Novo filme do diretor Ridley Scott é ruim como cinema e pior ainda como lição de história
- Por André Lux
Podem tirar Ridley Scott da sua lista de diretores preferidos. O autor de obras-primas do cinema moderno, como “Alien” e “Blade Runner”, saiu de cena já há alguns anos quando se rendeu ao cinema puramente comercial, onde forma não rima com conteúdo. Seu último longa, “Cruzada”, é uma grande besteira que pretende contar uma história real (a retomada de Jerusalém dos cristãos pelos árabes), mas inventa um monte de sub-tramas absurdas que destoam totalmente da realidade e tiram qualquer chance do filme ser minimamente interessante.
Já começa mal, mostrando um nobre (Liam Neeson, de “A Lista de Schindler”, sem nada o que fazer) que vem em busca de seu filho bastardo, Balian (o fraquíssimo Orlando Bloom, de “O Senhor dos Anéis”), para lhe passar a sucessão do seu baronato, na intenção de se redimir (do que, nunca saberemos pois o roteirista esqueceu de explicar). Em menos de 10 minutos de projeção o nobre é morto e o moço herda o título do pai, partindo para Jerusalém em busca de perdão e sabe-se lá mais o que.
Se o filme já estava confuso, a partir do momento que a ação pula para a terra prometida fica simplesmente incompreensível, a não ser que você seja professor de história. Nomes e personagens são jogados aos montes na tela sem qualquer preocupação em situá-los dentro do contexto histórico da época. Dali em diante simplesmente não há nada a ser contado e Scott e o roteirista William Monahan limitam-se a “encher lingüiça” mostrando belas paisagens e seqüências redundantes e sem qualquer impacto até chegar a hora da batalha final. Inventam até um romance entre o protagonista e a futura rainha da cidade (a bela Eva Green)!
A verdade é que criaram todo um enredo fictício em volta de um personagem real, o tal Bailian que liderou a defesa de Jerusalém contra os árabes, com a clara intenção de fazer uma parábola com os conflitos atuais que acontecem no mesmo local, sagrado para várias religiões. Apesar de pregarem a paz e o entendimento durante toda a projeção, essa “mensagem” é destruída quando acontece o ataque final, durante o qual Bailian profere ridículos discursos a favor da liberdade e do “povo”, descabidos tanto para a época, quanto para o próprio desenvolvimento temático apresentado até então. Não seria mais fácil ele ir até o sultão Saladin e negociar a rendição da cidade, evitando assim a guerra inútil (até porque ele já havia conquistado o respeito do braço-direito dele)? Por causa desse descompasso, dá para entender claramente porque alguns críticos têm acusado Scott de fazer propaganda da política imperialista de George Bush (que justifica a invasão de outros países e o genocídio de seus povos em nome de uma suposta “democracia”), enquanto o diretor se defende dizendo que queria mesmo era passar uma mensagem de paz e tolerância.
Mas do jeito que ficou não serve nem mesmo como crítica à igreja Católica, já que o novo rei é mostrado de forma totalmente caricata, com arroubos de vilania sem sentido, enquanto o antigo governante é pintado como um anjo do bem, pregando a paz e a tolerância por pura bondade. Se tivessem tentado retratar os dois com tintas mais realistas, poderíamos ao menos entender as motivações reais por trás de suas atitudes. O único personagem que ganha alguma humanidade é justamente o sultão árabe, que normalmente seria o vilão em filmes estadunidenses, mas sua presença em tela é tão pequena que não é suficiente para marcar.
Se conceitualmente o filme é um total desacerto, tecnicamente então é um desastre. Não existe em “Cruzada” nem a sombra do virtuosismo técnico que Scott imprimia às suas antigas produções. A fotografia é escura (em algumas cenas-chave mal se vê o rosto dos atores) e tremida nas cenas de batalha (ou seja, fica impossível entender o que se sucede). Além disso, o diretor abusa de filtros azuis que deixam tudo artificial, truque estético obtuso a lá MTV que vem usando desde “Gladiador”.
O que dizer então da música, escrita por um dos clones do sofrível Hans Zimmer, que é um arremedo de orquestrações simplistas enfeitadas com instrumentação exótica e vocalizações pseudo-eruditas? É tudo tão inexpressivo que numa das cenas mais “emocionantes” do filme (quando Bailian discursa e transforma os servos em cavaleiros) tiveram que usar uma música que o grande Jerry Goldsmith compôs para o filme “O 13º Guerreiro”.
Já começa mal, mostrando um nobre (Liam Neeson, de “A Lista de Schindler”, sem nada o que fazer) que vem em busca de seu filho bastardo, Balian (o fraquíssimo Orlando Bloom, de “O Senhor dos Anéis”), para lhe passar a sucessão do seu baronato, na intenção de se redimir (do que, nunca saberemos pois o roteirista esqueceu de explicar). Em menos de 10 minutos de projeção o nobre é morto e o moço herda o título do pai, partindo para Jerusalém em busca de perdão e sabe-se lá mais o que.
Se o filme já estava confuso, a partir do momento que a ação pula para a terra prometida fica simplesmente incompreensível, a não ser que você seja professor de história. Nomes e personagens são jogados aos montes na tela sem qualquer preocupação em situá-los dentro do contexto histórico da época. Dali em diante simplesmente não há nada a ser contado e Scott e o roteirista William Monahan limitam-se a “encher lingüiça” mostrando belas paisagens e seqüências redundantes e sem qualquer impacto até chegar a hora da batalha final. Inventam até um romance entre o protagonista e a futura rainha da cidade (a bela Eva Green)!
A verdade é que criaram todo um enredo fictício em volta de um personagem real, o tal Bailian que liderou a defesa de Jerusalém contra os árabes, com a clara intenção de fazer uma parábola com os conflitos atuais que acontecem no mesmo local, sagrado para várias religiões. Apesar de pregarem a paz e o entendimento durante toda a projeção, essa “mensagem” é destruída quando acontece o ataque final, durante o qual Bailian profere ridículos discursos a favor da liberdade e do “povo”, descabidos tanto para a época, quanto para o próprio desenvolvimento temático apresentado até então. Não seria mais fácil ele ir até o sultão Saladin e negociar a rendição da cidade, evitando assim a guerra inútil (até porque ele já havia conquistado o respeito do braço-direito dele)? Por causa desse descompasso, dá para entender claramente porque alguns críticos têm acusado Scott de fazer propaganda da política imperialista de George Bush (que justifica a invasão de outros países e o genocídio de seus povos em nome de uma suposta “democracia”), enquanto o diretor se defende dizendo que queria mesmo era passar uma mensagem de paz e tolerância.
Mas do jeito que ficou não serve nem mesmo como crítica à igreja Católica, já que o novo rei é mostrado de forma totalmente caricata, com arroubos de vilania sem sentido, enquanto o antigo governante é pintado como um anjo do bem, pregando a paz e a tolerância por pura bondade. Se tivessem tentado retratar os dois com tintas mais realistas, poderíamos ao menos entender as motivações reais por trás de suas atitudes. O único personagem que ganha alguma humanidade é justamente o sultão árabe, que normalmente seria o vilão em filmes estadunidenses, mas sua presença em tela é tão pequena que não é suficiente para marcar.
Se conceitualmente o filme é um total desacerto, tecnicamente então é um desastre. Não existe em “Cruzada” nem a sombra do virtuosismo técnico que Scott imprimia às suas antigas produções. A fotografia é escura (em algumas cenas-chave mal se vê o rosto dos atores) e tremida nas cenas de batalha (ou seja, fica impossível entender o que se sucede). Além disso, o diretor abusa de filtros azuis que deixam tudo artificial, truque estético obtuso a lá MTV que vem usando desde “Gladiador”.
O que dizer então da música, escrita por um dos clones do sofrível Hans Zimmer, que é um arremedo de orquestrações simplistas enfeitadas com instrumentação exótica e vocalizações pseudo-eruditas? É tudo tão inexpressivo que numa das cenas mais “emocionantes” do filme (quando Bailian discursa e transforma os servos em cavaleiros) tiveram que usar uma música que o grande Jerry Goldsmith compôs para o filme “O 13º Guerreiro”.
Enfim, depois de cometer filmes grotescos como “Hannibal”, “G.I. Jane” e “Falcão Negro em Perigo”, este “Cruzada” é somente mais um prego no caixão do autor criativo que Ridley Scott foi outrora. Só não é pior que “Gladiador” pois não tem aquela mensagem fascista de busca pela vingança a qualquer preço. Todavia, é tão insípido e tolo que não vale a pena nem perder tempo discutindo-o. Ou seja, é ruim como cinema e pior ainda como lição de história.
Cotação: *














