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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Filmes: "O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus"

ANARQUISTA EM FORMA

É uma obra típica de Terry Gilliam, do Monty Phyton, cheia de alegorias, teatro mambembe, anões, delírios, histeria e viagens psicodélicas.

- por André Lux, crítico-spam

Depois de uma maré baixa, onde fez dois filmes fracos (“Os Irmãos Grimm” e “Contraponto”) e quase foi à loucura com as filmagens inacabadas de “Dom Quixote”, o anarquista Terry Gilliam volta à forma com “O Mundo Imaginário do Dourtor Parnassos”, filme que acabou ficando famoso por se tratar da última interpretação de Heat Ledger (o Coringa do último “Batman”) que morreu durante as filmagens e quase inviabilizou a finalização da obra.

Mas como a trama é bizarra e cheia de passagens delirantes, Gilliam conseguiu substituir Ledger com sucesso por Johnny Depp, Jude Law e Collin Farrel em momentos chaves do filme que se passam numa espécie de realidade paralela existente dentro de um espelho que é fruto dos poderes paranormais do tal Dr. Parnassus do título (Christopher Plummer em ótimo desempenho), um sujeito que tem uma trupe de circo que se apresenta em becos de Londres e vive há centenas de anos por causa de diversas apostas que fez com o diabo (interpretado pelo cantor Tom Waits). O personagem de Heat Ledger entra na trama depois de ser salvo de um aparente suicídio pela trupe circense e, como perdeu a memória, insere-se ao grupo e tenta injetar sangue novo às apresentações do Dr. Parnassus.

Embora o filme tenha um início truncado e mal alinhavado, tudo melhora quando Ledger entra em cena e as propostas do diretor começam a tomar forma, assim como a crítica à sociedade do consumo e à estupidez de quem faz parte dela acriticamente (que dá o tom à sua obra-prima “Brazil”).

Ou seja, é uma obra típica de Gilliam, cheia de alegorias, teatro mambembe, anões, delírios, histeria e viagens psicodélicas. O filme lembra em alguns momentos “As Aventuras do Barão Munchausen” (uma de suas melhores obras) tanto na forma quanto no conteúdo e tem relação com “O Pescador de Ilusões”, que também mostrava personagens derrotados vivendo em busca de redenção por meio da imaginação. Há inclusive uma cena completamente maluca dentro do espelho, onde policiais dançam numa espécie de musical, que faz referência direta aos quadros do genial grupo Monty Phyton (do qual Gilliam era o criador das animações).

Enfim, para quem gosta e estava com saudades do bom e velho Gilliam, este filme é um prato cheio.

Cotação: * * * 1/2

Filme: "O Segredo de Seus Olhos"

IMPERDÍVEL

Obra mostra o que há de melhor no cinema argentino da atualidade.

- por André Lux, crítico-spam

Depois de passar uma temporada dirigindo episódios de séries famosas nos EUA (como “House” e “Lei e Ordem”), o diretor Juan José Campanella, de “O Filho da Noiva” (leia minha análise neste link), voltou à Argentina para produzir mais um excelente filme chamado “O Segredo de Seus Olhos”.

Novamente trabalhando com seu ator preferido, Ricardo Darin, Campanella adapta um romance de Eduardo Sacheri com sua habitual maestria, juntando no mesmo filme diversos tipos de gêneros do cinema, tais como suspense, drama, romance, policial, comédia, denúncia política (uma parte do filme se passa durante a ditadura militar argentina) e até uma pitada de film noir.

Darin interpreta com sua naturalidade e competência de sempre Benjamín Espósito, um oficial de justiça aposentado que resolve escrever um livro tendo como premissa um caso escabroso que investigou no passado e que trouxe conseqüências trágicas para todos os envolvidos.

Mas não é só isso. Em seu livro Espósito quer também expiar seu remorso por não ter tido coragem de lutar pelo amor de sua vida, interpretada por Soledad Villamil (que esteve em “O Mesmo Amor, A Mesma Chuva” também com Darin e dirigido por Campanella), que era sua supervisora no Fórum. Outro personagem importante é o parceiro de Espósito, Pablo Sandoval, na pele de Guillermo Francella, que serve como alívio cômico à trama (preste atenção às formas como ele atende ao telefone da repartição).

Por meio de flashbacks muito bem elaborados, vamos sendo apresentados ao crime e aos desdobramentos que ele provoca na vida dos envolvidos.

É digna de nota a firmeza com que Campanella conduz a trama, sempre de forma inusitada e buscando o aprofundamento psicológico dos protagonistas à medida que eles vão sendo afetados pelos desenlaces do caso investigado.

O filme busca também fazer um estudo do que leva uma pessoa a ficar obcecada, em contraste com o vazio existencial enfrentado por Espósito e o que ambos sentimentos geram de consquências.

Se você já conhece o trabalho do diretor Campanella então não pode perder mais esse excelente filme dele. E se não conhece, está aí uma ótima oportunidade para tomar contato com o que há de melhor no cinema argentino da atualidade.

De qualquer forma, “O Segredo de Seus Olhos” é um filme simplesmente imperdível.

Cotação: * * * *

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Filmes: "Guerra ao Terror"

CHATO E PRECÁRIO

O filme nem mesmo tem uma mensagem firme contra a guerra. No máximo ensina que “a guerra não é bolinho”, algo que certamente vai impressionar um alienígena pacífico que chegou à Terra hoje.

- por André Lux, crítico-spam

Esse “Guerra ao Terror” (uma tradução ridícula para “The Hurt Locker”) é mais um caso de delírio coletivo dos profissionais da opinião que colocam no pedestal um filme fraco que não chega nem aos pés de outros filmes de guerra como “Platoon”, “Três Reis” ou mesmo “O Resgate do Soldado Ryan” (que era tecnicamente impressionante). 

Até entendo que cause certo impacto nos Estados Unidos, afinal são eles que estão metidos até o pescoço naquele atoleiro servindo de bucha de canhão enquanto algumas corporações ligadas aos neocons do partido Republicano faturam em cima da guerra. Agora, indicar esse blefe para nove Oscars, incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor, só pode ser piada (e quando eu digo que esse prêmio não pode ser levado a sério tem gente que acha ruim)!

Não há história a ser contada e o filme resume-se a uma série de episódios envolvendo uma equipe de especialistas em desarmar bombas, comandada por um sujeito estúpido e irresponsável que coloca seus colegas em risco todo o tempo. Há uma tentativa forçada de afirmar que o rapaz é “viciado em guerra”, como sugere uma frase no início do filme, mas tudo não passa de desculpa para gerar situações de suspense onde somos obrigados a torcer para os patéticos soldadinhos do Tio Sam, sempre atônitos e perdidos no meio daquele deserto cheio de barbudos usando turbante.

Tecnicamente o filme é precário, todo filmado naquele estilo “docudrama” que já deu o que tinha que dar, com câmera de High Definition trepidando na mão e um excesso de zooms que só servem para torrar o saco do espectador. Não dá nem para falar em direção de fotografia num filme desses, já que tudo é filmado com luzes naturais, o que deixa as cenas noturnas num breu total. Não se trata nem de opção estética, como já fizeram por exemplo Clint Eastwood em “Os Imperdoáveis” ou Stanley Kubrick em “Barry Lyndon”. É falta de recursos mesmo.

A direção de Kathryn Bigelow é medíocre e o fato mais marcante de sua presença atrás das câmeras, que tem gerado faniquitos em alguns profissionais da opinião, é ela ser ex-mulher do James Cameron, que também concorre ao Oscar como Melhor Diretor pelo ridículo “Avatar”. Vejam só que coisa importante!

Os diálogos são frouxos e soam forçados saindo das bocas de um grupo de atores inexpressivos (não se deixe enganar pelo nome de alguns famosos no elenco, como Ralph Fiennes e Guy Pierce, pois eles aparecem em pontinhas minúsculas). O filme nem mesmo tem uma mensagem firme contra a guerra. No máximo ensina que “a guerra não é bolinho”, algo que certamente vai impressionar um alienígena pacífico que chegou à Terra hoje. Se não bastasse tudo isso, “Guerra ao Terror” é chato pra burro, do tipo que você não vê a hora que acabe – e suas duas horas de duração parecem o dobro!

Veja por sua conta e risco, mas não diga que eu não avisei.

Cotação: *

Filmes: "Criação"

HUMANIZANDO O MITO

Filme tem como protagonista ninguém menos do que Charles Darwin, o criador da teoria da evolução

- por André Lux, crítico-spam

Cinebiografias de personalidades reais sempre correm o sério risco de limitarem-se a elencar vários episódios importantes sobre a vida do biografado, falhando em aprofundar suas paixões, dores ou inspirações e alienando assim o espectador. Levando-se esses fatos em conta, “Criação” é uma boa surpresa. O filme tem como protagonista ninguém menos do que Charles Darwin, o criador da teoria da evolução, que revolucionou o modo como vemos a natureza e mesmo nosso lugar neste mundo.

Ao invés de tentar reproduzir nas telas toda a jornada de descobertas do cientista, o filme concentra-se na fase mais difícil de sua empreitada: justamente quando tem que completar seu livro “Sobre a Origem das Espécies”. Atormentado pela morte de sua filha mais velha, com a qual tinha grande empatia e continua conversando em momentos de delírio, e pelos conflitos entre sua fé cristã cada vez mais enfraquecida e suas descobertas científicas revolucionárias, Darwin reluta em finalizar sua obra. E quanto mais procrastina, mais estressado fica ao ponto de adoecer fisicamente.

Esses conflitos internos do protagonista são explorados de maneira sutil e madura, sem cair em melodramas ou reduções simplistas. O relacionamento entre Darwin e sua devota, porém muito religiosa esposa (a lindíssima Jeniffer Connely) também é bem enfocado, tornando-se parte importante do desenvolvimento psicológico do personagem. A interpretação de Paul Bettany como Darwin é convincente e o filme tem ainda uma excelente direção de fotografia e uma bonita trilha musical composta por Christopher Young.

Se não é nenhuma obra-prima, “Criação” ao menos tenta humanizar um personagem mítico da nossa história sem se preocupar em ser didático ou detalhista. E é exatamente assim que os bons dramas são feitos. Além disso, esse é o tipo de filme que, mesmo sendo respeitoso em relação à fé alheia, certamente vai provocar a fúria dos fanáticos religiosos - o que por si só já um ponto positivo a mais para ele.

Cotação: * * *

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Filmes: "Baarìa"


DECEPCIONANTE

É o tipo de filme que a gente quer gostar, mas que no final se torna penoso de assistir.

- por André Lux, crítico-spam

É uma grande decepção esse novo filme do diretor de “Cinema Paradiso”, Giuseppe Tornatore, que ele garante ser sua obra mais autobiográfica e íntima. Pode até ser que para ele, seus familiares e amigos mais chegados “Baarìa” passe algum tipo de emoção ou mensagem, mas para o resto dos mortais o filme é de um vazio impressionante. Chega a dar sono, ainda mais por ter uma metragem alongada (2 horas e trinta minutos, mas que parecem ser mais).

O mais triste é que a obra é extremamente bem feita tecnicamente. Tudo está no lugar certo: a fotografia é exuberante, a trilha de Ennio Morricone é excelente como de costume e a reprodução dos cenários e vestimentas de época impressionam. Tornatore chegou a construir uma set inteiro no deserto da Tunísia para reproduzir o que seria uma vila italiana da Scilia por volta de 1940, que é onde a história começa, mostrando a segunda guerra mundial e a ação dos fascistas de Mussolini na região.

Mas nada disso adianta para salvar o filme. O roteiro, de autoria do próprio Tornatore, é um desastre e não tem foco narrativo definido, pulando de um episódio a outro sem ligação ou lógica (a edição é um ponto baixo do filme, principalmente ao abusar de fade outs). 


Não dá para entender qual era enfim o objetivo do filme: se queria contar a saga de Peppino Torrenuova (que ao que parece seria o pai do cineasta), pintar um retrato da Scilia durante os mais de 40 anos que o filme aborda ou fazer uma crítica social e política da situação dos pobres que vivem sendo explorados pelos políticos de direita e pela máfia local.

No final, não é nem uma coisa nem outra. Personagens entram e saem de cena sem marcar e fica difícil se identificar com qualquer um deles. Nem mesmo com Peppino, que supostamente seria o protagonista da história, mas que passa em brancas nuvens já que seu personagem nunca é aprofundado.

Nem mesmo dá para entender porque ele resolve se filiar ao Partido Comunista Italiano na juventude, no qual milita até o fim. Também é extremamente superficial seu relacionamento com a esposa ou com os filhos (o que deveria ser a força motriz do filme).

É o tipo de filme que a gente quer gostar, por causa de todos os envolvidos em sua produção e pela própria temática, mas que no final se torna penoso de assistir. Lamentável.

Cotação: * 1/2

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Filmes: "Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel" (Versão Estendida)


A New Line e a Warner lançaram no exterior uma versão expandida de ''O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel'', primeira parte da trilogia baseada na obra de J. R.R. Tolkien dirigida por Peter Jackson, em luxuosos Boxes com 4 e 5 DVDs.

Apesar destas edições estarem disponíveis na Austrália, que pertence à Região 4 como o Brasil, infelizmente nós ficamos de fora dos planos dos estúdios. Vou analisar aqui a edição com 4 discos - e quem tiver dinheiro sobrando para adquirir este produto importado terá motivos de sobra para comemorar.

Apesar do próprio Peter Jackson avisar que não considera esse corte do filme, que contém mais de 30 minutos de imagens inéditas, como a ''Versão do Diretor'', a verdade é que as novas cenas melhoram muito o filme, que já era praticamente perfeito ao ser exibido nos cinemas. Houve preocupação imensa em transformar essa nova versão em uma experiência totalmente coerente e refinada. Isso fica evidente quando percebemos que a montagem inclui várias tomadas diferentes das que foram usadas nos cinemas, para que a narrativa case melhor com as cenas inéditas, cujo exemplo mais nítido vem durante o ''Conselho de Elrond''.

Além disso, o compositor Howard Shore compôs e gravou músicas adicionais e totalmente novas para as seqüências inéditas, sendo que em alguns momentos elas acabam até predominando sobre a trilha anterior, o que deixa ainda maior a sensação de fluidez da montagem. Normalmente, em casos de ''Versões do Diretor'', muitas cenas ou seqüências novas são simplesmente jogadas no meio da narrativa, o que resulta em ''pulos'' na banda sonora ou na estrutura do filme. 

Nada disso acontece aqui. Conforme explica o diretor Jackson, essa versão estendida é, de fato, o primeiro corte do filme já refinado, mas antes de começar a sofrer as pressões para redução da metragem. É claro que um filme com 3 horas e 28 minutos de duração seria grande demais para os cinemas, nos quais foi apresentada a versão reduzida com ''apenas'' 2 horas e 40 minutos (contida no DVD lançado no Brasil oficialmente).



Contudo, o mais interessante é que muitas das sequências reincorporadas ao filme mudam completamente o seu próprio conceito autoral. No início, por exemplo, após o prólogo explicativo sobre a história do Anel, temos a apresentação dos Hobbits, que é feita por Bilbo Bolseiro (Ian Holm) enquanto inicia os trabalhos de criação de seu livro. Essa seqüência toda é bastante diferente da que foi para os cinemas, tanto em relação ao clima quanto ao ritmo, especialmente nos diálogos travados entre Frodo (Elijah Wood) e Gandalf (Ian McKellen).


Adicionalmente, as novas cenas são muito mais focadas no desenvolvimento dos personagens e suas relações, do que em cenas grandiosas ou com grandes efeitos. Quem mais se beneficia nessa nova versão é sem dúvida Aragorn (Viggo Mortensen), cujo drama interior ganha maior destaque e profundidade. Apenas quem leu os apêndices do livro de Tolkien sabe, por exemplo, que ele foi perseguido a vida toda pelos seguidores de Sauron até acabar sendo levado por sua genitora até Valfenda, para ser criado pelos elfos - daí vem o início de seu romance com Arwen (Liv Tyler). Há a inclusão de uma bela cena na qual ele visita o túmulo da mãe, quando é interpelado por Elrond (Hugo Weaving), que tenta despertá-lo para seu destino. A relutância de Aragorn em aceitar sua herança - e as conseqüências disso para a Sociedade do Anel - são muito mais exploradas e realçadas aqui.



É claro que nem todas as cenas inéditas são relevantes e muitas acabam funcionando apenas a título de curiosidade ou registro de passagens do livro que pouco acrescentam à trama. Um exemplo disso é a discussão entre os membros da Sociedade e os elfos de Lothlorién, que se recusam a deixá-los prosseguir floresta adentro. Todavia, existem algumas preciosidades nessa nova versão que melhoram muito o filme, sendo que algumas até corrigem alguns ''defeitos'' que atrapalharam a versão cinematográfica. Entre eles, temos um pequeno trecho de diálogo entre Gandalf e Frodo, nas Minas de Moira, quando o mago revela que Gollum já foi conhecido como Sméagol (informação crucial que foi deixada de fora e prejudicou o segundo filme, ''O Senhor dos Anéis: As Duas Torres'').

Outra diz respeito à preparação da queda de Boromir (Sean Bean), que ganhou várias cenas adicionais (como ele discutindo com Aragorn, enquanto ambos vêem Gollum no rio seguindo a comitiva) e cuja batalha contra os Uruk-hais ficou mais longa e aumentou em dramaticidade. Há a inclusão de um pequeno monólogo de Aragorn, logo após a morte de Boromir, o qual culmina com lágrimas escorrendo pelo seu rosto, que corrige o que parecia ser um grave defeito de montagem da versão original. Antes, ela cortava do personagem ajoelhado no chão para o close dele em pé, chorando. Agora podemos entender perfeitamente o desenvolvimento da cena, que havia ficado extremamente truncada.



Outra adição saborosa foi a da distribuição dos presentes aos membros da Sociedade, onde é mostrado um lado mais ameno de Galadriel (nos cinemas ela acabou ficando sombria demais), bem como a conseqüente paixão do anão Gimli pela elfa! Ou seja: se o filme que todos viram nos cinemas (ou em DVD) já possuía qualidades inegáveis, a nova versão deixa tudo ainda melhor, mais dramático, rico e profundo, mesmo tendo um ritmo mais lento e sendo, obviamente, bastante longo.



Os Extras Além do filme com 30 minutos a mais e com a opção do som DTS, os dois primeiros DVDs trazem ainda nada menos do que 4 faixas de áudio com comentários da produção, divididos em ''O Diretor e os Roteiristas'', ''O Time de Design'', ''O Time de Produção e Pós-Produção'' e ''O Elenco'' (com participação de Elijah Wood, Ian McKellen, Liv Tyler, Sean Astin, John Rhys-Davies, Billy Boyd, Dominic Monaghan, Orlando Bloom, Christopher Lee e Sean Bean!). Mas é nos próximos dois discos que somos apresentados a uma quantidade inacreditável de extras e bônus.

Só de documentários estilo making of são mais de 12 horas de material, divididos em ''Do Livro à Visão'' (disco 3) e ''Da Visão para a Realidade'' (disco 4), ambos subdivididos em uma série de capítulos nos quais cada aspecto da realização do filme é dissecado de maneira excepcional. De particular interesse é o documentário sobre a criação dos efeitos sonoros (especialmente os ruídos do Balrog feitos a partir do deslocamento de um imenso bloco de concreto!) e as diferentes técnicas usadas para deixar os Hobbits do tamanho correto (fundo azul, perspectiva forçada, uso de bonecos gigantes e dublês anões).

E, se não bastasse tudo isso, os discos ainda trazem mais de duas mil fotos de produção, mapas interativos da Terra-Média, storyboards, testes iniciais de filmagem, animatics comparativos, etc... Certamente quem gostou do filme poderá ver ''A Sociedade do Anel'' de uma forma que nunca sonhou ver antes.

Cotação: *****

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Só para constar: Minha opinião sobre o Oscar

Muita gente me pergunta o que eu acho do Oscar, o prêmio máximo do cinema estadunidense. Bom, apesar de sempre assistir até as altas horas da madrugada, não levo esse negócio a sério. Trata-se de uma premiação da indústria cultural daquele pais, apenas uma espécie de "concurso de popularidade", onde os premiados são via de regra aqueles que mais faturaram nas bilheterias ou os atores que mais grana deram aos estúdios.

Dá pra contar nos dedos das mãos as vezes que premiaram filmes realmente importantes. Por isso, não é surpresa nenhuma ver "Avatar" concorrendo a nove estatuetas! Mas desta vez exageraram: colocar esse filme ridículo indicado a melhor filme e melhor diretor só pode ser piada!

O engraçado é que não tiveram coragem de indicá-lo como "melhor roteiro original", já que é uma reciclagem de "Pocahontas" e "Dança Com Lobos" com pitadas de "Matrix" (talvez poderia entrar como "melhor roteiro adaptado"). Aí vem a pergunta: como um filme pode ser considerado "melhor filme" se seu roteiro não está entre os finalistas? Não faz o menor sentido.

Outra piada pronta do Oscar: indicar "Sherlock Holmes", do abominável Hans Zimmer, como melhor trilha sonora. Será que esses caras não entendem nada do assunto?

Por essas e outras, morro de rir quando vejo profissionais da opinião fazendo mil análises e previsões sobre essa premiação, como se fosse algo para ser levado a sério...

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Trilhas Sonoras: "O Senhor dos Anéis: As Duas Torres", de Howard Shore

DUAS VEZES BRILHANTE

Com ''As Duas Torres'', Peter Jackson confirma que não poderia ter sido mais feliz na escolha do compositor para ''O Senhor dos Anéis''.

- por André Lux, crítico-spam

Com a partitura de ''O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel'', Howard Shore mostrou para todos que é muito mais do que um mero compositor de música de suspense - alcunha que já estava fadado a carregar por causa de sucessivas composições para filmes como ''Seven - Os Sete Crimes Capitais'' e ''O Silêncio dos Inocentes'' (claro que quem afirmava isso nunca deve ter ouvido ''Ricardo III'', ''Nobody's Fool'' ou ''Ed Wood'').

Ele não apenas capturou com grande maestria todas as nuances do mundo criado por J.R.R. Tolkien, mas também teve criatividade e arrojo suficientes para injetar sangue novo à arte de compor música para filmes de fantasia e aventura, terreno já trilhado antes por monstros sagrados como Bernard Herrman, John Williams, Jerry Goldsmith e tantos outros. Ou seja: era fácil deixar-se levar pelas influências e trilhar o caminho mais conhecido dos clichês musicais.

Mas Shore entendia o peso da responsabilidade que carregava e não decepcionou. Não é a toa, portanto, que fisgou os prêmios mais importantes daquele ano, bem como o respeito e a admiração de praticamente todos os apreciadores da música cinematográfica. Depois do sucesso da primeira empreitada, a grande questão que pairava no ar era: será que Shore teria fôlego para criar partituras tão boas quanto a do primeiro para os outros filmes da trilogia? ''As Duas Torres'' chegou e a resposta foi um sonoro SIM! Ele não apenas compôs uma trilha à altura da primeira, como a superou em vários momentos.

Livre das necessidades mercadológicas que acabaram limitando a trilha anterior (como a inclusão da soporífera Enya, cujas canções embora não tenham atrapalhado, também nada acrescentaram), Shore pôde concentrar-se mais na experimentação e na criação de temas menos fáceis de serem digeridos à primeira leitura (como o tema dos Hobbits, cuja simplicidade acabou gerando críticas equivocadas, tais como afirmar que era plágio de ''Titanic'', só por usar instrumentos de sopro semelhantes aos daquela trilha).

A trilha de ''As Duas Torres'' está dividida em duas partes bem claras. Em uma há a recorrência aos temas principais criados para o primeiro filme. Faixas como ''Glamdring'', "The Dead Marshes'', ''Ugluk's Warriors'' e ''Wraiths on Wings'' basicamente refrescam nossa memória acerca do material anterior, mas sempre com uma nova leitura ou desenvolvimento. Já a outra parte apresenta as novidades, que começam em ''The Plains Of Rohan '' e passam a dar o tom a partir da belíssima ''Théoden King'', na qual a nobreza dos Cavaleiros de Rohan é representada no solo do violino norueguês de Dermot Crehan.

O diretor Peter Jackson explica que nesse filme somos apresentados ao ''mundo do dos Homens'' e isso se faz sentir na trilha de modo acentuado. Ficam em segundo plano, portanto, os temas etéreos e místicos (que deram o tom à primeira trilha). Prevalece agora um tom mais melódico, mais ''pé-no-chão'', fazendo eco à tradição musical européia romântica. E isso é sentido claramente nos momentos mais emocionais, principalmente em ''Gandalf, the White'', ''Where Is The Horse And The Rider?'', ''Théoden Rides Forth'' - sem dúvida algumas das melhores faixas do álbum, nas quais as performances dos metais (principalmente das trompas) e do coral de vozes impressionam.

Entretanto, a trilha de ''As Duas Torres'' é mais pesada, soturna e sombria do que a de ''A Sociedade do Anel'', seguindo obviamente o clima do segundo capítulo da saga. Shore às vezes abusa um pouco de gongos e pratos para representar a grandeza na tela, mas ainda assim há espaço para músicas reflexivas e elegantes, representadas em ''One Of The Dúnedain'' e ''Arwen's Fate''. O compositor faz novamente extenso uso de coro de vozes (ainda mais acentuadamente do que na primeira partitura) e de solistas, mas nunca de forma bombástica ou intrusiva (pecado mortal de nove entre dez trilhas que utilizam dessa técnica), ficando como destaque a retumbante ''The Last March of the Ents''. A trilha é encerrada com ''Gollum's Song'', na voz de Emilliana Torrini (sem dúvida uma canção bizarra, mas cujo valor cresce à medida que se entende seu conteúdo já que é o retrato perfeito do atormentado personagem), seguida de uma releitura dos temas principais do filme.

Com ''As Duas Torres'', Peter Jackson confirma que não poderia ter sido mais feliz na escolha do compositor para ''O Senhor dos Anéis'', cuja missão é tão importante quando à do pequeno Hobbit que tem em mãos o destino dos povos da Terra Média.

Cotação: * * * * *

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Filmes: "Os Garotos Estão de Volta"

BONITO E TOCANTE

Para quem gosta de um bom drama este filme é uma ótima pedida.

- por André Lux, crítico-spam

Scott Hicks deve ser um dos cineastas mais sensíveis em ação atualmente. Ele tem a capacidade de transformar histórias até certo ponto banais em filmes extremamente bonitos e tocantes. Foi assim em “Shine – Brilhante” e no belíssimo “Neve Sobre os Cedros”.

Em “Os Garotos Estão de Volta” ele coloca essa sua sensibilidade mais uma vez a serviço de um enredo que, nas mãos de um diretor medíocre ou com mão pesada, se transformaria em mais um daqueles dramalhões piegas e manipulativos que existem aos montes por aí.

Inspirado em fatos reais, o roteiro conta a história de um jornalista esportivo inglês que, após a trágica morte da esposa, é obrigado a cuidar do filho sozinho no interior da Austrália. Para complicar ainda mais as coisas, um outro filho dele (fruto de casamento anterior) vem da Inglaterra para passar um tempo com o pai.

Acompanhamos então as desventuras do protagonista, encurralado entre as necessidades de seu trabalho e as responsabilidades paternas, enquanto é atormentado pela morte da esposa. Os inevitáveis conflitos entre ele e seu filho adolescente também são tratados de maneira convincente, sem nuca cair em caricaturas ou reducionismos.

O grande trunfo do filme é a direção cativante de Hicks, que faz uso de enquadramentos muito bem elaboradores, de uma fotografia brilhante e de uma trilha musical belíssima, que emoldura a narrativa com contornos poéticos.

Ajuda muito também a presença de Clive Owen como o protagonista, talvez em sua melhor atuação até hoje, que conta com ótimos coadjuvantes (especialmente as crianças) para apóia-lo.

Para quem gosta de um bom drama, “Os Garotos Estão de Volta” é uma ótima pedida.

Cotação: * * * *

Vox Populi: Dilma tem 45% e Serra 23% em Pernambuco

A pré-candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, alcançou em Pernambuco, na primeira quinzena deste mês, quase o dobro das intenções de voto do pré-candidato do PSDB, José Serra, informa pesquisa do instituto Vox Populi encomendada pela Rede Bandeirantes e divulgada na edição de ontem do Jornal da Noite. De acordo com o Vox Populi, Dilma obteve 45%, Serra 23%, Ciro (PSB) 9% e Marina (PV) 3%.

Os resultados apurados em Pernambuco fazem parte de uma pesquisa de âmbito nacional realizada junto a 2.000 eleitores de todas as regiões entre os dias 14 e 17 de janeiro.

No fim da semana passada, o Jornal da Band havia divulgado os resultados que o Vox Populi apurou no Rio de Janeiro sobre a disputa presidencial. Eles mostram um empate técnico entre Serra (27%) e Dilma (26%), dentro da margem de erro de 2,2 pontos percentuais para mais ou para menos. Ainda no Rio, terceiro maior colégio eleitoral do país, Ciro Gomes obteve 14% e Marina Silva 9%.

Dilma, que estará amanhã em Pernambuco, esteve hoje no Rio, onde iniciou seu dia com entrevista na Rádio Tupi AM. Enfatizou que a Saúde e a Educação terão espaço destacado em sua plataforma de campanha e anunciou “um PAC da creche e um PAC do ensino superior. Um tem tudo a ver com o outro. Para ter uma boa creche, é preciso ter uma universidade que forme bons professores”.

À tarde, acompanhando o presidente Lula, o governador Sérgio Cabral e o prefeito Eduardo Paes, a ministra participou da inauguração da creche Zilda Arns e da praça Nossa Senhora Aparecida, obras financiadas pelo PAC na Colônia Juliano Moreira, que está sendo urbanizada no bairro de Jacarepaguá com orçamento de R$ 142 milhões – R$ 112 milhões do governo federal e R$ 20 milhões da Prefeitura. As obras e serviços beneficiarão 6.200 famílias.

GOVERNO DE MINAS

Além de apurar as intenções de voto para a eleição presidencial, a pesquisa Vox Populi para a Rede Bandeirantes incluiu consultas sobre as disputas para os governos dos maiores estados, como Minas Gerais. Em todos os três cenários simulados lá, o atual vice-governador e candidato do governador Aécio Neves (PSDB), Antônio Augusto Anastásia, aparece em segundo lugar, na faixa de 16% a 17%, atrás de Hélio Costa (PMDB) e dos petistas Fernando Pimentel e Patrus Ananias.

Num dos cenários, sem candidato do PT, Hélio Costa soma 37%, Anastasia 16%, Vanessa Portugal (PSTU) 5% e Maria da Conceição (PSOL) 2%.

Nas outras simulações, sem a candidatura de Hélio Costa, um dos pré-candidatos do PT, Fernando Pimentel, soma 34% enquanto Anastasia fica com 17%; e o outro pré-candidato petista, o ministro Patrus Ananias, alcança 28%. Anastasia permanece com 17%.

Fonte: Brasilia Confidencial

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Filmes: "Amor Sem Escalas"

PREGAÇÃO FUNDAMENTALISTA

O que poderia se transformar num ácido retrato da frieza e desumanidade do capitalismo é destruído por mensagem moralista e piegas.

- André Lux, crítico-spam

De vez em quando os profissionais da opinião mundo afora parecem sofrer de uma alucinação coletiva e elegem um filminho bobo e sem graça como sendo algo próximo de uma obra prima da sétima arte.

Fizeram isso novamente com esse “Amor Sem Escalas” (um título nacional idiota que tenta vender o filme como se fosse uma comédia romântica).

Dirigido pelo medíocre Jason Reitman (filho do diretor de “Caça-Fantasmas”) e realizador de outra besteira chamada “Juno” (também louvado inexplicavelmente pela crítica), a única coisa que presta no filme é a presença do carismático George Clooney, à vontade no papel de um executivo especializado em demitir funcionários de empresas que não tem coragem de executar essa ingrata tarefa.

O personagem passa a maior parte de sua vida em aviões viajando de uma cidade para outra e se orgulha de ser tratado como VIP em todos os aeroportos e hotéis que vai e de passar no máximo algumas semanas por ano em sua residência fixa.

O que poderia se transformar num ácido retrato da frieza e desumanidade do sistema capitalista (que inova na crueldade terceirizando até o serviço de demissões!) é destruído por uma necessidade de impor uma mensagem moralista e piegas sobre o “valor da família” e de uma suposta incapacidade do ser humano de ser feliz sozinho.

Assim, o protagonista que, durante o primeiro ato, foi pintado como sendo uma pessoa irônica, bem resolvida, feliz e realizada com sua vida, de repente vira um pobre coitado que passa a invejar até sua irmã medíocre só porque ela vai se casar para levar uma daquelas vidinhas típicas de “Amélia”! Essa é a mensagem que os realizadores querem nos fazer acreditar: só existe felicidade dentro da tradicional estrutura familiar “papai-mamãe-titia” que é a realidade de uma parcela reacionária da sociedade.

Vejam bem, não tenho nada contra nem a favor da família tradicional. O que questiono aqui é essa necessidade de “pregar” um tipo de valor como se ele fosse a única forma de se atingir o nirvana. A partir dessa visão obtusa de mundo, alguém que, por exemplo, decide ser solteiro ou um casal que não quer ter filhos são, necessariamente, infelizes e vazios.

Nada mais ridículo do que ver gente julgando e condenando os outros a partir de seus preconceitos tidos como “verdades absolutas”. Ainda mais no cinema!

Mas o mais ridículo é ver gente idolatrando um filme idiota como esse, que não passa de pregação fundamentalista sutil como um elefante com dor de dentes. Sem comentários.

Cotação: *

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Filmes: 2019 - O Ano da Extinção (Daybreakers)

TERROR COM CONTEÚDO

Esse é um filme totalmente original que subverte os clichês do gênero e ainda traz uma crítica político-social bastante interessante.

- por André Lux, crítico-spam

"2019 - O Ano da Extinção" (Daybreakers) parece, a princípio, apenas mais um filme sobre vampiros que quer se aproveitar da atual onda de fanatismo que cerca a saga “Crepúsculo”. Mas não se engane. Esse é um filme totalmente original que subverte os clichês do gênero e ainda traz uma crítica político-social bastante interessante.

Estamos na Terra do ano 2019, dez anos após uma epidemia que transformou grande parte da humanidade em vampiros. O problema é que existem cada vez menos humanos e até animais e o precioso sangue está cada vez mais escasso. 

Assim, o que restou da raça humana é caçada e cultivada por uma mega corporação comandada por um vampiro neoliberal sem escrúpulos que lucra horrores com a alta do preço do sangue. E para piorar tudo, a falta do precioso alimento começa a transformar os vampiros mais pobres em verdadeiros monstros sem controle, os quais são perseguidos e destruídos pela polícia.

Temos aí uma ótima alegoria sobre a crueldade do sistema capitalista, que pode remeter à escassez de água que parece estar chegando, onde só os que podem ter acesso a esses “comodities” (como os defensores desse sistema desumano chamam aquilo que pode gerar lucros) poderão sobreviver, enquanto o resto é tratado como lixo e enviado para a morte. Em tempos onde favelas de São Paulo são sistemática e criminosamente incendiadas, o filme não poderia ser mais atual.

Esse subtexto político permeia toda a obra, que conta com boas atuações de um elenco liderado por Ethan Hawke (como um vampiro cientista que se recusa a beber sangue humano e tenta encontrar desesperadamente um substituto sintético para ele), Willem Dafoe (no papel de caçador de vampiros que funciona como alívio cômico) e Sam Neill.

Assistindo a “Daybreakers” podemos notar também o quanto a música é importante para o cinema. Composta pelo australiano Christopher Gordon (das minisséries para a televisão “A Hora Final” e “Moby Dick”), a partitura é simplesmente espetacular e eleva o filme a patamares maiores do que os sonhados pelos seus realizadores (os irmãos Michael e Peter Spierig, também australianos).

Tenso, bem dirigido, com diálogos inteligentes, sem finais redentores idiotas ou excesso de cenas nojentas, “Daybreakers” é um dos raros filmes que misturam terror com ficção científica que valem a pena serem assistidos atualmente. 

Não percam – e não se esqueçam de prestar atenção à música!

Cotação: * * * *

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Filmes: "Pintar ou Fazer Amor"

SEM FALSO MORALISMO

Indicado para pessoas bem resolvidas ou para quem procuram um bom drama com conteúdo erótico 

- por André Lux, crítico-spam

Filmes cuja temática aborda o sexo liberal (sexo a três, troca de casais ou fantasias mais picantes consideradas tabu pela nossa sociedade hipócrita) geralmente descambam para um falso moralismo retrógrado e caricato que quase sempre acaba em brigas, assassinatos, extorsões ou coisas tenebrosas do gênero.

Como se a intenção desses cineastas fosse mostrar que essas práticas são erradas e feitas apenas por pessoas degeneradas, embora não se furtem de usar do apelo que esse tipo de erotismo tem junto às pessoas para tentar faturar nas bilheterias.

Só mesmo os franceses poderiam fazer um filme com esses temas de maneira humana, realista e madura. Assim, “Pintar ou Fazer Amor” (“Peindre ou Faire L'amour”) mostra a rotina de um casal de meia idade (os ótimos Daniel Auteuil e Sabine Azéma) que vai morar numa casa de campo no interior do país.

Fazem amizade com outro casal que mora nas redondezas e, aos poucos e com muita naturalidade, o roteiro vai mostrando a atração e cumplicidade crescentes entre eles que culmina numa surpreendente troca de casais.

A nova experiência deixa-os perplexos e amedrontados, tanto é que na manhã seguinte fogem sem rumo e até provocam um acidente de carro. Mas, ao mesmo tempo, a novidade reacende a chama do desejo entre eles.

O contraste dessas fortes emoções e os sentimentos dúbios que elas geram nos protagonistas são explorados de maneira muito sensível pelo casal de diretores Arnaud e Jean-Marie Larrieu (também autores do roteiro), sem nunca cair para reduções simplistas ou discursos moralistas.

Esse é um filme altamente indicado para pessoas sexualmente bem resolvidas, de mente aberta ou para aqueles que simplesmente procuram um bom drama com conteúdo erótico que respeita a inteligência e a sensibilidade do espectador.

Cotação:
* * * *

sábado, 16 de janeiro de 2010

Jerry Goldsmith em "Powder": Música para arrepiar todos os pelos do corpo!

Vejam abaixo a cena final do excelente filme "Energia Pura" ("Powder"). A música do mestre Jerry Goldsmith é maravilhosa e me deixa arrepiado até o último fio de cabelo toda vez que a ouço... Ah, que saudades do mestre!

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Filmes: "Lula, O Filho do Brasil"

PASMEM: LULA É UM SER HUMANO!

Embora mediano como cinema, filme merece ser visto, pois é um registro necessário da trajetória quase milagrosa desse homem que, contra tudo e contra todos, tornou-se o presidente mais popular da história do país.

- por André Lux, crítico-spam

Eu nunca tinha ouvido falar na história do cinema de uma campanha difamatória tão contundente e sistemática como a que a chamada “grande imprensa” tem feito contra o filme “Lula, O Filho do Brasil”. Nem mesmo os ataques de católicos fundamentalistas contra a “A Última Tentação de Cristo”, de Martin Scorsese, chegaram a tanto. Mas para decifrar de onde vem esse ódio todo, é preciso primeiro entender como funciona a lógica da indústria cultural criada a partir de Róliudi e exportada mundo afora.

Existem duas fórmulas para se fazer filmes com pessoas pobres que são aceitas pelos donos do poder. A primeira é a do “pobre que venceu na vida e ficou rico” e a segunda a que ensina que “os pobres, apesar de não terem dinheiro, são muito mais felizes que os ricos”. Uma serve para vender a ilusão de que o capitalismo oferece oportunidades iguais a todos e para chegar lá no topo da pirâmide social basta se esforçar muito, seguir as regras e fazer muitas horas extras (de preferência sem remuneração, tipo “vestir a camisa” do patrão). Essa aproximação pode ser vista em filmes como “À Procura da Felicidade”, com Will Smith.

Já a outra funciona perfeitamente para convencer os que vivem na base da pirâmide que os ricos, mesmo tendo rios de dinheiro e acesso a tudo que existe de bom e de melhor, no fundo são todos infelizes, solitários e amargurados, enquanto os pobres são bem mais unidos, animados e felizes. Essa ladainha torpe pode ser encontrada em qualquer uma das famigeradas novelas da rede Globo ou em filmes como “Antes de Partir”, com Jack Nicholson e Morgan Freeman.

“Lula, O Filho do Brasil” não se encaixa em nenhuma dessas fórmulas, pois mostra a trajetória de alguém que saiu da miséria, lutou muito e venceu na vida, chegando a ser presidente do Brasil, mas mantendo-se fiel aos seus princípios ideológicos e políticos e sem nunca se esquecer de onde veio ou daqueles que vivem como ele viveu. Obviamente, não é o tipo de mensagem que os donos da revista Veja gostam de verem sendo veiculadas país afora, pois dá mau exemplo à "gentalha"!

Mas a verdade é que a extrema-direita hidrófoba brasileira com essa campanha de difamação toda acaba, mais uma vez, dando um tiro no próprio pé, pois faz muito barulho por quase nada. Afinal, a polêmica toda criada em torno do filme somente vai servir para levar mais pessoas aos cinemas para ver um filme que, por méritos próprios, nem merecia tamanha atenção.

Embora esteja longe de ser o desastre anunciado pela imprensa que busca o lucro acima de tudo, “Lula, O Filho do Brasil” também não é nenhuma obra prima. Em minha opinião, a culpa maior é do diretor Fábio Barreto que filma tudo de forma burocrática e não consegue tirar o melhor do excelente elenco que teve à disposição. Falta dinamismo e naturalidade ao filme que perde feio, por exemplo, para “Dois Filhos de Francisco”, que tinha temática semelhante, mas era bem melhor realizado.

Outro problema é o roteiro, que não sabe aprofundar os personagens (principalmente os secundários, como os irmãos do protagonista, que viram quase figuração) e limita muito a narrativa à relação de Lula com sua mãe, dona Lindu (a sempre confiável Glória Pires). O filme padece também da falta de conflitos e mesmo de suspense e só se sustenta devido à história de Lula, emocionante por si mesma, e à excelente atuação de Rui Ricardo Diaz que em alguns momentos parece "encarnar" o biografado.

Obviamente, a obra tem qualidades positivas, como a trilha musical de Antonio Pinto e Jacques Morelembaum, e o figurino que recria com perfeição as roupas de época, especialmente as usadas nos anos 70.

A acusação de que o filme seria eleitoreiro é uma idiotice sem tamanho. Puro delírio de quem tem preconceito e ódio irracional contra Lula, pois ele não faz em nenhum momento panfletagem político ideológica em favor do biografado, limitando-se apenas a narrar cronologicamente os fatos da vida do atual presidente. O que deve incomodar a turma da direita, além daquilo que já apontei lá em cima, é, pasmem, que o filme mostra que Lula é afinal de contas apenas um ser humano como qualquer outro. E isso torna difícil para seus detratores satanizá-lo como sempre fizeram.

Embora mediano como cinema, “Lula, O Filho do Brasil” merece ser visto, pois é um registro necessário da trajetória quase milagrosa desse homem que, contra tudo e contra todos, tornou-se, para desespero da direita, o presidente da República mais popular da história do país.

Cotação: * * *

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Filmes: "Sherlock Holmes"

SHERLOCK COM LUTINHAS

Perto dessa porcaria barulhenta e idiota, até aquele filminho simpático que brincava de mostrar um Sherlock Holmes jovem parece ser uma obra prima.

- Por André Lux, crítico-spam

Toda vez que alguém anuncia que vai “modernizar” uma obra clássica, eu corro para um abrigo. É sinal de bomba na certa. Não poderia ser diferente com esse “Sherlock Holmes”, cujas semelhanças com o personagem imortal criado por Arthur Conan Doyle terminam no título.

Sinceramente, não há muito que dizer desse filme, cuja definição feita por minha esposa é perfeita: “Sherlock Holmes com lutinhas”. A história é risível e absurda ao extremo (mistura rituais de magia negra e seitas malucas com delírios de dominação mundial de um vilão que parece ter saído direto de algum episódio do “Jaspion”). 

A cada quinze minutos o roteiro dá uma brecada para os protagonistas saírem desferindo golpes de artes marciais em qualquer um que apareça na frente. E a maioria das sacadas dedutivas de Holmes parecem mais coisa de paranormal do que frutos de uma mente aguda!

A direção do outrora promissor Guy Ritchie (dos superestimados “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” e “Snatch – Porcos e Diamantes”) é banal e abusa de efeitos de montagem pseudo-espertos que só vão impressionar quem nunca assistiu a “Matrix” ou a qualquer uma de suas imitações. 

Não ajuda em nada a atuação do insuportável Robert Downey Jr., um atorzinho arrogante e metido a besta que, com sua empáfia perene, só consegue passar a impressão de estar entediado o tempo todo. A única vez que esse sujeito esteve perto de representar um ser humano foi em “Chaplin” e olhe lá.


Sherlock, o lutador
Jude Law, como Watson, e a bela Rachel McAdams não têm o que fazer, exceto servir de escada para piadas sem graça (como as insinuações homossexuais entre Holmes e Watson dignas de um quadro do grotesco "Zorra Total" da TV Globo) e também demonstrarem perícia em kung-fu. 

O que dizer então da “música” composta pelo abominável Hans Zimmer? Faltam-me adjetivos, mas acho que “ridícula” e “sutil como um rinoceronte correndo numa loja de cristais” servem bem para defini-la. Sem dizer que, como sempre, ele copia, nota por nota e sem qualquer pudor, faixas de trilhas clássicas do mestre Ennio Morricone!

Perto dessa porcaria barulhenta e idiota, até aquele filminho simpático que brincava de mostrar um Sherlock Holmes jovem (“O Enigma da Pirâmide”) parece ser uma obra prima da sétima arte. 

Pior é que o final deixa aberto a possibilidade de uma continuação. Quado ela chegar, façam como eu: fujam para o abrigo mais próximo!

Cotação: *

sábado, 26 de dezembro de 2009

Ainda sobre "Avatar"... Qual é a mensagem subliminar do filme?

- por André Lux, crítico-spam

Minha crítica ao filme “Avatar” gerou como eu esperava uma forte reação negativa de quem gostou do filme. O argumento deles é sempre o mesmo: filmes como esse devem ser unicamente avaliados como peças de entretenimento. Ponto final.

Eu não concordo. Ainda mais no caso desse filme, que traz em seu bojo uma pretensa mensagem política e ecológica. 

Para mim, quanto mais pretensioso é o filme em seus objetivos, maior deve ser a cobrança sobre ele. E quanto maior for sua pretensão, maior deve ser o cuidado do cineasta em embasar sua obra com conteúdo suficiente para que ela sobreviva a uma análise mais profunda e crítica.

Uma vez eu vi uma entrevista com o diretor John Carpenter onde ele era questionado sobre as possíveis conotações políticas do filme “Era Uma Vez Na América”, de Sergio Leone. Ao que o diretor de “Fuga de Nova York” responde: “Todo filme tem conotação política, até mesmo eu suponho ‘Plan 9 From Outer Space’”. Eu assino embaixo.

Muitas vezes um filme pode parecer que é apenas “entretenimento”, porém traz embutido nele centenas de mensagens, conceitos e valores sociais ou morais que vão manipular e moldar a mente do espectador. Algumas vezes, esses conceitos são explícitos, mas na maioria eles ficam implícitos. E em grande parte das vezes, os conceitos implícitos são diferentes dos explícitos embora, em última instância, sejam os últimos que vão formar a opinião de espectadores incautos.

“Avatar” é um desses casos. Apesar de possuir uma suposta mensagem altamente explícita contra o capitalismo e o exército e a favor da natureza e da ecologia, o que vale realmente é o que está por trás de tudo isso e que, na minha modesta opinião, vai contra ao que o autor da obra supostamente quer ensinar.

E como eu cheguei a essa "brilhante" conclusão? Bem, não é fácil explicar, mas vejamos se eu consigo.

Em primeiro lugar, filmes com mensagens pretensiosas que querem provocar a reflexão da platéia devem, como eu disse, embasar seus argumentos de maneira forte e coerente. “Avatar” para começo de conversa passa longe disso. Assim, ao invés de personagens complexos e humanos (leia-se, com problemas, dúvidas, fraquezas e conflitos), temos personagens unidimensionais (os bons, os maus, os ingênuos) e caricatos (maus são violentos ou gananciosos, bons são pacíficos, ingênuos querem o bem, mas fazem o mau por tabela, e assim por diante). 

Isso, já de cara, dilui completamente qualquer mensagem que o filme quer passar porque reduz tudo a um festival de clichês que não exige reflexão por parte da platéia e impede que nos identifiquemos com os personagens. Além disso, qualquer um é capaz de adivinhar o que vai acontecer até o final depois de 20 minutos de projeção.


Alguns podem argumentar que o protagonista, Jake Sully, seja matizado, afinal começa “vilão” (servindo aos interesses dos militares) e depois se torna “herói”, uma espécie de Che Guevara do futuro. 

Poderia até ser, porém o arco que o personagem passa é por demais primário e suas motivações nunca são expostas claramente para tornar sua “jornada” da direita para a esquerda sequer perto de algo interessante.

Compare, por exemplo, com o arco sofrido pelo personagem de Val Kilmer no filme “Coração de Trovão”. Naquele filme, Kilmer também começa à direita, fazendo o serviço sujo do governo dos EUA numa reserva indígena, para depois voltar-se para a esquerda, ajudando os nativos revolucionários que lutavam contra latifundiários que queriam explorar suas terras. 

A “jornada” do “Coração de Trovão” é extremamente complexa, pesarosa e cheia de conflitos – ele é filho de um nativo alcoólatra, rejeita sua herança e sempre se portou como um mauricinho de Washington até mergulhar de cabeça no mundo dos nativos e sujar suas mãos com o sangue de seus antepassados. 

Embora consiga desmascarar os envolvidos no esquema de morte e repressão dos nativos (inclusive dentro do próprio FBI) ele obtém uma mera vitória de Pirro e o filme termina de forma melancólica, deixando claro que as injustiças e as perseguições políticas denunciadas pelo filme continuariam ocorrendo.

Já em “Avatar”, o que ocorre é justamente o contrário. O protagonista sai da direita (representada por um comportamento desumano, frio, insensível, preconceituoso, egoísta, violento) e vai para a esquerda (o contrário de tudo aquilo) num piscar de olhos, sem passar por qualquer conflito ou drama interior. Ele começa caricato e termina caricato. 

Nem em “Star Wars” a jornada do herói é tão vazia e raza assim, pois lembremos que Luke Skywalker, além de sofrer o diabo nos três filmes da série, ainda descobre que o malvadão máximo da trilogia é ninguém menos do que seu pai! Eu vi “O Império Contra-Ataca” nos cinemas quando tinha uns 10 anos e lembro bem até hoje do impacto que essa revelação teve na gente.

Não importa se sejam comédia, drama, épico ou terror: filmes bons, que são lembrados com o tempo, são aqueles que conseguem deixar uma marca, uma idéia, uma reflexão, ou seja, algo mais do que simples imagens bonitas e maravilhosos efeitos especiais. Principalmente aqueles que tem a pretensão de nos fazerem pensar. E aí vamos chegando à conclusão do filme, que é onde tudo desanda de vez.

“Avatar”, assim como muitos outros filmes com mensagens fracassadas, erra feio justamente em sua conclusão ao apelar para o bendito final feliz e redentor. Se até então o que vimos na tela estava há mil anos luz de ser uma obra prima da dramaturgia, tudo fica ainda mais abominável quando o encerramento apela para o que há de mais pobre e batido. 

No caso, a vitória altamente improvável e esmagadora dos “heróis” contra os “vilões” e a transformação final do protagonista, que literalmente vira um dos alienígenas, jogando fora e rejeitando tudo que ela havia sido até então (aqui ainda temos uma mensagem implícita extremamente fascista para as pessoas portadoras de deficiências!).

Que tipo de reflexão isso gera nas pessoas? Será mesmo que alguém saiu do cinema pensando em se engajar politicamente para “salvar o planeta”, repensando seus conceitos em relação ao capitalismo e ao militarismo ou sobre o massacre de indígenas que ocorreu na conquista das Américas, que pareciam ser os objetivos do diretor James Cameron? 

É claro que não! O máximo de comentários que um filme desses gera é sobre seus efeitos especiais “revolucionários” e uma sensação do tipo “alguém precisa salvar a natureza” que se esvai assim que o sujeito chega ao balcão do próximo McDonald’s.

Cito aqui, a título de comparação, outro filme de fantasia e ficção que é o contrário de “Avatar” em tudo, menos na pretensão de nos fazer refletir sobre as injustiças e os absurdos de nossa sociedade capitalista opressiva. É “Brazil”, de Terry Gilliam. Repare que a jornada do protagonista é bem similar à de Jake Sully – sai da direita e vai para esquerda -, porém na obra de Gilliam não há lugar para finais felizes nem redentores. 

E é justamente quando confrontados com a duríssima realidade político-social do filme que percebemos que aquele absurdo todo visto na tela nada mais é do que um reflexo distorcido da nossa própria realidade.

E, por favor, não venham me falar que “Brazil” é filme cabeça, que só iniciados podem entender, porque eu o assisti quando tinha uns 16 anos e estava no auge da minha modalidade “papagaio da direita”, porém lembro até hoje do impacto que aquela obra – principalmente seu final terrível – teve no início da formação do meu caráter à esquerda.


Os filmes da trilogia "Matrix" também são exemplos de clichês sendo virados de ponta cabeça com o objetivo de gerar reflexão política naqueles que se incomodam de colocar seus neurônios para funcionar.

Mas, tenho certeza, algum leitor mais esperto vai me dizer: “Ora, mas o filme de James Cameron custou US$ 300 milhões! Você acha que o cara ia colocar um final triste desses aí que você gosta só pra fazer meia dúzia de chatos pensarem?”. Pois é. A pergunta que essa pessoa ia formular é justamente o que eu precisava para fechar meu texto. 

“Avatar” é um produto cultural feito para, única e exclusivamente, trazer lucros para as empresas e pessoas que nele investiram seu capital – inclusive seu super bem intencionado diretor. Não é, portanto, o mesmo objetivo da companhia “vilã” que estava explorando Pandora? Quais são então os valores que o filme realmente defende e passa em última instância e de maneira subliminar?

A resposta é simples, não? Simples até demais pro meu gosto...

Mas verdade seja dita: os executivos e acionistas do cinemão comercial estadunidense adoram ver revolucionários felizes e armados até os dentes derrotando opressores capitalistas na tela dos cinemas. Porque isso gera catarse e sensação de redenção (que são garantias de alienação e acomodação) e, acima de tudo, lucro. Já na na vida real os Jake Sullys não podem ganhar de jeito nenhum e são chamados de “terroristas” e outras aberrações do tipo. É ou não é?

E se você acha que tudo isso acontece por coincidência ou acidente, pense de novo. "Avatar" demorou 10 anos para ficar pronto e custou trocentos milhões de dólares. Não há um fotograma no filme que não tenha sido meticulosamente escrutinado e programado para passar o máximo de impacto possível. Na indústria cultural de propaganda do capitalismo não há nada que aconteça por coincidência ou acidente. 

Em tempo: há uma frase no filme que entrega totalmente o verdadeiro viés ideológico do seu realizador. É quando um dos milicos diz que lutava pela liberdade e pela democracia na Terra e completa: "Na Venezuela foi o inferno". Sim, referência explícita contra os governos bolivarianos de Hugo Chávez e seus aliados. Precisa mesmo dizer mais?

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Filmes: "Avatar"

CRIMINOSO

Filme reforça o que existe de mais desprezível na sociedade e funciona como uma máquina de entorpecer mentes a fim de deixá-las conformadas frente à dura realidade.

- por André Lux, crítico-spam

Existem duas maneiras de se ver um filme como “Avatar”. A primeira é como pura peça de entretenimento da indústria cultural estadunidense e aí encher o texto com termos como “revolução digital” e outras tecno-baboseiras que vem junto com as suas campanhas publicitárias milionárias e são repetidas mundo afora pelos patéticos profissionais da opinião doutrinados pelo sistema. Outra é analisá-lo como o produto cultural de uma sociedade de consumo decadente e doente. 

Eu prefiro a segunda. Assim, a partir dessa visão, “Avatar” expõe e reforça tudo que existe de mais desprezível e grotesco nessa sociedade e funciona como uma verdadeira máquina de ludibriar e entorpecer mentes a fim de deixá-las conformadas e amorfas frente à dura realidade que as cerca.

O filme poderia ser resumido como “Pocahontas encontra Dança Com Lobos na Matrix” e tem uma história que não apenas é a mais batida de todos os tempos, como ainda por cima é altamente ridícula e absurda. Homem branco vai viver no meio dos “bons selvagens” e, depois de muita dificuldade e desconfiança, torna-se um deles, apaixona-se pela mocinha e luta com seus novos amigos contra seus próprios “irmãos” de raça, que querem destruir tudo em nome do lucro. 

Assim, os vilões do filme são os malvados executivos de uma corporação capitalista e, claro, os militares (que, ensina o filme, lutavam pela liberdade na Terra mas em Pandora não passam de mercenários sujos). Os primeiros querem devastar o planetinha dos bondosos aliens azuis para minerar suas terras e os segundos, bem, querem jogar prazerosamente o maior número de bombas em tudo e em todos. Clichês dos clichês!

Mas não seria essa uma mensagem ótima, especialmente para quem se diz de esquerda, ainda mais quando enfia no meio um monte de jargões ambientalistas e ecologicamente corretos que estão na moda atualmente? Poderia até ser, se os personagens não fossem incrivelmente rasos e caricatos e se tudo não fosse embalado por uma resolução catártica e redentora das mais podres que eu já vi na vida. É como se o diretor James Cameron tivesse investido 15 anos de sua vida na parafernália eletrônica que dá vida ao filme e cinco minutos na criação do roteiro. Mas, como eu disse antes, não é nem isso o que mais incomoda. 

O que é realmente repugnante é a maneira como todos esses clichês são elencados na tela até o final feliz abismal, que nos ensina que os bonzinhos sempre vencem e conseguem, inclusive, botar o terrível exército dos EUA para correr (como se eles não fossem voltar o mais rápido possível ao planeta e explodir tudo com bombas atômicas!).

E qual o sentido disso, o que está por trás desse tipo de mensagem aparentemente edificante em nível subliminar? Algo que ninguém parece perceber (ou prefere fingir não perceber): a necessidade de nublar a mente das pessoas e deixá-las acomodadas aos valores morais mais torpes e hipócritas que existem, já que podem ver realizados na tela do cinema todos os sonhos e desejos de redenção e vitória que nunca se realizariam no mundo real, deixando-as assim alienadas e entorpecidas. Ainda mais quando tudo vem reforçado com louvor a crendices sobrenaturais (que alguns chamam de “religião”), do tipo "reze bastante que um dia você será atendido"!


A serviço dessa mensagem obscena temos o que há de mais avançado em tecnologia digital disponível. E daí? Como bem disse uma amiga arquiteta, um projeto de arquitetura ruim não vai melhorar só porque foi apresentado no programa de maquetes eletrônicas mais poderoso que existe, certo? “Avatar” não passa então de um desenho animado feito em computador que vai ficar obsoleto daqui a alguns meses quando inventarem algo mais “revolucionário”.

Enquanto isso, somos ensinados por James Cameron e outros mal intencionados ou simplesmente ingênuos (de boas intenções o inferno está cheio, vide os igualmente catastróficos "Diamantes de Sangue" e "Wall-E") que não é preciso lutar contra o conformismo e as injustiças na vida real como fizeram Che Guevara, Ghandi ou Evo Morales, pois no mundo dominado pelo “american way of life” todos os seus problemas e erros serão resolvidos no cinema – de preferência embalados por uma trilha musical grotesca de James Horner (que após esse mico deveria se aposentar), centenas de efeitos visuais digitais e um óculos 3D na cara. 

Aí você pode sair do cinema de alma lavada, esquecer tudo o que viu e, de quebra, ganhar um bonequinho do filme ao comer um lanche venenoso do McDonald’s...

Criminoso.

Cotação: *

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Música de cinema: Saiba como são compostas as trilhas dos filmes

Trabalho complexo do compositor de cinema é muitas vezes subestimado pela maioria dos espectadores e críticos profissionais, infelizmente.

- por André Lux, crítico-spam

John Williams é o autor de algumas das partituras mais famosas do cinema

O cinema é a forma de arte que abre uma janela para um mundo mágico: o mundo da imagem, do som e da música. De todos os ingredientes na fórmula para o sucesso de um filme, a música é sem dúvida o mais sutil e eficaz, afinal é ela que sugere e pontua as ações vistas na tela.

Todavia, nem sempre você pode estar ciente disso, pois qualquer coisa desde uma trombada de carros a uma batalha feroz pode estar competindo pela sua atenção. Mas é fato que sem o toque musical de um compositor hábil até mesmo o ataque furioso de um tubarão de duas toneladas pode tornar-se monótono.

Jerry Goldsmith conduz a orquestra
São nomes como de John Williams, Jerry Goldsmith, Ennio Morricone, Bernard Herrmann, John Barry, Patrick Doyle, Basil Poledouris, Nino Rota, Alfred Newman e Howard Shore, entre tantos outros, que garantem a nossa emoção no escurinho do cinema.

Apesar disso, o compositor de música para o cinema possui um trabalho quase sempre subestimado. 

Ele pode ser ouvido diariamente nos cinemas ou em vídeo por milhões de pessoas, mas continua anônimo para a grande maioria. Mesmo entre os críticos profissionais as partituras musicais raramente merecem destaque nas análises ou então são tratadas com lamentável desdém.

Veja o caso da trilogia de ''O Senhor dos Anéis'', cuja trilha sonora de Howard Shore é de longe uma das melhores já compostas nos últimos 20 anos e foi fator imprescindível para o sucesso das produções. Agora tente lembrar quantas críticas destacavam esse impressionante trabalho...

A verdade é que muitos esquecem (ou não percebem) que é graças ao trabalho desses profissionais que somos induzidos a chorar quanto ''E.T. - O Extraterrestre'' deixa nosso planeta, a morrer de rir quando um ''Gremlin'' é cozido num micro-ondas, a ter nosso sangue gelado quando ''Drácula'' ataca o pescoço de sua vítima ou a ficar sem fôlego enquanto ''Indiana Jones'' luta à beira de um abismo.

Mas a música também tem um papel importante em filmes mais complexos e profundos, que são considerados por muitos como ''cinema de arte''. 

Se não concorda com essa afirmação então é bom você rever filmes como ''Psicose'' (de Alfred Hitchcock), ''Cinema Paradiso'', ''Ed Wood'', ''Cidadão Kane'', ''Freud'', ''Henrique V'' (de Kenneth Branagh), ''Ran'' ou ''Era uma Vez na América'' e começar a prestar atenção às suas trilhas sonoras...

Ennio Morricone perdeu a conta 
de quantas trilhas já compôs
Sociedade dos Poetas... Desconhecidos

Infelizmente isso acontece porque a maioria das pessoas não tem ideia do complexo processo que é a criação de uma trilha musical de qualidade. 

Tudo começa com a discussão entre o compositor e o diretor, na qual eles vão decidir como será a composição dos temas e passagens que, via de regra, devem estar de acordo com a cena para a qual destinam-se. 

Às vezes, essa sincronia é tão perfeita que chega a acompanhar os movimentos de algo na tela. Essa técnica pode ser vista em ''Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban'', de John Williams, nas cenas em que o protagonista examina o seu mapa - repare que a música segue as pegadas que aparecem nele!

O segundo e mais complexo passo é justamente o da composição e orquestração, que consiste no arranjo da partitura para as diferentes partes da orquestra, coral e solistas. Geralmente a orquestração é feita por outro músico, colaborador de confiança do compositor, que tem a função de ajudar no processo já que o tempo para completar todo o trabalho é sempre curto.

O último passo é a gravação da trilha musical. Nessa etapa a batuta do maestro deve conduzir os músicos a uma perfeita sincronia com a imagem. Compositores experimentados como Williams, Goldsmith e Morricone habitualmente regem suas próprias composições.

Esse processo é basicamente o mesmo, até quando as trilhas serão executadas em sintetizadores ou por um pequeno grupo de músicos. Mas a ordem dele não sempre é respeitada. 

Diretores como Spielberg, Tornatore, Felini e Leone muitas vezes pediam para seus compositores gravarem alguns temas ou mesmo passagens musicais antes mesmo da produção começar, usando-as depois durante as filmagens não apenas para pontuar a ação, mas também para servir de inspiração ao elenco e à equipe técnica.

Praticamente todos os filmes de Spielberg tem música de John Williams
Alguns exemplos dessa aproximação pouco ortodoxa aconteceram em filmes como ''Era uma Vez no Oeste'', de Sergio Leone com música de Ennio Morricone, e em ''Contatos Imediatos do Terceiro Grau'', onde Spielberg deixou Williams compor a música para a seqüência final da descida da nave mãe antes de terminar o processo de edição e finalização dos efeitos visuais.

Um outro passo que pode ou não se tornar uma realidade é o lançamento da trilha sonora em CD no mercado de discos. Isso acontece quando existe interesse por parte de alguma gravadora em investir na sua comercialização.


Trilha de "Alien" demorou décadas
para ser lançada completa
Alguns selos nos EUA e na Europa são especializados em músicas de filmes, como Varese Sarabande, Intrada ou Prometheus, e procuram lançar trilhas que normalmente não encontram espaço dentro de grandes gravadoras ou disponibilizam trilhas antigas em suas formas completas.

Eternamente Jovem

A verdadeira música de cinema nunca vai deixar de ser apreciada, mesmo com o passar do tempo. A trilha composta pelo grande Miklos Rosza para ''Ben-Hur'' vai continuar emocionando os ouvintes da mesma forma que fez na época em que o filme foi lançado nos cinemas em 1959. 

A complexidade das orquestrações e a mistura de estilos com que Jerry Goldsmith executou a música para o clássico ''Planeta dos Macacos'', de 1968, nos permite uma nova interpretação e descoberta a cada nova audição. 

A magnífica partitura que Howard Shore compôs para a trilogia de ''O Senhor dos Anéis'' certamente continuará impressionando qualquer um que tenha ouvidos sensíveis, mesmo quando os efeitos visuais do filme tiverem ficado obsoletos...

Obviamente nem todas as trilhas originais mereçam o mesmo respeito de algumas das citadas acima. O mesmo valendo para certos compositores, que não possuem o talento ou conhecimento técnico necessários para a empreitada e acabam prejudicando os filmes para os quais são contratados. 

Isso sem dizer que existem muitos cineastas que, a exemplo de alguns críticos, tratam as trilhas musicais de seus filmes com incrível menosprezo.

Mesmo assim, é impossível negar o forte apelo e a influência que a música de cinema exerce mesmo fora das telas. 

Saber apreciar as obras desses verdadeiros mestres da música erudita contemporânea, além de ser um privilégio, é uma forma prazerosa, sadia e instigante de cultivar o hábito necessário para a melhor compreensão do universo artístico como um todo.

Howard Shore na gravação da música para "O Senhor dos Anéis"