
Faz tempo que eu venho dizendo isso: mais importante do que fiscalizar o debate eleitoral ou as denúncias de corrupção é analisarmos o comportamento da nossa mídia corporativa quando o assunto é política.
Apesar de se venderem como "imparciais" e "isentos", está mais do que comprovado que a mídia tem sim lado, ideologia e partido - os quais podem variar de acordo com quem está mais alinhado à defesa dos interesses dos donos dos grandes meios de comunicação (no Brasil, não mais do que uma dúzia de famílias).
Se você duvida, então basta ler a matéria abaixo, publicada na revista Brasil número 4 a qual, ao contrário do resto da mídia corporativa que posa sempre de imparcial (com excessão de Carta Capital, que declarou apoio a Lula em 2002 e novamente agora, e o Estado de São Paulo, a Serra em 2002).
O importante desse tipo de análise e suas conclusões é que nos força a repensar certos conceitos, como por exemplo: "será que minha opinião sobre política é minha mesmo ou é uma mera repetição do que eu leio nos jornais ou do que ouço outras pessoas dizendo depois que leram a revista semanal ou viram o Jornal Nacional?".
Destaco um dos parágrafos do texto abaixo: "Para o diretor financeiro do Observatório, Kjeld Jacobsen, uma das finalidades do instituto é proporcionar ao pesquisador uma possibilidade de leitura mais qualificada das publicações. “A imprensa é tida como o quarto poder, mas a sociedade dispõe de pouquíssimos meios de verificar como esse poder é exercido”, explica. “A liberdade de imprensa é fundamental para a democracia, e a transparência também. Não vejo problema em uma revista ou jornal ter preferência por algum candidato, partido ou projeto. Problema é esconder isso dos leitores.”
Pois bem. Agora leia e tire suas próprias conclusões...
CAPA
A mídia tem lado, sim
Observatório de mídia mostra, em números, que o tratamento dispensado pela chamada ‘grande’ imprensa aos candidatos a presidente pode desequilibrar o noticiário eleitoral
- por Paulo Donizetti
O mês de março deste ano foi o ápice daquilo que os veículos de comunicação transformaram em novela, com todos os temperos dramáticos: a escolha do candidato do PSDB para disputar contra Lula a eleição para presidente da República. No dia 14 daquele mês, o partido anunciou a opção pelo ex-governador Geraldo Alckmin em detrimento do então prefeito paulistano, José Serra. A busca por uma alternativa para enfrentar o favoritismo do candidato do PT foi tratada como se o país todo tivesse alguma dose de ansiedade pela definição tucana. No auge do drama, a segunda quinzena de março foi um festival de Alckmin por todos os lados, na tentativa da mídia de tirá-lo do anonimato – embora fosse “o nome que os empresários preferiam desde sempre”, como assinalou a Folha de S.Paulo em sua chamada de capa.Para se ter uma idéia, somente Lula (o presidente, não o candidato) apareceu mais vezes que Alckmin no noticiário do Estado de S. Paulo naquele período. Ainda assim, apenas 13% das aparições de Lula tinham alguma conotação positiva, enquanto 42% eram negativas. Já as citações ao tucano tinham aspecto praticamente oposto: 10% eram negativas e 41%, positivas.
Esse é um dos tipos de aferição feitos pelo Doxa, nome do Laboratório de Pesquisa em Comunicação Política e Opinião Pública, criado em 1996, no Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro (Iuperj), da Universidade Cândido Mendes. O Doxa – www.doxa.iuperj.br – tem acervo de propaganda e jornalismo políticos e pesquisas de opinião, programas eleitorais desde 1988, telejornais, aparições de candidatos e documentários. Permite, mais que investigar históricos de políticos e partidos, analisar o comportamento da mídia.
Agora, no final de agosto, o Brasil ganhou mais um centro de pesquisa empenhado em destrinchar de que forma os principais acontecimentos do país são tratados pelos grandes meios de comunicação. O Observatório Brasileiro de Mídia, criado no Fórum Social Mundial e associado ao Media Watch Global, acompanha o noticiário dos jornais Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil, O Globo e Correio Braziliense, além das revistas semanais Veja, Época, IstoÉ e Carta Capital. E investiga os tratamentos dispensados a quatro candidatos à Presidência da República – Lula, Alckmin, Heloísa Helena e Cristovam Buarque. Relatórios são divulgados semanalmente no www.observatoriodemidia.org.br.
O Observatório elaborou um relatório parcial que mediu como esses candidatos foram tratados pelos textos dos jornais citados no período de 6 de julho a 25 de agosto (veja gráficos). Segundo o estudo, o candidato Lula recebe tratamento positivo em 31,2% das oportunidades em que aparece nesses jornais, enquanto 47,41% das matérias têm abordagem negativa. Já o presidente Lula é citado de maneira negativa em 48,39% dos casos, ante 31,23% das menções positivas. Quando o personagem é Geraldo Alckmin, as curvas se invertem: as citações positivas são 44,56% e as negativas, 31,42%.
Na média de quatro edições analisadas das revistas – da última semana de julho até meados de agosto –, o presidente Lula aparece de forma negativa em 60% dos textos e positiva em 20%. Alckmin tem 54,55% dos tratamentos positivos e 18,18% negativos.
De acordo com o sociólogo Alexandre Nascimento, um dos coordenadores do Observatório, as diferenças de tratamento não parecem tão grandes quando vistas em termos relativos (percentuais), mas quando se verificam os números absolutos – que é concretamente a quantidade de vezes que o assunto aparece – são gritantes. O personagem Lula presidente é mencionado negativamente pelos jornais 330 vezes de um total de 682; enquanto seu principal adversário, Alckmin, recebe 153 abordagens negativas de um total de 487 aparições. “A maior quantidade absoluta agrava o peso das menções negativas e evidencia o desequilíbrio da cobertura”, avalia Nascimento.
Para o diretor financeiro do Observatório, Kjeld Jacobsen, uma das finalidades do instituto é proporcionar ao pesquisador uma possibilidade de leitura mais qualificada das publicações. “A imprensa é tida como o quarto poder, mas a sociedade dispõe de pouquíssimos meios de verificar como esse poder é exercido”, explica. “A liberdade de imprensa é fundamental para a democracia, e a transparência também. Não vejo problema em uma revista ou jornal ter preferência por algum candidato, partido ou projeto. Problema é esconder isso dos leitores.”
Jacobsen diz que o papel do Observatório Brasileiro de Mídia não se restringirá ao noticiário político. “No momento, é o tema mais relevante. Mas tudo que disser respeito ao mundo do trabalho, direitos humanos, educação, movimentos sociais e outros temas de interesse direto do cidadão será objeto de análise”, afirma. “É proporcionar aos leitores meios de verificar se o seu direito à informação é respeitado.”

Voltando ao caso do dossiê, repito a pergunta: a quem interessa esse escândalo? Vê-se que a grita principal da oposição e mídia é pela imagem do dinheiro apreendido. Querem imagens. A armação seria perfeita. Isso é coisa de Antero Paes de Barro, de ACM, de José Serra. Quem fez a denúncia anônima? Ora, é claro. Quem fez a denúncia anônima à PF foi o mesmo que deu o dinheiro. O objetivo não era comprar um dossiê contra Serra. A meta era produzir um escândalo. A meta é eleitoral: blindar Serra e prejudicar Lula. Estou sendo paranóico? Ora, tenho a direito a sê-lo, não acham? Estou sempre pronto a rever minhas teses, claro. Quando não temos informações confiáveis, trabalhos com conjecturas, com hipóteses. Os romances policiais me ensinaram a trabalhar com suspeitas e motivos para um crime. Não foi à tôa que passei a adolescência lendo Agatha Cristhie e Conan Doyle. Os crimes perfeitos sempre ocultam seus verdadeiros autores, os quais descobrimos ser uma pessoa inesperada, alguém insuspeito. Entretanto, por mais insuspeito que seja o criminoso, um fator sempre o denuncia: o motivo. Quem é mais beneficiado pelo crime? Pois bem. O uso político e eleitoral que estão fazendo deste escândalo, desbaratado por uma PF independente e reformada, já está claro.
Caro leitor, não pretendo me aprofundar nas questões analisadas nem mesmo fazer julgamentos desse ou daquele personagem. Quero apenas evidenciar fatos que confirmam o quanto a nossa imprensa corporativa tem rabo preso com tudo, menos com os seus leitores. Se não, vejamos...
No final de semana iniciado na sexta-feira, 15 de setembro, as tintas surrealistas dessa guerra de nervos chegaram à raias do absurdo. Mais um membro da família Vedoin foi preso. E disparou: "Quando Serra era Ministro, foi o melhor período para nós". Tirando as revistas IstoÉ (que trouxe na capa as denúncias contra o atual candidato ao governo de São Paulo) e Carta Capital, nenhum outro órgão de imprensa tupiniquim deu qualquer destaque à notícia bombástica. Pelo contrário. Analisem e tirem suas próprias conclusões:
2) Estadão e Folha de São Paulo trouxeram, no domingo, manchetonas idênticas na capa: "Petista comprou dossiê contra Serra". Vejam só, que engraçado. A notícia não é Serra ter sido acusado pelos principais envolvidos no escândalo, mas sim o fato de um suposto petista (ninguém sabe quem é) ter comprado um dossiê contra o Serra! E quem faz tal acusação contra o tal petista é o advogado de um dos acusados...
A verdade é que o comportamento da mídia corporativa do Brasil é mesmo surreal. Onde mais um ex-guerrilheiro vira xodó da revista VEJA, de longe a mais reacionária e anti-democrática? Onde mais uma denúncia feita contra um candidato da direita é transformada numa denuncia contra um suposto comprador de dossiês? Onde mais acusadores confiáveis (quando atacam algum partido de esquerda), viram safados interesseiros (quando fazem as mesmas denúncias contra alguém da direita)?
Entendo perfeitamente a posição do jornalista Mino Carta em relação ao PT, publicada em seu
Felizmente, os petistas estão aprendendo com seus erros e tentando realinhar o partido em busca dos ideais que tanto nos emocionam. Uma postura muito mais digna e corajosa do que a daqueles que se debandaram para outras agremiações na hora que o caldo entornou. É nos momentos de dificuldades e de desafios que os covardes aparecem, fugindo da raia e se escondendo sob novas máscaras... Posar de vestal é sempre mais confortável do que meter a mão na lama, não é mesmo senhores Plínio de Arruda Sampaio, Heloísa Helena e afins?


Ainda falta um mês para as eleições, mas parece que tudo leva à reeleição de Lula e a uma derrota espetacular da aliança conservadora PSDB-PFL. Todavia, a canalhice da nossa mídia corporativa parece não ter limites.
1) A mídia jogou pesado, tirou a máscara da imparcialidade e isenção pra valer e, mesmo assim, não conseguiu nada. Pelo contrário. Lula se fortaleceu e a credibilidade deles foi esgoto abaixo. De agora em diante, ou mudam e se reciclam ou vão entrar em séria crise financeira.
4) O mesmo acima valendo também para artistas e intelectuais, que num momento como o que vivemos, foram obrigados a descer do muro e assumirem suas posições políticas. A história será cruel com aqueles que, a exemplo de Tom Cavalcanti, Lima Duarte, Carlos Vereza, Regina Duarte e Cristiane Torloni, aproveitaram a crise para demonstrar suas vocações elitistas, preconceituosas e reacionárias... Já os que demonstraram coragem de defender, mesmo sofrendo constante retaliação da mídia, as conquistas atingidas pela governo do PT terão nosso eterno carinho.
5) Políticos que, até agora, eram eleitos a partir da defesa enganosa dos direitos do povão e de uma plataforma "à esquerda" também foram desmascarados ao se aliarem ao que existe de mais reacionário na política brasileira para tentar derrubar o presidente Lula. Pessoas como Fernando Gabeira, Heloísa Helena, Roberto Freire, Luciana Genro, Cristovam Buarque e tantos outros certamente vão ter muitos problemas para voltarem a ocupar um cargo público depois de terem aparecido de braços dados com coisas comoACMs, Bornhausens e Virgílios da vida. "Os fins justificam os meios", provavelmente vão dizer. Mas aí, as pessoas vão pensar: "Ué, se é assim então prefiro ter o PT lá fazendo acordos e pagando 'mensalão' para tentar melhorar a vida das pessoas mais pobres do que ver esses caras aí fazendo o mesmo tipo de sujeira, mas só para enriquecerem às nossas custas".
Mas não podemos esquecer nunca que a direita ainda tem muita força (e grana) para reagir e certamente vão tentar de tudo para voltar ao poder do jeito que der, seja no voto (enganando a população novamente com falsas promessas e discurso demagógico) ou pela força mesmo, como já fizeram antes várias vezes.