TARANTINO NÃO É LEONE
Toda criatividade feroz mostrada em “Pulp Fiction” pelo cineasta parece
mesmo ter chegado ao fim e ele agora limita-se a tentar imitar a si mesmo sem
sucesso
- André Lux, crítico-spam
“Django Livre” é mais uma tremenda bobagem do diretor Quentin Tarantino, ainda pior que “Bastardos Inglórios” que ao menos tinha um certo estilo virtuoso de direção. Aqui, nem isso.
Tarantino pretendia fazer uma homenagem/paródia dos “spaghetti westerns” (produções italianas baratas que parodiavam os faroestes estadunidenses) e dos filmes de “blaxploitation” que eram protagonizados e realizados por atores e diretores negros nos anos 1970 e tinham como publico alvo, principalmente, os negros, quase sempre colocando como astro vingador um negro que passava o filme todo matando brancos vilões (houve outro filme chamado "Django", estrelado por Franco Nero, que faz ponta aqui na luta dos "mandingos", mas não tem qualquer relação com o de Tarantino).
É o que faz Jamie Foxx, o Django do título, que após ser libertado da escravidão por um caçador de recompensas, vira seu parceiro e tem passe livre para matar brancos procurados. Mas sua verdadeira missão é resgatar sua esposa que foi vendida para uma fazenda no sul, cujo dono é Leonardo DiCaprio.
A trama é extremamente simples e o filme se arrasta em sequências de muito papo-furado que não chegam a lugar algum. Há coisas simplesmente ridículas, como a parte em que DiCaprio tira um crânio de uma caixa, o serra (!) e fica discursando sobre a inferioridade dos negros. Além disso, a violência é excessiva e gratuita e algumas cenas descambam para a comédia rasgada (como os encapuzados reclamando dos furos para os olhos mal feitos) que parecem ter sido tiradas diretamente de “Banzé no Oeste”, de Mel Brooks, onde o herói também era um negro que virava xerife.
Isso tira qualquer impacto que Tarantino tenta imprimir em sua denúncia dos absurdos da escravidão e deixa o filme sem foco, capenga, tolo mesmo. Fica até um gosto ruim na boca, como se o cineasta estivesse debochando da escravidão já que usa o tema seríssimo como mero pretexto para brincar de fazer um filme trash, com rios de sangue jorrando a cada tiro.
Há outra coisa que incomoda muito no filme. É a tese defendida por Tarantino de que qualquer pessoa que apoiou ou usufruiu da escravidão pode e deve ser sumariamente executada pelo seu "anjo vingador". É a mesma tese que ele apoiou em "Bastardos Inglórios" em relação aos nazistas e qualquer um que fizesse parte do exército alemão.
Há outra coisa que incomoda muito no filme. É a tese defendida por Tarantino de que qualquer pessoa que apoiou ou usufruiu da escravidão pode e deve ser sumariamente executada pelo seu "anjo vingador". É a mesma tese que ele apoiou em "Bastardos Inglórios" em relação aos nazistas e qualquer um que fizesse parte do exército alemão.
Esse é o tipo de tese moralmente intolerável, pois é fácil hoje julgar e condenar quem se apropriou do trabalho escravo, porém é preciso lembrar que naquela época a escravidão era algo permitido por Lei (no Brasil, por exemplo, a escravidão foi abolida há pouco mais de 100 anos!). Assim, o que propõe Tarantino é que se destrua o Estado Democrático de Direito na base da bala e do assassinato puro e simples (é asquerosa a cena em que Django executa com um tiro a queima roupa a irmã de um fazendeiro escravagista).
Esse é o tipo de raciocínio simplista e imbecil que pode (e já foi ) usado contra qualquer um. É de esquerda? Prende e arrebenta! É muçulmano? Mete bala! É gay? Espanca até a morte. É ateu? Joga na fogueira! E assim por diante. Se as Leis são ruins ou absurdas, cabe à sociedade e seus líderes tentarem mudá-las de forma civilizada. É o que fez o presidente Lincoln nos EUA.
Esse é o tipo de raciocínio simplista e imbecil que pode (e já foi ) usado contra qualquer um. É de esquerda? Prende e arrebenta! É muçulmano? Mete bala! É gay? Espanca até a morte. É ateu? Joga na fogueira! E assim por diante. Se as Leis são ruins ou absurdas, cabe à sociedade e seus líderes tentarem mudá-las de forma civilizada. É o que fez o presidente Lincoln nos EUA.
Só mesmo gente vazia e inconsequente como Tarantino pode mesmo defender esse tipo de abominação só porque é uma celebridade rica e paparicada e, por isso, acha que vive acima do bem e do mal e, mais grave, das Leis. Basta assistir à "Faça a Coisa Certa" do Spike Lee para ver como um tema difícil como o racismo e a opressão dos negros pode ser tratado de forma profunda e multifacetada. Mas Spike Lee é um negro e certamente já sentiu na pele o racismo e, por isso, tem algo a dizer sobre o assunto, enquanto Tarantino é apenas um bobo alegre que gosta de brincar de fazer filmes. Nem mesmo depois da revolução em Cuba, que derrubou um governo ditatorial, os criminosos (torturadores, estupradores e assassinos) foram executados sem antes receberem um julgamento civilizado.
Christoph Waltz, que é sem dúvida um grande ator, repete sua atuação excêntrica de “Bastardos Inglórios” no papel do caçador de recompensas alemão que resolve ajudar Django a libertar sua amada cujo nome é Broomhilda e o remete à lenda de Siegfried de sua terra natal. Tarantino ao menos não nega as origens de suas ideias, principalmente os westerns de Sergio Leone, o que é sempre um gesto de humildade.
Mas, infelizmente, Tarantino não é Leone (quem duvida assista ao excepcional "Quando Explode a Vingança" para ver como se aborda temas como a opressão e o preconceito de maneira genial) e toda sua criatividade feroz mostrada em “Pulp Fiction” parece mesmo ter chegado ao fim e ele agora limita-se a tentar imitar a si mesmo sem sucesso e com excessiva auto-indulgência. Uma pena.
Cotação: * 1/2





















