Postagem em destaque

SEJA UM PADRINHO DO TUDO EM CIMA!

Ajude este humilde blogueiro a continuar seu trabalho! Sempre militei e falei sobre cinema e outros assuntos sem ganhar absolutamente nada ...

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

Tragédia em São Paulo: Cada um tem a imprensa que merece...



A edição desta semana da CartaCapital está imperdível, particularmente para quem é Arquiteto ou se interessa pelo tema Urbanização.

Enquanto a VEJA, que se diz "indispensável", coloca na capa um cachorro vestindo salto alto (numa provável referência à imagem que os donos da revista têm de seus leitores), CartaCapital dá mais uma vez aula de Jornalismo, mostrando os fatos que a grande mídia prefere ignorar e analisando profundamente as causas e conseqüências dessa nova tragédia que se abate sobre os paulistanos...

Não deixem de ler e prestigiar!

Seu País
Autofagia à paulista

- por Ana Paula Sousa e Sergio Lirio (http://www.cartacapital.com.br)

A cratera do Metrô é o símbolo do impulso autodestrutivo de São Paulo



São Paulo não pára. São Paulo, a locomotiva do Brasil. São Paulo, terra de oportunidades. São Paulo, a cidade que mais cresce no mundo. O que os slogans da maior aglomeração urbana da América do Sul, amontoado de gente, carro e concreto que um dia se pareceu com uma cidade, traduzem neste início de século? Nada. Essa São Paulo operosa, individualista e antiestatal, convicta de que suas mazelas resultam exclusivamente da “corrupção de Brasília” e da “incompetência da porção Norte do País”, foi confrontada com sua imagem real na sexta-feira 12.

Passava um pouco das 3 da tarde quando um deslizamento de terra nas obras da estação Pinheiros da Linha 4 do Metrô, na zona oeste, abriu uma cratera de 40 metros de diâmetro às margens da Marginal, destruiu casas, tragou veículos e deixou um saldo de sete mortos. As chuvas e o risco de novos desabamentos têm atrasado os trabalhos de resgate. No início da noite da quinta-feira 18, os bombeiros conseguiram descolar a minivan que atrapalhava as escavações. Mais dois corpos foram retirados. Outras duas vítimas continuavam soterradas nos escombros.

Do ponto de vista técnico, só as perícias, que devem demorar no mínimo quatro meses para ser concluídas, poderão apontar com precisão as causas do desastre. Boa parte das especulações feitas no calor dos acontecimentos será, obviamente, descartada. Mas, a despeito dos laudos periciais, focados em apontar os motivos do acidente na estação Pinheiros, sobram indícios de que as obras do Metrô, realizadas ao longo de 13 quilômetros, levaram ao extremo a lógica que moldou a expansão urbana de São Paulo nas últimas décadas: transferência do controle para a iniciativa privada, desmonte do aparato de fiscalização do poder público e falta de transparência. Trata-se, portanto, de uma questão que transcende o socorro aos mortos e familiares e aos moradores que perderam casas e bens.

A licitação da Linha 4, feita sob a égide das Parcerias Público-Privadas (PPPs), foi saudada pelo ex-governador e então candidato à Presidência Geraldo Alckmin como exemplo dos 12 anos de “boa gestão” tucana no estado. Após a tragédia, Alckmin optou pelo silêncio. Deixou o pepino no colo do sucessor, o correligionário José Serra.

“Houve inúmeros sinais de graves falhas na construção, como rachaduras em casas e afundamento dos terrenos. Todos esses indícios foram tratados com desprezo. Em obras subterrâneas devem imperar a segurança e a boa técnica, não os impulsos para gerar lucro. Mas parece que o modelo escolhido privilegia os ganhos”, avalia o engenheiro Álvaro Rodrigues dos Santos, ex-diretor de Planejamento do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT).

Santos refere-se ao tipo de contrato adotado na licitação. Por exigência do Banco Mundial, um dos financiadores do projeto, seguiu-se o modelo turn key, pelo qual se contrata a empreitada em pacote fechado. Neste caso, estabelece-se um valor total e o consórcio vencedor é obrigado a concluir o trabalho dentro da planilha de custos definida na licitação. A vantagem é a impossibilidade de se fazerem aditivos contratuais ao longo da construção, o que evita gastos adicionais, às vezes absurdos, do poder público. Em tese, também ajuda a diminuir a corrupção.

A primeira desvantagem diz respeito à limitação de interferência do poder público. Apesar de os técnicos do Metrô terem acesso a laudos e relatórios das obras, o controle da qualidade é feito pelas próprias construtoras. A segunda tem relação com o equilíbrio financeiro do projeto. Executivos de duas grandes empreiteiras não participantes do consórcio que administra as obras do Metrô apontaram a CartaCapital um efeito colateral. Como é impossível fazer aditivos, as construtoras assumiriam riscos de gastos adicionais não previstos no projeto inicial. A tendência, dizem, é compensar esse risco com a economia nos gastos de material e mão-de-obra. Isso para aumentar ou manter a rentabilidade estabelecida por contrato.

“A própria realidade mostrou o que deveria ter sido feito: a demarcação de uma área maior que o próprio buraco, incluindo desapropriações dos imóveis nessa área mais o eventual desvio da Marginal”, diz o arquiteto e urbanista Raymundo de Paschoal, professor da Faculdade de Belas Artes. “Mas as empresas não deram atenção ao entorno.”

O consórcio da Linha 4 é formado por cinco das maiores construtoras brasileiras: OAS, Andrade Gutierrez, Odebrecht, Queiroz Galvão e Camargo Corrêa. Também integram o grupo duas multinacionais fornecedoras de equipamentos, a francesa Alstom e a alemã Siemens. Engenheiros de uma das empreiteiras, ligados diretamente às obras, afirmaram a CartaCapital que não foi feita nenhuma economia que implicasse riscos. Ao contrário. Segundo eles, por causa da instabilidade do terreno onde fica a estação, o consórcio optou por reforçar as estruturas de sustentação. Uma das medidas foi aplicar arcos de aço sob o concreto, chamadas cambotas, o que não estava previsto no projeto original desenhado pela área técnica do Metrô.

*Confira a íntegra da reportagem na edição impressa

Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...