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terça-feira, 7 de junho de 2005

Artigo: "Festa na Casa Grande"

Reproduzo abaixo, na íntegra, mais um excepcional artigo escrito pelo professor Flávio Aguiar no site Agência Carta Maior.

Festa na Casa Grande

Está tudo pronto: os espumantes já estão na geladeira, os convivas alertados, as comidas em preparo e os olhos já estão umedecidos pela expectativa do botim que se anuncia. Os da Senzala que se preparem. É a anunciada Festa na Casa Grande, para logo depois que a direita reconquistar o Palácio do Planalto e o que interessa, o Ministério da Fazenda, pois afinal, “o que o Brasil precisa mesmo é de um gerente”. Traduzindo: o Brasil, na sua melhor tradição, precisa de um feitor, que volte a por os capitães de mato na rua, e assegure que dinheiros vitais para privatização na ciranda financeira não sejam “desviados” para finalidades sociais ou de investimento.

O roteiro vem sendo traçado dia após dia e semana após semana na imprensa escrita. É mais ou menos assim:

1) O PT é um partido ingovernável e ingovernante, pois padece de esquizofrenia congênita. Faz bem o que herdou do governo anterior, à direita, isto é, gere a política econômica em favor do capital rentista. Mas as ameaças “populistas” de fazer avançar políticas sociais e de redistribuição indireta de renda através da ação pública, que vem de seu legado esquerdista, precisam ser neutralizadas, porque estão fazendo os da Senzala erguerem demais os pensamentos.

2) Como isso não pode ser dito assim, ajeita-se a retórica para os discursos. Primeiro, o PT tem uma concepção superada de Estado. O PT “incha” o Estado, cobra impostos excessivamente. Ainda na retórica da esquizofrenia, o PT no poder desarticula o Estado, porque sequer consegue administrar com eficácia as licitações informais de cargos, prebendas e sinecuras em troca de favores, agindo como açougueiros onde outros, mais treinados, agem como cirurgiões. O PT é ineficiente em tudo.

3) Para a Casa Grande conquistar os votos do Condomínio da Classe Média, é necessário um bom discurso sobre corrupção. Como não deu ainda nem provavelmente dará para atingir diretamente a figura do Presidente, tomam-se exemplos nas bordas, como o caso no Correio, e mancha-se o Primeiro Magistrado pela pecha da inação, ou pela proteção a falsos amigos, como este Roberto Jefferson declarado amigo do peito num dia e autor de graves denúncias uma semana depois sobre mesadas pagas pelo tesoureiro do PT a deputados de outros partidos. Ou seja, não se conseguindo taxar o Presidente de corrupto, taxa-se de ridículo, inepto, inapto, frouxo, etc.

4) Nada do que o PT e seu governo fazem dá certo. Se a economia cresceu, é necessário dizer e gravar nas memórias que ela já vai “desacelerando”. Se o governo marca indeléveis gols para o Brasil na política externa, é conveniente apontar que isso, esse “protagonismo”, fragiliza a América do Sul (que, aliás, está em polvorosa em toda a parte), e que esse governo está portanto comprometendo relações tradicionais em troca de nada. Se a Polícia Federal está investigando e prendendo corruptos como nunca, trata-se logo de grudar a pecha de que informar tal coisa à população é querer “politizar” a ação policial ou coisa que o valha, e por aí se vai.

5) Tudo o que a ditadura deixou de herança no Congresso (como a compra e venda de favores) e tudo o que o neo-liberalismo empurrou garganta abaixo e acima do povo brasileiro, é agora culpa do PT. O PT é o culpado pela Câmara Federal ter o presidente que tem, e não o PSDB e o PFL, que votaram nele. O PT passa a ser o responsável pela pobreza histórica de nossas políticas sociais, pobreza essa que ele mesmo está revertendo, mas isso não se reconhece nunca. Ao contrário, neoliberais de ontem agora se convertem a uma cartilha social que nunca viram nem mais gorda nem mais magra e vituperam o PT no governo por uma suposta aplicação de tudo o que eles, neo-liberais, sempre fizeram. Só falta agora o retoque artístico de fazer parecer que foi o PT que inventou ou sempre favoreceu a corrupção no aparelho de estado brasileiro graças à sua concepção “estatista”, e isso está a caminho.

Como eu disse, está tudo pronto para a comemoração, seja agora, ainda que isto seja improvável, seja em 2006, ao término da eleição. E o roteiro está armado. Só falta combinar com o personagem principal, isto é, o próprio Presidente. Se ele enveredar pela abulia, ou pelas respostas no varejo, pondo uma frase aqui, abafando uma repercussão acolá, defendendo um “amigo” como o Sr. Jefferson hoje, aplacando um Severino amanhã, ou seja, se ficar na defensiva, o roteiro vai dar certo.

A única saída é a ofensiva. Mas para tomar a ofensiva, o Presidente precisa ser técnico, zagueiro, líbero, armador, ponta (esquerdo) e centro-avante goleador. Precisa primeiro deixar claro que quem manda no time é ele. E que ele não é um emissário do Ministério da Fazenda ou da presidência do Banco Central ou de outra entidade súcuba ou íncuba. Alguém que se amua quando os da esquerda lhe fazem críticas, sejam elas justas ou injustas, mas que deixa campear solto o verbo dos fazendários quando estes se põem a desautorizar outros ministros, como no recente caso da proposta (significativa) feita pelo Ministério da Educação de que os estados convertam parte da dívida com a União em investimento na área. O Presidente precisa assumir diretamente a decisão de ampliar o Conselho Monetário Nacional, mesmo que seja para temporariamente manter a mesmíssima política econômica: o Presidente precisa se convencer de que ele tem poder para isso, e deve usá-lo. No mínimo deveria prometer isto para na possibilidade de um segundo mandato. O Presidente, cuja opinião é favorável a essa abertura, foi contestado pelo Ministro do Planejamento. E nada disse nem fez.

O Presidente precisa assumir a liderança na luta contra a corrupção, o que fará desta CPI dos Correios, da do “Mensalão”, ou e outras que venham a se criar um acontecimento potencialmente benéfico. Irão as oposições investigar de fato as bases de seu próprio modo de governar quando eram governo? Vão expor o próprio rabo pontudo e os próprios pés de cabra? É claro que não. Vai pesar sobre um deputado com a notável credibilidade de um Roberto Jefferson o ônus da prova. O deputado Roberto Jeferson parece estar numa operação de auto-salvamento. Parceiro de Collor, de FHC, Roberto Jeferson viu soar o dobre de finados sobre sua posição no Congresso com as denúncias sobre o papel de membros do PTB nos Correios. Tenta agora prestar serviços a uma possível retomada do poder pelas oposições. Podem crer: se elas o retomarem, será recompensado.

Se nada ficar provado sobre participação ou inação do próprio Presidente, ele terá pavimentada a rota da sua reeleição, ainda que prevaleça a hipótese de se comprovar o dolo do tesoureiro do partido. Sim, isto se ele, o Presidente, tomar a iniciativa da investigação. Em outras frentes, o Presidente precisa dar a ordem de que cesse o desmatamento irregular na Amazônia e em todo o Brasil. Que ponha o Exército a cuidar disso. O Presidente precisa lançar uma campanha mundial para salvar a população do Haiti, e não se limitar ao envio de tropas para lá. E assim por diante em muita outra coisa.

Se isso acontecer, aquele roteiro não dará certo, e os espumantes chocarão nas geladeiras. Não haverá festa na Casa Grande. Nem na Senzala, pois o povo estará na rua, enfim liberto desses grilhões imaginários que querem lhe vender, de que “tudo é farinha do mesmo saco”, etc.

Ficou famosa a assertiva do Leopardo, o nobre de Salina, de Lampedusa e de Visconti, de que algo tem de mudar para que tudo permaneça como está. Pode ser. Mas em todo caso, também é certo que para que tudo mude, algo deve começar a mudar. Para que tudo não seja farinha do mesmo saco, é preciso que alguma farinha não venha de fato do mesmo saco, nem nele simplesmente se acomode. Presidente: seja Presidente. Como dizia Fernando Pessoa, “é a hora”.

Flávio Aguiar é professor de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo (USP) e editor da TV Carta Maior.

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