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sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

A polêmica continua... Por que eu considero "Tropa de Elite" um filme fascista?

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O meu amigo blogueiro Miguel do Rosário tem feito uma defesa ferrenha do filme “Tropa de Elite”, o qual ele não considera fascista, em seu blog Óleo do Diabo. Não quero aqui ficar pinçando trechos do texto dele e os contrapondo, pois acho isso enfadonho e meio injusto com o autor, pois tira suas idéias de contexto.

Vou, de maneira pontual e final, dizer porque eu acho o filme fascista. Até porque não quero mais falar desse filme canhestro que nem merece tantos holofotes assim.

1) A intenção do diretor era fazer um filme fascista? Pra mim ficou claro que não. O Padilha tentou sim fazer um filme que “mostra a realidade” da violência urbana no Brasil – especificamente nas favelas cariocas, e provocar polêmica no bom sentido.

2) Ele teve sucesso nisso? Em parte. Do ponto de vista de “mostrar a realidade”, ele consegue mostrar apenas uma parte dela. E é aí que os problemas começam.

3) Onde ele acertou? Primeiro, ao mostrar a corrupção e a desordem na polícia militar, bem como a parceria de seus membros com o tráfico e com esquemas ilícitos. Segundo, ao mostrar o envolvimento de políticos nos esquemas. Ponto para Padilha e sua equipe.

4) Os erros. Agora é que são elas. De boas intenções o inferno está cheio:

- “Tropa de Elite” escorrega feio em sua pretensão de “mostrar a realidade” ao pintar o BOPE como incorruptível e super-eficiente. Não é. Existem provas contundentes disso. Uma dessas provas está no próprio filme: os oficiais do BOPE são coniventes com a corrupção da PM, então no mínimo são omissos e corruptos por tabela. Mas o roteiro não chega nem perto de tocar nesse ponto e insiste em dar voz apenas aos discursos moralistas e incoerentes dos policiais, sem nunca questioná-los.

- O BOPE é mostrado torturando e executando pessoas de maneira criminosa. Igualzinho acontece na realidade. O problema é que todas as pessoas torturadas e mortas no filme são bandidos ou amigos e familiares dos bandidos. Só que na vida real, pessoas inocentes são mortas e torturadas pelo BOPE. Onde está isso no filme? Em lugar algum. Em “Tropa de Elite”, o BOPE é tão eficiente e “bonzinho” como o Rambo que, entre uma crise existencial e outra, também só mata bandidos e vilões, nunca inocentes. E quem optou por mostrar as coisas dessa forma distorcida e absolutamente parcial? Os críticos? A platéia? Não, os realizadores do filme. Portanto, não há desculpas.

- Estudantes de classe média usam drogas e acabam ajudando a sustentar o tráfico. Correto. Essa é uma questão importante no debate do combate à violência que ninguém tem coragem de tocar. “Tropa de Elite” ensaia colocar o dedo nessa ferida, mas logo depois mete os pés pelas mãos.

Primeiro, porque não são todos os estudantes que usam drogas. Muito menos todo estudante é esquerdista ou liberal. Em qualquer sala de aula também existem jovens que rezam pela cartilha da direita, que são fascistas, ou que ao menos são favoráveis ao “prendo e arrebento”. Onde estão eles no filme? Em lugar nenhum. Na classe do Matias (o policial negro), todos adotam uma postura “esquerdista” ou liberal na cena do debate, o que é absolutamente ridículo.

Ou seja, assim como o BOPE só mata e tortura bandidos no filme, os estudantes de classe média são todos retratados como liberais hipócritas que usam drogas ilícitas ao mesmo tempo que protestam contra a brutalidade da polícia em passeatas idiotas. Chamar isso de maniqueísmo é pouco... Ao optar por essa aproximação simplista, o cineasta inutiliza automaticamente sua proposta de “mostrar a realidade” do ponto de vista da classe média como parte do problema.

- Muitos dizem que o capitão Nascimento é “humanizado” no filme, pelo fato de narrar a trama e por sofrer de ataques de pânico, portanto não pode ser considerado fascista. Esse argumento é o mais fraco.

Primeiro, porque o Nascimento que narra é um e o que atua é outro. Enquanto ouvimos o personagem descrevendo as situações com ar de deboche, arrogância e onisciência (revelando inclusive fatos que não tinha como saber), o vemos agindo como um descontrolado inseguro, à beira de um ataque de nervos.

Ou seja, enquanto age como o protagonista de, na falta de um exemplo melhor, “Um Corpo Que Cai” (que tinha fobia de altura e cometia erros), ele narra o filme como se fosse o Rambo, fodão e infalível, porém injustiçado e incompreendido. No final das contas, o que prevalece é a narração, até porque é ela que se destaca mais no nível da consciência por ser dirigida diretamente ao espectador. Não há, portanto, humanização nenhuma do personagem. Pelo contrário. A narração tosca anula a suposta “humanidade” das ações e, mais grave, induz o espectador a "torcer" por ele.

- Matias, o policial que no final substitui Nascimento, é o verdadeiro protagonista do filme. É nele que está contido o arco moral do roteiro. É só perceber: Matias começa o filme de uma maneira e termina de outra, que é totalmente contrária à inicial. Seria dele também a narração do filme. É bem provável que assim ficaríamos sabendo mais sobre esse personagem e sobre a confusão mental que o levou a uma mudança tão radical de comportamento e filosofia de vida.

Mas, como o diretor resolveu mudar, na última hora, a narração para o Nascimento (certamente por questões mercadológicas), Matias virou um mero coadjuvante, sem qualquer profundidade ou nuance.

Sua transformação de idealista em torturador acontece de maneira brusca e forçada, apenas porque teve um amigo morto pelos bandidos. Explicação rasa e pobre, idêntica a de qualquer Rambo da vida: “Quero viver em paz, mas vou voltar para a guerra para vingar o meu amigo, que foi maltratado pelos vilões”.

Ao optar por todas essas simplificações extremas e por uma estética de filme de ação palpitante (especialmente na terceira parte), “Tropa de Elite” vai contra sua proposta inicial e, infelizmente, se iguala a qualquer filme do tipo “vingança e retaliação”, como “Gladiador” ou os já citados “Rambos”, onde os feitos questionáveis dos personagens acabam sendo justificados em nome de um “bem maior” – no caso, vingar a morte covarde do amigo policial.

E perceber isso não tem nada a ver com ser de esquerda ou de direita. Até porque não é todo direitista que é fascista ou violento, da mesma forma que nem todo esquerdista é comunista ou pacifista. Existem nuances nesse meio e é isso que torna o debate rico e profundo. E é justamente essa falta de nuances e de profundidade que transforma “Tropa de Elite” em produto fascista – no sentido de endossar, mesmo que sem querer, o uso da brutatlidade e do desrespeito às leis como única forma de combater o tráfico de drogas e suas conseqüências.

Enfim, um filme cheio de boas intenções que se perdem na falta de consciência, sensibilidade ou talento de seus realizadores.
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terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Filmes: "Baixio das Bestas"


DEIXA DE SER BESTA, HOMEM!

O diretor parece viver pela tese “o ser humano é podre e o mundo está perdido”. E, para prová-la, faz filmes com cenas chocantes, escatologia e personagens caricatos

- por André Lux, crítico-spam

O diretor Cláudio Assis é um homem que parece viver pela seguinte tese: “o ser humano é podre e o mundo está perdido”. E, para prová-la, ele faz filmes recheados de cenas chocantes, escatologia e personagens que agem como se fossem bestas no cio, sempre drogados ou bêbados, correndo atrás de putas ou de menores de idade.

Foi assim em “Amarelo Manga” e é a mesma coisa em “Baixio das Bestas”. Só que, no primeiro filme, ele ao menos tentava construir situações e personagens com um mínimo de aprofundamento. Já no segundo, parece que não estava muito preocupado com esses detalhes e partiu logo para a nojeira pura e simples.

Assim, somos apresentados a uma gama de personagens caricatos e rasos como uma poça de água que existem unicamente para comprovar a tese original do cineasta: o velho pedófilo, incestuoso e hipócrita que explora a neta sexualmente, o estudante de classe-média vagabundo e drogado que anda fazendo maldades com amigos igualmente vagabundos e drogados, as prostitutas que reclamam da vida mas, no fundo, gostam mesmo é de apanhar, os peões ignorantes que vivem sambando e bebendo pinga e assim por diante. Chega às raias do preconceito.

Segue-se então duas horas de cenas nas quais essas “bestas em forma de gente” praticam seus atos nojentos, sempre de forma chocante e repulsiva. Não tenho nada contra o cinema ser usado para chocar as pessoas, desde que isso traga algum tipo de reflexão e análise da realidade. Mas, em o “Baixio das Bestas” assistimos ao choque pelo choque, sem qualquer conexão com um contexto minimamente ligado à realidade do povo brasileiro. E não é enfiando meia-dúzia de cenas que mostram o trabalho terrível dos cortadores de cana que vai resolver esse buraco negro no meio da narrativa.

Pior é que o filme tem uma excelente fotografia do mestre Walter Carvalho, que mesmo assim, repete tiques estéticos já usados em “Amarelo Manga” (como os travelings de câmera sobre os cenários, a imagem supersaturada e os altos contrastes). Sem falar da coragem que alguns atores consagrados, como Caio Blat, Matheus Nachtergaele e Dira Paes, tiveram de aparecerem em nu frontal em cenas carregadas de escatologia. Dá até para dar algumas risadas em algumas cenas em que os protagonistas disparam palavrões francos. Mas é só.

Em um momento de total auto-indulgência e pretensão do cineasta, um dos personagens vira para a câmera e diz, sem mais nem menos: “O bom do cinema é que você pode fazer o que quiser”. É claro que pode. Pode até “homenagear” o “Laranja Mecânica”, do Kubrick, na cena do estupro no cinema ou mostrar trecho de sexo explícito de “Oh, Rebuceteio” e seus protagonistas se masturbando.

Difícil, entretanto, vai ser Cláudio Assis convencer os espectadores de que a tese dele tem algum valor ou que ao menos é uma grande novidade. No fundo, o sujeito é um grande moralista que quer usar o cinema para ensinar uma lição à humanidade, no pior estilo do sueco Lars Von Triers e seu ridículo “Dogville”. Ou seja, a tese dele, na verdade é: “o ser humano é podre - menos eu, que sou um gênio incompreendido por esse mundo perdido”. Ah, deixa de ser besta, homem! Vai procurar um bom psicólogo...

Cotação: * 1/2

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"Tropa de Elite": FASCISMO NO CINEMA

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Ninguém nega a realidade na qual “Tropa de Elite” é baseado. Favelas como Complexo do Alemão parecem realmente zonas de guerra, onde a polícia é considerada um exército de ocupação. Mas o Brasil é também o país mais desigual do mundo e, ao ignorar as razões sociais da violência, o filme enaltece uma estratégia que por si só demonstra seu fracasso.

- Por Conor Foley – The Guardian (*)

A notícia de que “Tropa de Elite” ganhou o prestigiado prêmio “Urso de Ouro” do Festival Internacional de Berlim foi recebida com deleite no Brasil. O país deveria se envergonhar.

“Tropa de Elite” tornou-se o filme brasileiro mais popular de todos os tempos quando foi liberado ano passado. Estima-se que 11 milhões de pessoas assistiram às cópias piratas do filme antes do seu lançamento oficial, tendo quebrado recorde de bilheteria quando chegou aos cinemas.

O filme segue o sucesso de “Cidade de Deus”, que conta a árida história de como as favelas em volta do Rio de Janeiro gradualmente caíram nas mãos dos traficantes de drogas. “Tropa de Elite” se baseia no mesmo tema, tendo início, cronologicamente, de onde “Cidade de Deus” terminou. A cena de abertura mostra um baile funk no qual adolescentes narcotraficantes dançam ao mesmo tempo em que abertamente sacodem suas armas automáticas. Dois policiais à paisana tentam armar uma cilada, que não sai como esperado. Eles acabam encurralados na favela, sendo resgatados com a chegada do Bope (Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro), comumente conhecido como “Tropa de Elite”.

O filme é visualmente impactante e a trilha sonora contribui para o drama, mas a trama é deplorável e os diálogos são fracos. O enredo se desenvolve em torno do destino de três homens: Capitão Nascimento, o chefe do Bope, e dois policiais que ele resgata, Neto e Matias.

Nascimento quer abandonar a polícia, pois sua esposa está grávida, mas primeiro ele deve encontrar alguém que o substitua, sendo este evidentemente o modo como o sistema de recrutamento da polícia brasileira opera. Neto e Matias decidem entrar para o Bope e se submetem ao processo de recrutamento, que envolve, principalmente, duro exercício físico, porque, como nos é dito, essa é uma boa maneira de arrancar-se a corrupção pela raiz. Matias, que é negro, freqüenta a faculdade onde seus colegas, universitários brancos, sentados em círculo, discutem Foucault e condenam a brutalidade da polícia. Poderiam os clichês serem mais banais?

Alguns dos estudantes, incluindo a namorada de Matias, estão envolvidos em um projeto social na favela, mas parece que não fazem muito além de fumarem maconha, fornecida por um traficante local. Eles são posteriormente assassinados pelos mesmos traficantes, que também mataram Neto e o desenlace sangrento do filme ocorre à medida que o Bope entra na favela atirando na busca dos assassinos.

O filme causou polêmica porque mostrou a polícia torturando mulheres e crianças para obter informações sobre o líder da quadrilha. Aparentemente, enquanto estava ocorrendo a filmagem no set, um oficial do Bope interrompeu os atores e lhes disse: “Olha, você está fazendo tudo errado. Você deve segurar o saco plástico assim, para que não fique nenhuma marca”. Nos cinemas Brasil afora, as pessoas gritaram e aplaudiram durante a cena e o capitão Nascimento fictício, que é baseado em personagem real, foi amplamente aclamado como um herói nacional”.

Ninguém nega a realidade na qual “Tropa de Elite” é baseado. Favelas como Complexo do Alemão parecem realmente zonas de guerra, onde a polícia é considerada um exército de ocupação. Mas o Brasil é também o país mais desigual do mundo e, ao ignorar as razões sociais da violência, o filme enaltece uma estratégia que por si só demonstra seu fracasso. Um governador populista do Rio uma vez ofereceu pagamento em espécie aos policiais que matassem criminosos, o famoso “bônus do oeste selvagem”, mas a taxa de crimes continuou a aumentar.

Aproximadamente meio milhão de brasileiros foram assassinados na última década, o que torna o país mais violento do que a maioria das zonas de guerra. Os brasileiros estão zangados e com medo do que está acontecendo em seu país, procurando desesperadamente por soluções.

Em um determinado ponto no filme, Matias confronta um grupo de pessoas em passeata protestando contra a morte de seus colegas universitários assassinados, acusando-os de só se importarem quando a violência atinge a classe média. Demonstrações como estas são comumente organizadas por ONGs como “Eu sou da Paz”, que também incrementa programas sociais em favelas. Uma série de estudos tem demonstrado que estes programas, que o filme extrapola ao difamá-los, têm obtido sucesso na redução dos crimes.

“Tropa de Elite” acusa a classe média brasileira de alimentar a onda de crimes através do consumo de drogas, o que é provavelmente verdade, mas sua mensagem excessivamente política é de cinismo e desespero. As cenas de tortura e violência não são apenas chocantes por causa do seu impacto, mas também porque desumanizam os moradores das favelas a quem são infligidas.

A violência no Brasil é um sintoma de um largo conjunto de problemas sociais, em relação aos quais os brasileiros devem assumir sua responsabilidade. A maioria da classe média brasileira nunca pôs o pé numa favela e fala sobre elas como se fossem outro país. Filmes como “Tropa de Elite” ajudam a mantê-la nessa alienação.

(*) Artigo publicado originalmente no jornal inglês ‘The Guardian’ em 18/02/2008, por ocasião da premiação do filme “Tropa de Elite” no Festival de Berlim. Tradução de João Paulo Gondim Cardoso, colaborador do Fazendo Media. Clique aqui para ler o original.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Filmes: "Conversas Com Meu Jardineiro"

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ENCONTRO DE MUNDOS

Filme francês aborda questões complexas e faz crítica social de modo simples e humano, sem radicalismo, conflitos ou panfletagem.

- por André Lux, crítico-spam

É incrível a capacidade que alguns filmes têm de tocar em temas complexos e profundos sem serem panfletários, melodramáticos ou didáticos. “Conversas Com Meu Jardineiro”, filme francês dirigido por Jean Becker, é um desses raros exemplares.

Construído a partir do relacionamento entre dois personagens oriundos de classes sociais bem distintas, o roteiro aborda de forma sensível e discreta o abismo social que existe entre a burguesia e os operários. O primeiro é representado pela figura de um artista em crise conjugal e criativa (o sempre ótimo Daniel Auteuil) e o segundo por um ex-ferroviário que, aposentado, atua como jardineiro (Jean-Pierre Darroussin, que lembra o ator estadunidense Billy Bob Thornton).

Como uma relação próxima entre pessoas de classes sociais tão distintas seria inverossímil, mesmo num país do dito primeiro mundo, cria-se entre eles um passado em comum. Assim, ambos estudaram juntos na mesma escola quando eram crianças e acabaram expulsos depois de aprontar com um de seus professores. O mais rico prosseguiu os estudos, enquanto o outro largou tudo para pegar no batente. “Escola é o que acontece com a gente enquanto não temos idade para trabalhar”, ironiza o jardineiro.

Para o espectador mais atento aos problemas sociais do mundo, fica evidente o teor crítico das observações feitas pelo jardineiro, especialmente ao modelo neoliberal que, a exemplo do que aconteceu na América Latina, também foi implantado na França com resultados catastróficos para os mais pobres. “Hoje em dia, não existem mais empregos para os jovens”, reclama. Situação que tende a piorar ainda mais depois da eleição do extremista de direita, Nicolay Sarkozy.

Estabelecido o vínculo que permite aos protagonistas interagirem de forma convincente, “Conversas Com Meu Jardineiro” faz jus ao título e mostra uma série de diálogos entre os dois que variam do divertido ao lacônico. Aos poucos, a realidade de cada um começa a interferir na vida do outro.

Como era de se esperar, o convívio com o jardineiro e ex-ferroviário vai causar mais impacto no artista burguês, que vem de uma classe social geralmente alienada e insensível às questões sociais, colocando-o frente a frente com os problemas e injustiças sofridos pelos mais pobres – tais como atendimento médico precário, falta de opção de lazer e limitado conhecimento cultural. Tudo isso vai torná-lo uma pessoa mais sensível, ajudando-o inclusive a recuperar laços familiares e a inspiração perdida.

E é justamente a maneira que esse encontro entre mundos tão distintos é abordada que torna o filme especial. Sem discursos, conflitos nem radicalismos. Tudo muito humano e, em última instância, tocante.

Apenas duas coisas me incomodaram um pouco durante a projeção: a ausência de trilha musical e de canções (exceto por duas peças eruditas, uma delas de Mozart que também encerra os créditos) e o excesso de bate papo entre os protagonistas em algumas cenas que acabam se tornando redundantes. Mas é só. Nada que conte muitos pontos para tornar a experiência menos agradável e rica.

Cotação: * * * *
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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Filmes: "Desejo e Reparação"

NEM MAIS, NEM MENOS

De vez em quando surgem filmes que fazem a gente voltar a ter esperança na sétima arte. 

- por André Lux, crítico-spam

De vez em quando surgem filmes que fazem a gente voltar a ter esperança na sétima arte. “Desejo e Reparação” é um deles, onde todos os elementos que dão vida ao produto cinematográfico são de qualidade excepcional e existem somente para o benefício da história a ser contada e das emoções transmitidas. Nem mais, nem menos.

Uma cena que mostra a chegada dos soldados à desolada praia de Dunkirk, na França, durante a segunda guerra mundial, ilustra bem essa perfeição: são mais de cinco minutos de um plano-seqüência sem cortes, onde uma multidão de pessoas é movimentada com precisão, trazendo resultados arrebatadores.

Baseado no romance de Ian McEwan, o filme tem como tema central um erro irreparável que destrói a vida de quase todos os personagens principais, cometido de maneira consciente, porém ingênua, por uma criança movida por paixões que ainda não tinha maturidade para compreender ou controlar.

Assim, num momento de ciúme vingativo, a menina Brioni, a filha de 13 anos de uma família aristocrata da Inglaterra dos anos 1930, acusa o filho da empregada (o intenso James MacAvoy, revelado na mini-série “Os Filhos de Duna”) de um crime que não cometeu. Justamente no momento em que o amor que ele sentia pela irmã mais velha dela (Keira Knightley) foi revelado – e aceito.

A denuncia contra o preconceito social e a hipocrisia das ditas “elites” também se faz presente, pois a prisão injusta do jovem oriundo das camadas mais baixas acaba sendo uma espécie de “vingança” silenciosa dos aristocratas contra aquele insolente que ousou tentar melhorar de vida, fazendo planos inclusive de estudar medicina, recusando-se a aceitar “seu lugar” e, pecado dos pecados, engraçando-se com uma de suas filhas.

Gostei muito da montagem inventiva (de Paul Tothill), que surpreende ao retornar a cenas já exibidas, mas monstrando-as sob um outro ponto de vista como que para lembrar o espectador que nem tudo é o que parece ser. A bela trilha musical de Dario Marianelli, cujo talento já havia sido comprovado em filmes como “V de Vingança” e “Os Irmãos Grimm”, também é muito eficiente e torna-se marcante ao incorporar musicalmente os sons de uma antiga máquina de datilografar ao tema de Brioni.

É por tudo isso que a tragédia descrita no filme ganha contornos ainda mais tocantes, especialmente durante a conclusão, quando a excepcional Vanessa Readgrave tem uma cena solo capaz de arrancar lágrimas do mais duro espectador. Afinal, quem é que nunca cometeu (ou foi vítima de) um erro irreparável, consciente ou não, que trouxe conseqüências desagradáveis, quando não trágicas, a si mesmo ou a outras pessoas durante a vida?

Não por acaso, durante a exibição veio à mente “O Paciente Inglês”, outro filme excelente que tem temática e clima parecidos – e parece que eu não estava errado, já que o próprio diretor daquele filme, Anthony Minghella, aparece em uma ponta como o entrevistador no final.

Para quem gosta de dramas históricos com uma pitada de comentário social ou simplesmente de cinema feito com amor e requinte, “Desejo e Reparação” é uma ótima opção. Simplesmente imperdível!

Cotação: * * * * *
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quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Filmes: “Batismo de Sangue”

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REGISTRO FRIO E BUROCRÁTICO

Roteiro e direção esquemáticos falham em passar emoções e profundidade, impedindo empatia com a causa dos personagens e banalizando cenas de tortura

- por André Lux, crítico-spam

É uma decepção esse filme baseado no livro homônimo escrito pelo Frei Betto, onde são abordados os horrores cometidos pela ditadura militar no Brasil pelo ponto de vista dos freis dominicanos que fizeram parte da rede de apoio à resistência armada ao regime, comandada pelo "terrorista" Carlos Marighella (reduzido aqui a uma mera caricatura sem qualquer humanidade).

O maior problema é o roteiro e a direção esquemáticos que não sabem definir se o foco narrativo fica em Frei Betto (Daniel de Oliveira, o “Cazuza”) ou no Frei Tito (um esforçado Caio Blat) e deixam o filme truncado, episódico e sem lógica. Assim, não fica clara a motivação dos dominicanos, pelo que eles lutam ou quem eles estão ajudando.

Colocar meia dúzia de frases feitas de “esquerda” na boca dos personagens e fotos do Che Guevara na parede de seus quartos não é suficiente para aprofundar as situações ou gerar empatia pela causa deles. Pelo contrário, fica tudo com aquele gosto de café requentado e pastel de vento que também enfraqueceram “Zuzu Angel”, outro filme que trata do mesmo tema.

Para piorar tudo, o diretor Helvécio Ratton optou por representar as cenas de tortura de forma literal e com riqueza de detalhes. O problema dessa abordagem, que de saída já vai fazer metade da platéia virar o rosto ou desligar o filme, não é tanto pela violência excessiva em si, mas sim pelo fato de que não houve tempo para nos identificarmos com os personagens. Às vezes não dá nem para conseguir diferenciar um do outro, já que os atores são todos parecidos e usam o mesmo tipo de roupas, penteados e óculos.

A caracterização do grotesco delegado-torturador Fleury foi muito criticada, mas a culpa nem é do ator Cássio Gabus Mendes, pois, assim como os outros, seu personagem não tem qualquer profundidade ou nuance. Por tudo isso, as seqüências de torturas acabam sendo banalizadas e causando muito mais repulsa e choque físico do que indignação - que seria o objetivo maior dos realizadores. Do jeito que está, ficou paracendo mais filme de terror, daqueles cheios de "gore" (nojeiras).

Tecnicamente “Batismo de Sangue” é eficiente, com destaque para a fotografia esmaecida e para a trilha musical discreta e adequada. Porém, o filme fica muito a dever e nem mesmo consegue passar qualquer emoção genuína, ficando restrito a um mero registro frio e burocrático de eventos históricos. O que, convenhamos, é muito pouco frente à importância e dramaticidade dos fatos abordados.

Cotação: * * 1/2
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DVD: "Saneamento Básico, O Filme"

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METRAGEM MUITO LONGA

Boa premissa é desperdiçada por roteiro sem rumo e narrativa arrastada, defeito idêntico encontrado nos outros filmes do diretor Jorge Furtado

- por André Lux, crítico-spam

O diretor Jorge Furtado ficou famoso fazendo curtas-metragens que traziam uma linguagem ágil e moderna ao formato. Infelizmente, esse talento para contar histórias rápidas parece que atua contra ele em seus longas. Tanto “O Homem que Copiava”, “Meu Tio Matou Um Cara”, quanto “Saneamento Básico” padecem do mesmo problema. Todos têm premissas interessantes que até funcionam bem no começo do filme, mas vão logo perdendo o fôlego à medida que a projeção avança.

“Saneamento Básico” mostra um grupo de cidadãos do interior gaúcho tentando convencer a prefeitura a construir uma fossa para acabar com o mau cheiro do riacho. Mas não há verba. Só que descobrem um dinheiro enviado pelo governo Federal para a realização de um curta-metragem que nunca foi utilizado. Eles têm então a idéia de pegar essa grana e usar na obra, enquanto fazem o filme de qualquer jeito.

A idéia é muito boa e funciona nos primeiros 20 minutos, com um bom número de cenas engraçadas e situações inusitadas que surgem com a incapacidade dos protagonistas de dominar a linguagem cinematográfica. Infelizmente, o roteiro não sabe que caminho tomar e logo a narrativa fica se arrastando, como que para preencher o tempo de projeção. Ou seja, Furtado acaba usando o mesmo recurso “picareta” que os próprios personagens do filme, que tentam a todo custo completar os 10 minutos de projeção necessários para que seu vídeo seja aprovado!

Personagens mal delineados que mudam de personalidade, sotaque e comportamento a cada cena e situações mal amarradas que nada acrescentam à narrativa ajudam a deixar o filme ainda mais chocho e sem graça. A suposta crítica social contida no projeto também se perde no meio de tanta enrolação.

O diretor nem mesmo consegue aproveitar todas as oportunidades cômicas geradas pela produção do filme-trash “O Monstro da Fossa”, caindo sempre para a caricatura e o exagero, o que é sempre um mau sinal em se tratando de comédias leves como essa.

Enfim, “Saneamento Básico” traz mais uma idéia que certamente daria um ótimo curta-metragem, mas que não foi suficientemente desenvolvida para agüentar a longa metragem imposta pelos realizadores. Uma pena.

Cotação: * *
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quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Filmes: "O FILHA DA NOIVA"

RETRATO DA AUTO-DESTRUIÇÃO

Excelente filme argentino mistura drama, comédia e psicologia para analisar as relações patológicas entre mãe e filho

- por André Lux, crítico-spam

"O Filho da Noiva" é um filme argentino que fez boa campanha nas bilheterias dos cinemas mesmo sem contar com grandes campanhas de marketing. E a explicação é simples: trata-se de uma comédia dramática extremamente humana e próxima de todos nós.

Mas o que torna esta fita, dirigida com grande sensibilidade por Juan José Campanella, tão interessante é o fato de que os dramas e conflitos vividos pelos personagens têm muito mais profundidade e riqueza do que normalmente acontece, trazendo inclusive interessantes abordagens psicológicas.

O roteiro é muito bem amarrado e gira em torno de Rafael Belvedere (o simpático Ricardo Darin), um quarentão fechado e arredio, que herdou o restaurante italiano do pai quando desistiu de seguir carreira como advogado - profissão que "escolheu" por pressão principalmente da mãe, que passou a rejeitá-lo depois que resolveu seguir outros caminhos.

Essa situação mal resolvida entre mãe e filho dá o tom ao filme e é acentuado pelo fato dela estar agora internada em um asilo, já que sofre de Mal de Alzheimer. Pressentindo o final da vida de ambos, seu pai (o excelente ator Hector Alterio) resolve realizar o único sonho da esposa que ele não satisfez: casar na igreja. E para isso pede ajuda ao filho.

Mas Rafael é um adulto imaturo e travado emocionalmente, que vive preso à necessidade patológica de provar seu valor à mãe (a venerável Norma Aleandro) - fato que o impede de ser feliz e o empurra cada vez mais para a auto-destruição. A uma certa altura da narrativa, ele é acometido por um enfarte que quase o leva à morte. É a partir dessa parada forçada no rítimo alucinante de seu dia-a-dia que ele passa a perceber o quanto sua vida é vazia e destituída de relações verdadeiras.

Separado de uma mulher que o despreza com quem teve uma filha que negligencia, às voltas com uma namorada que ele resiste em assumir (Natalia Verbeke) e infeliz no trabalho, Rafael vê-se de repente numa encruzilhada emocional. Uma das saidas que ele considera é "mandar tudo à merda" e viver seu sonho infantil de mudar para o México e criar cavalos! A outra seria buscar o auto-conhecimento, amadurecer e tomar as rédias de sua própria vida.

Felizmente, ele acaba escolhendo pela segunda (logicamente a mais difícil, porém, a mais gratificante a quem tem coragem de pagar o preço), mesmo que meio a contra-gosto a princípio. É tocante a cena na qual Rafael tenta conversar com sua mãe à sós e acaba por perceber finalmente que aquela mulher que tanto o dominou (muito mais em sua própria mente do que na realidade) é apenas um ser humano cheio de fraquezas, dúvidas e problemas como qualquer outro.

Ou seja: ela não tem nada de ameaçadora como a sua criança interior, por meio da qual ele ainda vê o mundo, acreditou a vida toda. É a partir dessa "revelação" (ou insight, como chamam os psicólogos) que o protagonista passa a amadurecer e a assumir plenamente suas responsabilidades, buscando aquilo que realmente quer ou, ao menos, o que é melhor para ele naquele momento.

Mas não pense que todo esse conteúdo complexo deixa o filme chato e arrastado, pois os realizadores sabem dosar com grande precisão os momentos mais dramáticos com outros genuinamente cômicos, repletos de diálogos afiados e atuações precisas de todo o elenco. De quebra, ainda dão uma alfinetada sempre pertinente na religião católica (o diálogo entre Rafael e o padre que recusa-se a casar seus país é hilariante!).

Em um mundo repleto de filmes pré-fabricados ou que transbordam de pretensões pseudo-profundas sem sentido é com grande alegria que recomenda-se uma fita como "O Filho da Noiva", daquelas para se ver com a mente e o coração abertos.

Procure em sua locadora favorita ou compre o DVD, pois vale muito a pena ver e rever este excelente filme argentino que chegou a ser indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e ganhou os prêmios de Melhor Filme e Melhor Atriz, para Norma Aleandro, no Festival de Gramado 2002.

Cotação: ****
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segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Filmes: "A Batalha de Riddick"

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"NA DÚVIDA, ENTORTEM A CÂMERA!"

Filme falha em passar qualquer tipo de emoção, mas é visualmente bonito e ao menos faz rir nas horas erradas
Por André Lux, crítico-spam

Se você achou "Eclipse Mortal" um bom filme de ficção científica, daqueles que conseguem disfarçar as limitações no orçamento com soluções criativas e personagens críveis, então nem perca seu tempo assistindo "A Batalha de Riddick", pois essa espécie de continuação é uma bobagem sem pé nem cabeça que não tem a menor relação com o conceito do original.

Parece que o diretor David Twohy (também autor do roteiro) e o quase-astro Vin Diesel realmente acreditaram que o relativo sucesso do filme anterior deveu-se à presença do personagem Riddick, que era interessante mas não passava de um assassino frio que acabava liderando a contra gosto um grupo de sobreviventes na luta contra uma horda de monstros alienígenas.

Aqui, Riddick vira uma espécie de "escolhido" (mais um...) já que é o único sobrevivente de uma raça antiga que pode fazer frente aos malvados Necromongers, espécie de nazistas-espaciais que querem dominar todas as raças do universo e entrar para um negócio esquisito chamado "subverso" (que ninguém se importa em explicar o que é). Confuso? Então espere, porque o filme fica ainda mais sem sentido e muda completamente de tom quando o protagonista vai parar num planeta-prisão para tentar resgatar um dos personagens que sobraram de "Eclipse Mortal".

Só para você ter uma idéia da besteira que os autores do roteiro criaram, neste tal planeta-prisão (chamado Crematória) a luz do dia produz temperaturas superiores a 400° C. Em uma certa altura todos saem correndo pela superfície enquanto um mar de fogo os persegue e conseguem se salvar escondendo-se... nas sombras de uma caverna!

Pior é que "A Batalha de Riddick" se leva realmente a sério e é daqueles filmes repletos de clichés do gênero, frases de efeito constrangedoras e cenas posadas. Na dúvida, o diretor entorta a câmera como se isso fosse suficiente para passar algum tipo de clima ou emoção. A montagem também é muito ruim, toda picotada e com cortes que não duram nem um segundo deixando tudo confuso e obscuro, especialmente nas cenas de luta.

O vilão e seu capacete. É pra rir?
Do elenco também não sobra nada. Diesel limita-se a falar guturalmente, grunhir e olhar de lado para a cãmera fazendo pose de "cool". O vilão mor (cujo nome é de provocar gargalhadas: Lorde Supremo) é feito por Colm Feore um daqueles atores neutros que a gente vê em centenas de filmes no papel de contador ou de ajudante do advogado. Suas tentativas de parecer mau são de dar pena (o que dizer então do ridículo capacete que usa no começo do filme?). Há também uma certa Thandie Newton, que é a amante do comandante feito por Karl Urban (o Eomér, de "O Senhor dos Anéis: As Duas Torres"), cuja atuação é pavorosa.

É inacreditável que tenham gasto mais de 100 milhões de dólares neste filme visualmente bonito, mas que não tem o menor sentido e, portanto, falha em passar qualquer tipo de emoção - exceto tédio e provocar risos nas horas erradas. Não é a toa que está fracassando no mundo todo. E não era para ser diferente.

"A Batalha de Riddick" é mais uma prova de que certos realizadores deveriam ser proibidos de trabalhar com orçamentos muito generosos, já que se saem muito melhor em produções classe B onde são obrigados a usarem a criatividade ao invés de apelarem para um monte de feitos especiais e pirotecnia sem controle.

Cotaçâo: *

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Filmes: "LEÕES E CORDEIROS"

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ROMA ESTÁ EM CHAMAS

Cineasta quer que jovens se engajem politicamente ao invés de se renderem à ladainha da mídia que tem o objetivo de deixá-los alienados a serviço das elites.

- por André Lux, crítico-spam

“Robert Redford (que também dirigiu), Tom Cruise e Meryl Streep poderiam apenas ter aparecido na tela por alguns minutos com cartazes dizendo, 'A Guerra é Ruim' e pronto. Salvaria todo mundo do preço do ingresso.” É com essa afirmação que um tal de Bill Goodykoontz inicia sua análise do filme “Leões e Cordeiros” no The Arizona Republic e demonstra bem o estado lastimável em que a crítica profissional se encontra atualmente.

O filme de Roberto Redford pode receber várias ressalvas, mas tentar reduzir sua mensagem a um mero panfleto contra a guerra chega a ser ofensivo. “Leões e Cordeiros” é cinema engajado explícito. O cineasta entende que é preciso despertar a juventude estadunidense para a situação lamentável em que se encontra seu país, atualmente governado por um bando de demagogos fundamentalistas que se enfiam de cabeça em qualquer aventura bélica que gere lucros para quem os financia e arrastam a opinião pública junto via mentiras e distorções publicadas na imprensa serviçal. Para isso, Redford constrói um roteiro que divide a ação em três tempos narrativos que não se cruzam, mas se relacionam tematicamente.

Em um deles, experiente jornalista da imprensa corporativa interpretada por Meryl Streep é convidada a visitar um jovem senador republicano (Cruise) conservador e moralista - desses que, entre discursos homofóbicos e intolerantes, são presos fazendo sexo com outros homens em banheiros públicos. O político deseja passar a ela, em primeira mão, informações vagas sobre a nova tática de guerra implantada pelo exército do tio Sam "para vencer o mal" no Afeganistão sob ordens diretas dele. A jornalista, que vê semelhanças trágicas com a guerra do Vietnam e fareja tratar-se apenas de outra jogada de marketing para tirar o foco do fracasso no Iraque, tenta em vão extrair mais informações do senador.

São exemplares os discursos hipócritas e falso-moralistas e as ameaças veladas que o senador republicano usa para tentar convencer a jornalista a divulgar sua notícia mentirosa, só para ajudá-lo a preparar terreno para uma possível disputa pela presidência da república. Nesse ponto o filme é preciso ao mostrar como, atualmente, os jornalistas da imprensa corporativa se deixam usar por políticos cujos interesses coincidem com os dos donos da mídia que pagam seus salários.

No outro segmento, acompanhamos o início da inútil operação militar no Afeganistão, onde recebem destaque dois soldados – um negro e outro latino – que são jogados para fora do helicóptero depois de um ataque surpresa em pleno ar e passam o resto da narração lutando para sobreviver à medida que os soldados afegãos se aproximam. Tudo isso é acompanhado, via satélite, pelos oficiais que comandam a operação e são incapazes de engendrar um resgate adequado.

O terceiro foco narrativo mostra uma reunião entre professor universitário e um de seus alunos, cujo potencial para o debate político ele tenta despertar novamente depois que o jovem perde o interesse pelo tema. É aí que “Leões e Cordeiros” mostra a que veio, ficando a cargo do próprio Redford, no papel do professor, listar os objetivos de sua obra. “Roma está em chamas”, afirma ele ao abestalhado aluno, “e o que vocês estão fazendo para mudar isso? Nada, exceto desviar do fogo enquanto isso ainda é possível”.

A mensagem é óbvia. Redford quer que os jovens de seu país se engajem politicamente, ao invés de se renderem à ladainha anti-política propagada pela mídia corporativa que tem justamente o objetivo de deixar as futuras gerações alienadas e alijadas do processo, o que vem bem a calhar para os interesses de conservadores e reacionários em geral a serviço das elites oligárquicas.

A construção narrativa de “Leões e Cordeiros” tem o propósito de deixar o espectador angustiado, irritado até. Ao intercalar as duas letárgicas conversas de gabinete com as cenas de guerra, Redford cria uma sensação de tensão que vai aumentando na medida em que piora a situação dos soldados - dois de seus ex-alunos que optaram, para desgosto do professor, em se alistar no exército para ingenuamente tentar fazer alguma diferença. Não por acaso, os protagonistas olham constantemente para seus relógios e a alegoria é novamente clara: “enquanto jogamos conversa fora, a vida de pessoas está em perigo”.

Não sei se o objetivo de Redford será atingido, pois atualmente os jovens estão cada vez menos propensos (se é que um dia estiveram) a prestar atenção em filmes que não contenham toneladas de efeitos visuais, correria desenfreada e pirotecnia visual. E nesse ponto bem que o diretor poderia também ter dado uma enxugada nos bate-papos (especialmente entre professor e aluno), deixando-os mais dinâmicos e vibrantes. Mas, falhas e ingenuidades à parte, ao menos a intenção é boa e os objetivos do diretor são expostos de forma clara e honesta. Coisa rara na indústria cultural estadunidense.

Cotação: * * *
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JERRY GOLDSMITH VIVE! CD duplo traz a trilha musical completa de "ALIEN"

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Uma das trilhas musicais mais impressionantes composta para o filme mais aterrorizante da história do cinema finalmente recebe o tratamento que merece! O selo Intrada Records, especializado em música de cinema, acaba de lançar um CD duplo com a trilha sonora completa de "Alien", composta pelo mestre Jerry Goldsmith.

O pacote majestoso inclui nada menos do que:
1) A trilha completa original conforme idealizada por Goldsmith para o filme;
2) As faixas alternativas;
3) As faixas do album original lançando em 1978, remasterizadas;
4) Faixas bônus adicionais.

Essa confusão toda entre a trilha original conforme idealizada por Goldsmith e as faixas alternativas se dá pelo fato do diretor Ridley Scott e o compositor não terem se dado bem durante a pós-produção. Goldsmith reclama que Scott nunca lhe deu o feedback necessário para compor a música e que ele se baseou quase que unicamente na sua própria reação ao filme. Talvez seja por isso que Goldsmith criou músicas de gelar o sangue, utilizando instrumentos musicais nada ortodoxos para produzir sons extremos, às vezes até radicais demais! Talvez por causa disso, o diretor e seu montador acabaram realizando um extenso trabalho de reedição da trilha no filme, trocando músicas de uma cena para outra, excluindo totalmente algumas e substituindo-as por faixas da trilha de Goldsmith para "Freud" - fatores que obviamente enfureceram o compositor.

Mesmo assim, Goldsmith ainda aceitou trabalhar com Scott em "A Lenda" e, novamente, teve seu trabalho desrespeitado pelo diretor que, cedendo à pressão dos executivos da Universal, deixou que a maravilhosa música original de Goldsmith fosse literalmente jogada no lixo sendo trocada por uma fraquíssima do grupo de rock progressivo alemão Tangerine Dream (mais "comercial", na visão dos engravatados).

Confira abaixo a relação das faixas do CD duplo de "Alien" e vá até a página da Intrada Records para ouvir alguns samples da trilha:

DISC 1
The Complete Original Score
01. Main Title 4:12
02. Hyper Sleep 2:46
03. The Landing 4:31
04. The Terrain 2:21
05. The Craft 1:00
06. The Passage 1:49
07. The Skeleton 2:31
08. A New Face 2:34
09. Hanging On 3:39
10. The Lab 1:05
11. Drop Out 0:57
12. Nothing To Say 1:51
13. Cat Nip 1:01
14. Here Kitty 2:08
15. The Shaft 4:30
16. It's A Droid 3:28
17. Parker's Death 1:52
18. The Eggs 2:23
19. Sleepy Alien 1:04
20. To Sleep 1:56
21. The Cupboard 3:05
22. Out The Door 3:13
23. End Title 3:09
Total Time 57:06

The Rescored Alternate Cues
24. Main Title 4:11
25. Hyper Sleep 2:46
26. The Terrain 0:58
27. The Skeleton 2:30
28. Hanging On 3:08
29. The Cupboard 3:13
30. Out The Door 3:02
Total Time 19:48
Total Disc Time 76:54

DISC 2
The Original 1979 Soundtrack Album
01. Main Title 3:37
02. The Face Hugger 2:36
03. Breakaway 3:03
04. Acid Test 4:40
05. The Landing 4:31
06. The Droid 4:44
07. The Recovery 2:50
08. The Alien Planet 2:31
09. The Shaft 4:01
10. End Title 3:08
Total Time 35:44

Bonus Tracks
11. Main Title (film version) 3:44
12. The Skeleton (alternate take) 2:35
13. The Passage (demonstration excerpt) 1:54
14. Hanging On (demonstration excerpt) 1:08
15. Parker's Death (demonstration excerpt) 1:08
16. It's A Droid (unused inserts) 1:27
17. Eine Kleine Nachtmusik (source) 1:49
Total Time 13:45
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segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Ainda sobre "Tropa de Elite": É um mal sinal quando o autor precisa explicar a obra...

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Tenho lido dezenas de entrevistas com os autores e atores do filme "Tropa de Elite". Todos fazem questão de explicar que não tiveram a intenção de fazer um filme fascista. Que queriam apenas "mostrar uma realidade", colocar o dedo na ferida, etc. Ninguém duvida disso. Pelo contrário.

A questão é: será que conseguiram atingir seus objetivos?

Na minha opinião humilde, como vocês já leram abaixo, eles não conseguiram.

Quando um autor precisa ficar o tempo todo "explicando" ou "justificando" sua obra é sinal de que ele falhou em suas intenções. Ou alguém aí já viu o Kubrick, o Coppola, o Kurosawa ou a turma do Monty Python explicando as intenções de seus filmes?

Eu nunca vi. Mas eu vi o Paul Verhoeven dando mil entrevistas na época do lançamento tentando explicar que "Tropas Estelares" também não era a favor do nazismo, que era uma sátira, uma crítica, etc...

Agora, é claro que o filme "Tropa de Elite" provoca polêmica e leva ao debate de idéias, o que é sempre saudável - mesmo que seja pelos motivos errados.

Como eu tentei apontar em minha análise, o problema é que a estrutura narrativa que o diretor montou para o filme contradiz a proposta que ele defende, principalmente pela escolha da narração em off vinda do capitão Nascimento e pelos estereótipos torpes que usou para caracterizar a maioria dos personagens. Isso deixou "Tropa de Elite" com cara de filme policial estadunidense e meio que anulou a crítica social pretendida pelos autores, chegando ao cúmulo de justificar a chacina provocada pelos policiais no final.

Não sei o que vocês pensam disso, mas eu ia ter vontade de me suicidar ao ver meu filme supostamente anti-fascista, crítico e socialmente engajado receber aplausos de porta-vozes da ultra-direita tupiniquim, como a revista VEJA e afins...

Como diz o ditador popular, "o inferno está cheio de gente bem-intencionada".
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sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Filmes: "TROPAS ESTELARES"


TIRO PELA CULATRA

Mão pesada, roteiro ridículo e elenco desastroso transformam suposta sátira em propaganda do nazi-fascismo.

- por André Lux, jornalista e crítico-spam

O holandês Paul Verhoeven é um cineasta polêmico. Chamou a atenção do mundo realizando filmes de arte em sua terra natal e entrou em Hollywood pelas portas dos fundos, dirigindo "Conquista Sangrenta" (Flesh + Blood), um dos mais perturbadores e indigestos filmes passados na Idade Média.

Logo depois, emplacou um blockbuster chamado "Robocop", que teria sido apenas mais um banal filme de ficção se não fosse pelo alto grau de acidez imputado por Verhoeven à trama. Ao mesmo tempo que atingia o espectador ávido por perseguições, explosões e sangue (que jorra em abundância), "Robocop" também tinha algo mais a dizer, principalmente na crítica feroz ao consumismo desenfreado (até a polícia é privatizada nesse mundo neoliberal do futuro) e à industrialização da violência e do sexo na sociedade estadunidense.

Em "Tropas Estelares", baseado no livro de Robert A. Heinlein, Verhoeven tentou ser ainda mais satírico, traçando uma crítica mordaz entre a futura sociedade nazi-fascista do filme com a própria sociedade estadunidense e seu amor por armas de fogo e guerra - detalhe que, diga-se de passagem, passou totalmente despercebido nos EUA.

Entretanto, ao contrário de "Robocop", Verhoeven falhou feio dessa vez e o tiro saiu pela culatra. Dirigiu tudo com mão pesada, exagerou nos efeios especiais e na violência e deixou a impressão de justamente louvar o fascismo pregado pelos protagonistas. A culpa também é do elenco desastroso que leva a sério os personagens propositalmente caricatos e superficiais. São constrangedoras as atuações de Casper Van Dien (hoje astro de filmes policiais televisivos classe Z) e de Denise Richards que deixam o filme com um ar de "Barrados no Baile nas Estrelas". O diretor tentou se explicar dizendo que foi obrigado a contratar atores do segundo escalão devido à falta de dinheiro, que acabou sendo todo usado nos efeitos especiais...

Mas "Tropas Estelares" tem ainda uma dos roteiros mais ridículos e absurdos já filmados, que não respeita qualquer lógica ou sanidade. Se não acredita, então veja: logo no início somos informados que a raça humana está em guerra com insetos alienígenas que habitam um planeta do outro lado da galáxia. Ninguém explica o porque da peleja, muito menos como diabos as duas raças cruzaram-se. Entretanto, os insetos raivosos jogam (?) um meteoro em direção ao nosso planeta que acaba caindo em Buenos Aires (com certeza o cara que vigiava o radar dormiu nessa hora).

O estado nazi-fascista que domina a Terra, no qual quem não faz parte do exército é considerado cidadão de segunda classe, declara guerra total aos insetos e manda os soldados para destruí-los no mano a mano, com direito inclusive a granadas atômicas, das quais eles se protegem depois de jogar nos monstros escondendo-se atrás de árvores e pedras (é sério, gente, não estou inventando!). Começa então uma interminável e enfadonha série de cenas de ação regadas a muita pirotecnia, efeitos especiais de última geração e corpos mutilados em detalhes grotescos.

É claro que tudo isso deveria ser usado a favor da sátira, mas infelizmente não dá para rir da propaganda pró-fascista que "Tropas Estelares" acaba fazendo. Sabemos que a intenção de Verhoeven não era essa, mas quem assistiu ao filme no cinema vai lembrar de ouvir os urros de apoio da platéia toda vez que um personagem citava alguma filosofia nazista ou quando os corpos mutilados começaram a pipocar.

"Tropas Estelares" é um filme asqueroso em todos os sentidos. Prova que até a melhor das intenções pode gerar resultados completamente nocivos!

Cotação: *
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quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Filmes: "TROPA DE ELITE"

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RAMBO DOS POBRES

Filme endossa, ao que parece involuntariamente, a solução final que muitos representantes da “elite” anseiam ver aplicada no Brasil: um saco na cabeça e um tiro na cara para cada Rolex roubado.

- por André Lux, jornalista e crítico-spam


Nunca tinha visto um filme brasileiro capaz de gerar tantas opiniões e análises divergentes, inclusive entre quem se define “de esquerda”. 

Alguns acusam o filme de ser fascista, enquanto outros aplaudem as soluções bárbaras para o tráfico de drogas mostradas na tela.

A verdade é que as reações exacerbadas que “Tropa de Elite” vem provocando comprovam o quanto o Estado e as instituições democráticas do Brasil são frágeis e débeis. Basta alguém apontar uma câmera para lugares que ninguém quer ver e pronto: voam penas para todos os lados!

Isso ao menos é um ponto positivo, pois qualquer polêmica e debate sobre as questões abordadas no filme são sempre bem vindos, ainda mais num país onde a maioria gosta de tapar o sol com peneira ou propor soluções simplistas e violentas para tudo.

Sobre o filme em si só posso dizer uma coisa: trata-se, sim, de uma obra fascista no sentido que justifica a violência, a tortura e o desrespeito às leis por parte dos policiais do BOPE (a tal Tropa de Elite). 

Não posso afirmar que essa tenha sido a intenção do diretor José Padilha (do excelente documentário “Ônibus 174”), mas o fato é que ele cometeu erros primários na condução da narrativa e acabou transformando o famigerado capitão Nascimento numa espécie de Rambo dos pobres.

E não adianta tentar justificar que o personagem do policial é “profundo” por ser problemático ou sofrer de síndrome do pânico, pois, vale lembrar, o Rambo do Stallone também era um desajustado que tinha traumas psicológicos provocados pela guerra do Vietnã e dizia com orgulho que confiava apenas no seu facão.

Mas isso não o impedia de metralhar heroicamente os vilões malvados com frieza e requintes de crueldade em nome do imperialismo estadunidense para deleite da platéia, da mesma forma que faz o capitão Nascimento (o esforçado Wagner Moura) em nome de algo que nem chega a ficar claro no filme.

O erro básico do cineasta foi inserir uma narração em off feita pelo protagonista, que além de não acrescentar nada à trama e tratar de fatos que ele não teria como saber, tem um tom debochado e cínico que destoa completamente do suposto estado mental psicótico que o filme tenta imprimir no personagem. Por causa desse recurso infeliz o capitão Nascimento acaba por virar o “herói” incompreendido de um filme que, supostamente, queria ser ultra-realista e atirar para todos os lados da mesma forma como fez Fernando Meireles no irretocável “Cidade de Deus”.

Esse erro fica ainda mais gritante na terceira parte do roteiro, que mostra os policiais do BOPE agindo acima de qualquer lei ou comando ao partir para a vingança pessoal contra os traficantes que mataram um dos seus, lançando mão de recursos inadmissíveis com a tortura e o fuzilamento sumário. Ninguém discorda que isso ocorra no mundo real, o problema é que ações de “vale tudo” como essa provocam, na maioria das vezes, o espancamento e a morte de muitos inocentes. Mas no filme todos os personagens torturados ou mortos são bandidos confessos. Urra! Nem o Jack Bauer, torturador oficial da série "24 Horas", faria melhor!

E, convenhamos, apresentar o vilão maior do filme, lamentavelmente batizado de Baiano, usando camisa com a estampa do Che Guevara não conta pontos a favor de Padilha. Pergunto: para que serve matizar o policial torturador se não fizerem o mesmo com os traficantes, pintados sempre como sádicos conscientes da própria maldade, um dos clichês mais torpes do cinema?

Comparem, por exemplo, a diferença brutal de caracterização do Zé Pequeno de “Cidade de Deus”, que mesmo sendo ainda mais sádico que Baiano nunca é menos que humano no filme de Meireles. E, por isso mesmo, realmente assustador como retrato perfeito da realidade onde foi criado.

E, por favor, que conversa mole é aquela de que os policiais do BOPE são todos varões da moral e incorruptíveis, se fica claro no filme que eles sabem muito bem quais são os PMs corruptos? Já que sabem - e seguindo a lógica do capitão Nascimento que afirma não ver diferença entre os traficantes e aqueles que os ajudam - por que então não os prendem ou fuzilam como fazem com os favelados? Medo, omissão, corporativismo, ordens superiores? Qualquer que seja a resposta, estão sendo no mínimo coniventes com a corrupção e bandidagem dos colegas! E o filme não chega nem perto de tocar nesse nervo que, ao meu ver, é um dos mais importantes e trágicos da atualidade.

Outro ponto negativo é a maneira como Matias (André Ramiro), o policial negro, é desenvolvido. Começa bem ao ser apresentado como um homem íntegro e com consciência social, que busca obter um diploma de Direito e seguir carreira na polícia fazendo a coisa certa. Saem da boca dele as melhores linhas do filme, principalmente quando ataca a hipocrisia do discursinho moralista que representantes da classe média alta proferem em relação às drogas e à polícia. “Vocês só sabem repetir as besteiras que aprendem lendo jornalzinho, revistinha e vendo televisão”, provoca.

Abro um parêntese aqui para dizer que, infelizmente, os estudantes de classe média que interagem com Matias são extremamente caricatos e ajudam ainda mais a enfraquecer as poucas boas teses que “Tropa de Elite” defende. E o que são aquelas mocinhas lindas, arrumadinhas e bem intencionadas andando de um lado para o outro da favela, cercada por pessoas que elas sabiam serem traficantes da pesada, em nome de uma ONG dirigida por um político visivelmente picareta? Pior que isso só mesmo aquela jornalista maravilhosa e imparcialíssima perambulando pela África de shortinho no ridículo “Diamante de Sangue”!

Voltando ao Matias. O problema é que, de repente, o personagem sai do rumo e passa a agir como um clone do Darth Vader, sem qualquer resquício de humanidade, depois que seu amigo é assassinado pelos traficantes.

É sabido que, originalmente, seria ele o narrador da história, decisão que erroneamente o diretor Padilha alterou já na fase final da montagem. Dá para imaginar que, mantida a voz interior de Matias, ao menos a transformação da personalidade dele teria mais nuances e serviria também como contraponto racional à selvageria chauvinista do capitão.

Com todos esses erros e omissões cometidos pelos idealizadores, não é à toa que “Tropa de Elite” recebe aplausos de publicações ultra-fascistas como a revista Veja e o sádico capitão Nascimento vem sendo ovacionado como herói nacional, chegando ao cúmulo de ser conclamado para salvar de assaltos celebridades que ficaram ricas explorando a estupidez e a miséria humana na mídia.

Afinal, a obra do diretor Padilha endossa, ao que parece involuntariamente, a solução final que muitos representantes da “elite” tanto anseiam ver aplicada no Brasil: um saco na cabeça e um tiro na cara para cada Rolex roubado... Lamentável.

Cotação: **
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quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Filmes: "BRAZIL, O FILME"

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FUTURO DO PRETÉRITO

Alegoria ácida sobre a perda da humanidade numa sociedade totalitária e consumista, mistura "1984" e "O Processo" com toques do Monty Python. 

- Por André Lux, jornalista e crítico-spam

Lá pelo final de 1985, os executivos da Universal Pictures, preocupados com o possível fracasso de um filme que produziram e estavam para distribuir nos EUA, marcaram uma reunião urgente com o seu realizador durante a qual pediram pouca coisa: que ele reduzisse a metragem, trocasse a trilha sonora orquestral por outra com canções pop e, especialmente, mudasse a conclusão amarga para um típico happy end hollywoodiano, do tipo "o amor vence tudo". 

Essas mudanças iriam, na opinião deles, tornar o filme muito mais comercial, garantindo seu sucesso. O cineasta explicou então, na sua característica maneira pouco ponderada, que o filme deveria ficar do jeito que havia sido idealizado, caso contrário ele iria botar fogo nos negativos!

A cena narrada acima pode parecer o delírio de algum comediante, mas ela aconteceu de verdade - infelizmente. O filme em questão chama-se "Brazil", e o diretor, Terry Gilliam. 

Insatisfeitos com o resultado final do terceiro longa-metragem do ex-integrante do grupo Monty Python, o qual consideraram pesado e amargo demais para os padrões aceitos pelo público dos EUA, os executivos da Universal decidiram que "Brazil" deveria ser reeditado e transformado em um filme mais "aventuresco" e "leve". 

Dos originais 142 minutos de projeção, que foram lançados pela Fox sem problemas na Europa e em outras partes do mundo (como o Brasil), Gilliam concordou em reduzir o filme em cerca de 20 minutos. Mas não foi o suficiente.

A Universal era liderada na época pelo infame Sid Sheinberg que, entre outros absurdos, foi o responsável direto pela destruição de "A Lenda", de Ridley Scott (que deixou o estúdio retalhar e mudar a trilha musical de seu filme) e pela aprovação do lamentável "Howard, O Pato", de George Lucas. Sheinberg, a exemplo do que acontece ao protagonista do próprio filme de Gilliam, tornou-se o "torturador particular" do cineasta, cercando-o de todas as formas possíveis (inclusive legais) para poder retirar o projeto das mãos dele a fim de torná-lo "mais comercial".

Versões e (in)Versões
Essa feroz batalha entre o artista e os engravatados da Universal (em mais uma reedição do clássico embate entre David e Golias) é uma das mais famosas e ilustrativas acerca de como funciona o sistema de produção em série da indústria cultural estadunidense. 

E ela está descrita, com riqueza de detalhes, ilustrações e depoimentos de todos os envolvidos, no excelente livro "The Battle of Brazil", de Jack Mathews, jornalista de Los Angeles que cobria a produção do filme na época. Mathews transformou seu livro em um documentário de uma hora de duração, que pode ser assistido no box de "Brazil", lançado pela The Criterion Collection na região 1, que traz nada menos do que três discos.

No primeiro disco, temos a versão de Terry Gilliam para o filme, com seus gloriosos 142 minutos de projeção, remasterizado digitalmente no formato widescreen 1.85:1, trazendo ainda uma faixa de áudio com comentários do diretor. No segundo, chamado de "The Production Notebook", encontramos vários making of, entrevistas com os roteiristas Tom Stoppard e Charles McKeown, com o compositor Michael Kamen (que utiliza na trilha de forma magistral trechos de "Aquarela do Brasil", de Ary Barroso), storyboards, cenas raras da produção dos efeitos especiais, além é claro do excepcional documentário "The Battle of Brazil".

O material mais curioso, todavia, está contido no terceiro disco: nada mais do que a infame versão "Love Conquers All" ('O Amor Vence Tudo) de "Brazil", montada à revelia do diretor, trazendo meros 94 minutos de projeção e um ridículo happy end, que simplesmente detonam a obra em questão deixando-a totalmente sem sentido. 

Pior que essa grotesca (in)versão foi exibida nas televisões dos EUA, por anos a fio. Existe ainda um canal de áudio onde David Morgan, expert em Terry Gilliam, faz uma análise extremamente crítica de todas as alterações feitas.

Orwell encontra Kafka no circo do Monty Python
Quanto ao filme, trata-se de uma alegoria extremamente ácida e anárquica sobre a perda da humanidade frente a uma sociedade totalitária e cada vez mais repleta de burocracia e obcecada pelo consumismo. Trata-se de uma mistura de "1984", de George Orwell, com ''O Processo'', de Kafka, com toques do humor bizarro e non-sense próprios do sexteto inglês do qual Gilliam fazia parte, o Monty Python.

Além disso, o filme é premonitório do futuro catastrófico imposto ao mundo caso a doutrina neoliberal, que na época ainda estava em processo de implantação, fosse levada às últimas conseqüências. 

Reparem como o Estado retratado no filme é o sonho de qualquer defensor do neoliberalismo: enxuto, isento de qualquer responsabilidade social e praticamente restrito ao aparato policial de vigilância e repressão constante às classes mais baixas, mantido graças a um clima de medo e paranóia constante propagado pela mídia e por supostos ataques de "terroristas".

O protagonista dessa epopéia, interpretado brilhantemente por Jonathan Price, é Sam Lowry, um funcionário público apático e conformista, que passa acidentalmente a lutar contra o sistema depois que descobre que a mulher de seus sonhos existe e está marcada para morrer. 

É a típica trama do anti-herói forçado a agir, mesmo contra sua vontade, para conquistar seus desejos. Na sua aventura, ele conta ainda com a ajuda do engenheiro-de-calefação-autônomo e dublê-de-terrorista, Harry Tuttle (na pele de um Robert De Niro praticamente irreconhecível).

Só que catarse e redenção são palavras que não fazem parte do dicionário de Terry Gilliam, como Lowry vai descobrir dolorosamente no final. E a melhor explicação para essa filosofia de vida vem do próprio diretor: "Nós não damos respostas, apenas apontamos para o óbvio que ninguém quer ver, de um modo engraçado. E quando as pessoas pegam-se rindo daquilo, esperamos que elas pensem: 'Ei, eu não deveria estar rindo, isso é horrível!'".

Sobre o motivo do filme se chamar "Brazil", Gilliam explica: "Port Talbot é uma cidade de ferro, onde tudo é coberto por um pó cinza de metal. Até a praia é completamente coberta de pó preto. O sol estava se pondo e era realmente bonito. O contraste era extraordinário. Eu tinha essa imagem de um cara sentado nessa praia moribunda com um rádio portátil, sintonizando estranhas canções escapistas latinas como [Aquarela do] Brasil. A música o transportou de alguma forma e fez o seu mundo menos cinza".

Quanto ao desfecho da "Batalha por Brazil", o vencedor foi, em última instância, o nosso "David" da sétima arte, que passou a usar táticas de guerrilha para promover o lançamento de seu filme intacto, tais como patrocinar exibições piratas para estudantes e críticos de cinema, bem como tornar público o martírio pelo qual estava sendo obrigado a passar pela Universal - Gilliam chegou a pagar um anúncio de página inteira no jornal Variety com a seguinte mensagem: "Querido Sid Sheinberg. Quando você vai lançar meu filme 'Brazil'?". Em um outro momento, Gilliam mostrou uma foto do executivo em um programa de entrevistas do qual participava, e soltou no ar, ao vivo: "Esse é o homem responsável pela minha dor".

Mas tamanha audácia provou-se válida, tanto que o filme ganhou os principais prêmios da Associação de Críticos de Cinema de Los Angeles (melhor Filme, Diretor e Roteiro) e acabou sendo lançado intacto (mas modestamente) nos cinemas dos EUA, dividindo público e crítica, fato que não incomodou em nada o cineasta. "Para algumas pessoas, meu filme foi o equivalente a um espancamento", diz Gilliam rindo. "Para outras, foi uma experiência maravilhosa. Perfeito. Eu não fiz o filme pensando em agradar alguém...". 

É certo que, depois desse evento notório e constrangedor, as políticas dos grandes estúdios, relativas a quem seria responsável pelo corte final dos filmes, nunca mais foram as mesmas.

Infelizmente, essa caixa com os três discos dificilmente será lançada no Brasil. Portanto, você precisará ter um bom dinheiro sobrando para colocar suas mãos nela. Mas, se tiver, certamente não vai se arrepender!

Por aqui, o filme foi lançada pela Fox (que detém os direitos de distribuição fora dos EUA) na versão normal sem cortes, mas desprovida de qualquer extra ou comentário (veja reprodução da capa à direita).

Cotaçâo: * * * * *
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terça-feira, 25 de setembro de 2007

Filmes: "DUNA" (Versão Estendida)


COLCHA DE RETALHOS

Novo corte do filme vale pela quantidade de cenas inéditas, mas como cinema é abominável

- Por André Lux, crítico-spam

Foi lançado no Brasil em DVD a Versão Estendida de ''Duna'', a polêmica adaptação para o cinema feita por David Lynch da gigantesca obra de Frank Herbert. O filme é de 1984 e custou uma fortuna para a época, algo em torno de US$ 60 milhões. Mas foi um tremendo fracasso de bilheterias, embora tenha virado cult.

Muitas razões foram levantadas para explicar o naufrágio do projeto, entre elas os sucessivos cortes na metragem que o produtor Dino de Laurentis obrigou Lynch a fazer. De um original de mais de 3 horas e 40 de projeção, ''Duna'' resultou numa salada indigesta e praticamente incompreensível de duas horas.

Somente aqueles que já conheciam o livro de Herbert puderam entender o que se passava na tela. Para o resto sobrou pouco mais do que os deslumbrantes desenhos de produção, o figurino belíssimo e a atuação precisa de um elenco excepcional. Ao menos o filme despertou em alguns a vontade de ler a obra original (meu caso), o que não deixa de ser um mérito.

Na tentativa de resolver esse problema, foi criada uma ''versão estendida'' do filme para ser exibida na TV na qual foram reincorporados cerca de 40 minutos de cenas inéditas, incluindo um prólogo que tenta explicar os acontecimentos anteriores aos abordados no filme, utilizando para isso uma narração sobre alguns parcos desenhos de produção.

Só que tudo isso foi feito à revelia de David Lynch, que abominou o resultado final e obrigou o estúdio a retirar seu nome dos créditos de roteirista e diretor, que ficaram sob a alcunha de ''Alan Smithee'' (nome fictício geralmente usado para substituir tais créditos). Mas Lynch estava correto. Essa chamada ''Versão Estendida'' nada mais é do que uma colcha de retalhos horrivelmente costurada.

Se a versão original era incompreensível, esta é intolerável. Os ''pais'' dessa versão simplesmente colaram as cenas inéditas entre as já existentes, sem respeitaram qualquer lógica ou fluidez. Os cortes são bruscos e as passagens entre as cenas são toscas. Às vezes a ação na tela é entrecortada por uma narração péssima e geralmente risível. No início, por exemplo, tentam ''apresentar'' os personagens por meio deste artifício e somos obrigados a ver um take fechado de um dos atores enquanto o ''voice-over'' nos explica monotonamente quem é aquela figura por longos minutos!

A montagem é tão lamentável que, de tempos em tempos, enfiam uma cena qualquer de uma nave voando que nada tem a ver com o que é mostrado, só para separar takes. A música do grupo Toto também é brutalmente mutilada, graças à inserção de faixas compostas para outras seqüências do filme no meio da que já estava sendo executada na trilha sonora. É um verdadeiro assalto aos sentidos. A imagem em ''fulscreen'' deforma totalmente os enquadramentos originais e é de qualidade ruim (parece ter sido tirada de um master em VHS). O som em stereo 2.0 também não é muito melhor.

Todavia, mesmo sendo uma tentativa abominável de remontar o filme, essa ''Versão Estendida'' certamente vale como curiosidade para quem gosta do filme original, já que traz diversas cenas nunca vistas antes. São de particular interesse o duelo entre Paul e Jamis, Gurney Halleck tocando seu ''baliset'', a morte do verme recém-nascido para a extração da água da vida, a introdução da governanta Shadout Mapes e a noite de amor entre o Duque Leto e Jessica quando concebem Alia.

Se você é fã do filme original de David Lynch, mas sempre teve vontade de ver as cenas que não foram incluídas na versão dos cinemas, então essa ''Versão Estendida'' certamente vai satisfazer a sua curiosidade. Mas saiba que, como cinema, é simplesmente ultrajante e ainda mais incompreensível do que o original.

Cotação: *

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

DVD: "O QUE VOCÊ FARIA?"

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A CORPORATOCRACIA EM AÇÃO

Quem já possui uma visão crítica acerca da atuação das transnacionais e do auto-destrutivo modelo neoliberal certamente vai se deleitar com a abordagem ácida e demolidora dessa obra.

- por André Lux, jornalista e crítico-spam

CartaCapital, a única revista semanal imprensa que ainda pratica jornalismo sério no Brasil, publicou na edição 452 uma reportagem sobre os absurdos que as empresas cometem contra candidatos a uma nova vaga de trabalho, muitas vezes submetendo-os a situações, no mínimo, humilhantes.

Depois de ler essa reportagem e tomar consciência desse fato, o filme “O Que Você Faria?” não parece assim tão absurdo. Embora algumas situações retratadas na obra sejam realmente exageradas (como o sexo no banheiro e as agressões físicas) e os personagens beirem o estereótipo, não existe ali compromisso com a realidade, mas sim com a construção de uma metáfora à loucura que tomou conta hoje do meio empresarial, especialmente das grandes corporações, onde a busca pelo lucro a qualquer preço e a exploração da mão de obra virou obsessão, com raríssimas e nobres exceções.

A verdade é que vivemos hoje numa ditadura do mercado, que alguns chamam ironicamente de “corporatocracia”, na qual a ordem mundial é dominada por meia dúzia de mega-empresas transnacionais que pairam acima de governos e estados democráticos, restando à grande maioria dos cidadãos alugarem suas forças de trabalho a elas em troca da sobrevivência diária. Acima de tudo isso, grupos de acionistas sem rosto e dirigentes absolutamente subservientes a eles dominam com mão de ferro esse sistema que, nas palavras do lingüista e ativista político Noam Chomsky, é o mais totalitário que existe – já que as ordens vêm de cima sem qualquer discussão, sobrando aos que estão abaixo a única opção de segui-las à risca sem questionamento.

“O Que Você Faria?”, uma co-produção entre Espanha, Argentina e Itália, mostra exatamente o processo de seleção para um alto cargo de direção de uma dessas multinacionais. Sete candidatos à vaga são reunidos em uma mesma sala para participarem da última etapa do processo, do qual apenas um restará. Neste ambiente inóspito, serão submetidos a um certo “método Grönholm”, que basicamente incitará os piores instintos de cada candidato na tentativa de eliminar os concorrentes.

O clima de paranóia é dobrado com a possibilidade de um deles ser um impostor, ou seja, alguém da empresa infiltrado na sala para observar mais de perto e manipular a ação dos outros. E tudo ainda pode estar sendo gravado com câmeras e microfones ocultos, numa assertiva alusão à sociedade “Big Brother” para a qual caminhamos cada dia mais, onde tudo e todos são constantemente monitorados e vigiados.

A intenção do roteiro de Mateo Gil e Marcelo Piñeyro, que é baseado em peça teatral de Jordi Galcerán, vai se tornando óbvia a partir que a trama avança e as primeiras vítimas do processo absurdo e degradante vão sendo feitas. Não por acaso, o candidato mais qualificado para o cargo e, também, o mais ético é o primeiro a ser praticamente linchado pelos outros competidores, que agem sempre sob a manipulação da corporação na forma de tarefas transmitidas a eles de modo impessoal e frio por meio de telas de computador. E, claro, o vencedor é justamente aquele que menos tem escrúpulos em destruir os adversários para atingir suas ambições.

Quem já possui uma visão crítica acerca da atuação desumana das transnacionais e do auto-destrutivo modelo neoliberal certamente vai se deleitar com a abordagem extremamente ácida e demolidora da obra, que melhora ainda mais com uma segunda leitura, quando já conhecemos melhor os personagens e o que cada um deles representa dentro do contexto em que estão inseridos.

Ironicamente e em paralelo à ação principal do filme, acontece uma grande manifestação nas ruas de Barcelona contra a atuação nefasta do FMI e do Banco Mundial sobre a economia global, sob o jargão de que "um outro mundo é possível". Por enquanto ainda é. Não se sabe até quando...

Cotação: * * * *
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