segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Falso Moralismo e Hipocrisia: Entenda porque a impunidade é culpa da direita

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O leitor Patrick deixou a mensagem abaixo no texto "A Vingança dos Homens de Bem". Vale a pena ler. Nada como receber informações de quem realmente conhece o assunto.

"André, cheguei tarde nesse debate, mas permita-me acrescentar duas informações relevantes.

Primeiro, a lei que aliviou o réu primário não foi iniciativa de algum defensor dos direitos humanos. Pelo contrário, foi obra da ditadura militar para livrar a cara do Delegado Sérgio Fleury, condenado por homicídio em função de sua participação no esquadrão da morte. Referência: "Meu depoimento sobre o esquadrão da morte", de Hélio Bicudo.

Segundo ponto: o código penal brasileiro não é da época de Getúlio Vargas. Esse erro pode ser justificável para leigos, mas para profissionais do direito é pura má-fé. A parte geral (a mais importante) do código penal foi completamente revogada e alterada em 1984, durante o governo de Figueiredo. Esse monte de regras que favorece a impunidade de quem tem condição financeira abastada é obra da ditadura militar, e não de "defensores de bandidos/direitos humanos".

O maior amigo dos criminosos do colarinho branco é o Ministro queridinho da mídia, Marco Aurélio de Mello. Os bandidos/pretos/favelados nunca gozaram de impunidade: ou são mortos pelo bope ou - vide o caso da garota do Pará - são jogados às feras para serem seviciados diariamente."


- Patrick
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Soberba custa caro: FHC erra no português ao criticar suposta ignorância de Lula

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Não existe nada mais ridículo do que alguém tentar ridicularizar outra pessoa por uma suposta "ignorância". Isso não apenas é deselegante, como também é preconceito puro. Todavia, pior do que isso é o sujeito se prestar a um serviço desses e ainda por cima cometer um erro gramatical!

Foi o que fez o grão tucano, ex-presidente do Brasil, FHC. Confiram:

No encerramento do Congresso Nacional do PSDB, em Brasília, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou que quer "brasileiros melhor educados, e não liderados por gente que despreza a educação, a começar pela própria".

Além de preconceituosa, a crítica ao presidente Lula traz um erro de português. De acordo com a norma culta da língua, o correto seria dizer "brasileiros mais bem educados".
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quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Marilene Felinto: BANDIDOS SÃO O JORNAL E A TELEVISÃO

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- Por Marilene Felinto (*)

Mostraram cena a cena, quadro a quadro (no Jornal Nacional, da Rede Globo), o homem tentando fugir do helicóptero da Polícia Militar do Rio de Janeiro, que atirava de metralhadora para acertá-lo. O homem, um suposto traficante, descia morro abaixo, desviando-se das balas que ricocheteavam. Até que, atingido pelos disparos, esbagaçou-se no chão, morto. Era o ataque da polícia carioca ao tráfico de drogas na favela da Coréia, em Senador Camará, Rio de Janeiro, em 17 de outubro último.

Enquanto as imagens eram exibidas, o âncora ou a âncora do Jornal Nacional (não me lembro qual deles) narrava o episódio, dando destaque ao “trabalho” do “repórter cinematográfico que conseguiu flagrar o momento”. Eram os âncoras emprestando suas vozes de profissionais formados em curso superior para narrar o assassinato das classes subalternas como se fossem os juízes das mesmas. A abordagem da Rede Globo era a de sempre: a opção por tratar os pobres e pretos das favelas como se fossem cachorros sem subjetividade (sem história própria), sem nenhum direito, por julgá-los sumariamente, sem que nada tenha sido ainda comprovado contra eles, chamando-os de “criminosos”, “bandidos” e “traficantes”, exibindo seus rostos na televisão sem que os mesmos tenham dado autorização para isso.

No dia seguinte, os jornais impressos estampavam a mesma notícia, com igual tratamento, com igual reprodução da visão incriminadora e do julgamento sumário. No jornal O Globo, do mesmo grupo de comunicação, a mesma condenação aos homens da favela: “depois de escapar de um esconderijo, dois bandidos tentam fugir pelo mato”. No sítio do jornal na Internet, um slide show exibia todas as cenas do Jornal Nacional e dezenas de outras fotos do acontecido. Uma delas, sob a legenda “Além dos seis bandidos mortos, outros traficantes foram presos durante a ação”, mostrava cinco homens pretos rendidos, um deles sangrando na perna, encostados em um camburão e vigiados por policiais empunhando metralhadoras.

No jornal Folha de S. Paulo, em outra foto que repetia a imagem de homens capturados e guardados por policiais, a própria legenda “Policiais exibem suspeitos de tráfico presos durante operação na favela da Coréia (zona oeste)” dá conta da manipulação da informação contida na mensagem: atribui-se aos policiais o ato de “exibir” os homens suspeitos, como se o próprio jornal (que comprou e publicou a foto – creditada a Wania Corredo/Agência O Globo) se eximisse da imputação de crime que pratica contra inocentes das classes socialmente marginalizadas.

Também o Jornal do Brasil e O Dia, ambas as publicações cariocas, faziam coro ao discurso da culpabilização sem provas: “Cinco bandidos que estavam escondidos dentro de uma casa se renderam há pouco” (Jornal do Brasil).“Por volta das 13h, a polícia saía com os presos quando bandidos voltaram a atacar” (O Dia). Ora, o princípio da presunção de inocência ou do estado de inocência está previsto no artigo 5º, inciso LVII, da Constituição Federal, disposto da seguinte forma: “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado da sentença penal condenatória”. Consagrando- se um dos princípios fundamentais do Estado democrático de direito como garantia processual penal, visando à tutela da liberdade pessoal. O mesmo princípio repercutiu universalmente ao ser reproduzido no artigo 11 da Declaração dos Direitos Humanos, da ONU, de 1948:

Art. 11º – “Toda pessoa acusada de delito tem direito a que se presuma sua inocência enquanto não se prova sua culpabilidade, de acordo com a lei e em processo público no qual se assegurem todas as garantias necessárias para sua defesa.”

Ou seja: qualquer um que seja apontado como autor de um ou vários delitos deve ser considerado inocente se não houver contra ele qualquer sentença criminal condenatória. Ou seja: a figura de um acusado jamais deveria ser exposta ao público com a carga de um criminoso autor de um ou mais delitos, uma vez que a confirmação de acusações somente pode ser auferida por meio de decisão judicial. [GOMES FILHO, Antonio Magalhães. O Princípio da Presunção de Inocência na Constituição de 1988 e na Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Pacto de São José da Costa Rica). Revista do Advogado. AASP. Nº 42, abril de 1994, pág. 30]. Ou seja, bandidos mesmo, que descumprem a lei e está provado, são o jornal e a televisão.

E não se pode esquecer o que o jornal e a televisão omitem diuturnamente: que, se os pretos e pobres da favela enveredam pelo caminho da desobediência ao Estado é porque, e somente porque “a obediência ao Estado só é devida se as condições elementares que induziram ou induzem à vida ordeira, sob a autoridade concertada do Estado, forem mantidas ou enquanto o forem. A impotência do Estado em prover segurança e meios adequados de sobrevivência, que incluem chances de prosperidade, libera os indivíduos do dever da obediência e legitima a desobediência civil”. (Luiz Eduardo Soares,1996)

(*) Marilente Felinto é escritora. Endereço eletrônico: marilenefelinto@carosamigos.com.br. Este artigo foi publicado originalmente na edição de novembro de 2007 da revista Caros Amigos, que gentilmente permitiu sua divulgação no fazendomedia.com.
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segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Filmes: "LEÕES E CORDEIROS"

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ROMA ESTÁ EM CHAMAS

Cineasta quer que jovens se engajem politicamente ao invés de se renderem à ladainha da mídia que tem o objetivo de deixá-los alienados, fator que vem a calhar para os reacionários a serviço das elites.

- por André Lux, crítico-spam

“Robert Redford (que também dirigiu), Tom Cruise e Meryl Streep poderiam apenas ter aparecido na tela por alguns minutos com cartazes dizendo, 'A Guerra é Ruim' e pronto. Salvaria todo mundo do preço do ingresso.” É com essa afirmação que um tal de Bill Goodykoontz inicia sua análise do filme “Leões e Cordeiros” no The Arizona Republic e demonstra bem o estado lastimável em que a crítica profissional se encontra atualmente.

O filme de Roberto Redford pode receber várias ressalvas, mas tentar reduzir sua mensagem a um mero panfleto contra a guerra chega a ser ofensivo. “Leões e Cordeiros” é cinema engajado explícito. O cineasta entende que é preciso despertar a juventude estadunidense para a situação lamentável em que se encontra seu país, atualmente governado por um bando de demagogos fundamentalistas que se enfiam de cabeça em qualquer aventura bélica que gere lucros para quem os financia e arrastam a opinião pública junto via mentiras e distorções publicadas na imprensa serviçal. Para isso, Redford constrói um roteiro que divide a ação em três tempos narrativos que não se cruzam, mas se relacionam tematicamente.

Em um deles, experiente jornalista da imprensa corporativa interpretada por Meryl Streep é convidada a visitar um jovem senador republicano (Cruise) conservador e moralista - desses que, entre discursos homofóbicos e intolerantes, são presos fazendo sexo com outros homens em banheiros públicos. O político deseja passar a ela, em primeira mão, informações vagas sobre a nova tática de guerra implantada pelo exército do tio Sam "para vencer o mal" no Afeganistão sob ordens diretas dele. A jornalista, que vê semelhanças trágicas com a guerra do Vietnam e fareja tratar-se apenas de outra jogada de marketing para tirar o foco do fracasso no Iraque, tenta em vão extrair mais informações do senador.

São exemplares os discursos hipócritas e falso-moralistas e as ameaças veladas que o senador republicano usa para tentar convencer a jornalista a divulgar sua notícia mentirosa, só para ajudá-lo a preparar terreno para uma possível disputa pela presidência da república. Nesse ponto o filme é preciso ao mostrar como, atualmente, os jornalistas da imprensa corporativa se deixam usar por políticos cujos interesses coincidem com os dos donos da mídia que pagam seus salários.

No outro segmento, acompanhamos o início da inútil operação militar no Afeganistão, onde recebem destaque dois soldados – um negro e outro latino – que são jogados para fora do helicóptero depois de um ataque surpresa em pleno ar e passam o resto da narração lutando para sobreviver à medida que os soldados afegãos se aproximam. Tudo isso é acompanhado, via satélite, pelos oficiais que comandam a operação e são incapazes de engendrar um resgate adequado.

O terceiro foco narrativo mostra uma reunião entre professor universitário e um de seus alunos, cujo potencial para o debate político ele tenta despertar novamente depois que o jovem perde o interesse pelo tema. É aí que “Leões e Cordeiros” mostra a que veio, ficando a cargo do próprio Redford, no papel do professor, listar os objetivos de sua obra. “Roma está em chamas”, afirma ele ao abestalhado aluno, “e o que vocês estão fazendo para mudar isso? Nada, exceto desviar do fogo enquanto isso ainda é possível”.

A mensagem é óbvia. Redford quer que os jovens de seu país se engajem politicamente, ao invés de se renderem à ladainha anti-política propagada pela mídia corporativa que tem justamente o objetivo de deixar as futuras gerações alienadas e alijadas do processo, o que vem bem a calhar para os interesses de conservadores e reacionários em geral a serviço das elites oligárquicas.

A construção narrativa de “Leões e Cordeiros” tem o propósito de deixar o espectador angustiado, irritado até. Ao intercalar as duas letárgicas conversas de gabinete com as cenas de guerra, Redford cria uma sensação de tensão que vai aumentando na medida em que piora a situação dos soldados - dois de seus ex-alunos que optaram, para desgosto do professor, em se alistar no exército para ingenuamente tentar fazer alguma diferença. Não por acaso, os protagonistas olham constantemente para seus relógios e a alegoria é novamente clara: “enquanto jogamos conversa fora, a vida de pessoas está em perigo”.

Não sei se o objetivo de Redford será atingido, pois atualmente os jovens estão cada vez menos propensos (se é que um dia estiveram) a prestar atenção em filmes que não contenham toneladas de efeitos visuais, correria desenfreada e pirotecnia visual. E nesse ponto bem que o diretor poderia também ter dado uma enxugada nos bate-papos (especialmente entre professor e aluno), deixando-os mais dinâmicos e vibrantes. Mas, falhas e ingenuidades à parte, ao menos a intenção é boa e os objetivos do diretor são expostos de forma clara e honesta. Coisa rara na indústria cultural estadunidense.

Cotação: * * *
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JERRY GOLDSMITH VIVE! CD duplo traz a trilha musical completa de "ALIEN"

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Uma das trilhas musicais mais impressionantes composta para o filme mais aterrorizante da história do cinema finalmente recebe o tratamento que merece! O selo Intrada Records, especializado em música de cinema, acaba de lançar um CD duplo com a trilha sonora completa de "Alien", composta pelo mestre Jerry Goldsmith.

O pacote majestoso inclui nada menos do que:
1) A trilha completa original conforme idealizada por Goldsmith para o filme;
2) As faixas alternativas;
3) As faixas do album original lançando em 1978, remasterizadas;
4) Faixas bônus adicionais.

Essa confusão toda entre a trilha original conforme idealizada por Goldsmith e as faixas alternativas se dá pelo fato do diretor Ridley Scott e o compositor não terem se dado bem durante a pós-produção. Goldsmith reclama que Scott nunca lhe deu o feedback necessário para compor a música e que ele se baseou quase que unicamente na sua própria reação ao filme. Talvez seja por isso que Goldsmith criou músicas de gelar o sangue, utilizando instrumentos musicais nada ortodoxos para produzir sons extremos, às vezes até radicais demais! Talvez por causa disso, o diretor e seu montador acabaram realizando um extenso trabalho de reedição da trilha no filme, trocando músicas de uma cena para outra, excluindo totalmente algumas e substituindo-as por faixas da trilha de Goldsmith para "Freud" - fatores que obviamente enfureceram o compositor.

Mesmo assim, Goldsmith ainda aceitou trabalhar com Scott em "A Lenda" e, novamente, teve seu trabalho desrespeitado pelo diretor que, cedendo à pressão dos executivos da Universal, deixou que a maravilhosa música original de Goldsmith fosse literalmente jogada no lixo sendo trocada por uma fraquíssima do grupo de rock progressivo alemão Tangerine Dream (mais "comercial", na visão dos engravatados).

Confira abaixo a relação das faixas do CD duplo de "Alien" e vá até a página da Intrada Records para ouvir alguns samples da trilha:

DISC 1
The Complete Original Score
01. Main Title 4:12
02. Hyper Sleep 2:46
03. The Landing 4:31
04. The Terrain 2:21
05. The Craft 1:00
06. The Passage 1:49
07. The Skeleton 2:31
08. A New Face 2:34
09. Hanging On 3:39
10. The Lab 1:05
11. Drop Out 0:57
12. Nothing To Say 1:51
13. Cat Nip 1:01
14. Here Kitty 2:08
15. The Shaft 4:30
16. It's A Droid 3:28
17. Parker's Death 1:52
18. The Eggs 2:23
19. Sleepy Alien 1:04
20. To Sleep 1:56
21. The Cupboard 3:05
22. Out The Door 3:13
23. End Title 3:09
Total Time 57:06

The Rescored Alternate Cues
24. Main Title 4:11
25. Hyper Sleep 2:46
26. The Terrain 0:58
27. The Skeleton 2:30
28. Hanging On 3:08
29. The Cupboard 3:13
30. Out The Door 3:02
Total Time 19:48
Total Disc Time 76:54

DISC 2
The Original 1979 Soundtrack Album
01. Main Title 3:37
02. The Face Hugger 2:36
03. Breakaway 3:03
04. Acid Test 4:40
05. The Landing 4:31
06. The Droid 4:44
07. The Recovery 2:50
08. The Alien Planet 2:31
09. The Shaft 4:01
10. End Title 3:08
Total Time 35:44

Bonus Tracks
11. Main Title (film version) 3:44
12. The Skeleton (alternate take) 2:35
13. The Passage (demonstration excerpt) 1:54
14. Hanging On (demonstration excerpt) 1:08
15. Parker's Death (demonstration excerpt) 1:08
16. It's A Droid (unused inserts) 1:27
17. Eine Kleine Nachtmusik (source) 1:49
Total Time 13:45
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quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Não deixem de ler: Edição n° 4 do Le Monde Diplomatique Brasil

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Clique na imagem para vê-la em tamanho real:



Índice da edição:

Até onde irá a crise financeira
Um dos maiores estudiosos das finanças internacionais investiga, em diálogo com dois livros recém-publicados, os tremores dos últimos meses. Seu diagnóstico: vêm aí grandes solavancos, que podem atingir a Ásia e mudar a economia do planeta
François Chesnais

Assim se colonizou a África negra
No século 16, as invasões portuguesa e marroquina iniciaram a desestruturação dos reinos e impérios ao sul do Saara — onde havia cidades de mais de 100 mil habitantes. Após três séculos de guerras, e escravidão ocidental e árabe, a população estaria reduzida a um quarto da original e as sociedades, arrasadas
Louise Marie Diop-Maes

Palestina: catorze anos de trágica divisão
Desde os Acordos do Oslo, Fatah e Hamas, as duas grandes facções da luta contra a dominação israelense, têm aprofundado sua disputa fratricida. A crise pode se agravar, caso Washington obtenha, este mês, a assinatura de mais um compromisso-fantasia
Marwan Bishara

Israel: o exército age para controlar a política
Beneficiados por orçamentos bilionários e a ajuda militar norte-americana, comprometidos com os negócios obscuros da indústria armamentista, os generais concentram cada vez mais poder. E a derrota frente ao Hizbollah parece tê-los tornado ainda mais agressivos
Amnon Kapeliouk

O Equador ensaia a “revolução cidadã”
Num país marcado pela debacle do sistema político tradicional, uma Assembléia Constituinte promete “refundar a República”. Apoiado por movimentos cidadãos, o presidente Rafael Correa sonha com um modelo em ruptura com o neoliberalismo — e enfrenta oposição da mídia e da oligarquia
Hernando Calvo Ospina

O novo capitalismo
Dedicando-se à rapinagem desenfreada, os private equities tornaram-se um dos principais fatores da atual instabilidade econômica. Um em cada quatro assalariados norte-americanos já trabalha para esses fundos ou para as empresas a eles subordinadas
Ignacio Ramonet

A desastrosa “pax americana”
Rotulando todo e qualquer conflito na região como um confronto global entre o Bem e o Mal, a política neoconservadora dos Estados Unidos estabeleceu vínculos antes inexistentes entre crises locais, municiou o fanatismo islâmico e criou o maior foco de instabilidade do planeta
Alain Gresh

O bobo da corte
Trânsfuga da esquerda, Bernard-Henry Lévy tornou-se o agressivo ideólogo de um novo centro, que se aproxima cada vez mais da direita. Ao contrário dos antigos truões, que usavam seu talento para criticar o status quo, BHL só faz atacar as idéias progressistas e adular os poderosos Serge Halimi

Os sem-teto às portas de São Paulo
Após visitar o acampamento do MTST, no Morro do Osso, em Itapecerica da Serra, o repórter francês transmite sua visão sobre a crise habitacional da maior megalópole da América do Sul e a força dos movimentos sociais brasileiros
Phillippe Revelli

A revanche de Flandres
Com altos índices de crescimento econômico, os flamengos não querem mais carregar nas costas os atrasados valões, que os humilharam no passado. E as tensões autonomistas põem em risco a frágil unidade nacional belga
Jean-Yves Huwart

A Revolução Russa noventa anos depois
Os apoios exaltados e os ataques furiosos que a experiência soviética suscitou contribuíram para mascarar sua verdadeira realidade. O fracasso desse processo é rico em lições sobre os sistemas, suas transformações, seu envelhecimento e suas crises
Moshe Lewin

Neurociências a serviço do mercado
A investigação da atividade cerebral mostrou as áreas que devem ser estimuladas para tornar um produto altamente desejável. E, lançando mão do neuromarketing, uma centena de empresas já utilizam esses conhecimentos para vender sempre mais
Marie Bénilde

Vá até a página eletrônica do Le Monde Diplomatique clicando neste link.
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terça-feira, 13 de novembro de 2007

Novas versões de Blade Runner em DVD: Pague (bem) mais para receber (bem) menos no Brasil

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Quando alguém afirma que os gringos adoram explorar a miséria do terceiro mundo, vem sempre algum hidrófobo da direita dizer que isso é mentira.

Pois bem. Vejam mais um exemplo clássico da sacanagem que eles fazem com a gente, vendendo aqui um produto com menor qualidade por um preço bem maior do que o original.

Está para sair nos EUA três tipos de DVD do "Blade Runner", cada um trazendo as seguintes versões do filme e extras:

1) BLADE RUNNER - THE FINAL CUT. São dois discos, um com a nova versão do filme, restaurada pelo diretor Ridley Scott e vários comentários em áudio. O outro, traz o documentário "DANGEROUS DAYS: MAKING BLADE RUNNER".

2) BLADE RUNNER (Four-Disc Collector's Edition). Nada menos do que quatro discos. Os dois primeiros são iguais aos descritos acima. O terceiro vem com as três versões antigas:
* 1982 THEATRICAL VERSION - Versão dos cinemas, com o famigerado "final feliz" e narração em off de Harrison Ford.
* 1982 INTERNATIONAL VERSION - Mesma que acima, com mais violência.
* 1992 DIRECTOR'S CUT - Aquela sem final feliz e narração e com a cena do unicórnio, igual à que foi lançada aqui em DVD, só que restaurada, pois a original era um lixo em termos de qualidade de som e imagem.
E no quarto DVD (BONUS DISC), encontramos 90 minutos de cenas deletadas e ítens nunca vistos, em galerias e filmetes que cobrem vários aspectos do filme.

Demais, não? Que nada! Os caras ainda tiveram a coragem de produzir uma maleta BLADE RUNNER que vem com 5 discos! Veja só o que ela contém:

3) BLADE RUNNER (Five-Disc Ultimate Collector's Edition). Além dos quatro DVD descritos acima, a maleta ainda traz lembrancinhas do filme, como miniaturas do Spinner e do origami do unicórnio, fotogramas. E mais um DVD contendo a famosa WORKPRINT VERSION do filme, que foi a primeira montagem exibida em testes e é considerada a versão mais radicalmente diferente das outras, com comentários em áudio e um making of comparando todas as versões! Veja imagem abaixo:



Gostou, né? E aqui no Brasil, o que nós vamos ter? Prepare-se para o ultraje:

1) BLADE RUNNER (3 DVD)
Disco 1 - Translator Final: Versão final do diretor, incluindo cenas estendidas e efeitos especiais (alguém pode me dizer o que significa "translator final"?)
Disco 2 - Versões Arquivadas: Versão para cinema EUA (1982), Versão para cinema internacional (1982), Versão do diretor (1992)
Disco 3 - Dias Perigosos: Realizando Blade Runner (Documentário definitivo sobre o filme), extras finais, documentários inéditos

Ah, mas a maleta também vai sair aqui!
Vejam só que beleza o seu conteúdo:
2) BLADE RUNNER (Maleta): os mesmos três DVD listados acima e as lembrancinhas.

Agora, o ultraje final: sabe quanto os caras vão cobrar por essa maletinha podre aqui no Brasil? A bagatela de R$ 299,00!

Achou barato? Então veja só quanto custa a maleta com os 5 DVD na Amazon.com: US$ 54,99! Ou seja, se você comprar a maleta importada, pagando ainda os US$ 8,00 de impostos de correio, vai pagar cerca de R$ 111,30 (com o dólar na cotação de hoje).

Vocês acham que eu estou brincando?
Então podem checar nos links abaixo:
- Maleta Blade Runner - Entrega a partir de 06/12
- Blade Runner (Five-Disc Ultimate Collector's Edition)

Resumindo: aqui no Brasil você vai pagar praticamente 3 VEZES mais por um produto que vem com dois DVD a menos! Vai pagar (bem) mais para receber (bem) menos. Sem comentários...



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Imprensalão no fundo do poço: Biógrafo de Che destrói farsa da Veja

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O que o biógrafo de Che escreveu para o jornalista da 'Veja'

"No fim das contas, estou feliz que você não tenha me entrevistado. Eu teria falado em boa-fé imaginando, equivocadamente, que você se tratava de um jornalista sério, um companheiro de profissão honesto. Ao presumir isto, eu estaria errado."

O repórter Jon Lee Anderson, biógrafo de Che Guevara, foi procurado há umas semanas pelo também repórter Diogo Schelp, da Veja. O objetivo era uma entrevista curta para a composição da reportagem que saiu na revista a respeito dos 40 anos da morte de Guevara.

A capa de 'Veja': 'hagiografia' É um entrevistado natural – afinal, Che Guevara, uma Biografia é a principal referência ao tema. A própria revista, na reportagem que Anderson critica, descreve seu livro como “a mais completa biografia de Che”.

Anderson respondeu a Diogo mas acabou não sendo procurado. Na semana passada, o veterano repórter de guerra da New Yorker teve acesso e leu a reportagem. Foi sua a decisão de tornar pública esta resposta a Schelp, que começou a circular por email entre os jornalistas brasileiros.

A original é em inglês — esta que segue é uma tradução:

Caro Diogo,

Fiquei intrigado quando você não me procurou após eu responder seu e-mail. Aí me passaram sua reportagem em Veja, que foi a mais parcial análise de uma figura política contemporânea que li em muito tempo. Foi justamente este tipo de reportagem hipereditorializada, ou uma hagiografia ou — como é o seu caso — uma demonização, que me fizeram escrever a biografia de Che. Tentei por pele e osso na figura supermitificada de Che para compreender que tipo de pessoa ele foi. O que você escreveu foi um texto opinativo camuflado de jornalismo imparcial, coisa que evidentemente não é.

Jornalismo honesto, pelos meus critérios, envolve fontes variadas e perspectivas múltiplas, uma tentativa de compreender a pessoa sobre quem se escreve no contexto em que viveu com o objetivo de educar seus leitores com ao menos um esforço de objetividade. O que você fez com Che é o equivalente a escrever sobre George W. Bush utilizando apenas o que lhe disseram Hugo Chávez e Mahmoud Ahmadinejad para sustentar seu ponto de vista.

No fim das contas, estou feliz que você não tenha me entrevistado. Eu teria falado em boa-fé imaginando, equivocadamente, que você se tratava de um jornalista sério, um companheiro de profissão honesto. Ao presumir isto, eu estaria errado. Esteja à vontade para publicar esta carta em Veja, se for seu desejo.

Cordialmente,

Jon Lee Anderson.
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segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Rir para não chorar: Duas charges que dizem tudo




Do blog do Kayser.

Teste: Esquerda ou direita? Libertário ou autoritário?

O amigo Ricardo Melo enviou link para um teste interessante, que no final vai definir se a pessoa é de esquerda ou direita, autoritário ou libertário. Apesar de ser em espanhol, é de fácil entendimento (e dá para fazer em inglês também).

Vejam meus resultados:
Derecha/Izquierda Economicista: -8.50
Anarquismo/Autoritarismo Social: -6.87


Eu no gráfico (clique na figura para vê-la em tamanho real):



Abaixo, alguns exemplos de personagens históricos famosos e o espectro ideológico no qual se encaixam, segundo o site (clique nas figuras para vê-las em tamanho real):




Alinhamento ideológico dos governos da União Européia em 2006:



Alinhamento ideológico de compositores:



Fico feliz de estar em tão boas companhias... Se você também tiver coragem de passar pelo teste e descobrir se está mais para Hitler, para Gandhi ou para Stalin, clique neste link. Dá para fazer o teste em inglês também - clique aqui.
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domingo, 11 de novembro de 2007

Universo Paralelo: Como seria se os barões da mídia fossem honestos?

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Vamos fazer um exercício de imaginação? Então, pense como seria a capa e o editorial dos veículos da imprensa corporativa no dia seguinte ao golpe de Estado de 1964 caso eles fossem realmente honestos e verdadeiros em relação às suas intenções e ideologias. Minha sugestão a esse ato insólito está abaixo (clique na figura para vê-la em tamanho real).

EDITORIAL - 01 de abril de 1964

DEMOCRACIA DO NOSSO JEITO!

Prezados leitores,

É com grande satisfação que anunciamos o sucesso do golpe de Estado contra o presidente João Goulart, perpetrado no dia de ontem pelas forças armadas e financiado por todos nós, que fazemos parte da minoria podre de rica do país, e pelos Estados Unidos da América, país que tem grande interesse em continuar explorando as riquezas do Brasil a preço de banana e o trabalho semi-escravo dos pobres e miseráveis.

Mas derrubar um presidente que foi eleito pela maioria da população (“povo” é um termo proibido em nossas redações) não é tarefa fácil para nós, 1% dos brasileiros que vivem nababescamente no topo da pirâmide social. Para isso, além da grana dos EUA e das armas e tanques dos milicos, precisamos também do apoio das classes médias – aquele pessoal que está um pouco acima da linha de miséria que engloba a imensa maioria da massa ignara, mas sonha que logo vai chegar ao topo da pirâmide e será aceito por nós, a nata da sociedade. Pobres idiotas...

Mal sabem eles que, por meio da distorção dos fatos e da mentira pura e simples, são manipulados pela imprensa que nos pertence para acreditarem que o Brasil sofria ameaça de virar um país comunista, no qual suas crianças seriam transformadas em comida enlatada, igual os fazemos acreditarem que acontece na União Soviética e em Cuba! Tudo isso é besteira, nós sabemos, mas é provocando o terror na mente desses coitados que ganhamos respaldo moral para derrubar qualquer governante eleito democraticamente e instalar uma Ditadura Militar que agora vai prender, torturar e matar quem não nos serve e obedece.

Mal sabem eles o quanto gargalhamos, entre as várias doses de Scotch ou tacadas de golfe, das suas patéticas “Marchas com Deus e a Família pela Liberdade”, que nós chamamos (só entre as quatro paredes lá do Country Clube, é claro) de “Marcha dos Idiotas Para Ajudar os Podres de Ricos a Ficarem Mais Podres de Ricos”.

Por favor, sejamos francos: democracia só serve se o eleito for alguém da nossa turma, ou seja, alguém que vai governar em nome da manutenção dos nossos privilégios. Que negócio ridículo é esse do sujeito ser eleito e achar que vai chegar lá e promover reforma agrária, aumentar salários e benefícios dos peões, democratizar os meios de comunicação, promover justiça igual para todos independente do nível social e outras barbaridades?

Não sabem esses infelizes que os latifúndios são nossos? Que se aumentarem os salários nós não podermos mais comprar carrões, iates, mansões em Miami e pagar amantes mensalmente? Que se democratizarem a mídia não vamos mais enganar e manipular os alienados para que ajudem a manter nossos privilégios? Que se a justiça for igual para todos, nós também vamos ter que responder pelas falcatruas que cometemos diariamente para engordar as nossas contas bancárias?

Não senhores, isso nós não vamos permitir que aconteça nunca! Em nossos privilégios ninguém mexe. E pobres daqueles que ousarem tentar, pois não mediremos esforços para impedi-los. E para isso temos a força do dinheiro e a força da distorção das notícias em nossas mãos.

E viva a volta da democracia ao Brasil neste glorioso primeiro de abril!
(gargalhadas sarcásticas).

Assinado: (coloque aqui o nome de qualquer barão da mídia nacional)
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Repercusão: Vejam as matérias sobre a manifestação do MSM

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O site Conversa Afiada, do Jornalista Paulo Henrique Amorim, deu grande destaque à manifestação do Movimento dos Sem Mídia em frente à rede Globo SP realizado no sábado, dia 10 de novembro. Confira a matéria e o vídeo do Conversa Afiada neste link.

Aos 2:33 do vídeo eu apareço segurando a faixa "Não somos contra ninguém, mas a favor do jornalismo sério" (e dá-lhe mais três segundos de fama para o crítico spam!).

O site Vermelho, do PCdoB, também mostrou a manifestação e usou as minhas fotos para ilustrar a matéria. Além disso, colocou meu nome entre os "jornalistas de peso" que dão apoio ao MSM. Bom, só se for por causa do meu peso mesmo que atualmente está na casa dos 118 kg (felizmente eu tenho 1m92 de altura então não fica tão feio...). Clique neste link para ler o texto do Vermelho.


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sábado, 10 de novembro de 2007

Movimento dos Sem Mídia em Ação: Cobertura da manifestação em frente à Globo SP

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- por André Lux, jornalista sem mídia (blog Tudo em Cima)

Cerca de 40 pessoas marcaram presença em frente à rede Globo de São Paulo neste sábado chuvoso, dia 10 de novembro. Foi a segunda manifestação do Movimento dos Sem Mídia em nome de uma imprensa ética, responsável e plural.

O presidente da ONG do MSM e autor do blog Cidadania, Eduardo Guimarães, leu o manifesto intitulado "A Globo e a TV de que precisamos" e, no final do evento, tentou entregá-lo a algum responsável pela emissora que se utiliza gratuitamente de uma concessão pública. Mas o esforço foi em vão. Os funcionários da Globo, que foram instruídos a não receberem de maneira nenhuma o manifesto, nos informaram que ele deveria ser enviado diretamente ao departamento jurídico da emissora.

Até aí, nada de novo no front. Seria realmente muito esperar que uma rede de televisão que mantém um império midiático usado para propagar e defender os interesses de uma única família (os Marinho) e a minoria que representam tivesse qualquer inclinação a receber um manifesto que pede por pluralidade, ética no jornalismo e respeito aos direitos constitucionais dos brasileiros.

Mas o que vale é a intenção. É preciso ressaltar que nenhuma equipe de jornalismo da rede Globo apareceu para cobrir uma manifestação realizada em frente à sua portaria - embora diversas viaturas com o logo da emissora entraram e saíram dos portões durante o ato. Apenas uma equipe de reportagens esteve presente na cobertura completa do evento, a do site Conversa Afiada do jornalista Paulo Henrique Amorim.

No final do evento, um comandante da polícia militar de São Paulo, responsável pelo policiamento da área, veio até os Sem Mídia e elogiou a postura pacífica e civilizada dos manifestantes.

Confiram abaixo fotos que eu tirei no local (clique nelas para vê-las em tamanho real):


Leitura do manifesto "A Globo e a TV de que precisamos"


Sem Mídia tentam entregar o manifesto à Globo


Guimarães informa que emissora recusa-se a receber o manifesto


Policial militar elogia a manifestação pacífica do MSM


Absurdo: só a equipe do Conversa Afiada cobriu o evento


Viaturas de jornalismo ignoram ato na porta da emissora


Na Globo, democracia e liberdade de imprensa só chegam até os portões


O crítico-spam (à direita) dá uma força para segurar faixa do MSM

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sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Debate: Verdade Factual versus Opinião Enviesada

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Vou usar esse espaço para responder aos comentários do leitor Rodrigo Leme no texto sobre a "Coleção Caros Amigos: A DITADURA MILITAR NO BRASIL", pois o assunto é muito pertinente. O que é verdade factual e o que é opinião enviesada?

Rodrigo Leme: Esse tipo de coisa me deixa bem satisfeito. Vivemos em um país onde qualquer ponto de vista sobre a ditadura, seja ele completamente à esquerda, completamente à direita ou no meio dos dois possa ser publicado. Fico mais satisfeito ainda em ver que a caros Amigos deixa claro que o publicado é o ponto de vista dela, ao invés de vender o publicado como verdade factual (apesar que a chamada de capa contrariar o q eles dizem, não há de ser nada). O período da ditadura no Brasil é um dos que mais me interessa, por ter tantas nuances, e ter diversos pontos de vista à disposição para mim, mesmo não concordando 100% com todos eles, só acrescenta. Parabéns pela iniciativa.

Ao que eu respondi: Pois é, Rodrigo. As únicas diferenças entre as visões é que a direita e sua mídia chamam o golpe militar de "revolução", a ditadura de "regime" e negam as torturas e as mortes até hoje. A mesma direita que, por exemplo, chama o governo Chávez de "ditadura" e condena a revolução popular cubana que depôs uma ditadura militar.

Como se vê, tirando a verdade factual, o resto é tudo diferença ideológica mesmo...

Réplica do Rodrigo Leme: Lux, o problema da verdade factual é que cada um a interpreta como quer. Existem verdades inalienáveis, como as q vc citou, e verdade determinadas pelo espectro ideológico. Assim como a direita acreditava estar libertando o Brasil (meu Deus!), alguns dos combatentes de esquerda acreditavam que a saída era não mudar o tipo de governo, mas sim a orientação da direita para a esquerda. E cada um esconde e mostra o q quer. Por isso q ressaltei a importância de ser honesto com o leitor q apontar que o escrito é um ponto de vista particular. Não peço imprensa imparcial, pq isso não existe; transparência e cara pra bater está bom demais.

Ao que eu respondo agora: Rodrigo, entendo seu raciocínio, mas é preciso diferenciar as coisas. Verdade factual é o fato puro e simples. Exemplos:

1) Em 1964 ocorreu um golpe de Estado no Brasil que depôs um presidente eleito democraticamente, efetivado pelos militares e respaldado por uma minoria (oligarcas + classe média alienada) e EUA;

2) Durante os 21 anos de Ditadura Militar, milhares de brasileiros foram presos arbitrariamente, torturados e/ou mortos.


Isso são fatos, não opiniões nem análises. O jornalismo sério e honesto deveria divulgá-los assim sempre, independente de qualquer posição política ou ideológica.

Se foram bons ou ruins, defensáveis ou não, aí sim vai depender da ideologia que cada um segue (conscientemente ou não) para analisá-los. Dessa forma, muitos acharam (e ainda acham) tudo isso lindo e correto, enquanto outros não.

Agora, a mídia de direita (que não se assume como tal) nunca divulga os fatos. Ela divulga opiniões travestida de notícia. Assim, golpe de Estado vira "revolução" e Ditadura Militar é chamada de "Volta da Democracia". Para os que se informam pela mídia de direita, as torturas nunca ocorreram, nem as prisões arbitrárias ou os assassinatos nos porões da ditadura. Quando muito, divulgavam que algum "terrorista" foi morto em combate com as "forças governamentais".

É por tudo isso que essa mídia e seus auto-proclamados "formadores de opinião" perdem a credibilidade e o respeito a cada dia - pelo menos entre as pessoas que têm um mínimo de consciência. E só vão ganhar de novo quando:

1) Assumirem suas posições ideológicas com franqueza e deixarem de tentar vender aos incautos que não divulgam uma ideologia, mas sim uma verdade única, quase um "fenômeno da natureza", icontestável e irrefutável;

2) Noticiarem os fatos sem contaminação político-partidária;

3) Explicarem em editoriais assinados porque defendem determinada ideologia e porque endossam, por exemplo, o golpe de Estado (que chamam de "revolução"), a Ditadura ("regime"), as torturas e os assassinatos políticos cometidos no Brasil de 1964 a 1985.

Enquanto isso não acontecer, nós vamos continuar sendo obrigados a testemunhar essas aberrações chamadas Veja, Folha, Estadão, Globo e afins que dão nó em pingo d'água para defender a ideologia que interessa aos seus barões, sempre por meio de ataques às idelogias que não gostam e pela manipulação grotesca dos fatos para que se encaixem na defesa de seus interesses.

Muita gente pergunta por que essa manipulação toda da mídia de direita ficou tão evidente agora, principalmente depois que o Lula ganhou as eleições. A resposta é óbvia, não? Porque agora, que um partido dito de esquerda chegou ao poder, os barões da mídia precisam voltar ao ataque para tentar defender seus interesses e suas ideologias. Igual fizeram em 1964.

Quando é a direita que está no poder, a imprensa corporativa respira aliviada e volta a desempenhar um papel mais ou menos decente. Você quer ver um exemplo de jornalismo razoável? É só ver a cobertura do PIG (Partido da Imprensa Golpista) do acidente da linha 4 do metrô de São Paulo. Foram divulgados os fatos, sem pré-julgamentos, acusações ou "teste de hipóteses". Por que? Ora, o governo do município e do Estado de São Paulo está nas mãos da direita.

Agora, compare com a cobertura do acidente da TAM. Os bombeiros não tinham nem apagado o incêndio e as notícias já vinham com apontamento das causas do acidentes e condenações sumárias - as quais muitos boçais repetiram feito os papagaios que são - sempre relacionadas ao governo Federal. Não preciso explicar o motivo disso, preciso?

Enfim, nem eu nem a maioria das outras pessoas de esquerda que eu conheço quer exigir da mídia corporativa "isenção", "imparcialidade" ou qualquer outra coisa que não existe. Ou que eles não divulguem notícias negativas sobre os governos ou os políticos que estão alinhados à nossa ideologia. Muito pelo contrário. Queremos apenas que assumam publicamente a ideologia deles e a defendam em editoriais assinados, deixando o espaço para a divulgação das notícias o menos contaminado possível.

Será que é pedir muito isso? Pelo nível de histeria que reagem os barões da mídia e seus sabujos quando alguém toca nessa assunto, parece que é...
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Manifestação dos Sem Mídia: Amanhã, em frente à Globo SP!

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Amanhã na Globo

- por Eduardo Guimarães (do blog Cidadania)

Finalmente, estamos na véspera da manifestação diante da sede das Organizações Globo em São Paulo. O ato foi anunciado neste blog e em vários outros espaços na internet durante quase um mês. O Movimento dos Sem-Mídia explicou as razões que fundamentam sua existência e seus atos em dezenas e dezenas de textos. Fiz o mesmo em cerca de duas dezenas de entrevistas que concedi a veículos da imprensa "alternativa". Agora, meu amigos, é com vocês que vivem em São Paulo ou nas cercanias. O que precisamos, mais do que retórica, é de atitudes. E comparecer ao ato de protesto diante do veículo de mídia mais questionado do país, é a atitude mais firme que você já teve oportunidade de tomar. Aproveitá-la ou não depende só de você. Eu fiz minha parte.

Quem quiser transformar essa indignação que tantos vivem manifestando em e-mails, blogs e em conversas particulares em atitude real, deve comparecer amanhã (sábado, 10 de novembro) diante da sede da Globo em São Paulo PONTUALMENTE às 10 horas da manhã. O endereço é avenida Chucri Zaidan, nº 46. Essa avenida é continuação da engenheiro Luis Carlos Berrini, depois que cruza a avenida Jornalista Roberto Marinho. A estação Morumbi da CPTM é próxima dali. É perto do bairro do Brooklin, vamos dizer para quem não conhece bem.

Também quero fazer algumas recomendações.

O Movimento dos Sem-Mídia não acredita em violência e em insultos. Achamos que a forma civilizada com que nos portamos na nossa 1ª manifestação é a base da grande repercussão que têm tido nossos atos. Esse é o melhor caminho para mostrarmos à sociedade que não somos um bando de radicais descerebrados e sim cidadãos ponderados, lúcidos, que querem que concessões públicas como a da Globo, por exemplo, sejam usadas de forma democrática, contemplando os interesses de toda sociedade e não só de uma pequena parte dela, da parte que concorda com os detentores da concessão. Assim, faixas levadas à manifestação de amanhã precisarão se ater aos princípios que professamos. Também é importante o respeito absoluto ao patrimônio público e ao direito de ir e vir das outras pessoas.

As autoridades já foram avisadas do ato que faremos. Em algumas horas reproduzirei aqui os documentos que um dos advogados do MSM enviou à Prefeitura, às polícias civil e militar e ao Detran.

Também quero sugerir a quem compartilha dos ideais que impulsionam o Movimento dos Sem-Mídia e, principalmente, a quem já o integra como filiado, em suma, a todos os que não poderão vir à manifestação, que "assinem" virtualmente o Manifesto que será postado aqui no blog a partir dos primeiros minutos da madrugada de amanhã, sábado.

Tenho refletido muito sobre tudo isto. Às vezes me pergunto se não é loucura achar que um grupo de homens e mulheres comuns, de classe média, pessoas que têm que lutar diariamente para conseguirem pagar suas contas no fim do mês, poderão sequer fazer cócegas num império como esse diante do qual faremos a manifestação de amanhã. Os Marinho são bilionários. Trata-se de uma das maiores fortunas do mundo. Gente para nos retaliar no lugar deles, jamais faltará. Não só por receber algum "estímulo" deles, mas até sem "estímulo" nenhum, só para bajular.

Muita gente não crê em ideais. Acha impossível que, num mundo onde todos só pensam em lucrar pessoalmente, alguém possa fazer alguma coisa pensando no benefício de todos e, mais do que nesse conceito intangível, no benefício das gerações futuras. No entanto, a história da humanidade guarda fartura de exemplos de homens e mulheres, muitas vezes de populações inteiras, que lutaram - e, algumas vezes, venceram - movidos só pelo idealismo no qual hoje tão poucos acreditam. Mas se não acreditarmos em ideais, teremos que acreditar que este mundo em que vivemos não tem salvação, pois sem ao menos uma centelha de idealismo, o que predominará será o salve-se quem puder e, aí, sobreviverão só os mais fortes. Mas a lei da selva não interessa a civilizados.

Apesar de eu agora falar em nome de uma organização da sociedade civil, tenho que falar sobre o que, como pessoa humana, fiz até aqui. É como uma prestação de contas daquele que aceitou o encargo de presidir o MSM. Até agora, fiz o que pude. Abri mão de muita coisa pelo Movimento dos Sem-Mídia. Troquei meu emprego fixo por outro como autônomo para ter como me dedicar ao MSM. Tenho usado tempo que deveria dedicar ao meu ganha-pão a fim de organizar tudo isto. Mas não estou me queixando, apenas estou dizendo que, aconteça o que acontecer amanhã, comparecendo gente para me acompanhar ou não, vindo centenas, dúzias ou só mais um, farei o ato.

Não aluguei carro de som. Vamos usar o megafone. O MSM não tem recursos. Não sei quantos efetivamente vão cumprir com a ficha de filiação que me enviaram pela internet. Não sei quantos assinarão de fato o compromisso de me acompanhar nessa luta. Só sei que fiz o que achei que deveria fazer. Eu não podia mais continuar fazendo comentários em blogs, enviando e-mails, reclamando, reclamando sem assumir a minha cota de responsabilidade como cidadão. Estou absolutamente seguro de que fiz tudo que estava ao meu alcance para mobilizar a sociedade. Não temo fracassar. Só temo não tentar. E eu tentei.

Muito obrigado a todos pelo apoio.

PS: em breve reproduzirei [no blog Cidadania] os documentos sobre os quais já falei.
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quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Coleção Caros Amigos: "A Ditadura Militar no Brasil" já nas bancas!

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Recomendo a todos a coleção "A Ditadura Militar no Brasil" lançada nas bancas nesta semana pela editora Caros Amigos. Serão 12 fascículos quinzenais em quatro cores, 32 páginas por fascículo, 384 páginas no total.

Reproduzo abaixo um trecho da apresentação do trabalho:

"[...] A proposta [...] é mostrar episódios e personagens a partir de nosso ponto de vista. Que difere substancialmente do encontrado em trabalhos semelhantes publicados pelas editoras grandes de revistas e jornais, mesmo porque elas defenderam e defendem a elite econômico-financeira que sempre dominou o poder e que não admite qualquer projeto de reforma institucional que possa ameaçar seus privilégios.

[...] No caso, as editoras grandes apoiaram vigorosamente o golpe de Estado que inaugurou o longo período chamado "anos de chumbo", a ditadura militar que durou 21 anos, de 1964 a 1985."


Também reproduzo abaixo algumas páginas escaneadas do primeiro fascículo que destacam a atuação da mídia grande no apoio ao golpe. Não mudaram nada, por sinal. Reparem como o discurso e a cara de pau é a mesma:

"Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares que os protegeram de seus inimigos" - O Globo, 2 de abril de 1964

Não deixem de comprar!

(clique na figura para vê-la em tamanho real)

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Nova Seção: LEITURA RECOMENDADA

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Inauguro hoje em meu blog a seção "Leitura Recomendada" apresentando um texto escrito pelo meu amigo Ricardo Melo, geógrafo e escritor, que recomenda alguns livros que merecem a sua atenção. Não deixem de ler até o final, pois vale a pena!

Dos quatro livros que ele destaca, eu li apenas "Confissões de um Assassino Econômico" e posso dizer com tranquilidade que é excelente. Leitura obrigatória para quem quer conhecer como funcionan as engrenagens ocultas do capitalismo selvagem. Boa leitura!

- André Lux

LEITURA RECOMENDADA

“O Ministério da Saúde adverte: a absorção sem critérios da produção da mídia dominante pode causar sérios danos cognitivos, físicos e até na alma do consumidor”.

- Por Ricardo Mello, geógrafo e escritor.

A saúde do consumidor de informação no Brasil é um problema sério, mas que poderia ser solucionado com uma profunda mudança de “hábitos alimentares da alma”. A advertência do início do texto poderia ser impressa na primeira página de várias publicações nacionais, a maioria das quais eu nem pretendo citar o nome por uma questão de ética e estética.

Mas enquanto estou divagando aqui, vamos pensar nos milhares de vítimas da indigestão midiática que assola o Brasil, um caso aparentemente sem solução. Na verdade, existe uma solução. Existem inúmeras obras que, uma vez assimiladas, mesmo por um contumaz consumidor de junk-midia,têm o poder de causar evidentes benefícios aos seus complexos cognitivos.

É a partir desse escopo que eu gostaria de recomendar um pequeno Cardápio Literário. São apenas 4 obras que constituem uma “refeição intelectual”, capaz de instilar no mais contumaz consumidor da mídia brasileira alguns questionamentos fundamentais, como:

- O que é bom para os EUA é realmente bom para o Brasil?
- O FHC é realmente o gênio da "raça"?
- A liberação da “mão mágica do Mercado” é realmente uma ação segura para o meu bolso?

O cardápio a seguir não pode ser considerado um milagre. Mas podemos considerar que a sua leitura pode, conforme demonstra ampla literatura a respeito, causar benefícios até mesmo em indivíduos portadores de evidente atrofiamento das regiões cerebrais relacionadas à memória e ao questionamento da realidade. Vamos então ao dito cardápio!

Aperitivo.
Eu começaria com um livro pequeno, de bolso mesmo, mas que já vai direto ao ponto: "O que o Tio Sam realmente quer", de Noam Chomsky. É uma obra concisa do famoso lingüista e pesquisador do nada menos que MIT - Massachussets Institute of Technology.

Apesar de pequeno e facilmente digerível, vai fundo na análise do planejamento estratégico dos EUA nas relações internacionais: terrorismo internacional, intervenção política e contenção econômica. Tudo com um grande destaque para a América Latina. Tudo embasado em farto material pesquisado em Washington, obtido de agências e secretarias de Estado.

A edição que eu encontrei foi editada pela UNB. Mas uma “amostra grátis” pode ser saboreada em arquivo pdf neste link.

Prato Principal.
E aí, tomou gosto pelo assunto? Agora quer ver mesmo "the real thing"? Se o primeiro livro realmente abriu o seu apetite, você pode ficar muito contente pois "Formação do Império Americano - da guerra contra a Espanha à guerra no Iraque" vai responder a todas "as dúvidas que você tinha a respeito do imperialismo estadunidense e tinha medo de perguntar". É porrada mesmo, cara (disso, eles entendem). O livro também é uma porrada, são 851 páginas com um pouco de quase tudo sobre os EUA e as suas conseqüências para o mundo: colonização, independência, guerra da secessão, expansão desde o século XIX até hoje.

É um material super atual, chegando até as Torres Gêmeas e a Guerra do Iraque. Tudo está lá: Destino Manifesto, Doutrina Monroe, Big Stick ("carregue um grande porrete, fale macio e irá longe"), todas as "operações encobertas" que desestabilizaram e manipularam os governos do mundo, principalmente da coitada da América Latina, as operações "abertas" de invasões, etc.

Quer mais? Tentativa de golpe contra o Chavez da Venezuela, tudo sobre a ALCA, o cercamento da América do Sul e da Amazônia com bases militares e aeroportos, o escambau... Grande destaque também para o chamado complexo industrial-militar, que, vide Bush, dá as cartas das Relações Internacionais da atualidade.

O autor é brasileiro, um monstro intelectual cuja família teve um grande destaque na diplomacia brasileira. Ele mesmo, Luiz Alberto Moniz Bandeira,tem títulos mundo afora (governo da Alemanha, da Argentina). Washington não quer saber dele, não sei porquê.

Se achar que é muita coisa, não se impressione. O livro é cronológico, então, se você preferir ler os períodos e fatos que mais interessar, no final vai acabar tomando gosto pela coisa e assimilando todo o resto, pode acreditar.

Bom, aí vão os dados do livro: "Formação do Império Americano - da guerra contra a Espanha à guerra no Iraque", Luiz Alberto Muniz Bandeira, Civilização Brasileira. (Compre neste link).

Sobremesa.
"A Melhor Democracia que o Dinheiro Pode Comprar". Esse é demais, o autor entrega toda a cambada que gerou o neoliberalismo nos EUA, a tal da sacana "nova economia" e o modo como um grupelho se apoderou do Estado norte-americano, decidindo algumas coisas básicas: quem vai ser o presidente, qual vai ser a empresa de água e luz, quem vai ser o dono dessas empresas, o modelo de gestão delas (preços altíssimos, serviços precários), etc. E as indústrias de armamento, as produtoras de petróleo? Essas não ficam desamparadas, muito pelo contrário.

Embora oficialmente o EUA sejam um país “livre”, com “liberdade de opinião”, o autor do livro não é mais publicado lá. Ele simplesmente foi censurado na grande imprensa, os seus artigos sumiram de lá, do mesmo modo como os desafetos de Stalin sumiam das fotos oficiais...

Esse autor, o Greg Palast, tem um estilo muito bom: irônico, completamente sarcástico, mas não se engane, o cara é muito sério. Tudo o que ele fala é baseado em documentações reais, relatos verdadeiramente escandalosos. O cara escreve atualmente para jornais do Reino Unido, como The Guardian, Obsever, etc.

Um "chegado" dele é nada mais nada menos do que "Joseph Stiglitz", ex-diretor do Banco Mundial, que botou a boca no trombone, ou melhor, contou que a verdadeira intenção do Banco Mundial era endividar, comprometer, quebrar as economias do Terceiro Mundo. Com o país quebrado, chegava a "galera" do FMI/BIRD oferecendo bilhões se esses países adotassem o seu receituário: mais recessão, quebra dos sindicatos de trabalhadores, privatização das empresas públicas. E quem iria comprar essas empresas públicas? A pequena "galera", a mesma que tem eleito presidentes dos EUA...

Se isso tudo lhe parecer familiar, tem um capítulo sobre a reeleição do FHC.

Aí vão os dados: "A Melhor Democracia que o Dinheiro Pode Comprar", Greg Palast, W11 Editores. (Compre neste link).

Cafezinho.
"Confissões de Um Assassino Econômico". John Perkins, no decorrer de sua vida profissional, se especializou em uma tarefa: oferecer serviços financeiros a países do Terceiro Mundo, com planos muito bem elaborados visando à construção da infra-estrutura necessária para o seu desenvolvimento e independência econômica. Bonito, não?

Agora, falando sério. Ele superestimava tudo, desde os custos até o lucro que esses empreendimentos iriam dar, fazendo com que o valor do empréstimo ficasse muito maior do que a real capacidade de pagá-lo. Com o país endividado, aí ele (o país) ficava comprometido, deixava de investir na sua população, os juros aumentavam. Depois viria o pessoal do FMI/BIRD para dar as suas "receitas" para recuperar a economia, já descritas acima.

John Perkins oferecia a grana e ficava ao mandatário do país a decisão de aceitá-la ou não. Mas ai do cara se não aceitasse...

Interessou? É um livro autobiográfico, pois o autor se arrependeu e botou a boca no mundo. Um detalhe importante é que ele atuava sob o manto de uma empresa privada norte-americana que, no entanto, seguia as orientações de organismos de Estado do seu país. É uma maneira inteligente de o Estado se fazer representado por empresas particulares no sentido de agir nos países pobres, quebrando e endividando-os.

Não é um livro de grande profundidade, é mais um testemunho pessoal que só corrobora algumas coisas melhor apresentadas nos livros anteriores.

Atualmente é um dos best-sellers dos EUA, é mole?

Dados do livro: Confissões de um Assassino Econômico. Autor: Perkins, John. Editora: Cultrix. (Compre neste link).
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quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Cidadania: Manifesto contra as políticas de extermínio

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Marcelo Yuka afirmou que nem todos concordam que a melhor maneira de combater a violência é com mais violência. Essa não é a paz que queremos. Para a professora Adriana Facina, "a mídia não aperta o gatilho, mas é cúmplice dessa política fascista. A revista Veja está ajudando a exterminar quando apóia o filme Tropa de Elite, que legitima essa política absurda"

- por Marcelo Salles (http://www.fazendomedia.com)

As corporações de mídia chegaram na hora. Na verdade, antes da hora. Ainda faltavam dois minutos para as 17h quando o primeiro carro de reportagem se aproximou da Fundição Progresso, onde foi lançado ontem o Manifesto Contra as Políticas de Extermínio do governo Sérgio Cabral (leia nota abaixo). O horário estava correto. 17h. Antes de mim, que cheguei às 16h30, apenas o Rafael Kalil e sua equipe estavam no local. Preparando o som, com apoio irrestrito de Perfeito Fortuna, homem perfeitamente afortunado por trabalhar com alguém como a Vanessa Damasco.

O primeiro a ser cercado pelos coleguinhas foi o advogado João Tancredo, um dos principais responsáveis pelas investigações da Chacina do Alemão, quando ainda era presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB. Em seguida, a turminha colou nos juizes João Batista Damasceno e Regina Rios, dois co-organizadores do Manifesto. Por fim, Marcelo Yuka conversou com os jornalistas, lá pelas 18h. Com uma hora de atraso, a equipe organizadora decidiu iniciar os trabalhos. Neste exato momento, tomei o microfone e anunciei os nomes que iriam compor a mesa: João Batista Damasceno, Regina Rios, Marcelo Yuka, João Tancredo e Adriana Facina, professora do Departamento de História da UFF. Como o Damasceno estava sendo entrevistado pela TV Globo, contei uma breve história sobre a proximidade desta empresa com a ditadura, com o único objetivo de entreter os convidados - cerca de 100 pessoas. Veja bem: isto fez parte do ato. Será publicado em algum lugar? (Propaganda: informação exclusiva só aqui no fazendomedia.com)

Mesa composta, tento passar a palavra à Regina Rios, em nome do cavalheirismo, que recusa. Começamos então pelo cientista político e juiz de direito João Batista Damasceno, que fez uma intervenção bastante contundente e mostrou como a polícia adota abordagens diferentes de acordo com a região em que atua. Corte de classe.

Em seguida, João Tancredo contou o que viu em Marechal Deodoro, na Favela do Fumacê, há poucos meses: um cenário típico de execução. Numa casa pequena, sangue espalhado pelo chão, uma panela de comida e uma garrafa de refrigerante. Seis pessoas foram assassinadas porque a polícia não conseguira o dinheiro do arrego, segundo os moradores. E a polícia em questão era o Bope, parceiro, que na real é bem diferente.

A juíza Regina Rios, talvez sentindo que ainda havia muita gente para falar, fez apenas uma observação e passou a palavra. Com todo o carinho e a gentileza que lhe são peculiares.

Marcelo Yuka tomou a palavra e afirmou que nem todos concordam que a melhor maneira de combater a violência é com mais violência. Essa não é a paz que queremos. "A gente está aqui para dizer que nem toda a sociedade concorda com essa política de extermínio".

E a professora Adriana Facina superou todas as minhas expectativas que, confesso, eram altíssimas. Explico (e essa notícia não será publicada pelas corporações): Até o início do ato, não havíamos combinado quem iria compor a mesa. Perguntei a um, perguntei a outro. E nada. Até que o Yuka disse: você escolhe. Foi o que fiz. Além dos três organizadores do manifesto (Yuka, Regina e Damasceno), escolhi Adriana Facina para representar a academia e o João Tancredo porque sem ele, sinceramente, acho que seria muito difícil que houvesse alguma investigação séria sobre a Chacina do Alemão (27 de junho de 2007).

Voltando à Adriana. Pegou a palavra e... "A mídia não aperta o gatilho, mas é cúmplice dessa política fascista do governo do estado. A revista Veja está ajudando a exterminar quando apóia o filme Tropa de Elite, que legitima essa política absurda". E por aí foi. Deu nome a todos os bois e, por que não dizer, vacas. Claro que as ponderações necessárias foram feitas. O jornalista, o trabalhador da notícia, não tem nada a ver (em geral) com a linha editorial do jornal em que trabalha. Ele apenas vende sua força de trabalho, mas isso não significa que ele concorde com a vocação golpista de seu patrão.

Pouco depois chegaram mais três companheiros para compor a mesa: o deputado estadual Marcelo Freixo, representando o Partido Socialismo e Liberdade, João Luiz Pinaud, pela Associação Americana de Juristas, e Margarida Pressburger, pela Ordem dos Advogados do Brasil. Marcelo ressaltou que a responsabilidade dessa política de insegurança pública deve ser atribuída ao governador Sérgio Cabral e seus ideólogos, e não aos policiais. "Que aí é maltrapilho matando esfarrapado". O deputado socialista, que é também professor de história, fez uma análise que remonta à formação social brasileira. "Hoje, são homens de preto matando pretos ou quase pretos". Ao que seu xará Yuka completaria: "Todo camburão tem um pouco de navio negreiro".

Após essas intervenções, tivemos ainda a participação da Fernanda, que falou por um dos movimentos sociais mais importantes do mundo, o MST. E na seqüência falaram Maurício Campos (Rede Contra a Violência), Joana D´Arc (Grupo Tortura Nunca Mais), Cyro Garcia (PSTU), Mário Augusto Jakobskind (ABI) e João Ricardo (Associação de Moradores de Vigário Geral), além do sociólogo Renato Cinco e de Marcílio Rosa, que se apresentou apenas como "cidadão do mundo". Todos signatários do Manifesto. Durante toda a atividade (que durou das 17h às 21h), recolhemos cerca de 50 assinaturas. Ou seja, 50% de tudo o que já havíamos conseguido. Agora já somos 150 pessoas contra a política de extermínio do governo Sérgio Cabral, perfeitamente alinhada à ideologia neoliberal e à economia de mercado. Nesta quarta-feira, o representante da ONU para execuções extra-judiciais, Philip Alston, receberá uma cópia do Manifesto. Na quinta-feira (8/11), o grupo organizador do Manifesto (e você leitor também pode aparecer), estará na Assembléia Legislativa do RJ. Lá, o representante da ONU tem encontro marcado com o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alerj, deputado petista Alessandro Molon, que recebeu nosso Manifesto... Mas não se manifestou. A gente vai lá perguntar por quê.

Já notei alguma repercussão do ato na mídia alternativa e nas corporações de mídia. Essas, invariavelmente ignoram o trecho do manifesto que diz respeito a elas mesmas. Trata-se do terceiro parágrafo: "Nossa preocupação se estende ao posicionamento de certos setores da mídia que reforçam a ideologia do extermínio, em afronta ao Estado Democrático e de Direito, como o contido no editorial de jornal [carioca] de grande circulação do dia 26 de outubro, onde se lê que 'as camadas pobres da população converteram-se numa fábrica de reposição de mão-de-obra para o exército da criminalidade'".

Não importa. Nossa medida de sucesso não pode ser dada pelo vulto da cobertura. Podemos avançar muito, mesmo com pouca cobertura. E podemos não avançar nada, mesmo com muita cobertura. Nós temos que avançar APESAR da cobertura. E todo avanço que conquistarmos apesar dessa cobertura será uma vitória.

Apesar disso tudo, que fique claro: ontem, 6 de novembro de 2007, foi o dia em que as corporações de mídia assinaram seu atestado de mulher de malandro.
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