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quarta-feira, 10 de abril de 2013

Daniela da Camara: “Jundiaí era planejada com base em interesses particulares”

A secretária de Planejamento e
Meio Ambiente Daniela da Camara
A arquiteta e urbanista Daniela da Camara Sutti assumiu a pasta de Planejamento e Meio Ambiente do governo Pedro Bigardi há três meses, mas já tem uma ideia do que precisa ser feito para melhorar a situação da cidade que, segundo ela, se deteriorou nos últimos anos devido à forte especulação imobiliária. “Hoje existe uma postura da secretaria pontuando para todos os empreendedores que o olhar da cidade é o olhar da qualidade urbana. Isso está em primeiro lugar. Esse é o diálogo que queremos ter para que esses empreendimentos possam acontecer na cidade”, afirma.

Uma forte fonte de crítica às gestões do PSDB, segundo Daniela, foi confirmada: Jundiaí era pensada para poucos. “Fiquei muito triste em ver a cidade era planejada com base em interesses particulares”, lamenta. Como prova disso ela afirma que vários empreendimentos foram aprovados pela anterior gestão pouco antes deles deixarem seus cargos. “E aí eu posso dizer pra você a data: dia 28 de dezembro”, revela.

Para Daniela Jundiaí cresceu, mas esse crescimento não foi acompanhado por uma melhora na qualidade de vida dos cidadãos. Uma das consequências mais visíveis disso é o trânsito caótico, situação que só será amenizada a partir de um novo projeto de cidade. “A gente está falando de transporte público, de carro, de ciclovia e de ferrovia. A partir do momento que começarmos a executar todas essas questões interligadas e com um eixo estruturador da cidade com todos esses modais, a gente começa a constituir a cidade de uma forma equilibrada”, explica.

Mas, segundo a secretária de Planejamento e Meio Ambiente, a participação popular é decisiva para que esse novo olhar seja bem sucedido. “A cidade é viva e a gente tem que trabalhar com muita sensibilidade cada questão, cada área, mas as pessoas tem que se apropriar disso e participar desse processo, pois elas são os atores principais”, afirma.

Qual era a situação da secretaria de Planejamento quando você a assumiu?

Daniela: A secretaria de Planejamento é bem estruturada. Nós temos 40 profissionais concursados, ela tem toda uma estrutura de planejamento urbano e meio ambiente para atender a demanda da cidade. Porém, há uma deficiência muito grande. A gente tem identificado isso nesses três meses que estamos aqui. Nos trâmites e nos processos internos da secretaria. Então a gente está buscando fazer alguns ajustes de estrutura de secretaria para que as coisas funcionem melhor, para que a gente possa dar uma resposta mais rápida para os munícipes, possa atender as demandas com maior agilidade e com maior controle das informações e também com uma maior transparência. Estamos implementando um processo de transparência nas ações da secretaria.

A oposição aos governos do PSDB, que hoje está no poder, sempre criticou aquelas administrações por supostamente não ter planejamento ou, pior, por planejar apenas para beneficiar um pequeno grupo de especuladores imobiliários. Essa crítica condiz com a realidade que você encontrou?

Daniela: Infeliz verdade. É muito triste ver uma cidade era planejada com base em interesses particulares. Hoje a gente está fazendo um trabalho na secretaria - nós estamos aqui há 3 meses, mas parece que estamos aqui há mais de um ano - em que a gente está tentando reverter esse processo, buscando requalificar áreas que estavam aí disponíveis, por exemplo, a zona rural. Se a gente caminhar pela zona rural hoje percebe a falta de incentivo na sua valorização. Quando na verdade hoje cidades como Nova Iorque, por exemplo, que tem uma área urbanizada gigantesca busca manter seu cinturão verde. E aí Jundiaí acabava indo na contramão.

É um trabalho de formiguinha nesse começo, a gente só vai conseguir sentir resultados na cidade daqui a um ano, um ano e meio, até porque muitos empreendimentos foram aprovados no final de dezembro. E aí eu posso dizer pra você: dia 28 de dezembro, vou te dar a data. E infelizmente nesse sentido a gente não consegue mais voltar atrás. Mas hoje existe uma postura da secretaria de Planejamento e Meio Ambiente pontuando para todos os empreendedores que o olhar da cidade é o olhar da qualidade urbana. Isso está em primeiro lugar. Quem quiser trabalhar nesse sentido, é muito bem-vindo a Jundiaí. Quem quiser trabalhar no sentido de explorar a cidade de uma forma negativa, a cidade não tem interesse nenhum que essas pessoas permaneçam.

Então o olhar da secretaria é pela qualidade urbana, pela qualidade dos espaços públicos, pela qualidade dos equipamentos públicos, das praças, dos jardins. Quantos empreendimentos a gente vê pela cidade, não vou citar nomes, mas eu olho para aquilo todo dia e me dá nervoso [aponta para as sete torres do condomínio Practice Clube House, na rua do Retiro, visível da janela da sua sala], que não houve uma doação de área, uma preocupação com a parte do transporte, do impacto do trânsito. Isso nós estamos falando do impacto na cidade, mas até mesmo se o empreendedor pensasse do ponto de vista do próprio umbigo ele estaria pensando também na valorização do seu empreendimento. Então é esse diálogo que a secretaria quer ter com os empreendedores, de qualidade, no sentido de que esses empreendimentos possam acontecer na cidade, mas que eles prezem pela qualidade urbana e pela qualidade do desenho urbano na cidade.

Nunca se falou tanto na Lei de Estudo de Impacto de Vizinhança como no último governo municipal, principalmente devido aos inúmeros empreendimentos que surgiram na cidade. A secretaria vai dar atenção a essa questão?

Daniela: Nesse sentido nós estamos usando o EIV fortemente. No sentido das contrapartidas para o município, contrapartidas de equipamentos públicos, creches, postos de saúde... Quando você leva um empreendimento para um local que é carente de algum desses itens que eu falei, o município deve exigir que esse empreendedor colabore nesse sentido. E essa é uma política da secretaria desde o dia primeiro de janeiro e temos trabalhado intensamente nesse sentido.

Na verdade todo esse planejamento feito em favor somente da especulação imobiliária impacta na ausência de qualidade, no trânsito, de você poder utilizar uma praça, de você poder ter boas escolas, boas creches, a qualidade de vida, as ruas arborizadas, uma paisagem urbana agradável. As pessoas tem consciência, os munícipes tem consciência de que a cidade não melhorou. Ela cresceu, ninguém pode negar isso, mas até que ponto esse crescimento foi acompanhado da qualidade? Até que ponto as estruturas e a infraestrutura acompanharam esse crescimento da cidade?

Não adianta culpar só o carro. O carro existe, está aí, existem facilidades para se ter carro, no seu pagamento, a produção é em larga escala sim, a gente não consegue fazer rua na velocidade que o carro sai da concessionária sim, isso é uma realidade. Mas a gente não pode botar a culpa nisso e falar: “Então não tem jeito!”. Não, a gente tem que apostar em alternativas. É por isso que o prefeito foi a Bogotá, porque na verdade o projeto elaborado para o BRT pela administração passada possui algumas falhas e não contempla a cidade como um todo. Então a cidade conseguiu essa verba através desse projeto, porém o prefeito está indo conhecer o sistema que é referência em Bogotá para que a gente possa aprimorar esse projeto, qualificar esse projeto para que ele possa atingir mais áreas da cidade.

Você não pode pensar no carro como único meio de transporte do cidadão, porque aí você não vai fazer via mesmo, não vai atender mesmo. Você tem que pensar na intermodalidade do transporte, então é o transporte público de qualidade. Tem gente que sai de casa de carro, mas se o ônibus parasse na porta do trabalho não precisava ir de carro e deixar ele parado no estacionamento o dia inteiro, ele paga o estacionamento. Ele usaria esse ônibus, desde que ele tenha qualidade para que as pessoas possam se utilizar dele como substituto do carro. Então é nesse sentido que a gente está trabalhando, com um olhar mais moderno, mais dinâmico, da cidade contemporânea e das grandes cidades que estão a nossa volta.

Qual a situação dos parques que estavam em obras na cidade? É verdade que muitos deles estavam sendo executados sem projeto?

Daniela: Sim. Existiam estudos muito simplificados que não tinham condição de execução. Não havia estudo planialtimétrico, que é um estudo dos níveis, porque alguns desses parques possuem desníveis consideráveis. Então você implementar projetos a partir de um estudo simplificado numa área que tem uma declividade grande, você tem uma porcentagem de erro enorme e aí quem paga é o munícipe. Porque aí você tem que fazer e desfazer, fazer e desfazer, fazer e corrigir. Como a gente viu muito aqui na cidade. A [avenida] Nove de Julho foi corrigida diversas vezes. As pessoas acompanharam esse processo, elas viram.

Para executar projeto, você tem que ter primeiro um projeto discutido pela população, aprovado pela população, para depois ser aprovado o projeto executivo que seja executado. Existem etapas. Como essas obras começaram e havia uma política da secretaria de Serviços Públicos de executar um estudo simplificado de execução no local, então não havia cota, nada, ele olhava e passava o trator e mais ou menos media e passava o trator. Era uma obra executada no local. A chance de erro é muito grande. Então nesse sentido nós estamos analisando as praças e os parques que foram começados, que havia só esse estudo simplificado, estamos chamando os moradores, melhorando esse estudo simplificado do ponto de vista da qualidade, para elaborar esse projeto executivo a ser implementado.

Os funcionários administrativos do centro esportivo do Santa Gertrudes não tem escritório para trabalhar e, há cinco anos, improvisaram um dentro dos vestiários. Além disso, onde deveria ser o parque de diversões das crianças existe um monte de entulho e material de construção. O que está sendo feito para sanar essa situação?

Daniela: Olha, existe uma demanda muito grande desses projetos nesse primeiro momento. Vale lembrar que estamos aqui há apenas três meses. Na secretaria de Planejamento não existia um corpo de projeto, esses projetos eram contratados fora da secretaria, pagos para escritórios fora da secretaria. E hoje nós estamos retomando esse corpo de projetos dentro da secretaria para qualificar os projetos da cidade. Porém, a demanda hoje é muito grande, vamos dizer assim, é uma demanda represada muito grande. Nesse primeiro momento a gente não está conseguindo atender rapidamente. A gente está trabalhando rapidamente, intensamente, porém a gente tem uma defasagem de corpo técnico para dar essa vazão rápida de respostas nesses projetos. Estamos tentando fazer milagres e colocando na ordem de trabalho para apresentar para as pessoas. Mas essa é uma situação bem triste, não só essa como muitas outras que a gente tem identificado.

Como a secretaria de Planejamento se relacionava com as outras secretarias antes? E agora, como é esse relacionamento?

Daniela: Não havia muita relação entre uma secretaria e outra. Elas funcionavam como mini prefeituras. Tanto que existiam alguns trâmites de processo que não eram conhecidos pelas outras secretarias e aí existiam muitos problemas nesse sentido. Problemas como o de obras sendo concluídas quando o EIV ainda estava pendente na secretaria de Planejamento. Mas hoje, a partir de primeiro de janeiro, existe uma integração entre todas as secretarias, um trabalho em conjunto dos secretários, dos diretores, um entrosamento muito grande, porque a gente entende que está aqui para produzir um resultado rápido, eficiente e de qualidade que atenda ao munícipe. Então é nesse sentido que todo mundo está trabalhando, unidos numa força tarefa para atender essas demandas reprimidas, essas questões inacabadas que ficaram aí por resolver e muitas das vezes sem qualidade... Enfim, estamos tentando dar uma vazão eficiente a tudo isso.

Existe algum projeto para o alargamento da avenida Benedicto Castilho de Andrade, no Eloy Chaves? Os tucanos falavam muito que iam fazer isso.

Daniela: Eu não tenho essa informação. O que existe aqui na secretaria são diretrizes. Boas e ruins. Boas, de alargamento de vias para melhor fluidez do trânsito, como ruins, de continuidade daquela ideia que a marginal tem que ser do lado rio, que a gente sabe que isso é um procedimento ultrapassado da década de 60. Hoje a gente tem que pensar de uma forma muito mais ambiental, muito mais intermodal, priorizando os espaços urbanos do que só as avenidas. Então a gente está revendo todo esse processo... É lógico que o que for bom e estiver em andamento, enfim, tiver um processo histórico não vai ser mexido, mas nós estamos fazendo um pente fino em todas as questões da cidade.

Porque quando você, por exemplo, asfalta uma via na zona rural você induz à urbanização. Então essas consequências das vias ela deve ser estudada dentro de um planejamento de cidade. Jundiaí não tem projeto viário. Jundiaí não tem projeto viário! Tem trechos de diretrizes, não existe um projeto macro, que tem que ser pensado até regionalmente. Então nesse sentido a gente está fazendo um pente fino no que está acontecendo, no que está proposto. A gente não está dizendo que não vai realizar, mas é nossa obrigação, primeiro, analisar e projetar. Está tudo em fase de estudo.

O TREM-BALA poderá ter uma estação em Jundiaí. Mas o projeto básico a coloca lá na junção da Anhanguera com Bandeirantes, onde não mora ninguém. Por que Jundiaí não propõe essa estação do lado do Aeroporto? Não seria a melhor opção, inclusive seria um entroncamento com o modal do aeroporto, com as linhas de transporte público existentes e quem sabe com um VLT?

Daniela: Primeiro, a gente está falando de transporte público, de carro, de ciclovia e de ferrovia. Então, Jundiaí tem potencial para tudo isso. A partir do momento que a gente começar a trabalhar todas essas questões da cidade interligadas e de forma que tenha um conceito e um eixo estruturador da cidade com todos esses modais, a gente começa a trabalhar a cidade de uma forma equilibrada. Então eu não posso afirmar que essa localização é boa ou ruim. Mas eu acredito que dentro desse contexto de qualidade da cidade, de qualificação da cidade, desse estudo das regiões da cidade e do seu crescimento, a gente possa sim estudar melhor essa estação. Não só do trem-bala, como da ferrovia, da estação ferroviária, tudo isso tem que ser levado em consideração. Nós temos alguns estudos já de um projeto estruturador, não posso falar qual é ainda, mas que ele é um ponto de acupuntura mesmo para a cidade e com relação a toda a sua parte central. De revitalização da cidade, de mobilidade, de conexão com cultura, de questões positivas para o crescimento e evolução qualificados da nossa cidade.

Os direitos da pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida devem ser assegurados em qualquer condição e situação, sempre. Mas as barreiras arquitetônicas ainda dificultam muito a locomoção dessa parcela da população. Como a secretaria de Planejamento pretende lidar com essa situação?

Daniela: A inclusão faz parte da nossa vida, ela tem que estar no nosso DNA. Então, todos os projetos, principalmente esses de praças e parques que estamos retomando, eu falei até do ponto de vista da qualidade, mas não só do projeto, como das pessoas que vão usar esse espaço. Então, são projetos totalmente acessíveis, com pisos fáceis, com o cuidado da sinalização do pedestre, pois a gente está falando também de pessoas atravessando as ruas. Nesse sentido a gente não tem hoje essa qualidade na cidade, então isso está sendo trabalhado fortemente, não só do ponto vista de acessibilidade e localização, mas também do ponto de vista de equipamentos inclusivos somados a outros equipamentos, para que a gente promova essa inclusão de forma natural, como deve ser. Inclusive com brinquedos para crianças com necessidades especiais... É muito bacana.

E isso não existia na cidade?

Daniela: É, a gente pode olhar que não, né? Na cidade a gente não tem nenhum exemplo... Não era uma prática, vamos dizer assim. Isso está no zero. Trabalhar os projetos com essa questão é pensar o projeto com qualidade, não dá para separar uma coisa da outra.

Como está o processo de revisão da Lei Complementar nº 417/2004, que dispõe sobre o Território de Gestão da Serra do Japi?

Daniela: Nós já começamos algumas movimentações no sentido de começar a trabalhar na 417, mas a lei que foi proposta pela gestão passada não era uma revisão, ela era uma nova lei. Passava de 22 artigos para sessenta e poucos, se não me engano. Então nós não vamos continuar com essa revisão proposta. Vamos pegar a 417 original e vamos analisar e ajustar nas brechas existentes, porque existem brechas. Mas aí nós vamos trabalhar junto com os Conselhos, junto com o CONDEMA, junto com o Conselho Gestor, junto com a população, no sentido de estar elaborando essa revisão, ajustando esses pontos que a gente considera frágeis e colocando essa lei em função de uma forma muito participativa. Essa é a ideia. A nossa Serra está aí para que todos nós possamos cuidar dela, então nada mais justo do que a população participar desse processo.

A atual administração iniciou discussões sobre a revitalização do Centro da cidade, com o prefeito Pedro Bigardi chegando a aventar inclusive a possibilidade de cobertura do calçadão da Barão. Como está esse processo?

Daniela: Sobre a revitalização do Centro a gente não pode falar só do ponto de vista arquitetônico. Ele é fundamental, mas a gente tem que ter também incentivos no Centro. Ele tem que atrair as pessoas, principalmente à noite. Então existe um começo de um trabalho de revitalização do Centro da cidade para que a gente possa incrementar o Centro e ele possa ser uma opção de lazer para o cidadão à noite. A gente não vai para a Vila Madalena, em São Paulo, e outros bairros? Não estou dizendo só do ponto de vista boêmio, não, mas do ponto de vista da vida noturna, da vida noturna de lazer e cultural também, para que isso possa estar interligado. Então existem estudos nesse sentido, mas é bastante recente ainda.

Ao longo dos anos, o Plano Diretor de Jundiaí transformou-se numa verdadeira colcha de retalhos. Durante a campanha falou-se em uma nova revisão. Como isso se dará?

Daniela: A ideia é fazer um Plano Diretor novo, do zero. O nosso Plano Diretor, até por ter três revisões nos últimos três anos – revisões pontuais no zoneamento, alguns ajustes pontuais... Então como a gente está pensando a cidade de Jundiaí sob a ótica da qualidade, de respeito às áreas verdes, de respeito aos recursos naturais, da fomentação sim das indústrias, mas da qualidade de vida urbana que nada tem a ver com esse choque de usos, a gente possa pensar numa cidade equilibrada, agradável de morar, que possa acontecer, crescer e evoluir não da forma como isso vinha acontecendo. Mas a gente entende que é necessário esse olhar sobre o Plano Diretor do ponto de vista da qualidade mesmo, da delimitação clara das áreas. Mas acredito que isso deva acontecer a partir do ano que vem. No primeiro ano acho difícil. Apesar de que nós temos verificado muitas questões relacionadas ao Plano Diretor, ao zoneamento. É o que você falou, ele é uma colcha de retalhos. Ele foi sendo mudado seguindo... interesses pontuais. Então, não pode ser legítimo. Não é legítimo! Então a gente tem que entender desse ponto de vista da qualidade de vida, tem que ser um novo Plano Diretor, não dá pra corrigir.

O Plano não foi pensado no bem estar da população?

Daniela: É triste, mas não foi. Porque se você pegar, a cidade não tem áreas de expansão de habitação, de moradia que não é de interesse social... Se bem que as de interesse social também são um caso sério, porque na verdade não havia uma conversa efetiva entre a FUMAS e a secretaria de Planejamento. Então as áreas de interesse social ficavam sempre longe, lá longe. E aí você não tem transporte, não tem infraestrutura, na verdade você marginaliza ainda mais essas pessoas que já estão em condições difíceis e aí as coloca longe do ônibus, de estrutura de posto de saúde, de escola e tudo mais, como se elas não fossem pertencentes a tudo isso. Na verdade a gente está trabalhando da forma contrária. A gente não quer produzir teto, a gente quer produzir cidade. No caso da habitação de interesse social, particularmente falando, a gente quer inserir o cidadão nesse processo de cidade. Então é um contexto muito mais profundo. A secretaria de Planejamento tem trabalhado com a FUMAS de forma muito entrosada. E a gente tem conseguido, juntamente com o Rodrigo [Mendes Pereira] que é superintendente da FUMAS, uma mudança de olhar e de qualidade dessas áreas de interesse social muito bacana para a cidade. Isso também está tudo em estudo, né? É um trabalho de três meses na verdade, mas esse olhar já mudou.

Falando de habitação de modo geral, a cidade não tem uma área de expansão e o que acontece é que a cidade vai crescendo para as zonas de conservação ambiental. E aí ela vai invadindo as bacias... Tem que ter uma política de bacia, de respeito hídrico, muito bem consolidada. Então a gente tem que rever mesmo toda essa parte, não tem jeito. Está vendo aqueles quadradinhos [aponta para o mapa da cidade]? Aquilo tudo é loteamento, numa zona de conservação hídrica, numa zona de conservação de manancial. Estamos falando de água, exclusivamente. Da qualidade dessa água. E da quantidade dessa água e da capacidade de manter esse lençol. É disso que a gente está falando. Porque se a gente começa a impermeabilizar essas áreas por não ter uma área de expansão urbana, começamos a trabalhar contra nós mesmos.

O programa de governo do prefeito Pedro Bigardi falava na elaboração do Plano Cicloviário de Jundiaí garantindo a implantação de pelo menos 30 quilômetros de ciclovias segregadas e permanentes. Já existe algum estudo nesse sentido?

Daniela: As ciclovias estão sendo pensadas da mesma forma, em conjunto com toda essa intermodalidade. Existe já um projeto em andamento que a gente [mais de uma secretaria] está analisando, mas ainda nada de concreto. Está em pauta como algo urgente...

Mas não vai ser feito de qualquer jeito...

Daniela: Não, sem dúvida. O que nós temos verificado em muitos projetos aqui é a colocação da ciclovia pra dizer que ela está ali. Ela existe. Mas é uma ciclovia que liga o nada a lugar nenhum, que tem trezentos metros, quando muito. Então a ideia não é fazer uma ciclovia para constar, mas que ela tenha um conceito, que ela interligue regiões da cidade, que ela seja parte desse projeto de mobilidade que está sendo idealizado junto à secretaria de Transporte, que ela funcione, não que ela seja uma ciclovia que está ali só pra dizer que ela existe.

Alguns bairros da cidade, como a Vila Ana Maria, Malota e Parque Novo Mundo, foram literalmente fechados para o trânsito público, inclusive como a colocação de guaritas e cancelas. Como você vê essa questão?

Daniela: Na verdade essa é uma atitude desesperada de moradores que lutam pelos seus bairros, que não querem morar em condomínios fechados. Porque a política da cidade nos últimos anos, não vou nem dizer que é só de Jundiaí, é o condomínio fechado. Vender segurança é morar em condomínio fechado quando sabemos que hoje isso não é verdade. Então existia essa política de fazer condomínios fechados, loteamentos fechados. Existia essa questão do zoneamento desordenado da cidade colocando em risco a qualidade de vida de bairros antigos. E aí alguns moradores, desesperados para salvar o que restou de seu bairro, defendendo o local onde escolheram para morar, acabaram entrando com pedidos para o fechamento do bairro.

Eu não critico esses moradores. Eu acho que não é uma política adequada, mas eu vejo que é uma atitude do cidadão que tem direito de defender o local onde ele mora. Porque ele não vai aceitar que, por conta de um zoneamento irresponsável, esse bairro consolidado perca qualidade de vida. Eu moro em bairro aberto e eu sofro com isso, com essa falta de qualidade de vida por conta desse zoneamento. Meu bairro era extremamente qualificado, onde havia uma relação entre os vizinhos muito bem consolidada e em virtude desse zoneamento desqualificado o bairro foi se transformando. Então, eu não acho que seja adequado, mas é um reflexo de uma falta de respeito, de uma falta de qualidade urbana, falta de qualidade da cidade, esquecida pelo zoneamento. Não acho legal o cidadão não poder entrar, não acho mesmo, acho que a cidade tem que acontecer, ela tem que fluir, mas a partir do momento que ela é organizada, ela flui naturalmente, as pessoas não precisam se desesperar e fechar ruas.

Faltava o olhar humano. Por exemplo, existe uma crítica no Jardim Bonfiglioli que é um bairro da cidade antigo, qualificado, as pessoas se conhecem, se conversam, existe ali um sentido de comunidade. E aí asfaltaram as ruas do bairro sem uma conversa com os moradores e era tudo de paralelepípedo. Estou falando isso porque temos recebido várias reclamações. E as pessoas gostavam do paralelepípedo porque além dele ser drenante, ter várias questões relacionadas à água, ele também fazia que os carros passassem numa velocidade mais controlada, dava uma sensação de continuidade da praça, então as crianças podiam ficar mais na rua, dentro do bairro. A gente está falando de via local, não de coletora ou arterial. E aí quando asfaltaram choveu reclamação. As pessoas não queriam isso, é uma questão até cultural. Não estou dizendo que é igual em outro bairro, mas ali era daquele jeito e era assim que as pessoas gostavam. A dinâmica do bairro mudou. As crianças não podem mais ficar nas ruas, as mães ficam preocupadas por causa da velocidade dos carros. Veja que é uma coisa tão simples, uma pavimentação. Você pode dizer: “Ah, mas o asfalto é ótimo, muito melhor que o paralelepípedo que faz o carro tremer”. Mas naquele contexto, para aquelas pessoas não funcionava dessa forma. É muito sensível, a cidade é viva e a gente tem que trabalhar com muita sensibilidade cada questão da cidade, cada área da cidade, com norte sempre no que você pensa que seria o melhor, mas as pessoas tem que se apropriar disso e participar desse processo, pois elas são os atores principais e nós estamos aqui só conduzindo essas questões, na verdade.

Um comentário:

Gustavio Morais disse...

Entrevista excelente que só tive a oportunidade de ler agora. Pude conhecer melhor a Daniela, seu modo de pensar. Em sua atuação como um todo até agora, na Secretaria, há alguns conceitos que discordo, e muitos outros que apoio efusivamente. Mas - o mais importante - percebe-se que ama a cidade e tem sensibilidade para com a mesma. Meus parabéns.

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