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segunda-feira, 19 de junho de 2006

Opinião: Filmes em DVD

Aproveitei o feriado prolongado para tirar o atraso e ver em DVD alguns novos filmes que havia perdido no cinema e novos lançamentos obscuros. Confira abaixo, por sua conta e risco, minha opinião sobre eles...


CRASH – NO LIMITE

A Academia de cinema estadunidense acertou ao dar o Oscar de melhor filme de 2005 para “Crash”. Apesar de tratar de tema parecido – a intolerância –, o filme de Paul Haggis é ainda mais atual e pertinente do que "Brokeback Mountain”. O racismo é algo inaceitável, mas faz parte da nossa vida, gostemos ou não. E essa é a proposta do filme, colocar o dedo naquela ferida que ninguém gosta de ver.

O roteiro é brilhante e coloca vários personagens em tramas paralelas que, em algum ponto da história, acabam se cruzando. O racismo é tratado de forma realista, sem panfletagem ou moralismo, e não se limita ao ódio entre brancos e negros, abrangendo todo o tipo de preconceito racial, inclusive contra árabes, hispânicos e dos próprios negros contra outras etnias.

A boa notícia é que todos os personagens se comportam de maneira suficientemente humana para não existir “mocinhos” e “bandidos” no filme. Mesmo aqueles que, a princípio, parecem ser os melhores acabam cometendo atos deploráveis, da mesma forma que os pintados como pessoas desprezíveis tomam atitudes louváveis inesperadamente.

“Crash” reserva alguns momentos muito fortes e até chocantes, não por apelarem para violência gratuita ou clichês, mas justamente por serem encenados de forma tão natural que os deixam ainda mais próximos da realidade. O elenco impecável também ajuda, diga-se de passagem.

Ou seja, um filme que se vale a pena assistir, ainda mais quando é produto de uma cultura onde o racismo é algo explícito e declarado, embora isso faça a gente questionar: existe racismo “bom”? Será que o preconceito racial que existe no Brasil, velado e implícito, não é ainda pior do que o que existe nos EUA? Esse é só um exemplo do tipo de reflexão e polêmica que “Crash” certamente vai provocar nos espectadores. E isso, convenhamos, não é pouco.

Cotação: * * * *


PONTO FINAL

Esse filme do Woody Allen é uma decepção total. Fraco, bobo, arrastado e ilógico. E, se não bastasse isso, é um drama sem qualquer pitada de comédia que não passa de (mais uma!) reciclagem do conto “Crime e Castigo”, de Dostoievski, que o protagonista folheia no início e o próprio Allen já havia aproveitado antes, com mais sucesso, em “Crime e Pecados”.

Mas o elenco, encabeçado pelo andrógino Jonathan Rhys-Meyers (quase um sósia do Joaquim Phoenix), é particularmente fraco e os diálogos são banais e frouxos. A trama consiste na ascensão social de um tenista fracassado que se casa com a filha de uma família rica de Londres (mas poderia ser em qualquer lugar). Só que ele se engraça justamente com a noiva do cunhado (Scarlett Johansson, menos apática que de costume) e os dois acabam virando amantes.

A partir daí o filme fica extremamente previsível e, quando tudo termina absurdamente em tragédia, ameaça virar mais uma história policial – o que, felizmente, não acontece, pois a metragem já beirava às duas horas e não havia mais tempo para nada. Allen tenta disfarçar a sua total falta de inspiração acrescentando um recurso narrativo pseudo-esperto que sugere que está, na verdade, fazendo um estudo sobre o quanto a sorte ou o azar podem influenciar a vida das pessoas. O que seria interessante, caso o diretor não perdesse todo o tempo de projeção mostrando uma história absolutamente banal só para enfiar duas cenas que dão razão à tal pretensão sugerida, sem maior impacto ou conseqüência (mas parece que o truque funcionou, pois vários profissionais da opinião andaram louvando o filme!).

Poderia, ao menos, ter inserido comentários mais agudos sobre a realidade e a política social que move as altas castas gerando assim algum tipo de conflito ou reflexão, mas nem isso o filme tem – tanto é que os personagens secundários não têm nada a fazer ou dizer, virando mera decoração, e o protagonista não tem qualquer profundidade ou carisma, parecendo até meio catatônico.

Sinceramente, o filme é muito fraco e, a exemplo do também decepcionante “Melinda e Melinda”, dá claros sinais que Allen está precisando de umas boas férias ao invés de ficar insistindo em fazer um filme por ano. Às vezes, um bom descanso faz bem para que novas idéias surjam na cabeça de um artista...

Cotação: * *


PLANO DE VÔO

“Plano de Vôo” é mais um daqueles filmes que foram criados para serem uma coisa, mas, no meio do processo, acabaram virando outra. Concebido para ser uma espécie de “Duro de Matar” num avião, no qual um policial durão teria que enfrentar terríveis terroristas para salvar a vida do seu filho em pleno vôo, “Plano de Vôo” acabou virando um veículo para Jodie Foster exibir seus talentos, no que os produtores certamente consideraram uma espertíssima jogada: “Que tal ao invés do machão dando porrada, tivermos uma mulher indefesa e perturbada psicologicamente lutando para reaver a filha que desapareceu no avião”?

Pois bem. Sumiram então os terroristas e o filme se esforça para ser o que não é. Para isso, usa recursos que buscam “enganar” o espectador (sempre uma má idéia, segundo o mestre Hitchcock) na tentativa de se vender como um suspense psicológico, no qual uma mãe (Foster), que acaba de perder o marido num trágico acidente (seria suicídio?), tenta recomeçar a vida voltando para os Estados Unidos junto com sua filha. No avião (na verdade um super-avião moderníssimo que ela ajudou a projetar) vai o caixão com o corpo do marido. Só que, ao acordar de um cochilo, percebe que sua filha sumiu. E começa a corrida dela para tentar convencer a todos que a menina foi seqüestrada.

A partir daí o diretor usa uma série de recursos dramáticos para tentar nos convencer que a protagonista pode sim estar sofrendo de ilusões paranóicas, já que ninguém havia visto sua filha entrar no avião ou mesmo ao lado dela (!). Depois, no auge da sua crise de histeria, é informada que a filha havia mesmo morrido junto com o pai - e acredita (!!). Será mesmo que foi tudo um sonho e ela entrou no avião sozinha, imaginando ter a filha morta ao seu lado?

Infelizmente, como todo filme de suspense estadunidense, esse questionamento dura pouco e logo somos informados que tudo não passava de um plano criminoso perfeito, cujos detalhes não vou revelar para não estragar as “surpresas”. Basta dizer que para dar certo, precisava contar com imensos “saltos de lógica” por parte dos vilões, os quais previram, por exemplo, que realmente NINGUÉM ia ver a mãe com a filha no avião (sem esse detalhe o tal plano iria por água abaixo), entre outros absurdos dignos de gargalhadas. Ok, justiça seja feita: o filme é bem feito e usa vários efeitos digitais para “incrementar” o super-avião e até consegue manter algum grau de suspense enquanto a trama não é revelada, contando para isso com o bom desempenho da competente Jodie Foster.

Mas é muito pouco para salvar um projeto que já nasceu errado e, depois, só piorou. Enfim, uma bobagem comercial que tenta, sem sucesso, se vender como algo diferente.

Cotação: * *


POR AMOR OU POR DINHEIRO?

Filme francês francamente bizarro, daqueles que não deixam claro ao que vieram. Uma mistura de comédia de humor negro com sátira social, vale pela presença da sempre bela e voluptuosa Monica Belucci, que aparece semi-nua com freqüência.

Conta a história, sempre de uma maneira meio surreal, de um sujeito que diz a um prostituta (Belucci) ter ganhado na loteria e a convida para morar com ele, com pagamentos mensais. Obviamente, ela aceita e, a partir daí, o filme vai ficando cada vez mais esquisito, com um clima de comédia de absurdos, onde os atores desempenham seus papéis na mais absoluta seriedade enquanto as situações bizarras se acumulam.

E o riso surge justamente desse contraste (inclusive com o uso de uma trilha sonora exagerada que busca acentuar isso), mas não o bastante para tornar o filme memorável ou mesmo recomendável. Gerard Depardieu tem um papel pequeno, mas sempre é uma presença interessante. Além disso, tem uma fotografia bonita e o diretor Bertrand Blier busca sempre enquadramentos inovadores e uma edição fluída.

Verdade seja dita, embora tenha alguns momentos bem divertidos (como a discussão com a vizinha incomodada pelo barulho dos gemidos da prostituta, a intrusão dos colegas de escritório do protagonista e a festa final), parece que o negócio dos realizadores era mesmo deixar Mônica Belucci peladona o maior número de vezes possível no set de filmagem! Pelo menos disso não podemos reclamar.

Cotação: * * *


A MARCHA DOS PINGUINS

O filme é bonito, muito bem fotografado e conta um fato interessante, que é justamente a tal marcha do título, empregada pelos pingüins Imperadores para se acasalarem, enfrentando de forma emocionante todos os tipos de dificuldades, como frio terrível, tempestades, fome e o ataque de predadores.

Mas, por mais que tente disfarçar, não deixa de ser um documentário sobre a vida natural e, nesse quesito, deixa a desejar. Faltam muitas informações a respeito do comportamento dos animais, suas motivações e sobre as técnicas usadas para garantir a sobrevivência dos filhotes. O diretor optou por tentar transformar o documentário numa espécie de drama épico ao dar vozes aos pingüins, mas isso soa quase sempre forçado, piegas e, infelizmente, bem pouco informativo.

Melhor seria se tivesse utilizado uma narração mais neutra ou letreiros explicativos. Do jeito que ficou, inclusive abusando de canções de ninar bem fraquinhas (embora a trilha incidental, da mesma autora, seja muito boa), acaba resultando em algo mais próximo de um filme infantil, onde os bichinhos “falam” como se fossem humanos sobre sua condição e necessidades. Por isso, pode funcionar melhor como um “filme família” (e é sempre bom educar os mais novos sobre a importância de respeitar a natureza), mas como cinema documental não chega a cumprir suas promessas.

Cotação: * * *

terça-feira, 11 de abril de 2006

Filme: V DE VINGANÇA

Viva a revolução!

Qualquer pessoa de esquerda ou que tenha simpatia pelas lutas por justiça social vai lavar a alma com esse filme que não tem medo de colocar o dedo na ferida da sociedade e reflete de maneira alegórica a nossa condição atual.


- Por André Lux, crítico-spam

Em certo momento da graphic novel “V de Vingança”, um dos personagens descarrega todas as balas de seu revólver contra o protagonista da história, que mesmo assim continua avançando sobre ele. “Por que você não morre??”, grita desesperado, para ouvir como resposta: “Não há carne e sangue dentro deste manto, há apenas uma idéia. Idéias são à prova de balas” (dá até para imaginar um certo senador de extrema-direita fazendo essa pergunta depois que seu sonho de “acabar com a raça” de um grupo de pessoas não deu muito certo).

Essa é a força que está por trás da história criada por Alan Moore (o mesmo de “Watchmen”) que acaba de ser levada aos cinemas pelas mãos dos criadores da série “Matrix”, Larry e Andy Wachowsky, que apenas assinam o roteiro e produzem dessa vez. Qualquer pessoa que seja assumidamente de esquerda ou que tenha simpatia pelas lutas por justiça social vai lavar a alma com esse filme, dirigido com precisão por James McTeigue, que não tem medo de colocar o dedo na ferida da sociedade. Trata-se, mais uma vez, de uma história passada num futuro próximo (2020), mas que reflete de maneira alegórica a nossa condição atual. E como reflete!

O roteiro mostra o que seria a Inglaterra sob o domínio de um governo ditatorial de extrema-direita, que chegou ao poder aproveitando-se do caos generalizado que tomou conta do mundo graças às guerras infinitas provocadas pelos Estados Unidos (que no filme já se encontra à beira do colapso). Estimulando o medo, a intolerância racial, sexual e social e reprimindo a população por meio da violência, da religião e da intensa manipulação midiática, o novo governo lança mão também de um artifício aterrador: atos de terrorismo contra sua própria população. Tudo isso em nome de “salvar” a população e “libertar” o país. Já ouvimos tudo isso antes, não?

Mas, ao contrário do que parece, “V de Vingança” não é um mero filme de ação e explosões (embora elas existam), e sim um intenso thriller político que, após um início truncado e titubeante, pega o espectador pelo colarinho e não larga mais. Para isso conta com dois trunfos: a atuação impecável de Natalie Portman, como Evey, que sofre uma transformação brutal, tanto física quanto psicológica no decorrer da trama, e de Hugo Weaving (o Mr. Anderson de “Matrix”), que dá vida ao anarquista conhecido apenas como V e passa o filme todo coberto por uma máscara de Guy Fawkes, o lendário cidadão britânico que tentou explodir o parlamento inglês no século 17. Verdade seja dita, nada mais difícil do que passar emoções a partir de um personagem mascarado (ainda mais quando a máscarar é dura e totalmente inexpressiva como a usada no filme), mas mesmo assim, graças à entonação e à expressão corporal de Weaving, a personalidade magnética de V cresce à medida que a trama progride, tornando-se arrebatadora no final.

O filme é entrecortado por dezenas de diálogos brilhantes ( “O povo não deveria temer seu governo. O governo é que deve temer o povo”) e reserva algumas seqüências absolutamente emocionantes, particularmente a da leitura de uma carta que traz um grito ensurdecedor contra a intolerância e a favor das diferenças e a cena que marca o despertar angustiante de Evey do seu estado anterior de letargia e alienação para o mundo real que a cerca. Quem já passou por esse doloroso, porém importantíssimo, processo vai ter dificuldades em segurar as lágrimas.

Com tantos conteúdos abertamente a favor da revolução popular e do conceito marxista que prevê sociedades criadas a partir da exploração das classes fatalmente criarão seus próprios algozes (“ação e reação”), é natural que “V de Vingança” provoque tantas críticas ferozes proferidas pelos defensores do sistema atual, sempre ligados aos setores mais conservadores e reacionários da sociedade, que se expressam livremente por meio da sua imprensa corporativa.

Mas esse tipo de reação histérica apenas dá mais força aos méritos dessa brilhante obra, que certamente vai ficar na cabeça das pessoas por um bom tempo - ao menos para aquela parcela dos espectadores que ainda se prestam a pensar e refletir sobre o que acabaram de assistir.

Alan Moore, o autor da graphic novel original, rejeitou a adaptação e não quis nenhum tipo de envolvimento com o filme desde o seu início, tanto é que seu nome nem consta dos créditos (embora o desenhista David Loyd tenha participado ativamente). Azar o dele, pois “V de Vingança”, o filme, não causa nenhum demérito à história em quadrinhos. Afinal, mesmo com várias mudanças e acréscimos (principalmente na conclusão que ficou um pouco ingênua apesar do forte apelo alegórico), o conceito principal permaneceu intocado: ideais nunca morrem - e sem eles não somos nada.

Cotação: * * * *

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

Filmes: "SYRIANA"


CORRUPÇÃO S/A

Quem acreditou na ladainha neoliberal sobre a honestidade das corporações privadas frente à corrupção do Estado vai ter que rever seus valores

- Por André Lux, crítico-spam


Fazia tempo que não era lançado um filme tão complexo e contundente como SYRIANA, que bem poderia se chamar “Corrupção S/A”. Dirigido por Stephen Gaghan, roteirista do excelente TRAFFIC, conta com um elenco de primeira linha liderado por George Clooney (também um dos produtores executivos) para mostrar, com tintas realistas e engajamento político, a podridão que envolve o mundo dos negócios, no caso o de exploração e venda de petróleo no Oriente Médio.

Qualquer um que algum dia acreditou na ladainha neoliberal sobre a suposta honestidade das corporações privadas frente à inerente corrupção do Estado, muito usada para difundir a tão propaga “necessidade” das privatizações nas últimas décadas, vai ter que rever seus valores no final da sessão - mesmo porquê quem são os responsáveis pela corrupção no Estado, senão os próprio governantes e, em última instância, seus eleitores?

Embora SYRIANA tenha formato de thriller político e apresente várias tramas paralelas que só irão se unir no final, o que move o enredo é a disputa política entre dois irmãos num emirado árabe no Golfo Pérsico. Um deles é o típico playboy alienado e vendido ao sistema capitalista, que torra a fortuna da família com iates, drogas e mulheres, enquanto o outro, Príncipe Nasir (Alexander Siddig), tem intenções mais nobres.

Vem dele, por sinal, uma das falas mais reveladoras do filme. Quando interpelado pelo executivo feito por Matt Damon sobre o inevitável fim das reservas petrolíferas mundiais e as conseqüências disso para os povos do Oriente Médio, que fatalmente vão retornar ao barbarismo, dispara: “E você acha que eu não sei disso? Quando aceitei a melhor oferta da China para explorar meus poços, o fiz pensando em meu povo, em usar o dinheiro para melhorar a condição de vida de todos, investir em infra-estrutura e bem estar social. Por isso, agora sou chamado pela mídia e pelo seu governo de terrorista, comunista e ateu!”.

Mas o ponto que mais impressiona em SYRIANA, não só pela crueza, mas também pela alta dose de verossimilhança, são as interferências diretas promovidas pelo Governo dos Estados Unidos, via sua Central de Inteligência (CIA), nos negócios realizados na região. Seus agentes agem como verdadeiros “anjos da guarda” para garantir que somente as empresas estadunidenses fechem negócios no Golfo Pérsico, nem que para isso precisem torturar e matar qualquer um que se colocar no caminho.

Do outro lado, as grandes corporações fazem das tripas coração para abocanhar contratos milionários de exclusividade. Manipulação, distorção, mentiras e corrupção são palavras banais neste negócio. Numa seqüência exemplar, um político conservador (interpretado por Tim Blake Nelson), ao ser flagrado em ato de corrupção por advogado que representa os interesses de uma empresa, dispara uma frase que já se tornou antológica: “Corrupção? Corrupção é a intrusão do governo no mercado na forma de regulação. Temos leis contra ela justamente para que possamos sair impunes. Corrupção é a nossa proteção! Corrupção nos mantém salvos e aquecidos! É graças à corrupção que você e eu viajamos o mundo ao invés de brigar nas ruas por um pedaço de carne! Corrupção é o motivo da nossa vitória!”.

Qualquer semelhança com a realidade, não é mera coincidência.

Infelizmente, nem tudo são flores em SYRIANA (a começar pelo nome, que não é explicado, mas é usado tanto para se referir à Síria - como em Pax Syriana-, quanto como um rotulo hipotético para referir-se a países do Oriente Médio que têm semelhança com a Síria). Ou seja, quem não tiver um conhecimento razoável da situação atual da região, incluindo aí os conflitos entre seus inúmeros grupos político-religiosos, e de como funciona o mercado das fusões nos Estados Unidos vai ter grande dificuldade de seguir a trama. Há também um excesso de personagens que deixa a situação ainda mais complicada (o drama familiar do executivo feito por Damon, por exemplo, não acrescenta nada ao filme e pode confundir o espectador).

O agente da CIA, feito por Clooney, também sofre de certa letargia e ingenuidade incongruentes com o personagem. Jamais alguém com tamanha experiência e bagagem em fazer o jogo sujo para o Tio Sam seria manipulado e enganado de forma tão fácil, muito menos ficaria tão surpreso ao ser descartado num momento de crise.

Todavia, mesmo apresentando essas falhas e incoerências, é inegável que SYRIANA mereça respeito e crédito, não apenas por tocar numa ferida aberta que pouquíssimas pessoas teriam coragem de expor, mas, principalmente, por deixar claro que, do mundo dos negócios promovidos pelas grandes corporações transnacionais, ninguém sai limpo.

E as conseqüências de tudo isso serão, a médio e longo prazos, catastróficas para a humanidade, como bem mostra o filme ao acompanhar a trajetória de um emigrante paquistanês que, expulso do emprego, brutalizado pela polícia e sem qualquer esperança de um futuro melhor, abraça a causa do terrorismo contra o inimigo de seu povo.

Mais atual e pertinente do que SYRIANA, sinceramente, dificilmente um filme será.

Cotação: ****1/2

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006

Filmes: "Cinema Paradiso"

MAIS, NEM SEMPRE É MELHOR

Versão estendida de ''Cinema Paradiso'' apresenta cenas inéditas que, ao mesmo tempo, contestam e reafirmam o valor deste clássico

- Por André Lux

Escrito e dirigido em 1989 por Giuseppe Tornatore, ''Cinema Paradiso'' é considerado hoje uma das mais belas e tocantes homenagens já feitas ao cinema. Foi agraciado com o Prêmio Especial do Júri em Cannes e com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, tornando-se um imenso sucesso de crítica e de público - inclusive por causa da trilha musical esplendorosa do mestre Ennio Morricone.

O filme conta a história de Salvatore Di Vitta (Totó), um famoso cineasta que, após receber uma triste notícia, relembra sua vida e, principalmente, como aprendeu a amar a sétima arte graças à sua amizade com Alfredo (Phillipe Noiret), o responsável pela projeção do pequeno cinema em sua cidade-natal.

Todavia, pouca gente sabe que o filme foi um tremendo fracasso de bilheterias quando lançado originalmente na Itália. Por isso, foi recolhido e remontado pelo diretor, que eliminou cerca de 50 minutos da versão original para depois lançá-lo novamente nos cinemas, sem sucesso de novo (o filme só emplacou mesmo depois de ser premiado em Cannes e no Oscar).

Agora, mais de 15 anos depois de seu lançamento mundial, finalmente temos acesso à versão original de ''Cinema Paradiso'', pois acaba de ser lançado no Brasil o DVD que contém a chamada ''Nova Versão'' do filme, que tem 2 horas e 54 minutos de duração e traz restauradas todas as cenas que haviam sido deixadas na sala de montagem por Tornatore.

Todas essas cenas novas são originais, filmadas na época, nada de refilmagens ou atualizações.

Essa versão restaurada traz várias adições à trama original (deixando bem mais claro o fato de Totó ter virado um famoso cineasta), estender a participação de alguns personagens (como a velha mãe) e incluir duas cenas de sexo gratuitas (uma delas com Toto perdendo a virgindade com uma prostituta no cinema).

Mas o grande destaque mesmo desta versão é mostrar o reencontro, muitos anos depois, de Totó (Jacques Perrin, de ''Z '') com sua primeira namorada, Elena. Para quem não se lembra, ambos acabaram sendo separados por uma série de desventuras e, na versão reduzida, nunca mais se viam, ficando a situação sem resolução.

É bom advertir que essa nova versão de ''Cinema Paradiso'' poderá ser um pouco chocante para aqueles que, como eu, aprenderam a amar o filme tal qual foi lançado nos cinemas. É particularmente angustiante testemunhar o reencontro dos antigos namorados quando ambos já estão na casa dos 50 anos e com a vida feita. Mais triste ainda é aprender que o culpado direto pela separação deles foi exatamente o Alfredo.

Isso mesmo: na versão restaurada, aprendemos que o velho projecionista influiu diretamente no desenlace trágico do romance entre o casal de jovens, de tal modo que passamos até a sentir uma certa raiva pelo simpático senhor!

Suas motivações eram perfeitamente louváveis e legítimas, mas é inegável que as conseqüências de seus atos foram desastrosas para a vida afetiva do jovem Totó (interpretado por Marco Lenardi na adolescência), a ponto de transformá-lo em um adulto melancólico e amargo, incapaz de esquecer seu romance adolescente e ser feliz com seu sucesso profissional.

Por causa disso, fica muito difícil tomar uma posição definitiva sobre a ''Nova Versão''. Ela realmente explora mais a fundo a relação entre os personagens, o que resulta num filme mais denso e adulto. Todavia, muito da mágica e do encantamento do original acabam perdendo-se ou diminuindo, principalmente na relação entre Totó e Alfredo.

Por causa disso, a conclusão do filme torna-se mais amarga e pouco redentora. Na verdade, devido ao aumento significativo de todo o terceiro ato, o foco narrativo de ''Cinema Paradiso'' acaba sendo bastante alterado, ficando mais centrado no romance entre Totó e Elena e menos no amor do menino (Salvatore Cascio, excepcional) e do projecionista pela magia do cinema.

Muito do que havia ficado nas entrelinhas na versão reduzida é agora explicado e esmiuçado, o que deixa o filme menos idílico e nostálgico. Será isso uma melhoria em relação ao original? Caberá a cada espectador julgar qual das duas visões do filme é a melhor.

Uns vão preferir a antiga, mais enxuta, poética e emocionante, enquanto outros vão satisfazer-se com a nova, mais madura e menos escapista em sua conclusão. Particularmente, prefiro a magia da versão antiga.

Confesso que a nova versão deixou um gosto muito amargo em minha boca, o qual nem mesmo a exibição final da montagem dos ''beijos do Alfredo'' foi capaz de tirar... Sem dizer que fica muito difícil de acreditar que alguém continuaria obcecado por um amor adolescente por mais de 30 anos, ao ponto de negar qualquer felicidade e possibilidade de um novo amor real.

Todavia, ao analisar as duas versões fica evidente o poder que a edição pode ter num filme, já que as cenas adicionadas, ao invés de simplesmente ''aumentarem'' a duração, acabam mudando totalmente seu foco conceitual. O que nos leva a uma conclusão inegável: ver um filme na forma o qual foi originalmente concebido é sempre uma experiência interessante e pertinente, ainda mais no caso de ''Cinema Paradiso'', onde ambas versões são tão contrastantes entre si.

Cotaçâo
Versão do Cinema: * * * * *
Versão Estendida: * * * 1/2

sexta-feira, 28 de outubro de 2005

Filmes: "Diários de Motocicleta"



HUMANIZANDO O MITO

Filme sobre a viagem de "Che" pela América latina prioriza
a transformação psicológica causada pelo contato com o outro

- Por André Lux

Para aqueles que, como eu, foram criados sob a ditadura militar que encobriu o Brasil de trevas por 21 anos, a figura de Ernesto "Che" Guevara sempre foi associada à alcunhas como "baderneiro", "vagabundo" e "comunista". Só na maturidade, quando rompemos essa bolha de ilusão criada para nos cegar, é que passamos a ter contato com o mundo real e conhecer melhor a história na qual estamos inseridos.

É normal, particularmente para jovens estudantes, passar a associar, a partir daí, Guevara a um ícone de luta política por igualdade e justiça. É para esse tipo de pessoa que o último filme de Walter Salles (de Central do Brasil e Abril Despedaçado) está endereçado. Afinal, Diários de Motocicleta conta justamente a história do jovem Ernesto Guevara de la Serna (na época com 23 anos) e sua viagem de oito meses pela América latina, inciada na Argentina (seu país de origem) até a Venezuela. Foi justamente durante essa jornada que o futuro revolucionário, na companhia do amigo Alberto Granado, começou a travar contato com a realidade dos povos da região e das injustiças e misérias que os afligiam, a ponto de terminar a viagem transformado numa nova pessoa.

O grande mérito do diretor Salles e do roteirista José Rivera foi conseguir encontrar o equilíbrio perfeito entre a simples narração linear dos eventos com a gradual transformação psicológica dos protagonistas. Não existe espaço no filme para discursos ou pregação política, muito menos para panfletagem didática de "esquerda". Mas a boa notícia é que o diretor deixa aos dois excelentes atores centrais, Gael Garcia Bernal (como Guevara) e Rodrigo de la Serna (como Alberto), dar cabo de todas as nuances sugeridas pelo o roteiro, que é baseado nos livros de memórias que ambos escreveram após a viagem. A honestidade e a ternura de Guevara encontraram a representação perfeita na interpretação discreta e muito humana de Bernal, ao mesmo tempo que De la Serna dá o contra-ponto cômico na pele do debochado e mulherengo Granado.

O filme, que de início parece ser a narração de uma mera diversão engendrada por dois jovens imaturos e aventureiros (portanto, absolutamente normais), aos poucos vai se transformando numa emocionante análise do poder que o simples contato com outro ser humano pode ter na formação da personalidade. E Salles consegue transmitir toda esse crescimento do caráter dos protagonistas sem nunca ser piegas ou manipulativo. Sua câmera, pelo contrário, apenas acompanha os dois quase como num documentário e deixa-os livre para explorar os ambientes e interagir com seus companheiros de cena (muitos deles pessoas reais que garantem ao filme um necessário toque de realismo e verdade). Essa áurea de realidade é elevada pela fotografia inspirada de Eric Gautier e pela trilha musical intimista e discreta, porém muito tocante, de Gustavo Santaolalla (de Amores Brutos e 21 Gramas).

O ponto alto de Diários de Motocicleta é a tentativa de Guevara em atravessar o rio Amazônas a nado, quando estavam na colônia de leprosos de San Pablo, no Peru. A cena marca a transformação definitiva da visão de mundo dele e serve também para mostrar ao espectador, como argumentou o diretor Salles, que existem sempre duas margens em qualquer rio, cabendo a cada um de nós escolher em qual delas prefere estar. “Che” fez a escolha dele e pagou caro por isso. Saber o destino triste que os EUA reservaram ao revolucionário, morto covardemente com um tiro na nuca depois de ser preso na Colômbia, torna ainda mais amarga a experiência de ver esse belíssimo filme, certamente um dos mais relevantes já feitos sobre a América latina.

Cotação: * * * * *

quinta-feira, 21 de julho de 2005

Luto: Morre James Doohan, o Scotty de "Star Trek"

Faleceu hoje James Doohan, o engenheiro-chefe Scotty da série clássica de Jornada nas Estrelas.

O ator canadense de 85 anos era portador do Mal de Alzheimer, tinha diabetes e Mal de Parkinson e no ano passado despediu-se da vida pública na convenção Beam me up, Scotty...One Last Time.

Na ocasião, o ator, ex-combatente na Segunda Guerra Mundial e padrinho de inúmeras turmas de engenharia, recebeu sua merecida estrela na Calçada da Fama, em frente ao Hollywood Entertainment Museum.

Doohan deixa sua esposa, Wende, três filhos (Eric, Thomas e Sarah) e uma legião de fãs.

sexta-feira, 15 de julho de 2005

Música: Jerry Goldsmith em DVD

Acabei de receber o DVD que traz um excelente documentário sobre o grande Jerry Goldsmith, compositor de centenas de trilhas musicais para filmes como "Jornada nas Estrelas - O Filme", "Alien - O Oitavo Passageiro", "A Ilha do Adeus", "Planeta dos Macacos", "Poltergeist", "Instinto Selvagem", entre tantos outros.

O documentário foi dirigido pelo maestro Fred Karlin em 1995 e traz vários depoimentos do próprio Goldsmtih e seus colegas de profissão, entre eles cineastas consagrados como Franklin J. Schaeffner e Paul Verhoeven.

Além disso, somos brindados com cenas do compositor trabalhando junto à orquestra durante a gravação da trilha musical de "O Rio Selvagem".

Vale a pena! Visite o site Music from the Movies e peça o seu - mas corra, pois restam menos de 250 unidades!

Dica: ao postarem sua ordem, enviem um email ao site pedindo que enviem o DVD marcado como "gift" no pacote, pois assim você não pagará taxas alfandegárias.

Em tempo: dia 21 de julho vai completar um ano que Jerry Goldsmith faleceu, depois de uma longa luta contra o câncer.

segunda-feira, 20 de junho de 2005

Filmes: "Batman Begins"

BOM, NAS NEM TANTO

Dizer que “Batman Begins” é melhor que os filmes de Tim Burton e Joel Schumacher é verdade. Mas, convenhamos, não chega a ser um elogio tão impressionante.

- Por André Lux

Ainda não foi desta vez que o homem-morcego encontrou sua versão definitiva nos cinemas. Depois dos excessos cometidos contra o personagem nos histéricos filmes de Tim Burton e Joel Schumacher, a Warner resolveu apostar numa leitura mais realista e contida da saga do justiceiro de Gotham City. Para isso, chamou o diretor Christopher Nolan (dos bons “Amnésia” e “Insônia”) e investiu num roteiro supostamente menos rocambolesco e mais concentrado em humanizar os personagens e situações.

Mas, se nos filmes anteriores sobravam situações bizarras e atuações histéricas (principalmente dos vilões), em “Batman Begins” tudo é levado a sério demais, a ponto de tornar o filme quase tedioso e arrastado, especialmente na primeira parte que aborda a busca de Bruce Wayne por um “sentido na vida” – o qual ele eventualmente encontra ao juntar-se à organização Liga das Sombras, que se propõe a acabar com o crime a qualquer preço. Durante o treinamento árduo, há um excesso de frases de efeito e psicologia de almanaque proferidas pelo seu mentor, Henri Ducard (Liam Neeson, repetindo seu papel de “mestre Jedi”), que acabam sendo redundantes e poderiam ter sido cortadas sem prejuízos. Incomoda também a insistência do roteiro em pintar os milionários pais do herói como se fossem espécies de “santos imaculados”, dispostos a tudo para ajudar os pobres (a cena da morte deles, por sinal, é muito mal dirigida e apressada, não passa qualquer emoção).

Depois de uma fuga exagerada e não muito convincente do quartel general da Liga (quando o exército imbatível de ninjas é derrotado com facilidade incompatível com o que havia sido mostrado até então), Wayne volta para sua cidade natal disposto a combater o crime. Esse segundo ato, o qual mostra o protagonista dando forma ao seu alter-ego mascarado, é o que o filme tem de melhor. Graças à participação de coadjuvantes de peso, como Michael Caine (como o mordomo Alfred), Morgan Freeman (o guru em armamentos), Gary Oldman (o sargento Gordon) e Rutger Hauer, o filme fica menos pretensioso e cresce, reservando ao menos algumas tiradas mais amenas e divertidas.

Infelizmente tudo desanda no terceiro ato quando os planos dos vilões são revelados e o roteiro vira um mero festival de lutas, perseguições e explosões exageradas. O pior é que novamente não conseguiram solucionar satisfatoriamente o fato de que o Batman (diferente do “Homem-Aranha” ou do “Superman”) é apenas uma pessoa normal, que veste armadura, capacete, capa e anda cheio de badulaques e bugigangas penduradas.

Ou seja, fazê-lo correr, saltar, voar, desaparecer e lutar com incrível rapidez e agilidade simplesmente não convence e priva o filme de qualquer verossimilhança. Nos quadrinhos tudo bem, afinal é uma outra linguagem. Já no cinema fica fantástico e absurdo demais. Tanto isso é verdade que nas cenas de luta mal conseguimos ver o que está acontecendo ou quem está acertando quem, tão rápidos são os cortes na edição. Não seria melhor assumir essas características que dão "peso" ao personagem e então explorá-las de maneira mais eficiente e realista, como fizeram por exemplo no primeiro "Robocop" (que, por sinal, tinha muito de "Batman)?

O maior defeito do filme, contudo, reside no fato de que não foram capazes de criar um mundo coerente com a proposta “realista” original. O design visual é claudicante e alterna tomadas de Gotham como se fosse uma cidade normal contemporânea com outras em que prédios com visual futurista são inseridos (especialmente a sede das empresas Wayne). Os filmes de Tim Burton tinham um desenho de produção radicalmente gótico e surrealista, o que ao menos os deixavam coerentes em sua totalidade. Já “Batman Begins” não assume de vez sua veia realista, nem deixa-se dominar por uma aproximação mais radical, tornando-se por conseqüência meramente medíocre e bem menos marcante do que se esperava.

O mesmo pode-se dizer da trilha musical que, embora seja assinada pelo sempre pavoroso Hans Zimmer (desta vez dividindo a autoria com o mais competente James Newton Howard, de "O Sexto Sentido"), nunca ultrapassa o nível de mediocridade e indiferença (ao ponto de me obrigar a reconhecer que mesmo as fracas partituras de Danny Elfman para os filmes de Tim Burton eram melhores!).

Não ajuda muito também a atuação neutra do Christian Bale (de “Psicota Americano”) como o protagonista. O rapaz é bom ator, mas não tem carisma para segurar o filme e apela para truques manjados de interpretação (como falar com voz grossa e sussurrante quando vestido de Batman, praticamente repetindo o que Michael Keaton tentou fazer nos dois primeiros filmes da franquia), o que contribui ainda mais para a sensação de decepção que permeia o filme todo.

Por essas e outras, dizer que “Batman Begins” é melhor que os filmes de Tim Burton e, especialmente, os de Joel Schumacher é verdade. Mas, convenhamos, não chega a ser um elogio tão impressionante...

Cotação: * * *

sexta-feira, 3 de junho de 2005

Música: Trilha sonora do filme "Diários de Motocicleta"

Delicada e intimista, partitura adequa-se com perfeição às belas imagens do filme

- Por André Lux

Um dos fatores que mais chamam a atenção durante a exibição de ''Diários de Motocicleta'' é a sua trilha musical, composta pelo argentino Gustavo Santaolalla (de ''Amores Brutos'' e ''21 Gramas''). E não por ser grandiloqüente ou opulenta, mas sim por ser extremamente delicada e intimista adequando-se com perfeição às imagens captadas pelo diretor Walter Salles e pelo fotógrafo Eric Gautier.

Ao narrar a primeira aventura do jovem Ernesto Guevara muito antes de transformar-se no mitológico ''Che'', o cineasta optou sabiamente por uma aproximação sutil e humana. E isso está refletido na música de Santaolalla que, além de escrever a partitura, também tocou vários dos instrumentos acústicos utilizados nela - violão, guitarra, ronrocco, charango, caja, flautas, percussão, vibros e baixo.

A trilha musical de ''Diários de Motocicleta'' é dominada principalmente pelo violão de Santaolalla, o qual o músico utiliza para para destacar sentimentos de isolamento ou de melancolia, em faixas como ''Lago Frias'', ''Leaving Miramar'', ''Jardín'', ''La Morte De La Poderosa'' e ''Leyendo En El Hospital'', ou para dar contraponto aos diversos tipos de instrumentos de percussão que ressaltarem o sabor ''latino'' do filme, em faixas como ''Apertura'' e ''La Partida''.

O compositor utiliza a guitarra elétrica junto com a percussão na faixa ''La Salida de Lima'', que pontua a seqüência em que Enersto e Alberto saem da capital peruana em direção ao leprosário numa balsa, passando através da música a crescente sensação de inquietação dos protagonistas que Salles busca mostrar neste ponto do filme.

Em momentos de tensão, Santaolalla prefere deixar a música baixa e indefinida usando para isso basicamente solos de percussão (''Procéssion'', ''Amazonas'' e ''El Cruce''). Já em cenas de caráter intimista, predominam a performance de instrumentos de sopro criando uma textura etérea que busca apoio nas imagens invertendo a função da trilha sonora (''Montaña'', ''Círculo En El Rio'' e ''Partida Del Leprosario'').

O material temático e as diferentes instrumentações criadas pelo compositor são resolvidos com precisão e riqueza de detalhes em ''De Usuhaia a La Quiaca'', a qual descreve de maneira tocante a cena que encerra o filme de Walter Salles.

O album com a trilha sonora de ''Diários de Motocicleta'' traz ainda a divertida canção ''Chipi Chipi'' de Gabriel Rodriguez, ''Que Rico El Mambo'' de Dámasco Pérez Prado e a sensível ''Al Outro Lado Del Rio'' composta especialmente para o filme por Jorge Drexler, que também é responsável pelos vocais e solos de violão.

Quem gostou do filme certamente vai apreciar também esse trabalho de muito bom gosto de Gustavo Santaolalla registrado em um CD que contém aproximadamente 38 minutos de música, mas que dá impressão de ser mais curto e deixa um gosto de ''quero mais'' no final - o que é sempre um grande elogio.

Cotação: * * * *

terça-feira, 24 de maio de 2005

Humor: "Falem mal, mas falem de mim..."

Novos comentários cheios de ódio foram postados abaixo (olha o lado negro, cuidado!). Se bem que agora estou entendendo porque tem tanta gente se identificando com o Anakin Skywalker, que (conforme nos mostraram neste horrível "Episódio 3") não passa de um moleque mimado e birrento... Confiram e riam!

É duro ter uma opinião forte, convicta e pessoal sobre um assunto qualquer e não ter medo de dizê-la, especialmente hoje em dia quando a grande maioria das pessoas só sabe repetir as asneiras que lêem ou assistem na mídia corporativa ou da boca de críticos profissionais que se enquadram nas definições abaixo ("Ria dos Críticos").

Fico triste, por exemplo, de ter que escrever uma crítica tão negativa a um filme da saga "Star Wars", já que sou fã incondicional da trilogia original a qual vi no cinema na época em que foi lançada pela primeira vez (1977, quando tinha apenas 8 anos de idade). George Lucas e Luke Skywalker ajudaram muito a minha infância a ser menos patética e, ao menos, pude ter orgulho de ser nerd. A profissão que escolhi tem muito a ver com os filmes (meu projeto de formação acadêmica, por sinal, foi dedicado a George Lucas que "mudou minha vida e nunca vai saber disso").

Só que isso não pode (nem deve) me impedir de perceber que Lucas se perdeu e fez dessa nova trilogia uma besteira indefensável, a não ser por fanáticos da série (que se recusam a crescer e amadurecer) e adolescentes que ainda julgam a qualidade de um filme pela quantidade de efeitos especiais que pipocam na tela (já fui assim, portanto, saibam que isso é normal - o que não é normal é querer convencer os outros na marra que isso é o certo).

Pior que eu comprei briga com um monte de gente que malhou desde o começo essa nova trilogia. Não porque estava achando grande coisa, mas por achar que Lucas tinha realmente tudo planejado para o terceiro capítulo, onde iria ao menos apagar as besteiras que fez. Longe disso! O cara estava mais perdido que cego em tiroteio e achou que botar o Darth Sidius resmungando "Tudo está correndo conforme o planejado..." seria suficiente para nos enganar. Ou seja, quem detonou a nova trilogia desde o início é que, no final das contas, estava certo.

Lucas devia mesmo ter deixado outras pessoas escreverem o roteiro dos novos filmes - qualquer gibi ou mesmo a mini-série "Clone Wars" dão de mil a zero nos "Episódio 1, 2 e 3". Além disso devia ter contratado diretores de verdade para tentar dar vida a tudo isso. Lucas nunca foi um bom diretor. Imagine então agora, com os atores tendo que ler diálogos horríveis na frente de um fundo azul! Faltou alguém ter tido coragem de dizer isso ao bom e velho George. Infelizmente, o cara se fechou dentro do seu império e se cercou de nerds que devem ficar o tempo todo babando o ovo dele ("Olha, George Lucas fez um pum! Que lindo!"). E deu no que deu...

Azar o nossso!

segunda-feira, 23 de maio de 2005

Agradecimentos e sobre "Star Wars"...

Agradeço pelos comentários aqui escritos, tanto daqueles que concordam quanto dos que discordam da minha opinião. Afinal, lembrem-se sempre que uma crítica (por mais tecnicamente embasada e bem escrita que seja) será sempre uma mera opinião. Qualquer um que ache o contrário disso deve ser motivo de risos (vide minha homenagem singela aos profissionais da opinião, "Ria dos Críticos", mais abaixo).

Ah, agradeço especialmente ao rapaz que teve todo o trabalho de vir até aqui só para me dizer, enfurecido, que minhas críticas estão sendo "plenamente ignoradas"! Obrigado também por me lembrar que sou apenas um "amador", caso contrário iria continuar pensando que sou "profissional" e seria obrigado a contratar desde já um advogado para descobrir quem é que está me devendo dinheiro por todas as opiniões que publiquei aqui... :-)

E aos verdadeiros fãs dos "Guerras nas Estrelas" originais, sugiro que revejam o primeiro filme ("Uma Nova Esperança") como fiz ontem. Reparem como existem discrepâncias totalmente absurdas em relação ao péssimo "Episódio 3", principalmente nos diálogos entre Luke e Ben, na casa dele. Sem dizer que a Estrela da Morte ficou mais de 18 anos sendo construída, já que a "inauguração" dela deu-se justamente na destruição de Alderaan...

Alias, vejam abaixo algumas fotos que comprovam as falhas cometidas pelo próprio Lucas:

ENVELHECIMENTO PRECOCE



Beru Lars no final de "Episódio 3"



Beru Lars, nem 20 anos depois, em "Episódio 4"





Owen Lars, em "Episódio 3" (um jovem de no máximo 30 anos)


O mesmo Owen em "Episódio 4", misteriosamente conseguiu ficar com 60 anos! Será efeito do lado negro??




Obi-Wan em "Episódio 3" (35 anos, no máximo)


Em "Episódio 4" com 65 anos, no mínimo. "Onde você foi desencavar esse velho fóssil?", pergunta o despeitado Han Solo.

MEMÓRIA PRODIGIOSA
Diálogo de "Episódio 6 - O Retorno de Jedi"
Luke: "Leia, você lembra da sua mãe verdadeira?"
Leia: "Só um pouco. Ela morreu quando eu era muito jovem. Lembro que ela era muito bonita, gentil mas... triste"
Ou estamos falando do bebê com a memória mais prodigiosa do universo ou então Lucas pisou na bola feio de novo...

MÃO DE OBRA LERDA
De acordo com o final do "Episódio 3", a Estrela da Morte, que foi inaugurada em "Episódio 4" com a destruição de Alderaan, ficou mais de 17 anos em construção! O Imperador deve ter mudado de empreiteira, pois nem 5 anos depois já estava terminando de construir a segunda Estrela da Morte no "Episódio 6"!


Abraços a todos e voltem sempre!

sábado, 21 de maio de 2005

Filmes: "Star Wars: Episódio 3 - A Vingança dos Sith"

A FORÇA NÃO ESTÁ MAIS COM ELE

George Lucas encerra a trilogia inicial de forma constrangedora e comprova que não tinha mesmo mais nada a dizer

- por André Lux, crítico-spam

Finalmente chegou a hora que todo fã da série criada por George Lucas em 1977 esperava desde que ficamos sabendo que ele filmaria a trilogia anterior, a qual deveria mostrar o processo de ascensão e queda de Anakin Skywalker de cavaleiro Jedi para Lorde do Sith.

“Star Wars – Episódio 3: A Vingança dos Sith” era a chance de vermos explicadas, ou ao menos reparadas, todas besteiras e incongruências mostradas nos dois filmes anteriores, já que havia uma esperança que Lucas realmente soubesse o que estava fazendo desde o início e, portanto, teria guardado várias cartas na manga para fechar a trilogia inicial em grande estilo e com alguma coerência.

Mas, tristeza das tristezas, a esperança era falsa. O terceiro filme é tão desconjuntado e sem sentido quanto os outros dois. E as supostas explicações soam forçadas e tolas, especialmente aquela que quer nos convencer que tudo que foi mostrado nos filmes anteriores (inclusive o nascimento de Anakin) fazia parte do infalível plano de conquista do poder de Palpatine! Imperdoável.

Fica absolutamente claro desde o início que Lucas novamente não sabe o que fazer com seus personagens, muito menos tem uma história definida para contar. Sobram então batalhas extravagantes, poluídas por milhares de naves, soldados, robozinhos e monstrinhos criados pelos efeitos digitais, num exagero tão grande que chega a entumecer a consciência do espectador, privando-o de qualquer emoção genuína (e pensar que tem gente que reclama dos fofos Ewoks de “O Retorno de Jedi”!).

Como em “A Ameaça Fantasma” e “O Ataque dos Clones”, o roteiro pula de uma batalha para outra sem qualquer lógica ou coerência, intercalando-as com breves (e patéticas) exposições dos personagens. Há uma luta no planeta natal de Chewbacca totalmente dispensável e redundante, já que nem mesmo conseguimos ver o que está acontecendo, tamanho o número de tiros, explosões e naves passando.

Os Jedi, que supostamente deveriam ser guerreiros invencíveis, nobres e sagazes, são abatidos com extrema facilidade por meros soldados clones e, pior, partem para a porrada com fúria e agressividade que destoam totalmente da sua filosofia pacificadora. Mace Windu (Samuel L. Jackson, novamente desperdiçado), por exemplo, não tem qualquer pudor em tentar decepar a cabeça do vilão Darth Sidius depois de tê-lo desarmado. 

E, pelo amor de deus, como é possível que nenhum deles tenha percebido a verdadeira face do Chanceler Palpatine antes? Se bem que eles não foram capazes nem de perceber que Anakin estava casado com a senadora Amidala...

"Peraí meu bem, vou lá matar 
umas criancinhas e já volto..."
Mas isso não é nada comparado com o que deveria ser o ponto alto da nova trilogia: a transformação de Anakin Skywalker no maligno Darth Vader é absolutamente lamentável. 

Lucas fez três filmes para contar essa história, mas mesmo assim não conseguiu criar nuances e motivos suficientes para tornar a virada de caráter do personagem forte ou minimamente coerente. 

Depois de um monte de “encheção de lingüiça” na primeira metade do filme bastou o rapaz ter dois sonhos “premonitórios” sobre a morte da sua amada Padmé (muito mal encenados, por sinal) e meia dúzia de promessas vazias sobre a possibilidade de “ressuscitar os mortos” proferidas pelo vilão e pronto: Anakin já se volta contra os Jedi e sai matando inclusive criancinhas indefesas, enquanto faz cara de psicopata! 

Essa virada é tão mal construída e imbecil que o apoteótico confronto final entre ele e Obi-Wan não convence nem um minuto, ainda mais do jeito que foi idealizado com os dois surfando e duelando absurdamente sobre rios de lava incandescente.

O mais triste de tudo é que não há mais ninguém a culpar a não ser o próprio criador da série, George Lucas, já que todos os filmes são frutos da imaginação e do empenho dele. Não adianta nem reclamar da inexpressiva atuação do elenco (em particular à de Hayden Cristensen, como Anakin, canastrão ao extremo, e à de Ian McDiarmid, totalmente descontrolado e ridículo quando finalmente vira Darth Sidius), afinal a direção é inexistente e o filme flui desconjuntado e sem qualquer foco narrativo até o final, alternando batalhas caóticas com cenas tediosas de exposição da trama repletas de diálogos constrangedores. 

Não vou nem perder tempo falando do grotesco General Grievous, que deveria ser um dos vilões memoráveis do filme, mas não passa de um boneco digital bobo com problemas no pulmão, o qual não tem a nada a fazer exceto ser morto de forma patética.

Assusta também a maneira como Lucas não respeita nem as revelações que já estão nos filmes subseqüentes. Vários diálogos dos Episódios 4 e 6, por exemplo, ficam comprometidos, tais como Obi-Wan dizendo a Luke que não é chamado por esse nome desde há muito tempo antes dele nascer, Leia dividindo com o irmão pequenas lembranças de sua convivência com a mãe ou mesmo o tio de Luke chamando Ben Kenobi de “aquele velho louco”! 

O que dizer então da falta de coerência cronológica entre o Episódio 3 e o 4? Do nascimento de Luke até o seu encontro com o velho mestre Jedi devem ter passado cerca de 17 anos. Mas enquanto Ewan McGregor aparenta, no máximo, uns 35 anos, Alec Guiness certamente já tem mais de 60 anos! A mesma coisa valendo para os tios de Luke, praticamente adolescente no final de "A Vingança dos Sith", mas sessentões em "Uma Nova Esperança".

A fraca trilha musical de John Williams demonstra claramente a falta de inspiração do compositor com o material apresentado, tanto é que o filme só consegue emocionar um pouco durante os últimos minutos de projeção, quando Lucas tenta fechar tola e apressadamente os vários nós que conduzem à próxima trilogia, momentos em que Williams revisita alguns dos temas musicais antigos em grande estilo.

Enfim, “Episódio 3” é a prova definitiva que a “Força" não está mais com George Lucas. Até a série animada "Clone Wars" deu de dez a zero nele. Mas mesmo assim tem gente achando que esse filme é muito melhor que “A Ameaça Fantasma” e “O Ataque dos Clones”. 

Permitam-me discordar. Os três são igualmente ruins, desconjuntados e sem sentido, mas os dois primeiros ao menos reservaram algumas seqüências realmente emocionantes (como a corrida de pod racers do primeiro ou a morte da mãe de Anakin no segundo) e duelos memoráveis (especialmente aquele entre os Jedi e o terrível Darth Maul). Sem dizer que sempre restava a esperança de que o último filme redimiria os anteriores.

Ser fã da série original é uma coisa. Ser fanático e fechar os olhos aos incontáveis defeitos dessa nova empreitada é outra bem diferente. Melhor mesmo é rever a trilogia original e esquecer esses três filmes desastrosos, que serviram apenas para nos ensinar que os Jedi não passavam de tolos desmiolados e que o tão temido vilão Darth Vader era nada mais que um moleque mimado e birrento cuja visão política causaria orgulho tanto a Adolf Hitler quanto ao seu novo discípulo, George W. Bush.

Sinceramente, nós fãs de Star Wars não mereciamos isso...

Cotação: *
Cotação da trilogia inicial (Episódios 1, 2 e 3):
* *
Cotação da trilogia subseqüente (Episódios 4, 5 e 6): * * * * 1/2

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quinta-feira, 19 de maio de 2005

Filmes: "Cruzada"

MAIS UM PREGO NO CAIXÃO

Novo filme do diretor Ridley Scott é ruim como cinema e pior ainda como lição de história


- Por André Lux

Podem tirar Ridley Scott da sua lista de diretores preferidos. O autor de obras-primas do cinema moderno, como “Alien” e “Blade Runner”, saiu de cena já há alguns anos quando se rendeu ao cinema puramente comercial, onde forma não rima com conteúdo. Seu último longa, “Cruzada”, é uma grande besteira que pretende contar uma história real (a retomada de Jerusalém dos cristãos pelos árabes), mas inventa um monte de sub-tramas absurdas que destoam totalmente da realidade e tiram qualquer chance do filme ser minimamente interessante.

Já começa mal, mostrando um nobre (Liam Neeson, de “A Lista de Schindler”, sem nada o que fazer) que vem em busca de seu filho bastardo, Balian (o fraquíssimo Orlando Bloom, de “O Senhor dos Anéis”), para lhe passar a sucessão do seu baronato, na intenção de se redimir (do que, nunca saberemos pois o roteirista esqueceu de explicar). Em menos de 10 minutos de projeção o nobre é morto e o moço herda o título do pai, partindo para Jerusalém em busca de perdão e sabe-se lá mais o que.

Se o filme já estava confuso, a partir do momento que a ação pula para a terra prometida fica simplesmente incompreensível, a não ser que você seja professor de história. Nomes e personagens são jogados aos montes na tela sem qualquer preocupação em situá-los dentro do contexto histórico da época. Dali em diante simplesmente não há nada a ser contado e Scott e o roteirista William Monahan limitam-se a “encher lingüiça” mostrando belas paisagens e seqüências redundantes e sem qualquer impacto até chegar a hora da batalha final. Inventam até um romance entre o protagonista e a futura rainha da cidade (a bela Eva Green)!

A verdade é que criaram todo um enredo fictício em volta de um personagem real, o tal Bailian que liderou a defesa de Jerusalém contra os árabes, com a clara intenção de fazer uma parábola com os conflitos atuais que acontecem no mesmo local, sagrado para várias religiões. Apesar de pregarem a paz e o entendimento durante toda a projeção, essa “mensagem” é destruída quando acontece o ataque final, durante o qual Bailian profere ridículos discursos a favor da liberdade e do “povo”, descabidos tanto para a época, quanto para o próprio desenvolvimento temático apresentado até então. Não seria mais fácil ele ir até o sultão Saladin e negociar a rendição da cidade, evitando assim a guerra inútil (até porque ele já havia conquistado o respeito do braço-direito dele)? Por causa desse descompasso, dá para entender claramente porque alguns críticos têm acusado Scott de fazer propaganda da política imperialista de George Bush (que justifica a invasão de outros países e o genocídio de seus povos em nome de uma suposta “democracia”), enquanto o diretor se defende dizendo que queria mesmo era passar uma mensagem de paz e tolerância.

Mas do jeito que ficou não serve nem mesmo como crítica à igreja Católica, já que o novo rei é mostrado de forma totalmente caricata, com arroubos de vilania sem sentido, enquanto o antigo governante é pintado como um anjo do bem, pregando a paz e a tolerância por pura bondade. Se tivessem tentado retratar os dois com tintas mais realistas, poderíamos ao menos entender as motivações reais por trás de suas atitudes. O único personagem que ganha alguma humanidade é justamente o sultão árabe, que normalmente seria o vilão em filmes estadunidenses, mas sua presença em tela é tão pequena que não é suficiente para marcar.

Se conceitualmente o filme é um total desacerto, tecnicamente então é um desastre. Não existe em “Cruzada” nem a sombra do virtuosismo técnico que Scott imprimia às suas antigas produções. A fotografia é escura (em algumas cenas-chave mal se vê o rosto dos atores) e tremida nas cenas de batalha (ou seja, fica impossível entender o que se sucede). Além disso, o diretor abusa de filtros azuis que deixam tudo artificial, truque estético obtuso a lá MTV que vem usando desde “Gladiador”.

O que dizer então da música, escrita por um dos clones do sofrível Hans Zimmer, que é um arremedo de orquestrações simplistas enfeitadas com instrumentação exótica e vocalizações pseudo-eruditas? É tudo tão inexpressivo que numa das cenas mais “emocionantes” do filme (quando Bailian discursa e transforma os servos em cavaleiros) tiveram que usar uma música que o grande Jerry Goldsmith compôs para o filme “O 13º Guerreiro”.

Enfim, depois de cometer filmes grotescos como “Hannibal”, “G.I. Jane” e “Falcão Negro em Perigo”, este “Cruzada” é somente mais um prego no caixão do autor criativo que Ridley Scott foi outrora. Só não é pior que “Gladiador” pois não tem aquela mensagem fascista de busca pela vingança a qualquer preço. Todavia, é tão insípido e tolo que não vale a pena nem perder tempo discutindo-o. Ou seja, é ruim como cinema e pior ainda como lição de história.

Cotação: *

segunda-feira, 16 de maio de 2005

Humor: Ria dos Críticos!

Vamos ser francos: não existe nada mais patético do que “críticos profissionais” que se levam a sério. Enquanto milhares de pessoas ganham a vida produtivamente construindo pontes, realizando cirurgias cardio-vasculares, entregando cartas, escrevendo livros ou retirando os lixos das ruas, existem certas pessoas que vivem de “tecer opiniões sobre o trabalho dos outros”.

Não que tenhamos algo contra a expressão de opiniões, algo normal e até louvável. O problema começa quando uma parcela da população começa a ganhar dinheiro fazendo isso e, tristeza das tristezas, passa a acreditar piamente que essa profissão é realmente algo de vital importância para a raça humana, a ponto de merecer respeito ou mesmo admiração incontestes!

Mas é fácil entender porque os tais “críticos profissionais” são, com raras exceções, tão virulentos e ferozes ao defender a sua maneira de ganhar o pão de cada dia. Imagine só como fica a cabeça de uma pessoa que, no fundo, sabe que é apenas um pária social, um tipo de sangue-suga, que passa a vida tendo que tecer opiniões (geralmente negativas) sobre o trabalho produtivo realizado pelos outros - o qual (via de regra) ele não seria capaz de realizar.

Deu pra sentir a que níveis vão a insegurança, o medo e a falta de auto-estima dessas pessoas? Se não bastasse todos nós termos que lidar com esse tipo de limitação psicológica (inerente à espécie humana), pense como seria viver todos os dias sabendo que seu salário mensal depende, única e exclusivamente, do suor de outras pessoas que você nem conhece!

E eu sei do que estou falando, pois exerci por alguns meses a função de "crítico" para um site que gostava. Posso dizer que senti na pele como esse negócio de "exprimir opiniões em público" pode subir à cabeça e deixar você intolerante à opiniões contrárias e críticas ao que escreveu. 

E olha que eu nem era "profissional", fazia aquilo por puro hobby apenas para tentar ajudar um site bacana que estava falido, sem receber nada em troca... Felizmente percebi isso há tempo e pulei fora, voltando meu foco para realizações profissionais e pessoais mais gratificantes.

Sacou agora porque os ditos “críticos profissionais” são, em geral, assim tão cheios-de-si e arrogantes e porque temos que sentir pena deles e não raiva? Não? Então vou facilitar ainda mais a sua vida, tentando dissecar abaixo os vários tipos deles que existem por aí para que possa entender melhor o que se passa na cabeça desse estranho povo! Você certamente já conheceu algum ou já leu algo que um deles escreveu. 

Importante notar que, normalmente, eles possuem todas as características listadas abaixo, embora uma delas vai se sobressair em cada uma dessas figuras bisonhas.

1) CRÍTICO-DEUS: É o tipo mais patético e, também, o mais perigoso. Dono de uma imensa insegurança e de um gigantesco complexo de inferioridade, o “Crítico-Deus” se reveste com o famoso escudo de dono da verdade para tentar desviar a atenção da sua frágil condição psicológica. 

É o “sabe tudo”, cuja sapiência e compreensão dos fatos estão além do que o resto dos mortais sequer sonha em conhecer. 

Esse tipo de pessoa julga-se em contato direto com o “Deus das Artes”, fato que o permite fazer análises sublimes e intocáveis sobre qualquer obra - as quais, por sinal, eles fariam bem melhor caso quisessem ou tivessem tempo. 

Para esse tipo de profissional, “uma crítica não é uma opinião”. Portanto, jamais ouse discutir, muito menos contrariar, o “Crítico-Deus”, pois ele será capaz de ter reações extremamente violentas e ferozes, do tipo escrever textos gigantescos, cheio de pseudo-ironias e auto-indulgência só para tentar denegrir a opinião de quem não concordou com ele ou ousou apontar um erro que cometeu em alguma análise!

2) CRÍTICO-AMIGO (ou CRÍTICO-VASELINA): Esse é o crítico que mais faz rir involuntariamente. Dono de um complexo de inferioridade astronômico que o leva a ter uma necessidade patológica por aprovação, o “Crítico-Amigo” traveste suas opiniões com todo o tipo de “fofuras” e comentários simpáticos. 

Assim, ele pensa, vai ser mais fácil todo mundo gostar dele e aprová-lo. “Vejam como sou boa-praça”, parecem querer dizer. 

O problema começa quando o “Crítico-Amigo” tem que falar mal de uma obra de arte. Aí, via de regra, ele vai escrever um texto imenso, no qual vai intercalar cada comentário negativo com cerca de dois parágrafos onde vai explicar detalhadamente porque está sendo tão “vilão”, praticamente pedindo desculpas aos que eventualmente gostaram da obra e que, por causa do seu comentário negativo, podem vir a não aprová-lo. 

Todavia, não se engane: todo “Crítico-Amigo” é, no fundo, um “Crítico-Deus” disfarçado. Se duvida, aponte em público erros que ele cometeu em suas análises ou discorde frontalmente do que ele disse com uma opinião convicta e isenta de “floreios”. A máscara de “amigo de todos” dele vai sumir rapidinho e o ataque será mais cruel do que o de uma hiena esfomeada!

3) CRÍTICO-PIMBA: Para quem não sabe, PIMBA quer dizer “Pseudo-Intelectual-Metido-A-Besta”

Como a própria definição já deixa clara, esse tipo de crítico tenta disfarçar sua insegurança, ignorância e medo com um linguajar rebuscado, ininteligível e, via de regra, sem sentido (a não ser para ele e para meia dúzia de amigos que vão ao mesmo cine-clube).

Felizmente esse tipo de técnica já ficou por demais manjada, tornando os “Críticos-Pimba” motivo de chacota para quase todos. Todavia, existem algumas pessoas, cuja auto-estima é ainda menor do que a deles, que ainda se impressionam com o tipo de coisas que escrevem, tais como: “olho-matéria”, “dicotomia”, "estética da fome", “dialética”, “sincretismo”, etc... 

Quando o “Crítico-Pimba” toma contato com uma obra pretensiosa e badalada que não entende ou que simplesmente não faz sentido, diz que é "genial" e então copia o que está escrito no press-release dela ou o que leu em alguma entrevista com o autor. 

Cinemão de Hollywood e qualquer outro tipo de arte popular ou de entretenimento serão sistematicamente odiados por esse tipo de crítico. Jamais fale mal de um filme de David Lynch, do “cinema asiático”, do Gerald Thomas, do grupo YES ou da 9ª Sinfonia de Shostakovsky perto de um “Crítico-Pimba”, caso contrário ele vai desprezá-lo para o resto da sua vida... pensando bem, fale mal sim!

4) CRÍTICO-POLIANA: Esse exemplar de crítico nunca vê maldade ou mensagens subliminares em nada que lê, escuta ou assiste, muito menos acha que filmes, livros ou músicas podem trazer mensagens danosas para as pessoas ou para a sociedade em geral. 

“Rambo II” ou "Comando para Matar", para eles, são somente filmes de aventuras bacanas, enquanto artistas ou pensadores como Michael Moore, Noam Chomsky ou Oliver Stone são apenas paranoicos com mania de perseguição. 

“Críticos-Poliana” normalmente gostam de tudo, até do filme "Mulher-Gato", do Steven Seagal, das músicas do É o Tchan e até das novelas da rede Globo! São ideais para trabalhar em revistas como "Veja", "Contigo", "Caras" e outros veículos de comunicação cujos donos preocupam-se mais com prestígio do que com conteúdo de qualidade.

5) CRÍTICO-SINÓPSE: Você já leu uma crítica que é, basicamente, um resumo da história apresentada na obra? 

Então você conheceu um “Crítico-Sinopse”, que é uma variação do “Crítico-Amigo”, só que bem mais ameno. 

Inseguro de suas opiniões e desesperado para esconder o fato que nada entende sobre o que está falando, esse tipo de profissional da crítica limita-se a contar a trama da obra do começo ao fim, repetindo até frases e diálogos para mostrar que realmente estava atento ao que via. 

É comum também ele enumerar "citações" de outras obras que pensa ter vislumbrado no material que está analisando (assim vão achá-lo culto, sonha). Muito raramente o “Crítico-Sinopse” até se arrisca a colocar alguma opinião concreta sobre o produto no final de seu texto, mas via de regra você vai terminar de ler tudo que ele escreveu e se perguntar: “Afinal, esse cara gostou ou não da obra?”. 

A única vantagem do “Sinopse” sobre o “Amigo” é que ele vai fugir de polêmicas como o diabo foge da cruz, enquanto o segundo vai virar “Deus” ao ser contrariado e contra-atacar violentamente.

6) CRÍTICO-DIVA (ou CRÍTICO-ESTRELA): É do tipo que se julga tão ou mais importante que os verdadeiros artistas sobre o qual escreve. 

Nunca ligue um holofote ou aponte um microfone para esse tipo de profissional, pois ele vai se abrir todo como um pavão enamorado. 

O “Crítico-Diva” é uma celebridade, ao menos na cabeça dele, e ponto final. É inútil tentar convencê-lo do contrário. 

Seus textos geralmente são recheados de auto-adulação, comentários pessoais (do tipo "...quando entrevistei o ator Fulano em Cannes"), fofocas picantes sobre celebridades e referências maldosas a partes do corpo dos artistas em questão. 

Outra particularidade: se alguma celebridade não der a ele a devida atenção que pensa merecer, o "Crítico-Diva" vai passar a falar mal de qualquer trabalho no qual essa pessoa estiver envolvida!

7) CRITICUZINHO: O advento da internet trouxe várias vantagens para todos - democratização da informação, contato direto com pessoas do mundo inteiro, pornografia gratuíta, etc. 

Mas como nem tudo são flores, a internet também gerou um novo tipo de celeuma social: adolescentes problemáticos e carentes com excesso de tempo livre passaram a usar a rede como forma de descontar suas frustrações e traumas em tudo quanto é fórum de discussões, blogs, redes sociais ou qualquer outro lugar que possam vomitar seus recalques. 

E, como era de se esperar, muitas dessas pessoas com excesso de hormônios e nada de sexo julgam-se críticos de arte só porque assistem tudo quanto é filme ou leram todos os livros do "Harry Potter". Assim, espalham suas "críticas" pela net e, pior de tudo, muita gente acaba levando a sério as asneiras que escrevem e alguns, pasmem, chegam até a publicar seus textos em sites pretensamente sérios! 

Aviso: ao encontrar um tipo desses fuja depressa, caso contrário ele vai te perseguir até o final dos tempos via email, criando blogs do tipo "eu odeio você!", perfis falsos no facebook para te atacar, etc. Que falta que faz um(a) namorado(a), não?

8) CRÍTICO-ARTISTA: Sabe aqueles artistas frustrados e sem talento, que tentaram, mas não conseguiram seguir carreira no meio? 

Muitos percebem que não sabem fazer mais nada de útil na vida e então viram "críticos" para, pelo menos, ficarem próximos do mundo ao qual não conseguiram fazer parte. 

Os textos desse tipo de profissional da opinião são muito fáceis de reconhecer, pois são sempre escritos na primeira pessoa e analisam a obra em questão a partir do seguinte ponto de vista: "como tudo teria sido (melhor) se fosse eu quem a tivesse realizado, caso minha agenda não fosse tão lotada".

Mas, agora, você deve estar se perguntando: "Quer dizer então que nenhum crítico presta?". Claro que sim! Conheça-o abaixo:

8) CRÍTICO-DECENTE: Esse é o único tipo de crítico que se pode levar a sério e, por isso mesmo, cada vez mais raro de se encontrar na mídia.

Cientes da sua condição de meros tecedores de opinião sobre o trabalho alheio e das suas próprias limitações humanas, o “Crítico-Decente” fala sobre a obra de arte levando em conta a sua própria visão de mundo, sem delongas e sem disfarces. 

Esse profissional sabe que o que escreve pode servir, no máximo, como base e referência para pessoas que buscam saber mais sobre arte em geral, mas também gostam de ler ou ouvir uma opinião sincera, clara e confessadamente parcial. 

Ele sabe que uma crítica é somente uma opinião e, por isso, faz de seu trabalho algo agradável e bem humorado, ficando aberto a réplicas e sem medo de dialogar com o interlocutor, podendo até aprender algo novo neste processo.

Todos os outros tipo de críticos listados acima (especialmente o "Deus" e o "Amigo") simplesmente “estrebucham” na presença de um “Crítico-Decente” e, via de regra, fazem de tudo para desacreditá-lo publicamente, como se isso fosse suficiente para garantir a sobrevivência deles e anular suas frustrações e inseguras pessoais. 

Tendo em vista que a maioria dos veículos de comunicação é dominado por pessoas extremamente mal resolvidas e sem auto-estima, é compreensível que profissionais como o listado acima encontrem cada vez mais portas fechadas ao seu trabalho...

P.S.: Claro que, na minha opinião, eu seria um "Crítico-Decente" caso tivesse que ganhar a vida escrevendo sobre o trabalho produtivos dos outros. Mas não precisa me chamar de frustrado, muito menos concordar comigo. Afinal, opinião é como bunda: cada um tem a sua! Agora vamos esperar alguém vestir a carapuça e deixar uma mensagem ultrajante aqui.