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sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Filmes: "007 - Operação Skyfall"

NÃO É O MELHOR BOND

Filme está longe de ser essa maravilha que pregaram os críticos

- por André Lux, crítico-spam

Vi muitos críticos dizendo que este “Skyfall” era o melhor James Bond de todos os tempos. Só pode ser delírio porque não chega nem perto de alguns da fase áurea de Sean Connery e é mesmo inferior ao primeiro com Daniel Craig no papel de 007, “Cassino Royale”, e até mesmo ao segundo, "Quantum of Solace", que era um filme de esquerda - afinal, James Bond impedia nada menos do que um golpe de Estado contra o presidente nacionalista da Bolívia (Evo Morales?) engendrado pela CIA em conluio com militares golpistas e o vilão que queria explorar os recursos naturais daquele país!

Deve ter contribuído para esse delírio coletivo o fato do filme ser dirigido pelo queridinho da crítica Sam Mendes, um diretor metido a besta que adora fazer filmes pretensiosos e modorrentos. Aqui pelo menos ele não atrapalha muito, já que sua direção é burocrática e não se distingue do resto dos diretores que já levaram as aventuras do agente britânico para o cinema. Sua maior contribuição ao filme foi ter trazido o compositor Thomas Newman para escrever a trilha musical que, embora seja competente, não chega a marcar e fica muito aquém das melhores compostas por John Barry para a franquia.

Não gostei nem um pouco da trama, que envolve o roubo de uma lista de agentes do serviço secreto inglês (velho clichê do gênero) que será usada por um sujeito que parece ser o maior hacker do mundo que, no final das contas, não quer nada além de vingança (outro dos clichês mais batidos do cinema) contra a chefe do MI-6 (Judi Dench). E para isso o vilão bola um daqueles planos mirabolantes que levará anos para ser realizado e que, para der certo, tem que contar com um monte de coincidências que não tinha como ele prever. E para piorar esse vilão é feito pelo espanhol Javier Barden, que é um grande ator, mas está completamente descontrolado e perdido aqui, usando inclusive um ridícula peruca loira. Por sinal, há uma insinuação homossexual entre Barden e Bond que não é explorada a contento.

Loiro bobo
O confronto final com o vilão e sua gangue é totalmente ilógico (e dá-lhe o clichê do herói solitário contra um monte de bandidos) e demonstra apenas a incompetência do 007 que falha no que seria a missão mais importante do filme - e fica tudo por isso mesmo! Há uma trama paralela que pretende questionar a efetividade dos velhos métodos de espionagem do MI-6 e de seus agentes secretos feita pelo parlamento inglês que não chega a lugar algum e serve só para arrastar o filme. Também não convence nem um pouco o novo Q que arrumaram, um moleque metido a besta que também se julga o melhor hacker do planeta e só faz besteira (como conectar o computador do vilão à rede do serviço secreto, fator essencial para que o plano dele funcionasse).

Por sinal, impressiona o nível de incompetência do pessoal do MI-6 neste filme – um deles chega inclusive a balear o 007 no começo do filme, acham que ele está morto e tudo bem (não vão nem atrás do corpo)! Mas é claro que ele não morreu e, depois de passar um tempo curtindo sua aposentadoria forçada à beira da praia, resolve voltar à ativa depois que a M sofre um atentado.

Enfim, está longe de ser essa maravilha que pregaram os críticos. Eu confesso que esperava muito mais e fiquei bastante decepcionado no final. Nem muitas cenas de ação palpitantes e mulheres bonitas, marcas registradas da franquia, o filme tem.

Cotação: * * 1/2

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Filmes: "A Viagem"


PARA ASSISTIR BÊBADO OU CHAPADO

Eu, que o vi o filme de cara limpa, fiquei apenas com sono durante as quase três horas intermináveis de projeção.

- por André Lux, crítico-spam

Olha, fazia tempo que eu não via um filme tão ridículo quanto este “Cloud Atlas”, chamado aqui no Brasil de “A Viagem”. A verdade é que o titulo em português já é a melhor crítica que a obra poderia receber, já que o roteiro deste abacaxi só pode ter sido escrito sob o efeito de alguma droga alucinógena. O fato de ter sido gerado pelos criadores da trilogia “Matrix”, em parceria com diretor de "Corra, Lola, Corra", só aumenta ainda mais a decepção.

A estória, baseado num livro de David Mitchell, é uma colcha de retalhos que mistura espiritismo (reencarnação) com mensagens dignas dos piores clichês de livros de auto-ajuda. São seis tramas paralelas, que alternam passados, presente e futuros distópicos que no final das contas não tem qualquer conexão entre elas, exceto o fato dos atores centrais fazerem múltiplos papeis geralmente escondidos sob grotesca maquiagem (os piores são o Hugo Weaving, o Sr. Smith de “Matrix”, travestido de enfermeira nazista e a oriental tentando se passar por dondoca do sul dos Estados Unidos).

Algumas das estórias não chegam a lugar algum (afinal, o que queriam os Precientes?), outras mal fazem sentido (como a da jornalista feita por Halle Berry que pretende denunciar algo que nunca ficamos sabendo direito o que é), enquanto outras são simplesmente absurdas (o editor que fica preso num asilo, como se aquilo fosse mesmo acontecer na vida real) e o filme vai se arrastando entre diálogos tolos recheados de filosofadas pseudo-profundas e tentativas patéticas de fazer humor (como a briga no bar).

Sr. Smith pagando mico
Não dá para entender como tantos atores de renome, como Tom Hanks, Hugh Grant ou Susan Sarandon, aceitaram participar dessa bomba. Talvez o fato de poderem interpretar múltiplos personagens seja algo que os atraia, vai saber... Há algumas citações a filmes cultuados de ficção científica, como “Fuga do Século 23” ("Logan's Run"), “No Mundo de 2020” ("Soylent Green", com Charlton Heston) e até mesmo “Matrix”, mas tudo se perde na canastrice geral das interpretações e no roteiro capenga. 

Por sinal, o roteiro é tão ruim que algumas ideias interessantes, tipo aquela marca de nascença que alguns personagens tem em comum, são simplesmente deixadas de lado sem maiores consequências. O que dizer então da tão falada sinfonia que dá nome ao filme da qual não ouvimos nada além de um dedilhar no piano? Não se salvam nem o desenho de produção ou algum outro aspecto técnico (aquele bar futurista, por exemplo, parece coisa de desfile de escola de samba). 

Talvez o filme melhore se você o assistir bêbado ou chapado. Mas eu, que o vi de cara limpa, fiquei apenas com sono durante as quase três horas intermináveis de projeção.

Cotação: *

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Filmes: "O Hobbit: Uma Jornada Inesperada"


MUITO PÃO PARA POUCA MANTEIGA

O primeiro capítulo de “O Hobbit” é indefensavelmente longo (quase três horas de duração) e a trama é visivelmente esticada além da conta.

- por André Lux, crítico-spam

Sou grande admirador da trilogia “O Senhor dos Anéis” do diretor Peter Jackson, adaptação primorosa da gigantesca obra de Tolkien que muitos consideravam infilmável até então. Chega então a nova adaptação de outra obra do mesmo autor, pelas mãos do mesmo Jackson: “O Hobbit” que numa decisão polêmica foi dividido em três filmes.

Apesar de ser sempre um prazer poder voltar à Terra Média, a divisão de “O Hobbit” em três filmes gera sérios problemas. Primeiro porque o livro não é grande o suficiente para tamanha empreitada. Em segundo lugar, “O Hobbit” não é uma obra densa e séria como a trilogia “O Senhor dos Anéis”. Está muito mais para um livro infantil e as tentativas de Jackson em deixar o filme pesado e profundo como os outros ficam forçadas e não convencem.

O primeiro capítulo, “Uma Jornada Inesperada”, é indefensavelmente longo (quase três horas de duração) e a trama é visivelmente esticada além da conta, “como manteiga que foi espalhada num pedaço muito grande de pão”, como diz o próprio Bilbo em “A Sociedade do Anel”.

O que mais incomoda são as cenas de ação e lutas, esticadas e redundantes demais, além de ser triste ver Jackson se render à histeria e ao excesso de monstros e efeitos visuais, mesmo pecado de George Lucas nos “prequels” de “Star Wars”. O pior momento é quando a tropa de anões e Gandalf caem centenas de metros numa ponte e saem ilesos. Esse tipo de situação destrói a credibilidade e enfraquece o suspense, pois pinta os protagonistas como invencíveis.

Por causa dessa confusão toda, nem mesmo a trilha do genial Howard Shore chega a ser inspirada, apesar de ter vários bons momentos e ao menos manter o mesmo nível de qualidade musical da trilogia “O Senhor dos Anéis”.

É lamentável que Peter Jackson tenha se deixado contaminar pela política caça-níqueis dos estúdios e agora seja obrigado a transformar “O Hobbit” em algo que a obra original não é. Não que o filme seja um desastre, longe disso, porém com a longa duração e a redundância de cenas de luta acaba se tornando cansativo em vários momentos. Enfim, vamos aguardar as continuações, mas já sabendo que a qualidade final do produto foi prejudicada por decisões meramente mercantis.

Cotação: * * *

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Filmes: "Abril Despedaçado"

PRETENSÃO DEMAIS

Embora técnicamente brilhante, filme peca pelo excesso de maneirismos e pela falta de um final realmente forte e impactante

- por André Lux, crítico-spam

Depois do impressionante (e merecido) sucesso de CENTRAL DO BRASIL no mundo inteiro, o diretor Walter Salles resolveu adaptar para o sertão nordestino um livro de Ismail Kadaré que se passa nos Balcãs e narra a história de duas famílias rivais que se matam em nome da honra e do "olho por olho".

O roteiro narra o momento em que o filho mais velho dos miseráveis Breves (Rodrigo Santoro, que tem cara de tudo menos de nordestino miserável) tem que matar o assassino de seu irmão, perpetuando assim o ciclo de bestialidade e vingança que rege a vida deles. O único que se revolta contra isso tudo é o caçula (Ravi Ramos Lacerda) que é resposável por uma das melhores falas do filme: "Em terra de cego, quem tem olho o pessoal acha que é doido!".

Apesar da trama forte e pertinente (que poderia ter rendido um excelente paralelo com a vida moderna), os realizadores de ABRIL DESPEDAÇADO optaram por uma aproximação calculadamente fria, construída sobre emoções contidas e cenografia altamente estilizada. Tudo isso com um único motivo: preparar o caminho para o final que deveria trazer uma explosão de emoções, causando assim a redenção dos personagens e, de quebra, do espectador.

Infelizmente, Salles falhou na conclusão e com ele foi a pretensão de transformar ABRIL DESPEDAÇADO em um novo CENTRAL DO BRASIL, que era emocionante justamente por ser singelo e honesto. Aqui tudo é friamente calculado para parecer distante e árido, inclusive o sofrimento e a dor dos personagens. Se José Dumont dá um banho de interpretação no papel do patriarca dos Breves, homem duro e ignorante, o mesmo não se pode dizer do resto do elenco, onde o maior problema é justamente o impassível Santoro que falha em sua cena chave e compromete o filme deixando claro que ainda não tem condições de levar um roteiro desses nas costas.

Embora técnicamente brilhante, onde os destaques são a fotografia do mestre Walter Carvalho e a música de Antônio Pinto, ABRIL DESPEDAÇADO peca justamente pelo excesso de maneirismos e pela falta de um final realmente forte e impactante que justifique tamanha pretensão. Uma pena.

Cotação: **1/2

domingo, 16 de setembro de 2012

Filmes: "Frida"

RETRATO DESPUDORADO

Cinebiografia de Frida Kahlo é o antídoto contra filmes pretensiosos e modorrentos

- por André Lux, crítico-spam

FRIDA, da diretora Julie Taymor (do brilhante, mas irregular TITUS), é um excelente retrato da vida e obra da pintora mexicana Frida Kahlo. Despudorado, politicamente incorreto, extremamente colorido e quente, mostra sem concessões a trajetória dessa mulher despojada e forte em sua luta constante para superar todo tipo de obstáculos, de um acidente que a deixou praticamente aleijada às constantes traições do marido.

Produzido com baixo orçamento, mas com muito talento e criatividade, o filme é uma conquista da atriz mexicana Salma Hayeck, cuja luta e garra para realizá-lo estão impressos em praticamente cada fotograma, espelhando inclusive a vida da protagonista. Hayeck demonstra também surpreendente talento na pela de Frida, colocando em evidência o caráter turbulento da pintora (impresso em sua obra controversa), mas sem deixar de lado seu lado mais humano e fragilizado. Nada mal para quem começou a carreira enroscando-se seminua em uma cobra gigante no "trash" UM DRINK NO INFERNO, de Tarantino e Rodriguez!

Merece destaque também a atuação de Alfred Molina, como o artista Diego Rivera, marido de Frida e comunista, a trilha musical premiada com o Oscar de Elliot Goldenthal (ALIEN³, FINAL FANTASY), usando e abusando de temas "calientes" e menos atonal do que de costume, bem como as animações que fundem as pinturas de Frida com os atores, em diversas situações importantes na vida da artista.

FRIDA acaba sendo uma espécie de "antídoto" contra filmes pretensiosos e depressivos como AS HORAS, no qual pessoas regredidas e mal resolvidas sexualmente destilam suas frustrações e recalques em discursos superficiais e modorrentos. Já a pintora mexicana, tal qual é retratada no filme em questão, é exatamente o oposto disso. Firme, decidida e madura, Frida busca a superação de suas limitações em todos os momentos de sua realmente sofrida existência, assumindo as responsabilidades e as conseqüências de seus atos. Não é a toa, portanto, que conquistou corações e mentes de tantos homens e mulheres (era bissexual assumida), mesmo sendo relativamente feia e possuindo bigode e sobrancelhas cerradas.

Infelizmente, não fez o sucesso merecido, talvez por ter sido lançado modestamente e por causa da resistência natural que a maioria das pessoas tem contra personagens fortes, bem resolvidos e despudorados como a pintora mexicana. O que é uma pena. Mas o tempo acabará fazendo justiça a esse excelente trabalho, que merece ser descoberto.

Cotação: * * * *

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Filmes: "Clube da Luta"

PERIGOSO E INÚTIL

Apesar da boa intenção dos realizadores filme acaba passando a mensagem errada para os espectadores menos capacitados intelectualmente

- por André Lux, crítico-spam

"Clube da Luta", de David Fincher (diretor do sensacional "Seven - Os Sete Crimes Capitais") é um filme que dividiu a crítica e o público. Alguns acharam o filme excepcional, revolucionário, um soco no estômago do consumismo sem freios da sociedade ocidental (leia-se EUA), enquanto outros viram apenas um exercício repugnante e excessivo de estílo, pretensamente subversívo e meticulosamente planejado para causar o maior impacto (como um antigo comercial do cigarro FREE: "Eu gosto de dar porrada. Mas alguma coisa a gente tem em comum"), e que ao final acaba fazendo a apologia da violência e da intolerância. E o mais engraçado é que ambas as vertentes estão corretas, embora seja a segunda que acabe prevalecendo.

Se por um lado "Clube da Luta" incomoda e mexe na ferida da sociedade de consumo, por outro prega um anarquismo sem sentido e perigoso calcado apenas na violência e na destruição sem limites, tendo como personagens principais pessoas vazias e recalcadas com o "sistema", que encontram a redenção no tal Projeto Caos idealizado por Tyler Durden (Brad Pitt) e que consiste na destruição sistemática do mundo capitalista. Mas para colocar o que no lugar? Essa gente louca e desajustada do filme que encontra o "sentido da vida" no tal Clube da Luta onde enchem uns aos outros de porrada?

Ou seja, ao mesmo tempo que faz uma crítica feroz à violência, ao consumo exacerbado e ao culto às celebridades, o filme usa esses mesmo subterfúgios para "prender" a atenção do espectador. Depois de tanta porrada, sangue e efeitos visuais, tudo isso acaba diluindo e banalizando a violência que diz criticar. E, pior, a glorifica no final. Isso sem dizer que o roteiro é cheio de furos - principalmente a reviravolta final, que mesmo sendo surpreendente, parece ter sido inventada na última hora já que era impossível o protagonista ter feito tudo o que fez sozinho!

Apesar da óbvia boa intenção dos realizadores e do preciosismo técnico, "Clube da Luta" acaba passando a mensagem errada para os espectadores menos capacitados intelectualmente para "captar" o que existe por trás de toda a violência e loucura que se vê na tela. Não é a toa que um estudante de medicina mentalmente perturbado escolheu um cinema que passava justamente este filme (ao qual ele já havia assistido duas vezes) para descarregar sua sub-metralhadora na platéia exatamente durante uma cena na qual isso é sugerido pelo protagonista! E ainda dizem por aí que o cinema não influencia a vida real...

No final das contas, "Clube da Luta" não deixa de ser interessante como retrato de uma sociedade decadente e doentia, mas acima de tudo é um filme perigoso e inútil.

Cotação: * *

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Filmes: "O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei

O FIM DE TODAS AS COISAS

Dificilmente veremos novamente um espetáculo cinematográfico tão emocionante e perfeito quanto a saga do Anel de Peter Jackson

- por André Lux, crítico-spam

O RETORNO DO REI fecha com chave de ouro uma arriscada jornada que o cineasta Peter Jackson se propôs a fazer: transcrever para os cinemas a monumental obra de J.R.R. Tolkien considerada por muitos infilmável. Mas, como já havia ficado claro desde o primeiro capítulo da saga, A SOCIEDADE DO ANEL, Jackson conseguiu superar até as mais otimistas das expectativas. Fez todas as escolhas certas: recrutou um elenco excepcional, escreveu um roteiro ao mesmo tempo enxuto e fiel aos livros, cercou-se de técnicos despojados e dispostos a reinventar o cinema de fantasia e, demonstrando incrível inteligência, contratou um músico de primeiríssima linha, Howard Shore, para compor a trilha sonora de seus filmes.

E toda essa paixão e exuberância estão impressas nas telas, para quem quiser ver (e, ao que percebemos pelos resultados das bilheterias, poucos não querem). É claro que muitos pontos da história original foram modificados e outros eliminados. Mas, tirando um ou outro problema mais evidente, isso acabam sendo meros detalhes que vão incomodar somente os puristas mais fanáticos pela obra de Tolkien. O mais importante é que O RETORNO DO REI consegue unir todas as pontas soltas da trama de forma não menos que brilhante. É notável a firmeza com o que o diretor conduz o filme, alternando sem pudor momentos de grandeza inigualáveis, como a batalha nos campos de Pellenor (cujos efeitos visuais são realmente de fazer cair o queixo), com outros totalmente intimistas, os quais certamente são um dos pontos chaves para o sucesso dessa empreitada. Tivesse sido deixado levar somente pela sedução das pirotecnias visuais (que destruiu, por exemplo, os novos capítulos de STAR WARS) os filmes certamente teriam fracassado em suas propostas. Mas Jackson sabe criar brechas em toda aquela grandiloqüência visual para que os personagens deixem suas marcas de maneira louvável.

Existem falhas, é claro, como os sucessivos finais (embora, por mim, poderiam ter tido mais uns oito que seriam bem vindos!). Mas, num projeto dessa envergadura, tão calcado em efeitos especiais dificílimos de serem engendrados, enumerá-los seria uma espécie de "atestado de boçalidade". Deixamos essa patética tarefa, portanto, aos cuidados daqueles sujeitos que não se negam (e até se orgulham) a desempenhar tal papel (como insistir em reclamar da participação da soporífera Enya em duas canções do primeiro filme)...

A Academia de Cinema de Holywood demonstrou ter credibilidade dando a O RETORNO DO REI o Oscar de Melhor Filme e tantos outros. Afinal, gostemos ou não, são os prêmios máximos da Indústria Cultural estadunidense e ela mais do que ninguém deveria saber reconhecer o sucesso desse esforço monumental de Peter Jackson e de todos outros que se envolveram em sua empreitada. Sinceramente, não há mais o que dizer. É ver para crer. E tentar segurar as lágrimas que certamente rolarão em diversos pontos chaves do filme. Mas a maior tristeza é saber, exatamente no “fim de todas as coisas”, que dificilmente veremos um espetáculo cinematográfico tão emocionante e perfeitamente realizado novamente.

Cotação: * * * * *

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Filmes: "Xingu"

ANÓDINO

O assunto em questão certamente merecia uma abordagem muito mais apaixonada e explosiva do que a que vemos na tela.

- por André Lux, crítico-spam

“Xingu”, dirigido pelo competente Cao Hamburguer (de “O Ano Em Que Meu Pais Saíram de Férias”), tem o mesmo problema de várias outras cinebiografias de figuras importantes da história mundial: não tem informações suficientes para se tornar um bom documentário nem o aprofundamento dos personagens que o transformaria num bom drama.

O filme quer contar a saga dos irmãos Villas-Boas, que subiram o rio Xingu e travaram contato com índios, tornando-se indianistas de carteirinha. O narrador da história é o irmão do meio, Cláudio (em boa interpretação de João Miguel), que tenta inutilmente impedir que a chegada do homem branco contamine os índios. Nas duas outras pontas temos Orlando (Felipe Camargo) e Leonardo (Caio Blat), sendo que o primeiro faz o papel do líder pragmático que tem lidar com políticos e militares na tentativa de demarcar a terra dos índios, enquanto o segundo faz o papel do apaixonado que se deixa inclusive envolver com uma índia – fator que o levará a deixar a expedição.

“Xingu”, dessa forma, vai contando de forma linear a saga dos Villas-Boas e acaba num meio termo entre o registro documental e o drama. Os três protagonistas não tem suas motivações esmiuçadas pelo roteiro e não são mostrados grandes conflitos ocorrem (nem mesmo com fazendeiros que exploram os índios e são contra a demarcação). A própria criação do Parque Nacional do Xingu acontece no filme sem maiores dificuldades, o que certamente está muito longe da realidade.

Tecnicamente o filme é bem feito e conta com uma ótima direção de fotografia e uma trilha musical inventiva e adequada. O elenco é bastante homogêneo e não deixa a peteca cair em nenhum momento. Pena que o filme seja tão anódino e fuja de conflitos e dramas pessoais. O assunto em questão certamente merecia uma abordagem muito mais apaixonada e explosiva do que a que vemos na tela.

Cotação: * * 1/2

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Filmes: "O Senhor dos Anéis: As Duas Torres"

A GRANDIOSIDADE CONTINUA

Segundo capítulo de “O Senhor dos Anéis” continua sendo um verdadeiro triunfo, tanto ao nível artístico quanto comercial. Algo cada vez mais raro de acontecer nos dias de hoje, convenhamos.

- por André Lux, crítico-spam

A saga do anel do poder continua com o lançamento de AS DUAS TORRES, capítulo central da trilogia e, por isso mesmo, o mais sombrio e difícil de adaptar de toda a obra (afinal, tem que começar em plena ação e novamente acaba bruscamente sem conclusão). Para piorar, com o rompimento da Sociedade do Anel a trama dividi-se em três, tornando-se, portanto, cada vez mais complexa e repleta de detalhes importantes.

O diretor Peter Jackson sabia da dificuldade que tinha pela frente e optou pela saída mais lógica: contar as três histórias em ordem mais ou menos cronológica e na seqüência, diferente do livro que é cheio de idas e vindas, já que cada "missão" tem basicamente seu próprio capítulo. Essa opção traz vantagens do ponto de vista cinematográfico, mas em contrapartida deixa o filme mais truncado, já que a ação é várias vezes interrompida para que outra parte da história seja contada - efeito que chega a atrapalhar algumas seqüências mais emocionantes.

Outro ponto polêmico diz respeito às várias alterações que os roteiristas aplicaram à trama, que obviamente vão enfurecer os fãs mais puristas da obra de Tolkien. Mas é sempre bom lembrar que mudanças são necessárias, afinal literatura é uma coisa e cinema é outra, bem diferente. O problema é que algumas delas acabaram mais prejudicando do que ajudando, sendo as mais graves a participação dos elfos na batalha do Abismo de Helm e a decisão dos Ents de não irem para a guerra, voltando atrás logo em seguida e rápido demais. Essas são os tipos de "licenças" que nada acrescentam e realmente poderiam ter sido ignoradas, afinal o que estava no livro acabaria funcionando melhor.

O filme começa muito bem, com um longo plano aberto das montanhas geladas que vai fechando-se até entrarmos literalmente nas Minas de Moira, exatamente no momento da luta entre o mago Gandalf (Ian Mckellen) e o Balrog, cujo desfecho não será tão trágico quanto o primeiro filme fazia supor. Seguimos então a busca de Aragorn (Viggo Mortensen), o elfo Legolas (Orlando Bloom) e o anão Gimli (John Rhys-Davies) pelos orcs que capturaram os hobits Merry e Pippin. Toda essa seqüência, apesar de ser praticamente fiel ao livro, não é das mais felizes, prejudicada por uma edição apressada e ineficaz.

O filme só vai melhorar mesmo (e alcançar o mesmo nível de excelência de A SOCIEDADE DO ANEL) quando voltamos à jornada de Frodo (Elijah Wood) e Sam (Sean Astin) rumo a Mordor, cuja segurança passa a ser ameaçada pela criatura Gollum. Mas eles conseguem capturá-lo e somos então apresentados ao personagem mais rico e interessante do filme, brilhantemente manipulado por computação gráfica, a partir da performance do ator Andy Serkis. Sua caracterização é tão perfeita e a sua presença tão marcante que esquecemos completamente que não passa de um boneco digital e torcemos para que volte à cena logo.

Outro ponto alto do filme é a atuação de Benard Hill (que foi o capitão do TITANIC), que convence totalmente como o angustiado e indeciso Theodén, rei de Rohan. Sua presença na tela, ao lado do arredio e soturno Aragorn (Mortensen), garantem a integridade e a nobreza do filme. É muito bem vinda também a escolha do anão Gimli e do elfo Legolas como os alívios cômicos, cujos melhores momentos vêm das disputas para ver qual dos dois matou mais orcs! As mensagens ecológica e em favor da amizade e da lealdade também não poderiam deixar ser mais atuais e pertinentes.

Como não poderíamos deixar de notar, a música de Howard Shore é de uma grandeza e retumbância impressionantes, sem nunca cair para a pieguice ou para o clichê desse tipo de filme. Arrisco a afirmar que é ainda melhor que a anterior (sem dizer que não temos mais que aturar as canções soporíferas da Enya, que foram incluídas no primeiro por pressões comerciais). Aproveito para fazer um parêntese e ressaltar que a grande maioria dos críticos ditos "especializados" continua absurdamente ignorando o trabalho dos músicos de cinema, fato que é ainda mais gritante em casos como o de O SENHOR DOS ANÉIS, no qual a trilha musical é parte fundamental do sucesso do projeto!

Se AS DUAS TORRES é pior ou fica no mesmo nível de A SOCIEDADE DO ANEL, ainda tenho minhas dúvidas. Melhor não é, isso é fato. O primeiro beirou a perfeição em todos os aspectos e tinha uma trama muito mais simples e linear para contar. Nesse segundo capítulo me parece que houve um certo descuido na edição (que apresenta muitas falhas, principalmente no início, fato que só é sanado na versão estendida do filme, que realmente é muito melhor) e uma preocupação exacerbada em criar exércitos gigantescos de orcs movidos por softwares novíssimos, ao invés de focar a atenção em detalhes mais ricos e interessantes (que foram justamente o que tornaram o primeiro tão saboroso). Somando-se a isso, temos a trama mais complicada, dividida e tortuosa que, na somatória final, acaba obrigando o filme a ficar muito intenso e corrido. Boromir (Sean Bean), que morreu no capítulo anterior, também faz falta.

Mas, mesmo com todos esses problemas e limitações, não há como negar que AS DUAS TORRES é um sucesso em praticamente todos os níveis. Ponto para todos os envolvidos no projeto, cuja dedicação e paixão estão impressas em cada fotograma visto na tela (a riqueza de detalhes e beleza dos vestuários e armaduras, por exemplo, é algo impressionante). Um verdadeiro triunfo, tanto ao nível artístico quanto comercial. Algo cada vez mais raro de acontecer nos dias de hoje, convenhamos.

Cotação: * * * *

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Filmes: "O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel"

GRANDIOSO

Palmas para o cineasta Peter Jackson que conduziu o projeto com grande paixão e controlou todos os aspectos da produção

- por André Lux, crítico-spam

"O mundo está dividido entre aqueles que leram O SENHOR DOS ANÉIS e aqueles que não leram". Essa frase cunhada de um famoso jornal estadunidense serve perfeitamente para expressar o impacto e a importância da obra de J.R.R. Tolkien no mundo ocidental.

Agora, graças ao cineasta Peter Jackson, a balança vai pender ainda mais para o primeiro lado, pois o cineasta é o responsável pela mais audaciosa adaptação de O SENHOR DOS ANÉIS. E o resultado final não poderia ser melhor. Palmas para Jackson que conduziu o projeto com grande paixão e controlou todos os aspectos da produção, evitando assim que fossem cometidos os mesmos erros da fraca adaptação para as telas de HARRY POTTER, que acabou nas mãos de um diretor medíocre e teve qualquer chance de tornar-se um ótimo filme de fantasia dissolvidas pelo excesso de merchandising e preocupações em agradar as exigências absurdas da autora.

Jackson seguiu o caminho oposto. Controlou tudo desde o início, escalou um elenco formidável, com poucos nomes famosos mas que esbanjam talento e competência, não fez concessões comerciais (exceto talvez chamar Enya para compor duas canções) e colocou a cara para bater, inclusive indo contra os herdeiros de Tolkien que rejeitaram o projeto. Azar deles, pois o primeiro capítulo da trilogia, A SOCIEDADE DO ANEL, é acima de tudo um filme maravilhoso para os olhos e para os ouvidos. Tudo que aparece em cena é perfeito - as paisagens, os efeitos especiais, os cenários...

Realmente os efeitos visuais são um caso aparte: fluídos, extremamente naturais e convincentes, jamais agridem os sentidos ou desviam a atenção da trama. São impressionantes as primeiras cenas em que Galdalf (Ian McKellen) interage com Bilbo (Ian Holm). Quem não conhece vai sair do cinema achando que Holm é realmente um anãozinho!

Outro ponto alto do filme é a sua música. Jackson acertou em cheio ao chamar Howard Shore (dos filmes de David Cronenberg e SEVEN), um músico de verdade para compor, orquestrar e conduzir a trilha sonora, batendo o pé contra as exigências do estúdio, que queria contratar James Horner (de TITANIC) ou o medíocre Danny Elfman, que já havia trabalhado com Jackson em OS ESPÍRITOS. Shore compôs para O SENHOR DOS ANÉIS uma música séria, complexa e isente de clichés banais, alternando magistralmente momentos bucólicos (associados aos Hobbits) e plácidos a outros pesados e aterrorizantes (o ponto alto é a seqüência nas Minas de Moira, especialmente com a chega do Balrog quando o coral de vozes sussurantes causa calafrios na espinha). Isso sem falar no tema da Sociedade do Anel, que transmite com perfeição toda a nobreza e grandiosidade dos Nove Companheiros e sua terrível missão.

É claro que o filme tem alguns defeitos (a seqüência da fuga de Bri até a chegada ao Topo do Vento é rápida e truncada demais) e problemas (efeitos grotescos desnecessários, como o nascimento dos Huruk-Hai, Bilbo ficando com carinha de monstro repentinamente, Galadriel transformando-se em bruxa flutuante), mas que jamais chegam a comprometer o resultado final. Ainda mais se levarmos em conta a excelência do elenco, que jamais deixa o filme cair. Elijah Wood impressiona como Frodo e consegue passar com tranquilidade o fardo carregado pelo pacato Hobbit que tem em suas mãos o destino da Terra-Média. Ian McKellen esbanja carisma como o mago Gandalf e, juntamente com Christopher Lee (como Saruman), roubam todas as cenas em que aparecem.

Vigo Mortensen dá o tom exato ao arredio, porém nobre Passolargo (cuja importância e participação na trama vão aumentar nos próximos filmes). Mas quem surpreende é Sean Bean (de RONIN e JOGOS PATRIÓTICOS), um ator até então antipático e afetado, que conseguiu passar de forma extremamente convincente todo o conflito vivido pelo guerreiro Boromir. Apenas Orlando Bloom, como o elfo Legolas, acaba sendo inexpressivo demais e não causa maior impacto.

Não há mesmo muito mais o que dizer de um filme desse porte, cujo esmero técnico é balanceado por uma trama densa, complexa e rica em detalhes e magia - perfeitamente captados pelo roteiro brilhante de Philippa Boyens, Peter Jackson, Stephen Sinclair, Frances Walsh - que ainda tomou decisões sabias ao mudar alguns elementos do livro.

Há que se lamentar entretanto os comentários insidiosos perpetrados por pseudo-críticos (como os publicados pela revista Capricho e pelos jornais O Globo e Folha de São Paulo), que entre outras imbecilidades qualificaram A SOCIEDADE DO ANEL como "um filme gay" ou "caça-níqueis". Infelizmente, em tempos de cinismo e mediocridade exacerbados deve mesmo ser difícil para pessoas mal resolvidas e pretensiosas ver nas telas homens chorando, abraçando-se e até beijando-se em nome de laços de amizade forjados à base de nobreza e de sacrifício, ou mesmo ter capacidade para enxergar o que existe por trás de toda a mística e magia existentes na trama. Para esses, existe sempre a psicoterapia ou mesmo um filme para quem gosta de fazer "cara de conteúdo"...

Para todo o resto, sobram momentos de pura emoção e alegria que somente um grande filme baseado na obra do grande J.R.R. Tolkien poderia passar.

Cotação: * * * * *

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Filmes: "Valente"

DESANIMADO

O maior defeito do filme é sua história, que sai do nada e chega a lugar nenhum e é cheia de passagens forçadas

- por André Lux, crítico-spam

É bem desanimado esse 13º desenho digital dos estúdios Pixar, que já nos brindou com gemas como a trilogia “Toy Story” e “Os Incríveis”. O maior defeito do filme é sua história, que sai do nada e chega a lugar nenhum e é cheia de passagens forçadas (como o encontro com a bruxa e toda a trama que resulta disso). Por sinal, a maneira como os elementos de magia são introduzidos destoam muito do resto.

Também não convence a figura da princesa que é preparada por sua mãe para ser a próxima rainha enquanto ela quer mesmo é se aventurar pela floresta e disparar flechas com seu arco. É esse conflito entra mãe e filha que vai dar tom a todo o filme e não se avança além disso. O desenho é bonito e bem feito, porém tem poucos personagens e raros momentos de humor (não sabem nem aproveitar direito os três irmãos pequenos da heroína). A melhor coisa do filme acabam sendo os ursos, muito bem animados. Nem a música de Patrick Doyle chega a marcar, por demais calcada em sonoridades celtas e abusando das gaitas de foles em várias passagens.

Há também a duvidosa mensagem que o filme quer passar, de que cada um pode ser responsável pelo seu próprio destino, o que é atingido pela protagonista de maneira bastante arriscada e inconsequente, ou seja, não sei se é muito adequada para as crianças. Enfim, é uma decepção para quem está acostumado com alto nível das produções da Pixar.

Cotação: * *

sábado, 28 de julho de 2012

Filmes: "Hulk", de Ang Lee

MONSTRUOSAMENTE RIDÍCULO

Gorila verde com cara de bebê-Johnson é a estrela do primeiro (e, torçamos, último) pretenso filme-de-arte baseado em quadrinhos

- por André Lux, crítico-spam

Tudo o que tem sido dito sobre HULK é, infelizmente, verdade. O filme é realmente um horror. Chega a ser monstruosamente ridículo em praticamente todos os seus intermináveis 138 minutos de duração! É inacreditável que a Universal tenha gasto 120 milhões de dólares para produzir essa que é, de longe, a pior adaptação de um personagem de quadrinhos, indefensável em todos os aspectos, mesmo para os admiradores mais fanáticos (perto disso até mesmo o fraquinho HOMEM-ARANHA vira uma obra-prima). Uma total abominação que, tudo indica, pretendia ser o primeiro "filme de arte" baseado num comic book. Tomara que seja o último...

Essa pretensão "artística" fica evidente na tentativa de aprofundar os personagens inserindo alguns subtextos psicológicos e nuances pseudo-filosóficos que poderiam até ser louváveis, caso tudo não fosse destruído pela direção totalmente inadequada e, pior, pretensiosa-até-a-última-gota do chinês Ang Lee (o mesmo dos superestimados RAZÃO E SENSIBILIDADE e O TIGRE E O DRAGÃO). E é exatamente aí que reside o maior erro do filme: ele se leva a sério do começo ao fim, parece até novela mexicana. Não há um momento de humor, exceto aqueles involuntários que fazem a gente rir a toda hora e sempre nos momentos errados. Mesmo defeito, diga-se de passagem, do filme anterior de Lee no qual guerreiros "ninja" trocavam diálogos risíveis sobre o sentido da vida antes de sairem voando e andando em paredes.

Falando nisso, existem três seqüências em HULK que já merecem entrar de cara para a antologia das cenas mais ridículas da história do cinema: a luta do gigante verde contra três cães-monstros (incluindo aí um hilariante "poodle do inferno"), o vilão loiro (Josh Lucas) todo engessado dando choques no pobre Bruce Banner e, obviamente, toda a seqüência na qual o pai do monstro (Nick Nolte, que parece atuar sob o efeito de drogas alucinógenas) grita e baba, culminando com ele mordendo alucinadamente um fio de alta tensão!

E, por falar no papai Banner, toda a trama envolvendo a história do cientista louco que injeta em si mesmo suas experiências, passando os resultados para o seu filho, é inútil e redundante. Poderia ter sido eliminada sem maiores prejuízos. Ao menos deixaria o filme mais curto e menos tedioso, livrando-nos da penosa experiência de ser obrigados a ouvir diálogos pretensamente profundos que soam incrivelmente rasos e fora de lugar, já que são calcados em psicologia de almanaque. Que besteira é aquela sobre "memórias reprimidas"? Trata-se de um filme sobre um homem que fica nervoso e vira um monstro verde, pelo amor de deus!

Mas nada pode salvar um filme que traz como principal chamariz uma criatura tão lamentavelmente criada como o HULK em questão. Os efeitos não são ruins, pelo contrário. O problema é mesmo o design do monstro, que ficou parecendo um gorila verde com cara de bebê-Jonhson. Pior, Hulk é oco, sem vida. Seus ataques não têm peso (tudo é filmado em velocidade acelerada, o que impede que se criem relações de escala), suas motivações não existem, seus gritos histéricos são patéticos. Com um material como esse em mãos, nem mesmo os melhores técnicos em computação gráfica podem salvá-lo do desastre. O fracasso da figura do monstro é tão evidente que nem mesmo os brinquedos derivados do filme seguem o design do Hulk visto nas telas!

E se não bastasse tudo isso, escolheram para fazer o papel de Bruce Banner um sujeito com talento limitado e carisma zero (Eric Bana). Nem mesmo sua relação com Betty Ross provoca qualquer tipo de emoção, primeiro porque o casal já inicia o filme em fase de separação (não trocam nem mesmo um carinho que seja durante toda a projeção!) e, segundo, por causa da magreza excessiva de Jenniffer Connelly que parece ter optado definitivamente pelo visual "mulher-palito", típico de modelos de passarelas. Continua bonita e talentosa (embora aqui atue no piloto automático), mas não tem mais o mesmo charme e exuberância que mostrou em filmes como O PREÇO DA TRAIÇÃO ou mesmo ROCKETEER. Ou seja: a química entre o casal é inexistente, não há qualquer erotismo ou mesmo romance e, por causa disso, não convence nem um pouco quando usam a moça para tentar acalmar o Hulk e todo o pretenso "drama" que decorre disso.

Como era de se esperar a trilha musical do amador Danny Elfman (que ao menos tem a desculpa de ter substituído na última hora o compositor Mychael Danna, cuja partitura original foi rejeitada) também atrapalha, principalmente quando insere solos de instrumentos étnicos (como um duduk e percussão africana) ou vocalizações de estilo oriental, os quais destoam completamente tanto da proposta do projeto quanto do que se vê na tela.

Sinceramente, daria pra ficar falando dos aspectos negativos do filme por horas. Por isso, para encurtar, basta dizer que ele é tão ruim, mas tão ruim, que chega a ser até engraçado. Quem quiser entrar no cinema para tirar sarro do que vê na tela, HULK do Ang Lee é a escolha certa. Um filme que, sem dúvida, já figura entre os maiores clássicos do cinema-trash-involuntário, ao lado de preciosidades como PLAN 9 FROM OUTER SPACE, de Ed Wood, e CIDADE DOS SONHOS, de David Lynch. Ou seja: é um filme que como aventura dá sono e como drama só provoca o riso.

Interessante, todavia, é notar que alguns críticos tentam nos convencer que o novo filme do chinês é uma "obra-prima" da sétima arte! Duvido muito que se HULK tivesse sido dirigido por um Peter Jackson (de O SENHOR DOS ANÉIS) ou mesmo pelos irmãos Wachowsky (MATRIX) e tivesse resultado exatamente igual ao filme de Ang Lee, esses senhores o estariam louvando tanto... Mais uma prova de que certos cineastas possuem prestígio inatacável, não importando a qualidade real de seus filmes. É ver para crer.

Cotação: Abaixo de zero

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Filmes: "Na Estrada"

REBELDES SEM CAUSA

Sair por aí se drogando, roubando, gerando filhos e vivendo na imundice para depois escrever sobre essas experiências passa longe do meu ideal de “revolução”.

- por André Lux, crítico-spam

Dizem que a chamada geração beatnik “mudou o mundo” e o comportamento das pessoas gerando uma legião de apreciadores de seu estilo de escrever. 

Pode até ser, mas para mim não eram mais do que moleques sem eira nem beira que passaram a maior parte da juventude fumando maconha, bebendo álcool e usando outras drogas pesadas enquanto viajavam de um lugar para outro sem qualquer motivo ou razão de ser e transavam entre si sem maiores consequências.

Pelo menos é isso que nos ensina essa adaptação de “Na Estrada” do papa do movimento beatnik Jack Kerouac, que morreu aos 47 anos de cirrose decorrente de seu alcoolismo. O brasileiro Walter Salles filma tudo com grande respeito à obra e quer nos convencer que aqueles garotos sem rumo e drogados seriam uma espécie de “oráculos da nova era”. Todavia tudo que produziram depois nada mais foi do que narrar suas próprias desventuras recheadas de drogas e imundice (toda vez que alguém começa a se beijar no filme vem logo uma pergunta à mente: “quando será que foi a última vez que eles escovaram os dentes?”).

Não tenho nada contra a experimentação ou mesmo a rebeldia, desde que tenha alguma causa ou sentido. Mas não é o que se vê aqui, onde todos podem ser descritos como meros rebeldes sem causa. Muita gente vai querer defendê-los dizendo que lutavam contra o sistema, mas isso é balela. Pelo menos no filme em questão não há qualquer discussão ou debate sobre isso e os personagens passam o tempo inebriados pela fumaça de seus cigarros de maconha e pelos delírios literários autoindulgentes, enquanto rumam velozmente para a autodestruição.

Ao assistir “Na Estrada” veio a mente a comparação com “Diários de Motocicleta”, o outro filme de Salles sobre uma viagem, onde acompanhamos o jovem Che Guevara conhecendo a américa latina junto com seu amigo Alberto Granado. Mas as semelhanças terminam aí. 

Enquanto em “Diários” acompanhamos o amadurecimento do protagonista decorrente das experiências e encontros que absorve durante a viagem, fato que o ajudou a se tornar um dos maiores ícones da luta contra a opressão no mundo, em “Na Estrada” observamos entediados um bando de jovens autodestrutivos perambulando de um local para o outro sem qualquer traço de amadurecimento ou mesmo aprendizado.

Numa das cenas mais repugnantes do filme, vemos Viggo Mortensen (no papel de Bull Lee, que seria o alter-ego do escritor beat William Burroughs) dormindo com o filho no colo depois de se injetar na veia com heroína ou coisa que o valha, enquanto a esposa igualmente drogada sai correndo atrás de lagartixas no mato. É por isso que essa gente se considerava “contra o sistema”? E por falar em Burroughs, seu livro mais famoso “O Almoço Nu” também virou um filme nas mãos de David Cronenberg (aqui ridiculamente chamado de “Mistérios e Paixões”) e resultou num produto igualmente intragável e inútil.

Entendo que para muita gente esse mundo repleto de junkies autodestrutivos produz uma forte atração, porém obviamente não é o meu caso. Sair por aí se drogando, roubando lojas, gerando filhos de maneira inconsequente e vivendo na imundice para depois escrever sobre essas experiências passa longe do meu ideal de “revolução”.

Cotação: *

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Filmes: "Prometheus"

EJACULAÇÃO PRECOCE

Ridley Scott vem se masturbando há décadas com a ideia de fazer um filme no universo de “Alien” só para aparecer com essa porcaria

- por André Lux, crítico-spam

Sou grande admirador de “Alien – O 8º Passageiro” e, portanto, estava bastante ansioso para ver esse “Prometheus” que segundo seu diretor, Ridley Scott, aconteceria no mesmo universo de seu filme de 1979. 

Mas, para azar nosso, Scott confirma que perdeu completamente a mão e não é nem a sombra do cineasta que já nos brindou com pérolas como “Blade Runner” e “Os Duelistas”. Seu último bom filme foi mesmo “1492” e depois disso só fez porcarias como “Gladiador”, “Falcão Negro em Perigo” e “Hannibal”.

“Prometheus” é o nome da nave que leva 17 pessoas para um planeta que poderia responder a questão de quem criou a raça humana e tenta elevar o nível de pretensão ao fazer referência à mitologia grega, onde Prometeu era o humano que roubou o fogo dos Deuses e por isso foi condenado ao sacrifício eterno. Bobagem, isso não tem nada a ver com o filme e a única coisa que o liga ao primeiro “Alien” são os desenhos de produção baseados no trabalho do artista plástico H.R. Giger para o original. O resto do design do filme é fraco e sem graça.

O que derruba mesmo as pretensões de Scott é roteiro confuso e sem pé nem cabeça que levanta uma série de questões sem resposta e, na maioria, idiotas, como: que motivos teria o robô interpretado por Michael Fassbender para infectar um dos tripulantes da nave? 

Outra coisa que incomoda é o fato dos personagens agirem de maneira estúpida, como nos filmes da série “Sexta-Feira 13”, só para serem mortos ou virarem monstros quando são infectados (e aí o filme fica muito mais parecido com “O Enigma de Outro Mundo”, de John Carpenter, do que com o “Alien” - sem dizer que o começo lembra demais o primeiro "Alien vs Predador", o que não é o maior dos elogios).

Um fator que me incomodou muito forem terem descaracterizado completamente o “space jockey”, que era aquele alienígena esquisito sentado numa enorme cadeira em “Alien”. No filme original ficava evidente que se tratava de um esqueleto, inclusive os protagonistas verbalizam isso dizendo “parece fossilizado e grudado na cadeira”. Mas aqui no novo filme se transformam em figuras humanas que vestem uma armadura! Ou seja, nem pra respeitar a mitologia do primeiro “Alien” foram capazes!


Enganação: o space jockey de "Prometheus" é bem diferente do de "Alien"
O elenco é muito fraco, com destaque negativo para a bela Charlize Theron que passa o filme fazendo caras e bocas de menina má como a filha do multimilionário Weyland, dono da bendita companhia que está sempre por trás dos malfeitos na séria “Alien”. 

Além disso, o filme tem uma trilha musical fraca e inadequada composta por um dos discípulos do abominável Hans Zimmer (em uma cena chegam a tocar sem maior lógica o tema do primeiro “Alien”, composto por Jerry Goldsmith).

E pensar que Ridley Scott vem se masturbando há décadas com essa ideia de fazer um filme no mesmo universo de “Alien” só para aparecer com essa porcaria que mais parece uma ejaculação precoce!

Cotação: * 1/2

Duna: No limite da fantasia com a ficção científica

Livro de Frank Herbert corresponde bem ao paradigma da 'soft science fiction'

- por Antonio Luiz M. C. Costa, na Carta Capital

Seguindo sua linha de republicações de clássicos da ficção científica, a Editora Aleph, que já havia reeditado Duna de Frank Herbert (R$ 56, 544 págs.), agora relança também Messias de Duna (R$ 39, 216 págs.) o livro dois da saga – termo muito abusado pelo mercado editorial, mas neste caso bem aplicado, pois se trata da história de uma linhagem ao longo de várias gerações.

Os volumes desta série estão entre os textos mais interessantes da chamada New Wave (Nova Onda) que dominou a ficção científica dos EUA nos anos 1960 e 1970 e para muitos fãs é a melhor série do gênero em todos os tempos. A New Wave tendeu a especular sobre filosofia, política e ciências humanas, que os anglo-saxões chamam soft sciences e deu menos peso às hard sciences, à tecnologia e às ciências exatas e seu ethos, em contraste com a ficção científica “clássica” da Golden Age (Idade de Ouro) dos anos 1930 aos 1950, na qual se destacaram nomes como Arthur C. Clarke e Isaac Asimov.

Embora aborde as ciências naturais com propriedade ao menos no caso da ecologia, de resto a obra de Herbert corresponde bem ao paradigma da soft science fiction. Mesmo situado num futuro muito distante de guerras e impérios interestelares, o universo de Duna é moldado por poderes místicos e forças políticas e religiosas tradicionais. Não há robôs ou inteligências artificiais – suas funções são preenchidas por seres humanos treinados em fantásticas disciplinas mentais – nem a hegemonia da tecnocracia usual na Golden Age.

Soberanos, nobres, profetas e tribos supersticiosas governam as estrelas, com crenças e costumes mais estranhos e intrigas mais grandiosas do que jamais se viu na história real. Naves espaciais, terminologia científica e alguns recursos tecnológicos à parte, é essencialmente um romance de fantasia. O fato de que o domínio de certas ciências é restrito a certos grupos fechados, que poderes paranormais tenham um papel de destaque e seu uso e funcionamento sigam regras arbitrárias e caprichosas indicam que tudo isso é magia disfarçada. Como entender de outra forma um universo no qual a ciência é capaz de alterar a ecologia de planetas inteiros e ressuscitar os mortos, mas a mulher de um poderoso corre o risco de morrer de parto?

Trata-se, em todo caso, de fantasia de primeira qualidade, muito mais densa em força dramática e inteligente nas intrigas e dos questionamentos éticos do que se costuma encontrar no gênero. E apesar de não pretender fazer uma previsão realista do futuro, em alguns momentos parece ter profetizado tão bem os problemas geopolíticos de hoje que se é tentado a acreditar nos poderes de presciência atribuídos ao melange, a droga do planeta Arrakis consumida pelos protagonistas que pode ser entendida como uma metáfora do petróleo, pois é a mercadoria-chave que torna possível os transportes e a civilização do seu universo.

Já nos anos 1960 (Duna é de 1964 e Messias de Duna de 1969, embora as sequências sejam dos anos 1970 e 1980), Herbert pareceu prever o papel central que o controle do petróleo e sua concentração no mundo árabe dariam ao Islã no século XXI. No primeiro livro, Paul Atreides, um nobre estrangeiro adotado por uma tribo de nômades do deserto inclinados ao fanatismo religioso, torna-se o líder de seu movimento, muito semelhante ao fundamentalismo islâmico em caráter e vocabulário (são fedaykin, ou seja, fedayyin, os que conduzem a Jihad), derruba um imperador Shaddam IV (apesar de Saddam Hussein ter chegado ao poder só em 1968), põe o mundo civilizado de joelhos e implanta uma espécie de califado universal, como sonhava Osama bin Laden.

Passando do aspecto profético ao literário, deve-se dizer, sem exagero, que há mais seriedade nos questionamentos éticos, mais complexidade nos estratagemas e mais senso de história e de tragédia em um capítulo de Messias de Duna do que em todo um volume das Crônicas de Gelo e Fogo de George R. R. Martin. Ao contrário da maioria das sequências de obras do gênero, que tendem a repetir o tom, as batalhas e as fórmulas do primeiro volume com pequenas variações de nomes e contexto, este livro é tão diferente do primeiro volume em ritmo e abordagem que poderia parecer de outro autor.

Em vez de um cenário de amplidão interestelar e batalhas épicas num planeta fantástico, a trama agora se concentra nos relativamente poucos personagens da família Atreides – que, vitoriosa em Duna, agora desfruta de um poder político e religioso absoluto e universal – e de uma intriga palaciana que visa derrubá-la. A mudança de enfoque permite passar a um tom mais subjetivo e intimista, desenvolver a personalidade dos personagens principais e explorar suas tensões e conflitos, ainda que estes possam ter consequências cósmicas.

Os poderes paranormais e proféticos do protagonista, Paul Atreides, o Imperador Muad’dib, são bem aproveitados para lhe dar consciência do destino trágico para o qual caminha e do qual não pode fugir sem concretizar alternativas muito piores para ele mesmo e para a humanidade. Deve-se advertir que a dimensão cada vez mais sobre-humana à qual ele e outros personagens importantes são elevados dificulta a identificação do leitor, reles mortal, com eles e seus dilemas transcendentes. É preciso assumir um ponto de vista entre o épico e o sagrado para se interessar sinceramente por essas figuras cujas motivações são mais complexas do que o poder e riqueza que já conquistaram em escala além da imaginação, e ao mesmo tempo uma abertura para o maravilhoso que não cessa de trazer novas surpresas, sempre no limite do aceitável sem quebrar o delicado pacto de verossimilhança com o leitor.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Filmes: "Cidade de Deus"

O BRASIL QUE O BRASIL NÃO QUER VER

Nunca um filme retratou com tanta precisão o mundo dos "excluídos" , cuja proximidade e violência crescentes nos obrigam a encarar de frente a falência social do país

- por André Lux, crítico-spam

CIDADE DE DEUS é mais uma prova incontestável do talento e da força que existem no cinema brasileiro, geralmente reconhecido no resto do mundo mas ignorado por aqui. Nunca antes um filme retratou com tanta precisão o mundo dos "excluídos" que, levando-se em conta os dados mais recentes de organizações humanitárias, já chegam a cerca de 60% da população do Brasil. Pessoas sem futuro, sem esperança, totalmente marginalizadas por um sistema que não apenas as isola, mas também as reprime e caça como animais - mesmo que as políticas sociais inclusivas dos governos de esquerda de Lula e Dilma tenham trazido um pouco mais de dignidade a elas.

O filme de Fernando Meireles realmente merece todos os elogios que vem recebendo. É, antes de mais nada, tecnicamente estupendo, não fica devendo quase nada se comparado aos blockbusters holywoodianos: tem fotografia perfeita, montagem vigorosa e incrivelmente ágil, roteiro não-linear que faria inveja aos Tarantinos da vida e trilha sonora marcante (embora a mixagem do som ainda deixe um pouco a desejar, tornando os diálogos por vezes incompreensíveis). Mas sem dúvida o que mais impressiona é o elenco, composto praticamente todo por atores amadores, muitos representando papeis certamente bem próximos à realidade deles. Nunca o cinema nacional mostrou com tanta verdade a cultura dos "esquecidos" e o gingado de um povo que, mesmo sofrido, ainda consegue rir e ter prazer. Pela primeira vez podemos ouvir alguém dizendo "Seu filho da puta!" sem parecer estar declamando um poema de Camões.

Mas, o que mais choca e marca em CIDADE DE DEUS é a naturalidade com que os personagens interagem, agindo sempre acima de qualquer moral conhecida pela "sociedade oficial", trancafiada dentro de seus condomínios fechados cada vez mais cercados por altos muros e seguranças armados. Se no filme de Meireles a realidade violenta dos guetos e favelas é chocante, hoje em dia o medo é ainda maior, já que a distância entre esse mundo marginalizado e a nossa "bolha de ilusão" pequeno-burguesa fica cada vez mais estreita.

E é exatamente aí que reside a força de CIDADE DE DEUS, ao mostrar com riquesa de detalhes o desenvolvimento da violência e da marginalidade, exatamente de dentro para fora da própria sociedade. Os excluídos estão cada vez mais perto e sua opção pelo crime não é nada mais do que uma mera escolha lógica e plausível, coerente com a realidade de suas vidas. "Se o tráfico fosse considerado como um negócio normal, Zé Pequeno teria sido escolhido o 'homem-do-ano'", afirma Buscapé (Alexandre Rodrigues, que é o fio condutor de todo o filme) ao ver o sucesso financeiro do líder das bocas locais.

Sem fazer concessões e mostrando a violência com realismo impressionantes (mas sem excesso de sangue ou detalhes sórdidos), CIDADE DE DEUS peca apenas por não ir mais fundo na ferida, lembrando de mostrar a corrupção policial mas "esquecendo" de abordar justamente o elo mais importante nessa ignóbil cadeia de corrupção: o dos verdadeiros donos do pedaço, os grande "empresários" do tráfico cujas conexões fazem chegar a droga dentro das favelas. Talvez por medo de cutucar demais a onça com vara curta (ou por exigência dos próprios traficantes que, caso contrário, não permitiriam as filmagens in loco) temos a impressão que a droga e os pesados armamentos que usam "brotam" dentro da favela, sem maiores conseqüências. Esse é, talvez, o único ponto baixo do filme ou falha, se preferir. Outra reserva pode ser feita também em relação ao início, nos anos 60, que poderia ter sido enxugado fazendo a ação propriamente dita começar mais cedo.

Mas é pouco para tirar o caráter de importância e pertinência dessa obra, realizada com inacreditável competência e vigor. Alguns críticos acusam o filme de ser "descontextualizado", tratando a favela como um micro-cosmos alheio ao resto da sociedade. Bobagem. É exatamente isso que dá força ao filme: a visão de dentro, vista por quem vive lá. E se nos anos 1970 a favela era realmente algo praticamente deslocado do sistema, hoje ela o invade cada vez mais e com ferocidade crescentes. Ou seja: não tem mais como ignorar os "excluídos". Eles estã aí, na nossa porta. E não estão contentes.

Cotação: * * * * *

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Filmes: "O Iluminado"

FRIEZA E PERFECCIONISMO EXCESSIVOS

Kubrick, um ateu confesso, teve problemas para absorver e traduzir para a tela o tom sobrenatural que King imprimiu à história, deixando o roteiro confuso e frouxo

- por André Lux, crítico-spam

O ILUMINADO é geralmente aclamado como um dos mais assustadores filmes já feitos. Nem tanto. Apesar de ter sido realizado por Stanley Kubrick, um dos grandes gênios da sétima arte, foi baseado na obra do especialista Stephen King.

O problema é que, no livro, o tom sobrenatural predonima desde o início, servindo como justificativa para a crescente loucura do escritor desempregado Jack Torrance (Jack Nicholson), que consegue ser contratado para cuidar da manutenção do hotel Overlook durante o inverno, período durante o qual permanece totalmente fechado e isolado por causa da neve. Junto com ele vão sua mulher (Shelley Duval) e seu filho (Danny Lloyd), que é sensitivo e tem visões da tragédia eminente.

No livro Torrance é pintado com tintas extremamente humanas (sua luta contra o alcolismo e a busca da reconciliação com a família são os pontos de sustentação de toda a trama). Kubrick, entretanto, preferiu deixar isso de lado, concentrando-se em criar cenas gélidas e um constante clima de mistério que, apeser de gerar seqüências absolutamente aterrorizantes (como as aparições das duas meninas mortas), deixam o desenvolvimento dos personagens em segundo plano.

Por causa disso, a loucura de Torrance parece injustificada e, pior, fria e sem conexão com o resto. Se no livro era o próprio hotel quem o seduzia e o consumia, no filme ele já age como um demente desde o início, impedindo que nos identifiquemos com o drama de seu personagem e dos que o rodeiam (o que deixa Jack Nicholson livre para exagerar nas caretas na tentativa de compensar essa falta de profundidade). Por isso, quando os fantasmas do Overlook começam a aparecer para ele temos a impressão de alienação, como se tudo aquilo entrasse na trama de maneira forçada e ilógica.

A verdade é que Kubrick, um ateu confesso, teve problemas para absorver e traduzir para a tela o tom sobrenatural que King imprimiu à história (os desentendimentos entre os dois são famosos e o autor rejeita o filme até hoje), deixando o roteiro confuso e frouxo - parece querer nos convencer que Torrance sofre na verdade de alucinações, só que da metade para o fim volta para o sobrenatural, pois todos começam a vê-las também. Ou seja: fica num meio termo, entre o drama psicológico e o sobrenatural, sendo que as duas aproximações nunca se casam satisfatoriamente.

Outro ponto baixo do filme é a atuação de Shelley Duvall como Wendy, por demais exagerada e incapaz de convencer principalmente no final (Kubrick chegou a fazê-la regravar uma tomada 127 vezes!). Há também um exagero no uso da trilha sonora, toda composta por músicas eruditas de Bartók (com "Music for Strings, Percussion, and Celesta"), Berlioz, Ligeti e Penderecki, repetidas à exaustão e de maneira óbvia em certas seqüências.

No final das contas, O ILUMINADO é um bom filme de terror, capaz de gelar a espinha de qualquer espectador durante vários momentos, mas que não sobrevive a uma análise mais apurada, mesmo porque foi baseado em um livro extremamente rico em detalhes dramáticos. Faltou, portanto, um tom mais humano ao projeto, certamente prejudicado pela frieza e perfeccionismo técnico excessivos de Kubrick que aqui acabaram trabalhando contra ele, infelizmente.

Cotação: ***1/2