quarta-feira, 26 de setembro de 2007

DVD: "BRAZIL, O FILME"

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FUTURO DO PRETÉRITO

Alegoria ácida sobre a perda da humanidade numa sociedade totalitária e consumista, mistura "1984" e "O Processo" com toques do Monty Python. 

- Por André Lux, jornalista e crítico-spam

Lá pelo final de 1985, os executivos da Universal Pictures, preocupados com o possível fracasso de um filme que produziram e estavam para distribuir nos EUA, marcaram uma reunião urgente com o seu realizador durante a qual pediram pouca coisa: que ele reduzisse a metragem, trocasse a trilha sonora orquestral por outra com canções pop e, especialmente, mudasse a conclusão amarga para um típico happy end hollywoodiano, do tipo "o amor vence tudo". 

Essas mudanças iriam, na opinião deles, tornar o filme muito mais comercial, garantindo seu sucesso. O cineasta explicou então, na sua característica maneira pouco ponderada, que o filme deveria ficar do jeito que havia sido idealizado, caso contrário ele iria botar fogo nos negativos!

A cena narrada acima pode parecer o delírio de algum comediante, mas ela aconteceu de verdade - infelizmente. O filme em questão chama-se "Brazil", e o diretor, Terry Gilliam. 

Insatisfeitos com o resultado final do terceiro longa-metragem do ex-integrante do grupo Monty Python, o qual consideraram pesado e amargo demais para os padrões aceitos pelo público dos EUA, os executivos da Universal decidiram que "Brazil" deveria ser reeditado e transformado em um filme mais "aventuresco" e "leve". 

Dos originais 142 minutos de projeção, que foram lançados pela Fox sem problemas na Europa e em outras partes do mundo (como o Brasil), Gilliam concordou em reduzir o filme em cerca de 20 minutos. Mas não foi o suficiente.

A Universal era liderada na época pelo infame Sid Sheinberg que, entre outros absurdos, foi o responsável direto pela destruição de "A Lenda", de Ridley Scott (que deixou o estúdio retalhar e mudar a trilha musical de seu filme) e pela aprovação do lamentável "Howard, O Pato", de George Lucas. Sheinberg, a exemplo do que acontece ao protagonista do próprio filme de Gilliam, tornou-se o "torturador particular" do cineasta, cercando-o de todas as formas possíveis (inclusive legais) para poder retirar o projeto das mãos dele a fim de torná-lo "mais comercial".

Versões e (in)Versões
Essa feroz batalha entre o artista e os engravatados da Universal (em mais uma reedição do clássico embate entre David e Golias) é uma das mais famosas e ilustrativas acerca de como funciona o sistema de produção em série da indústria cultural estadunidense. 

E ela está descrita, com riqueza de detalhes, ilustrações e depoimentos de todos os envolvidos, no excelente livro "The Battle of Brazil", de Jack Mathews, jornalista de Los Angeles que cobria a produção do filme na época. Mathews transformou seu livro em um documentário de uma hora de duração, que pode ser assistido no box de "Brazil", lançado pela The Criterion Collection na região 1, que traz nada menos do que três discos.

No primeiro disco, temos a versão de Terry Gilliam para o filme, com seus gloriosos 142 minutos de projeção, remasterizado digitalmente no formato widescreen 1.85:1, trazendo ainda uma faixa de áudio com comentários do diretor. No segundo, chamado de "The Production Notebook", encontramos vários making of, entrevistas com os roteiristas Tom Stoppard e Charles McKeown, com o compositor Michael Kamen (que utiliza na trilha de forma magistral trechos de "Aquarela do Brasil", de Ary Barroso), storyboards, cenas raras da produção dos efeitos especiais, além é claro do excepcional documentário "The Battle of Brazil".

O material mais curioso, todavia, está contido no terceiro disco: nada mais do que a infame versão "Love Conquers All" ('O Amor Vence Tudo) de "Brazil", montada à revelia do diretor, trazendo meros 94 minutos de projeção e um ridículo happy end, que simplesmente detonam a obra em questão deixando-a totalmente sem sentido. 

Pior que essa grotesca (in)versão foi exibida nas televisões dos EUA, por anos a fio. Existe ainda um canal de áudio onde David Morgan, expert em Terry Gilliam, faz uma análise extremamente crítica de todas as alterações feitas.

Orwell encontra Kafka no circo do Monty Python
Quanto ao filme, trata-se de uma alegoria extremamente ácida e anárquica sobre a perda da humanidade frente a uma sociedade totalitária e cada vez mais repleta de burocracia e obcecada pelo consumismo. Trata-se de uma mistura de "1984", de George Orwell, com ''O Processo'', de Kafka, com toques do humor bizarro e non-sense próprios do sexteto inglês do qual Gilliam fazia parte, o Monty Python.

Além disso, o filme é premonitório do futuro catastrófico imposto ao mundo caso a doutrina neoliberal, que na época ainda estava em processo de implantação, fosse levada às últimas conseqüências. 

Reparem como o Estado retratado no filme é o sonho de qualquer defensor do neoliberalismo: enxuto, isento de qualquer responsabilidade social e praticamente restrito ao aparato policial de vigilância e repressão constante às classes mais baixas, mantido graças a um clima de medo e paranóia constante propagado pela mídia e por supostos ataques de "terroristas".

O protagonista dessa epopéia, interpretado brilhantemente por Jonathan Price, é Sam Lowry, um funcionário público apático e conformista, que passa acidentalmente a lutar contra o sistema depois que descobre que a mulher de seus sonhos existe e está marcada para morrer. 

É a típica trama do anti-herói forçado a agir, mesmo contra sua vontade, para conquistar seus desejos. Na sua aventura, ele conta ainda com a ajuda do engenheiro-de-calefação-autônomo e dublê-de-terrorista, Harry Tuttle (na pele de um Robert De Niro praticamente irreconhecível).

Só que catarse e redenção são palavras que não fazem parte do dicionário de Terry Gilliam, como Lowry vai descobrir dolorosamente no final. E a melhor explicação para essa filosofia de vida vem do próprio diretor: "Nós não damos respostas, apenas apontamos para o óbvio que ninguém quer ver, de um modo engraçado. E quando as pessoas pegam-se rindo daquilo, esperamos que elas pensem: 'Ei, eu não deveria estar rindo, isso é horrível!'".

Sobre o motivo do filme se chamar "Brazil", Gilliam explica: "Port Talbot é uma cidade de ferro, onde tudo é coberto por um pó cinza de metal. Até a praia é completamente coberta de pó preto. O sol estava se pondo e era realmente bonito. O contraste era extraordinário. Eu tinha essa imagem de um cara sentado nessa praia moribunda com um rádio portátil, sintonizando estranhas canções escapistas latinas como [Aquarela do] Brasil. A música o transportou de alguma forma e fez o seu mundo menos cinza".

Quanto ao desfecho da "Batalha por Brazil", o vencedor foi, em última instância, o nosso "David" da sétima arte, que passou a usar táticas de guerrilha para promover o lançamento de seu filme intacto, tais como patrocinar exibições piratas para estudantes e críticos de cinema, bem como tornar público o martírio pelo qual estava sendo obrigado a passar pela Universal - Gilliam chegou a pagar um anúncio de página inteira no jornal Variety com a seguinte mensagem: "Querido Sid Sheinberg. Quando você vai lançar meu filme 'Brazil'?". Em um outro momento, Gilliam mostrou uma foto do executivo em um programa de entrevistas do qual participava, e soltou no ar, ao vivo: "Esse é o homem responsável pela minha dor".

Mas tamanha audácia provou-se válida, tanto que o filme ganhou os principais prêmios da Associação de Críticos de Cinema de Los Angeles (melhor Filme, Diretor e Roteiro) e acabou sendo lançado intacto (mas modestamente) nos cinemas dos EUA, dividindo público e crítica, fato que não incomodou em nada o cineasta. "Para algumas pessoas, meu filme foi o equivalente a um espancamento", diz Gilliam rindo. "Para outras, foi uma experiência maravilhosa. Perfeito. Eu não fiz o filme pensando em agradar alguém...". 

É certo que, depois desse evento notório e constrangedor, as políticas dos grandes estúdios, relativas a quem seria responsável pelo corte final dos filmes, nunca mais foram as mesmas.

Infelizmente, essa caixa com os três discos dificilmente será lançada no Brasil. Portanto, você precisará ter um bom dinheiro sobrando para colocar suas mãos nela. Mas, se tiver, certamente não vai se arrepender!

Por aqui, o filme foi lançada pela Fox (que detém os direitos de distribuição fora dos EUA) na versão normal sem cortes, mas desprovida de qualquer extra ou comentário (veja reprodução da capa à direita).

Cotaçâo: * * * * *
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terça-feira, 25 de setembro de 2007

DVD: "DUNA" (Versão Estendida)

CURIOSIDADE ABOMINÁVEL

Novo corte do filme vale como curiosidade pela quantidade de cenas inéditas, mas como cinema é simplesmente abominável.

- Por André Lux, crítico-spam

Foi lançado no Brasil em DVD a Versão Estendida de ''Duna'', a polêmica adaptação para o cinema feita por David Lynch da gigantesca obra de Frank Herbert. O filme é de 1984 e custou uma fortuna para a época, algo em torno de US$ 60 milhões. Mas foi um tremendo fracasso de bilheterias, embora tenha virado cult.

Muitas razões foram levantadas para explicar o naufrágio do projeto, entre elas os sucessivos cortes na metragem que o produtor Dino de Laurentis obrigou Lynch a fazer. De um original de mais de 3 horas e 40 de projeção, ''Duna'' resultou numa salada indigesta e praticamente incompreensível de duas horas. Somente aqueles que já conheciam o livro de Herbert puderam entender o que se passava na tela. Para o resto sobrou pouco mais do que os deslumbrantes desenhos de produção, o figurino belíssimo e a atuação precisa de um elenco excepcional. Ao menos o filme despertou em alguns a vontade de ler a obra original (meu caso), o que não deixa de ser um mérito.

Na tentativa de resolver esse problema, foi criada uma ''versão estendida'' do filme para ser exibida na TV na qual foram reincorporados cerca de 40 minutos de cenas inéditas, incluindo um prólogo que tenta explicar os acontecimentos anteriores aos abordados no filme, utilizando para isso uma narração sobre alguns parcos desenhos de produção.

Só que tudo isso foi feito à revelia de David Lynch, que abominou o resultado final e obrigou o estúdio a retirar seu nome dos créditos de roteirista e diretor, que ficaram sob a alcunha de ''Alan Smithee'' (nome fictício geralmente usado para substituir tais créditos). Mas Lynch estava correto. Essa chamada ''Versão Estendida'' nada mais é do que uma colcha de retalhos horrivelmente costurada.

Se a versão original era incompreensível, esta é intolerável. Os ''pais'' dessa versão simplesmente colaram as cenas inéditas entre as já existentes, sem respeitaram qualquer lógica ou fluidez. Os cortes são bruscos e as passagens entre as cenas são toscas. Às vezes a ação na tela é entrecortada por uma narração péssima e geralmente risível. No início, por exemplo, tentam ''apresentar'' os personagens por meio deste artifício e somos obrigados a ver um take fechado de um dos atores enquanto o ''voice-over'' nos explica monotonamente quem é aquela figura por longos minutos!

A montagem é tão lamentável que, de tempos em tempos, enfiam uma cena qualquer de uma nave voando que nada tem a ver com o que é mostrado, só para separar takes. A música do grupo Toto também é brutalmente mutilada, graças à inserção de faixas compostas para outras seqüências do filme no meio da que já estava sendo executada na trilha sonora. É um verdadeiro assalto aos sentidos. A imagem em ''fulscreen'' deforma totalmente os enquadramentos originais e é de qualidade ruim (parece ter sido tirada de um master em VHS). O som em stereo 2.0 também não é muito melhor.

Todavia, mesmo sendo uma tentativa abominável de remontar o filme, essa ''Versão Estendida'' certamente vale como curiosidade para quem gosta do filme original, já que traz diversas cenas nunca vistas antes.

São de particular interesse o duelo entre Paul e Jamis, Gurney Halleck tocando seu ''baliset'', a morte do verme recém-nascido para a extração da água da vida, a introdução da governanta Shadout Mapes e a noite de amor entre o Duque Leto e Jessica quando concebem Alia.

O DVD, lançado pela Versatil, traz como extras: A história da Versão Estendida, Notas da produção, A saga Duna, de Frank Herbert, Os livros Duna no mundo, Frases, Galeria de pôsteres, Fotos dos bastidores, O design de Duna, Biografias. Nos EUA, a mesma versão foi lançada em versão widescreen, com imagem e áudio restaurados, e vários extras - entre eles, novas cenas inéditas.

Se você é fã do filme original de David Lynch, mas sempre teve vontade de ver as cenas que não foram incluídas na versão dos cinemas, então essa ''Versão Estendida'' certamente vai satisfazer a sua curiosidade. Mas saiba que, como cinema, é simplesmente ultrajante e ainda mais incompreensível do que o original.

Serviço: Título Original: Dune - Extended Version
Tempo: 177 minutos
Cor: Colorido
Ano de Lançamento: 2004
Recomendação: 14 anos
Região do DVD: Região 4
Legenda: Português
Idiomas / Sistema de Som:
Inglês - Dolby Digital 2.0
Formatos de Tela: FullScreen
Pais de Origem: EUA
Distribuidora: Versatil
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terça-feira, 11 de setembro de 2007

Breve nos cinemas: "Os Quatro Elementos Em Si ou O Guru Selvagem"

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Repasso aos amigos reportagem de minha autoria publicada no site Cultura e Mercado a respeito do filme "Os Quatro Elementos Em Si ou O Guru Selvagem", que tem como protagonista o artista Jorge Mautner.

Conheçam o site do filme, com trailer e mais informações.



CIBERFILME
Uma câmera na mão e algumas idéias na cabeça.
O resto é KAOS!


“Os Quatro Elementos Em Si ou O Guru Selvagem” é o primeiro ciberfilme a ser lançado comercialmente nos cinemas brasileiros e deve estimular a diversidade e a democratização da produção cultural

- Texto e entrevistas por André Lux, jornalista

Escrito, dirigido, fotografado e editado por André Martinez e produzido em parceira com o Instituto Pensarte e a Deusdará, Os Quatro Elementos Em Si ou O Guru Selvagem tem como ponto central a figura de Jorge Mautner, artista multimídia que criou a mitologia do KAOS e já trabalhou em parceria com músicos como Gilberto Gil e Caetano Veloso.

Muito mais do que um simples documentário sobre Mautner ou sua obra, o filme é uma experiência visual, literária e filosófica construída a partir da mitologia do KAOS, mas também da interação entre o diretor e o artista em questão. “Eu sabia e não sabia o que queria discutir a partir do privilégio de interagir com uma pessoa que tem uma riqueza como o Mautner, cuja obra é orgânica, complexa, genial, multidimensional. Sabia porque o Kaos tem tudo a ver com as minhas tentativas de interpretar e discutir o mundo. E não sabia porque meu processo é rizomático e o Jorge é uma explosão de possibilidades. O que eu tentei fazer foi estabelecer relações e conexões entre a construção do profeta do KAOS a partir de situações cotidianas”, explica Martinez.

Todas as imagens foram captadas em câmera digital fotográfica e editada em plataforma caseira. As locações e a estrutura narrativa do filme seguem uma lógica coerente à mitologia abordada. O filme começa em São Paulo, fixando-se na mítica Pirenópolis, no interior de Goiás, até chegar ao Rio de Janeiro. Martinez explica que, mais do que um fator limitante, a escolha desses cenários-protagonistas tem profunda relação com a obra e história de Jorge Mautner, não apenas porque o artista tem uma forte relação com Rio, São Paulo e Pirenópolis, mas também pelo que essas cidades têm de simbólico e universal.

“Em Pirenópolis você vê o centro da terra. No Rio e em Sampa você vê o mundo em uma perspectiva de organização, interpretação e visão que só o Brasil pode dar. São as nossas duas pontas, com todas as nossas contradições, e ao mesmo tempo representam duas possibilidades distintas que serão a nossa redenção quando você conseguir que o poder econômico, o trabalho, a informação, estejam organicamente associados à utopia de criar, re-criar o mundo e viver integralmente com prazer e liberdade. E o Brasil sintetiza essa possibilidade para o mundo. E parte significativa da construção da obra do Mautner, um filho do holocausto e cidadão do mundo, surge dentro desses dois cenários”, sintetiza o diretor.

Jorge Mautner aprovou a abordagem de Martinez e completa: “O André leu a mitologia do KAOS, se adensou na sua atmosfera e a interpretou. É o olhar dele e o filme é filosófico, ideológico, do KAOS com K, dos Pontos de Cultura, para onde sou arrastado sempre por aquela garotada que já têm o DNA, o sistema nervoso, os neurônios já para o além e é uma beleza. É essa alegria que o filme passa”, filosofa o artista.

Os Pontos de Cultura fazem parte do projeto Cultura Viva do Ministério da Cultura (MinC), sob a batuta do ministro Gilberto Gil, e têm por objetivo articular e impulsionar as ações culturais e de diversidade que já existem nas comunidades e contam hoje com mais de 650 unidades espalhadas por todo o Brasil. Jorge Mautner é um dos artistas que prestigia e dá vida aos Pontos de Cultura. Foi a partir dessa relação do artista com o projeto que nasceu a idéia que deu origem a “Os Quatro Elementos Em Si ou O Guru Selvagem”.

Quem explica é o presidente do Instituto Pensarte, Bento Andreato: “Dentro do Pensarte existe o Pontão de Cultura do KAOS (PCK), que é liderado e coordenado pelo Jorge Mautner e atua de maneira transversal aos Pontos de Cultura. Assim, surgiu a vontade de documentar esse trabalho de fomento à criatividade, desenvolvimento cultural e troca de experiências realizadas por ele nos Pontos de Cultura. O André Martinez, que é um dos protagonistas mais ativos da rede Pensarte, propôs fazer um filme sobre o Mautner e isso veio ao encontro dos anseios do grupo, confirmando a importância do trabalho do PCK nos Pontos de Culturas”.

O filme é uma parceria com a Deusdará, plataforma livre de atuação audiovisual que Martinez mantém com Leonardo Brant, que também assina a produção executiva do filme. Os dois, que realizaram juntos mais de uma dezena de ciberfilmes no último ano, também são sócios da Brant Associados, um ateliê especializado em Arquitetura Cultural, metodologia que trabalha cultura e sustentabilidade para grandes empresas como Avon, Comgás e Fundação Vale do Rio Doce.

Mas, o projeto que nasceu como um mero registro da atuação de Mautner nos Pontos de Cultura acabou crescendo e criou vida própria. André Martinez conta que desde que começou as experiências narrativas com a cybershot percebeu que existia uma sintonia muito grande entre a mitologia do KAOS, e a forma como o Mautner pensa, com a estrutura literária do trabalho realizado por ele. “Depois de ouvi-lo falar pessoalmente, pensei ‘Quero fazer sim um filme com o Mautner’. Conversamos e ele topou participar dessa aventura”, revela.

Martinez enfatiza que o processo de criação foi todo orgânico, construído a partir dos acontecimentos e dos argumentos trazidos por Mautner ao filme. “A partir daí iniciamos a nossa viagem e eu me mantive grudado nele, captando o máximo de material que podia. Havia, é claro, uma pré-construção do objetivo que gostaríamos de atingir, mas não havia roteiro nem planejamento de produção. Era basicamente uma câmera na mão e algumas idéias na cabeça. Porém, um trabalho de construção que não foi nem improvisado nem casual, embora buscasse no casual a sua matéria prima”.

Democratização e diversidade
O uso de câmera digital fotográfica de 8.0 Megapixels para a captação das imagens foi decisivo para o sucesso da abordagem utilizada. Quem explica essa opção é Fábio Cesnik, advogado especializado em cultura, responsável pela consultoria jurídica de grande parte dos filmes nacionais: “A idéia de filmar em cybershot começou em uma viagem que eu, o Leonardo Brant e o André Martinez fizemos ao Senegal, onde captamos imagens e acabamos fazendo um pequeno filme. A partir dali e de outras experiências com essa tecnologia percebemos as possibilidades que esse formato trazia, que culminou com a realização de ‘O Guru Selvagem’”.

Para Cesnik, que assina a produção executiva juntamente com Brant, o filme comprova que é possível criar uma obra audiovisual com o mínimo de recursos, fator que deve estimular a diversidade e a democratização da produção cultural, atualmente restrita só a quem tem acesso a grandes quantias de dinheiro. “Acho que isso vem totalmente ao encontro do papel dos Pontos de Cultura e também surge no espírito do Pontão de Cultura do KAOS, idealizado e criado pelo Mautner. Se o filme despertar essa consciência e reflexão sobre a democratização do processo de produção artística já terá cumprido seu papel”, conclui.

Tudo isso seria apenas uma feliz coincidência, se Martinez não tivesse no currículo uma passagem pela Fundacine, que foi uma das articuladoras do Congresso Brasileiro de Cinema e responsável pelo desenvolvimento audiovisual no Rio Grande do Sul. Além disso, o diretor assina o livro Democracia Audiovisual, que traz propostas de políticas para o desenvolvimento sustentável do audiovisual no país.

Martinez, que foi também responsável pela operação do equipamento, aprovou a experiência. “O processo de filmagem era orgânico, de investigação. A câmera cybershot pode não oferecer muitos recursos cinematográficos, mas ao mesmo tempo dá uma imensa liberdade de manuseio que era essencial para o projeto”. Martinez frisa, porém, que a opção por esse recurso não foi ideológica, nem política, mas sim por ser a tecnologia disponível e passível de ser dominada no momento. “Essa é a vantagem de se apropriar da tecnologia ao invés de ficar dependente dela, o que abre a possibilidade para que qualquer pessoa possa criar, dependendo apenas do talento. Embora eu não goste de colocar o filme a serviço de qualquer panfleto político, pois não foi feito para isso, por ser orgânico ele pode ajudar a democratizar o acesso à produção artística e gerar discussões nesse sentido, caminhando na contramão dos modelos de concentração tecnológica. Esse é um pensamento que permeia todo o trabalho que resulta de minha parceria com o Leonardo Brant”.

Jorge Mautner confessa ter ficado surpreso com o resultado final atingido pelo diretor com base nos recursos tecnológicos disponíveis. “Eu tive um espanto com o filme depois de pronto. Aquelas coisas eu falo, mas ele as interpretou, é o olhar dele, inclusive a câmera, sendo uma câmera simples, digital, ele consegue efeitos de atmosfera espantosos e aí é o olho que está ligado ao cérebro com os neurônios e domina a emoção”.

Todas as músicas utilizadas no filme são oriundas de gravações já existentes, selecionadas pelo cineasta a partir da pesquisa realizada sobre o material da mitologia do KAOS de Jorge Mautner. “Outros Viram”, a canção dos créditos finais, é do álbum “Revirão” e foi interpretada por Gilberto Gil. “Houve uma confluência natural entre as cenas do filme e a música. Se você está profundamente mergulhado num projeto multidimensional, e a apropriação tecnológica permite isso, vai rumar para o caminho certo, o universo vai se reconfigurar para caber nesse ponto central. Esse processo criativo funciona de fato”, teoriza Martinez.

Exibição e expectativas
Acontecerá nesta terça-feira, 11 de setembro, em Porto Alegre, no Cine Santander Cultural uma sessão de pré-estréia do filme. Mautner e o diretor André Martinez estarão especialmente em Porto Alegre para debater o filme em uma Sessão Comentada.

Graças a uma parceria entre os realizadores e a distribuidora Panda Filmes, “Os Quatro Elementos Em Si ou O Guru Selvagem” será a primeira obra filmada com tecnologia digital a ganhar as salas de cinema. Antes disso, porém, o filme será exibido simultaneamente em trinta Pontos de Cultura espalhados pelo Brasil inteiro. O responsável por esse processo é PX Silveira, vice-presidente do Instituto Pensarte, que está confiante no sucesso da empreitada. “O Mautner já percorreu todos esses Pontos de Cultura durante a formação do PCK, portanto não haverá dificuldades nesse processo. Queremos realizar a exibição do filme de maneira simultânea, com o Mautner ligado num bate papo on-line via internet aberto à participação de todos os presentes”.

Em relação à repercussão que o filme vai conquistar depois de lançado, Martinez é categórico: “Já estou extasiado só com a possibilidade dele ser lançado nos cinemas pela Panda Filmes. Minha única expectativa é que o máximo de pessoas vejam e cheguem a suas próprias conclusões. Tenho o maior orgulho dele, mas sei que é um filme difícil de ser digerido. Todo o processo é muito novo, inclusive para mim. Por isso, não estou preocupado se vai ser bem recebido pela crítica ou se vai fazer sucesso comercial, apenas quero conversar com todos os espectadores que puder, para saber o retorno das pessoas sobre o trabalho e o processo, comparar esse retorno com a minha visão de mundo. E se muitas pessoas assistirem, ficarei feliz por contribuir para a difusão da obra destes artistas imprescindíveis que são o Mautner e o Jacobina”.

Jorge Mautner também não está preocupado com o que vai acontecer depois do lançamento e parece satisfeito apenas por ter participado da empreitada, o que ele explica na sua própria maneira peculiar. “A gente nunca sabe o destino, ainda mais de um filme que tem uma preocupação puramente do âmago, artística, filosófica, mas que tem também uma grande comunicabilidade. Ele é cheio de humor, tem as palavras do novo sistema nervoso e, principalmente, aborda a emergência dessa amálgama brasileiro, que é o tesouro do mundo e que o Brasil, que é um gigante que se fingiu de invisível até agora, guardou para o século 21”.

Como se vê, é puro KAOS!
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quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Ego Inflado, outra vez... Mais críticas publicadas!

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Críticas minhas aos filmes "O Que Você Faria?" e "Diários de Motocicleta" foram publicadas no site NovaE e na Agência Carta Maior, respectivamente.

Para quem não sabe, não recebo nada por esse trabalho, faço-o voluntariamente, por pura ideologia e prazer.

Imagina só um daqueles neoliberais de direita cheio de goma no cabelo, terninho e gravata lendo isso. No mínimo vai ter um colapso nervoso: "Como assim, faz por ideologia? Não ganha nada para trabalhar?? Isso não é possí....ARRRRRRRRGHH!".

Hehehehehe!!

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

DVD: "O QUE VOCÊ FARIA?"

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A CORPORATOCRACIA EM AÇÃO

Quem já possui uma visão crítica acerca da atuação das transnacionais e do auto-destrutivo modelo neoliberal certamente vai se deleitar com a abordagem ácida e demolidora dessa obra.

- por André Lux, jornalista e crítico-spam

CartaCapital, a única revista semanal imprensa que ainda pratica jornalismo sério no Brasil, publicou na edição 452 uma reportagem sobre os absurdos que as empresas cometem contra candidatos a uma nova vaga de trabalho, muitas vezes submetendo-os a situações, no mínimo, humilhantes.

Depois de ler essa reportagem e tomar consciência desse fato, o filme “O Que Você Faria?” não parece assim tão absurdo. Embora algumas situações retratadas na obra sejam realmente exageradas (como o sexo no banheiro e as agressões físicas) e os personagens beirem o estereótipo, não existe ali compromisso com a realidade, mas sim com a construção de uma metáfora à loucura que tomou conta hoje do meio empresarial, especialmente das grandes corporações, onde a busca pelo lucro a qualquer preço e a exploração da mão de obra virou obsessão, com raríssimas e nobres exceções.

A verdade é que vivemos hoje numa ditadura do mercado, que alguns chamam ironicamente de “corporatocracia”, na qual a ordem mundial é dominada por meia dúzia de mega-empresas transnacionais que pairam acima de governos e estados democráticos, restando à grande maioria dos cidadãos alugarem suas forças de trabalho a elas em troca da sobrevivência diária. Acima de tudo isso, grupos de acionistas sem rosto e dirigentes absolutamente subservientes a eles dominam com mão de ferro esse sistema que, nas palavras do lingüista e ativista político Noam Chomsky, é o mais totalitário que existe – já que as ordens vêm de cima sem qualquer discussão, sobrando aos que estão abaixo a única opção de segui-las à risca sem questionamento.

“O Que Você Faria?”, uma co-produção entre Espanha, Argentina e Itália, mostra exatamente o processo de seleção para um alto cargo de direção de uma dessas multinacionais. Sete candidatos à vaga são reunidos em uma mesma sala para participarem da última etapa do processo, do qual apenas um restará. Neste ambiente inóspito, serão submetidos a um certo “método Grönholm”, que basicamente incitará os piores instintos de cada candidato na tentativa de eliminar os concorrentes.

O clima de paranóia é dobrado com a possibilidade de um deles ser um impostor, ou seja, alguém da empresa infiltrado na sala para observar mais de perto e manipular a ação dos outros. E tudo ainda pode estar sendo gravado com câmeras e microfones ocultos, numa assertiva alusão à sociedade “Big Brother” para a qual caminhamos cada dia mais, onde tudo e todos são constantemente monitorados e vigiados.

A intenção do roteiro de Mateo Gil e Marcelo Piñeyro, que é baseado em peça teatral de Jordi Galcerán, vai se tornando óbvia a partir que a trama avança e as primeiras vítimas do processo absurdo e degradante vão sendo feitas. Não por acaso, o candidato mais qualificado para o cargo e, também, o mais ético é o primeiro a ser praticamente linchado pelos outros competidores, que agem sempre sob a manipulação da corporação na forma de tarefas transmitidas a eles de modo impessoal e frio por meio de telas de computador. E, claro, o vencedor é justamente aquele que menos tem escrúpulos em destruir os adversários para atingir suas ambições.

Quem já possui uma visão crítica acerca da atuação desumana das transnacionais e do auto-destrutivo modelo neoliberal certamente vai se deleitar com a abordagem extremamente ácida e demolidora da obra, que melhora ainda mais com uma segunda leitura, quando já conhecemos melhor os personagens e o que cada um deles representa dentro do contexto em que estão inseridos.

Ironicamente e em paralelo à ação principal do filme, acontece uma grande manifestação nas ruas de Barcelona contra a atuação nefasta do FMI e do Banco Mundial sobre a economia global, sob o jargão de que "um outro mundo é possível". Por enquanto ainda é. Não se sabe até quando...

Cotação: * * * *
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