terça-feira, 10 de julho de 2007

Polêmica: Ainda sobre "Diamante de Sangue"

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Reproduzo abaixo o comentário escrito por Ricardo Melo junto à minha crítica ao filme "Diamante de Sangue" publicada no site NovaE. Vale a pena ler até o fim!

"Gostaria de parabenizar o texto do André Lux a respeito de Diamantes de Sangue, e gostaria de deixar claro que acompanho regularmente o seu blog onde eu já havia deixado o meu ponto de vista sobre a obra e sobre a sua crítica. Antes de tudo, é importante dizer que encontrei em Diamantes de Sangue um bom espetáculo. Um espetáculo que aborda uma estória sobre um continente recém-descoberto pelos diretores de cinema, mas também marcado por um enredo envolvente, personagens “atraentes”, planos cinematográficos notáveis e um enredo emocionante. Fruí Diamantes de Sangue prazerosamente, apesar de todos os dramas mostrados na tela. Emocionei-me com a estória e também me surpreendi com os seus incríveis efeitos especiais.

Mas, infelizmente às vezes ocorre o “mas”, já no final da exibição eu comecei a me sentir enganado. Posso dizer que senti um gosto amargo de hipocrisia na boca, um sentimento claro de que estava acabando de assistir a apenas mais um evento de showbusiness.

É claro, Diamantes de Sangue não tem a pretensão de ser um documentário sobre o drama de Serra-Leoa. Mesmo que Diamantes de Sangue fosse um documentário, seria um verdadeiro engano encontrar nesse tipo de produção “a verdade” sobre o tema abordado, afinal existe muita subjetividade no olhar de quem filma.

Os problemas de Diamantes de Sangue foram muito bem ressaltados pelo André Lux. O pano de fundo dessa estória foi muito mal contado. Os vilões de Diamante de Sangue não têm alma, são verdadeiros enviados do Inferno. Os protagonistas positivos são todos pertencentes à elite branca global, oriundos inclusive do sistema de comunicação hegemônico do planeta, como é o caso da mocinha do filme. Ela é um verdadeiro anjo de beleza e boas intenções, mas é tão irreal no contexto da estória quanto é real a necessidade de um personagem bonito que possa alavancar o faturamento das bilheterias do Hemisfério Norte.

Calma, Ricardo, pelo menos Diamantes de Sangue retrata e coloca na roda global o tema da África, esse continente abandonado por Cristo e olvidado pela expansão do capital!É verdade, é bom lembrarmos que existe a África. Mas, com certeza, os africanos não gostam quando o pano de fundo histórico de uma estória mostrada em todo o mundo seja tão deturpado como ocorreu nesse filme. Esse argumento é imbatível.

Para quem acha que isso é exagero, é bom fazer um exercício de imaginação. Imagine um filme que tenha como pano de fundo um contexto histórico brasileiro. E imagine também que, nesse filme, todos os “mocinhos” protagonistas e ativos sejam estadunidenses, os brasileiros vilões ou suas vítimas. E que tal se o contexto histórico for muito, mas muito superficialmente e mal contado? Algum brasileiro gostaria disso? É, pimenta nos olhos dos outros é refresco...

Aos africanos basta que saiam do anonimato? Tanto faz o modo como eles são retratados? É correto ver em Serra-Leoa nada além de negros vilões animalescos e vitimas negras desesperadas? É correto não mostrar nada do que aconteceu antes, coisas banais assim como a Partilha da África pelas potências e suas “pequenas” malvadezas? E a colonização econômica de todo um continente nos dias de hoje? Não merece nenhuma linha?

Comparemos com Hotel Ruanda, por exemplo. Em uma cena, um personagem abre a boca para contar uma verdade bem “casual”: os inventores do decepamento de membros como técnica persuasiva foram os colonizadores belgas, é, daquele país – a Bélgica – bárbaro e incivilizado onde se comem bons chocolates...

Existe uma linha que separa muito bem os filmes que duram, os filme que não ficam datados e esquecidos dos filmes que são realmente bons. Quem assistir a Alexander Nevisky, a Barry Lyndon e a outras obras não vai encontrar documentários. Mas vai encontrar personagens como profundidade psicológica. E uma das bases dessa profundidade psicológica dos personagens se chama História, principalmente se o pano de fundo do enredo for histórico.

A História mesmo, essa ciência Humana e que não é Exata. Que está sujeita a erros de avaliação e a pontos de vista. Mas que não admite propaganda ideológica e manipulação aberta e descarada.

Em Diamantes de Sangue, os personagens não têm profundidade. E é o contexto histórico e geopolítico muitíssimo mal-contado uma das explicações da carência de vida nos protagonistas e vítimas dessa obra.

Eu já comparei esse filme àquele vinho barato e adocicado, aquele que, na falta de algo melhor, você vai fruindo durante a conversa animada com amigos. No final, resta um sentimento de “trouxa” na consciência, uma verdadeira ressaca moral para o espectador. Mas aí, já é tarde, a bilheteria já faturou em cima. Os clichês foram apresentados aos montes, a manipulação de consciências foi realizada, a bola de fogo “subiu” no meio do garimpo atacado por helicópteros. Com certeza, se estivesse vivo, Stanley Kubrick jamais teria feito um pastiche desses. Mas quem precisa de um Kubrick para passar uma tarde preguiçosa na cidade? Basta um Diamantes de Sangue, não é mesmo? Os africanos? Ah, os africanos, se eles não gostarem, que rodem o seu próprio filme com pano de fundo na própria História.

O único porém é que esse filme não chegaria aqui, pois obras vazias como Diamantes de Sangue esvaziam e desgastam o tema, abrindo um processo de busca por outros temas emocionantes que possam servir de base para uma boa e saudável diversão das famílias em suas tardes de falta-do-que fazer."
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