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sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Resposta a Frei Betto: Especialmente os ateus

Essa parece ser a grande diferença moral entre ateus e religiosos: para nós só há imoralidade quando se causa sofrimento àqueles que podem senti-lo. As ideias que se virem. Para Betto e a maior parte dos religiosos, as ideias têm direito de não serem criticadas, mesmo quando falsas. Os humanos que se virem.

- por Daniel Sottomaior, Presidente da ATEA – Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos

Em recente artigo publicado no Sul21, Frei Betto defendeu a posição de que os torturadores “praticavam o ateísmo militante ao profanar com violência os templos vivos de Deus: as vítimas levadas ao pau de arara, ao choque elétrico, ao afogamento e à morte… Ateísmo militante é, pois, profanar o templo vivo de Deus: o ser humano.” Não se trata de afirmação impensada, uma vez que repete artigo anterior, e foi confirmada em entrevista nos seguintes termos: “Toda vez que alguém viola o ser humano, violenta, oprime, está realizando o ateísmo militante.”

O texto gerou muitos protestos de ateus, que ficaram ainda mais indignados com a repetição do insulto, pronunciada com toda indiferença e sem qualquer tentativa de desculpa. Infelizmente, parece ser necessário afirmar e repetir com toda clareza aquilo que deveria ser óbvio: ver-se igualado a torturadores e a atos de tortura é um ultraje à dignidade de qualquer indivíduo, ateu ou não. Nenhum tipo de racionalização justifica essa associação.

É fundamental lembrar que o ateísmo repousa no campo das ideias: ele nada mais é do que a ausência de crença em deuses. Não haveria nada de errado em criticá-lo, pelo mesmo motivo que não há nada de errado em criticar o liberalismo ou o socialismo.

No entanto, as afirmações de Betto são de outra ordem, pois se referem a pessoas. Militante é o indivíduo que milita ou atua em alguma causa. Assim, todos os falantes da língua portuguesa, inclusive o frei, entendem que ateísmo militante é a ação de quem promove o ateísmo. Nenhuma idiossincrasia de Betto mudará o significado direto que o resto dos mortais tem dessa expressão. Sua ofensa está em propor que violência para com o outro significa ateísmo militante, implicando entre outras coisas que torturadores são ateus. Isso é inaceitável.

O raciocínio do religioso não resiste ao mais óbvio exame. Pode-se virá-lo de ponta-cabeça afirmando que todo indivíduo é um templo do humanismo secular, e que portanto os torturadores na verdade praticam religiosidade militante. Mais importante ainda é o fato de que rebatizar à plena força expressões já existentes para lhes dar significado espúrio e negativo é um inegável sintoma de preconceito.

Atenção: propostas repulsivas à frente. Seria aceitável renomear um vaso sanitário como “negro militante” e prosseguir com todas as frases que isso acarretaria? Sob que pretextos aceitaríamos que se chamasse o tráfico de drogas de “prática do judaísmo”? A justificativa para esse estupro semântico é indiferente. O que importa é que ele revela uma desinibida sanha para identificar o outro com o mal. Que nome se dá a essa abjeta inclinação?

Só para quem que vê a bondade identificada com a pele branca, e a maldade associada à negra, faz sentido dizer que brancos maus têm alma negra, ou o oposto: negro de alma branca é bom. Em seu texto, Frei Betto não hesita em fazer a mesmíssima coisa, imaginando que até inquisidores e pedófilos da Igreja Católica praticam ateísmo militante(!), a despeito de seu óbvio catolicismo: são os brancos de alma negra. Quando afirma “quem ama o próximo ama a Deus ainda que não creia”, são os negros de alma branca: ateus bons de coração em verdade são como crentes. Ora, se não é lícito identificar maldade com judaísmo, cristianismo, negritude ou qualquer outra posição, militante ou não, então o mesmo vale para o ateísmo.

Também não há como engolir a insistente alegação de Betto de que sua acusação pesa apenas sobre a militância, não sobre o ateísmo em si. Um dos motivos é o fato de que a versão expandida de seu texto original, amplamente reproduzida online, afirma com todas as letras: “raros os presos políticos que professavam convictamente o ateísmo. Nossos torturadores, sim, o faziam escancaradamente ao profanarem, com toda violência, os templos vivos de Deus”. Fazendo a análise sintática, tem-se a seguinte oração equivalente: nossos torturadores professavam convictamente o ateísmo de forma escancarada.

Betto está obviamente preocupado em defender o respeito a ideias, proposta que repete várias vezes, o que lamentamos profundamente. Ideias não têm direitos nem dignidade: seres humanos têm. Ideias e crenças não precisam ser protegidas nem respeitadas. Seres humanos precisam. Essa parece ser a grande diferença moral entre ateus e religiosos: para nós só há imoralidade quando se causa sofrimento àqueles que podem senti-lo. As ideias que se virem. Para Betto e a maior parte dos religiosos, as ideias têm direito de não serem criticadas, mesmo quando falsas. Os humanos que se virem.

Especialmente os ateus.

11 comentários:

Daniel Bezerra disse...

Companheiro André,
O Blog da Dilma que faz parte dos Blogs Progressistas solicita de Vossa Senhoria a troca de nossos links. O objetivo é união e um maior fortalecimento da blogosfera. Endereço: http://blogdadilma.blog.br
Atenciosamente, Daniel Bezerra e Jussara Seixas - editores.

Anônimo disse...

Sou ateu, moro no interior paulista e sei como é isso.
Ateu - na opinião de religiosos - são pessoas que fazem mal.

Exemplo: se um padre abusa de uma criança ele é ateu, pois na lógica deles, se fosse cristão não faria coisas ruins.

Conclusão: pela ideia deles qualquer malfeito, mesmo vindo de pastores, padres e outros religiosos, é cometido por ateu.

Assim fica fácil condenar, nem precisamos de julgamentos.

Quer dizer: somos os parceiros mais próximos do diabo - personagem que não acreditamos também.

José Marcio Tavares disse...

Quando fui diretor de Imprensa do Sindicato dos Bancários do Rio tive o desprazer de manter contato com esse mau caráter e sua igualmente mau caráter secretária. Só pra dizer o mínimo, a secretária dele era paga pelo sindicato (dinheiro dos trabalhadores) e só trabalhava para o Frei Betto. Vendia seus livros, dava longuíssimos telefonemas interurbanos para resolver problemas de seu chefe, o Sr Carlos Libânio. Quando eu, o representante de quem lhe pagava salário, pedia algum serviço ela nunca podia, pois estava resolvendo algum problema do se chefe de fato, Frei Betto.
Foi um custo tremendo acabar com essa patifaria, mas eu consegui. Por isso ela pedeiu demissão do sindicato (levou uma gorda compensação a título de "incentivo") e hoje em dia me detesta.
Devo dizer que sua ausência não foi preenchida por outro profissional. Não fez falta alguma. Ao contrário, o ambiente ficou muito melhor, porque se tratava de uma intrigante. Nas horas vagas, claro.

José Marcio Tavares disse...

Em tempo: quem quiser mandar um recado para o tal de Frei Betto, acesse http://www.freibetto.org/index.php/contato/37-contato/2-maria-helena

Anônimo disse...

Daniel, você tem razão. Infelizmente nossa sociedade é cruel com quem é ateu. Não importa até se ateu quase religioso. Tem que ter uma religião, mesmo que nunca sente num banco dela para refletir e viver com seu deus. Frei Betto se equivoca ao chamar os torturadores de ateus militantes. Isto, para mim, é uma grande e preconceiituosa afirmação - não serve sequer como uma falácia. Eu tive um primo (foi assassinado, queima de arquivo?)que foi torturador e, no início da minha militância de esquerda, veio me avisar que eu podei ser preso e sofrer torturas. Ele afirmava: os comunistas são contra Deus, contra o J.C. (Jesus Cristo), então tem que apanhar até morrer. Belo cristão, não é? Pois eles eram a maioria dos que torturavam os "subversivos", "comunistas". Frei Betto deveeria pesquisar mais e descobrir que Sérgio Paranhos Fleury era católico!!!!!!!E agora, Frei Betto?????

Anônimo disse...

Até tu Frei Betto!
Que vergonha. Ainda dizem que a nossa sociedade não é preconceituosa.É por estas e outras que a maioria de nós, ateus, não sai do armário.

Regis

Anderson disse...

Considero o ateísmo o estado natural do ser humano. Afinal, nascemos todos ateus.
A campanha de José Serra fortaleceu os religiosos, pois até mesmo eles não acreditavam em tamanho retrocesso. Devido à perda de terreno da igreja católica na europa, a campanha suja de Serra veio bem à calhar. Este pessoal mais reaça do "Clubinho do Amigo Imaginário" agora descobriu que pode ter poder político no Brasil, junto à oposição. Isto é, se Serra não for defenestrado pelos próprios companheiros de partido.

Piort disse...

Eu concordo que os argumentos de Betto sobre essa questão são falaciosos. Aqui, creio, ele se enganou. Mas gente, estamos falando do Frei Betto e não, por exemplo, do Olavo de Carvalho, calma lá! Não precisamos dizer "amém" ao que diz o Frei, mas respeitemos esse velho lutador das esquerdas.

Robson Santos disse...

Não tenho grande conhecimento de filosofia ou lógica, mas penso que o frei, ao falar em ateísmo militante, apenas expressa um pensamento sobre quem pratica a hedionda tortura, que ao violar o corpo humano - mesmo afirmando-se crente -, estaria também violando o templo sagrado e sede da Centelha Divina, mostrando aí seu verdadeiro desrespeito ou descrença em Deus...

Roberta disse...

Eu sou ateia e concordo que Betto está equivocado. Mas prefiro um Betto equivocado, que ao menos lutou por meu Brasil, a "grandes" ateus inúteis que se ofendem por qualquer coisa. Proselitismo ateu é chato pra caramba também!

Roberta disse...

Este texto da tal ATEA é patético. Típico de gente que fala mal do papa, mas faz a mesma coisa. Rotulam os religiosos, mas nao querem ser rotulados. Eu li o artigo em que o Betto fala sobre "ateísmo militante" e não fiquei ofendida. Tranquilo, como em quase todos os seus escritos. Esta tal ATEA não representa os ateus. Que pérola: "Betto está obviamente preocupado em defender o respeito a ideias, proposta que repete várias vezes, o que lamentamos profundamente. Ideias não têm direitos nem dignidade: seres humanos têm".....Seria uma piada? Essa ATEA ja ouviu falar em TL, CEBS? Aprenda a argumentar de modo de decente e dialogar, senhores da ATEA, assim seremos melhores representados.

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