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quinta-feira, 19 de maio de 2005

Filmes: "Cruzada"

MAIS UM PREGO NO CAIXÃO

Novo filme do diretor Ridley Scott é ruim como cinema e pior ainda como lição de história


- Por André Lux

Podem tirar Ridley Scott da sua lista de diretores preferidos. O autor de obras-primas do cinema moderno, como “Alien” e “Blade Runner”, saiu de cena já há alguns anos quando se rendeu ao cinema puramente comercial, onde forma não rima com conteúdo. Seu último longa, “Cruzada”, é uma grande besteira que pretende contar uma história real (a retomada de Jerusalém dos cristãos pelos árabes), mas inventa um monte de sub-tramas absurdas que destoam totalmente da realidade e tiram qualquer chance do filme ser minimamente interessante.

Já começa mal, mostrando um nobre (Liam Neeson, de “A Lista de Schindler”, sem nada o que fazer) que vem em busca de seu filho bastardo, Balian (o fraquíssimo Orlando Bloom, de “O Senhor dos Anéis”), para lhe passar a sucessão do seu baronato, na intenção de se redimir (do que, nunca saberemos pois o roteirista esqueceu de explicar). Em menos de 10 minutos de projeção o nobre é morto e o moço herda o título do pai, partindo para Jerusalém em busca de perdão e sabe-se lá mais o que.

Se o filme já estava confuso, a partir do momento que a ação pula para a terra prometida fica simplesmente incompreensível, a não ser que você seja professor de história. Nomes e personagens são jogados aos montes na tela sem qualquer preocupação em situá-los dentro do contexto histórico da época. Dali em diante simplesmente não há nada a ser contado e Scott e o roteirista William Monahan limitam-se a “encher lingüiça” mostrando belas paisagens e seqüências redundantes e sem qualquer impacto até chegar a hora da batalha final. Inventam até um romance entre o protagonista e a futura rainha da cidade (a bela Eva Green)!

A verdade é que criaram todo um enredo fictício em volta de um personagem real, o tal Bailian que liderou a defesa de Jerusalém contra os árabes, com a clara intenção de fazer uma parábola com os conflitos atuais que acontecem no mesmo local, sagrado para várias religiões. Apesar de pregarem a paz e o entendimento durante toda a projeção, essa “mensagem” é destruída quando acontece o ataque final, durante o qual Bailian profere ridículos discursos a favor da liberdade e do “povo”, descabidos tanto para a época, quanto para o próprio desenvolvimento temático apresentado até então. Não seria mais fácil ele ir até o sultão Saladin e negociar a rendição da cidade, evitando assim a guerra inútil (até porque ele já havia conquistado o respeito do braço-direito dele)? Por causa desse descompasso, dá para entender claramente porque alguns críticos têm acusado Scott de fazer propaganda da política imperialista de George Bush (que justifica a invasão de outros países e o genocídio de seus povos em nome de uma suposta “democracia”), enquanto o diretor se defende dizendo que queria mesmo era passar uma mensagem de paz e tolerância.

Mas do jeito que ficou não serve nem mesmo como crítica à igreja Católica, já que o novo rei é mostrado de forma totalmente caricata, com arroubos de vilania sem sentido, enquanto o antigo governante é pintado como um anjo do bem, pregando a paz e a tolerância por pura bondade. Se tivessem tentado retratar os dois com tintas mais realistas, poderíamos ao menos entender as motivações reais por trás de suas atitudes. O único personagem que ganha alguma humanidade é justamente o sultão árabe, que normalmente seria o vilão em filmes estadunidenses, mas sua presença em tela é tão pequena que não é suficiente para marcar.

Se conceitualmente o filme é um total desacerto, tecnicamente então é um desastre. Não existe em “Cruzada” nem a sombra do virtuosismo técnico que Scott imprimia às suas antigas produções. A fotografia é escura (em algumas cenas-chave mal se vê o rosto dos atores) e tremida nas cenas de batalha (ou seja, fica impossível entender o que se sucede). Além disso, o diretor abusa de filtros azuis que deixam tudo artificial, truque estético obtuso a lá MTV que vem usando desde “Gladiador”.

O que dizer então da música, escrita por um dos clones do sofrível Hans Zimmer, que é um arremedo de orquestrações simplistas enfeitadas com instrumentação exótica e vocalizações pseudo-eruditas? É tudo tão inexpressivo que numa das cenas mais “emocionantes” do filme (quando Bailian discursa e transforma os servos em cavaleiros) tiveram que usar uma música que o grande Jerry Goldsmith compôs para o filme “O 13º Guerreiro”.

Enfim, depois de cometer filmes grotescos como “Hannibal”, “G.I. Jane” e “Falcão Negro em Perigo”, este “Cruzada” é somente mais um prego no caixão do autor criativo que Ridley Scott foi outrora. Só não é pior que “Gladiador” pois não tem aquela mensagem fascista de busca pela vingança a qualquer preço. Todavia, é tão insípido e tolo que não vale a pena nem perder tempo discutindo-o. Ou seja, é ruim como cinema e pior ainda como lição de história.

Cotação: *

segunda-feira, 16 de maio de 2005

Humor: Ria dos Críticos!

Vamos ser francos: não existe nada mais patético do que “críticos profissionais” que se levam a sério. Enquanto milhares de pessoas ganham a vida produtivamente construindo pontes, realizando cirurgias cardio-vasculares, entregando cartas, escrevendo livros ou retirando os lixos das ruas, existem certas pessoas que vivem de “tecer opiniões sobre o trabalho dos outros”.

Não que tenhamos algo contra a expressão de opiniões, algo normal e até louvável. O problema começa quando uma parcela da população começa a ganhar dinheiro fazendo isso e, tristeza das tristezas, passa a acreditar piamente que essa profissão é realmente algo de vital importância para a raça humana, a ponto de merecer respeito ou mesmo admiração incontestes!

Mas é fácil entender porque os tais “críticos profissionais” são, com raras exceções, tão virulentos e ferozes ao defender a sua maneira de ganhar o pão de cada dia. Imagine só como fica a cabeça de uma pessoa que, no fundo, sabe que é apenas um pária social, um tipo de sangue-suga, que passa a vida tendo que tecer opiniões (geralmente negativas) sobre o trabalho produtivo realizado pelos outros - o qual (via de regra) ele não seria capaz de realizar.

Deu pra sentir a que níveis vão a insegurança, o medo e a falta de auto-estima dessas pessoas? Se não bastasse todos nós termos que lidar com esse tipo de limitação psicológica (inerente à espécie humana), pense como seria viver todos os dias sabendo que seu salário mensal depende, única e exclusivamente, do suor de outras pessoas que você nem conhece!

E eu sei do que estou falando, pois exerci por alguns meses a função de "crítico" para um site que gostava. Posso dizer que senti na pele como esse negócio de "exprimir opiniões em público" pode subir à cabeça e deixar você intolerante à opiniões contrárias e críticas ao que escreveu. 

E olha que eu nem era "profissional", fazia aquilo por puro hobby apenas para tentar ajudar um site bacana que estava falido, sem receber nada em troca... Felizmente percebi isso há tempo e pulei fora, voltando meu foco para realizações profissionais e pessoais mais gratificantes.

Sacou agora porque os ditos “críticos profissionais” são, em geral, assim tão cheios-de-si e arrogantes e porque temos que sentir pena deles e não raiva? Não? Então vou facilitar ainda mais a sua vida, tentando dissecar abaixo os vários tipos deles que existem por aí para que possa entender melhor o que se passa na cabeça desse estranho povo! Você certamente já conheceu algum ou já leu algo que um deles escreveu. 

Importante notar que, normalmente, eles possuem todas as características listadas abaixo, embora uma delas vai se sobressair em cada uma dessas figuras bisonhas.

1) CRÍTICO-DEUS: É o tipo mais patético e, também, o mais perigoso. Dono de uma imensa insegurança e de um gigantesco complexo de inferioridade, o “Crítico-Deus” se reveste com o famoso escudo de dono da verdade para tentar desviar a atenção da sua frágil condição psicológica. 

É o “sabe tudo”, cuja sapiência e compreensão dos fatos estão além do que o resto dos mortais sequer sonha em conhecer. 

Esse tipo de pessoa julga-se em contato direto com o “Deus das Artes”, fato que o permite fazer análises sublimes e intocáveis sobre qualquer obra - as quais, por sinal, eles fariam bem melhor caso quisessem ou tivessem tempo. 

Para esse tipo de profissional, “uma crítica não é uma opinião”. Portanto, jamais ouse discutir, muito menos contrariar, o “Crítico-Deus”, pois ele será capaz de ter reações extremamente violentas e ferozes, do tipo escrever textos gigantescos, cheio de pseudo-ironias e auto-indulgência só para tentar denegrir a opinião de quem não concordou com ele ou ousou apontar um erro que cometeu em alguma análise!

2) CRÍTICO-AMIGO (ou CRÍTICO-VASELINA): Esse é o crítico que mais faz rir involuntariamente. Dono de um complexo de inferioridade astronômico que o leva a ter uma necessidade patológica por aprovação, o “Crítico-Amigo” traveste suas opiniões com todo o tipo de “fofuras” e comentários simpáticos. 

Assim, ele pensa, vai ser mais fácil todo mundo gostar dele e aprová-lo. “Vejam como sou boa-praça”, parecem querer dizer. 

O problema começa quando o “Crítico-Amigo” tem que falar mal de uma obra de arte. Aí, via de regra, ele vai escrever um texto imenso, no qual vai intercalar cada comentário negativo com cerca de dois parágrafos onde vai explicar detalhadamente porque está sendo tão “vilão”, praticamente pedindo desculpas aos que eventualmente gostaram da obra e que, por causa do seu comentário negativo, podem vir a não aprová-lo. 

Todavia, não se engane: todo “Crítico-Amigo” é, no fundo, um “Crítico-Deus” disfarçado. Se duvida, aponte em público erros que ele cometeu em suas análises ou discorde frontalmente do que ele disse com uma opinião convicta e isenta de “floreios”. A máscara de “amigo de todos” dele vai sumir rapidinho e o ataque será mais cruel do que o de uma hiena esfomeada!

3) CRÍTICO-PIMBA: Para quem não sabe, PIMBA quer dizer “Pseudo-Intelectual-Metido-A-Besta”

Como a própria definição já deixa clara, esse tipo de crítico tenta disfarçar sua insegurança, ignorância e medo com um linguajar rebuscado, ininteligível e, via de regra, sem sentido (a não ser para ele e para meia dúzia de amigos que vão ao mesmo cine-clube).

Felizmente esse tipo de técnica já ficou por demais manjada, tornando os “Críticos-Pimba” motivo de chacota para quase todos. Todavia, existem algumas pessoas, cuja auto-estima é ainda menor do que a deles, que ainda se impressionam com o tipo de coisas que escrevem, tais como: “olho-matéria”, “dicotomia”, "estética da fome", “dialética”, “sincretismo”, etc... 

Quando o “Crítico-Pimba” toma contato com uma obra pretensiosa e badalada que não entende ou que simplesmente não faz sentido, diz que é "genial" e então copia o que está escrito no press-release dela ou o que leu em alguma entrevista com o autor. 

Cinemão de Hollywood e qualquer outro tipo de arte popular ou de entretenimento serão sistematicamente odiados por esse tipo de crítico. Jamais fale mal de um filme de David Lynch, do “cinema asiático”, do Gerald Thomas, do grupo YES ou da 9ª Sinfonia de Shostakovsky perto de um “Crítico-Pimba”, caso contrário ele vai desprezá-lo para o resto da sua vida... pensando bem, fale mal sim!

4) CRÍTICO-POLIANA: Esse exemplar de crítico nunca vê maldade ou mensagens subliminares em nada que lê, escuta ou assiste, muito menos acha que filmes, livros ou músicas podem trazer mensagens danosas para as pessoas ou para a sociedade em geral. 

“Rambo II” ou "Comando para Matar", para eles, são somente filmes de aventuras bacanas, enquanto artistas ou pensadores como Michael Moore, Noam Chomsky ou Oliver Stone são apenas paranoicos com mania de perseguição. 

“Críticos-Poliana” normalmente gostam de tudo, até do filme "Mulher-Gato", do Steven Seagal, das músicas do É o Tchan e até das novelas da rede Globo! São ideais para trabalhar em revistas como "Veja", "Contigo", "Caras" e outros veículos de comunicação cujos donos preocupam-se mais com prestígio do que com conteúdo de qualidade.

5) CRÍTICO-SINÓPSE: Você já leu uma crítica que é, basicamente, um resumo da história apresentada na obra? 

Então você conheceu um “Crítico-Sinopse”, que é uma variação do “Crítico-Amigo”, só que bem mais ameno. 

Inseguro de suas opiniões e desesperado para esconder o fato que nada entende sobre o que está falando, esse tipo de profissional da crítica limita-se a contar a trama da obra do começo ao fim, repetindo até frases e diálogos para mostrar que realmente estava atento ao que via. 

É comum também ele enumerar "citações" de outras obras que pensa ter vislumbrado no material que está analisando (assim vão achá-lo culto, sonha). Muito raramente o “Crítico-Sinopse” até se arrisca a colocar alguma opinião concreta sobre o produto no final de seu texto, mas via de regra você vai terminar de ler tudo que ele escreveu e se perguntar: “Afinal, esse cara gostou ou não da obra?”. 

A única vantagem do “Sinopse” sobre o “Amigo” é que ele vai fugir de polêmicas como o diabo foge da cruz, enquanto o segundo vai virar “Deus” ao ser contrariado e contra-atacar violentamente.

6) CRÍTICO-DIVA (ou CRÍTICO-ESTRELA): É do tipo que se julga tão ou mais importante que os verdadeiros artistas sobre o qual escreve. 

Nunca ligue um holofote ou aponte um microfone para esse tipo de profissional, pois ele vai se abrir todo como um pavão enamorado. 

O “Crítico-Diva” é uma celebridade, ao menos na cabeça dele, e ponto final. É inútil tentar convencê-lo do contrário. 

Seus textos geralmente são recheados de auto-adulação, comentários pessoais (do tipo "...quando entrevistei o ator Fulano em Cannes"), fofocas picantes sobre celebridades e referências maldosas a partes do corpo dos artistas em questão. 

Outra particularidade: se alguma celebridade não der a ele a devida atenção que pensa merecer, o "Crítico-Diva" vai passar a falar mal de qualquer trabalho no qual essa pessoa estiver envolvida!

7) CRITICUZINHO: O advento da internet trouxe várias vantagens para todos - democratização da informação, contato direto com pessoas do mundo inteiro, pornografia gratuíta, etc. 

Mas como nem tudo são flores, a internet também gerou um novo tipo de celeuma social: adolescentes problemáticos e carentes com excesso de tempo livre passaram a usar a rede como forma de descontar suas frustrações e traumas em tudo quanto é fórum de discussões, blogs, redes sociais ou qualquer outro lugar que possam vomitar seus recalques. 

E, como era de se esperar, muitas dessas pessoas com excesso de hormônios e nada de sexo julgam-se críticos de arte só porque assistem tudo quanto é filme ou leram todos os livros do "Harry Potter". Assim, espalham suas "críticas" pela net e, pior de tudo, muita gente acaba levando a sério as asneiras que escrevem e alguns, pasmem, chegam até a publicar seus textos em sites pretensamente sérios! 

Aviso: ao encontrar um tipo desses fuja depressa, caso contrário ele vai te perseguir até o final dos tempos via email, criando blogs do tipo "eu odeio você!", perfis falsos no facebook para te atacar, etc. Que falta que faz um(a) namorado(a), não?

8) CRÍTICO-ARTISTA: Sabe aqueles artistas frustrados e sem talento, que tentaram, mas não conseguiram seguir carreira no meio? 

Muitos percebem que não sabem fazer mais nada de útil na vida e então viram "críticos" para, pelo menos, ficarem próximos do mundo ao qual não conseguiram fazer parte. 

Os textos desse tipo de profissional da opinião são muito fáceis de reconhecer, pois são sempre escritos na primeira pessoa e analisam a obra em questão a partir do seguinte ponto de vista: "como tudo teria sido (melhor) se fosse eu quem a tivesse realizado, caso minha agenda não fosse tão lotada".

Mas, agora, você deve estar se perguntando: "Quer dizer então que nenhum crítico presta?". Claro que sim! Conheça-o abaixo:

8) CRÍTICO-DECENTE: Esse é o único tipo de crítico que se pode levar a sério e, por isso mesmo, cada vez mais raro de se encontrar na mídia.

Cientes da sua condição de meros tecedores de opinião sobre o trabalho alheio e das suas próprias limitações humanas, o “Crítico-Decente” fala sobre a obra de arte levando em conta a sua própria visão de mundo, sem delongas e sem disfarces. 

Esse profissional sabe que o que escreve pode servir, no máximo, como base e referência para pessoas que buscam saber mais sobre arte em geral, mas também gostam de ler ou ouvir uma opinião sincera, clara e confessadamente parcial. 

Ele sabe que uma crítica é somente uma opinião e, por isso, faz de seu trabalho algo agradável e bem humorado, ficando aberto a réplicas e sem medo de dialogar com o interlocutor, podendo até aprender algo novo neste processo.

Todos os outros tipo de críticos listados acima (especialmente o "Deus" e o "Amigo") simplesmente “estrebucham” na presença de um “Crítico-Decente” e, via de regra, fazem de tudo para desacreditá-lo publicamente, como se isso fosse suficiente para garantir a sobrevivência deles e anular suas frustrações e inseguras pessoais. 

Tendo em vista que a maioria dos veículos de comunicação é dominado por pessoas extremamente mal resolvidas e sem auto-estima, é compreensível que profissionais como o listado acima encontrem cada vez mais portas fechadas ao seu trabalho...

P.S.: Claro que, na minha opinião, eu seria um "Crítico-Decente" caso tivesse que ganhar a vida escrevendo sobre o trabalho produtivos dos outros. Mas não precisa me chamar de frustrado, muito menos concordar comigo. Afinal, opinião é como bunda: cada um tem a sua! Agora vamos esperar alguém vestir a carapuça e deixar uma mensagem ultrajante aqui.

Filmes: "Olga"


GLOBAL, MAS NEM TANTO


Filme ganha profundidade ao questionar a apatia dos brasileiros em relação aos levantes liderados por Prestes

- Por André Lux, crítico-spam

Depois da exibição de "Olga", do diretor Jayme Monjardim, várias pessoas, especialmente as mulheres, mal conseguiam segurar as lágrimas. E realmente o filme, baseado na obra do escritor Fernando Morais, é emocionante.

E grande parte desta emoção está diretamente ligada à ótima performance do elenco que o diretor Jayme Monjardim teve à disposição. Como não vejo televisão nem seus subprodutos há um bom tempo, não conhecia o trabalho dos atores principais Camila Morgado e Caco Ciocler (exceto nas participações dele em longas como ''Bicho de Sete Cabeças'' e ''O Xangô de Baker Street''). E os dois estão muito bem em seus papéis, especialmente Ciocler (cujo semblante e postura são parecidos com os do ator Ralph Fiennes de ''O Paciente Inglês'') que passa muita sensibilidade e verdade ao seu Luís Carlos Prestes.

Morgado demora um pouco para encontrar o tom certo para Olga (em algumas cenas ela parece dura e declama seus diálogos artificialmente), mas depois acerta, principalmente nas cenas mais fortes (como as da despedida de Prestes e a separação de sua filha). Demonstra coragem também ao aparecer nua sem pudores (e sem truques) e ter seu cabelo totalmente raspado para as cenas no campo de concentração nazista (quando o filme ganha toques de ''A Lista de Schindler'', só que sem final redentor). Vale dizer também que os dois atores têm um boa química em cena, fator que deixa o amor entre os protagonistas convincente.

O restante do elenco é bastante homogêneo. Fernanda Montenegro empresta muita dignidade à mãe de Prestes (que lutou pela vida do filho e da nora até sua morte) e Osmar Prado sai-se bem como Getúlio Vargas, um papel que facilmente poderia ter virado uma mera caricatura. O único que destoa um pouco é Floriano Peixoto, como o infame torturador Filinto Müller, que faz tudo no mesmo tom.

Foi boa também a opção da produção em rodar o filme todo em português, não importando a localidade onde se passava, dando ocasionalmente pequenos ''lembretes'' da língua original saindo da boca de alguns coadjuvantes ou dos protagonistas (coisa absolutamente comum nos filmes estadunidenses, por exemplo). Só erra quando coloca os atores falando português com sotaque estrangeiro, como na cena do refeitório na extinta União Soviética onde alguns falam com carregado sotaque russo e outros não. Atrapalha um pouco também o abuso de tomadas em close dos protragonistas. Parece que o diretor não soube tirar proveito da tela larga do cinema em sua plenitude e preferiu manter-se fixo à estética quadrada da televisão.

Um dos pontos altos de ''Olga'', além dos já citados e da perfeita reconstituição de época (coisa rara em filmes nacionais), é a trilha musical de Marcus Viana que é de ótima qualidade, composta (intencionalmente ou não) na tradição de Alfred Newman e outros compositores da ''era de ouro'' hollywoodiana, além é claro de ser diretamente influenciada por ''A Lista de Schindler'', de John Williams. É muito interessante o uso que Viana faz do ''Tema Internacional Socialista'', o qual incorpora de tempos em tempos ao resto da partitura. A única restrição vai para o uso exagerado da música em algumas cenas chaves do filme, mas a culpa disso certamente não é do compositor e sim do diretor que, inseguro, parece querer reforçar sem necessidade o que os atores e o roteiro já estão passando com perfeição. Este didatismo simplório típico das telenovelas globais que o cineasta impôe à partitura acaba atuando contra o filme e não ao seu favor.

Uma das cenas mais emocionantes do filme é a da chegada dos protagonistas ao Brasil de avião, quando Prestes diz ''Chegamos ao meu país'' e Olga olha pela janela para ver uma maravilhosa praia do nosso litoral. Outra é quando a protagonista, já quando todos estão sendo perseguidos pela polícia, pergunta ''Qual é o problema deste país?'' em alusão à apatia da população em relação aos levantes que tinham como objetivo maior justamente levar mais justiça social ao povo sofrido. Esta é uma pergunta que sempre será pertinente e que, vinda de uma obra realizada por um dos mais prolíficos diretores das alienantes telenovelas da rede Globo, ganha ainda mais reverberação.

A história de Olga e Prestes, assim como tantas outras de pessoas que abdicaram de suas vidas para lutar por um ideal maior, merece ser contada - ainda mais da maneira digna e honesta como foi contada aqui. Independente da crença política ou filosofia de vida, duvido que alguém consiga assistir ao filme impassível aos horrores que os protagonistas enfrentam durante o terceiro ato da história. No final, fica mais uma vez a constatação de que o ódio e a intolerância foram, e continuam sendo, os maiores males que podem afligir a raça humana.

Infelizmente, a despeito do seu imenso sucesso junto ao público, "Olga" foi vítima de um violento ataque por grande parte dos críticos especializados brasileiros, muitos dos quais basearam suas análises em preconceitos e também naquele velho ódio que muitos têm do sucesso alheio. Por isso, ignore o que os recalcados de plantão andaram escrevendo por aí, veja o filme e tire suas próprias conclusões.

Cotação: * * * 1/2

segunda-feira, 9 de maio de 2005

Filmes: "Diários de Motocicleta"

HUMANIZANDO O MITO

Filme sobre a viagem de "Che" pela América latina prioriza a transformação psicológica causada pelo contato com o outro

- por André Lux, crítico-spam

Para aqueles que, como eu, foram criados sob a ditadura militar que encobriu o Brasil de trevas por 21 anos, a figura de Ernesto "Che" Guevara sempre foi associada à alcunhas como "baderneiro", "vagabundo" e "comunista". 

Só na maturidade, quando rompemos essa bolha de ilusão criada para nos cegar, é que passamos a ter contato com o mundo real e conhecer melhor a história na qual estamos inseridos.

É normal, particularmente para jovens estudantes, passar a associar, a partir daí, Guevara a um ícone de luta política por igualdade e justiça. É para esse tipo de pessoa que o último filme de Walter Salles (de Central do Brasil e Abril Despedaçado) está endereçado. Afinal, Diários de Motocicleta conta justamente a história do jovem Ernesto Guevara de la Serna (na época com 23 anos) e sua viagem de oito meses pela América latina, inciada na Argentina (seu país de origem) até a Venezuela. 

Foi justamente durante essa jornada que o futuro revolucionário, na companhia do amigo Alberto Granado, começou a travar contato com a realidade dos povos da região e das injustiças e misérias que os afligiam, a ponto de terminar a viagem transformado numa nova pessoa.

O grande mérito do diretor Salles e do roteirista José Rivera foi conseguir encontrar o equilíbrio perfeito entre a simples narração linear dos eventos com a gradual transformação psicológica dos protagonistas. Não existe espaço no filme para discursos ou pregação política, muito menos para panfletagem didática de "esquerda". 

Mas a boa notícia é que o diretor deixa aos dois excelentes atores centrais, Gael Garcia Bernal (como Guevara) e Rodrigo de la Serna (como Alberto), dar cabo de todas as nuances sugeridas pelo o roteiro, que é baseado nos livros de memórias que ambos escreveram após a viagem. A honestidade e a ternura de Guevara encontraram a representação perfeita na interpretação discreta e muito humana de Bernal, ao mesmo tempo que De la Serna dá o contra-ponto cômico na pele do debochado e mulherengo Granado.

O filme, que de início parece ser a narração de uma mera diversão engendrada por dois jovens imaturos e aventureiros (portanto, absolutamente normais), aos poucos vai se transformando numa emocionante análise do poder que o simples contato com outro ser humano pode ter na formação da personalidade. E Salles consegue transmitir toda esse crescimento do caráter dos protagonistas sem nunca ser piegas ou manipulativo. 

Sua câmera, pelo contrário, apenas acompanha os dois quase como num documentário e deixa-os livre para explorar os ambientes e interagir com seus companheiros de cena (muitos deles pessoas reais que garantem ao filme um necessário toque de realismo e verdade). Essa áurea de realidade é elevada pela fotografia inspirada de Eric Gautier e pela trilha musical intimista e discreta, porém muito tocante, de Gustavo Santaolalla (de Amores Brutos e 21 Gramas).

O ponto alto de Diários de Motocicleta é a tentativa de Guevara em atravessar o rio Amazônas a nado, quando estavam na colônia de leprosos de San Pablo, no Peru. A cena marca a transformação definitiva da visão de mundo dele e serve também para mostrar ao espectador, como argumentou o diretor Salles, que existem sempre duas margens em qualquer rio, cabendo a cada um de nós escolher em qual delas prefere estar. 

“Che” fez a escolha dele e pagou caro por isso. Saber o destino triste que os EUA reservaram ao revolucionário, morto covardemente com um tiro na nuca depois de ser preso na Bolívia, torna ainda mais amarga a experiência de ver esse belíssimo filme, certamente um dos mais relevantes já feitos sobre a América latina.

Cotação: * * * * *