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segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Kaddafi: Martir, não. Assassino

- por Rodrigo Martins, repórter da revista CartaCapital

De início, imaginei ser uma reação de meia dúzia de pessoas desinformadas ou com algum conceito obtuso de maniqueísmo político herdado da Guerra Fria. Depois, assustei-me com a proliferação de comentários em blogs, redes sociais ou mesmo no espaço reservado aos leitores em sites da mídia tradicional, inclusive o de CartaCapital, a defender abertamente o regime do ditador líbio Muammar Kaddafi, apontado como uma espécie de mártir perseguido pelas grandes potências mundiais.

Graças ao seu passado revolucionário e sua retórica anti-imperialista, o coronel conquistou a simpatia de setores da esquerda, sobretudo a bolivariana. Mas o que causa assombro é o fato de muitos desses militantes ignorarem as violações cometidas nos 42 anos da sangrenta ditadura protagonizada por Kaddafi.

As prisões arbitrárias e execuções extrajudiciais contra dissidentes políticos, os atentados terroristas que patrocinou (como a explosão de aviões estrangeiros repletos de civis), as bombas que jogou contra seu próprio povo e toda a sorte de violações aos direitos humanos parecem ter sido solertemente esquecidas ou minimizadas pelos grupos simpáticos ao ditador.

Houve até quem criticasse a publicação de uma matéria a informar que Kaddafi patrocinava o estupro coletivo das mulheres que integravam a sua guarda feminina, inclusive com a distribuição de pílulas de Viagra a militares de certas patentes. Contêineres repletos do medicamento eram entregues aos soldados.

“Afinal, foi estupro ou as mulheres se sujeitaram a isso mediante pagamento?”, chegou a indagar certo leitor, como se algum tipo de benesse pudesse compensar tal crime.

É como se o desrespeito aos direitos humanos pudesse ser tolerado em determinadas situações, sobretudo quando considero que certo regime tem ideologia semelhante ou compartilha dos mesmos opositores.

Mas nem sempre o inimigo de um oponente meu pode ser considerado meu amigo. É verdade, como ressaltou Antonio Luiz M.C. Costa, em reportagem de capa publicada na edição 635 de CartaCapital, que Kaddafi “comandou a modernização da indústria e da agricultura, investindo nesses setores dezenas de vezes mais que a antiga monarquia, e promoveu uma reforma agrária que deu dez hectares, trator e implementos agrícolas a cada família. Os recursos do petróleo proporcionaram uma boa renda per capita e razoáveis serviços de educação e saúde”. Comparada às demais nações africanas, a Líbia tem um grau de desenvolvimento notável.

Mas o mesmo texto ressalta, a quem vê o ditador com simpatia por interesse econômico ou geopolítico, que nem por isso os crimes de Kaddafi devem ser ignorados, além de expor as contradições ideológicas do líder líbio.

“Kaddafi podia ser considerado tanto um líder anti-imperialista quanto um parceiro das transnacionais europeias e um bastião do Ocidente contra o fundamentalismo. Na sua complicada trajetória e nas suas ideias excêntricas, podia encontrar-se de tudo” (clique aqui para ler a íntegra do texto). Outro artigo, publicado pelo diário francês Le Monde e traduzido pelo UOL (disponível para assinantes do portal neste link), revela como, em quatro décadas, Kaddafi flertou com várias ideologias para se manter no poder, inclusive aproximando-se de governos direitistas na França e no Reino Unido, ora engajados na intervenção da Otan para derrubá-lo.

Na defesa irrefletida do regime do coronel Kaddafi, muitos tentam desqualificar as denúncias contra o ditador ao apontar a indignação seletiva de certos jornalistas e meios de comunicação.

De fato, não falta gente disposta a condenar as prisões arbitrárias e a tortura contra dissidentes políticos em Cuba ou na China, mas que fecha os olhos diante das mesmas práticas quando as vítimas são supostos terroristas islâmicos mantidos, por vezes sem acusação formal ou qualquer prova de culpa além dos depoimentos coletados sob tortura, na prisão americana de Guantánamo. Há também os que criticam os vícios da teocracia no Irã e vêem com simpatia o igualmente teocrático regime de dalai Lama no Tibete.

Existem ainda os que condenem os atentados terroristas praticados por grupos palestinos e que se omitem diante do embargo econômico e dos sucessivos massacres que o Estado israelense praticou contra esse povo. Em todos os casos, é importante frisar, o complemento “e vice-versa” é valido.

Ainda que se exponha o discurso incoerente, e por vezes hipócrita, presente na grande mídia, justificar ou minimizar graves violações aos direitos humanos é um estímulo à barbárie. O regime de Kaddafi caiu tarde. E, apesar de considerá-lo um ditador sanguinário, não desejo que ele seja vítima dos próprios crimes que cometeu, como tortura ou execução extrajudicial. Merece, isto sim, ser julgado pelos crimes contra a humanidade que perpetrou. Não se trata de revanchismo ou vingança, e sim de justiça, que também não comporta qualquer tipo de visão seletiva.

5 comentários:

Ricardo Melo disse...

Eu não concordo com o sentido geral do texto porque, ao fim e ao cabo, ele não foca a questão mais importante do tema: o futuro do povo líbio.

Quando o Rodrigo Martins afirma que "o regime de Kaddafi caiu tarde", evidentemente ele valoriza o aspecto "cronológico" da derrubada de Kadafi e acaba por desconsiderar o sentido do movimento que o derrubou.

Me parece que, do ponto de vista do população da Líbia, a derrubada de Kadafi pelas potências ocidentais será o marco de um longo período de sofrimento e de perda de autonomia.

Não, com isso não estou a "relativizar" o regime ditatorial de Kadafi. Mas para mim é muito claro que agora a Líbia vai entrar em um processo de fragmentação semelhante ao ocorrido no Iraque, com a intensificação da violência e da exploração econômica.

Do ponto de vista dos líbios o sofrimento só vai aumentar pois uma das coisas mais horríveis que pode acontecer para qualquer país é a perda de sua autonomia política, por pior que seja o seu regime no plano interno.

Com certeza Kadafi tem muita responsabilidade por toda essa tragédia, o seu regime foi derrubado pela potências que ele mesmo cortejou.

Mas a cronologia do "já vai tarde" com certeza terá menos relevância do que a enorme provação que aguarda por milhões de líbios. Além de um novo governo tirano, eles passarão a vivenciar um cotidiano de caos absoluto, um inferno com o qual nunca sonharam.

Anônimo disse...

Gostei das suas ponderações. Seria ótima se a Líbia pudesse conciliar o socialismo com a democracia.
M. Exenberger/Brasília

Anônimo disse...

1o-Quais as fontes utilizadas pelo jornalista?São confiaveis?
2o)O NOSSO conceito(Ocidental) de democracia que aplica a Libia?
3o)Pq so a agora a benemerita otan(que acha que o mundo é otario)achou por bem fazer sua intervencao "humanitaria?
4o)Qto ao Kadaffi ser um ditador sanguinario e violador de direitos humanos...E o que fazem os eua no Iraque e Afeganistao?E o governo judeu com a Palestina?O fato de eles violarem abertamente e com o consentimento da onu,territorios e povos que nao os seus,nao os torna menos criminosos e nenhuma revista ousa soltar um pio sobre isso;fica todo mundo com o c* na mao.Os coitadinhos dos judeus entao,que reivindicaram o holocausto pra eles(como se outros povos tb nao tivessem sofrido com isso)e usam isso pra chamtagear o mundo,ninguem ousa nem pensar em criticar!!
Agora se é pra ter 2 pesos e 2 medidas....

Wendell disse...

Na verdade não me surpreeende ter gente que vê Kaddafi como "mártir" ou mesmo "herói". Muitas vezes quando vamos em grandes encontros de jovens de esquerda vê-se muitos grupos a venerarem Stalin!! Também é triste ver o silêncio de colegas da maior parte da esquerda quanto ao que acontece na Coréia do Norte...

João Nativo disse...

nos tempos de Hitler era a mesma coisa, tinha sempre uns "intectuais" prontos para justificar a violência nazista, sempre ao lado do mais forte.Note-se o total desinteresse do tal jornalista de comentar a brutalidade da OTAN, braço armado das potências ocidentais, sempre pronta para bombardear países fracos que não têm como revidar e sempre contando com o apoio e simpatia desses humanistas de redação.

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