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quinta-feira, 16 de julho de 2009

Idelber Avelar: A esquerda ainda está devendo na luta anti-homofóbica

Outro texto do colega Idelber Avelar que eu assino em baixo e vale a pena ser lido!

A esquerda ainda está devendo na luta anti-homofóbica

Na esquerda tradicional, dos partidos comunistas, o completo descaso vinha, muitas vezes, recheado de homofobia explícita. Isso mudou, claro, e hoje uma deputada como Jô Moraes, do PCdoB de Minas Gerais, é uma das vozes mais incisivas na luta contra a homofobia. O PT, que sempre foi mais atento que a esquerda tradicional para as questões relacionadas à mulher e ao negro, demorou certo tempo em realmente acolher a luta anti-homofóbica. Resta ainda um longo caminho que percorrer

- Por Idelber Avelar, na Fórum

Nos Estados Unidos, a luta pelo casamento gay passa por um momento contraditório. Ela acumula vitórias nos lugares mais inesperados, como Iowa, e uma derrota catastrófica no habitat natural do movimento, a Califórnia. Não é ideal a posição conciliadora de Barack Obama, que defende as uniões civis – que possibilitariam conquistas fundamentais, como os direitos de plano de saúde conjunto e de herança –, enquanto reserva o termo “casamento” para as uniões heterossexuais. Mas, pelo menos, Obama dá um passo adiante em relação à tradicional hipocrisia do Partido Democrata, que sempre contou com os votos de gays e lésbicas para, logo depois, rifá-los no jogo político.

Qualquer conhecedor da história da esquerda sabe como tem sido longo e acidentado o caminho de reconhecimento da luta gay/lésbica. Na esquerda tradicional, dos partidos comunistas, o completo descaso vinha, muitas vezes, recheado de homofobia explícita. Isso mudou, claro, e hoje uma deputada como Jô Moraes, do PCdoB de Minas Gerais, é uma das vozes mais incisivas na luta contra a homofobia. O PT, que sempre foi mais atento que a esquerda tradicional para as questões relacionadas à mulher e ao negro, demorou certo tempo em realmente acolher a luta anti-homofóbica. Resta ainda um longo caminho que percorrer.

O crescente sucesso da parada gay de São Paulo e as iniciativas pioneiras de Marta Suplicy são capítulos dessa história, mas ela foi construída com uma luta que custou o sangue de muitos anônimos. O jornal O Lampião surge em 1978, em condições dificílimas. Em 1979, constitui-se em São Paulo o primeiro grupo de homossexuais organizados politicamente, o Somos. Seguem-se o Somos/RJ, Atobá e Triângulo Rosa no Rio, Grupo Gay da Bahia, Dialogay de Sergipe, Um Outro Olhar de São Paulo, Grupo Dignidade de Curitiba, Grupo Gay do Amazonas, Grupo Lésbico da Bahia, Nuances de Porto Alegre e Grupo Arco-Íris do Rio, entre outros (as informações são do GLS Planet). Somente em 1985, o Conselho Federal de Medicina decide desconsiderar o artigo 302 da Classificação Internacional de Doenças, onde constava a homossexualidade. Pelo menos nisso, o Brasil se antecipou. Só em 1990 a Organização Mundial da Saúde decide eliminar a homossexualidade da lista de doenças. A data da decisão histórica, 17 de maio, passaria a ser o Dia Internacional de Combate à Homofobia.

Em sua esmagadora maioria, os heterossexuais – mesmo aqueles engajados na luta pela justiça social – ainda não refletiram o suficiente sobre os efeitos devastadores da homofobia. Não se trata somente dos sutis gestos de discriminação cotidiana e das piadinhas homofóbicas, reproduzidas diariamente nas interações sociais e na programação da mídia. Trata-se de direitos básicos, como o de adoção, herança, plano de saúde e constituição de união matrimonial reconhecida pela lei. Trata-se do direito à imagem e à honra. Muitas vezes, trata-se simplesmente do direito de andar de mãos dadas com seu amor pelas ruas sem correr o risco de ser espancado.

Os homicídios homofóbicos no Brasil aumentaram 55% em 2008. Foram 190 no ano passado, contra 122 em 2007. Estes são os números oficiais, compilados pelo Grupo Gay da Bahia com base nos boletins de ocorrência. Imaginem quais serão os números reais. Nesse horror quase medieval, há mortes com requintes de crueldade, a pedradas, por exemplo. Recentemente, o odioso projeto de lei nº 4.508/2008, do deputado Olavo Calheiros (PMDB/AL), que visa proibir a adoção de crianças por homossexuais, começou a tramitar como se não fosse a excrescência inconstitucional que é. O projeto cospe no artigo nº 226, § 4º, da Constituição Federal, mas o Congresso o examina como se fosse a mais razoável das leis.

Ideias absolutamente inconstitucionais, como a que proíbe homossexuais de lecionar em escolas primárias, são discutidas com argumentos “ponderados” até por gente de esquerda. Está categórica, sociologicamente provado que, em potencial, um padre é uma ameaça sexual muito mais grave a uma criança que um(a) professor(a) gay ou lésbica. Mas se reproduz mesmo em comarcas progressistas o estranho estereótipo que associa, contra todas as evidências, a homossexualidade à pedofilia. A bizarra noção de que gays e lésbicas são máquinas sexuais incontroláveis, prontas para disparar a qualquer momento, tem ainda profunda inserção no chamado inconsciente coletivo.

É urgente o apoio maciço e incondicional da esquerda ao Projeto de Lei da Câmara nº 122/2006, que criminaliza a homofobia e pune a discriminação e a agressão contra gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais. A proposta se encontra, no momento, em trâmite no Senado. A leitura do projeto e o contato com os senadores podem ser feitos por meio do site http://www.naohomofobia.com.br/. Atualmente, não há nenhuma proteção específica ante a agressão e a discriminação homofóbicas, comparável à que temos contra o racismo.

A Frente Parlamentar pela Cidadania LGBT é formada por 211 deputados federais e 18 senadores. Dos grandes partidos, o PT ainda é, de longe, o que se sai melhor na foto. De seus 11 senadores, 9 são membros. Mas ainda é pouco. Não há razão aceitável para que Tião Viana (PT-AC) e Marina Silva (PT-AC) não se juntem à Frente. Se, em vista de suas crenças religiosas, a senadora Marina Silva tem “problemas de consciência” para se juntar a essa causa, que ela os resolva no âmbito privado. Na esfera pública, ela tem a obrigação de defender o programa do PT. Chega de conferir aos progressistas religiosos esse estranho privilégio, o de omitir-se (ou, pior, adotar uma postura reacionária) nas questões fundamentais do nosso tempo, sempre que estas entrem em choque com a leitura que lhes inculcaram de um livro apócrifo de fábulas judaicas.

Sempre defendi que a melhor forma de se imbuir do espírito de luta pela justiça social é ouvir as vítimas com atenção. Quer entender o racismo? Abandone as fáceis, imaginárias simetrias entre negros e brancos e escute as histórias de vida narradas por aqueles. O apelo da coluna, este mês, é muito simples: procure seu amigo gay ou sua amiga lésbica e pergunte, indague muito. Não pressuponha que sabe o que eles vivem. Escute com atenção. Você se surpreenderá.

8 comentários:

Luis disse...

"Livro apócrifo de fábulas judaicas".
Uma expressão excelente...

Está mesmo na hora de algumas pessoas pararem de deixar as crenças religiosas interferirem em decisões importantes.

Esse texto complementa bem o anterior, e infelizmente parece que o fundamentalismo está bem alto e crescendo no Brasil. Deus nos proteja.

Werner Piana disse...

meu consolo é que a RECORD, um dos maiores conglomerados evangélico-midiaticos do Brasil, parece estar pegando mais leve com relação à homossexualidade.

Pode parecer pouco, mas não é. É um avanço. Falta muito ainda, mas igualdade, ainda que tardia, tem que chegar.

Lutemos todos por isso, pois.

Werner Piana
http://saggio2.blogspot.com

caetano disse...

essa história de homofobia tem que ser mais explicada, exercer o direito de concordar ou descordar de algo, é um direito dado pela constituição da republica federativa do brasil não é homofobia, mas a tal lei que diz que tudo proferido contra gay sera tido como homofobia ja fere o direito do cidadão brasileiro de exercer sua cidadania e opniar contra ou a favor a gay. se todo mundo vai ser obrigado a concordar com gay (pela lei) ja ai o enterro da democracia, esta meio estranha essa historia.
se gay quer respeito basta saber buscar ao inves de ficar apenas um se preocupando em comer o outro, se preocupe em estabilizar uma relação a maioria dos jovens gays (por exemplo) vive se escondendo só vive de sexo, alcool e boate por que num se preocupam em se unir de forma séria ao inves de fazer parada gay que só serve pra disseminar mais doenças a grande maioria só vai em parada pra procurar sexo e beijar na boca, fica dificil conseguir respeito de uma sociedade complicada como a nossa desse jeito, os gays podem exijir respeito e ter o respeito da sociedade basta primeiro ter respeito entre eles mesmos pra depois exijir da sociedade, sem precisar fazer lei pra forçar o povo a aceitar gay, e não dar sua opnião contraria.
minha mensagem é de protesto e não de ofensa eu conheço bem o mundo gay, falo por experiência não critico gays mas vejo q a maioria quer respeito mas não exije de si mesmos, eu escrevi aqui coisas que vi e vejo acontecendo.

André Lux disse...

Quem tem que se explicar melhor é você, caetano. Dizer que gay só quer "viver de droga, sexo e boate" é no mínimo preconceituoso. Conheço um monte de heterossexuais que vivem de droga, sexo e boate e nem por isso são espancados até a morte por skin heads só porque estavam passeando de mãos dadas com suas namoradas pela praça.

caetano disse...

andre lux
vc reparou que minha critica é justamente por isso, se os gays buscassem mais se unir em relações estaveis não só o risco de doenças cairia como tbm seria uma forma maior de pressionar a sociedade, pois a melhor forma de exijir respeito é tendo antes respeito por si mesmo.
o mal dos gays tbm é barbarizar e depois dizer os heteros fazem, por q eunão posso fazer?.... é justamente assim aproveitar e não fazer igual por q os heteros são aceitos pela sociedade, mais os gays não. então não da pra ficar de comparação, por isso eu afirmo a melhor forma é a busca por relações estaveis independente de idade.
quanto aos preconceituosos agressores, ai sim cadeia lei para puni-los.
mas eu não sou preconceituoso apenas tenho minha opnião.
só acho mais justo e correto relações estaveis apenas isso.

André Lux disse...

caetano, entendo sua posição mas continuo achando que não tem nada a ver você querer dizer que os gays sofrem preconceitos porque não buscam uniões estáveis. Nem que, para enfrentar os preconceitos, deveriam buscar mais a união estável.

As pessoas devem ter seus direitos individuais respeitados em qualquer circustância. Se o sujeito quer levar a vida na flauta e fugir de relações estáveis, tem que ser respeitado, assim como quem procura uma união fixa.

Na minha opinião, o que falta aos gays, e acho que nisso a gente concorda, é realmente união no sentido de se unirem em busca do mesmo ideal de luta contra o preconceito. Conheço muitos gays (assumidos ou não) que são reacionários e votam em políticos do PFL ou do PSDB, sem perceber que estão atirando no próprio pé.

Mas aí já é outro problema: falta de consciência de classe. Igual a pobre que vota no Maluf porque acha bonito ele botar "a Rota na rua", sem parar para pensar que a Rota vai é descer o cacete justamente nos filhos deles, os mais pobres. Ou alguém aí já viu a Rota dando geral em filhinho de papai nos Jardins?

Agora, o problema mesmo está nas pessoas que são preconceituosas e tem ódio de gays por motivos puramente irracionais ou, pior, porque no fundo são enrustidos e morrem de raiva de quem tem coragem de se assumir. E é esse tipo de pessoa que tem que ser combatido, por isso a luta para que homofobia, assim como o racismo, seja considerado um crime.

caetano disse...

exatamente uma união com um unico e sério objetivo conseguir seu lugar na sociedade. gay paga imposto, gay tbm trabalha compra vende, então tem que ter direitos eu concordo com isso.

caetano disse...

realmente é uma coisa verdadeira tem muitos que até namoram e casam se dizem heteros, mas são gays ja tive oportunidade de conhecer alguns rapazes assim e alguns até disseram que odiava gay, mas gostava de as vezes "pegar" um.
eu conheço muito bem mundo gay, desde os 18 anos que entrei nisso hj tenho 25 anos e não vi nenhuma mudança que ajude os gays.

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