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segunda-feira, 3 de julho de 2006

De olho na mídia: Para que serve um Ombudsman, afinal?

Ou... “Você finge que nos critica e a gente finge que é plural”

A Folha de SP teve e tem participação decisiva na campanha anti-PT e jogou às favas as recomendações contidas em seu próprio Manual de Redação. Mas, o que esperar de uma imprensa que não respeita os conceitos básicos do jornalismo, como ouvir o outro lado e não publicar denúncias sem prova?

- Por André Lux

Antes de qualquer coisa, vou deixar bem claro: 1) sim, sou de esquerda por ideologia e petista por opção (embora não ache o PT o “Partido dos Santos”, muito menos a oitava maravilha do mundo) e 2) não acredito em imparcialidade jornalística, pois o ser humano é parcial por natureza (como tentei deixar claro em meu artigo “O mito da imparcialidade de imprensa”). Dito isso, fico à vontade para deixar registrada a minha opinião sobre o trabalho da mídia e, mais propriamente, do Ombudsman, baseado em minhas próprias experiências, como os e-mails que troquei com o referido profissional, e em relatos que li.

O termo Ombudsman, de acordo com o jornal Folha de São Paulo, “é uma palavra sueca que significa representante do cidadão. Designa, nos países escandinavos, o ouvidor-geral - função pública criada para canalizar problemas e reclamações da população. Na imprensa, o termo é utilizado para designar o representante dos leitores dentro de um jornal. A função de ombudsman de imprensa foi criada nos Estados Unidos nos anos 60. Chegou ao Brasil num domingo, dia 24 de setembro de 89, quando a Folha, numa decisão inédita na história do jornalismo latino-americano, passou a publicar semanalmente a coluna de seu ombudsman”.

Lembro bem quando o cargo foi criado na Folha. Eu ainda cursava a faculdade de Jornalismo e todos celebraram a iniciativa inédita do jornal. Parecia uma atitude louvável, afinal, dava a entender que era um veículo plural, disposto a receber críticas de um profissional da imprensa isento, pago pelo próprio veículo para exercer essa função, com total liberdade e sem censura. Ingenuidade típica dos estudantes, sempre distantes anos-luz da realidade do mercado.

Enquanto a direita se manteve no poder, nada que abalasse essa crença aconteceu. Todos que passaram pelo cargo de Ombudsman exerceram sua função com esmero e certo grau de acidez, ajudando a reforçar o faz-de-conta do jornalismo-mercadoria travestido de imparcial. Todavia, desde que Lula chegou à Presidência da República e o PT deixou de ser um mero partido de oposição, virando uma ameaça real ao status quo da “elite branca” (como bem disse o governador Cláudio Lembo, do PFL), a imprensa corporativa tupiniquim deixou de lado qualquer preocupação com a ética ou com a suposta defesa da imparcialidade para se transformar, a exemplo do que fez no golpe militar de 1964, no “braço midiático” da direita, ávida para retomar o poder e impedir a distribuição de renda ou qualquer avanço no sentido de diminuir o imenso abismo que separa as classes sociais no país.

É verdade que o PT deu bobeira e usou ingenuamente de práticas comuns aos partidos de direita (como o caixa dois), dando munição de graça ao inimigo, mas o vale-tudo contra o partido chegou às raias do absurdo. A partir da constatação que o governo Lula estava longe de ser o desastre que sonhavam e que o presidente tinha chances reais de ser reeleito, a imprensa corporativa e seus chamados “formadores de opinião” atacaram o partido e seus integrantes como fúria selvagem e sem igual na história recente do país. Denúncias sem prova, proferidas por personagens sem qualquer credibilidade, passaram a ser tratadas como “verdades absolutas” em manchetes de primeira página. Entrevistas com figuras do Governo ou do partido foram deturpadas, com frases tiradas do contexto e inseridas no meio dos textos para dar sentido inverso ao que o entrevistado almejava. Títulos e legendas contendo afirmações incongruentes e, por vezes, conflitantes com o que se lia no corpo da matéria eram práticas corriqueiras. Editoriais violentos e repletos de preconceitos exigiam o linchamento público de acusados. Tudo isso e muito mais deu o tom da campanha anti-PT, iniciada a partir das denúncias de Roberto Jefferson e repetidas até hoje, sem trégua.

A manipulação, a distorção e a panfletagem tornaram-se evidentes à medida que denúncias contra membros do PT aumentavam em progressão geométrica, enquanto as que atingiam os partidos de direita eram camufladas, abafadas ou simplesmente ignoradas. O caso da lista de Furnas, que envolve em sua maioria parlamentares do PSDB e do PFL (ninguém do PT), foi confirmada pelo mesmo Roberto Jefferson e recentemente autenticada pela Polícia Federal, sendo o mais evidente e grotesco exemplo da “cegueira” seletiva da mídia.

O jornal Folha de São Paulo, ao lado dos outros veículos da imprensa corporativa (que visam o lucro acima de tudo e de todos), teve e tem participação decisiva na campanha anti-PT e jogou às favas as recomendações contidas em seu próprio Manual de Redação. Mas, o que esperar de uma imprensa que não respeita nem mesmo os conceitos mais básicos do jornalismo, como ouvir o outro lado e não publicar como verdade factual denúncias sem prova?

A lista de exemplos dessa má fé panfletária e canalha é imensa, mas fiquemos com apenas um, que mostra bem no que se transformou nosso “jornalismo”: já no início da crise a Folha criou o slogan “Escândalo do Mensalão” e passou a usá-lo em toda e qualquer notícia ligada ao PT. Não importava se era mais uma denúncia ou não. Então, passamos a ler no jornal paulista aberrações como: “Escândalo do Mensalão – PT escolhe Mercadante como candidato a governador”. O leitor mais atento certamente deve perguntar, “o que a notícia em questão tem a ver com as denúncias de Roberto Jefferson?”. Absolutamente nada, exceto, é claro, o fato de envolver a sigla que tanto incomoda os donos do jornal em questão! Deputados do PT envolvidos nas denúncias passaram a ser tratados de “mensaleiros”, mesmo que nada tenha sido provado contra eles até agora (mais de um ano depois do início das investigações) e que nenhuma prova tenha sido apresentada para sequer sustentar o tal do “mensalão”. Sem falar da pergunta mais óbvia que a mídia brinca de não fazer para não abalar o slogan por ela criado: por que diabos o PT pagaria propina a membros do próprio partido?

Mas, se é verdade que a mídia faz denúncias contra partidos de direita, é fato também que trata tais denunciados com todo o respeito exigido pela ética jornalística e pelos Manuais de Redação – tratamento esse ignorado quando as denúncias envolvem petistas e afins. Denunciam sim, mas depois nada mais é dito sobre as acusações e fica tudo por isso mesmo. Afinal, o importante não é acabar com a corrupção, mas sim poder sustentar o mito da “imparcialidade” da mídia!

Então surge a pergunta: sobre tudo isso, o que diz o Ombudsman da Folha de São Paulo, profissional supostamente idôneo e imparcial contratado pelo próprio jornal para criticá-lo com total liberdade? Onde estão, em seus textos, as denúncias contra as atitudes antiéticas e incoerentes com seu próprio Manual de Redação? Onde está a indignação contra a prática de divulgar pesquisas duvidosas que nem mesmo apresentam os métodos utilizados para que se chegasse aos resultados apresentados (como a que “apontou” ser Lula o principal responsável, na opinião da população de São Paulo, pela falência do sistema de segurança pública do Estado, há 12 anos sob a tutela do PSDB)?

Em nenhum lugar. Críticas existem (afinal é preciso manter as aparências), mas são sempre superficiais, pontuais e meramente técnicas. Não se observa qualquer análise mais profunda da postura visivelmente panfletária (que se reflete em maior ou menor grau no resto da imprensa corporativa que, no caso da crise política, atua em bloco), muito menos qualquer indício de cobrança para que os donos do jornal passem a declarar em editoriais suas preferências (como fez, por exemplo, a revista CartaCapital) e deixem as notícias em paz.

Por que isso acontece? O Ombudsman não tem total liberdade para falar o que quiser? Por que não coloca então o dedo na ferida e expõe as práticas lamentáveis que têm dado o tom à cobertura política atual? Afinal, o que está em jogo não é meramente o futuro de um partido ou de uma ideologia, mas sim o do próprio jornalismo, antes chamado de “O Quarto Poder” (justamente por ser quem fiscalizaria os outros três poderes), cada vez mais desmoralizado em sem crédito frente à sociedade - o que é algo extremante grave e que coloca em risco a própria sobrevivência da democracia.

A resposta a essas perguntas, é claro, só o próprio Ombudsman poderia dar. Mas eu arrisco um palpite humilde, que pode ser resumido à seguinte frase: “Você finge que nos critica e a gente finge que é plural”.

A Folha de São Paulo, como toda empresa que visa o lucro acima de tudo, precisa de slogans publicitários e campanhas fortes que vendam uma imagem ao seu público alvo. A do jornal em questão é “De Rabo Preso com o Leitor”. Obviamente, para que essa publicidade convença os consumidores é preciso mais do que simples outdoors e propagandas na TV, ainda mais para uma empresa que segue à risca a cartilha neoliberal que prega o consumo e o culto à imagem acima de tudo. Daí entra o papel do Ombudsman, que visa única e exclusivamente reforçar essa idéia de pluralidade e imparcialidade que o jornal quer vendar aos incautos. E o que pode ser melhor para cimentar essa ilusão do que ter uma pessoa “livre” e “isenta” paga pelo próprio jornal para criticá-lo sem censura?

Já troquei correspondências com o atual Ombudsman da Folha e tenho certeza que é uma pessoa convicta da sua honestidade e liberdade. É bom que fique claro, não estou afirmando que se trata de um embusteiro ou de alguém com má fé, da mesma laia dos Mainardis da vida. Pelo contrário. Trata-se de um profissional sério, que demonstra indignação sincera ao ser acusado de não tecer críticas mais contundentes e pertinentes por causa de medo de perder o emprego.

E é exatamente aí que está o “x” da questão: por mais sério e idôneo que se considere, não consegue enxergar que só foi contratado pelo jornal em questão porque não vai questionar ou denunciar algo que, no fundo, endossa. Não para tentar agradar ou conquistar simpatia a fim de garantir seu emprego (como muitos fazem, infelizmente), mas simplesmente porque concorda, ativa ou passivamente, com as posturas ideologias defendidas pelo jornal nas entrelinhas. E para isso não precisa se filiar aos partidos políticos ou carregar bandeiras – e tenho certeza que deve ser ferrenho defensor do apartidarismo em nome dessa suposta isenção. Lembremos que é imprescindível para a Folha vender essa imagem de plural, apartidária e imparcial (típica dos neoliberais) para o seu público alvo (na maioria, profissionais liberais yuppies e intelectuais das classes médias), ao contrário de publicações conservadoras, como o Estadão ou Veja, que preferem adotar o estilo “soco-na-boca”, traduzido em textos escritos por verdadeiros jornalistas-jagunços.

Noam Chomsky já havia alertado sobre esse tipo de postura durante sua participação no programa Roda Vida da TV Cultura, em 1996: “Conheço muitos profissionais da imprensa que acreditam ter total liberdade e que não existe censura nos meios de comunicação. E para eles isso é uma realidade, pois obviamente falam e escrevem exatamente o que seus patrões querem ouvir”. E quem não concorda com essa visão distorcida da realidade vira motivo de gozação, sendo rotulados cinicamente de “paranóicos” que sofrem de mania de perseguição e acreditam em teorias de conspiração.

Nada mais coerente. Afinal, para eles, o PT é mesmo um partido formado em sua totalidade por arruaceiros, trapaceiros e incompetentes que finalmente foram pegos metendo a mão na cumbuca. Logicamente, todos os seus membros, militantes e simpatizantes podem e devem ser execrados publicamente, para o bem do progresso e da liberdade do país! E os barões da mídia, desesperados para manterem seus privilégios e os daqueles que os financiam, sorriem satisfeitos. Se não concorda comigo, reflita sobre a possibilidade de jornalistas comprovadamente sérios, porém donos de opiniões abertamente críticas e posições políticas assumidas, como Marilene Felinto, José Arbex ou Mino Carta, serem convidados para assumir a posição de Ombudsman da Folha de São Paulo...

Enfim, tudo não passa do velho jogo de mentiras e ilusões criado sistematicamente pelos ideólogos e marqueteiros do pensamento único conservador e/ou neoliberal para desviar o foco do fato de que todo e qualquer veículo de comunicação tem sim ideologias, partidos e interesses que serão defendidos com unhas e dentes pelos que comandam as redações, sempre em nome de seus patrões. Alguns desses veículos, a exemplo do que é praticado nos países do dito “primeiro mundo”, já têm coragem de adotar, em editoriais, uma postura mais transparente sobre o que defendem e acreditam – e, assim, ganham credibilidade e respeito dos leitores que querem algo mais do que mentiras e manipulações grosseiras e preferem optar conscientemente por buscar informações em veículos nos quais identificam afinidades ideológicas.

Já os outros (a maioria, infelizmente), continuam a tratar seu público alvo com desdém, desrespeito e soberba. E para isso contam com o trabalho de jornalistas que se vendem à ideologia deles ou então que se consideram mesmo imparciais e isentos, sem se darem conta de que isso simplesmente não existe. Felizmente, essas táticas de guerrilha ideológica estão dando com os burros n’água e, como conseqüência direta, suas tiragens e credibilidade diminuem a cada dia. O fato de Lula se manter à frente na corrida presidencial e o PT continuar liderando a preferência do eleitor partidário, a despeito do massacre diário que ambos vêm sofrendo há um ano, é a maior prova disso.

Todavia, por mais que eu tenha tentado ser coerente ao expor minha humilde opinião, não tenham dúvidas: para os defensores da “imparcialidade” da imprensa (canalhas ou ingênuos), o texto acima não passa de um arremedo mal feito de teorias conspiratórias, fruto da minha paranóia e mania de perseguição. Afinal, como deixei claro no início, sou petista assumido, “parcial” e indigno de qualquer credibilidade. Mereço, portanto, ser execrado e ridicularizado publicamente...

Um comentário:

jose carlos lima disse...

É só tentar dar assistência aos famintos para que o governante, claro, se este for de esquerda (já que os da direitona nem costumam praticar tal tipo de bondade) são chamados de populistas. Antes a palavra que dava medo era ocomunismo. Hoje é o "populismo." Fazem piada com os pobres, criam termos como esmolão. Quando Brizola implantou os CIEPS no Rio de Janeiro esta campanha ocorreu da mesma forma que hoje contra Lula. Naquela época as dondocas esbravejam contra os "piscinões para os pobres", contra os CIESPS transformados em área de lazer ou restaurante prá preto, etc. É só olhar as últimas charges de Angeli na Folha de São Paulo. É de dar nojo este tipo de campanha por parte desta elite cínica e perversa. Deveriam limpar a boca antes de falar asneiras contra Lula. Durante mais de um ano reviraram os bolsos do presidente e não encontraram um só centavo arrecadado às custas de corrupção ou qualquer outro crime. Como não colou chamra Lula de ladrão, agora atacam a sua opção pelos pobres.

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