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terça-feira, 3 de julho de 2007

Réplica: O cinema é sim usado como propaganda da direita

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O leitor Rodrigo deixou uma interessante mensagem na página da minha crítica ao filme "Diamante de Sangue", publicada na Agência Carta Maior. Reproduzo abaixo um trecho dela, o qual vou comentar em seguida:

"Não acredito que esse filme seja feito com o seguinte pensamento: "vamos fazer uma obra ideológica tocando em tais e tais pontos, para que o capitalismo seja visto de tal e tal maneira". Você mesmo disse que o diretor pode ter sido inocente nesse processo todo, mas vou além e digo não acreditar que haja algum chefão em Hollywood dirigindo isso tudo. O processo é mais inconsciente do que isso. Não há uma intencionalidade bem configurada. Cada sociedade cria, através da educação e dos valores passados, pessoas com uma certa visão de mundo. E mais, cada classe social cria sujeitos com uma certa perspectiva de mundo, e também alienados em relação a esse mundo - muitos produtores são tão alienados quanto seus espectadores."

Concordo com o Rodrigo que muita gente, seja em Hollywood ou em qualquer outra parte do mundo, seja ingênua ou simplesmente alienada, acreditando assim em tudo que lhes é enfiado goela abaixo pela indústria cultural e pela imprensa corporativa. Todavia, muita gente que comanda esse circo midiático tem sim total consciência do que está fazendo quando manipula, distorce, esconde ou simplesmente mente descaradamente.

Tanto isso é uma realidade que uma das primeiras ações do governo Bush jr. após os atentados de 11 de setembro foi convocar reuniões com todos os magnatas da indústria cultural estadunidense, para que seus novos produtos fossem alinhados à tal da "guerra infinita" (ou seja lá qual o nome que deram depois aos ataques e invasões feitos em países soberanos em nome de uma suposta luta pela "liberdade e democracia"). Na época da II Guerra, o cinema estadunidense produziu incontáveis filmes a favor do esforço dos "aliados", assim como o cinema soviético gerou várias obras que glorificavam a revolução socialista, a qual descambou infelizmente para um totalitarismo auto-destrutivo por culpa do stalinismo.

Mas se a esquerda também usa a arte como forma de propaganda, não seria então o mesmo caso? Na minha visão, a diferença entre filmes "de direita" e "de esquerda" reside no fato de que os últimos trazem um posicionamento claro a respeito do que defendem e do que contestam, enquanto os primeiros transmitem sua mensagem verdadeira por meio de artifícios subliminares e máscaras edificantes que parecem sugerir algo totalmente contrário à real intenção do produto - o que, convenhamos, é o modus operandi básico da direita: nunca revelar suas verdadeiras intenções e obter o poder por meio da manipulação e da demagogia.

Pode até ser que quase todos os envolvidos na produção de "Diamante de Sangue" acreditem mesmo que tudo que é mostrado no filme é a verdade e que suas intenções são as mais nobres possíveis, mas podem ter certeza que em algum lugar da máquina que possibilita a produção de um filme caro desses existe alguém bastante consciente do que está sendo feito. Se isso não fosse verdade, porque tantos filmes com mensagens políticas contestadoras têm que ser feitos de maneira independente?

Alguém pode me questionar dizendo que de vez em quando um filme "de esquerda" é lançado por um grande estúdio - vide os excelente "Syriana", "Boa Noite e Boa Sorte" ou "O Informante". Ao que eu respondo: isso acontece apenas com a intenção de reforçar a máscara de uma suposta isenção e pluraridade que não existe, mais ou menos como a função de Ombudsman da "Folha de São Paulo" ou os risíveis editoriais a favor da liberdade de imprensa que pipocam de tempos em tempos nos jornalões, revistonas ou telonas... Até porque, sabem os executivos, filmes como esses têm apelo limitado e são lançados em circuito restrito. Ou seja, não incomodam e servem perfeitamente como desculpa quando alguém acusar os estúdios de só produzir porcarias descartáveis.

Entender que muita gente ajuda a disseminar conceitos e ideologias desprezíveis achando que está fazendo um bem é algo necessário, para que não nos tornemos pessoas rancorosas que vêem maldade em tudo. Todavia, é preciso enxergar também que para que o atual sistema continue funcionando em função dos esforços dos incautos e dos sem opção, existem pessoas e instituições que atuam de maneira clara nesse sentido. E isso precisa ser dito em alto e bom som, para que todos entendam que só de ingenuidade e alienação não se constroem sistemas destruidores e massacrantes como o em que vivemos.

Acesse minha crítica na Carta Maior e o comentário original do Rodrigo clicando neste link.
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5 comentários:

AcidoCloridrix disse...

Li um artigo muito interessante sobre "sexo e religião" aqui neste blog,,,, vejo que pode ser "entendido", de certa maneira na matéria,,, pelo que convido a dar a sua opinião num artigo identico no nosso blog de Portugal.... aqui fica o link,,, e seja benvindo,,, Obrigado, HCL
Link:http://sexohumorprazer.blogspot.com/2007/06/sexo-dentro-da-religio.html

Rodrigo disse...

André, concordo com quase tudo o que você disse. Você não está errado. Há intencionalidades bem definidas, e claro que um filme norte-americano dificilmente iria mostrar o lado humano do islã durante um governo Bush. O que eu quero dizer é que também devemos olhar para a produção cinematográfica não só como o fruto da decisão de uma cúpula formada pelos donos da indústria cultural e a elite política. São dezenas de milhares de pessoas envolvidas.
Também concordo contigo que os filmes políticos de esquerda não têm espaço nos EUA. É certo, mas não creio que haja alguém censurando e cortando verba sistematicamente para TODOS os filmes produzidos por lá. Senão os filmes do Michael Moore nem teriam surgido. E te faço uma pergunta: o cinema norte-americano não se resume a Hollywood, há pequenas produções com baixos recursos que são produzidas por lá em número maior que as produções no Brasil. E mesmo assim eu não me lembro de nenhuma crítica política ou social em algum desses filmes e sim temas como vazio existencial ou paranóia. Será que os censores são tão eficientes assim, ou a população norte-americana envolvida na produção desses filmes carece de valores e de um pensamento de esquerda?
Os problemas que surgem em cada sociedade são formulados de maneira diferente em cada uma delas. Acredito que falte canalizar todo o sentimento negativo provocado pelo individualismo e pelo consumismo (temas recorrentes no cinema norte-americano) em uma crítica política e social.

Essa inércia do pensamento crítico no cinema norte-americano tem como um de seus fatores a própria indústria e os interesses políticos. Mas essa não é a causa suficiente. Há um déficit nos EUA de críticos de esquerda. E o cinema que é mais distante da discussão política e social carece ainda mais de pessoas com uma educação socialista e revolucionária. Há espaço para filmes críticos do sistema capitalista nos EUA? Há, o que falta são pessoas capazes de construir essa crítica eficiente por lá.

Pelo menos essa é a minha visão. Creio que seja mais otimista e realista, senão estaríamos todos sob o domínio do Deus capital e não restaria saída.

André, concordo contigo que é preciso que as instituições e as personificações do capital sejam criticadas e reveladas. Mas é preciso também pensar na prática cotidiana das pessoas, que com boas intenções e bons recursos desperdiçam a oportunidade de criar uma alternativa viável ao sistema capitalista. A reprodução do sistema não se dá somente no nível de cima, dos que possuem o poder, mas também pelas pessoas dominadas, que seguem seu modo de vida não só por obrigação, falta de opção ou coerção. Mas porque dão um sentido a isso, interpretam a sociedade em que vivem e a aceitam. Acredito que o cinema crítico de lá está errando o alvo.

André Lux disse...

Rodrigo, um filme deve ser analisado a partir do resultado final que está na tela. Não tenho como saber o que pensa cada membro da equipe que ajudou a produzí-lo - se fulano é ingênuo e ciclano mal intencionado. Porém dá para saber, a partir de enlatados como esse, o que pensa a indústria cultural dos EUA, usada como máquina de propaganda para vender o "american way of life" como sendo a salvação para o mundo bárbaro. Existem excessões? Claro, mas elas apenas confirmam a regra.

Nos EUA existem vários críticos à esquerda, porém eles são sim vetados pela mídia corporativa. Se não acredita em mim, pergunte ao Noam Chomsky por exemplo...

Ricardo Melo disse...

Rodrigo, não subestime a importância que a indústria cultural tem no plano político. Eu gostaria que você pesquisasse um pouco mais a respeito, pois o Estado norte-americano compreende muito bem a eficiência dessa verdadeira "arma ideológica" que é a indústria cultural.
Ao contrário do que parece, as individualidades dos milhares de trabalhadores envolvidos não têm tanta decisão no teor da produção.
Todas as redes de rádio e TV dos EUA, assim como as majors (grandes companhias de cinema)estão envolvidas em um grande nó acionário. Nesse mesmo nó estão envolvidas corporações de lazer, de produção de armamentos e de grupos financeiros.
Dê uma olhada no blog do Azenha, ele mostra que as VIACONS da vida possume associação com empresas do chamado complexo militar-industrial.
E, quando um determinado grupo chega no cume do poder - no caso, os NEOCONS de Bush - a indústria cultural completa opera dentro de cânones estabelecidos pelo verdadeiro poder hegemônico.
A indústria cultural estadunidense mostra vários casos clássicos que confirmam isso. Veja, por exemplo, o caso dos filmes de guerra na 2ª Guerra Mundial.
Ou o caso do super-men, surgido em meio a um país em que havia a necessidade de um Estado forte, que não era tão presente e estava aberto à insegurança gerada pela ascensão das Máfias. Superman foi uma resposta a essa necessidade.
O último momento em que a indústria cultural teve independência relativa em relação aos ditames do Departamento de Estado foi a Guerra do Vietnã, quando a CBS mostrava os filhos dos país morrendo longe de casa num conflito sem sentido.
Washington aprendeu a lição, nunca mais a indústria cultural, incluindo jornais e tvs viveram livres e soltos para produzir.
Desse modo, podemos concluir que, atualmente, a liberdade de expressão nos EUA é bastante "conduzida".
É lógico, existem exceções, como é o caso do Michael Moore, mas repare nas dificuldades que tem tido para produzir o Sicko.
O recado é esse, o poder hegemônico global sabe que a manipulação cultural é um dos pilares do Imperialismo. E eles não brincam em serviço...

André Lux disse...

E eu sou a prova viva do poder que a indústria cultural estadunidense pode ter na formação de uma pessoa. Até os meus 16 anos eu só assistia enlatados deles e, obviamente, tinha ódio da esquerda, achava que comunistas eram maus, que Che Guevara era baderneiro profissional, que os EUA era a terra da liberdade e da justiça e que lá os vilões sempre eram punidos...

Quando a mente é doutrinada dessa maneira desde a infância, via os ícones máximos da política imperialista dos EUA (vide os Stallones, Xuarzenegers, Supermans e duros de matar da vida), fica fácil para a mídia de qualquer país que se curva ao império manipular as emoções e as opiniões dessas pessoas.

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