FRACASSO MERECIDO
Uma besteira monumental que se não bastasse ser incoerente é também tediosa e sem qualquer graça
- por André Lux, crítico-spam
*Atenção: essa crítica contem "spoilers"!
Orson Scott Card sempre foi um dos mais badalados autores de ficção
cientifica e seu livro “O Jogo do Exterminador” é considerado um clássico do
gênero por muita gente. Como não li a obra, estava bem entusiasmado para ver o
filme, que foi co-produzido pelo próprio autor, o que geralmente é garantia de
que foram fiéis à obra original.
Mas nada me preparou para tamanha decepção. O filme em si é bem feitinho e tem efeitos especiais de última geração. Mas o que choca é a pobreza da história,
repleta de clichês e com um final que beira o ridículo, de tão ilógico.
As duas primeiras metades do filme não passam daquela velha baboseira de “o
exército vai fazer de você um homem” que já era velha há 50 anos. A única
diferença é que os protagonistas agora são todos pré-adolescentes que são
recrutados pelo governo para lutar contra uma possível nova invasão de uma raça
alienígena que tentou invadir a Terra anos atrás e foi derrotada pela destreza
de um único piloto (outra coisa sem nexo).
Um desses meninos, chamado Ender, é mais um “escolhido”, daqueles que são
gênios e certamente tem tudo para vencer a guerra. Pelo menos é nisso que
acredita um milico feito por Harrison Ford, que passa o filme todo com a mesma
cara de quem comeu e não gostou, certamente contrariado ao perceber a fria em
que se meteu.
Então somos obrigados a aguentar mais de uma hora de milicos enfezados
gritando ordens na cara dos moleques, do protagonista sofrendo “bullying” dos
mais velhos e dos mais fortes e de cenas de treinamentos tediosos que ainda por
cima não fazem o menor sentido (pra que ficar brincando de “pegar a bandeira” e
de luta marcial se eles vão enfrentar os aliens em naves?).
Se não bastasse isso, ainda temos que aturar o Ender dando chiliques depois
que quase mata numa briga o seu oficial superior, feito por um garoto narigudo e
franzino cujo apelido é “Gonzo”, certamente em homenagem àquele boneco dos
Mupetts – por aí a gente já vê como ele é ameaçador e poderoso... Enfim, o
menino desiste de ser herói, volta pra Terra, mas, claro, é convencido a retomar
o treinamento depois que sua irmã fala meia dúzia de frases de efeito.
O filme conta ainda com a participação do grande ator Ben Kingsley, que
certamente estava precisando pagar alguma conta, tem o rosto coberto por
tatuagens e se perde num sotaque ridículo. Sem dizer que seu personagem, pela
logica interna da história, teria que ter no mínimo uns 80 anos, mas não tem
mais do que 60.
![]() |
| Cara de Ford é a melhor crítica ao filme |
Para piorar tudo, ainda chamaram um dos piores clones do abominável Hanz
Zimmer para fazer a trilha, um tal de Steve Jablonsky, que é uma calamidade,
genérica ao extremo e que em muitas cenas confunde-se com os efeitos sonoros.
Um músico de verdade ao menos criaria uma ótima trilha para um filme desse tipo. Mas, infelizmente, os executivos de Roliudi acreditam que o som amador, simplório e amorfo “inventado” por Zimmer é tudo que a garotada quer ouvir nos cinemas hoje, então...
Um músico de verdade ao menos criaria uma ótima trilha para um filme desse tipo. Mas, infelizmente, os executivos de Roliudi acreditam que o som amador, simplório e amorfo “inventado” por Zimmer é tudo que a garotada quer ouvir nos cinemas hoje, então...
“O Jogo do Exterminador” guarda uma surpresa em seu epílogo que é até
interessante, porém a reação moralista do protagonista ao descobrir a verdade é
tola e não faz muito sentido também. Afinal de contas, ele estava sendo treinado
para ser um exterminador de aliens, não é mesmo?
Mas o que mais incomoda é realmente o final, quando descobrimos que os
aliens estavam entrando em contato com Ender por meio de seu Ipad. Isso
certamente é muito ridículo, primeiro porque não tinha como eles saberem que o
garoto era “o escolhido” (a não ser que estivessem fazendo isso com todos os
garotos, mas o filme não mostra).
Segundo, porque se eles tinham tecnologia suficiente para entrar no
computador pessoal do Ender, que estava a trocentos anos luz de distância, então
obviamente poderiam ter tentado contatar as autoridades da Terra diretamente
para pedir uma trégua. Ou seja, é apenas uma daquelas reviravoltas tiradas do
chapéu que não sobrevivem a uma análise minimamente profunda.
Há outros furos imensos na história, como quando Ford recebe a informação
de que os aliens já estão a caminho da Terra, mas depois esquecem isso e no
final enfrentam eles perto de seu planeta natal.
Enfim, uma besteira monumental que se não bastasse ser incoerente é também
tediosa e sem qualquer graça (o filme se leva muito a sério). E para deixar um
gosto ainda mais amargo na boca, o autor Orson Scott Card revelou-se um fanático
religioso homofóbico da pior espécie, fator que levou os homossexuais a fazerem
campanha contra o filme nos EUA, o que ajudou em seu (merecido) fracasso.
Cotação: *





























