ESCOLHA INFELIZAs partituras de Zimmer são rasas, limitam-se a pontuar a ação e ele é incapaz de compor música complexa para orquestra.
- por André Lux, crítico-spam
O diretor Christopher Nolan acertou em praticamente todos os ingredientes ao fazer os novos filmes do “Batman”, mas foi muito infeliz em um dos mais importantes: a escolha do compositor de suas trilhas sonoras.
No caso, foram os compositores, já que contratou uma dupla inusitada: o péssimo Hans Zimmer (“Gladiador”, “Falcão Negro em Perigo”, “A Rocha”) e o irregular James Newton Howard (“Sexto Sentido”, “O Príncipe das Marés”, “Neve Sob os Cedros).
De cara já há um problema nessa escolha: o “estilo” dos dois compositores não tem nada a ver um com o outro (coloco entre aspas, pois dizer que Zimmer possui estilo é uma ofensa aos músicos decentes).
Pelo que li em entrevistas e análises de entendidos no assunto, Zimmer ficou responsável pelos temas principais e pelas cenas de ação e suspense, enquanto Newton Howard musicou as partes mais melancólicas dos filmes (como o tema de Harvey Dent e do triângulo amoroso entre os protagonistas).
Mas, a grosso modo, quase 80% da trilha tem a assinatura inconfundível de Hans Zimmer e só de vez em quando aparecem alguns sinais do toque do outro compositor. Azar nosso.
Em “O Cavaleiro das Trevas”, Zimmer não procurou desenvolver seu tema para o Batman, deixando-o rolar praticamente da mesma forma que no filme anterior. Pesado e sombrio o tema é registrado nos níveis mais baixos e graves da orquestra, sem muita variação ou qualquer nuance.
É quase um tema minimalista que parece dizer o tempo todo “esse cara é nervoso e carrancudo”. Assim, perde-se a chance de explorar musicalmente os conflitos internos do personagem, seus medos, dúvidas e desvios psicológicos.
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| Zimmer, o abominável: prova viva de que não é preciso estudar ou ter talento para fazer sucesso |
Assim, com um só tema, Goldsmith trouxe à tona três elementos distintos do personagem principal, dando voz a características mencionadas apenas de relance no roteiro.
Mas, Zimmer não é Goldsmith. Assim, sua aproximação ao material é o reflexo de suas limitações. Suas partituras para os filmes do “Batman” são rasas e se limitam a pontuar a ação nas telas. Soma-se a isso a total incapacidade do sujeito em compor música complexa para orquestra.
Suas orquestrações são ridículas, sem contraponto, harmonia, fuga ou qualquer outra técnica que poderia elevar a música a patamares minimamente interessantes. Tudo é pasteurizado e, via de regra, temos a sensação de que todos os membros da orquestra, mais os solistas e o sintetizador estão tocando a mesma nota, ao mesmo tempo. Sensação que aumenta ainda mais por culpa da mixagem pesada que deixa o som “achatado” e não dá qualquer chance para nuances no desempenho dos músicos.
Em “O Cavaleiro das Trevas”, Zimmer criou um tema para o Coringa que é de um simplismo de dar dó: nada mais do que um zumbido de uma nota só tocada pelo cello, sampleado e acompanhado por guinchos de guitarra e sons que se assemelham a alguém jogando um gato em cima do sintetizador.
No filme até que funciona, pois contribui para aumentar o clima enervante que emerge do personagem, porém da mesma forma que o tema do Batman, não ajuda em nada para expandi-lo além do que se vê na tela.
Justiça seja feita: a trilha musical de Zimmer para os dois “Batman” funciona razoavelmente bem junto como as imagens, o que no caso dele é algo surpreendente, já que estou acostumado a vê-lo (ou seria ouvi-lo?) destruindo filmes de ação e aventura com sua mesmice barulhenta ou passando em brancas nuvens quando o assunto são comédias ou dramas.
E não adianta querer me convencer que a trilha é ótima, pois ela funciona junto com as imagens. Para mim, uma boa trilha sonora é aquela que, além de funcionar dentro do filme, traz à tona elementos “escondidos” na trama ou nos personagens. Cito como exemplo disso, o tema que Bernard Herrman criou para o misterioso “Rosebud” em “Cidadão Kane”.
Ouvidos mais atentos vão perceber que Herrman “entrega” o mistério logo de cara juntando o tema ao objeto na cena do menino na neve. Ou Goldsmith “explicando” por meio da música que o unicórnio de “A Lenda” está perdoando os erros do protagonista. Além disso, claro, uma boa partitura deve ser musicalmente interessante fora do filme.
O álbum com a trilha sonora de “O Cavaleiro das Trevas” traz 14 faixas editadas em forma de suíte, com nomes que remetem a diálogos do filme, mas não deixam claro para qual cena foram compostas – pecado que enfurece todos os colecionadores de música de cinema.
A primeira, “Why So Serious?” tem mais de nove minutos e traz, basicamente, o tema do Coringa em diversas variações, o que vai fazer você lamentar ter perdido todo esse tempo da sua vida com algo tão estúpido.
Lançaram depois mais uma versão da trilha, num álbum com dois CD, trazendo ainda mais músicas que ficaram de fora da primeira edição. Enfim, mais do mesmo...
Repleta de momentos bombásticos e barulhentos, a trilha do novo “Batman” funciona como uma injeção de testosterona na veia – não é a toa, portanto, que a maioria dos fãs de Hans Zimmer são adolescentes nervosos.
Como eu disse, até funciona junto com o filme, mas se quiser ouvir em casa... prepare a Neosaldina!
Cotação: * *










































