uma delas a extinta União Soviética, que deixa o filme com aquele ar de "datado"), que fatalmente deflagaria a 3ª Guerra Mundial. Era aí que entraria a mensagem anti-belicista do filme, representada pela interferência de uma "força maior" nos destinos da primitiva e beligerante humanidade.
Esse era o verdadeiro SEGREDO DO ABISMO que ninguém ficou conhecendo e que acaba justificando o fracasso do filme nos cinemas e a reclamação por um final mais coerente e impactante.
Só que agora, graças à nova tecnologia digital disponível, finalmente podemos ter acesso à versão integral do filme de Cameron. Lançada em DVD, a Edição Especial de O SEGREDO DO ABISMO traz, além da versão normal dos cinemas, a nova cópia com todas as cenas que haviam sido deixadas de fora, inclusive o grande clímax apocalíptico.
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| Cena da "grande onda" que ficou fora da versão original |
Além disso, as cenas finais da "grande onda" tiveram que ser completadas e finalizadas pela Industrial Light and Magic com tecnologia moderna não existente na época da produção. Todos esse detalhes poderão ser conferidos no excepcional documentário contido no DVD "Under Pressure: The Making Of THE ABYSS", com mais de uma hora de duração.
O resultado dessa verdadeiro trabalho de "arqueologia cinematográfica" é impressionante. O que você assite na tela é simplesmente outro filme. Não melhor ou pior que o original, mas totalmente diferente. Muito mais rico e profundo (e também pretensioso).
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| Ed Harry descobre o segredo do abismo |
E agora, será que você tem fôlego para mergulhar nessa aventura de novo?
Cotação: ****
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