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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Ricardo Melo: "Tropa de Elite é mesmo um filme bom?"

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Meu amigo Ricardo Melo deixou essa excelente contribuição para a polêmica em torno do grotesco "Tropa de Elite" na seção de comentários. Merece ganhar mais destaque.

Tropa de Elite é um filme bom?

- Por Ricardo Melo, geógrafo e escritor

O que é um filme bom?

Bom é um filme tecnicamente "bom" e que consiga transmitir uma "boa" estória.

Ao contrário do que parece, o fator "técnico" deve ser o mais subjetivo.

Afinal, um excelente filme pode ser repleto de imagens granuladas e cenas "tremidas" realistas, cheio de sombras.

Então, o fator técnico é importante, mas não é o principal.

Um filme barato pode ser tecnicamente melhor do que um filme caro. Existem vários exemplos disso.

Qual é o fator mais importante para um filme ser bom?

É contar bem uma estória.

E se essa estória causar um impacto em termos de novidade, melhor ainda.

Se a estória causar dúvida e questionamento no espectador, aí é excelente.

Quando o filme é tecnicamente "bom", conta bem uma estória, impacta a realidade com um ponto de vista diferente e, ainda por cima, obriga o espectador a pensar, aí você estará assistindo a um legítimo Stanley Kubrick. Ou um Bertolucci, ou um Luchino Visconti, ou...

Ora, Tropa de Elite é bom tecnicamente.

Mas a "mensagem" que ele passa não é impactante em termos de novidade.

Pelo contrário. O ponto de vista do Capitão Nascimento é muito, mas muito manjado.

Ninguém precisa pagar bilheteria para entender os "valores" que Tropa de Elite passa e defende com tanta convicção.

Mais do discurso de Tropa de Elite pode ser conseguido com coronéis torturadores e PMs descaminhados no cotidiano de São Paulo.

Pague uma corrida de taxi numa metrópole brasileira, fale com o motorista e você vai receber todos os "valores" de Tropa de Elite, não precisa gastar com ingresso no cinema.

Agora, em último lugar, isso faz alguém pensar?

Aí alguém pode perguntar:

- Pensar??? Do que esse cara está falando, o papo não é cinema?

É justamente por causa dessa indigência mental que o Cinema global perdeu certo vigor em todo o mundo e até premia Tropa de Elite em Berlim.

Tropa de Elite faz "pensar"! Faz a elite retrógrada brasileira "pensar" que precisamos de um exército de "Capitães Nascimento" para nos devolver a segurança.

Faz o cidadão médio "pensar" que o Brasil histórico do "Capitão do Mato" é a novidade do século. Uma tecnologia brasileira "for export" em técnicas de tortura eficientes e fatais.

Então o diretor de filme precisa ter cuidado com o que o espectador vai "pensar".

O filme pode induzir a uma dúvida, assombrar o cidadão com um aspecto inesperado?

Ou o filme, em vez de fazer o "freguês" refletir, vai apenas contribuir para que ele tenha ainda mais convicção no seu ponto de vista conservador e amendrontado?

Visto isso, qualquer um pode defender o ponto de vista de que Tropa de Elite é um filme "bom", afinal a opinião é pessoal.

Mas, se você pensar um pouco, vai concluir que Tropa de Elite não é tããããão bom assim.

Menos, mas bem menos mesmo...
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11 comentários:

Rodrigo disse...

Com todo o respeito, acho que falta profundidade quando limita-se o Tropa de Elite apenas à figura do Capitão Nascimento. Ok, ele é o personagem principal, mas existem outras facetas que quem assiste o filme com a intenção de ver a mensagem toda vê que sim, ele tem uma mensagem nova.

Por exemplo, esse é o filme onde melhor se vê o usuário como peça fundamental do tráfico de drogas. Outros filmes, como Cidade de Deus, apenas arranharam a superfície do assunto. O Tropa escancara a hipocrisia do playboy q compra droga no morro e depois reclama da "violência que vem do morro".

Ok, não é profundo a ponto de dar voz a todos, para entendermos o problema como um todo, mas aí o filme teria que ter 12 horas de duração. Optou-se por aquele que é mais dúbio do ponto de vista ideológico: o policial, pois como ícone é uma força do bem, mas é desconstruído pelo filme.

Acho que a adoção do capitão nascimento como "herói" ou "ídolo" pelo público depõe mais contra o estado de coisas aqui no país que contra o cineasta.

O cara fez um filme onde basicamente ninguém presta e existem pessoas que tem a manha de ver o policial psicótico como herói? O defeito está na mensagem ou no receptor?

André Lux disse...

A opção por limitar o filme à figura do grotesco Nascimento foi do cineasta. Lembrem-se que a narração original era do Matias, que é o protagonista de fato (é com ele que se passa o "arco moral" da estória) e acabou virando um buraco vazio no meio do filme. Nascimento é um mero coadjuvante.

As tintas caricatas que ele escolheu para pintar os consumidores de classe média também reduz a discussão a um nível chulo e maniqueísta.

Se grande parte do público vê um suposto psicopata como herói, a culpa obviamente é do diretor. Não vi ninguém achando que o Zé Pequeno era o "herói" do Cidade de Deus, mesmo ele sendo bastante humano em sua caracterização.

No final das contas, o que as pessoas estão tirando do filme são as asneiras ditas em tom de deboche pela narração do Nascimento, que vão totalmente contra a maneira que ele age. Tanto é que suas frases já viraram mania e todo mundo as repete, em tom jocoso...

Ricardo Melo disse...

O André está bem amparado nesse caso. A informação de que o protagonista deveria ser um personagem mais complexo - Matias - mostra a opção do diretor por um enredo mais raso, porém com maiores possibilidades de sucesso e polêmica. Deu certo, estamos aqui conversando sobre o filme.

Por outro lado, o Rodrigo comenta sobre um ponto de vista do Tropa de Elite que caiu como uma luva no senso-comum:o culpado pela criminalidade é o "playboy" da Zona Sul.

Parabéns ao diretor de Tropa de Elite, ajudou a consolidar uma mentira bem contada.

Esse conceito, no mínimo, é duvidoso e muito questionado.

É lógico que o tipo "playboy-viciado-da-zona-sul" faz parte de uma engrenagem que movimenta o tráfico e a criminalidade, isso ninguém discute.

Mas colocar a culpa de tudo em cima do "playboy", aí já é demais!

De quem é a culpa de uma das maiores concentrações de renda do mundo?

De quem é a culpa da exclusão social no Brasil?

De quem é a culpa da inação do Estado junto às comunidades carentes?

É tudo culpa do "playboy"?

É lógico que não. Certo, o filme não culpa o "playboy" de tudo, mas toda a sua "denúncia", toda a sua carga emocional é jogada em cima do poderoso "playboy".

E entendamos que o dito "playboy", na prática, é uma caracterização muito mal-feita do usuário, do viciado consumidor de drogas.

Então, Tropa de Elite ajuda mesmo é a estabelecer a criminalização do viciado e do consumidor da droga.

E os que trabalham com esse tema sabem que isso vai na contra-mão do que tem se estabelecido no tratamento dessa questão social em vários niveis:saúde, judiciário, etc.

Resumindo: além de não trazer nada de novo, Tropa de Elite é retrógrado em relação a esse tema.

Bom, depois da criminalização do "playboy", do usuário de droga, depois que o Tropa de Elite deixou de avaliar o papel do Estado nessa bagunça toda, deixo apenas uma questão para os apreciadores do gênero rambo responderem:

- E a bufunfa (bilhões de dólares) toda gerada pelo comércio global de entorpecentes, onde ela está? Na casa do "playboy"?
Debaixo do colchão do traficante?

Ah, se eu fosse diretor desse filme...

Provavelmente eu iniciaria todo o roteiro no Citibank.

Onde você acham que eu teria mais sucesso em uma investigação?

No barraco do mané do morro ou nas contas numeradas da Suíça?

É como dizem os especialistas estadunidenses quando o tema é investigação econômico-criminal:

- FOLLOW THE MONEY!

Paulo disse...

Tropa de elite mensagem sim, é a verdade nua e crua da situação, durante anos e anos nosso pais vive sem governo, até hoje nossos governantes vivem nos roubando, ao invés de investir em educação de qualidade e segurança para o cidadão, Capitão Nascimento qunado diz, que o policial só tem três saidas na guerra, é verdade, é chocante, mas é verdade, ou ele fecha os olhos, ou ele se corrompe, ou ele vai pra guerra, e infelizmente a guerra é brutal, os traficantes tem armas que são usadas em guerras internacionais, ou a policia reage com força, ou é mehlor nem subir o morro, infelizmente essa é a realidade, nem o Lula conseguiu resolver.

Miguel disse...

Claro que tropa de Elite é um filme bom, contra isso não há nem dúvida, por que vcs acham que o jurado de Berlim premiou o filme? Tinha ótimos candidatos concorrendo, e Tropa venceu, é um orgulho para o Brasil, o cinema nacional foi reconhecido, deveriamos está alegres, e não nos deixarmos guiar, foi fanatimos ideológicos, pois isso não levar lugar nenhum.

carlos disse...

Afinal de contas, vcs estão querendo saber mais que o juri de Berlim?Se o juri escolheu, é porque o filme é bom e ponto final, afinal andré, o que vc e ricardo melo, entedem de cinema?

Ricardo Melo disse...

Carlos e Miguel:
Tropa de Elite venceu no Juri de Berlim.

Ponto final e parbéns para o Brasil!

E isso é suficiente para alguém dizer - com toda convicção - que Tropa de Elite é BOM.

Vocês têm todo o direito de concordar com esse ponto de vista.

O direito à opinião é sagrado e universal.

Desse modo, como também faço parte do mesmo Universo, o meu ponto de vista também é válido.

Então não sou obrigado a venerar uma obra só pelo fato de ela ser brasileira e laureada pelo Festival de Berlim.

Impor ao resto do mundo um juízo de valor (Tropa de Elite é bom) só porque ele foi premiado e "sacramentado" por um juri cinematográfico não é, digamos, uma atitude muito lúcida e inteligente.

Afinal, o Juri de Berlim é composto de profissionais e artistas gabaritados, todos presididos por, nada mais nada menos do que o diretor Costa Gravas!

Mas, daí, dizer que o Juri de Berlim possui o dom divino da infabilidade é um enorme absurdo.

Dizer que ninguém tem "capacidade" de discordar de uma apreciação de tão eminente equipe é um retrocesso aos tempos anteriores ao Iluminismo.

Argumentos do tipo "o que você entende" ou "quem é você" para dizer que Tropa de Elite não é bom, na verdade, depõem contra a própria obra, é lamentável.

Certamente o Costa Gravas iria ridicularizar um "argumento" desses...

Vale a pena um entrevista de Costa Gravas onde ele afirma com todas as letras: "todo filme é político".

Se achar de novo o link, eu mando.

Rodrigo disse...

Apesar de não concordar com o que o Ricardo (e o Lux) acha do filme, o Ricardo acabou de dizer td q eu queria dizer.

Se a gente não pode vir na internet e dizer q não concordamos com o juri de Berlim, ou q não concordamos com alguém mais laureado q nós, pra q existe a internet?

Eu sou muito bom na minha área (de marketing). Mas nem por isso eu deixei de aprender sobre isso com gente q sabe muito menos (ou nada) que eu.

O papo é: quem define se o filme é bom ou não é vc mesmo. Não é nem o juri de Berlim nem o Lux e o Mello. Podemos, sim, discutir as nuances do filme e até eventualmente mudar de opinião, mas pq a gente mesmo o quis assim.

André Lux disse...

Opinião é igual bunda: cada um tem a sua!

Rodrigo disse...

E a dos outros sempre fede mais que a nossa, rs.

Eryckison disse...

Esse post foi publicado em fevereiro de 2008. Acabei de acha-lo por acaso no google. Mesmo tento passado bastante tempo farei um comentário.
Acho válido comentar sobre o filme e fazer esse tipo de analize. Isso é bem instrutivo.
Mas não posso deixar de dizer uma coisa. Da mesma forma que você julga a parte técnica do filme como algo importante porém secundário, posso também julgar a mensagem do filme como algo importante porém secundário (digo, importante porém não o principal).
Na minha opinião(e creio que a opinião da maioria das pessoas) o que faz o filme se tornar bom ou não é a capacidade que ele tem de fazer a pessoa "viajar" naquelas 2 horas que estão assistindo. Esquecer da vida, do cotidiano e entrar em um novo mundo(que muitas vezes esta distante da realidade). Isso durante o filme, agora, levar a pessoa a pensar sobre o filme DEPOIS do filme é algo totalmente secundário(isso nao é o mais importante). Pois se o filme é algo que se caracteriza como ENTRETENIMENTO (entretenimento no wikipedia é explicado como "conjunto de atividades que o ser humano pratica sem outra utilidade senão o prazer.").
Se você estiver certo e o mais importante do filme realmente for a mensagem, então o filme deixa de ser entretenimento e passa a ser educativo.
Se eu for pensar na mensagem do filme então os melhores filmes que eu já vi em toda minha vida deixariam de ser bons e passariam a ser filmes horríveis pois seria impossível tirar da categoria de entretenimento e coloca-los na de educativos.
Entrei de cabeça no filme tropa de elite 1. Me fez ficar atento durante todo o tempo. O Tropa de Elite 2 achei melhor ainda.
Nenhum dos dois me trouxeram mensagem nenhuma, mas curti assistir o filme e pra mim basta para dizer que é um bom filme sim.

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