REINVENTANDO A RODA
Ao invés de baterem na mesma tecla, idealizadores da MATRIX escolhem apostar na inteligência do público e percorrem caminhos ainda não trilhados
- por André Lux, crítico-spam
Os irmãos Larry e Andy Wachowsky conseguiram, em 1999, revolucionar novamente o cinema de entretenimento com seu MATRIX, injetando sangue novo a esse tipo de produção conhecido como ficção científica, gênero que havia sido catapultado às alturas por George Lucas e seus STAR WARS no final dos anos 70. Com um mistura inteligente e esperta da mitologia dos quadrinhos, computadores e lutas de kung-fu, o filme tornou-se um imenso sucesso de crítica e público, a ponto de lançar moda e gerar um sem número de imitadores (AS PANTERAS, O TIGRE E O DRAGÃO, etc), derrotando, inclusive, o próprio STAR WARS: EPISÓDIO 1 do mesmo Lucas que já ficou obsoleto.
Depois que se tornou um fenômeno e virou cult, os diretores/roteiristas passaram a proclamar que MATRIX deveria ser, na verdade, uma trilogia tendo sido concebido dessa forma desde sua origem. Será mesmo? Ou estariam dizendo isso apenas para poderem criar novas seqüências do original, repetindo a fórmula em busca do sucesso fácil e rápido? Chega então MATRIX RELOADED, a primeira e inevitável continuação do primeiro filme, dividindo de cara tanto a crítica quanto os espectadores. Bom sinal. Afinal, como dizia Nelson Rodrigues, a unanimidade é burra.
Quebrando todas as expectativas e pré-conceitos, os Wachowsky conseguiram, por mais incrível que pareça, reinventar a roda e conceberam uma continuação ainda mais alucinante e complexa do que o original, ao invés de bater na mesma tecla e percorrer caminhos fáceis e conhecidos. Só a seqüência final do confronto entre Neo (Keanu Reeves, discreto e eficiente) e o chamado Arquiteto (Helmut Bakaitis) já vale o filme. O diálogo travado entre os personagens é daqueles capazes de provocar dores de cabeça de tão bizarro e, quanto mais refletimos sobre ele, mais as dúvidas aumentam. Visto sob a luz das revelações propositalmente obscuras até o filme original ganha novos contornos e interpretações (obviamente só conheceremos toda a verdade no próximo capítulo, MATRIX REVOLUTIONS). Em época de divertimento cada vez mais descerebrado e facilmente digerível, é digno de nota alguém ter coragem de colocar tamanha ousadia conceitual nas telas.
A idéia da luta entre homens e máquinas não é nova e foi aproveitada no cinema diversas vezes (2001, O EXTERMINADOR DO FUTURO, entre tantos outros). O mérito dos cineastas em questão, todavia, não foi somente absorver e inserir em MATRIX essas premissas já apresentadas anteriormente, mas sim serem capazes de digeri-los e criar algo que parecesse totalmente contemporâneo e inovador, mesmo usando técnicas e conceitos que não são novidades. Tanto é verdade que o filme tornou-se realmente famoso não tanto por suas seqüências que traziam efeitos visuais revolucionários (como o bullet time) e lutas espetaculares, mas muito mais pela maneira lógica e coerente com que foram inseridos no roteiro, sempre a serviço da trama e de seus personagens.
E esse acaba sendo justamente um dos pontos fracos de RELOADED: as lutas que incluem Neo (que já sabemos tornou-se uma espécie de Super-homem dentro da Matrix), acabam se tornando óbvias e desnecessárias. É particularmente tola e gratuita a cena na qual luta com centenas de agentes Smith (Hugo Weaving, excelente), pois é quase que totalmente baseada em efeitos visuais a ponto de deixá-la com cara de videogame (há também uma falha gritante e imperdoável nela: vê-se claramente um painel branco usado para refletir a luz dos holofotes no reflexo dos óculos dos atores). As coisas só voltam mesmo aos eixos de suspense e apreensão quando Neo é deixado de fora e as cenas de ação são concentradas em torno de Morpheus (Laurence Fishburne) e Trinity (Carrie-AnneMoss), já que ambos não têm os mesmos superpoderes e correm real perigo, ou então quando Neo enfrenta alguém digno de seus poderes. A tão falada perseguição na rodovia (construída especialmente para o filme), que dura cerca de 15 minutos, é realmente sensacional, de tirar o fôlego, muito ajudada pela presença sinistra dos gêmeos fantasmas.
O filme só cai quando centra a ação na cidade de Zion (Sião), último refúgio dos humanos que não estão presos à Matrix. Ali RELOADED resvala na banalidade, perdendo tempo com tramas e sub-tramas que envolvem tolos conflitos entre comandantes, ciúmes, traições e reuniões de conselho que deixam o filme com aquele ar brega que está ajudando a detonar os novos STAR WARS e o impendem de atingir o nível de perfeição do primeiro. Mas, por sorte, esses momentos são poucos e os realizadores voltam suas tintas rapidamente para o mundo virtual. O maior mérito do roteiro, todavia, é conseguir manter um caráter intimista centrado nos conflitos internos dos personagens. E isso sem deixar de lado as seqüências de ação e lutas regadas a efeitos visuais mirabolantes.
Quanto às fontes de inspiração dos autores de MATRIX, algumas são mais do que evidentes e já foram apontadas inúmeras vezes ("Alice no País das Maravilhas", "Ronin" de Frank Miller, etc). Entretanto, à medida que o novo roteiro ia se desdobrando ficou claro que muitas idéias contidas nele são oriundas (conscientemente ou não) de DUNA, de Frank Herbert, especialmente a orgia em Zion (similar às realizadas nos sietches Fremem) e o conceito de profecias e messias pré-fabricados (ou não?) para manterem o controle de quem detém o poder. Como sou fã de Herbert e sua obra, não poderia ter ficado mais surpreso com a ousadia dos Wachowsky, que foram capazes de traduzir esses conceitos complexos para a tela com muito mais precisão do que os próprios cineastas que literalmente filmaram DUNA!
Mas o importante mesmo é que MATRIX RELOADED tem qualidades suficientes para manter o interesse até seu final totalmente aberto (já anunciando que "será concluído") e é o tipo de filme que vai levar legiões de apreciadores ao cinema, fazendo-os retornar inúmeras vezes a fim de tentar decifrar tudo que existe por trás de seus conceitos e filosofias difíceis de assimilar e traduzir. Exigir mais de um filme dito de "entretenimento" seria até incoerente, embora fique óbvio que muitos terão dificuldades para entrar no filme e, por isso, vão desprezar o resultado final. Mas difícil mesmo vai ser, daqui para frente, tentar bater MATRIX e seus subprodutos. Com certeza vai levar um bom tempo até que apareça alguém capaz de reinventar essa roda novamente. E isso, convenhamos, não é pouca coisa.
Cotação: * * * *
Postagem em destaque
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sábado, 21 de janeiro de 2012
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
Filmes: "Minority Report"
MORALISTA E REACIONÁRIO
Spielberg é imaturo e mal resolvido demais para adaptar a obra de um autor complexo e sombrio como Philip K. Dick
- por André Lux, crítico-spam
Depois do ridículo A.I. (INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL) esparava-se que o diretor Steven Spielberg tivesse aprendido de vez a lição: fazer filmes metidos a sérios e profundos não é a sua praia. É o que sugeriu ao anunciar que seu novo filme seria uma ficção científica com altas doses de aventura e suspense. Todavia, passamos a perceber que havia algo de podre no ar quando descobrimos que o filme seria baseado em um livro de Phillip K. Dick, autor fora do comum capaz de antever em meados dos anos 1950 coisas como clonagem humana, superpopulação nas grandes capitais e perda total da privacidade - fatos comuns nos dias de hoje. Sua obra transborda de críticas sociais, é extremamente amarga, pessimista e passível de diversas leituras e interpretações.
Dois de seus livros resultaram em obras-primas do cinema: BLADE RUNNER, de Ridley Scott, clássico do cinema de arte e um dos filmes mais influentes do final século 20, e O VINGADOR DO FUTURO, de Paul Verhoeven, montanha russa de ação e violência para consumo rápido dos fãs do brutamontes Arnold Schwarzenegger, mas que não deixava de trazer altas doses de tiradas ácidas e subversivas principalmente contra o fascismo e a militarização.
Agora é a vez de MINORITY REPORT ser levado às telas. Nele encontramos uma sociedade do futuro (2056) às voltas com um novo sistema de controle de crimes baseado nas visões pré-cognitivas de três seres modificados geneticamente. Graças a eles, os policiais podem antecipar-se aos crimes e prender os assassinos antes que os cometam. Esse sistema aparentemente infalível já levanta uma questão polêmica de cara: como um réu pode defender-se de um crime que poderia cometer, mas não cometeu? Não pode e por isso é preso para sempre e sem direito a defesa.
Além disso, essa sociedade futurista é totalmente controlada e vigiada por um sistema de leitura de retina onipresente. Ou seja, na previsão de Dick privacidade é algo que não vai existir no futuro. Nossos passos serão seguidos 24 horas por dia e qualquer deslize pode ser fatal. É o ser humano, mais do que nunca, reduzido a um mero número que fará parte de alguma estatística, totalmente domado por um sistema de comunicação de massa que o bombardeia em todos os cantos com propagandas e notícias manipuladas. Pesadelo maior que esse, impossível. Improvável? Lembre-se então dos reality shows do tipo “Big Brother” que nos enfiam goela abaixo cada vez mais...
Mas, como já era de esperar em se tratando de um filme de Spielberg, todas essas questões assustadoras já são descartadas de cara pelo diretor, que mais uma vez concentra toda sua atenção em pirotecnias visuais inócuas. Não há qualquer comentário sobre essa sociedade doente, nem sequer um mínimo questionamento sobre a perda da humanidade e o controle fascista, já que esses recursos de domínio e manipulação são meros adereços colocados na tela somente para 'embonecar' o filme e deixá-lo com cara de futurista.
Desperdiçar todas essas questões extremamente ricas e interessantes já é um crime por si só, mas se não bastasse isso ainda somos obrigados a engolir as mensagens moralistas e reacionárias de Spielberg, carregadas de ridículos ataques a consumidores de drogas e de louvor à família moldada no tradicional "american way of life". Chega a impressionar o tratamento dado pelo diretor ao personagem principal, o policial John Anderton (feito pelo inexpressivo Tom Cruise, repetindo aqui pela enésima vez seu tipo "baixinho invocado") que é um viciado em drogas pesadas dentro de casa, mas um profissional reto e limpinho quando está na delegacia. Além disso, ele só usa drogas (explica o diretor) porque se sente culpado pela morte do filho - afinal ele é o nosso "herói" e, portanto, tem que ter seu vício justificado de alguma forma, enquanto o resto dos usuários no filme é tratado como um bando de degenerados! Essa atitude superficial e moralista não é abandonada nem quando Anderton passa a ser perseguido pelo próprio sistema que ele tanto louvava, depois que os pre-cogs prevêem um assassinato cometido por ele, obrigando-o a fugir e tentar provar sua inocência.
A diluição da trama é ainda intensificada pela inclusão de diversos personagens completamente esquemáticos e estereotipados, cujas aparições na tela remetem a programas de humor rasteiro e escatológico, estilo 'Zorra Total' da Rede Globo. Difícil saber quem é pior: a cientista vestida como árvore de natal que mora no meio do mato e cultiva plantas carnívoras, o hacker encardido metido a engraçadinho, o nerd histérico e abobalhado que cuida dos pré-cognitivos, o agente do governo Federal todo arrogante (feito de maneira posada e artificial por Collin Farrel) e que implica de cara com o herói, o guarda da prisão com sotaque de caipira tocando “Fantasma da Ópera”. O ponto mais baixo de toda essa estupidez é a seqüência da operação dos olhos de Anderton, feita por um médico totalmente repulsivo (o ator Peter Stormare chega a expelir gratuitamente largas doses de muco nasal em frente à câmera!) e sua enfermeira grotesca. Será que a intenção do diretor era nos fazer rir de tudo isso? Infelizmente só conseguiu causar asco e constrangimento.
Se não bastasse a destruição de todas as boas premissas da história, que nas mãos de um cineasta mais engajado ou ao menos mais maduro intelectualmente poderia ter rendido uma excelente aventura futurista, o filme é incrivelmente arrastado e enfadonho. Existem apenas três seqüências de ação propriamente ditas - Cruise pulando sobre carrinhos digitais, sendo perseguido por policiais voadores e fugindo de uma montadora de carros futuristas (que ao que parece já saem de fábrica prontos para serem usados, inclusive com combustível!). O resto do filme limita-se a uma previsível montagem das peças de um quebra-cabeça que poderia até ser intrigante caso não fosse tão previsível e banal - qualquer pessoa que já tenha visto uns dois filmes policias estilo noir vai ser capaz de adivinhar de cara quem é o vilão traidor da história, bem como todos os desenlaces baseados nos maiores clichês do cinema.
Sem dizer que o plano deles de espalharem o sistema pré-cognitivo para o resto do país é um tremendo furo do roteiro, já que o existente funciona apenas graças a um acidente genético que gerou os seres que fazem as previsões. Como, portanto, poderiam exportar essa “tecnologia” para outros estados?
Assim como em INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL o design visual do futuro é lamentável alternando, sem a menor coerência, ambientes limpos e herméticos repletos de transeuntes tranqüilos e bem vestidos, com becos sujos e decadentes onde seres humanos maltrapilhos vivem em habitações decadentes. Temos a impressão que os personagens pulam, de uma hora para outra e sem a menor lógica ou justificativa, dos cenários esterelizados de 2001 para as ruas sombrias e poluídas de BLADE RUNNER.
Mas pior mesmo é a conclusão na qual Spielberg, não satisfeito em detonar todas as chances do filme tornar-se minimamente interessante ou ao menos divertido, arruma um final feliz digno das maiores gargalhadas, com direito até a narração em off que não apenas explica todos os detalhes da trama (afinal, os espectadores são burros e precisam de alguém para resumir tudo) como ainda encerra o filme numa cena que parece ter sido tirada do clássico "Os Três Porquinhos". Só faltou mesmo o "... e viveram felizes para sempre!".
Digno de nota é o fato de que o título do filme, MINORITY REPORT, não tem qualquer relação com a trama e aparece somente durante diálogo de uma cena sem trazer maiores conseqüências para o desenrolar do roteiro - e para brasileiros tem menos ainda, já que a fala dos personagens é traduzida apenas como “relatório”. Triste é ver os defensores de Spielberg justificando seu fracasso com frases do tipo "Quem não gostou não entendeu...". Impossível, pois com explicações didáticas e infantis pipocando na tela a cada 20 minutos de projeção não tem como não entender um filme como esse.
A verdade pura e simples é que MINORY REPORT é a prova cabal de que Spielberg continua uma pessoa imatura e mal resolvida, perfeito talvez para realizar filmes de fantasia para jovens e crianças (vide o excelente E.T.), mas nunca para ficções-científicas baseadas na obra de um autor complexo e sombrio como Philip K. Dick.
Cotação: *
Spielberg é imaturo e mal resolvido demais para adaptar a obra de um autor complexo e sombrio como Philip K. Dick
- por André Lux, crítico-spam
Depois do ridículo A.I. (INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL) esparava-se que o diretor Steven Spielberg tivesse aprendido de vez a lição: fazer filmes metidos a sérios e profundos não é a sua praia. É o que sugeriu ao anunciar que seu novo filme seria uma ficção científica com altas doses de aventura e suspense. Todavia, passamos a perceber que havia algo de podre no ar quando descobrimos que o filme seria baseado em um livro de Phillip K. Dick, autor fora do comum capaz de antever em meados dos anos 1950 coisas como clonagem humana, superpopulação nas grandes capitais e perda total da privacidade - fatos comuns nos dias de hoje. Sua obra transborda de críticas sociais, é extremamente amarga, pessimista e passível de diversas leituras e interpretações.
Dois de seus livros resultaram em obras-primas do cinema: BLADE RUNNER, de Ridley Scott, clássico do cinema de arte e um dos filmes mais influentes do final século 20, e O VINGADOR DO FUTURO, de Paul Verhoeven, montanha russa de ação e violência para consumo rápido dos fãs do brutamontes Arnold Schwarzenegger, mas que não deixava de trazer altas doses de tiradas ácidas e subversivas principalmente contra o fascismo e a militarização.
Agora é a vez de MINORITY REPORT ser levado às telas. Nele encontramos uma sociedade do futuro (2056) às voltas com um novo sistema de controle de crimes baseado nas visões pré-cognitivas de três seres modificados geneticamente. Graças a eles, os policiais podem antecipar-se aos crimes e prender os assassinos antes que os cometam. Esse sistema aparentemente infalível já levanta uma questão polêmica de cara: como um réu pode defender-se de um crime que poderia cometer, mas não cometeu? Não pode e por isso é preso para sempre e sem direito a defesa.
Além disso, essa sociedade futurista é totalmente controlada e vigiada por um sistema de leitura de retina onipresente. Ou seja, na previsão de Dick privacidade é algo que não vai existir no futuro. Nossos passos serão seguidos 24 horas por dia e qualquer deslize pode ser fatal. É o ser humano, mais do que nunca, reduzido a um mero número que fará parte de alguma estatística, totalmente domado por um sistema de comunicação de massa que o bombardeia em todos os cantos com propagandas e notícias manipuladas. Pesadelo maior que esse, impossível. Improvável? Lembre-se então dos reality shows do tipo “Big Brother” que nos enfiam goela abaixo cada vez mais...
Mas, como já era de esperar em se tratando de um filme de Spielberg, todas essas questões assustadoras já são descartadas de cara pelo diretor, que mais uma vez concentra toda sua atenção em pirotecnias visuais inócuas. Não há qualquer comentário sobre essa sociedade doente, nem sequer um mínimo questionamento sobre a perda da humanidade e o controle fascista, já que esses recursos de domínio e manipulação são meros adereços colocados na tela somente para 'embonecar' o filme e deixá-lo com cara de futurista.
Desperdiçar todas essas questões extremamente ricas e interessantes já é um crime por si só, mas se não bastasse isso ainda somos obrigados a engolir as mensagens moralistas e reacionárias de Spielberg, carregadas de ridículos ataques a consumidores de drogas e de louvor à família moldada no tradicional "american way of life". Chega a impressionar o tratamento dado pelo diretor ao personagem principal, o policial John Anderton (feito pelo inexpressivo Tom Cruise, repetindo aqui pela enésima vez seu tipo "baixinho invocado") que é um viciado em drogas pesadas dentro de casa, mas um profissional reto e limpinho quando está na delegacia. Além disso, ele só usa drogas (explica o diretor) porque se sente culpado pela morte do filho - afinal ele é o nosso "herói" e, portanto, tem que ter seu vício justificado de alguma forma, enquanto o resto dos usuários no filme é tratado como um bando de degenerados! Essa atitude superficial e moralista não é abandonada nem quando Anderton passa a ser perseguido pelo próprio sistema que ele tanto louvava, depois que os pre-cogs prevêem um assassinato cometido por ele, obrigando-o a fugir e tentar provar sua inocência.
A diluição da trama é ainda intensificada pela inclusão de diversos personagens completamente esquemáticos e estereotipados, cujas aparições na tela remetem a programas de humor rasteiro e escatológico, estilo 'Zorra Total' da Rede Globo. Difícil saber quem é pior: a cientista vestida como árvore de natal que mora no meio do mato e cultiva plantas carnívoras, o hacker encardido metido a engraçadinho, o nerd histérico e abobalhado que cuida dos pré-cognitivos, o agente do governo Federal todo arrogante (feito de maneira posada e artificial por Collin Farrel) e que implica de cara com o herói, o guarda da prisão com sotaque de caipira tocando “Fantasma da Ópera”. O ponto mais baixo de toda essa estupidez é a seqüência da operação dos olhos de Anderton, feita por um médico totalmente repulsivo (o ator Peter Stormare chega a expelir gratuitamente largas doses de muco nasal em frente à câmera!) e sua enfermeira grotesca. Será que a intenção do diretor era nos fazer rir de tudo isso? Infelizmente só conseguiu causar asco e constrangimento.
Se não bastasse a destruição de todas as boas premissas da história, que nas mãos de um cineasta mais engajado ou ao menos mais maduro intelectualmente poderia ter rendido uma excelente aventura futurista, o filme é incrivelmente arrastado e enfadonho. Existem apenas três seqüências de ação propriamente ditas - Cruise pulando sobre carrinhos digitais, sendo perseguido por policiais voadores e fugindo de uma montadora de carros futuristas (que ao que parece já saem de fábrica prontos para serem usados, inclusive com combustível!). O resto do filme limita-se a uma previsível montagem das peças de um quebra-cabeça que poderia até ser intrigante caso não fosse tão previsível e banal - qualquer pessoa que já tenha visto uns dois filmes policias estilo noir vai ser capaz de adivinhar de cara quem é o vilão traidor da história, bem como todos os desenlaces baseados nos maiores clichês do cinema.
Sem dizer que o plano deles de espalharem o sistema pré-cognitivo para o resto do país é um tremendo furo do roteiro, já que o existente funciona apenas graças a um acidente genético que gerou os seres que fazem as previsões. Como, portanto, poderiam exportar essa “tecnologia” para outros estados?
Assim como em INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL o design visual do futuro é lamentável alternando, sem a menor coerência, ambientes limpos e herméticos repletos de transeuntes tranqüilos e bem vestidos, com becos sujos e decadentes onde seres humanos maltrapilhos vivem em habitações decadentes. Temos a impressão que os personagens pulam, de uma hora para outra e sem a menor lógica ou justificativa, dos cenários esterelizados de 2001 para as ruas sombrias e poluídas de BLADE RUNNER.
Mas pior mesmo é a conclusão na qual Spielberg, não satisfeito em detonar todas as chances do filme tornar-se minimamente interessante ou ao menos divertido, arruma um final feliz digno das maiores gargalhadas, com direito até a narração em off que não apenas explica todos os detalhes da trama (afinal, os espectadores são burros e precisam de alguém para resumir tudo) como ainda encerra o filme numa cena que parece ter sido tirada do clássico "Os Três Porquinhos". Só faltou mesmo o "... e viveram felizes para sempre!".
Digno de nota é o fato de que o título do filme, MINORITY REPORT, não tem qualquer relação com a trama e aparece somente durante diálogo de uma cena sem trazer maiores conseqüências para o desenrolar do roteiro - e para brasileiros tem menos ainda, já que a fala dos personagens é traduzida apenas como “relatório”. Triste é ver os defensores de Spielberg justificando seu fracasso com frases do tipo "Quem não gostou não entendeu...". Impossível, pois com explicações didáticas e infantis pipocando na tela a cada 20 minutos de projeção não tem como não entender um filme como esse.
A verdade pura e simples é que MINORY REPORT é a prova cabal de que Spielberg continua uma pessoa imatura e mal resolvida, perfeito talvez para realizar filmes de fantasia para jovens e crianças (vide o excelente E.T.), mas nunca para ficções-científicas baseadas na obra de um autor complexo e sombrio como Philip K. Dick.
Cotação: *
Filmes: "Dogville"
SESSÃO DE SADO-MASOQUISMO
Diretor apaixonado pelo próprio umbigo ensina durante três horas que os seres humanos não prestam. Bem vindo à Terra, sr. von Trier...
- por André Lux, crítico-spam
Por que será que tanta gente ainda se impressiona com engodos como DOGVILLE? Não me levem a mal, pois nada tenho contra os chamados "filmes de arte" (uma definição bastante discutível, por sinal), que geralmente são lentos, contemplativos e pretensamente complexos, características negativas que precisam ser compensadas por tramas ricas e mensagens profundas.
Infelizmente, essa segunda definição que transformaria DOGVILLE em um desses não faz parte dessa nova empreitada do diretor Lars von Trier, já que seu filme é somente chato, modorrento e insuportavelmente longo. Não bastasse isso, possui uma trama digna de novelas mexicanas só que enfeitada por diálogos pseudo-profundos e repletos de pregação moralista saídas de um cineasta que só pode estar apaixonado pelo próprio umbigo.
Ciente disso (ou não), von Trier aplica uma típica artimanha radicalmente pré-fabricada para gerar polêmica: não existem cenários no filme, apenas riscos no chão e alguns móveis num grande galpão, remetendo a uma espécie de teatro filmado (em digital, não película). Revolucionário? Genial? Pode até ser. Pena que tal recurso esteja a serviço do nada, já que a história de DOGVILLE é das mais batidas e banais possíveis. Gira em torno de uma minúscula cidade nas Montanhas Rochosas e seus habitantes pobres, cujas vidas mudam com a chegada de uma estranha, fugindo da perseguição de gangsters. Para conquistar o carinho da população e ser aceita na cidade, Grace (Nicole Kidman) passa a fazer pequenos favores para todos, passando a ser explorada de maneira cada vez mais desumana, até chegar à escravidão total.
Ou seja, von Trier fez um filme para nos mostrar que o ser humano, até mesmo os habitantes de uma inocente cidade no campo, é podre e capaz de atos brutais. Vejam só, quanta novidade! Pior que o sujeito nos "ensina" isso durante as mais de três horas de projeção, tempo no qual somos obrigados a ver a senhora Kidman (que parece estar se especializando no papel de "Amélia", vide o também sofrível AS HORAS) sofrendo todo tipo de martírio, desde sucessivos estupros até ser acorrentada numa roda de ferro! Mas o sofrimento da protagonista é tão artificial e suas reações tão sem coerência, que são incapazes de passar qualquer tipo de sentimento genuíno.
O filme também tem uma narração (feita por John Hurt) intrusiva, didática e pseudo-irônica (só que levada a sério, se é que isso faz algum sentido), que deixa o filme com ar daqueles quadros dos filmes do Monty Python! Ou seja, a gente ri quando deveria ficar chateado ou chocado com tudo aquilo. Mas nem esse riso involuntário salva o filme, já que só acontece esporadicamente.
Claro que entendemos o objetivo de von Trier e toda sua "pregação moral", especialmente contra os EUA (país que o diretor nem mesmo conhece!). Porém, é preciso ser muito ingênuo ou então recém-chegado ao planeta Terra para se impressionar com as bombásticas revelações que o diretor desvendou e parece querer nos mostrar (as quais foram abordadas de maneiras muito mais contundentes e muito menos pretensiosas em filmes realmente bons, como AS BRUXAS DE SALEM).
Certamente, alguns ainda vão ser capazes de achar incontáveis conteúdos filosóficos em DOGVILLE (afinal, acharam até no ridículo HULK, do Ang Lee!), ao mesmo tempo em que "Amélias" pós-modernas vão se derreter com as injúrias sofridas pela pobre Grace. O resto dos normais vai simplesmente bocejar e ficar contando os capítulos que dividem o filme (são nove no total) à espera do final dessa interminável sessão de sado-masoquismo cinematográfico regado pelo mais inócuo papo-cabeça. Certos mesmo estavam aqueles que saíram no meio da sessão e foram fazer algo mais proveitoso com seu tempo...
Cotação: *
Diretor apaixonado pelo próprio umbigo ensina durante três horas que os seres humanos não prestam. Bem vindo à Terra, sr. von Trier...
- por André Lux, crítico-spam
Por que será que tanta gente ainda se impressiona com engodos como DOGVILLE? Não me levem a mal, pois nada tenho contra os chamados "filmes de arte" (uma definição bastante discutível, por sinal), que geralmente são lentos, contemplativos e pretensamente complexos, características negativas que precisam ser compensadas por tramas ricas e mensagens profundas.
Infelizmente, essa segunda definição que transformaria DOGVILLE em um desses não faz parte dessa nova empreitada do diretor Lars von Trier, já que seu filme é somente chato, modorrento e insuportavelmente longo. Não bastasse isso, possui uma trama digna de novelas mexicanas só que enfeitada por diálogos pseudo-profundos e repletos de pregação moralista saídas de um cineasta que só pode estar apaixonado pelo próprio umbigo.
Ciente disso (ou não), von Trier aplica uma típica artimanha radicalmente pré-fabricada para gerar polêmica: não existem cenários no filme, apenas riscos no chão e alguns móveis num grande galpão, remetendo a uma espécie de teatro filmado (em digital, não película). Revolucionário? Genial? Pode até ser. Pena que tal recurso esteja a serviço do nada, já que a história de DOGVILLE é das mais batidas e banais possíveis. Gira em torno de uma minúscula cidade nas Montanhas Rochosas e seus habitantes pobres, cujas vidas mudam com a chegada de uma estranha, fugindo da perseguição de gangsters. Para conquistar o carinho da população e ser aceita na cidade, Grace (Nicole Kidman) passa a fazer pequenos favores para todos, passando a ser explorada de maneira cada vez mais desumana, até chegar à escravidão total.
Ou seja, von Trier fez um filme para nos mostrar que o ser humano, até mesmo os habitantes de uma inocente cidade no campo, é podre e capaz de atos brutais. Vejam só, quanta novidade! Pior que o sujeito nos "ensina" isso durante as mais de três horas de projeção, tempo no qual somos obrigados a ver a senhora Kidman (que parece estar se especializando no papel de "Amélia", vide o também sofrível AS HORAS) sofrendo todo tipo de martírio, desde sucessivos estupros até ser acorrentada numa roda de ferro! Mas o sofrimento da protagonista é tão artificial e suas reações tão sem coerência, que são incapazes de passar qualquer tipo de sentimento genuíno.
O filme também tem uma narração (feita por John Hurt) intrusiva, didática e pseudo-irônica (só que levada a sério, se é que isso faz algum sentido), que deixa o filme com ar daqueles quadros dos filmes do Monty Python! Ou seja, a gente ri quando deveria ficar chateado ou chocado com tudo aquilo. Mas nem esse riso involuntário salva o filme, já que só acontece esporadicamente.
Claro que entendemos o objetivo de von Trier e toda sua "pregação moral", especialmente contra os EUA (país que o diretor nem mesmo conhece!). Porém, é preciso ser muito ingênuo ou então recém-chegado ao planeta Terra para se impressionar com as bombásticas revelações que o diretor desvendou e parece querer nos mostrar (as quais foram abordadas de maneiras muito mais contundentes e muito menos pretensiosas em filmes realmente bons, como AS BRUXAS DE SALEM).
Certamente, alguns ainda vão ser capazes de achar incontáveis conteúdos filosóficos em DOGVILLE (afinal, acharam até no ridículo HULK, do Ang Lee!), ao mesmo tempo em que "Amélias" pós-modernas vão se derreter com as injúrias sofridas pela pobre Grace. O resto dos normais vai simplesmente bocejar e ficar contando os capítulos que dividem o filme (são nove no total) à espera do final dessa interminável sessão de sado-masoquismo cinematográfico regado pelo mais inócuo papo-cabeça. Certos mesmo estavam aqueles que saíram no meio da sessão e foram fazer algo mais proveitoso com seu tempo...
Cotação: *
Filmes: "As Horas"
AMÉLIAS EM DESFILE
Nariz postiço de Nicole Kidman é o retrato perfeito desse drama pretensioso e repleto de "momentos Oscar"
- por André Lux, crítico-spam
Existem filmes que são feitos para ganhar Oscar. AS HORAS é mais um deles. Os ingredientes estão todos lá: atrizes respeitáveis e de peso (no caso, Nicole Kidman, Meryl Streep e Juliane Moore), roteiro baseado numa obra e numa escritora apreciadas por intelectuais e premiadas, narrativa arrastada e pretensiosa, etc. Às vezes essa receita até resulta em grandes filmes, verdadeiras obras-primas do cinema, carregadas de conteúdos e diálogos marcantes, cenas memoráveis e interpretações irretocáveis.
Nada disso, infelizmente, aconteceu aqui. Essa necessidade de “ser genial” e “premiável” atrapalha o filme desde o início, tornando-o falso, mecânico e modorrento. Ele tem tanto ritmo, profundidade e emoção quanto uma poça de água parada. A cada quinze minutos alguma das atrizes principais faz um longo monólogo diante das câmeras, que invariavelmente terminam em choros ou demonstração de emoções compulsivas: é puro “momento Oscar”!
Baseado no livro AS HORAS, de Michael Cunningham, ganhador do prêmio Pulitzer (o Oscar da literatura estadunidense), tem como ponto de partida o suicídio da escritora Virginia Wolf, passando em seguida a traçar um paralelo entre sua vida e obra (particularmente “Mrs. Dalloway”) com duas outras mulheres, distantes dela no tempo e no espaço. Uma é a dona de casa (Juliane Moore) que está lendo justamente aquele romance. Outra é uma lésbica assumida e editora (Meryl Streep em papel quase idêntico ao que interpretou em ADAPTAÇÃO), que passa o tempo cuidando de um ex-amante doente de AIDS (Ed Harris, cuja maquiagem o deixa parecido com o homem-mosca) e, ao que parece, está justamente vivenciando a história do livro (mas o filme nunca deixa isso claro e só mesmo quem leu “Mrs. Dalloway” vai saber responder).
Mas o que essas mulheres têm em comum, além das referências à obra de Wolf? As três são chatas, infelizes e psicologicamente regredidas. Verdadeiras "Amélias" em desfile. Nunca um filme mostrou o universo feminino como sendo algo tão desinteressante e modorrento. As personagens são totalmente vazias, obsessivas, suas vidas medíocres, seus atos e resoluções incoerentes.
Nem sequer ficamos conhecendo direito a escritora Virgina Wolf, que no filme parece ser simplesmente uma mulher louca, mal vestida e chata, cujo maior prazer na vida é fazer cara de coitada ou irritar o marido passivo e suas serviçais (isso sem dizer em tentar suicidar-se). O grotesco nariz postiço que Nicole Kidman usa para tentar ficar mais parecida como a escritora deixa sua atuação ainda mais artificial e inconvincente, visto que paralisa seus olhos, obrigando-a a ficar sempre com a mesma cara. Não faz o menor sentido, portanto, quando fica proclamando ter um “apego à vida”, como se esse jargão em si significasse alguma coisa. Do jeito que vive, parece ser justamente o contrário. Ora, suicidas podem ter tudo, menos "apego à vida"!
O filme, por sinal, parece querer convencer que tendência suicida é sinônimo de personalidade forte e complexa. Essa conclusão psicológica primária e bizarra fica evidente na atuação de Juliane Moore, de longe a pior do elenco, cuja expressão durante o filme lembra a de uma deficiente mental, nunca a de uma mulher em luta consigo mesmo ou à procura de uma nova vida. Parece que ela quer se matar só porque não consegue fazer nada, nem mesmo um bolo de chocolate!
Existem outros personagens que entram e saem sem trazer a menor conseqüência para a história, muito menos para o desenvolvimento dela (Toni Collete e Jeff Daniels, por sinal, estão absolutamente ridículos). Há também uma obsessão por parte dos realizadores em mostrar mulheres beijando-se, como se tentasse justificar as loucuras e problemas delas pelo fato de serem homossexuais reprimidas ou algo que o valha (repare que todo mundo no filme é gay ou então parece que gostaria de ser e, clichê dos clichês, adora ópera, teatro e poesia). Dá-lhe psicologia de almanaque!
É particularmente irritante a trilha musical do minimalista Philip Glass (outro que é sinônimo de “erudição” e “refinamento” na corrida pelos Oscar). Sua música onipresente e repetitiva pode até combinar com filmes estáticos ou desfiles de imagens, como KOYAANISQATSI, mas é absolutamente errada para esse tipo de drama.
Sinceramente, o filme é tão chato, frio e inconseqüente que não consegue nem mesmo despertar o interesse por parte do leigo em conhecer a obra da escritora Virginia Wolf! Lamentável. Recomendado só para intelectuais entre aspas ou para pessoas que possam se identificar com as personagens vazias e regredidas que desfilam pelo filme.
Cotação: * ½
Nariz postiço de Nicole Kidman é o retrato perfeito desse drama pretensioso e repleto de "momentos Oscar"
- por André Lux, crítico-spam
Existem filmes que são feitos para ganhar Oscar. AS HORAS é mais um deles. Os ingredientes estão todos lá: atrizes respeitáveis e de peso (no caso, Nicole Kidman, Meryl Streep e Juliane Moore), roteiro baseado numa obra e numa escritora apreciadas por intelectuais e premiadas, narrativa arrastada e pretensiosa, etc. Às vezes essa receita até resulta em grandes filmes, verdadeiras obras-primas do cinema, carregadas de conteúdos e diálogos marcantes, cenas memoráveis e interpretações irretocáveis.
Nada disso, infelizmente, aconteceu aqui. Essa necessidade de “ser genial” e “premiável” atrapalha o filme desde o início, tornando-o falso, mecânico e modorrento. Ele tem tanto ritmo, profundidade e emoção quanto uma poça de água parada. A cada quinze minutos alguma das atrizes principais faz um longo monólogo diante das câmeras, que invariavelmente terminam em choros ou demonstração de emoções compulsivas: é puro “momento Oscar”!
Baseado no livro AS HORAS, de Michael Cunningham, ganhador do prêmio Pulitzer (o Oscar da literatura estadunidense), tem como ponto de partida o suicídio da escritora Virginia Wolf, passando em seguida a traçar um paralelo entre sua vida e obra (particularmente “Mrs. Dalloway”) com duas outras mulheres, distantes dela no tempo e no espaço. Uma é a dona de casa (Juliane Moore) que está lendo justamente aquele romance. Outra é uma lésbica assumida e editora (Meryl Streep em papel quase idêntico ao que interpretou em ADAPTAÇÃO), que passa o tempo cuidando de um ex-amante doente de AIDS (Ed Harris, cuja maquiagem o deixa parecido com o homem-mosca) e, ao que parece, está justamente vivenciando a história do livro (mas o filme nunca deixa isso claro e só mesmo quem leu “Mrs. Dalloway” vai saber responder).
Mas o que essas mulheres têm em comum, além das referências à obra de Wolf? As três são chatas, infelizes e psicologicamente regredidas. Verdadeiras "Amélias" em desfile. Nunca um filme mostrou o universo feminino como sendo algo tão desinteressante e modorrento. As personagens são totalmente vazias, obsessivas, suas vidas medíocres, seus atos e resoluções incoerentes.
Nem sequer ficamos conhecendo direito a escritora Virgina Wolf, que no filme parece ser simplesmente uma mulher louca, mal vestida e chata, cujo maior prazer na vida é fazer cara de coitada ou irritar o marido passivo e suas serviçais (isso sem dizer em tentar suicidar-se). O grotesco nariz postiço que Nicole Kidman usa para tentar ficar mais parecida como a escritora deixa sua atuação ainda mais artificial e inconvincente, visto que paralisa seus olhos, obrigando-a a ficar sempre com a mesma cara. Não faz o menor sentido, portanto, quando fica proclamando ter um “apego à vida”, como se esse jargão em si significasse alguma coisa. Do jeito que vive, parece ser justamente o contrário. Ora, suicidas podem ter tudo, menos "apego à vida"!
O filme, por sinal, parece querer convencer que tendência suicida é sinônimo de personalidade forte e complexa. Essa conclusão psicológica primária e bizarra fica evidente na atuação de Juliane Moore, de longe a pior do elenco, cuja expressão durante o filme lembra a de uma deficiente mental, nunca a de uma mulher em luta consigo mesmo ou à procura de uma nova vida. Parece que ela quer se matar só porque não consegue fazer nada, nem mesmo um bolo de chocolate!
Existem outros personagens que entram e saem sem trazer a menor conseqüência para a história, muito menos para o desenvolvimento dela (Toni Collete e Jeff Daniels, por sinal, estão absolutamente ridículos). Há também uma obsessão por parte dos realizadores em mostrar mulheres beijando-se, como se tentasse justificar as loucuras e problemas delas pelo fato de serem homossexuais reprimidas ou algo que o valha (repare que todo mundo no filme é gay ou então parece que gostaria de ser e, clichê dos clichês, adora ópera, teatro e poesia). Dá-lhe psicologia de almanaque!
É particularmente irritante a trilha musical do minimalista Philip Glass (outro que é sinônimo de “erudição” e “refinamento” na corrida pelos Oscar). Sua música onipresente e repetitiva pode até combinar com filmes estáticos ou desfiles de imagens, como KOYAANISQATSI, mas é absolutamente errada para esse tipo de drama.
Sinceramente, o filme é tão chato, frio e inconseqüente que não consegue nem mesmo despertar o interesse por parte do leigo em conhecer a obra da escritora Virginia Wolf! Lamentável. Recomendado só para intelectuais entre aspas ou para pessoas que possam se identificar com as personagens vazias e regredidas que desfilam pelo filme.
Cotação: * ½
Filmes: "Fahrenheit 11 de Setembro"
DEDO NA FERIDA
Michael Moore não tem medo de mostrar os bastidores do poder no comando do país mais poderoso do mundo
- por André Lux, crítico-spam
A principal sensação que fica após o término da exibição de “Fahrenheit 11 de Setembro” é a de revolta. Não contra seu autor, Michael Moore, nem tanto contra os fatos por ele apresentados (que obviamente não devem ser novidade para qualquer pessoa minimamente bem informada e de bom senso), mas sim pela triste constatação de que o documentário atesta o que a maioria de nós já sabe faz tempo: o jornalismo, ao menos em sua concepção original investigativa e de prestação de serviços públicos, está morto e enterrado.
O que Moore fez durante toda projeção de seu filme nada mais é do que mostrar aqueles lados das notícias que nunca sequer são cogitados em aparecer nos grandes meios de comunicação de massa, justamente o lado dos excluídos e dos que realmente sofrem com os atos mesquinhos e irracionais dos governantes – no caso, George W. Bush e seus assessores.
Ao contrário da esmagadora maioria dos jornais e revistas auto-proclamados “sérios”, o cineasta em questão não tem medo de mostrar os bastidores do poder no comando do país mais poderoso do mundo. Ou seja, ele enfia o dedo na ferida sem dó. Não é a toa, portanto, que o sujeito é odiado e acusado a todo instante de manipulador, exagerado e até mentiroso. Essa técnica não é novidade: ao invés de se atacar a mensagem e os fatos apresentados, ataca-se o interlocutor, tentando-se denegrir sua imagem pessoal a fim de desviar o foco das informações contundentes que tenta divulgar.
Moore faz jornalismo engajado, o que, em última instância, é o único tipo que existe. Ou será que existe alguém ingênuo o suficiente para crer que as grandes empresas de comunicação realmente praticam aquele utópico “jornalismo imparcial”, que se aprende no primeiro dia de aula de Jornalismo e que alguns ainda defendem com unhas e dentes – como se o ser humano fosse realmente capaz de transmitir dados e informações sem deixar suas emoções e crenças interferir no processo...
O que mais impressiona no caso de “Fahrenheit 11 de Setembro” é que, diferente de seus outros documentários (como “Tiros em Columbine” e “Roger e Eu”), o cineasta procura ser o mais discreto possível, limitando-se a levar à tela o máximo de informações possíveis a cerca de tudo que os atuais membros do governo dos EUA tem feito nas últimas décadas, culminando com a invasão do Iraque. O maior trabalho de Moore, no caso, foi o de esmiuçar todas as declarações dos tais líderes, buscar documentos, colher depoimentos e simplesmente ligar A com B.
Mesmo assim ainda o acusam de ser sensacionalista e mentiroso. Não vou entrar no mérito de tentar convencer ninguém de que aquilo que é mostrado na tela seja uma verdade absoluta, mesmo porque isso não existe. Mas será mesmo possível que TUDO que foi mostrado em “Fahrenheit 11 de Setembro” não passe de uma armação feita por um lunático que quer apenas chamar a atenção para si mesmo atacando os pobres familiares de Bush e seus amigos ricaços?
Afinal, pense bem, não foi Moore quem nomeou o secretariado do governo dos EUA, o qual era 99% composto por ex-diretores e/ou proprietários de grandes indústrias de armamentos, grupos de investimento ou multinacionais petrolíferas. Não é Moore também quem mantém relações comerciais bilionárias com a família do suposto mentor dos atentados que destruíram as torres gêmeas do WTC. Nunca vi o cineasta se auto-proclamando o “presidente da guerra” e forjando invasões a países que nunca ameaçaram a soberania dos EUA. E se alguém aí testemunhou Moore arregimentando jovens de classes econômicas inferiores para servir no exército de seu país, por favor, me avise.
Por sinal, achei Moore até menos contundente do que de costume, evitando entrar em assuntos por demais inflamatórios sobre os quais não teria provas suficientes para amarrar uma argumentação lógica. Ele, por exemplo, apenas deixa no ar a possibilidade de que os “atos terroristas” perpetrados em solo estadunidense em 11 de setembro de 2001 tenham sido planejados com a ajuda de gente interna de seu próprio país. As pistas estão lá, para quem quiser ver: relatórios sobre atividades de terroristas dentro dos EUA sendo sumariamente ignoradas pela alta cúpula do governo, empresas ligadas diretamente ao clã dos Bush e dos Bin Laden lucrando horrores graças aos ataques, etc.
Ciente de que essa linha de raciocínio o distanciaria de seu objetivo e levantaria a possibilidade de ser chamado mais facilmente de paranóico e demente, Moore preferiu manter seu foco na demonstração clara e evidente de que as últimas guerras arrumadas por Bush tinham nada mais do que objetivos comerciais: a construção de um gasoduto no Afeganistão e a conquista dos poços de petróleo do Iraque. Os atentados e a campanha de amedrontamento contra a sua própria população apenas serviram como desculpas para isso.
E a conseqüência de tais atos são milhares de mortos e feridos, em sua maioria civis, que nem mesmo sabem porque estão sendo atacados. Não é de se estranhar que sintam tanto ódio contra os EUA e, por tabela, contra toda a civilização ocidental. Não é por acaso que um dos momentos mais repulsivos do documentário acontece quando presenciamos jovens militares estadunidenses (nada mais do que nerds fantasiados de soltados) relatando entusiasticamente que tipo de música gostam de ouvir enquanto matam seus “inimigos”, no melhor estilo video-game.
No final, Moore tenta convencer (sem sucesso) membros do senado estadunidense a alistarem seus filhos no exército para que sejam enviados ao Iraque, a fim de ajudar nos esforços de guerra que eles mesmos tanto defendem. Em paralelo a isso, acompanhamos o depoimento emocionado de uma mãe que defendia o alistamento de seus filhos, até que ele foi morto em combate no Iraque. A mulher vai até Washington ver de perto a Casa Branca na tentativa de entender os motivos que levaram aqueles que governam seu país a enviarem seu filho à morte. Ela encontra uma senhora iraquiana que protesta timidamente contra Bush. No meio desta cena arrebatadora, aparece uma mulher com um sorriso irônico que solta o que é, de fato, a maior crítica que Michael Moore vem recebendo: “Isso é tudo uma encenação”.
A resposta que aquela mãe pesarosa, cuja vida foi destruída com a morte sem sentido do filho, dá a Moore em relação a esse comentário é, em todas as instâncias, o resumo básico da condição humana, a qual está nos levando cada vez mais para o fundo do poço enquanto uma minoria desumana obtém lucros exorbitantes com isso. Quem viu “Fahrenheit 11 de Setembro” vai lembrar-se da frase. Quem não viu... bem, o que é que você está esperando?
Cotação: * * * *
Michael Moore não tem medo de mostrar os bastidores do poder no comando do país mais poderoso do mundo
- por André Lux, crítico-spam
A principal sensação que fica após o término da exibição de “Fahrenheit 11 de Setembro” é a de revolta. Não contra seu autor, Michael Moore, nem tanto contra os fatos por ele apresentados (que obviamente não devem ser novidade para qualquer pessoa minimamente bem informada e de bom senso), mas sim pela triste constatação de que o documentário atesta o que a maioria de nós já sabe faz tempo: o jornalismo, ao menos em sua concepção original investigativa e de prestação de serviços públicos, está morto e enterrado.
O que Moore fez durante toda projeção de seu filme nada mais é do que mostrar aqueles lados das notícias que nunca sequer são cogitados em aparecer nos grandes meios de comunicação de massa, justamente o lado dos excluídos e dos que realmente sofrem com os atos mesquinhos e irracionais dos governantes – no caso, George W. Bush e seus assessores.
Ao contrário da esmagadora maioria dos jornais e revistas auto-proclamados “sérios”, o cineasta em questão não tem medo de mostrar os bastidores do poder no comando do país mais poderoso do mundo. Ou seja, ele enfia o dedo na ferida sem dó. Não é a toa, portanto, que o sujeito é odiado e acusado a todo instante de manipulador, exagerado e até mentiroso. Essa técnica não é novidade: ao invés de se atacar a mensagem e os fatos apresentados, ataca-se o interlocutor, tentando-se denegrir sua imagem pessoal a fim de desviar o foco das informações contundentes que tenta divulgar.
Moore faz jornalismo engajado, o que, em última instância, é o único tipo que existe. Ou será que existe alguém ingênuo o suficiente para crer que as grandes empresas de comunicação realmente praticam aquele utópico “jornalismo imparcial”, que se aprende no primeiro dia de aula de Jornalismo e que alguns ainda defendem com unhas e dentes – como se o ser humano fosse realmente capaz de transmitir dados e informações sem deixar suas emoções e crenças interferir no processo...
O que mais impressiona no caso de “Fahrenheit 11 de Setembro” é que, diferente de seus outros documentários (como “Tiros em Columbine” e “Roger e Eu”), o cineasta procura ser o mais discreto possível, limitando-se a levar à tela o máximo de informações possíveis a cerca de tudo que os atuais membros do governo dos EUA tem feito nas últimas décadas, culminando com a invasão do Iraque. O maior trabalho de Moore, no caso, foi o de esmiuçar todas as declarações dos tais líderes, buscar documentos, colher depoimentos e simplesmente ligar A com B.
Mesmo assim ainda o acusam de ser sensacionalista e mentiroso. Não vou entrar no mérito de tentar convencer ninguém de que aquilo que é mostrado na tela seja uma verdade absoluta, mesmo porque isso não existe. Mas será mesmo possível que TUDO que foi mostrado em “Fahrenheit 11 de Setembro” não passe de uma armação feita por um lunático que quer apenas chamar a atenção para si mesmo atacando os pobres familiares de Bush e seus amigos ricaços?
Afinal, pense bem, não foi Moore quem nomeou o secretariado do governo dos EUA, o qual era 99% composto por ex-diretores e/ou proprietários de grandes indústrias de armamentos, grupos de investimento ou multinacionais petrolíferas. Não é Moore também quem mantém relações comerciais bilionárias com a família do suposto mentor dos atentados que destruíram as torres gêmeas do WTC. Nunca vi o cineasta se auto-proclamando o “presidente da guerra” e forjando invasões a países que nunca ameaçaram a soberania dos EUA. E se alguém aí testemunhou Moore arregimentando jovens de classes econômicas inferiores para servir no exército de seu país, por favor, me avise.
Por sinal, achei Moore até menos contundente do que de costume, evitando entrar em assuntos por demais inflamatórios sobre os quais não teria provas suficientes para amarrar uma argumentação lógica. Ele, por exemplo, apenas deixa no ar a possibilidade de que os “atos terroristas” perpetrados em solo estadunidense em 11 de setembro de 2001 tenham sido planejados com a ajuda de gente interna de seu próprio país. As pistas estão lá, para quem quiser ver: relatórios sobre atividades de terroristas dentro dos EUA sendo sumariamente ignoradas pela alta cúpula do governo, empresas ligadas diretamente ao clã dos Bush e dos Bin Laden lucrando horrores graças aos ataques, etc.
Ciente de que essa linha de raciocínio o distanciaria de seu objetivo e levantaria a possibilidade de ser chamado mais facilmente de paranóico e demente, Moore preferiu manter seu foco na demonstração clara e evidente de que as últimas guerras arrumadas por Bush tinham nada mais do que objetivos comerciais: a construção de um gasoduto no Afeganistão e a conquista dos poços de petróleo do Iraque. Os atentados e a campanha de amedrontamento contra a sua própria população apenas serviram como desculpas para isso.
E a conseqüência de tais atos são milhares de mortos e feridos, em sua maioria civis, que nem mesmo sabem porque estão sendo atacados. Não é de se estranhar que sintam tanto ódio contra os EUA e, por tabela, contra toda a civilização ocidental. Não é por acaso que um dos momentos mais repulsivos do documentário acontece quando presenciamos jovens militares estadunidenses (nada mais do que nerds fantasiados de soltados) relatando entusiasticamente que tipo de música gostam de ouvir enquanto matam seus “inimigos”, no melhor estilo video-game.
No final, Moore tenta convencer (sem sucesso) membros do senado estadunidense a alistarem seus filhos no exército para que sejam enviados ao Iraque, a fim de ajudar nos esforços de guerra que eles mesmos tanto defendem. Em paralelo a isso, acompanhamos o depoimento emocionado de uma mãe que defendia o alistamento de seus filhos, até que ele foi morto em combate no Iraque. A mulher vai até Washington ver de perto a Casa Branca na tentativa de entender os motivos que levaram aqueles que governam seu país a enviarem seu filho à morte. Ela encontra uma senhora iraquiana que protesta timidamente contra Bush. No meio desta cena arrebatadora, aparece uma mulher com um sorriso irônico que solta o que é, de fato, a maior crítica que Michael Moore vem recebendo: “Isso é tudo uma encenação”.
A resposta que aquela mãe pesarosa, cuja vida foi destruída com a morte sem sentido do filho, dá a Moore em relação a esse comentário é, em todas as instâncias, o resumo básico da condição humana, a qual está nos levando cada vez mais para o fundo do poço enquanto uma minoria desumana obtém lucros exorbitantes com isso. Quem viu “Fahrenheit 11 de Setembro” vai lembrar-se da frase. Quem não viu... bem, o que é que você está esperando?
Cotação: * * * *
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
Filmes: "Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas"
HISTÓRIAS DE PESCADOR
Tim Burton deixa de lado seus cacoetes irritantes para prestar uma homenagem tocante à figura querida do contador de “causos”
- por André Lux, crítico-spam
“Peixe Grande” é, ao lado de “Ed Wood” e “O Estranho Mundo de Jack”, um dos melhores filmes do irregular Tim Burton. Os maiores defeitos da maioria de seus filmes eram o excesso de histeria, de situações bizarras e de cenários altamente estilizados que o diretor imprimia aos roteiros sem necessidade, fatores que acabavam enfraquecendo e diluindo as histórias que se propunha a contar. Filmes como “Batman: O Retorno”, “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça” e “Marte Ataca” padeciam desses defeitos.
Felizmente, em “Peixe Grande” Burton deixou de lado esses cacoetes irritantes e concentrou seus esforços em contar a saga de Edward Bloom e suas histórias maravilhosas da maneira mais discreta possível (a exemplo do que fez em “Ed Wood”, sua obra-prima).
Confesso que demorei a “entrar no clima” do filme, cujo protagonista (interpretado de maneira convincente por Ewan McGregor, quando jovem, e Albert Finney, na terceira idade) é incapaz de contar qualquer evento de sua vida sem transforma-lo numa espécie de conto de fadas, repleto de personagens e situações bizarras, nos quais ele sempre desempenha um papel heróico e alegre. A verdade é que a narrativa é um pouco lenta, truncada e perde tempo demais em detalhes dos “causos” contados pelo protagonista, já que o ponto mais importante da trama é o fato dele ter problemas de relacionamento com o filho, o qual passou a desprezar o pai justamente pelo excesso de histórias fantasiosas que profere (consideradas como meras “mentiras” por seu filho quando atinge a maioridade).
A verdade é que só no final, extremamente tocante e singelo, é que o rapaz (e a platéia, por tabela) entende afinal qual é o significado da vida de Bloom e de suas histórias. E é nessa hora que aplaudimos Burton, cujo objetivo com esse filme era simplesmente louvar aquela figura tão característica que todos nós conhecemos algum dia em nossas vidas: a do contador de histórias. Quem é que nunca teve um tio, um avô ou um mero conhecido que enriqueceu nossas infâncias com seus “causos” sempre cheios de exageros e fantasias divertidas? No mínimo, uma boa história de pescador todos já ouviram. Não é à toa, portanto, que “Peixe Grande” começa justamente com uma delas!
O filme só não é melhor porque Tim Burton comete erros banais, como insistir em trabalhar com o amador Danny Elfman, cuja música é sempre óbvia e impede o filme de atingir níveis mais profundos, e em escalar a horrível Helena Bonhan Carter (atual mulher do diretor) para interpretar dois papéis chaves na trama. Mas, para compensar, o filme tem excelente fotografia do francês Philippe Rousselot, um ótimo desenho de produção e conta com elenco de apoio dos mais competentes, que tem participações especiais de bons atores como Danny deVito, Steve Buscemi e Jessica Lange.
Talvez não sejam todos que vão sacar e curtir a proposta do filme, mas para aqueles que conseguirem, “Peixe Grande” pode reservar momentos muito tocantes e de rara sensibilidade.
Cotação: * * * ½
Tim Burton deixa de lado seus cacoetes irritantes para prestar uma homenagem tocante à figura querida do contador de “causos”
- por André Lux, crítico-spam
“Peixe Grande” é, ao lado de “Ed Wood” e “O Estranho Mundo de Jack”, um dos melhores filmes do irregular Tim Burton. Os maiores defeitos da maioria de seus filmes eram o excesso de histeria, de situações bizarras e de cenários altamente estilizados que o diretor imprimia aos roteiros sem necessidade, fatores que acabavam enfraquecendo e diluindo as histórias que se propunha a contar. Filmes como “Batman: O Retorno”, “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça” e “Marte Ataca” padeciam desses defeitos.
Felizmente, em “Peixe Grande” Burton deixou de lado esses cacoetes irritantes e concentrou seus esforços em contar a saga de Edward Bloom e suas histórias maravilhosas da maneira mais discreta possível (a exemplo do que fez em “Ed Wood”, sua obra-prima).
Confesso que demorei a “entrar no clima” do filme, cujo protagonista (interpretado de maneira convincente por Ewan McGregor, quando jovem, e Albert Finney, na terceira idade) é incapaz de contar qualquer evento de sua vida sem transforma-lo numa espécie de conto de fadas, repleto de personagens e situações bizarras, nos quais ele sempre desempenha um papel heróico e alegre. A verdade é que a narrativa é um pouco lenta, truncada e perde tempo demais em detalhes dos “causos” contados pelo protagonista, já que o ponto mais importante da trama é o fato dele ter problemas de relacionamento com o filho, o qual passou a desprezar o pai justamente pelo excesso de histórias fantasiosas que profere (consideradas como meras “mentiras” por seu filho quando atinge a maioridade).
A verdade é que só no final, extremamente tocante e singelo, é que o rapaz (e a platéia, por tabela) entende afinal qual é o significado da vida de Bloom e de suas histórias. E é nessa hora que aplaudimos Burton, cujo objetivo com esse filme era simplesmente louvar aquela figura tão característica que todos nós conhecemos algum dia em nossas vidas: a do contador de histórias. Quem é que nunca teve um tio, um avô ou um mero conhecido que enriqueceu nossas infâncias com seus “causos” sempre cheios de exageros e fantasias divertidas? No mínimo, uma boa história de pescador todos já ouviram. Não é à toa, portanto, que “Peixe Grande” começa justamente com uma delas!
O filme só não é melhor porque Tim Burton comete erros banais, como insistir em trabalhar com o amador Danny Elfman, cuja música é sempre óbvia e impede o filme de atingir níveis mais profundos, e em escalar a horrível Helena Bonhan Carter (atual mulher do diretor) para interpretar dois papéis chaves na trama. Mas, para compensar, o filme tem excelente fotografia do francês Philippe Rousselot, um ótimo desenho de produção e conta com elenco de apoio dos mais competentes, que tem participações especiais de bons atores como Danny deVito, Steve Buscemi e Jessica Lange.
Talvez não sejam todos que vão sacar e curtir a proposta do filme, mas para aqueles que conseguirem, “Peixe Grande” pode reservar momentos muito tocantes e de rara sensibilidade.
Cotação: * * * ½
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
Filmes: "Tiros em Columbine"
E O MACACO ESTAVA CERTO...
Documentário explora massacre em escola para mostrar como o medo e a intolerância provocam a morte de mais de 11 mil pessoas por ano nos EUA.
- por André Lux, crítico-spam
Nos momentos finais do clássico anti-belicista “O Planeta dos Macacos”, dirigido por Franklin Schaffner em 1968, o astronauta Taylor (vivido por Charlton Heston) avisa aos seus algozes símios que não devem tentar segui-lo, pois ele sabe manejar seu rifle muito bem. “Tenho certeza disso...”, replica ironicamente o macaco cientista em alusão ao fato de os seres humanos terem praticamente causado sua própria extinção com suas armas de destruição, séculos atrás. Pois bem. O mesmo Heston, cujo currículo inclui outros filmes que também pregavam contra o racismo e a intolerância (como “Bem-Hur” e “OS Dez Mandamentos”), acaba sendo de certa forma o “astro” do documentário “Tiros em Columbine”, que enfoca a obsessão dos estadunidenses por armas e pela violência em geral, tendo como fio condutor o massacre de doze estudantes e um professor provocado por dois adolescentes desajustados em uma escola do Colorado.
Escrito, atuado e dirigido por Michael Moore, um gordo bonachão com cara de nerd que é hoje o crítico mais feroz da extrema direita estadunidense e autor do best-seller "Stupid White Men - Uma Nação de Idiotas", o documentário tenta descobrir de onde vem essa loucura toda que chega a produzir nos EUA mais de 11 mil vitimas fatais de armas de fogo por ano. Um dos alvos principais de Moore é a Associação Nacional de Portadores de Rifles (NRA), cujo presidente era até recentemente o mesmo Charlton Heston, que aparece na fita fazendo discursos que deixariam até Adolf Hitler envergonhado - e justamente nas cidades em que ocorreram as mortes provocadas por jovens armados. “Das minhas mãos frias e mortas” brada selvagemente o ator, em alusão à única condição na qual alguém vai poder retirar seus rifles dele. Um dos momentos mais poderosos do filme é justamente quando Moore consegue entrevistar Heston em sua casa, sequência na qual o “astro” é acuado pelas perguntas incisivas do documentarista a ponto de ser obrigado a fugir apressadamente depois de perceber que não teria como respondê-las sem expor seu ódio e preconceitos repulsivos.
Mas Moore vai mais além. Em sua busca por explicações, entrevista pais das vitimas, políticos, estudiosos do assunto, membros de milícias armadas e produtores de shows que exploram a violência urbana (em especial a série COPS). Ninguém é capaz de elucidar o mistério, mas uma pista vem à tona rapidamente: os EUA são uma sociedade controlada pelo medo. E é exatamente o medo (do outro, do desconhecido, de ameaças iminentes inflamadas pela mídia) que gera a paranóia e a busca pelas armas de fogo. A violência, portanto, é apenas conseqüência disso, assim como o lucro gigantesco da indústria bélica. Não é a toa, portanto, que o filme começa com Moore abrindo uma conta corrente num banco que dá como brinde aos novos correntistas, um rifle carregado! Em outro momento igualmente poderoso, ele leva dois garotos que sobreviveram ao massacre de Columbine (um ficou aleijado para o resto da vida enquanto o outro ainda carrega balas dentro do corpo) à central de vendas da rede Wal-Mart, que foi onde os atiradores carregaram suas armas. Esse ato acaba gerando uma pequena vitória: com medo da reação pública e de possíveis processos, a rede anuncia que vai deixar de vender munição em suas lojas.
O grande mérito do documentário reside no fato de que seu autor não tem medo de ir até as últimas conseqüências, mostrando inclusive a participação do governo estadunidense na propagação desse medo, evidenciada na participação direta em invasões e massacres políticos acontecidas em vários países do mundo. Na seqüência mais irônica e devastadora do filme assistimos, ao som de “What a Wonderful Word” de Louis Armstrong, os vários golpes e guerras patrocinados pelos EUA no mundo todo (inclusive na América do Sul), passando pelo apoio militar e financeiro dado a loucos como Sadam Hussein e Osama Bin Laden e culminando com a destruição das torres do World Trade Center. Na legenda, a revelação mais do que óbvia: “E em 11 de setembro de 2001, Bin Laden usou o treinamento que recebeu da CIA para atacar os próprios EUA”.
Nem é preciso dizer que Michael Moore (mesmo tendo ganhado o Oscar de Melhor Documentário em 2002) é figura odiada nos EUA hoje, ficando ao lado de outros poucos intelectuais de esquerda (como Noam Chomsky e Susan Sontag) que têm coragem de protestar contra o imperialismo sanguinário de seus governantes e contra a mídia corporativa que se presta cada vez mais a fazer o papel de disseminar o medo e a intolerância entre a população daquele país e do resto do mundo.
Alguns acusam Moore de ser somente um sensacionalista que busca o lucro explorando situações trágicas como a que deu título ao filme. Essas pessoas deviam rever filmes como “O Planeta dos Macacos”. Mas, pensando bem, se nem o astro principal foi capaz de entender a mensagem daquele filme, o que dizer então do resto? No final da exibição de “Tiros em Columbine”, sobra apenas a triste constatação de que o macaco estava mesmo certo. E como estava...
Cotação: * * * * *
Documentário explora massacre em escola para mostrar como o medo e a intolerância provocam a morte de mais de 11 mil pessoas por ano nos EUA.
- por André Lux, crítico-spam
Nos momentos finais do clássico anti-belicista “O Planeta dos Macacos”, dirigido por Franklin Schaffner em 1968, o astronauta Taylor (vivido por Charlton Heston) avisa aos seus algozes símios que não devem tentar segui-lo, pois ele sabe manejar seu rifle muito bem. “Tenho certeza disso...”, replica ironicamente o macaco cientista em alusão ao fato de os seres humanos terem praticamente causado sua própria extinção com suas armas de destruição, séculos atrás. Pois bem. O mesmo Heston, cujo currículo inclui outros filmes que também pregavam contra o racismo e a intolerância (como “Bem-Hur” e “OS Dez Mandamentos”), acaba sendo de certa forma o “astro” do documentário “Tiros em Columbine”, que enfoca a obsessão dos estadunidenses por armas e pela violência em geral, tendo como fio condutor o massacre de doze estudantes e um professor provocado por dois adolescentes desajustados em uma escola do Colorado.
Escrito, atuado e dirigido por Michael Moore, um gordo bonachão com cara de nerd que é hoje o crítico mais feroz da extrema direita estadunidense e autor do best-seller "Stupid White Men - Uma Nação de Idiotas", o documentário tenta descobrir de onde vem essa loucura toda que chega a produzir nos EUA mais de 11 mil vitimas fatais de armas de fogo por ano. Um dos alvos principais de Moore é a Associação Nacional de Portadores de Rifles (NRA), cujo presidente era até recentemente o mesmo Charlton Heston, que aparece na fita fazendo discursos que deixariam até Adolf Hitler envergonhado - e justamente nas cidades em que ocorreram as mortes provocadas por jovens armados. “Das minhas mãos frias e mortas” brada selvagemente o ator, em alusão à única condição na qual alguém vai poder retirar seus rifles dele. Um dos momentos mais poderosos do filme é justamente quando Moore consegue entrevistar Heston em sua casa, sequência na qual o “astro” é acuado pelas perguntas incisivas do documentarista a ponto de ser obrigado a fugir apressadamente depois de perceber que não teria como respondê-las sem expor seu ódio e preconceitos repulsivos.
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| Para tirar o rifle, só "das minhas frias mãos mortas", brada Charlton Heston |
Mas Moore vai mais além. Em sua busca por explicações, entrevista pais das vitimas, políticos, estudiosos do assunto, membros de milícias armadas e produtores de shows que exploram a violência urbana (em especial a série COPS). Ninguém é capaz de elucidar o mistério, mas uma pista vem à tona rapidamente: os EUA são uma sociedade controlada pelo medo. E é exatamente o medo (do outro, do desconhecido, de ameaças iminentes inflamadas pela mídia) que gera a paranóia e a busca pelas armas de fogo. A violência, portanto, é apenas conseqüência disso, assim como o lucro gigantesco da indústria bélica. Não é a toa, portanto, que o filme começa com Moore abrindo uma conta corrente num banco que dá como brinde aos novos correntistas, um rifle carregado! Em outro momento igualmente poderoso, ele leva dois garotos que sobreviveram ao massacre de Columbine (um ficou aleijado para o resto da vida enquanto o outro ainda carrega balas dentro do corpo) à central de vendas da rede Wal-Mart, que foi onde os atiradores carregaram suas armas. Esse ato acaba gerando uma pequena vitória: com medo da reação pública e de possíveis processos, a rede anuncia que vai deixar de vender munição em suas lojas.
O grande mérito do documentário reside no fato de que seu autor não tem medo de ir até as últimas conseqüências, mostrando inclusive a participação do governo estadunidense na propagação desse medo, evidenciada na participação direta em invasões e massacres políticos acontecidas em vários países do mundo. Na seqüência mais irônica e devastadora do filme assistimos, ao som de “What a Wonderful Word” de Louis Armstrong, os vários golpes e guerras patrocinados pelos EUA no mundo todo (inclusive na América do Sul), passando pelo apoio militar e financeiro dado a loucos como Sadam Hussein e Osama Bin Laden e culminando com a destruição das torres do World Trade Center. Na legenda, a revelação mais do que óbvia: “E em 11 de setembro de 2001, Bin Laden usou o treinamento que recebeu da CIA para atacar os próprios EUA”.
Nem é preciso dizer que Michael Moore (mesmo tendo ganhado o Oscar de Melhor Documentário em 2002) é figura odiada nos EUA hoje, ficando ao lado de outros poucos intelectuais de esquerda (como Noam Chomsky e Susan Sontag) que têm coragem de protestar contra o imperialismo sanguinário de seus governantes e contra a mídia corporativa que se presta cada vez mais a fazer o papel de disseminar o medo e a intolerância entre a população daquele país e do resto do mundo.
Alguns acusam Moore de ser somente um sensacionalista que busca o lucro explorando situações trágicas como a que deu título ao filme. Essas pessoas deviam rever filmes como “O Planeta dos Macacos”. Mas, pensando bem, se nem o astro principal foi capaz de entender a mensagem daquele filme, o que dizer então do resto? No final da exibição de “Tiros em Columbine”, sobra apenas a triste constatação de que o macaco estava mesmo certo. E como estava...
Cotação: * * * * *
Filmes: "Cazuza - O Tempo Não Para"
RETRATO BORRADO
Por mais que os diretores tentem aprofundar o personagem, nunca ficamos sabendo direito quem foi Cazuza, o que pensava e de onde tirava suas inspirações artísticas.
- por André Lux, crítico-spam
O defeito básico de “Cazuza - O Tempo não Para” vem do fato do roteiro ter sido baseado num livro escrito pela mãe do cantor. Vejam bem, nada tenho contra a senhora em questão. Pelo contrário, nem mesmo a conheço. O problema é que pais e mães, por mais bem intencionados e presentes que tenham sido, quase nunca conhecem a fundo seus filhos.
E isso é simples de entender, já que a fase mais complexa da vida de qualquer pessoa é a adolescência - onde todos nós vamos ter nossas experiências mais importantes, muitas das quais vão nos marcar para o resto da vida. E é justamente durante essa turbulenta fase que mais nos distanciamos de nossos pais, seja física (morando longe) ou mesmo psicologicamente. O inevitável choque das gerações tem aí seu ponto máximo.
Esse distanciamento natural entre pais e filhos fica mais do que evidente na construção narrativa do filme. Por mais que os diretores Walter Carvalho e Sandra Werneck tentem aprofundar o personagem, nunca ficamos sabendo direito quem foi Cazuza, o que pensava e de onde tirava suas inspirações artísticas.
Essa visão superficial é o que mais incomoda. Ficamos sabendo o suficiente sobre a sua trajetória artística e sobre a sua vida sexual promíscua e recheada de drogas, mas nunca entramos realmente na mente dele a ponto de entender de onde veio a sua poesia e a sua sensibilidade artística. Afinal, não seria esse o ponto mais importante em uma biografia no final das contas? E para chegar a isso não basta colocar meia dúzia de frases de efeito saindo da boca dele ou fotos de Che Guevara na parede de seu quarto, nem mostrá-lo cantando suas músicas de sucesso.
Esses são mistérios que somente seus amigos e parceiros íntimos poderiam ajudar a desvendar. Todavia, apesar de viver cercado de dezenas deles em cena, nenhum tem algo de interessante a dizer e acabam virando meras figurações. Nem mesmo a presença da filha de João Gilberto, Bebel (interpretada por Leandra Leal), que foi uma das melhores amigas de Cazuza, é explorada. Na verdade, quem não sabe disso na vida real jamais vai descobrir pelo filme. O que dizer então de seus amores, suas paixões, suas decepções, suas ideologias? A paixão tórrida do artista por Ney Matogrosso também é simplesmente ignorada.
Enfim, onde estão no filme as pistas que nos levariam a tentar montar o complexo quebra-cabeça que foi a formação do mito Cazuza? Infelizmente em nenhum lugar, exceto em alguns bons diálogos entre ele e o que seria o seu guru Ezequiel Neves (Emilio Neto, caricato demais) e em momentos tocantes na fase final, quando já descobriu estar com AIDS.
Fora isso, o que sobra é um retrato um tanto borrado do que foi a vida do artista visto basicamente pelo prisma moralista da mãe, no qual ele é pintado como um garoto mimado e inconsequente que, na visão dela, destruiu sua vida fazendo loucuras regadas a muita droga e sexo. Nem mesmo os motivos que o levaram a ter tal comportamento autodestrutivo são abordados, embora algumas pistas estejam evidentes (pai ausente, mãe dominadora, falta de limites, etc). Nem mesmo o fato dele ser visivelmente bissexual chega a gerar qualquer tipo de conflito familiar, como se isso fosse normal em nossa sociedade repressora!
Sinceramente, isto é muito pouco para dar vida à biografia Cazuza na tela e acaba deixando-a parecida com muitas outras que existem por aí. E por mais que o ator Daniel de Oliveira se esforce (com sucesso, diga-se de passagem) para incorporar o cantor na tela, ele não tem como segurar o filme todo sozinho.
Certamente Cazuza foi bem mais do que é mostrado. Quem conhece a fundo e gosta da obra do artista vai ter no filme uma ótima oportunidade de ver um registro quase documental de várias fases da vida do ídolo. Para o resto, “Cazuza - O Tempo Não Para” reserva alguns momentos tocantes, uma interpretação formidável de Daniel Oliveira e, infelizmente, nada mais do que um retrato pálido do que poderia ter se tornado hoje um dos maiores compositores de MPB, caso não tivesse o lamentável azar de contrair AIDS e morrer prematuramente aos 32 anos de idade (justamente quando começava a amadurecer e deixar de agir como um menino mimado).
Enfim, o esforço da produção e a intenção do projeto são dignos de elogios, mas o artista retratado obviamente merecia muito mais.
Cotação: * * 1/2
Por mais que os diretores tentem aprofundar o personagem, nunca ficamos sabendo direito quem foi Cazuza, o que pensava e de onde tirava suas inspirações artísticas.
- por André Lux, crítico-spam
O defeito básico de “Cazuza - O Tempo não Para” vem do fato do roteiro ter sido baseado num livro escrito pela mãe do cantor. Vejam bem, nada tenho contra a senhora em questão. Pelo contrário, nem mesmo a conheço. O problema é que pais e mães, por mais bem intencionados e presentes que tenham sido, quase nunca conhecem a fundo seus filhos.
E isso é simples de entender, já que a fase mais complexa da vida de qualquer pessoa é a adolescência - onde todos nós vamos ter nossas experiências mais importantes, muitas das quais vão nos marcar para o resto da vida. E é justamente durante essa turbulenta fase que mais nos distanciamos de nossos pais, seja física (morando longe) ou mesmo psicologicamente. O inevitável choque das gerações tem aí seu ponto máximo.
Esse distanciamento natural entre pais e filhos fica mais do que evidente na construção narrativa do filme. Por mais que os diretores Walter Carvalho e Sandra Werneck tentem aprofundar o personagem, nunca ficamos sabendo direito quem foi Cazuza, o que pensava e de onde tirava suas inspirações artísticas.
Essa visão superficial é o que mais incomoda. Ficamos sabendo o suficiente sobre a sua trajetória artística e sobre a sua vida sexual promíscua e recheada de drogas, mas nunca entramos realmente na mente dele a ponto de entender de onde veio a sua poesia e a sua sensibilidade artística. Afinal, não seria esse o ponto mais importante em uma biografia no final das contas? E para chegar a isso não basta colocar meia dúzia de frases de efeito saindo da boca dele ou fotos de Che Guevara na parede de seu quarto, nem mostrá-lo cantando suas músicas de sucesso.
Esses são mistérios que somente seus amigos e parceiros íntimos poderiam ajudar a desvendar. Todavia, apesar de viver cercado de dezenas deles em cena, nenhum tem algo de interessante a dizer e acabam virando meras figurações. Nem mesmo a presença da filha de João Gilberto, Bebel (interpretada por Leandra Leal), que foi uma das melhores amigas de Cazuza, é explorada. Na verdade, quem não sabe disso na vida real jamais vai descobrir pelo filme. O que dizer então de seus amores, suas paixões, suas decepções, suas ideologias? A paixão tórrida do artista por Ney Matogrosso também é simplesmente ignorada.
Enfim, onde estão no filme as pistas que nos levariam a tentar montar o complexo quebra-cabeça que foi a formação do mito Cazuza? Infelizmente em nenhum lugar, exceto em alguns bons diálogos entre ele e o que seria o seu guru Ezequiel Neves (Emilio Neto, caricato demais) e em momentos tocantes na fase final, quando já descobriu estar com AIDS.
Fora isso, o que sobra é um retrato um tanto borrado do que foi a vida do artista visto basicamente pelo prisma moralista da mãe, no qual ele é pintado como um garoto mimado e inconsequente que, na visão dela, destruiu sua vida fazendo loucuras regadas a muita droga e sexo. Nem mesmo os motivos que o levaram a ter tal comportamento autodestrutivo são abordados, embora algumas pistas estejam evidentes (pai ausente, mãe dominadora, falta de limites, etc). Nem mesmo o fato dele ser visivelmente bissexual chega a gerar qualquer tipo de conflito familiar, como se isso fosse normal em nossa sociedade repressora!
Sinceramente, isto é muito pouco para dar vida à biografia Cazuza na tela e acaba deixando-a parecida com muitas outras que existem por aí. E por mais que o ator Daniel de Oliveira se esforce (com sucesso, diga-se de passagem) para incorporar o cantor na tela, ele não tem como segurar o filme todo sozinho.
Certamente Cazuza foi bem mais do que é mostrado. Quem conhece a fundo e gosta da obra do artista vai ter no filme uma ótima oportunidade de ver um registro quase documental de várias fases da vida do ídolo. Para o resto, “Cazuza - O Tempo Não Para” reserva alguns momentos tocantes, uma interpretação formidável de Daniel Oliveira e, infelizmente, nada mais do que um retrato pálido do que poderia ter se tornado hoje um dos maiores compositores de MPB, caso não tivesse o lamentável azar de contrair AIDS e morrer prematuramente aos 32 anos de idade (justamente quando começava a amadurecer e deixar de agir como um menino mimado).
Enfim, o esforço da produção e a intenção do projeto são dignos de elogios, mas o artista retratado obviamente merecia muito mais.
Cotação: * * 1/2
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
Filmes: "As Aventuras de Tintin"
TINTIN JONES
Em sua ânsia por atingir vários alvos ao mesmo tempo, Spielberg erra todos e não vai satisfazer as crianças nem os adultos fãs de Tintin.
- por André Lux, crítico-spam
“As Aventuras de Tintin” é mais uma amostra da encruzilhada em que se encontra o diretor Steven Spielberg, já apontada por mim na análise de “Cavalo de Guerra”. Admirador confesso dos livros ilustrados criados pelo belga Hergé, Spielberg há muita ansiava levar às telas do cinema as aventuras do garoto jornalista e sua turma.
E, com o auxílio de Peter Jackson (de “O Senhor dos Anéis", outro fã dos quadrinhos), finalmente conseguiu. Só que, inexplicavelmente, Spielberg optou por fazer o filme totalmente em computação gráfica, utilizando aquele manjado recurso de “captura dos movimentos” dos atores, para tentar gerar nas telas um realismo já tentando sem sucesso antes em filmes como “Final Fantasy”.
O problema é que, mesmo encontrando-se em um elevado patamar de avanço tecnológico, a computação gráfica falha miseravelmente ao tentar emular as emoções humanas – principalmente aquelas transmitidas pelos olhos. Não é à toa, portanto, que o pessoal da Pixar e de outras produtoras especializadas em animação gerada por computador sempre escolhe um visual altamente estilizado para seus filmes, principalmente para as figuras humanas (vide “Os Incríveis” e “Procurando Nemo”). Mesmo James Cameron em "Avatar" só usou computação gráfica para personificar os alienígenas (os humanos foram feitos por atores normais).
Assim, “As Aventuras de Tintin” parece clamar o tempo todo por atores em carne e osso para representar os personagens na tela e as tentativas de passar emoção por meio dos bonecos digitais falha fragorosamente (em 3D o filme fica ainda mais artificial). O que sobra então é uma aventura incessante, guiada por um fiapo de roteiro (livremente baseado em vários livros do Tintin), que procura inventar uma nova perseguição ainda mais absurda e barulhenta do que a que acabamos de ver. Por causa disso, o jornalista Tintin (que nos quadrinhos resolve seus problemas muito mais na base da investigação) aqui vira um sub-Indiana Jones, dando murros, tiros e pontapés em seu inimigos e perseguindo em carros, aviões e motos os bandidos. O clímax dessa montanha russa infernal culmina com Tintin numa moto correndo atrás de uma águia nas ruas e céus de uma cidade – no final da correria o protagonista quase exibe poderes de super herói!
Lamentavelmente também, a trilha musical de John Williams demonstra claramente que o grande compositor – já aos 80 anos de idade – esgotou sua criatividade há algum tempo. A música que compôs para “As Aventuras de Tintin”, embora tecnicamente impecável, soa incrivelmente genérica ou reciclada ao emprestar claramente passagens e temas de outras composições suas, principalmente a série “Indiana Jones”, “Hook” e “Harry Potter”.
Mas o que realmente derruba o filme é a sua conclusão, completamente anti-climática e que ainda tenta forçar a barra anunciando uma continuação que nem sabemos se virá (afinal, tudo depende de quanto ele vai lucrar nas bilheterias). O filme se encerra da pior maneira possível, o que é algo vergonhoso se levarmos em conta que se trata de um produto de Steven Spielberg, cineasta que se especializou no início de carreira em terminar suas obras com altas doses de emoção (quem pode esquecer dos finais deslumbrantes de “E.T.” ou de “Contatos Imediatos do 3º Grau”?).
Enfim, em sua ânsia por tentar atingir vários alvos ao mesmo tempo, Spielberg acaba errando todos e, acredito, não vai satisfazer totalmente as crianças, que devem se cansar com tanta perseguição e barulho, nem os adultos fãs de Tintin, os quais vão considerar o filme infantil e vazio demais em comparação com a rica obra de Hergé. Mais um tiro na água de Spielberg...
Cotação: * * 1/2
Em sua ânsia por atingir vários alvos ao mesmo tempo, Spielberg erra todos e não vai satisfazer as crianças nem os adultos fãs de Tintin.
- por André Lux, crítico-spam
“As Aventuras de Tintin” é mais uma amostra da encruzilhada em que se encontra o diretor Steven Spielberg, já apontada por mim na análise de “Cavalo de Guerra”. Admirador confesso dos livros ilustrados criados pelo belga Hergé, Spielberg há muita ansiava levar às telas do cinema as aventuras do garoto jornalista e sua turma.
E, com o auxílio de Peter Jackson (de “O Senhor dos Anéis", outro fã dos quadrinhos), finalmente conseguiu. Só que, inexplicavelmente, Spielberg optou por fazer o filme totalmente em computação gráfica, utilizando aquele manjado recurso de “captura dos movimentos” dos atores, para tentar gerar nas telas um realismo já tentando sem sucesso antes em filmes como “Final Fantasy”.
O problema é que, mesmo encontrando-se em um elevado patamar de avanço tecnológico, a computação gráfica falha miseravelmente ao tentar emular as emoções humanas – principalmente aquelas transmitidas pelos olhos. Não é à toa, portanto, que o pessoal da Pixar e de outras produtoras especializadas em animação gerada por computador sempre escolhe um visual altamente estilizado para seus filmes, principalmente para as figuras humanas (vide “Os Incríveis” e “Procurando Nemo”). Mesmo James Cameron em "Avatar" só usou computação gráfica para personificar os alienígenas (os humanos foram feitos por atores normais).
Assim, “As Aventuras de Tintin” parece clamar o tempo todo por atores em carne e osso para representar os personagens na tela e as tentativas de passar emoção por meio dos bonecos digitais falha fragorosamente (em 3D o filme fica ainda mais artificial). O que sobra então é uma aventura incessante, guiada por um fiapo de roteiro (livremente baseado em vários livros do Tintin), que procura inventar uma nova perseguição ainda mais absurda e barulhenta do que a que acabamos de ver. Por causa disso, o jornalista Tintin (que nos quadrinhos resolve seus problemas muito mais na base da investigação) aqui vira um sub-Indiana Jones, dando murros, tiros e pontapés em seu inimigos e perseguindo em carros, aviões e motos os bandidos. O clímax dessa montanha russa infernal culmina com Tintin numa moto correndo atrás de uma águia nas ruas e céus de uma cidade – no final da correria o protagonista quase exibe poderes de super herói!
Lamentavelmente também, a trilha musical de John Williams demonstra claramente que o grande compositor – já aos 80 anos de idade – esgotou sua criatividade há algum tempo. A música que compôs para “As Aventuras de Tintin”, embora tecnicamente impecável, soa incrivelmente genérica ou reciclada ao emprestar claramente passagens e temas de outras composições suas, principalmente a série “Indiana Jones”, “Hook” e “Harry Potter”.
Mas o que realmente derruba o filme é a sua conclusão, completamente anti-climática e que ainda tenta forçar a barra anunciando uma continuação que nem sabemos se virá (afinal, tudo depende de quanto ele vai lucrar nas bilheterias). O filme se encerra da pior maneira possível, o que é algo vergonhoso se levarmos em conta que se trata de um produto de Steven Spielberg, cineasta que se especializou no início de carreira em terminar suas obras com altas doses de emoção (quem pode esquecer dos finais deslumbrantes de “E.T.” ou de “Contatos Imediatos do 3º Grau”?).
Enfim, em sua ânsia por tentar atingir vários alvos ao mesmo tempo, Spielberg acaba errando todos e, acredito, não vai satisfazer totalmente as crianças, que devem se cansar com tanta perseguição e barulho, nem os adultos fãs de Tintin, os quais vão considerar o filme infantil e vazio demais em comparação com a rica obra de Hergé. Mais um tiro na água de Spielberg...
Cotação: * * 1/2
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
Filmes: "Cavalo de Guerra"
DE RÉDEAS PUXADAS
Filme é mais um tiro na água de um cineasta que revolucionou o cinema, mas agora se tornou um reacionário que sente necessidade de emular filmes dos anos 1950 para tentar gerar alguma conexão com sua plateia.
- por André Lux, crítico-spam
O diretor Steven Spielberg parece ter chegado a uma encruzilhada criativa em sua carreira que o deixa impossibilitado de repetir seus sucessos do passado. Do alto de seus sessenta e tantos anos não consegue mais se comunicar com a juventude atual e seus filmes pretensamente “sérios” não recebem o devido respeito que ele gostaria. Nem mesmo os filmes produzidos e apresentados por ele geram mais qualquer impacto ou relevância (vide o fraco “Cowboys & Aliens”).
Assim, nas últimas décadas, o cineasta tem se entregado a projetos que vão do ridículo (“AI: Inteligência Artificial” e “Minority Report”) ao simplesmente desencontrado (“Munique” e “A Guerra dos Mundos”). Seu novo longa, “Cavalo de Guerra”, situa-se na segunda coluna. Terminada a exibição, fica impossível identificar qual era, afinal, a história que Spielberg queria contar. Era a história do cavalo Joey e sua luta pela sobrevivência? Era a história do menino (o fraco Jeremy Irvine) que criou o cavalo? Seria sobre os horrores da I Guerra Mundial, na qual foram massacrados milhões de equinos por causa das novas táticas e armas de guerra que tornaram as lutas de cavalaria obsoletas? Talvez um conto dramático sobre os problemas familiares e como acontecimentos grandiosos podem influenciá-los para o bem ou para o mal?
Impossível de saber. “Cavalo de Guerra” acaba sendo outro filme de Spielberg totalmente esquizofrênico, que não se decide sobre o que se trata e, pior, é ainda embrulhado como se fosse um filme para a família. Só que mais da metade de sua longa metragem se passa dentro dos campos de batalha imundos e tétricos da I Guerra – e a solução encontrada por Spielberg para não “assustar” as famílias foi retirar qualquer traço de sangue das mortes! Genial.
O filme também tem um grande problema que é a fotografia de Januzs Kaminsky, colaborador fiel de Spielberg desde “A Lista de Schindler”. Seu estilo árido, esmaecido e estourado de filmar não casa com o lado “família” da obra e, obviamente, só funciona durante as sequências de guerra. A música de John Williams sofre com toda esse desencontro e, embora tecnicamente perfeita, também não passa qualquer emoção ao ser meticulosamente “segura pelas rédeas” pelo diretor que, mesmo no final, parece não ter decidido se queria fazer um filme “sério” (leia-se: profundo e contido) ou um filme “família” (leia-se: para se emocionar e chorar).
As únicas poucas sequências de “Cavalo de Guerra” que geram algum tipo de emoção acabam sendo justamente as que se concentram em seus protagonistas equinos. Aí Spielberg, absurdamente, imprime sensibilidades humanas ao cavalo “Joey”, já que ele não só é fiel e elegante, como também não mede esforços para se colocar frente ao perigo para salvar seu amigo (um cavalo negro mais velho)!
A tentativa de criar sentimentalismo entre o garoto e sua família também não funciona. Primeiro porque o relacionamento entre eles carece de profundidade e laços verdadeiros. E segundo porque sua mãe é por demais independente para uma mulher do início do século XX e seu pai tem crises existenciais demasidamente conscientes e profundas para um simples fazendeiro alcóolatra.
Spielberg imita a estética de “E O Vento Levou...” para encerrar seu filme, porém não consegue reproduzir nada da emoção e do arrebatamento daquela obra, ficando no ar apenas um gosto de café requentado e aguado demais. No final, “Cavalo de Guerra” é somente mais um tiro na água desse cineasta que, no início de carreira, revolucionou o cinema com suas aventuras e dramas infantis palpitantes, mas que agora se tornou, quem diria, um reacionário que sente necessidade de emular filmes dos anos 1950 para tentar gerar algum tipo de conexão com sua plateia. Chega a ser triste isso.
Cotação: * * 1/2
Filme é mais um tiro na água de um cineasta que revolucionou o cinema, mas agora se tornou um reacionário que sente necessidade de emular filmes dos anos 1950 para tentar gerar alguma conexão com sua plateia.
- por André Lux, crítico-spam
O diretor Steven Spielberg parece ter chegado a uma encruzilhada criativa em sua carreira que o deixa impossibilitado de repetir seus sucessos do passado. Do alto de seus sessenta e tantos anos não consegue mais se comunicar com a juventude atual e seus filmes pretensamente “sérios” não recebem o devido respeito que ele gostaria. Nem mesmo os filmes produzidos e apresentados por ele geram mais qualquer impacto ou relevância (vide o fraco “Cowboys & Aliens”).
Assim, nas últimas décadas, o cineasta tem se entregado a projetos que vão do ridículo (“AI: Inteligência Artificial” e “Minority Report”) ao simplesmente desencontrado (“Munique” e “A Guerra dos Mundos”). Seu novo longa, “Cavalo de Guerra”, situa-se na segunda coluna. Terminada a exibição, fica impossível identificar qual era, afinal, a história que Spielberg queria contar. Era a história do cavalo Joey e sua luta pela sobrevivência? Era a história do menino (o fraco Jeremy Irvine) que criou o cavalo? Seria sobre os horrores da I Guerra Mundial, na qual foram massacrados milhões de equinos por causa das novas táticas e armas de guerra que tornaram as lutas de cavalaria obsoletas? Talvez um conto dramático sobre os problemas familiares e como acontecimentos grandiosos podem influenciá-los para o bem ou para o mal?
Impossível de saber. “Cavalo de Guerra” acaba sendo outro filme de Spielberg totalmente esquizofrênico, que não se decide sobre o que se trata e, pior, é ainda embrulhado como se fosse um filme para a família. Só que mais da metade de sua longa metragem se passa dentro dos campos de batalha imundos e tétricos da I Guerra – e a solução encontrada por Spielberg para não “assustar” as famílias foi retirar qualquer traço de sangue das mortes! Genial.
O filme também tem um grande problema que é a fotografia de Januzs Kaminsky, colaborador fiel de Spielberg desde “A Lista de Schindler”. Seu estilo árido, esmaecido e estourado de filmar não casa com o lado “família” da obra e, obviamente, só funciona durante as sequências de guerra. A música de John Williams sofre com toda esse desencontro e, embora tecnicamente perfeita, também não passa qualquer emoção ao ser meticulosamente “segura pelas rédeas” pelo diretor que, mesmo no final, parece não ter decidido se queria fazer um filme “sério” (leia-se: profundo e contido) ou um filme “família” (leia-se: para se emocionar e chorar).
As únicas poucas sequências de “Cavalo de Guerra” que geram algum tipo de emoção acabam sendo justamente as que se concentram em seus protagonistas equinos. Aí Spielberg, absurdamente, imprime sensibilidades humanas ao cavalo “Joey”, já que ele não só é fiel e elegante, como também não mede esforços para se colocar frente ao perigo para salvar seu amigo (um cavalo negro mais velho)!
A tentativa de criar sentimentalismo entre o garoto e sua família também não funciona. Primeiro porque o relacionamento entre eles carece de profundidade e laços verdadeiros. E segundo porque sua mãe é por demais independente para uma mulher do início do século XX e seu pai tem crises existenciais demasidamente conscientes e profundas para um simples fazendeiro alcóolatra.
Spielberg imita a estética de “E O Vento Levou...” para encerrar seu filme, porém não consegue reproduzir nada da emoção e do arrebatamento daquela obra, ficando no ar apenas um gosto de café requentado e aguado demais. No final, “Cavalo de Guerra” é somente mais um tiro na água desse cineasta que, no início de carreira, revolucionou o cinema com suas aventuras e dramas infantis palpitantes, mas que agora se tornou, quem diria, um reacionário que sente necessidade de emular filmes dos anos 1950 para tentar gerar algum tipo de conexão com sua plateia. Chega a ser triste isso.
Cotação: * * 1/2
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
Filmes: "Conan, O Bárbaro" (2011)
CONAN, O GROTESCO
Nada me preparou para esse que deve ser um dos piores filmes já feitos na história do cinema!
- por André Lux, crítico-spam
Sinceramente, eu não esperava muito desse novo “Conan, O Bárbaro”, mas nada me preparou para esse que deve ser um dos piores filmes já feitos na história do cinema! O original, de 1982 dirigido por John Millius e estrelado por Arnold Schwarzenneger tem muitos detratores, porém virou cult com o passar dos anos, é bem feito e tem algumas das melhores lutas de espada do cinema - sem falar é claro da trilha musical espetacular de Basil Poledouris.
Agora, essa nova versão... acho que o melhor termo para qualificá-la seria “aberração”. É difícil falar o que é pior no filme. Os atores são simplesmente ridículos, a começar pelo “astro” Jason Momoa que parece uma mistura de surfista idiota com vilão de filme mexicano que passa o filme todo fazendo caretas dignas de quem está com diarréia das bravas. Nem o sempre competente Ron Pearlman (de “Hellboy”) sobrevive ao massacre de ruindade, ainda mais com o penteado que o obrigaram a usar que o deixa parecido com o Véio do Rio que virou mendigo. Por sinal, quase todos os personagens do filme parecem gritar “joguem shampoo na minha cabeça” de tão nojentos que são!
A direção de arte do filme é simplesmente grotesca, pior que desfile de escola de samba de Pindamonhangaba. Os diálogos são canhestros e parecem que foram escritos por um débil mental, o mesmo podendo ser dito da história que é simplesmente risível. Que porcaria é aquela de ter que juntar os pedaços de uma máscara que foi quebrada há trocentos anos para virar o bruxo mais poderoso do pedaço? Por que os panacas guardaram os pedaços da tal máscara do mal se, já que ela quebrou mesmo, bastava esmigalhar tudo e jogar o resto no fogo? Se é pra imitar “O Senhor dos Anéis” pelo menos façam direito, né?
O que mais enoja nesse “Conan, O Bárbaro”, todavia, é a violência gratuita e intolerável. Para você ter uma ideia do nível do negócio, o “herói” do filme quando criança decepa o nariz de um dos ajudantes do vilão e, anos mais tarde ao reencontrá-lo, simplesmente enfia o dedo no buraco na cara do sujeito para obrigá-lo a dar informações! Deveria se chamar “Conan, o Grotesco”, isso sim! E que tosqueira é aquela de mostrar o Conan com não mais do que 10 anos de idade trucidando um bando de bárbaros que mais parecem orcs? Se o cara faz aquilo tudo quando criança, ao crescer vai virar o super-homem, no mínimo! Que suspense, aventura ou drama alguém espera gerar numa filme com esse tipo de “arco”? Nenhum, é claro.
Vou te dizer, foi difícil assistir a esse lixo até o fim. Só recomendo para masoquistas ou então para idiotas desmiolados que não entendem nada de cinema. Nem como trash funciona, pois é tão nojento e desagradável que não dá nem pra rir daquilo tudo. Só mesmo um bando de dementes degenerados para produzir e, pior, lançar um filme como esse nos cinemas! E os caras ainda tem coragem de dizer que essa bosta é "mais fiel aos quadrinhos originais de Robert E. Howard"... só se for nas cabeças cheias de merda deles! E tenho dito!
Cotação: ZERO
Nada me preparou para esse que deve ser um dos piores filmes já feitos na história do cinema!
- por André Lux, crítico-spam
Sinceramente, eu não esperava muito desse novo “Conan, O Bárbaro”, mas nada me preparou para esse que deve ser um dos piores filmes já feitos na história do cinema! O original, de 1982 dirigido por John Millius e estrelado por Arnold Schwarzenneger tem muitos detratores, porém virou cult com o passar dos anos, é bem feito e tem algumas das melhores lutas de espada do cinema - sem falar é claro da trilha musical espetacular de Basil Poledouris.
Agora, essa nova versão... acho que o melhor termo para qualificá-la seria “aberração”. É difícil falar o que é pior no filme. Os atores são simplesmente ridículos, a começar pelo “astro” Jason Momoa que parece uma mistura de surfista idiota com vilão de filme mexicano que passa o filme todo fazendo caretas dignas de quem está com diarréia das bravas. Nem o sempre competente Ron Pearlman (de “Hellboy”) sobrevive ao massacre de ruindade, ainda mais com o penteado que o obrigaram a usar que o deixa parecido com o Véio do Rio que virou mendigo. Por sinal, quase todos os personagens do filme parecem gritar “joguem shampoo na minha cabeça” de tão nojentos que são!
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| Conan: "Porra, meu pai é o Véio do Rio mendigo!" |
A direção de arte do filme é simplesmente grotesca, pior que desfile de escola de samba de Pindamonhangaba. Os diálogos são canhestros e parecem que foram escritos por um débil mental, o mesmo podendo ser dito da história que é simplesmente risível. Que porcaria é aquela de ter que juntar os pedaços de uma máscara que foi quebrada há trocentos anos para virar o bruxo mais poderoso do pedaço? Por que os panacas guardaram os pedaços da tal máscara do mal se, já que ela quebrou mesmo, bastava esmigalhar tudo e jogar o resto no fogo? Se é pra imitar “O Senhor dos Anéis” pelo menos façam direito, né?
O que mais enoja nesse “Conan, O Bárbaro”, todavia, é a violência gratuita e intolerável. Para você ter uma ideia do nível do negócio, o “herói” do filme quando criança decepa o nariz de um dos ajudantes do vilão e, anos mais tarde ao reencontrá-lo, simplesmente enfia o dedo no buraco na cara do sujeito para obrigá-lo a dar informações! Deveria se chamar “Conan, o Grotesco”, isso sim! E que tosqueira é aquela de mostrar o Conan com não mais do que 10 anos de idade trucidando um bando de bárbaros que mais parecem orcs? Se o cara faz aquilo tudo quando criança, ao crescer vai virar o super-homem, no mínimo! Que suspense, aventura ou drama alguém espera gerar numa filme com esse tipo de “arco”? Nenhum, é claro.
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| "Conan, quero que conheça o meu cabeleireiro. É um luxo!" |
Vou te dizer, foi difícil assistir a esse lixo até o fim. Só recomendo para masoquistas ou então para idiotas desmiolados que não entendem nada de cinema. Nem como trash funciona, pois é tão nojento e desagradável que não dá nem pra rir daquilo tudo. Só mesmo um bando de dementes degenerados para produzir e, pior, lançar um filme como esse nos cinemas! E os caras ainda tem coragem de dizer que essa bosta é "mais fiel aos quadrinhos originais de Robert E. Howard"... só se for nas cabeças cheias de merda deles! E tenho dito!
Cotação: ZERO
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
Filmes: "Contágio"
FUJA!
Um filme sobre o fim do mundo que não passa qualquer emoção, exceto tédio
- por André Lux, crítico-spam
Depois do fiasco de “Che: O Argentino” e “Che: A Guerrilha”, o diretor Steven Soderbergh volta a errar neste “Contágio”, que poderia render um excelente thriller sobre uma doença que pode levar a raça humana à extinção. Já fizeram vários tipos de filmes com esse tema, poucos de sucesso, mas pelo menos eles tentavam ser alguma coisa.
Esse “Contágio” não é nada. Não tem suspense, ação, drama ou mesmo denúncia. É um filme basicamente rodado como se fosse um documentário, que não se prende a nenhum personagem em especial e vai jogando na tela um monte de informações tediosas sobre os casos de contaminação que vão aumentando exponencialmente desde a morte de uma estadunidense (Gwyneth Paltrow) que acabou de chegar de uma viagem de negócio à China.
Soderbergh teve como sempre um excelente elenco à sua disposição, incluindo Kate Winslet, Lawrence Fishburne, Matt Damon, Marion Cotillard, Jud Law, mas nenhum deles tem qualquer chance de brilhar. Sem dizer que sobra para Law o ingrato papel de um blogueiro sujo extremamente caricato (com direito a dentes podres!) que se vende para uma corporação farmacêutica para fingir que um de seus remédios serve como cura e para fazer denúncias vazias contra o governo (chega a sugerir que a doença foi fabricada em laboratório). Ou seja, Soderbergh ainda nada contra a corrente ao defender o trabalho da mídia corporativa, como se só o jornalismo praticado por eles é que possa ser levado a sério!
Para atrapalhar ainda mais o resultado, a música de Cliff Martinez é péssima (resume-se a sons atonais e ruídos metálicos irritantes), a fotografia esmaecida, a edição é frouxa e a maioria dos personagens nem chega a se cruzar. Enfim, um filme sobre o fim do mundo que não passa qualquer emoção, exceto tédio. Fuja!
Cotação: *
Um filme sobre o fim do mundo que não passa qualquer emoção, exceto tédio
- por André Lux, crítico-spam
Depois do fiasco de “Che: O Argentino” e “Che: A Guerrilha”, o diretor Steven Soderbergh volta a errar neste “Contágio”, que poderia render um excelente thriller sobre uma doença que pode levar a raça humana à extinção. Já fizeram vários tipos de filmes com esse tema, poucos de sucesso, mas pelo menos eles tentavam ser alguma coisa.
Esse “Contágio” não é nada. Não tem suspense, ação, drama ou mesmo denúncia. É um filme basicamente rodado como se fosse um documentário, que não se prende a nenhum personagem em especial e vai jogando na tela um monte de informações tediosas sobre os casos de contaminação que vão aumentando exponencialmente desde a morte de uma estadunidense (Gwyneth Paltrow) que acabou de chegar de uma viagem de negócio à China.
Soderbergh teve como sempre um excelente elenco à sua disposição, incluindo Kate Winslet, Lawrence Fishburne, Matt Damon, Marion Cotillard, Jud Law, mas nenhum deles tem qualquer chance de brilhar. Sem dizer que sobra para Law o ingrato papel de um blogueiro sujo extremamente caricato (com direito a dentes podres!) que se vende para uma corporação farmacêutica para fingir que um de seus remédios serve como cura e para fazer denúncias vazias contra o governo (chega a sugerir que a doença foi fabricada em laboratório). Ou seja, Soderbergh ainda nada contra a corrente ao defender o trabalho da mídia corporativa, como se só o jornalismo praticado por eles é que possa ser levado a sério!
Para atrapalhar ainda mais o resultado, a música de Cliff Martinez é péssima (resume-se a sons atonais e ruídos metálicos irritantes), a fotografia esmaecida, a edição é frouxa e a maioria dos personagens nem chega a se cruzar. Enfim, um filme sobre o fim do mundo que não passa qualquer emoção, exceto tédio. Fuja!
Cotação: *
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
Filmes: "Tudo Pelo Poder"
OS FINS JUSTIFICAM OS MEIOS?
Filmes sobre política geralmente não caem bem no gosto popular, porém este merece ser visto e, principalmente, debatido, pois levanta questões que não possuem respostas fáceis.
- por André Lux, crítico-spam
George Clooney, em seu quarto trabalho na direção, mostra que é um cineasta inteligente e engajado politicamente. “Tudo Pelo Poder” (adaptação pobre para o título original “Os Idos de Março”, uma referência a Julio Cesar, de Shakespeare) é um filme sobre os bastidores da campanha política de dois candidatos do partido Democrata que pleiteiam a vaga para a próxima disputa pela presidência da república dos EUA. Um deles, interpretado por Clooney, é um homem de fortes ideais humanistas e trabalhistas e que defende projetos francamente radicais (como acabar com os motores de combustão a petróleo e taxar os milionários, coisas que soam como total heresia na sociedade de consumo dos EUA).
Por trás dele existem dois assessores, especializados no jogo político. O mais experiente e calejado, interpretado por Phillip Seymour Hoffman com seus maneirismos de sempre, e o novato e cheio de ideais nobres (o excelente Ryan Gosling, de “Diários de Uma Paixão”). A trama traz o básico nesse tipo de filme: intrigas, traições, decepções, suspeitas, as chantagens da mídia e debates sobre ideologias. Mas acima de tudo, Clooney deixa no ar a pergunta mais importante de todas quando se trata de política e eleições: afinal, os fins justificam os meios?
Quem vai ter que respondê-la é justamente o assessor jovem e idealista que descobre, da pior maneira possível, que seu estimado candidato é, afinal de contas, apenas um ser humano com qualidades e defeitos. Assim Clooney, que também é co-autor do roteiro inspirado em uma peça de teatro, mostra de forma contundente que todo ser humano é passível de falhas e de cometer atos desprezíveis, mesmo que tenha bom caráter e as melhores intenções. E é justamente essas falhas e deslizes que os políticos sem escrúpulos buscam encontrar espionando e escrutinando com uma lupa a vida de seus adversários.
“Tudo Pelo Poder” é também uma verdadeira aula de realpolitik, algo que todo radical de esquerda deveria entender de uma vez por todas: no sistema democrático capitalista não é possível ganhar uma eleição e governar sem fazer concessões e alianças, mesmo que elas em última instância manchem os nobres ideais daquele político ou de seu partido. Quem não entende isso, obviamente não pode ser levado a sério quando se fala em disputa política dentro do atual sistema eleitoral, a não ser é claro que queira apenas servir de bobo da corte, tanto à direita quando à esquerda.
Filmes sobre política geralmente não caem bem no gosto popular, porém “Tudo Pelo Poder” merece ser visto e, principalmente, debatido, pois levanta questões que não possuem respostas fáceis. Assista e comprove.
Cotação: * * * *
Filmes sobre política geralmente não caem bem no gosto popular, porém este merece ser visto e, principalmente, debatido, pois levanta questões que não possuem respostas fáceis.
- por André Lux, crítico-spam
George Clooney, em seu quarto trabalho na direção, mostra que é um cineasta inteligente e engajado politicamente. “Tudo Pelo Poder” (adaptação pobre para o título original “Os Idos de Março”, uma referência a Julio Cesar, de Shakespeare) é um filme sobre os bastidores da campanha política de dois candidatos do partido Democrata que pleiteiam a vaga para a próxima disputa pela presidência da república dos EUA. Um deles, interpretado por Clooney, é um homem de fortes ideais humanistas e trabalhistas e que defende projetos francamente radicais (como acabar com os motores de combustão a petróleo e taxar os milionários, coisas que soam como total heresia na sociedade de consumo dos EUA).
Por trás dele existem dois assessores, especializados no jogo político. O mais experiente e calejado, interpretado por Phillip Seymour Hoffman com seus maneirismos de sempre, e o novato e cheio de ideais nobres (o excelente Ryan Gosling, de “Diários de Uma Paixão”). A trama traz o básico nesse tipo de filme: intrigas, traições, decepções, suspeitas, as chantagens da mídia e debates sobre ideologias. Mas acima de tudo, Clooney deixa no ar a pergunta mais importante de todas quando se trata de política e eleições: afinal, os fins justificam os meios?
Quem vai ter que respondê-la é justamente o assessor jovem e idealista que descobre, da pior maneira possível, que seu estimado candidato é, afinal de contas, apenas um ser humano com qualidades e defeitos. Assim Clooney, que também é co-autor do roteiro inspirado em uma peça de teatro, mostra de forma contundente que todo ser humano é passível de falhas e de cometer atos desprezíveis, mesmo que tenha bom caráter e as melhores intenções. E é justamente essas falhas e deslizes que os políticos sem escrúpulos buscam encontrar espionando e escrutinando com uma lupa a vida de seus adversários.
“Tudo Pelo Poder” é também uma verdadeira aula de realpolitik, algo que todo radical de esquerda deveria entender de uma vez por todas: no sistema democrático capitalista não é possível ganhar uma eleição e governar sem fazer concessões e alianças, mesmo que elas em última instância manchem os nobres ideais daquele político ou de seu partido. Quem não entende isso, obviamente não pode ser levado a sério quando se fala em disputa política dentro do atual sistema eleitoral, a não ser é claro que queira apenas servir de bobo da corte, tanto à direita quando à esquerda.
Filmes sobre política geralmente não caem bem no gosto popular, porém “Tudo Pelo Poder” merece ser visto e, principalmente, debatido, pois levanta questões que não possuem respostas fáceis. Assista e comprove.
Cotação: * * * *
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
Blu-Ray: Trilogia "Jurassic Park"
JURASSIC PARK: O PARQUE DOS DINOSSAUROS
DINOSSAUROS PSICOPATAS
Spielberg mexeu demais na história e banalizou e diluiu uma trama extremamente rica e promissora
- por André Lux, crítico-spam
É uma decepção total essa adaptação do best seller JURASSIC PARK, escrito pelo também cineasta Michael Crichton (COMA, O 13º GUERREIRO). Mas a culpa é do diretor Steven Spielberg, que mexeu demais na história e banalizou e diluiu uma trama extremamente rica e promissora.
Quem leu o livro de Crichton sabe que ele estava mais interessado em abordar a questão da intervenção do homem na natureza, principalmente na genética - tema que o filme explora de maneira débil.
Em uma das passagens mais terríveis do livro, por exemplo, o dr. Grant (Sam Neil) descobre que os dinossauros, criados todos fêmeas pela engenharia genética, estão se reproduzindo na ilha, fator que, somado aos acontecimentos descritos no início do livro, indicam nada menos do que a extinção da raça humana. No filme, a descoberta é seguida de um sorrisinho do tipo "ohhhh, eles estão se reproduzindo, que fofo!".
Entretanto, o livro não se limita a discussão intelectual e filosófica, pois traz momentos realmente genuínos de tensão e aventura, além de uma quantidade impressionante de perseguições e dinossauros dos mais variados tipos. Já JURASSIC PARK, o filme, é basicamente um engodo, pois é visivelmente um filme de segunda unidade, já que Spielberg estava com sua atenção voltada totalmente para A LISTA DE SCHINDLER, que foi filmado simultaneamente. A trama foi sumariamente reduzida e idiotizada e o sucesso do filme justifica-se apenas pela estrondosa campanha de marketing em cima dos efeitos especiais digitais que embora impressionem, são poucos, já que a maioria das criaturas era mesmo animatronicks criadas pelo saudoso Stan Winston.
A única cena realmente boa do filme é a da chegada à ilha, que conseguiu reproduzir por alguns momentos (graças à majestosa trilha musical de John Williams) aquele clima mágico dos filmes antigos de Spielberg. Mas tirando isso e uma ou outra cena de suspense legítimo, o resto de JURASSIC PARK resume-se a uma correria desenfreada e cansativa, onde além da canastrice geral do elenco, temos que aturar criancinhas metidas a engraçadinhas, dinossauros psicopatas (que perseguem os personagens sem nenhuma explicação lógica e abrem até portas!) e incriveis furos no roteiro (como a jaula do T-Rex, que em uma cena fica no nível do solo, mas instantes depois é mostrada como um altíssimo precipício).
A expressão "muito barulho por nada" nunca fez tanto sentido para descrever um filme como JURASSIC PARK - embora a continuação O MUNDO PERDIDO tenha conseguido a proeza de ser ainda pior!
Cotação: **1/2
JURASSIC PARK: O MUNDO PERDIDO
DINOSSAUROS PSICOPATAS: O RETORNO
Mais uma vez somos obrigados a ver personagens burros e esquemáticos correndo de um lado para o outro enquanto são perseguidos por monstros digitais
- por André Lux, crítico-spam
Não dava mesmo para esperar muito desse O MUNDO PERDIDO, seqüência do já fraco JURASSIC PARK. Mas Spielberg e sua trupe realmente superaram-se! É difícil dizer o que é pior nesse filme, que mais parece uma produção B de Roger Corman, só que sem o charme e o clima de auto-gozação daquelas películas.
Não há história, já que O MUNDO PERDIDO basicamente é uma refilmagem do primeiro filme. Mais uma vez somos obrigados a ver um monte de personagens burros e esquemáticos correndo de um lado para o outro enquanto são perseguidos (e devorados) por dinossauros digitais psicopatas.
Entretanto, o troféu abacaxi certamente vai para Jeff Goldblum (no auge da canastrice) e sua filha que proferem alguns dos diálogos constrangedores em atuações amadorísticas. Sem falar que o personagem dele, o dr. Ian Malcom, mudou completamente de personalidade de um filme para o outro! Nem mesmo a sempre competente Juliane Moore salva-se, completamente perdida em um personagem irritante, profundo como uma poça d'água e extremamente burro. O que dizer então do cientista/ativista "interpretado" por Vince Vaughan, que passa o filme todo dizendo frases de efeito e piadinhas fora de hora - e que simplesmente evapora na segunda parte do filme?
Para piorar tudo, os conflitos e situações de perigo são filmados apressada e displicentemente (tipo, "deixa como está que o pessoal da computação gráfica dá um jeito") e as cenas de ação são forçadas e banais - atingindo o ápice do rídículo na seqüência onde a menina negra derrota um Velociraptor usando seus dotes de ginástica olímpica!
No final, um T-Rex corre solto pela cidade de San Diego e, em uma seqüência grotesca, devora um homem interpretado pelo próprio roteirista do filme, David Koepp. Pena que isso não tenha acontecido na vida real, pois daí não teríamos que aturar mais essa irritante bomba cinematográfica que não serve nem mesmo como comédia involuntária...
Cotação: *
JURASSIC PARK III
DINOSSAUROS DIVERTIDOS, ENFIM!
Filme é divertido, alucinante, assumidamente B e, por que não, verdadeiramente assustador.
- por André Lux, crítico-spam
Depois do decepcionante JURASSIC PARK e da ridícula continuação O MUNDO PERDIDO, esse JURASSIC PARK III parecia ser o fundo do poço para o franchise baseado no ótimo livro de Michael Crichton.
Mas, para surpresa geral, o terceiro exemplar da série é o mais divertido e bem realizado de todos. Tudo bem, não é nem de longe uma "obra-prima" da sétima arte, mas é exatamente a falta de pretensão (que sobrou no primeiro) e da pieguice do segundo, que transforma este filme em uma boa pedida para quem está em busca de ação e aventura incessantes.
Basicamente não há história - até aí nenhuma novidade, já que os outros dois também não tinham - e o roteiro aproveita diversas situações dos livros, que haviam ficado de fora dos dois primeiros filmes (como toda a sequência dentro da gaiola dos Pterodáctilos, o ataque no barco e mesmo a conclusão). Entretanto, o maior acerto do filme é não se levar a sério, evitando papo-furado pseudo científico e as irritantes piadinhas fora de hora (fatores que ajudaram a arruinar os anteriores).
E finalmente os dinossauros são mostrados em toda sua grandeza, lutando, destruindo e comendo gente sem dó, ao contrário da baboseira politicamente correta imposta por Spielberg nas outras produções - nos quais as cenas mais eletrizantes ficavam por conta de carros pendurados em desfiladeiros. Por sinal, a saída de Spielberg da direção parece ter sido a melhor coisa que poderia acontecer com a série, já que Joe Johnston ficou livre para ir direto à jugular do espectador, tendo a seu lado efeitos especiais assombrosos.
Também é uma grata surpresa a ausência de criancinhas chatas e intrometidas e de Jeff Goldblum, cuja atuação constrangedora arrasou o segundo filmes.
Enfim, JURASSIC PARK III é tudo aquilo que os dois antecessores não eram: divertido, alucinante, assumidamente B e, por que não, verdadeiramente assustador. Sem dúvida uma boa surpresa - se você não estiver esperando muito mesmo...
Cotação: ***
DINOSSAUROS PSICOPATAS
Spielberg mexeu demais na história e banalizou e diluiu uma trama extremamente rica e promissora
- por André Lux, crítico-spam
É uma decepção total essa adaptação do best seller JURASSIC PARK, escrito pelo também cineasta Michael Crichton (COMA, O 13º GUERREIRO). Mas a culpa é do diretor Steven Spielberg, que mexeu demais na história e banalizou e diluiu uma trama extremamente rica e promissora.
Quem leu o livro de Crichton sabe que ele estava mais interessado em abordar a questão da intervenção do homem na natureza, principalmente na genética - tema que o filme explora de maneira débil.
Em uma das passagens mais terríveis do livro, por exemplo, o dr. Grant (Sam Neil) descobre que os dinossauros, criados todos fêmeas pela engenharia genética, estão se reproduzindo na ilha, fator que, somado aos acontecimentos descritos no início do livro, indicam nada menos do que a extinção da raça humana. No filme, a descoberta é seguida de um sorrisinho do tipo "ohhhh, eles estão se reproduzindo, que fofo!".
Entretanto, o livro não se limita a discussão intelectual e filosófica, pois traz momentos realmente genuínos de tensão e aventura, além de uma quantidade impressionante de perseguições e dinossauros dos mais variados tipos. Já JURASSIC PARK, o filme, é basicamente um engodo, pois é visivelmente um filme de segunda unidade, já que Spielberg estava com sua atenção voltada totalmente para A LISTA DE SCHINDLER, que foi filmado simultaneamente. A trama foi sumariamente reduzida e idiotizada e o sucesso do filme justifica-se apenas pela estrondosa campanha de marketing em cima dos efeitos especiais digitais que embora impressionem, são poucos, já que a maioria das criaturas era mesmo animatronicks criadas pelo saudoso Stan Winston.
A única cena realmente boa do filme é a da chegada à ilha, que conseguiu reproduzir por alguns momentos (graças à majestosa trilha musical de John Williams) aquele clima mágico dos filmes antigos de Spielberg. Mas tirando isso e uma ou outra cena de suspense legítimo, o resto de JURASSIC PARK resume-se a uma correria desenfreada e cansativa, onde além da canastrice geral do elenco, temos que aturar criancinhas metidas a engraçadinhas, dinossauros psicopatas (que perseguem os personagens sem nenhuma explicação lógica e abrem até portas!) e incriveis furos no roteiro (como a jaula do T-Rex, que em uma cena fica no nível do solo, mas instantes depois é mostrada como um altíssimo precipício).
A expressão "muito barulho por nada" nunca fez tanto sentido para descrever um filme como JURASSIC PARK - embora a continuação O MUNDO PERDIDO tenha conseguido a proeza de ser ainda pior!
Cotação: **1/2
JURASSIC PARK: O MUNDO PERDIDO
DINOSSAUROS PSICOPATAS: O RETORNO
Mais uma vez somos obrigados a ver personagens burros e esquemáticos correndo de um lado para o outro enquanto são perseguidos por monstros digitais
- por André Lux, crítico-spam
Não dava mesmo para esperar muito desse O MUNDO PERDIDO, seqüência do já fraco JURASSIC PARK. Mas Spielberg e sua trupe realmente superaram-se! É difícil dizer o que é pior nesse filme, que mais parece uma produção B de Roger Corman, só que sem o charme e o clima de auto-gozação daquelas películas.
Não há história, já que O MUNDO PERDIDO basicamente é uma refilmagem do primeiro filme. Mais uma vez somos obrigados a ver um monte de personagens burros e esquemáticos correndo de um lado para o outro enquanto são perseguidos (e devorados) por dinossauros digitais psicopatas.
Entretanto, o troféu abacaxi certamente vai para Jeff Goldblum (no auge da canastrice) e sua filha que proferem alguns dos diálogos constrangedores em atuações amadorísticas. Sem falar que o personagem dele, o dr. Ian Malcom, mudou completamente de personalidade de um filme para o outro! Nem mesmo a sempre competente Juliane Moore salva-se, completamente perdida em um personagem irritante, profundo como uma poça d'água e extremamente burro. O que dizer então do cientista/ativista "interpretado" por Vince Vaughan, que passa o filme todo dizendo frases de efeito e piadinhas fora de hora - e que simplesmente evapora na segunda parte do filme?
Para piorar tudo, os conflitos e situações de perigo são filmados apressada e displicentemente (tipo, "deixa como está que o pessoal da computação gráfica dá um jeito") e as cenas de ação são forçadas e banais - atingindo o ápice do rídículo na seqüência onde a menina negra derrota um Velociraptor usando seus dotes de ginástica olímpica!
No final, um T-Rex corre solto pela cidade de San Diego e, em uma seqüência grotesca, devora um homem interpretado pelo próprio roteirista do filme, David Koepp. Pena que isso não tenha acontecido na vida real, pois daí não teríamos que aturar mais essa irritante bomba cinematográfica que não serve nem mesmo como comédia involuntária...
Cotação: *
JURASSIC PARK III
DINOSSAUROS DIVERTIDOS, ENFIM!
Filme é divertido, alucinante, assumidamente B e, por que não, verdadeiramente assustador.
- por André Lux, crítico-spam
Depois do decepcionante JURASSIC PARK e da ridícula continuação O MUNDO PERDIDO, esse JURASSIC PARK III parecia ser o fundo do poço para o franchise baseado no ótimo livro de Michael Crichton.
Mas, para surpresa geral, o terceiro exemplar da série é o mais divertido e bem realizado de todos. Tudo bem, não é nem de longe uma "obra-prima" da sétima arte, mas é exatamente a falta de pretensão (que sobrou no primeiro) e da pieguice do segundo, que transforma este filme em uma boa pedida para quem está em busca de ação e aventura incessantes.
Basicamente não há história - até aí nenhuma novidade, já que os outros dois também não tinham - e o roteiro aproveita diversas situações dos livros, que haviam ficado de fora dos dois primeiros filmes (como toda a sequência dentro da gaiola dos Pterodáctilos, o ataque no barco e mesmo a conclusão). Entretanto, o maior acerto do filme é não se levar a sério, evitando papo-furado pseudo científico e as irritantes piadinhas fora de hora (fatores que ajudaram a arruinar os anteriores).
E finalmente os dinossauros são mostrados em toda sua grandeza, lutando, destruindo e comendo gente sem dó, ao contrário da baboseira politicamente correta imposta por Spielberg nas outras produções - nos quais as cenas mais eletrizantes ficavam por conta de carros pendurados em desfiladeiros. Por sinal, a saída de Spielberg da direção parece ter sido a melhor coisa que poderia acontecer com a série, já que Joe Johnston ficou livre para ir direto à jugular do espectador, tendo a seu lado efeitos especiais assombrosos.
Também é uma grata surpresa a ausência de criancinhas chatas e intrometidas e de Jeff Goldblum, cuja atuação constrangedora arrasou o segundo filmes.
Enfim, JURASSIC PARK III é tudo aquilo que os dois antecessores não eram: divertido, alucinante, assumidamente B e, por que não, verdadeiramente assustador. Sem dúvida uma boa surpresa - se você não estiver esperando muito mesmo...
Cotação: ***
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
Filmes: "O Preço do Amanhã"
ROBIN HOOD 2.O
Crítica ao capitalismo derrapa em roteiro fraco que insiste em inventar cenas de perseguição e ação
- por André Lux, crítico-spam
Em "O Preço do Amanhã" o diretor e roteirista Andrew Niccol (do excelente "O Senhor das Armas") tenta fazer uma crítica oportuna ao sistema capitalista por meio de uma ficção científica que apresenta um futuro distópico onde o tempo vira, literalmente, dinheiro.
Por meio de engenharia genética a raça humana só vive até os 25 anos e, a partir daí, tem que "comprar" tempo para continuar viva sem envelhecer. A idéia parece promissora e faz uma parábola óbvia com o sistema atualmente vigente onde a maioria das pessoas trabalha hoje para poder comer amanhã. A sociedade é separada por castas na qual os mais ricos tem mais tempo de vida e vivem separados dos mais pobres por barreiras policiais.
A confusão começa quando um operário pobre (o fraco Justin Timberlake, ex-cantor pop) recebe mais de um século de tempo de um rico entediado com mais de 100 anos de vida que quer morrer. Obviamente ele vai para o setor dos ricos e numa série de eventos que não são muito convincentes, começa um relacionamento com a filha de um banqueiro (Amanda Seyfried, que passa o filme todo com uma peruca ridícula). Perseguido pela "polícia do tempo", ele rapta a filha do magnata e vira uma espécie de "Robin Hood 2.0", roubando tempo dos ricos e distribuindo entre os pobres.
Se a premissa é interessante, o filme derrapa na sua execução, culpa de um roteiro fraco que insiste em inventar cenas de perseguição e ação sem que houvesse necessidade só para tentar fisgar uma audiência mais jovem. A mensagem do filme contra o capitalismo, apesar de óbvia, é por demais ingênua (de acordo com o filme, basta você roubar 1 milhão de dólares e distribuir entre os pobres para fazer o sistema entrar em colapso!). Como sempre nos filmes de roliudi temos um vilão mor que representa a maldade do "sistema", policiais incorruptíveis que perseguem os heróis sem trégua e personagens unidimensionais que passam o tempo todo disparando frases de efeito.
Além disso, o filme tem algumas besteiras imperdoáveis, como os heróis sofrendo um acidente de carro violento (sem usar cinto de segurança) e saindo andando ilesos, a mocinha correndo de lá pra cá usando salto alto agulha, os ridículos relógios que todos tem implantados na pele e eles assaltando bancos que não tem qualquer tipo de segurança.
No final das contas, "O Preço do Amanhã" não agrada quem procura um filme de ficção mais elaborado nem quem quer apenas ver perseguições e correrias. Uma pena.
Cotação: * *
Crítica ao capitalismo derrapa em roteiro fraco que insiste em inventar cenas de perseguição e ação
- por André Lux, crítico-spam
Em "O Preço do Amanhã" o diretor e roteirista Andrew Niccol (do excelente "O Senhor das Armas") tenta fazer uma crítica oportuna ao sistema capitalista por meio de uma ficção científica que apresenta um futuro distópico onde o tempo vira, literalmente, dinheiro.
Por meio de engenharia genética a raça humana só vive até os 25 anos e, a partir daí, tem que "comprar" tempo para continuar viva sem envelhecer. A idéia parece promissora e faz uma parábola óbvia com o sistema atualmente vigente onde a maioria das pessoas trabalha hoje para poder comer amanhã. A sociedade é separada por castas na qual os mais ricos tem mais tempo de vida e vivem separados dos mais pobres por barreiras policiais.
A confusão começa quando um operário pobre (o fraco Justin Timberlake, ex-cantor pop) recebe mais de um século de tempo de um rico entediado com mais de 100 anos de vida que quer morrer. Obviamente ele vai para o setor dos ricos e numa série de eventos que não são muito convincentes, começa um relacionamento com a filha de um banqueiro (Amanda Seyfried, que passa o filme todo com uma peruca ridícula). Perseguido pela "polícia do tempo", ele rapta a filha do magnata e vira uma espécie de "Robin Hood 2.0", roubando tempo dos ricos e distribuindo entre os pobres.
Se a premissa é interessante, o filme derrapa na sua execução, culpa de um roteiro fraco que insiste em inventar cenas de perseguição e ação sem que houvesse necessidade só para tentar fisgar uma audiência mais jovem. A mensagem do filme contra o capitalismo, apesar de óbvia, é por demais ingênua (de acordo com o filme, basta você roubar 1 milhão de dólares e distribuir entre os pobres para fazer o sistema entrar em colapso!). Como sempre nos filmes de roliudi temos um vilão mor que representa a maldade do "sistema", policiais incorruptíveis que perseguem os heróis sem trégua e personagens unidimensionais que passam o tempo todo disparando frases de efeito.
Além disso, o filme tem algumas besteiras imperdoáveis, como os heróis sofrendo um acidente de carro violento (sem usar cinto de segurança) e saindo andando ilesos, a mocinha correndo de lá pra cá usando salto alto agulha, os ridículos relógios que todos tem implantados na pele e eles assaltando bancos que não tem qualquer tipo de segurança.
No final das contas, "O Preço do Amanhã" não agrada quem procura um filme de ficção mais elaborado nem quem quer apenas ver perseguições e correrias. Uma pena.
Cotação: * *
sábado, 26 de novembro de 2011
Filmes: "A Coisa"
COISA MAIS SEM GRAÇA
Filme não passa de um amontoado de cenas de ação, correria e efeitos visuais exagerados que não transmitem qualquer emoção
- por André Lux, crítico-spam
É uma decepção total esse prólogo do filme de terror cult de 1982 dirigido por John Carpenter "O Enigma de Outro Mundo" (agora chamado corretamente de "A Coisa"). A nova obra se propõe a contar o que aconteceu no acampamento dos noruegueses que encontraram o alien enterrado no gelo e tenta ao máximo seguir os passos do filme anterior no design visual e sonoro. Porém, o resultado não tem graça nenhuma.
O filme já começa em plena ação, com os noruegueses encontrando a nave espacial no pólo norte e depois, com a ajuda de uma paleontóloga estadunidense, desenterram o alienígena que logo foge e já começa a matar indiscriminadamente. Ou seja, tudo é rápido demais, não há qualquer tempo para desenvolver os personagens e muito menos criar algum clima de suspense.
A criatura sai atacando de forma ilógica e incoerente com o que vimos no primeiro filme (no qual ela só se atacava na certeza de isolamento ou quando era exposta). Os efeitos visuais são fracos e as transformações da Coisa não causam nenhum tipo de choque (tão diferente do filme de Carpenter).
Há ainda muitas oportunidades perdidas, como quando entram na espaçonave e nada de interessante acontece. Eles poderiam também tentar se comunicar com a criatura, afinal ela era inteligente o suficiente para viajar pelo espaço sideral e assumia a forma humana, mas que nada, os diálogos são bobos e frouxos e todo mundo já corre tacar fogo na Coisa.
Nem mesmo a tentativa no final de unir as pontas com o filme de John Carpenter chega a convencer e nem vou falar aqui da conclusão da história principal, que é ridícula - o filme simplesmente para e entram os créditos, sem qualquer explicação sobre o destino de um dos sobreviventes!
A trilha musical de Marco Beltrami é interessante e incorpora de maneira inteligente o tema principal composto por Ennio Morricone para o filme original, mas no final das contas o compositor não tem muito o que fazer além de compor música barulhenta já que o filme não passa de um amontoado de cenas de ação, correria e efeitos visuais exagerados que não transmitem qualquer emoção. Lamentável.
Cotação: * 1/2
Filme não passa de um amontoado de cenas de ação, correria e efeitos visuais exagerados que não transmitem qualquer emoção
- por André Lux, crítico-spam
É uma decepção total esse prólogo do filme de terror cult de 1982 dirigido por John Carpenter "O Enigma de Outro Mundo" (agora chamado corretamente de "A Coisa"). A nova obra se propõe a contar o que aconteceu no acampamento dos noruegueses que encontraram o alien enterrado no gelo e tenta ao máximo seguir os passos do filme anterior no design visual e sonoro. Porém, o resultado não tem graça nenhuma.
O filme já começa em plena ação, com os noruegueses encontrando a nave espacial no pólo norte e depois, com a ajuda de uma paleontóloga estadunidense, desenterram o alienígena que logo foge e já começa a matar indiscriminadamente. Ou seja, tudo é rápido demais, não há qualquer tempo para desenvolver os personagens e muito menos criar algum clima de suspense.
A criatura sai atacando de forma ilógica e incoerente com o que vimos no primeiro filme (no qual ela só se atacava na certeza de isolamento ou quando era exposta). Os efeitos visuais são fracos e as transformações da Coisa não causam nenhum tipo de choque (tão diferente do filme de Carpenter).
Há ainda muitas oportunidades perdidas, como quando entram na espaçonave e nada de interessante acontece. Eles poderiam também tentar se comunicar com a criatura, afinal ela era inteligente o suficiente para viajar pelo espaço sideral e assumia a forma humana, mas que nada, os diálogos são bobos e frouxos e todo mundo já corre tacar fogo na Coisa.
Nem mesmo a tentativa no final de unir as pontas com o filme de John Carpenter chega a convencer e nem vou falar aqui da conclusão da história principal, que é ridícula - o filme simplesmente para e entram os créditos, sem qualquer explicação sobre o destino de um dos sobreviventes!
A trilha musical de Marco Beltrami é interessante e incorpora de maneira inteligente o tema principal composto por Ennio Morricone para o filme original, mas no final das contas o compositor não tem muito o que fazer além de compor música barulhenta já que o filme não passa de um amontoado de cenas de ação, correria e efeitos visuais exagerados que não transmitem qualquer emoção. Lamentável.
Cotação: * 1/2
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
Filmes: "A Lista de Schindler"
MONSTROS HUMANOS
Revisto hoje, filme levanta de forma involuntária a questão de que não estariam hoje os próprios judeus de Israel cometendo as mesmas atrocidades dos nazistas contra os palestinos?
- por André Lux, crítico-spam
Que motivos levaram uma nação que foi berço de alguns dos maiores artistas e pensadores da história a se render a uma ideologia que pregava o ódio e a intolerância? Como podem as diferenças entre seres humanos tornarem-se desculpas para que atos bárbaros sejam cometidos? O que leva uma pessoa aparentemente normal a matar a sangue-frio um semelhante seu como se fosse um inseto?
Não era o objetivo do diretor Steven Spielberg responder a essas perguntas, mas é impossível não formula-las ao final de “A Lista de Schindler”, filme que finalmente deu ao cineasta por trás de “Tubarão” e da série “Indiana Jones” o status de diretor sério que ele tanto queria.
Filmado em preto e branco para, segundo Spielberg, deixar o filme menos insuportável devido à violência gráfica de algumas cenas, “A Lista de Schindler” é construído sobre um ótimo roteiro de Steven Zaillian que mostra com tintas extremamente realistas a perseguição aos judeus na Polônia e sua recolocação no Gueto de Krakow, em 1941, onde famílias inteiras eram amontoadas em pequenos quartos, até a transferência de todos para o infame campo de concentração comandado pelo sociopata Amon Goëth (um impressionante Ralph Fiennes, em sua estréia no cinema).
É impossível não se emocionar com o poder das imagens dirigidas com surpreendente comedimento por Spielberg e captadas magistralmente pela câmera de Janusz Kaminski. As cenas de mulheres, homens e crianças sendo friamente assassinados com tiros na cabeça são de uma crueza insuportável, mas nunca apelativas ou redundantes. Mas o que difere “A Lista de Schindler” de tantos outros filmes sobre o Holocausto Nazista é o caráter profundamente humano e realista que os realizadores conseguiram imprimir à obra, até mesmo ao retratar o monstruoso líder do campo de concentração, Goëth.
Apesar de ser o “herói” do filme, Oskar Schindler (Lian Neeson) é mostrado como um empresário ganancioso e sem escrúpulos que enriqueceu se aproveitando da guerra e do fato que podia usar judeus em sua fábrica praticamente como mão de obra escrava. A princípio ele mantem-se afastado dos horrores que acontecem à sua volta, mas vai gradativamente sensibilizando-se até o ponto de sentir-se obrigado a agir em favor dos oprimidos.
Para tentar ilustrar o ponto da transformação do protagonista, Spielberg construiu duas seqüências chave usando um recurso até certo ponto simples, porém extremamente eficaz: a menina do vestido vermelho que ganha cores por meio de trucagem na pós-produção, vista correndo perdida no meio dos nazistas e, depois, já morta sendo levada para a pilha de cadáveres queimando. É nesta cena que “A Lista de Schindler” atinge seu ápice como obra cinematográfica, numa perfeita fusão de som, imagem, música (uma das obras-primas de John Williams) e interpretação do elenco capaz de arrepiar até o último fio de cabelo do corpo.
A partir daí o filme vira uma corrida contra o tempo, na qual Schindler tenta salvar o máximo de seus empregados que pode, usando para isso toda a sua fortuna. Alguns dos cacoetes do diretor relativos ao uso de crianças como fonte de humor e um certo didatismo desnecessário podem ser encontrados em certos pontos do filme, mas nada que chegue a comprometer o resultado final.
Spielberg só escorrega mesmo quando coloca Schindler tendo um acesso de dor na consciência durante o qual cai de joelhos aos prantos questionando se não poderia ter salvado ainda mais vidas. Justamente por ser redundante e apelativa, esta sequência acaba tornando-se a menos plausível do filme todo.
É impressionante o poder que o filme tem sobre quem o assiste, mesmo numa revisão. O impacto do registro quase documental daquela monstruosidade praticada em nome de uma suposta “raça superior” e de uma ideologia grotesca (que lamentavelmente ainda encontra seguidores até hoje) vai continuar chocando sempre, independente de credo religioso ou ideologia política.
Por tudo isso, “A Lista de Schindler” será sempre um alerta poderoso que, embora não consiga responder às questões levantadas no início deste texto, mostra com riqueza de detalhes as consequências terríveis geradas pelo ódio, pela intolerância e pelo preconceito. Além de involuntariamente levantar a questão de que não estariam hoje os próprios judeus de Israel cometendo as mesmas atrocidades dos nazistas contra os palestinos?
Cotação: * * * *
Revisto hoje, filme levanta de forma involuntária a questão de que não estariam hoje os próprios judeus de Israel cometendo as mesmas atrocidades dos nazistas contra os palestinos?
- por André Lux, crítico-spam
Que motivos levaram uma nação que foi berço de alguns dos maiores artistas e pensadores da história a se render a uma ideologia que pregava o ódio e a intolerância? Como podem as diferenças entre seres humanos tornarem-se desculpas para que atos bárbaros sejam cometidos? O que leva uma pessoa aparentemente normal a matar a sangue-frio um semelhante seu como se fosse um inseto?
Não era o objetivo do diretor Steven Spielberg responder a essas perguntas, mas é impossível não formula-las ao final de “A Lista de Schindler”, filme que finalmente deu ao cineasta por trás de “Tubarão” e da série “Indiana Jones” o status de diretor sério que ele tanto queria.
Filmado em preto e branco para, segundo Spielberg, deixar o filme menos insuportável devido à violência gráfica de algumas cenas, “A Lista de Schindler” é construído sobre um ótimo roteiro de Steven Zaillian que mostra com tintas extremamente realistas a perseguição aos judeus na Polônia e sua recolocação no Gueto de Krakow, em 1941, onde famílias inteiras eram amontoadas em pequenos quartos, até a transferência de todos para o infame campo de concentração comandado pelo sociopata Amon Goëth (um impressionante Ralph Fiennes, em sua estréia no cinema).
É impossível não se emocionar com o poder das imagens dirigidas com surpreendente comedimento por Spielberg e captadas magistralmente pela câmera de Janusz Kaminski. As cenas de mulheres, homens e crianças sendo friamente assassinados com tiros na cabeça são de uma crueza insuportável, mas nunca apelativas ou redundantes. Mas o que difere “A Lista de Schindler” de tantos outros filmes sobre o Holocausto Nazista é o caráter profundamente humano e realista que os realizadores conseguiram imprimir à obra, até mesmo ao retratar o monstruoso líder do campo de concentração, Goëth.
Apesar de ser o “herói” do filme, Oskar Schindler (Lian Neeson) é mostrado como um empresário ganancioso e sem escrúpulos que enriqueceu se aproveitando da guerra e do fato que podia usar judeus em sua fábrica praticamente como mão de obra escrava. A princípio ele mantem-se afastado dos horrores que acontecem à sua volta, mas vai gradativamente sensibilizando-se até o ponto de sentir-se obrigado a agir em favor dos oprimidos.
Para tentar ilustrar o ponto da transformação do protagonista, Spielberg construiu duas seqüências chave usando um recurso até certo ponto simples, porém extremamente eficaz: a menina do vestido vermelho que ganha cores por meio de trucagem na pós-produção, vista correndo perdida no meio dos nazistas e, depois, já morta sendo levada para a pilha de cadáveres queimando. É nesta cena que “A Lista de Schindler” atinge seu ápice como obra cinematográfica, numa perfeita fusão de som, imagem, música (uma das obras-primas de John Williams) e interpretação do elenco capaz de arrepiar até o último fio de cabelo do corpo.
A partir daí o filme vira uma corrida contra o tempo, na qual Schindler tenta salvar o máximo de seus empregados que pode, usando para isso toda a sua fortuna. Alguns dos cacoetes do diretor relativos ao uso de crianças como fonte de humor e um certo didatismo desnecessário podem ser encontrados em certos pontos do filme, mas nada que chegue a comprometer o resultado final.
Spielberg só escorrega mesmo quando coloca Schindler tendo um acesso de dor na consciência durante o qual cai de joelhos aos prantos questionando se não poderia ter salvado ainda mais vidas. Justamente por ser redundante e apelativa, esta sequência acaba tornando-se a menos plausível do filme todo.
É impressionante o poder que o filme tem sobre quem o assiste, mesmo numa revisão. O impacto do registro quase documental daquela monstruosidade praticada em nome de uma suposta “raça superior” e de uma ideologia grotesca (que lamentavelmente ainda encontra seguidores até hoje) vai continuar chocando sempre, independente de credo religioso ou ideologia política.
Por tudo isso, “A Lista de Schindler” será sempre um alerta poderoso que, embora não consiga responder às questões levantadas no início deste texto, mostra com riqueza de detalhes as consequências terríveis geradas pelo ódio, pela intolerância e pelo preconceito. Além de involuntariamente levantar a questão de que não estariam hoje os próprios judeus de Israel cometendo as mesmas atrocidades dos nazistas contra os palestinos?
Cotação: * * * *
domingo, 16 de outubro de 2011
Filmes: "Fuga de Los Angeles"
SNAKE IS TRASH
A gente até tenta gostar, mas chega um certo ponto que só nos resta desistir e rir de toda ruindade.
- por André Lux, crítico-spam
Não deu certo essa tentativa do diretor John Carpenter e do astro Kurt Russel em trazer de volta o personagem Snake Plissken do cult "Fuga de Nova York".
Realizada com 15 anos de atraso, o que deveria ser uma continuação dos eventos narrados no primeiro filme acabou virando uma mera refilmagem, com o protagonista repetindo os feitos que realizou anteriormente.
Só que agora em Los Angeles que, assim como Nova York, também virou uma prisão de segurança máxima.
O problema básico de "Fuga de Los Angeles", além do roteiro clonado, é que não foram capazes de recriar o clima do primeiro filme, nem visualmente muito menos no tom da narrativa. Se os méritos de "Fuga de Nova York" eram justamente a capacidade que Carpenter e sua equipe tiveram para disfarçar o baixo orçamento com uma fotografia escura e cheia de contrastes, um roteiro enxuto, efeitos especiais realistas e personagens críveis, aqui foram na direção oposta.
Tendo um orçamento bem mais generoso ao seu dispor, Carpenter optou por uma aproximação exagerada, beirando a histeria, em clima de sátira e auto-referência, esquecendo que Snake Plissken sempre foi cult, mas nunca foi popular. Isso quer dizer que o slogan do filme, "Snake Está de Volta!", certamente deixou a maioria das pessoas coçando a cabeça, sem saber o que aquilo queria dizer.
Além disso, os realizadores cometem outros pecados, como optar por uma direção de fotografia (de Gary B. Kibe) clara e desprovida de profundidade que deixa o filme com um ar totalmente falso e sem a menor chance de provocar algum suspense.
Apesar de Kurt Russel ainda estar bem na pele de Snake, só isso não é suficiente para salvar o filme, já que as situações em que ele se encontra são geralmente absurdas demais e, por vezes, ridículas (como ele tendo que jogar basquete sozinho para não ser morto ou surfando em um maremoto!). Nem engraçado o filme consegue ser, apenas constrangedor.
Bons atores como Steve Buscemi, Peter Fonda, Stacy Keach, Bruce Campbell e Pam Grier (como um travesti com voz de zumbi) são desperdiçados em personagens sem o menor carisma ou caricatos ao extremo.
Esse é o tipo de filme que a gente até tenta gostar por causa de todos os envolvidos na produção, mas chega um certo ponto que só nos resta desistir e perceber os efeitos especiais capengas, os diálogos embaraçosos e as atuações canhestras.
Ao menos Carpenter imprime à narrativa uma boa dose de humor corrosivo contra os políticos de direita de seu país na figura do presidente dos EUA (Cliff Robertson) o qual, no filme, é um fanático religioso que previu o terremoto que devastou Los Angeles e, por causa disso, ganha plenos poderes para alterar a constituição de seu país e decretar uma série de medidas que restringem a liberdade dos cidadãos - nesse sentido acabou sendo premonitório ao governo de George Bush Junior.
É uma pena que Snake tenha voltado de maneira tão lamentável. E o fracasso retumbante do projeto acabou frustrando os planos de fazerem mais uma seqüência, que seria intitulada "Fuga do Planeta Terra".
Melhor mesmo rever o original ou então entrar no clima de trash e dar risada de toda aquelas pessoas e situações ridículas que colocaram o pobre Snake no meio...
Cotação: * 1/2
A gente até tenta gostar, mas chega um certo ponto que só nos resta desistir e rir de toda ruindade.
- por André Lux, crítico-spam
Não deu certo essa tentativa do diretor John Carpenter e do astro Kurt Russel em trazer de volta o personagem Snake Plissken do cult "Fuga de Nova York".
Realizada com 15 anos de atraso, o que deveria ser uma continuação dos eventos narrados no primeiro filme acabou virando uma mera refilmagem, com o protagonista repetindo os feitos que realizou anteriormente.
Só que agora em Los Angeles que, assim como Nova York, também virou uma prisão de segurança máxima.
O problema básico de "Fuga de Los Angeles", além do roteiro clonado, é que não foram capazes de recriar o clima do primeiro filme, nem visualmente muito menos no tom da narrativa. Se os méritos de "Fuga de Nova York" eram justamente a capacidade que Carpenter e sua equipe tiveram para disfarçar o baixo orçamento com uma fotografia escura e cheia de contrastes, um roteiro enxuto, efeitos especiais realistas e personagens críveis, aqui foram na direção oposta.
Tendo um orçamento bem mais generoso ao seu dispor, Carpenter optou por uma aproximação exagerada, beirando a histeria, em clima de sátira e auto-referência, esquecendo que Snake Plissken sempre foi cult, mas nunca foi popular. Isso quer dizer que o slogan do filme, "Snake Está de Volta!", certamente deixou a maioria das pessoas coçando a cabeça, sem saber o que aquilo queria dizer.
Além disso, os realizadores cometem outros pecados, como optar por uma direção de fotografia (de Gary B. Kibe) clara e desprovida de profundidade que deixa o filme com um ar totalmente falso e sem a menor chance de provocar algum suspense.
Apesar de Kurt Russel ainda estar bem na pele de Snake, só isso não é suficiente para salvar o filme, já que as situações em que ele se encontra são geralmente absurdas demais e, por vezes, ridículas (como ele tendo que jogar basquete sozinho para não ser morto ou surfando em um maremoto!). Nem engraçado o filme consegue ser, apenas constrangedor.
Bons atores como Steve Buscemi, Peter Fonda, Stacy Keach, Bruce Campbell e Pam Grier (como um travesti com voz de zumbi) são desperdiçados em personagens sem o menor carisma ou caricatos ao extremo.
![]() |
| Kurt Russel e Peter Fonda surfando numa "nice" |
Ao menos Carpenter imprime à narrativa uma boa dose de humor corrosivo contra os políticos de direita de seu país na figura do presidente dos EUA (Cliff Robertson) o qual, no filme, é um fanático religioso que previu o terremoto que devastou Los Angeles e, por causa disso, ganha plenos poderes para alterar a constituição de seu país e decretar uma série de medidas que restringem a liberdade dos cidadãos - nesse sentido acabou sendo premonitório ao governo de George Bush Junior.
É uma pena que Snake tenha voltado de maneira tão lamentável. E o fracasso retumbante do projeto acabou frustrando os planos de fazerem mais uma seqüência, que seria intitulada "Fuga do Planeta Terra".
Melhor mesmo rever o original ou então entrar no clima de trash e dar risada de toda aquelas pessoas e situações ridículas que colocaram o pobre Snake no meio...
Cotação: * 1/2
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