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sexta-feira, 15 de junho de 2012

Filmes: "Prometheus"

EJACULAÇÃO PRECOCE

Ridley Scott vem se masturbando há décadas com a ideia de fazer um filme no universo de “Alien” só para aparecer com essa porcaria

- por André Lux, crítico-spam

Sou grande admirador de “Alien – O 8º Passageiro” e, portanto, estava bastante ansioso para ver esse “Prometheus” que segundo seu diretor, Ridley Scott, aconteceria no mesmo universo de seu filme de 1979. 

Mas, para azar nosso, Scott confirma que perdeu completamente a mão e não é nem a sombra do cineasta que já nos brindou com pérolas como “Blade Runner” e “Os Duelistas”. Seu último bom filme foi mesmo “1492” e depois disso só fez porcarias como “Gladiador”, “Falcão Negro em Perigo” e “Hannibal”.

“Prometheus” é o nome da nave que leva 17 pessoas para um planeta que poderia responder a questão de quem criou a raça humana e tenta elevar o nível de pretensão ao fazer referência à mitologia grega, onde Prometeu era o humano que roubou o fogo dos Deuses e por isso foi condenado ao sacrifício eterno. Bobagem, isso não tem nada a ver com o filme e a única coisa que o liga ao primeiro “Alien” são os desenhos de produção baseados no trabalho do artista plástico H.R. Giger para o original. O resto do design do filme é fraco e sem graça.

O que derruba mesmo as pretensões de Scott é roteiro confuso e sem pé nem cabeça que levanta uma série de questões sem resposta e, na maioria, idiotas, como: que motivos teria o robô interpretado por Michael Fassbender para infectar um dos tripulantes da nave? 

Outra coisa que incomoda é o fato dos personagens agirem de maneira estúpida, como nos filmes da série “Sexta-Feira 13”, só para serem mortos ou virarem monstros quando são infectados (e aí o filme fica muito mais parecido com “O Enigma de Outro Mundo”, de John Carpenter, do que com o “Alien” - sem dizer que o começo lembra demais o primeiro "Alien vs Predador", o que não é o maior dos elogios).

Um fator que me incomodou muito forem terem descaracterizado completamente o “space jockey”, que era aquele alienígena esquisito sentado numa enorme cadeira em “Alien”. No filme original ficava evidente que se tratava de um esqueleto, inclusive os protagonistas verbalizam isso dizendo “parece fossilizado e grudado na cadeira”. Mas aqui no novo filme se transformam em figuras humanas que vestem uma armadura! Ou seja, nem pra respeitar a mitologia do primeiro “Alien” foram capazes!


Enganação: o space jockey de "Prometheus" é bem diferente do de "Alien"
O elenco é muito fraco, com destaque negativo para a bela Charlize Theron que passa o filme fazendo caras e bocas de menina má como a filha do multimilionário Weyland, dono da bendita companhia que está sempre por trás dos malfeitos na séria “Alien”. 

Além disso, o filme tem uma trilha musical fraca e inadequada composta por um dos discípulos do abominável Hans Zimmer (em uma cena chegam a tocar sem maior lógica o tema do primeiro “Alien”, composto por Jerry Goldsmith).

E pensar que Ridley Scott vem se masturbando há décadas com essa ideia de fazer um filme no mesmo universo de “Alien” só para aparecer com essa porcaria que mais parece uma ejaculação precoce!

Cotação: * 1/2

Duna: No limite da fantasia com a ficção científica

Livro de Frank Herbert corresponde bem ao paradigma da 'soft science fiction'

- por Antonio Luiz M. C. Costa, na Carta Capital

Seguindo sua linha de republicações de clássicos da ficção científica, a Editora Aleph, que já havia reeditado Duna de Frank Herbert (R$ 56, 544 págs.), agora relança também Messias de Duna (R$ 39, 216 págs.) o livro dois da saga – termo muito abusado pelo mercado editorial, mas neste caso bem aplicado, pois se trata da história de uma linhagem ao longo de várias gerações.

Os volumes desta série estão entre os textos mais interessantes da chamada New Wave (Nova Onda) que dominou a ficção científica dos EUA nos anos 1960 e 1970 e para muitos fãs é a melhor série do gênero em todos os tempos. A New Wave tendeu a especular sobre filosofia, política e ciências humanas, que os anglo-saxões chamam soft sciences e deu menos peso às hard sciences, à tecnologia e às ciências exatas e seu ethos, em contraste com a ficção científica “clássica” da Golden Age (Idade de Ouro) dos anos 1930 aos 1950, na qual se destacaram nomes como Arthur C. Clarke e Isaac Asimov.

Embora aborde as ciências naturais com propriedade ao menos no caso da ecologia, de resto a obra de Herbert corresponde bem ao paradigma da soft science fiction. Mesmo situado num futuro muito distante de guerras e impérios interestelares, o universo de Duna é moldado por poderes místicos e forças políticas e religiosas tradicionais. Não há robôs ou inteligências artificiais – suas funções são preenchidas por seres humanos treinados em fantásticas disciplinas mentais – nem a hegemonia da tecnocracia usual na Golden Age.

Soberanos, nobres, profetas e tribos supersticiosas governam as estrelas, com crenças e costumes mais estranhos e intrigas mais grandiosas do que jamais se viu na história real. Naves espaciais, terminologia científica e alguns recursos tecnológicos à parte, é essencialmente um romance de fantasia. O fato de que o domínio de certas ciências é restrito a certos grupos fechados, que poderes paranormais tenham um papel de destaque e seu uso e funcionamento sigam regras arbitrárias e caprichosas indicam que tudo isso é magia disfarçada. Como entender de outra forma um universo no qual a ciência é capaz de alterar a ecologia de planetas inteiros e ressuscitar os mortos, mas a mulher de um poderoso corre o risco de morrer de parto?

Trata-se, em todo caso, de fantasia de primeira qualidade, muito mais densa em força dramática e inteligente nas intrigas e dos questionamentos éticos do que se costuma encontrar no gênero. E apesar de não pretender fazer uma previsão realista do futuro, em alguns momentos parece ter profetizado tão bem os problemas geopolíticos de hoje que se é tentado a acreditar nos poderes de presciência atribuídos ao melange, a droga do planeta Arrakis consumida pelos protagonistas que pode ser entendida como uma metáfora do petróleo, pois é a mercadoria-chave que torna possível os transportes e a civilização do seu universo.

Já nos anos 1960 (Duna é de 1964 e Messias de Duna de 1969, embora as sequências sejam dos anos 1970 e 1980), Herbert pareceu prever o papel central que o controle do petróleo e sua concentração no mundo árabe dariam ao Islã no século XXI. No primeiro livro, Paul Atreides, um nobre estrangeiro adotado por uma tribo de nômades do deserto inclinados ao fanatismo religioso, torna-se o líder de seu movimento, muito semelhante ao fundamentalismo islâmico em caráter e vocabulário (são fedaykin, ou seja, fedayyin, os que conduzem a Jihad), derruba um imperador Shaddam IV (apesar de Saddam Hussein ter chegado ao poder só em 1968), põe o mundo civilizado de joelhos e implanta uma espécie de califado universal, como sonhava Osama bin Laden.

Passando do aspecto profético ao literário, deve-se dizer, sem exagero, que há mais seriedade nos questionamentos éticos, mais complexidade nos estratagemas e mais senso de história e de tragédia em um capítulo de Messias de Duna do que em todo um volume das Crônicas de Gelo e Fogo de George R. R. Martin. Ao contrário da maioria das sequências de obras do gênero, que tendem a repetir o tom, as batalhas e as fórmulas do primeiro volume com pequenas variações de nomes e contexto, este livro é tão diferente do primeiro volume em ritmo e abordagem que poderia parecer de outro autor.

Em vez de um cenário de amplidão interestelar e batalhas épicas num planeta fantástico, a trama agora se concentra nos relativamente poucos personagens da família Atreides – que, vitoriosa em Duna, agora desfruta de um poder político e religioso absoluto e universal – e de uma intriga palaciana que visa derrubá-la. A mudança de enfoque permite passar a um tom mais subjetivo e intimista, desenvolver a personalidade dos personagens principais e explorar suas tensões e conflitos, ainda que estes possam ter consequências cósmicas.

Os poderes paranormais e proféticos do protagonista, Paul Atreides, o Imperador Muad’dib, são bem aproveitados para lhe dar consciência do destino trágico para o qual caminha e do qual não pode fugir sem concretizar alternativas muito piores para ele mesmo e para a humanidade. Deve-se advertir que a dimensão cada vez mais sobre-humana à qual ele e outros personagens importantes são elevados dificulta a identificação do leitor, reles mortal, com eles e seus dilemas transcendentes. É preciso assumir um ponto de vista entre o épico e o sagrado para se interessar sinceramente por essas figuras cujas motivações são mais complexas do que o poder e riqueza que já conquistaram em escala além da imaginação, e ao mesmo tempo uma abertura para o maravilhoso que não cessa de trazer novas surpresas, sempre no limite do aceitável sem quebrar o delicado pacto de verossimilhança com o leitor.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Filmes: "Cidade de Deus"

O BRASIL QUE O BRASIL NÃO QUER VER

Nunca um filme retratou com tanta precisão o mundo dos "excluídos" , cuja proximidade e violência crescentes nos obrigam a encarar de frente a falência social do país

- por André Lux, crítico-spam

CIDADE DE DEUS é mais uma prova incontestável do talento e da força que existem no cinema brasileiro, geralmente reconhecido no resto do mundo mas ignorado por aqui. Nunca antes um filme retratou com tanta precisão o mundo dos "excluídos" que, levando-se em conta os dados mais recentes de organizações humanitárias, já chegam a cerca de 60% da população do Brasil. Pessoas sem futuro, sem esperança, totalmente marginalizadas por um sistema que não apenas as isola, mas também as reprime e caça como animais - mesmo que as políticas sociais inclusivas dos governos de esquerda de Lula e Dilma tenham trazido um pouco mais de dignidade a elas.

O filme de Fernando Meireles realmente merece todos os elogios que vem recebendo. É, antes de mais nada, tecnicamente estupendo, não fica devendo quase nada se comparado aos blockbusters holywoodianos: tem fotografia perfeita, montagem vigorosa e incrivelmente ágil, roteiro não-linear que faria inveja aos Tarantinos da vida e trilha sonora marcante (embora a mixagem do som ainda deixe um pouco a desejar, tornando os diálogos por vezes incompreensíveis). Mas sem dúvida o que mais impressiona é o elenco, composto praticamente todo por atores amadores, muitos representando papeis certamente bem próximos à realidade deles. Nunca o cinema nacional mostrou com tanta verdade a cultura dos "esquecidos" e o gingado de um povo que, mesmo sofrido, ainda consegue rir e ter prazer. Pela primeira vez podemos ouvir alguém dizendo "Seu filho da puta!" sem parecer estar declamando um poema de Camões.

Mas, o que mais choca e marca em CIDADE DE DEUS é a naturalidade com que os personagens interagem, agindo sempre acima de qualquer moral conhecida pela "sociedade oficial", trancafiada dentro de seus condomínios fechados cada vez mais cercados por altos muros e seguranças armados. Se no filme de Meireles a realidade violenta dos guetos e favelas é chocante, hoje em dia o medo é ainda maior, já que a distância entre esse mundo marginalizado e a nossa "bolha de ilusão" pequeno-burguesa fica cada vez mais estreita.

E é exatamente aí que reside a força de CIDADE DE DEUS, ao mostrar com riquesa de detalhes o desenvolvimento da violência e da marginalidade, exatamente de dentro para fora da própria sociedade. Os excluídos estão cada vez mais perto e sua opção pelo crime não é nada mais do que uma mera escolha lógica e plausível, coerente com a realidade de suas vidas. "Se o tráfico fosse considerado como um negócio normal, Zé Pequeno teria sido escolhido o 'homem-do-ano'", afirma Buscapé (Alexandre Rodrigues, que é o fio condutor de todo o filme) ao ver o sucesso financeiro do líder das bocas locais.

Sem fazer concessões e mostrando a violência com realismo impressionantes (mas sem excesso de sangue ou detalhes sórdidos), CIDADE DE DEUS peca apenas por não ir mais fundo na ferida, lembrando de mostrar a corrupção policial mas "esquecendo" de abordar justamente o elo mais importante nessa ignóbil cadeia de corrupção: o dos verdadeiros donos do pedaço, os grande "empresários" do tráfico cujas conexões fazem chegar a droga dentro das favelas. Talvez por medo de cutucar demais a onça com vara curta (ou por exigência dos próprios traficantes que, caso contrário, não permitiriam as filmagens in loco) temos a impressão que a droga e os pesados armamentos que usam "brotam" dentro da favela, sem maiores conseqüências. Esse é, talvez, o único ponto baixo do filme ou falha, se preferir. Outra reserva pode ser feita também em relação ao início, nos anos 60, que poderia ter sido enxugado fazendo a ação propriamente dita começar mais cedo.

Mas é pouco para tirar o caráter de importância e pertinência dessa obra, realizada com inacreditável competência e vigor. Alguns críticos acusam o filme de ser "descontextualizado", tratando a favela como um micro-cosmos alheio ao resto da sociedade. Bobagem. É exatamente isso que dá força ao filme: a visão de dentro, vista por quem vive lá. E se nos anos 1970 a favela era realmente algo praticamente deslocado do sistema, hoje ela o invade cada vez mais e com ferocidade crescentes. Ou seja: não tem mais como ignorar os "excluídos". Eles estã aí, na nossa porta. E não estão contentes.

Cotação: * * * * *

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Filmes: "O Iluminado"

FRIEZA E PERFECCIONISMO EXCESSIVOS

Kubrick, um ateu confesso, teve problemas para absorver e traduzir para a tela o tom sobrenatural que King imprimiu à história, deixando o roteiro confuso e frouxo

- por André Lux, crítico-spam

O ILUMINADO é geralmente aclamado como um dos mais assustadores filmes já feitos. Nem tanto. Apesar de ter sido realizado por Stanley Kubrick, um dos grandes gênios da sétima arte, foi baseado na obra do especialista Stephen King.

O problema é que, no livro, o tom sobrenatural predonima desde o início, servindo como justificativa para a crescente loucura do escritor desempregado Jack Torrance (Jack Nicholson), que consegue ser contratado para cuidar da manutenção do hotel Overlook durante o inverno, período durante o qual permanece totalmente fechado e isolado por causa da neve. Junto com ele vão sua mulher (Shelley Duval) e seu filho (Danny Lloyd), que é sensitivo e tem visões da tragédia eminente.

No livro Torrance é pintado com tintas extremamente humanas (sua luta contra o alcolismo e a busca da reconciliação com a família são os pontos de sustentação de toda a trama). Kubrick, entretanto, preferiu deixar isso de lado, concentrando-se em criar cenas gélidas e um constante clima de mistério que, apeser de gerar seqüências absolutamente aterrorizantes (como as aparições das duas meninas mortas), deixam o desenvolvimento dos personagens em segundo plano.

Por causa disso, a loucura de Torrance parece injustificada e, pior, fria e sem conexão com o resto. Se no livro era o próprio hotel quem o seduzia e o consumia, no filme ele já age como um demente desde o início, impedindo que nos identifiquemos com o drama de seu personagem e dos que o rodeiam (o que deixa Jack Nicholson livre para exagerar nas caretas na tentativa de compensar essa falta de profundidade). Por isso, quando os fantasmas do Overlook começam a aparecer para ele temos a impressão de alienação, como se tudo aquilo entrasse na trama de maneira forçada e ilógica.

A verdade é que Kubrick, um ateu confesso, teve problemas para absorver e traduzir para a tela o tom sobrenatural que King imprimiu à história (os desentendimentos entre os dois são famosos e o autor rejeita o filme até hoje), deixando o roteiro confuso e frouxo - parece querer nos convencer que Torrance sofre na verdade de alucinações, só que da metade para o fim volta para o sobrenatural, pois todos começam a vê-las também. Ou seja: fica num meio termo, entre o drama psicológico e o sobrenatural, sendo que as duas aproximações nunca se casam satisfatoriamente.

Outro ponto baixo do filme é a atuação de Shelley Duvall como Wendy, por demais exagerada e incapaz de convencer principalmente no final (Kubrick chegou a fazê-la regravar uma tomada 127 vezes!). Há também um exagero no uso da trilha sonora, toda composta por músicas eruditas de Bartók (com "Music for Strings, Percussion, and Celesta"), Berlioz, Ligeti e Penderecki, repetidas à exaustão e de maneira óbvia em certas seqüências.

No final das contas, O ILUMINADO é um bom filme de terror, capaz de gelar a espinha de qualquer espectador durante vários momentos, mas que não sobrevive a uma análise mais apurada, mesmo porque foi baseado em um livro extremamente rico em detalhes dramáticos. Faltou, portanto, um tom mais humano ao projeto, certamente prejudicado pela frieza e perfeccionismo técnico excessivos de Kubrick que aqui acabaram trabalhando contra ele, infelizmente.

Cotação: ***1/2

sábado, 19 de maio de 2012

Filmes: "Imensidão Azul"

O HOMEM-GOLFINHO

Filme é dirigido com entusiasmo e paixão por Luc Besson e a fotografia é ensolarada e exuberante, usando e abusando das lentes angulares, que só aumentam a sensação de isolamento dos personagens perante o "grande azul"

- por André Lux, crítico-spam

Finalmente podemos assistir à versão européia de IMENSIDÃO AZUL, que contém praticamente uma hora de projeção a mais do que a cópia reduzida distribuída a partir dos EUA. E esse complemento faz toda a diferença, já que a versão tipo "exportação" não fazia o menor sentido e acabou condenando o filme ao fracasso - chegaram ao cúmulo de trocar a trilha sonora original de Eric Serra por outra do irregular Bill Conti (ROCKY)!

O roteiro é inspirado em fatos reais (Mayol é um dos autores) e narra a história de dois amigos, Jacques Mayol (Jean-Marc Barr) e Enzo (Jean Reno), que crescem tendo em comum o amor pelo mar e um incrível fôlego de peixe que os permite ficar vários minutos em baixo d'água. Entretanto, os dois seguem caminhos distintos e possuem personalidade totalmente opostas. Enquanto o francês Jacques é tímido e reservado (um verdadeiro "homem-golfinho"), o italiano Enzo é falastrão e espalhafatoso. Depois de anos longe um do outro, voltam a se encontrar em uma disputa do Campeonato Mundial de Mergulho, do qual Enzo era até então campeão absoluto, levando os dois a um confronto inevitável.

IMENSIDÃO AZUL é dirigido com entusiasmo e paixão por Luc Besson, que depois faria carreira internacional. A fotografia é ensolarada e exuberante, usando e abusando das lentes angulares, que só aumentam a sensação de isolamento dos personagens perante o "grande azul" que tanto os fascina.

O elenco é eficiente, trazendo ainda a delgada Rosana Arquete como interesse romântico para o arredio Mayol. Quem rouba a cena, entretanto, é o até então desconhecido Jean Reno (que depois deste filme virou astro e foi fazer O PROFISSIONAL e RONIN). Seu Enzo é um daqueles personagens "maiores que a vida" que poderia cair para uma caracterização caricatural e ridícula não fosse a interpretação contagiante do ator, que preenche a tela com seu carisma imenso e excelente timing para comédia.

Destaca-se também a saborosa trilha musical de Eric Serra, que acompanha a pulsação do filme mantendo firmes os climas cômicos e existenciais. Em suma, IMENSIDÃO AZUL pode não ser uma obra-prima de sétima arte nem causar grande impacto, mas é sem dúvida um filme muito divertido e gostoso de se assisitr (suas 2 horas e 45 minutos passam sem causar tédio), alternando habilmente momentos de pura comédia com outros mais profundos e dramáticos - mas sem exagerar em nenhum dos extremos.

E temos aqui mais uma prova que Hollywood só consegue condenar ao fracasso filmes de autor em sua ânsia de deixá-los supostamente mais comerciais adulterando as montagens finais ou simplesmente reduzindo suas metragens...

Cotação: ****

sábado, 12 de maio de 2012

Filmes: "Gangues de Nova York"

NOVELÃO SANGUINOLENTO

Scorsese mostra que a América foi construída sobre o binômio sangue e violência, mas no final tenta louvar tudo isso. Onde está a coerência?

- por André Lux, crítico-spam

Ao final das intermináveis 2 horas e 40 minutos de projeção do filme de Martin Scorsese GANGUES DE NOVA YORQUE chegamos à conclusão que o diretor parece ter tentado dar um panorama da "construção" dos Estados Unidos, mostrando a dura realidade das ruas de New York do século 19, onde nativos e imigrantes matavam uns aos outros em nome do ódio e do preconceito racial. Tudo bem, mas qual a novidade nisso? Já estamos "carecas" de saber que o United States of America é uma nação imperialista, desenvolvida e baseada em torno de ideais de conquista, manutenção da honra a qualquer preço e intervenção em territórios alheios. Se alguém duvida é só dar uma olhada nos esportes mais populares daquele país: o baseball e o futebol americano, ambos de conquista de território.

O roteiro é baseado num livro escrito em 1928, o qual Scorsese sempre admirou e sonhou transformar em filme. Sonho que durou praticamente 30 anos, até que finalmente conseguiu financiamento para torná-lo realidade. Gastou então três anos de sua vida entre filmagens e pós-produção (o lançamento foi adiado por causa dos atentados de 11 de setembro), mas o resultado final está longe de impressionar ou mesmo causar maior impacto. A história do conflito entre as gangues que dominavam o submundo da cidade poderia até tornar-se interessante, caso o diretor não tivesse criado uma sub-trama envolvendo morte, vingança e redenção - que fazerem parte da base da cultura estadunidense e são, como sempre, louvados nas telas.

Tudo começa quando o líder da principal gangue formada por irlandeses, o "Pastor" (Liam Neeson, sub-aproveitado), é morto durante um confronto violento pelo chefe dos auto-proclamados "nativos", um certo Bill "Açougueiro" (personagem que, ao que parece, existiu mesmo). Tudo isso é testemunhado pelo filho do morto, que anos mais tarde (e já na pele de Leonardo Di Caprio) volta ao local em busca de vingança. Ele infiltra-se na gangue do seu inimigo e acaba por conquistar sua amizade e confiança. Há também a inserção de um "triângulo" amoroso desencontrado envolvendo o Açougueiro, o jovem vingativo e uma prostituta-ladra mas, é claro, de bom coração (Cameron Diaz). Mas ele é tão mal desenvolvido e inócuo que poderia muito bem ter sido descartado, sem prejuízos.

Ou seja: a história em si é puro cliché digna de novelas mexicanas, só que regada a litros de sangue, violência e pretensão. Mas isso não seria tão grave caso o diretor Scorsese não perdesse tanto tempo com detalhes inúteis à trama (como mostrar o envolvimento de políticos no caos reinante), que acabam transformando o filme em uma salada indigesta de gêneros, particularmente ao tentar traçar um paralelo entre a narrativa principal (a vingança) e os acontecimentos históricos pelos quais passava o país na época. No final a bagunça é tanta que chegam ao cúmulo de inserir legendas do tipo hiper-texto, deixando tudo ainda mais confuso. Há também uma narrração em off que tenta em vão situar o espectador no meio de tanta informação e vai e vem de nomes e localidades. Só mesmo um professor de história dos EUA vai poder entender tudo que se passa na tela.

Contudo, o filme é destruído mesmo pela maneira superficial e caricata com que os personagens são apresentados, o que impede qualquer identificação ou aprofundamento de suas personalidades ou dramas. Todos agem como figuras unidimensionais, sem qualquer emoção ou humanidade. Di Caprio não compromete, mas não tem força nenhuma para segurar o papel. Diaz está visivelmente perdida, sem ter o que fazer num personagem tolo e incoerente. Mas o pior mesmo é Daniel Day-Lewis como Bill "Açougueiro". O grande ator de AS BRUXAS DE SALEM e A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER perde-se totalmente numa caracterização que beira o grotesco e numa atuação totalmente afetada, sem qualquer verdade. Às vezes chega a passar a impressão que está debochando do filme. O bigodão postiço e a cartola gigante que usa também não ajudam em nada, deixando-o com um visual absolutamente ridículo. O roteiro ruim também não dá maiores chances para o personagem, que hora é pintado com um monstro sanguinário, hora como um homem nobre e honrado, hora com um louco desvairado, que chega ao cúmulo de arrancar um de seus olhos só por ter desviado o olhar do inimigo que o derrotou!

Existem qualidades no filme, é claro, como a cenografia de Dante Ferreti, que impressiona ao reconstruir em estúdio (na Itália) um bloco inteiro da cidade, e a fotografia cheia de contrastes de Michael Ballhaus, mas é só. Outro fato que chama a atenção é a incompetência do diretor, que não conseguiu imprimir nada de mais signficativo em sua obra, nem mesmo criou cenas de impacto ou esteticamente exuberantes (que são o seu forte). Tudo é filmado e encenado de formas medíocres. Há também um exagero de pessoas passando de um lado para o outro nos cenários, como se para preencher todos os vazios da tela. Parece até parada da Disneylandia, tamanha a quantidade de extras fantasiados com roupas da época perambulando nas ruas e tabernas.

O filme também conta com uma trilha musical desconexa e, por vezes, irritante (especialmente no início), repleta de músicas pré-existentes (algumas de Howard Shore) que foram colocados no filme sem muita preocupação com a lógica ou com qualquer desenvolvimento temático - e pensar que o diretor dispensou a música original que o grande Elmer Bernstein havia composto!

Todavia, o que mais incomoda é o final, durante o qual tenta-se fazer uma grande apologia à suposta grandeza dos EUA, que, segundo o diretor, é devida à vida e à morte daquela gente miserável que permeia o seu GANGUES DE NOVA YORK. Mas isso soa completamente falso e descabido, ainda mais depois de toda a imundice, traição, racismo extremo e desonestidade que vemos na tela. Ou seja, por um lado o diretor quer mostrar a forma terrível como os EUA foi construído, mas no final tenta louvar isso. Mais desconexo e incoerente, impossível.

Martin Scorsese é considerado por alguns cinéfilos mais exaltados com um dos últimos gênios do cinema ainda em ação. Pode até ser. Realmente, fez ótimos filmes como TAXI DRIVER, OS BONS COMPANHEIROS e O REI DA COMÉDIA. Mas mesmo os gênios erram, como errou no desprezível CABO DO MEDO ou no chatíssimo A ÉPOCA DA INOCÊNCIA. Infelizmente, GANGUES DE NOVA YORK é somente mais um desses erros.

Cotação: * *

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Filmes: "Os Vingadores"

DIVERTIDO E EMPOLGANTE

Assisti ao filme junto a uma platéia lotada e o pessoal vibrou e riu muito com o filme, chegando até a aplaudir no final! Querem maior elogio do que esse?

- por André Lux, crítico-spam

Fazia muito tempo que eu não me divertia e empolgava tanto com um filme de aventura e ficção como esse “Os Vingadores”, que reúne alguns dos maiores heróis da Marvel – quase todos depois de filmes solo, com exceção da Viúva Negra e do Gavião.

Assim, Homem de Ferro, Capitão América, Thor e Hulk, sob o comando de Nick Fury (um empolgado Samuel L. Jackson), reunem-se para combater um exército alienígena que vai invadir a Terra liderados por Loki (o irmão louco de Thor) para roubar um artefato poderoso que apareceu também nos outros filmes dos heróis e foi recuperado pelo governo dos EUA no final de “Capitão América” (que foi o melhor dos filmes da trupe, sendo "Thor" o mais fraquinho).

O grande mérito desse sucesso parece mesmo ser do diretor e co-autor da história, o cineasta Joss Whedon, que é cultuado nos EUA principalmente pelas séries "Buffy" e "Firefly". Ele é um fanático confesso pelos super-heróis da Marvel e conseguiu a proeza de fazer um filme que se segura do começo ao fim, mesmo tendo quase duas horas e meia de duração (mas parece bem menos, o que é sempre um elogio) e muita exposição da trama.

Whedon certamente percebeu que a história central (a invasão alienígena) não fazia muito sentido (se os aliens apenas queriam o artefato, pra que então invadir a Terra?), então concentrou seu foco no relacionamento dos personagens e em muito humor. O maior trunfo do filme (a exemplo do “Capitão América") é justamente não se levar a sério em momento algum, com ótimas sacadas e piadinhas apropriadas na hora certa (a maioria delas disparada por um afiado Robert Downey Jr. como Tony Stark, o Homem de Ferro). Todavia, quem rouba o filme é o Hulk, que depois de dois filmes (o primeiro dirigido por Ang Lee era simplesmente ridículo e o segundo titubeante) finalmente encontra seu espaço. Só a luta dele com o Thor já vale o filme.

Os efeitos especiais são muito bons e o filme tem um excelente desenho de produção, além de uma música para lá de adequada do veterano Alan Silvestri (de “Predador”, da trilogia “De Volta para o Futuro” e também de “Capitão América”). O único defeito talvez seja que é preciso ter assistido a todos os filmes solos dos super-heróis para entender melhor a trama (sem isso muitas piadas e citações vão passar batidas).

Assisti ao filme junto a uma platéia lotada e o pessoal vibrou e riu muito com o filme, chegando até a aplaudir no final! Querem maior elogio do que esse? Para quem gosta do gênero, obviamente, vale a pena cada centavo pago para ver.

Cotação: * * * *

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Filmes: "Shame"

ALERTA AOS COMPULSIVOS


Além de ser excelente cinema, “Shame” serve de alerta a quem encontra no sexo uma forma de mascarar seus problemas

- por André Lux, crítico-spam

“Shame” (vergonha, em português) é um poderoso retrato de uma pessoa que busca o sexo de maneira compulsiva, seja via prostitutas, encontros casuais ou virtualmente. 

O protagonista vai se transformando em uma “máquina de fazer sexo” à medida que se torna cada vez mais incapaz de desenvolver contatos humanos que envolvam sentimentos ou intimidade real. 

O excelente Michael Fassbender se joga no personagem de maneira total, sem medo de aparecer em nudez frontal (algo que sempre vai chocar os reprimidos) ou buscando o prazer sem limites.

O protagonista é um obsessivo-compulsivo sexual que tem a vida aparentemente tranquila abalada com a chegada da irmã (Carey Mulligan, numa atuação corajosa), que é outra com sérios problemas psicológicos, que tenta em vão estabelecer algum laço afetivo com seu irmão. O carater autodestrutivo de ambos é mostrado de forma honesta no filme, sem lugar para moralismos ou julgamentos preconceituosos.

Brandon (Fassbender) atira-se cada vez mais à sua compulsão, ao ponto de falhar sexualmente justamente com uma mulher com a qual tenta se envolver mais a fundo. E o desespero, a vergonha e o desapego do protagonista aumentam à medida que sua busca por sexo aumenta. A cena da transa gay em uma boate é o ápice da dominação de Brandon pelas suas obsessões e compulsões.

A direção de Steve McQueen (nada a ver com o ator já falecido) é excepcional e dá um caráter ultra-realista ao filme, criando inclusive várias sequências sem corte muito bem elaboradas. 

Outro trunfo do filme é a trilha musical, que em vários casos atual totalmente ao contrário do que se vê na tela – como na brilhante cena em que Brandon transa com duas prostitutas ao mesmo tempo e, à medida que o orgasmo vai chegando, maior é a dor expressada pelo personagem.

Acima de tudo, “Shame” mostra um problema que é hoje cada vez mais comum: pessoas viciadas em sexo sem compromisso ou virtual que se descolam da humanidade e se enredam num espiral autodestrutivo que só pode ser barrado com ajuda psquiátrica. 

Não se trata de uma bravata moralista contra o sexo virtual, casual ou com prostitutas, pelo contrário, mas sim um estudo da mente de alguém que só consegue se relacionar sexualmente dessa forma e sofre muito por causa disso.

Além de ser excelente cinema, “Shame” é importante pelo fato de servir de alerta a todos os obsessivos-compulsivos que encontram no sexo sem compromissos uma forma de mascararem seus problemas não resolvidos, na tentativa inútil de diminuir a tensão.

Cotação: * * * *

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Filmes: "A Perseguição"

BOA PEDIDA

Filme não traz nada que já não tenha sido visto antes, mas ao menos é bem dirigido e fotografado e tem uma conclusão bastante corajosa.

- por André Lux, crítico-spam

Não é nenhuma maravilha nem mesmo original, porém dá pra assistir tranquilamente esse “A Perseguição”, que não passa de um filme sobre um grupo de homens fugindo de lobos selvagens no meio do Alaska depois de sobreviverem a uma queda de avião.

O que torna o filme interessante é a participação de Liam Neeson, que é sempre um bom ator e segura bem o seu personagem, que é um homem contratado por uma empresa que explora petróleo na região para justamente matar os lobos que ameaçam os trabalhadores. O sujeito está em crise por causa da esposa (só no final isso é explicado) e pensa até em se matar. Mas daí vem o acidente e ele tem que liderar os sobreviventes no meio do gelo enquanto são caçados implacavelmente pelos lobos.

Enfim, nada que já não tenha sido visto antes, mas ao menos o filme é bem dirigido e fotografado e tem uma conclusão bastante corajosa (embora possa irritar alguns). Para quem gosta desse gênero, é uma boa pedida.

Cotação: * * *

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Filmes: "O Sentido da Vida", do Monty Python

FINEZA E ESCATOLOGIA

Como sempre, os Pythons detonam o fanatismo dos religiosos, a estupidez dos militares e o sistema capitalista em quadros inspiradíssimos

  - por André Lux, crítico-spam

"O Sentido da Vida" é o último filme do qual participam todos os membros do grupo Monty Python e o mais irregular, misturando humor fino com escatologia pura.

O longa é uma sucessão de várias sketches ao estilo do show televisivo do grupo no qual abordam tudo menos, é claro, o que seria o tal sentido da vida (embora façam menção a isso a todo momento, só para fazer de conta que realmente vão mostrá-lo!).

Entre os momentos clássicos estão a famosa cena do gordo que explode num restaurante depois de tanto comer (e vomitar sobre a pobre faxineira), os peixes no aquário (que têm a cara dos membros do grupo) e o musical "Todo Esperma é Sagrado".

Como sempre, os Pythons detonam o fanatismo dos religiosos, a estupidez dos militares e o sistema capitalista em quadros inspiradíssimos. Antes do filme começar somos apresentados a um curta metragem dirigido por Terry Gilliam que era para fazer parte da atração principal, mas acabou sendo jogado para o prólogo e mostra um grupo de velhinhos funcionários de uma firma de contabilidade que se revolta, toma o poder e passa a agir como piratas dentro do sistema!

 Simplesmente genial.

 Cotação: * * * *

sábado, 10 de março de 2012

Morre o grande desenhista francês Jean Giraud, o Moebius

Triste notícia. Morre Moebius, bem no dia do meu aniversário!

A mulher do artista confirmou sua morte à rádio francesa Europe 1. Ele tinha 73 anos

Luto: morre Jean "Moebius" Giraud"
Jean Giraud, ou Moebius, o desenhista e roteirista que mais conhecido por ter criado a série de histórias em quadrinhos do tenente Blueberry e por suas histórias de ficção-científica, morreu neste sábado em Paris, aos 73 anos, após uma longa batalha contra uma doença não revelada. A mulher do artista confirmou sua morte à rádio francesa Europe 1. As informações são do jornal francês “Le Monde”.

Apaixonado por faroestes, Moebius lançou 28 volumes das aventuras do tenente Blueberry. Num segundo momento de sua carreira, ele se dedicou igualmente a vários projetos de ficção-científica, adotando o pseudônimo de Moebius, em referência à fita de Möbius, símbolo do infinito.

Reconhecido internacionalmente, Giraud trabalhou com Ridley Scott na criação gráfica do filme “Alien”, além de ter desenhado uma aventura do famoso super-herói dos quadrinhos Surfista Prateado.

Condecorado com a ordem de Cavaleiro das Artes e das Letras pelo presidente francês François Mitterand em 1985, Moebius teve seus trabalhos expostos em vários países. Em 2010, a Fundação Cartier realizou uma grande retrospectiva de sua obra.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Filmes: "John Carter Entre Dois Mundos"

CONFUSÃO INFERNAL

Não há muito o que dizer de um filme que é uma longa e irritante refilmagem piorada dos episódios 1 e 2 do "Star Wars"

- por André Lux, crítico-spam

Sinceramente, não há muito o que dizer desse "John Carter Entre Dois Mundos", exceto que é uma longa e irritante refilmagem piorada dos episódios 1 e 2 do "Star Wars" ("A Ameaça Fantasma" e "O Ataque dos Clones"). Tem inclusive uns monstrinhos com quatros braços que parecem primos do Jar Jar Binks e luta numa arena contra criaturas esquisitas.

Ok, eu sei que foi baseado na obra de Edgar Rice Burroughs, o mesmo que criou o "Tarzan", mas poderiam pelo menos terem inventado um roteiro melhorzinho, né? A história não tem pé nem cabeça (alguém aí consegue explicar, afinal, o que queriam aqueles vilões carecas ou o que era o tal do bendito "nono raio de luz" que tanto temiam?) e o filme vai se arrastando desconjuntado entre lutas e cenas de guerra enfestadas de monstros e naves feias e sem graça.

O herói faz o tipo "cabeludo-sujinho-de-tanguinha" que algumas mulheres adoram, mas a princesa marciana é tão mais exuberante que ele ao ponto de parecer que vai devorá-lo quando estão juntos. O diretor do longa é o Andrew Staton, que até agora só tinha feito filmes de animação digital (como "Procurando Nemo" e "Wall-E"), e parece não ter mesmo a menor noção do que fazer com atores de carne e osso. Tanto é que os bonecos digitais parecem muito mais animados e expressivos que o resto do elenco humano - o melhor "ator" do filme é de longe aquela espécie de cachorro-monstro digital que corre mais rápido que o Papa-léguas!

A única coisa que presta dessa confusão infernal é a música do Michael Giacchino (do novo "Star Trek" e "Os Incríveis") que se esforça em encontrar inspiração no meio daquele monte de gente feia que quer se matar para dominar um planeta que não passa de um deserto cheio de poeira (o que faz a gente se perguntar: o que será que eles comem e bebem?).

Para piorar tudo, ainda tive que ver o filme em 3D, dublado e com meus óculos escuros de grau (já que tinha esquecido os normais) por baixo do maldito óculos 3D! Haja saco, viu?

Cotação: *

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Finalmente: trilha completa de "Hook - A Volta do Capitão Gancho" será lançada em março!

O selo La-La Land, especializado em trilhas sonoras de filmes, anunciou em sua página no facebook que vai lançar em 27 de março o album com a trilha completa do filme "Hook - A Volta do Capitão Gancho", sem dúvida uma das melhores e mais ricas partituras compostas pelo mestre John Williams!

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Filmes: "A Invenção de Hugo Cabret"

BELÍSSIMA CHATICE

Não dá pra endeusar um filme só porque ele homenageia o cinema, principalmente um tão sem graça.

- por André Lux, crítico-spam

É impressionante como um filme fraco e tedioso como "A Inveção de Hugo Cabret" receba tantos louvores da crítica e da academia de cinema estadunidense, ao ponto de ser o recordista de indicações para o Oscar de 2011. Tudo bem, eu concordo que o filme é muito bonito e bem feito, tem uma fotografia exuberante, um desenho de produção primoroso e uma música excelente de Howard Shore. Mas é só. O filme pode ser resumido em duas palavras: belíssima chatice!

A grande sacada do diretor Martin Scorsese, porém, foi ter feito um filme que é na verdade uma homenagem nada sutil ao próprio cinema, representado aqui na figura de Georges Meliès, que morreu na miséria depois de ter sido o primeiro grande cineasta ("Da Terra à Lua" foi um dos únicos trabalhos dele que conseguiram ser preservados). Críticos e pessoas ligadas ao cinema simplesmente adoram uma boa autoindulgência quando o assunto é a sétima arte. Nada contra, porém não dá pra endeusar um filme só porque ele homenageia o cinema, principalmente um tão sem graça.

Para piorar tudo, fica claro que Scorsese, um cineasta acostumado a fazer filmes violentos sobre gangsters e criminosos em geral (como "Os Bons Companheiros" e "Os Infiltrados"), não tem a menor noção de como construir uma narrativa alegre e voltada ao público infantil. Assim, "A Invenção de Hugo Cabret" torna-se um filme chato, arrastado, sem conflitos e incapaz de passar qualquer emoção. Suas mais de duas horas de duração saltam aos olhos e o filme parece interminável (como a maioria dos filmes do cineasta).

O roteiro, baseado em livro de Brian Selznick, é incapaz de construir qualquer surpresa ou reviravolta e é claramente dividido em dois atos que nada tem entre si. No primeiro acompanhamos o órfão Hugo Cabret tentando consertar um automato que herdou de seu falecido pai, enquanto faz a manutenção dos relógios de uma estação de trem e foge do inspetor de polícia local. De repente, tudo muda de figura quando ele descobre o segredo do robô e daí o filme vira uma modorrenta "homenagem ao cinema". Por sinal, nem o título da obra faz qualquer sentido, já que o protagonista não inventa coisa alguma!

Quem teve a brilhante ideia de escalar o Borat?
Scoresese estava tão fora de seu métier que nos apresenta uma péssima direção de atores, onde nem mesmo o grande Ben Kingsley consegue se salvar. Fiquei com pena da menina Chloe Grace Moretz, que esteve tão bem em "Deixe-me Entrar", mas aqui passa o filme todo dando o mesmo sorrisinho amarelo para a câmera. E o que dizer então da opção dele em escalar o abominável Sacha Baron Cohen, o "Borat" em pessoa, para o papel chave do inspetor de polícia? Sua "atuação" é de longe uma das coisas mais constrangedoras e caricatas que eu vi nos últimos tempos!

O fato de ter todo sido rodado com o que há de mais avançado na tecnologia 3D não acrescenta nada, exceto se você conseguir se impressionar com aquelas cenas manjadas de longos travellings da câmera e de objetos sendo jogados em direção à tela. Eu, por sinal, já deixo claro que não gosto nem um pouco de ver filmes em 3D, pois esse recurso em nada se assemelha ao que vemos no mundo real e deixa os filmes totalmente artificiais e sem qualquer profundidade de campo.

"A Inveção de Hugo Cabret" é um filme que talvez nas mãos de um Spielberg, na época em que ainda era inspirado, poderia se tornar algo interessante. Mas, feito sob a mão pesada do superestimado Scorsese acaba sendo algo penoso de se assistir.

Cotação: * *

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Filmes: "Diário de Um Jornalista Bêbado"

O PAI DO GONZO

Filme é baseado no primeiro livro de Hunter S. Thompson, autor do famoso "Medo e Delírio em Las Vegas: Uma Jornada Selvagem ao Coração do Sonho Americano"

- por André Lux, crítico-spam

"Diário de Um Jornalista Bêbado" é baseado no primeiro livro de Hunter S. Thompson, autor do famoso "Medo e Delírio em Las Vegas: Uma Jornada Selvagem ao Coração do Sonho Americano". O filme é um projeto pessoal do ator Jonhy Depp que era amigo de Thompson e atuou também na versão para os cinemas de "Medo e Delírio", do Terry Gilliam (que mesmo não resistindo a uma análise mais profunda é um dos filmes mais alucinantes e engraçados do ex-Monty Python).

Hunter S. Thompson é um jornalista que sem querer inventou o chamado "jornalismo gonzo", que é definido pelo Wikipédia como "um estilo de narrativa em jornalismo, cinematografia ou qualquer outra produção de mídia em que o narrador abandona qualquer pretensão de objetividade e se mistura profundamente com a ação". Besteira. "Jornalismo Gonzo" é o resultado do trabalho de alguém que cobriu um evento completamente bêbado e/ou drogado e aí coloca no papel suas lembranças e experiências obtidas enquanto sob efeito das drogas. Thompson, um notório alcoólatra e drogado, foi um grande crítico do chamado "sonho americano" e tirou a própria vida com um tiro de espingarda aos 68 anos de idade.

"Diário de Um Jornalista Bêbado" conta a história de um jornalista chamado Paul Kemp (alter-ego do próprio Thompson numa atuação muito boa e contida de Depp) que vai trabalhar em um pequeno jornal em Porto Rico e logo faz amizade com outro repórter igualmente alcoólatra e viciado em rinha de galo. A primeira parte do filme é uma longa sucessão de divertidas cenas de personagens alcoolizados fazendo loucuras.

Numa dessas, Kemp esbarra no novo rico Hal Sanderson (Aaron Eckhart, excelente) que quer contratar o jornalista bebum para que ele escreva matérias positivas sobre uma jogada de especulação imobiliária que vai trazer grande fortuna para os envolvidos e desgraça para os porto-riquenhos. As coisas se complicam ainda mais quando Kemp fica deslumbrado com a namorada de Sanderson, Chenault (na pele da lindíssima Amber Heard).

Esse primeiro ato é o que o filme tem de melhor, alternando cenas engraçadas com outras de crise moral que passa a sofrer o protagonista, arrastado para dentro de um esquema corrupto sem querer. É uma pena que na segunda parte a história perca a vibração e o interesse. Nem mesmo o conflito moral de Kemp é resolvido de forma minimamente satisfatória e o filme se resuma em tolas perseguições pelas estradas de terra de Porto Rico. O romance entre o protagonista e a bela Chenault não gera nenhum tipo de conflito e também é resolvido bestamente. Outra coisa que estraga o filme é a presença do péssimo Giovanni Ribisi, aqui interpretando um jornalista ainda mais louco e drogado (que ainda por cima adora ouvir discursos gravados de Hitler!), o qual poderia ter se tornado antológico caso fosse representado por um ator de verdade.

O fato é que o livro original (que só foi publicado após a morte de Thompson) não era mesmo grande coisa e traz apenas algumas pinceladas bem básicas do que viria a ser o estilo "gonzo" e as críticas ácidas do autor ao "sonho americano". Enfim, vale uma espiada, mas não espere muito.

Cotação: * * 1/2

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Filmes: "Um Método Perigoso"

AMORFO

Apesar do tema interessante, filme resulta no trabalho mais frio e distanciado de Cronenberg até hoje

- por André Lux, crítico-spam

O diretor David Cronenberg é conhecido por seus filmes chocantes ou, no mínimo, contundentes. Muitos deles de terror explícito repletos de efeitos especiais (o mais notável sendo “A Mosca”).

É verdade que em seus últimos filmes demonstrou uma maturidade surpreendente, fugindo do gênero que o consagrou, nos fortes suspenses policiais “Marcas da Violência” e “Senhores do Crime”.

Mesmo assim, é difícil entender porque resolveu realizar este “Um Método Perigoso”, que resultou em seu trabalho mais frio e distanciado até hoje.

O maior defeito do filme é que ele simplesmente não tem foco narrativo definido. Não decide se está contando a história da amizade entre os pais da psicanálise Jung e Freud (que depois se tornariam inimigos) ou da paciente Sabina Spielrein, a qual sofria de histeria e, depois de tratada por Jung, tornou-se ela também uma importante psicanalista.

O roteiro do badalado Christopher Hampton, baseado em sua própria peça teatral que por sua vez é inspirada em fatos reais, é muito picotado, pulando de um evento para outro sem muita coerência. Isso deixa o filme episódico e mal amarrado, impedindo o envolvimento na história e deixando até as conversas entre Jung e Freud enfadonhas.

Outros pontos negativos do filme são as interpretações de Keira Knightley (principalmente no começo, quando faz umas caretas constrangedoras) e de Viggo Mortensen como Freud, numa atuação posada e artificial. Tudo isso acaba destruindo qualquer boa intenção do projeto, que tem excelentes recriação de época, fotografia e música (de Howard Shore, colaborador constante de Cronenberg), além das boas atuações de Michael Fassbender como Jung e de Vincent Cassel como Otto Gross.

É uma pena que um assunto tão interessante tenha resultado num filme tão amorfo e indiferente.

Cotação: * *

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Filmes: "A Pele Que Habito"

REPULSIVO

Este filme ainda faz um grande mal para a luta dos homossexuais contra o preconceito. Recomendado para sádicos ou masoquistas

- por André Lux, crítico-spam

* ATENÇÃO: Essa crítica contém spoilers! *

O diretor Pedro Almodóvar fez alguns filmes muito bons (meu preferido ainda é "Carne Trêmula"), mas também fez algumas porcarias indefensáveis (como "Má Educação"). Esse "A Pele Que Habito" é de longe o seu pior trabalho.

Apesar de ser supostamente baseado na obra "Tarantula", do francês Thierry Jonquet, o filme está mais para uma releitura de "Frankenstein", com o coitado do Antonio Banderas fazendo o papel de um cirurgião plástico que quer fazer renascer os mortos. Só que aqui ele quer transformar alguém vivo num sósia da sua mulher que morreu.

Para isso, ele rapta um rapaz que, bêbado e drogado, tentou transar com sua filha sem sucesso, deixando-a ainda mais traumatizada a ponto dela se suicidar (justo quando ela estava tentando se recuperar do suicídio da mãe). Ou seja, para vingar a morte da filha, o personagem de Bandeiras transforma o pobre rapaz em um transsexual que se parece com a ex-mulher! Essa história não só é ridícula, como extremamente repulsiva (quando queria ser apenas perturbadora). Assistir a esse filme é um exercício penoso.

Aqui os recalques de Almodóvar contra os homens ditos heterossexuais nunca estiveram tão explícitos. No filme todos são loucos, drogados e estupradores (não necessariamente nesta ordem), o que só comprova que o cineasta, que é homossexual assumido, deve ter uma raiva enorme deles e usa seus filmes para se vingar de algum trauma do passado. É evidente também a atração que sente por transsexuais e travestis, figuras sempre presentes em sua obra, e por mulheres fortes e dominadoras (serão elas uma representação de algum figura materna ou da própria mãe do cineasta?).

A verdade é que este filme, além de ser repugnante, ainda faz um grande mal para a luta dos homossexuais contra o preconceito, já que utiliza do mesmo como artifício narrativo. Só recomendado para sádicos ou masoquistas.

Cotação: *

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Filmes: "A Dama de Ferro"

OS NEOLIBERAIS TAMBÉM AMAM?

Filme pretende pintar um retrato humano de Margareth Tatcher, mulher que governou seu país durante 11 anos com mão de ferro e crueldade 

- por André Lux, crítico-spam

A ex-primeira ministra da Inglaterra, Margareth Tatcher, é uma espécie de musa máxima dos neoliberais, já que foi ela, em parceria com o presidente dos EUA na época Ronald Reagan, que implantou em seu país essa doutrina econômica que foi festejada pelas elites econômicas mundiais.

Como sabemos hoje, o neoliberalismo é a expressão máxima do capitalismo selvagem, na qual predominam a privatização (leia-se: doação) do patrimônio público, arrochos salariais, corte de gastos do governo com educação, saúde e qualquer outra coisa que cheira a “ser humano”, desregulamentação do mercado e perseguição brutal a sindicatos e organizações trabalhistas. O resultado dessa política desumana nós todos podemos sentir hoje na crise que assola o mundo e é resultado direto dessa doutrina que foi disseminada e implantada no resto do mundo por políticos de direita (inclusive no Brasil, durante os governos de Collor e Fernando Henrique Cardoso).

“A Dama de Ferro” pretende pintar um retrato humano dessa mulher que governou seu país durante 11 anos com mão de ferro e crueldade nunca antes vistas em uma sociedade democrática, ao ponto de seu próprio partido (Conservador) se voltar contra ela e retirá-la do governo numa virada de mesa engendrada por seus ex-aliados.

Meryl Streep tem uma atuação que está sendo bastante elogiada e concorre novamente ao prêmio Oscar da indústria cultural estadunidense, porém na minha opinião não é tudo isso. Primeiro porque é uma atuação de fora para dentro, toda baseada em efeitos de maquiagem e na cópia dos tiques e sotaques de Tatcher. Segundo, porque o roteiro não lhe dá grandes cenas e concentra-se quase todo nos últimos anos da musa do neoliberalismo, quando já sofria de demência em estado avançado, ao ponto de passar a maior parte do tempo conversando com o “fantasma” do marido morto.

Por meio de esparsos flashbacks, o filme vai mostrando sua trajetória, desde a criação familiar (seu pai pobre porém conservador - vejam que paradoxo! - teve importância fundamental na formação do caráter de Tatcher, diz o roteiro) até sua primeira vitória para o parlamento. Nesse ponto “A Dama de Ferro” resvala em uma certa ingenuidade, pintando Tatcher como uma mulher determinada que venceu o preconceito e o machismo dos homens de seu partido impondo sua visão de mundo e conquistando suas vitórias políticas.

Na vida real não me parece que isso tenha ocorrido dessa forma, pois a elite econômica que dominava a política na Inglaterra pode ter muitos defeitos, mas de bobos não tem nada. Assim, é muito mais provável que tenham enxergado na tola e crédula Tatcher uma maneira de seduzir uma parte do eleitorado que era arredio à nata da sociedade, na figura daquela mulher que, embora oriunda das classes inferiores, defendia com unhas e dentes os dogmas ideológicos que serviam para manter os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres (que é o objetivo máximo do neoliberalismo).

Piada pronta: Tatcher recebe a "medalha presidencial 
da liberdade" das mãos do facínora George Bush.

É interessante também o esforço que o filme faz no sentido de “humanizar” o personagem, inclusive mostrando que os neoliberais também podem amar. Só que isso acaba sendo descontruído durante a própria projeção, já que fica óbvio que Tatcher casou por interesse com um rico industrial para poder ser aceita pelas elites de seu partido. Ou seja, o que essa mulher amava mesmo era o dinheiro, o poder e o status (não necessariamente nessa ordem), tanto é que depois praticamente abandonou a família para perseguir obsessivamente seus ideais políticos (ao ponto de ser rejeitada pelo filho).

Nesse ponto ao menos o filme tem sucesso, pois mostra de maneira clara que até uma pessoa cruel, fria e calculista como a Sra. Tatcher é também apenas um ser humano e que, no caso dela, só vai sentir o peso de suas ações monstruosas no final da vida, embora isso não a faça mudar de opinião em relação às suas convicções. “O problema do mundo é que as pessoas sentem demais e pensam de menos”, vaticina a idosa Tatcher. Não, o problema do mundo são pessoas como a senhora.

Deus nos livre de ser governado por gente assim.

Cotação: * * *

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Filmes: "Os Homens que Não Amavam as Mulheres” (2009)

O ORIGINAL É QUE É BOM

Não passe nem perto da patética refilmagem estadunidense. Esse é o filme que merece se visto!

- por André Lux, crítico-spam

Depois de assistir ao péssimo “Millenium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres” de David Fincher, fiquei curioso para ver a versão original, feita na Suécia em 2009. Muitos diziam que era superior. E eles tem razão. “Os Homens que Não Amavam as Mulheres”, do diretor Niels Arden Oplev é mil vezes melhor do que a versão estadunidense.

Tudo que eu considerei clichê no filme de Fincher na verdade não existe na versão original, que é muito mais poderosa, humana e assustadora. O filme de Fincher, agora que vi o original, me parece ainda mais frio, posado e artificial.

Aqui a investigação feita pelo jornalista é muito mais intrigante e bem amarrada. E a relação dele com a arredia Lisbeth Salander, inclusive sexual, faz muito mais sentido. É ela, por exemplo, quem descobre a relação dos nomes e números contidos na agenda de Harriet (no filme de Fincher essa revelação é feita de forma ridícula). Isso porque ela continuou hackeando o computador dele mesmo depois de terminada sua investigação. Além disso, quando ela se junta ao jornalista, os dois saem varrendo o país em busca dos assassinatos cometidos pelo maníaco (na versão estadunidense isso é resolvido em cinco minutos de procura no google), o que justifica ao menos uma crescente atração entre eles.

Outra coisa que é bem diferente da nova versão: o assassino não fica tentando de todas as maneiras ajudar a investigação feita por Blomkvist, pelo contrário. E quando ele se revela isso é feito de maneira coerente e verossímil. O diálogo entre ele e o jornalista em sua câmara de horrores é muito bom e chega a dar calafrios (no filme de Fincher essa cena é a mais risível).

O personagem Lisbeth Salander nesta versão é muito bem delineado e a atuação de Noomi Rapace é realmente excelente (mais do que nunca a moça no filme de Fincher ficou parecendo um alien robótico). Inclusive as cenas de estupro anal são filmadas com discrição e muito mais sugeridas, o que só aumenta a tensão, ao contrário da nova versão, onde elas são quase explícitas e só causam repulsa e choque (que são coisas que Fincher adora, comprovando seu caráter doentio e ególatra). Os traumas passados de Lisbeth também convencem nesta versão. E felizmente, a conclusão é bem mais interessante do que a do filme de Fincher, que tem até ceninha de ciúme juvenil totalmente incoerente com a proposta do projeto.

Percebe-se também claramente a ligação entre os crimes, o fanatismo nazista dos personagens e os horrores descritos na bíblia judaico-cristã (vale como bom lembrete de que os nazistas eram todos cristãos fundamentalistas e achavam na própria bíblia as justificativas para suas ações mais monstruosas). Gostei também que o policial que investigou o crime há 40 anos continua na ativa, ajudando na busca, fator que dá mais verossimilhança às descobertas. Sem falar que, por ser feito e passado na Suécia, o filme tem uma autenticidade muito maior do que a refilmagem, que optou apenas por colocar no mesmo país atores estadunidenses falando inglês com sotaques estranhos.

Enfim, palmas para Niels Arden Oplev por conseguir elevar ainda mais um livro que, pelo que tudo indica, não passa do medíocre, em um filme que contém também uma ótima trilha musical sinfônica de Jacob Groth, a qual realça o drama e o suspense de maneira muito eficiente (enquanto Fincher optou por uma trilha quase toda composta por ruídos atonais feitos por dois sujeitos oriundos de uma banda pop qualquer), além de uma fotografia primorosa.

Não passe nem perto da patética refilmagem estadunidense. Esse é “Os Homens que Não Amavam as Mulheres” que merece se visto!

Cotação: * * * *