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segunda-feira, 2 de julho de 2007

Artigo: Os pais, os filhos, as "vagabundas"

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Os pais, os filhos, as "vagabundas"

Vai daí que faz o quê? Solta os "meninos"? Prende Sirlei ao rótulo? Pespega-lhe o epíteto de "suburbana vagabunda" que ousou invadir a Barra da Tijuca para trabalhar?

- por Laerte Braga (Ilustração: blog do Kayser )

É fácil entender a reação do pai de um dos cinco agressores de Sirlei Dias de Carvalho Pinto. É difícil a alguém que more num condomínio fechado, cercado de toda a segurança possível e impossível e esteja acostumado a entender que a lei foi feita para privilegiá-lo, acreditar que o filho tenha sido capaz de algum ilícito. Na cabeça desse tipo de gente tudo lhes é permitido.

Não é fácil entender o que o pai de um dos cinco agressores chama de "caráter". Segundo Ludovico Ramalho Bruno, pai de Rubens, um dos cinco, não se pode imaginar o filho preso em meio a "criminosos comuns", pois "ele é um menino de caráter e cursa direito".

E Sirlei, seria o que? Uma "vagabunda"?

Se for esse o conceito de Ludovico que o mundo seja tomado e dominado pelas "vagabundas". Valem mais que qualquer estudante de direito com "caráter".

O jornalista Paulo Francis costumava explicar a frieza com que pilotos norte-americanos, na primeira guerra do Iraque, despejavam toneladas e toneladas de bombas sobre Bagdá, sem a menor preocupação com o fato de estarem matando e ferindo milhares de pessoas da seguinte forma: "eles não enxergam nada além de uma tela de vídeo game onde cresceram matando e explodindo inimigos sem uma gota de sangue real".
E acrescentava: "são programados para isso, para matar de forma asséptica".

Ludovico Ramalho Bruno, antes de qualquer consideração disse que "nós, os pais, não temos culpa". Ninguém ao que eu saiba, ou tenha lido, afirmou que os pais eram os culpados. Auto-absolveu-se. Previamente descartou qualquer chance de sentir-se culpado, pelo menos publicamente.

É óbvio, para morar no condomínio que mora não pode sentir-se um mortal comum, igual à imensa e esmagadora maioria de mortais. Deve e sente-se como alguém acima do bem e do mal.

Não vai entender nunca que o filho vá parar numa cadeia em meio ao que chama de "presos comuns", por ter agredido uma trabalhadora e alegue, o filho de Ludovico, como os outros, que "achamos que era uma vagabunda".

Ou seja, "vagabundas" podem ser agredidas, assaltadas, chutadas, tratadas como se não fossem parte do mundo. A expressão "suburbana" apareceu nas declarações do mesmo pai. Ou seja, Sirlei é uma pessoa do subúrbio, não é alguém da Barra da Tijuca.

Mônica Veloso, ex-namorada do senador Renan Calheiros e pivô de uma crise que vai levar o senador à renúncia - não tem alternativa a não ser que o Legislativo perca o pouco que resta de vergonha - quer um milhão de reais para posar nua para a revista Playboy.

Mônica já trabalhou na GLOBO, é uma jornalista competente, mas neste momento escorrega na casca de banana que o modelo coloca diante de pessoas como ela, lindas sob todos os aspectos, e de Sirlei, uma "suburbana" comum, com rosto comum, mas objetos ambas, do ponto de vista dos que controlam os botões, moram em condomínios fechados, não são suburbanos e estão acima da lei, do bem e do mal.

O estigma. Não importa que Sirlei seja séria, trabalhadora, nada disso é relevante. Que por acaso seja pobre, seria a mesma coisa se fosse "suburbana" com dinheiro.

O ser humano tem data de validade para consumo. Depois é lixo. Dependendo dos ingredientes vale mais um pouco, ou vale pouco menos, ou não vale nada. Quem põe o rótulo é Renan Calheiros, ou Ludovico, o pai de um dos agressores de Sirlei. Os muitos "renans" e "ludovicos" espalhados por aí.

O modelo ser/mercadoria.

Se prestarmos atenção, o discurso desse modelo, hoje, mais que tudo, realça o que chamam de perdas. Todos sempre tivemos perdas desde que o mundo é mundo. Só que, neste momento, as perdas normais são deixadas de lado e criadas as perdas que nos transformam em ávidos e desesperados seres humanos sujeitos aos ventos e tempestades sem perceber que nesse furacão vão nos transformando em objetos descartáveis - pouco importa que seja a Mônica Veloso, ou a Sirlei. Perder sempre para buscar ganhar mais, o que nunca se vai ganhar. O prazo de validade acaba antes do prêmio.

É que os caras acham que não se pode misturar os "filhos dos condomínios" aos "criminosos comuns". Que os "filhos dos condomínios" têm caráter.

É uma conseqüência do modelo sociedade de consumo, ser/mercadoria. Mas é também um problema de concepção individual. Pelo menos sem o cinismo, ainda que de um pai, ao dizer que o filho pode espancar uma suburbana, mas não pode ser comparado a um traficante.

O tráfico só existe porque cá embaixo, nos condomínios fechados, os jovens assaltam uma "suburbana vagabunda" para pegarem dinheiro e comprarem drogas. Afinal, o que é uma "suburbana vagabunda" diante de cinco jovens de um condomínio fechado?

Cinco justiceiros que cismaram de "limpar" o mundo de "suburbanas vagabundas"? Que levantam às seis, montam em ônibus lotados, se matam de trabalhar o dia inteiro e ao final do dia acham que assim se trabalha e se vive?

Uma dessas pessoas iluminadas disse na segunda-feira sobre o momento do mundo: "o estágio do sem amor".
Não é nem o do desamor. É de fato "o estágio do sem amor".

Para Ludovico os pais não têm culpa, os filhos cometeram um crime, mas não podem ser comparados a criminosos comuns porque são estudantes e têm "caráter".

E Sirlei, como fica? E as "suburbanas vagabundas", como ficam?

O rótulo é uma característica da sociedade de consumo, do ser/mercadoria e é por isso que é rótulo. Como todo rótulo tem data de validade. Pelo menos em tese a lei exige.

Vai daí que faz o quê? Solta os "meninos"? Prende Sirlei ao rótulo? Pespega-lhe o epíteto de "suburbana vagabunda" que ousou invadir a Barra da Tijuca, "subúrbio de notáveis" para trabalhar?
Ludovico é apenas o reflexo da sociedade no "estágio do sem amor".

E é ele que gera essa sensação ser/mercadoria. Toda essa podridão e violência. Mas é parte dela também, pois está à margem do mundo comum e corriqueiro dos desesperados e desesperadas que não moram em condomínios fechados. Na Barra, ou em Brasília. Ou a bordo dos bombardeios texanos sobre os "suburbanos/as vagabundos/as" do resto do mundo, assim como se estivem jogando um joguinho eletrônico.

O sangue ali é verde.

O mundo seria bem melhor se feito só de gente como Sirlei. E se Mônica Veloso entendesse que não enxergam nela senão um objeto de consumo com prazo máximo de validade de um mês. É a distância entre a edição de um e outro número da Playboy.
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